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Sombras do Passado: Memórias de um ex assassino

Sombras do Passado: Memórias de um ex assassino

Autor:: Giulia de Maria
Gênero: Romance
Depois de anos na prisão, Felipe finalmente respira a liberdade, mas descobre que recomeçar não é