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Sofia: A Música da Vida

Sofia: A Música da Vida

Autor:: Gia Hunter
Gênero: Moderno
O cheiro de desinfetante e a fraqueza do meu corpo eram o prelúdio. Do lado de fora do quarto, ouvi a voz cruel da minha cunhada Joana e do meu sogro, declarando minha morte iminente e zombando de mim. "Finalmente essa mulher vai morrer", disseram, cuspindo veneno. Minha respiração parou quando mencionaram Sofia, minha filha. Joana riu, descrevendo como orquestraram a queda de Sofia, roubando sua vaga no Conservatório para sua própria filha, Laura. O choque gelou meu sangue: Sofia, minha doce e talentosa filha, humilhada ao ponto do suicídio. A dor não era da doença, mas de uma traição tão profunda que rasgou minha alma. As vozes continuaram, descrevendo os detalhes sórdidos do plano deles. Meu coração, já exaurido, se partia ao ouvir cada palavra. A injustiça era esmagadora, a raiva fervia e o desespero me consumia. Eu, que lutei por ela até meus dedos sangrarem, via tudo desmoronar. Minha última respiração foi um grito silencioso de ódio, uma promessa fria de vingança. De repente, abri os olhos para um apartamento familiar, com o cheiro de café e tecido barato. Estava viva, de volta, com uma segunda chance. Sofia, com seu violino e sorriso vibrante, me chamou: "Mamãe, você está bem?" Mal sabia ela que eu estava de volta para reescrever nosso destino.

Introdução

O cheiro de desinfetante e a fraqueza do meu corpo eram o prelúdio. Do lado de fora do quarto, ouvi a voz cruel da minha cunhada Joana e do meu sogro, declarando minha morte iminente e zombando de mim. "Finalmente essa mulher vai morrer", disseram, cuspindo veneno.

Minha respiração parou quando mencionaram Sofia, minha filha. Joana riu, descrevendo como orquestraram a queda de Sofia, roubando sua vaga no Conservatório para sua própria filha, Laura. O choque gelou meu sangue: Sofia, minha doce e talentosa filha, humilhada ao ponto do suicídio.

A dor não era da doença, mas de uma traição tão profunda que rasgou minha alma. As vozes continuaram, descrevendo os detalhes sórdidos do plano deles. Meu coração, já exaurido, se partia ao ouvir cada palavra. A injustiça era esmagadora, a raiva fervia e o desespero me consumia. Eu, que lutei por ela até meus dedos sangrarem, via tudo desmoronar.

Minha última respiração foi um grito silencioso de ódio, uma promessa fria de vingança.

De repente, abri os olhos para um apartamento familiar, com o cheiro de café e tecido barato. Estava viva, de volta, com uma segunda chance. Sofia, com seu violino e sorriso vibrante, me chamou: "Mamãe, você está bem?" Mal sabia ela que eu estava de volta para reescrever nosso destino.

Capítulo 1

O cheiro de desinfetante do hospital era a última coisa que eu sentia. Meu corpo estava frio, e cada respiração era um esforço imenso. Do lado de fora do quarto, ouvi a voz de Joana, a irmã do meu falecido marido.

"Finalmente essa mulher vai morrer. Foi só o Ricardo morrer que ela ficou assim, fraca. Não aguentou a pressão."

A voz do meu sogro, um homem que um dia chamei de pai, respondeu, cheia de desprezo.

"Ela nunca foi forte. Sempre foi uma costureira de quinta categoria, se achando grande coisa só porque o pai dela era um maestro. Ela e aquela filha inútil, Sofia."

Meu coração parou por um instante. Sofia. Minha Sofia.

Joana riu, um som cruel que arranhou meus ouvidos.

"Pelo menos nos livramos da Sofia primeiro. Foi fácil. Depois que o Ricardo morreu e não deixou um tostão para elas, foi só uma questão de tempo. A menina, com aquele sonho idiota de ser musicista, não aguentou quando a gente garantiu que a minha Laura conseguisse a vaga no Conservatório. Um empurrãozinho aqui, uma conversa ali... e a vaga que era da Sofia virou da Laura. A coitadinha não aguentou a humilhação. Soube que se jogou de uma ponte."

Não.

Não.

Minha filha. Minha talentosa, doce Sofia. O mundo ficou escuro. A dor no meu peito não era da doença, era de uma traição tão profunda que rasgou minha alma. Eu lutei por ela, trabalhei até meus dedos sangrarem para que ela tivesse uma chance, e eles... eles a destruíram por pura inveja. Minha última respiração foi um grito silencioso de ódio e desespero.

Então, abri os olhos.

A luz do sol entrava pela janela do meu pequeno apartamento. O cheiro não era de desinfetante, mas de café fresco e do tecido barato com que eu trabalhava. Eu estava sentada na minha cadeira de costura, a cabeça latejando. Olhei para o calendário na parede. 23 de abril. O dia antes do prazo final para a inscrição no Conservatório Nacional.

Eu estava viva. Eu tinha voltado.

Uma onda de choque e euforia percorreu meu corpo. Eu tinha uma segunda chance. Uma chance de salvar minha filha.

"Mamãe?"

A voz de Sofia, cheia de vida e esperança, veio do seu quarto. Ela apareceu na porta, segurando seu violino com um cuidado quase religioso. Seus olhos brilhavam.

"Você está bem? Parece que viu um fantasma."

Eu me levantei, minhas pernas tremendo, e a abracei com uma força que a assustou. Eu podia sentir o calor do seu corpo, o cheiro do seu cabelo. Ela estava aqui. Ela estava viva. As lágrimas escorriam pelo meu rosto sem que eu pudesse controlá-las.

"Mamãe, o que foi? Está chorando de felicidade? Eu sei, eu também mal posso esperar! Amanhã é o grande dia!"

Eu a afastei um pouco, segurando seus ombros e olhando em seus olhos. A pureza, a inocência... tudo o que eles destruíram.

"Sofia, escute. Nós precisamos ir ao Conservatório. Agora."

"Agora? Mas a inscrição é só amanhã. E o papai disse que ia encontrar a gente lá para entregar os papéis."

Papai. Ricardo. Na minha vida anterior, ele já estava morto há um ano. Nesta vida, ele ainda estava aqui. E ele era parte do problema.

Uma lembrança fria me atingiu. A promessa. A promessa do meu pai, o maestro. Antes de morrer, ele me deu uma carta de recomendação pessoal para o diretor do Conservatório, um velho amigo dele. Ele disse: "Maria, se um dia você ou Sofia precisarem de ajuda, entregue isso ao Maestro Antunes. Ele honrará nossa amizade."

Essa carta era a nossa salvação.

"Sofia, espere aqui."

Corri para o meu quarto, o coração batendo descontrolado. Eu guardava a carta numa pequena caixa de madeira, junto com as joias baratas que herdei da minha mãe. Abri a gaveta, peguei a caixa. Minhas mãos tremiam tanto que mal consegui abrir a tampa.

Quando finalmente consegui, meu sangue gelou.

A caixa estava vazia.

O veludo vermelho onde a carta deveria estar estava nu. A carta não estava lá. Revirei a caixa, a gaveta, a cômoda inteira, jogando tudo no chão num pânico crescente. Mas eu sabia. Eu sabia que não a encontraria.

Ricardo.

Ele esteve aqui na semana passada. Disse que queria ver os documentos da Sofia para "ajudar". Ele era o único, além de mim, que sabia da carta. Ele a roubou. Ele já estava conspirando com sua família contra a própria filha.

Voltei para a sala, pálida como a morte. Sofia me olhou, sua expressão mudando de alegria para preocupação.

"Mamãe, o que aconteceu? Você não encontra alguma coisa?"

Eu não conseguia falar. O desespero ameaçava me engolir de novo.

Sofia sorriu, tentando me acalmar. Um sorriso inocente que partiu meu coração.

"Não se preocupe, mamãe. Se for algum documento, o papai deve ter pego para organizar tudo. Ele me disse no telefone ontem que ia cuidar de cada detalhe para garantir minha vaga. Ele é o melhor pai do mundo, não é?"

Aquelas palavras. A confiança pura da minha filha no homem que a traiu da forma mais cruel. A esperança dela era uma mentira, e eu era a única que sabia. A segunda chance que eu recebi parecia uma piada de mau gosto. O jogo já estava armado, e eu tinha acabado de acordar no meio dele, sem nenhuma peça na mão.

Capítulo 2

Eu não tinha tempo para o desespero. Olhei para o rosto esperançoso de Sofia e uma determinação fria tomou conta de mim. Eu não ia deixar a história se repetir.

"Sofia, pegue seu violino. Nós vamos ao Conservatório agora. Esqueça o que seu pai disse. Nós vamos resolver isso sozinhas."

A confusão em seu rosto era evidente, mas ela confiava em mim. Sem fazer mais perguntas, ela guardou o violino no estojo e me seguiu para fora do nosso pequeno apartamento. Pegamos o ônibus, e a cada parada, minha ansiedade crescia. Eu precisava chegar ao Maestro Antunes. Mesmo sem a carta, ele era amigo do meu pai. Ele tinha que se lembrar de mim, da promessa.

Chegamos ao imponente prédio do Conservatório Nacional. O lugar exalava poder e tradição, com suas colunas de mármore e portas maciças de madeira. Era o sonho de Sofia, e eu podia ver a admiração em seus olhos. Mas para mim, parecia uma fortaleza inimiga.

Fomos direto para a recepção. Um segurança com uma expressão entediada e um uniforme impecável nos barrou antes mesmo de chegarmos ao balcão.

"Pois não? Onde as senhoras pensam que vão?"

Sua voz era fria, e seu olhar nos media de cima a baixo, reparando em nossas roupas simples, na minha aparência cansada.

"Eu preciso falar com o Maestro Antunes. É urgente. Eu sou Maria, filha do Maestro Camargo."

O nome do meu pai costumava abrir portas. Não dessa vez.

O segurança soltou uma risadinha de escárnio.

"O Maestro Antunes? Filha, todo dia aparece alguém aqui dizendo que é parente de alguém importante. Ele não está recebendo ninguém hoje."

"Por favor, é muito importante. Diga a ele que é a filha de Augusto Camargo. Ele vai me receber."

"Eu já disse que não. Ele está em uma reunião muito importante e depois sairá para uma viagem. A agenda dele está fechada."

Uma mentira. Eu senti no fundo da minha alma. Eles estavam me bloqueando. Joana e sua família já tinham se movido.

"Eu não vou sair daqui até falar com ele!" – minha voz saiu mais alta do que eu pretendia.

A pequena confusão atraiu olhares. Pessoas que passavam, alunos e professores com seus ares de superioridade, começaram a nos observar. Ouvi sussurros.

"Olha lá, mais uma tentando forçar a entrada."

"Coitada da menina, que vergonha a mãe está fazendo ela passar."

O rosto de Sofia ficou vermelho. Ela puxou minha manga, sussurrando.

"Mamãe, vamos embora. A gente volta amanhã com o papai."

"Não, Sofia!"

E então, eu as vi. Joana e sua filha, Laura, saindo de um corredor lateral. Joana usava um vestido caro e joias brilhantes. Laura, com um sorriso presunçoso no rosto, carregava um estojo de violino que parecia custar mais do que o nosso aluguel de um ano. Elas estavam acompanhadas pelo meu sogro, que caminhava com a postura de um rei.

Joana parou na nossa frente, um sorriso venenoso nos lábios.

"Maria, querida. Que surpresa desagradável. Veio trazer a... Sofia para um passeio? Que pena que vocês não podem entrar. Este lugar é para pessoas com talento de verdade."

Meu sogro olhou para mim com puro nojo.

"Eu não acredito na sua audácia. Tentar usar o nome do seu falecido pai para conseguir favores? Você não tem vergonha? Ricardo me avisou que você estava ficando desesperada."

A humilhação era pública. As pessoas ao redor agora tinham uma história completa para fofocar. A costureira louca e sua filha tentando dar um golpe no Conservatório. Sofia se encolheu atrás de mim, as lágrimas brotando em seus olhos.

"Isso é uma injustiça! Sofia é mais talentosa que a Laura e vocês sabem disso!" – eu gritei, a raiva me consumindo.

Joana riu alto.

"Talento? Querida, talento não paga as contas. E certamente não compra influência. Enquanto você costurava seus panos de prato, nós estávamos construindo relações. O mundo é assim. Aceite."

Ela se aproximou e sussurrou no meu ouvido, para que só eu ouvisse.

"O Maestro Antunes foi 'promovido' para uma viagem de intercâmbio de última hora. Ele só volta daqui a dois meses. Até lá, a vaga da minha Laura estará mais do que garantida. Fim de jogo, Maria."

Ela então se virou e, como se nada tivesse acontecido, falou alto para o segurança.

"Segurança, por favor, retire essas duas daqui. Estão perturbando a ordem."

O segurança, agora entendendo quem mandava ali, se aproximou com uma nova hostilidade.

"Senhora, por favor, se retire. Ou serei forçado a usar a força."

Ele agarrou meu braço. O toque foi bruto, desnecessário. Eu me senti completamente impotente. Olhei para o rosto choroso de Sofia, para o sorriso vitorioso de Joana, para os olhares de pena e desprezo ao nosso redor. Fomos expulsas para a rua como se fôssemos lixo.

Sentamos num banco de praça em frente ao Conservatório. A cidade parecia barulhenta e cinzenta. Eu não tinha para onde ir, não tinha a quem recorrer. A esperança que senti ao acordar naquela manhã se transformou em pó.

"Mamãe, vamos para casa." – disse Sofia, com a voz embargada.

Eu não respondi. Estava perdida em pensamentos, tentando encontrar uma saída, qualquer saída. O sol estava se pondo, e a noite chegava com a promessa de mais escuridão. Decidi que não voltaríamos para o nosso apartamento. Ricardo poderia aparecer lá. Precisávamos de um lugar seguro para passar a noite, para eu poder pensar.

Encontrei uma pensão barata e suja a alguns quarteirões de distância. O quarto era pequeno, com cheiro de mofo. Sofia adormeceu rapidamente, exausta pela humilhação e pela tristeza. Eu fiquei sentada na beira da cama, olhando para a escuridão, quando ouvi um barulho na porta.

Achei que fosse o gerente da pensão. Abri a porta e dei de cara com dois homens grandes e com cara de poucos amigos. Reconheci um deles, era um dos seguranças do Conservatório, o que não estava de serviço.

"A senhora Joana mandou um recado." – disse o primeiro, com um sorriso maldoso. "Ela disse para você e sua filha sumirem da cidade e esquecerem essa história de Conservatório. E para garantir que você entenda..."

Antes que eu pudesse reagir, ele me empurrou para dentro do quarto com força. Eu caí no chão. Sofia acordou com o barulho, gritando. O segundo homem agarrou minha filha, tapando sua boca. O primeiro veio para cima de mim, seu punho fechado. O ataque foi rápido, brutal e covarde. A dor explodiu no meu rosto e no meu corpo. A última coisa que ouvi antes de perder a consciência foi o grito abafado de Sofia.

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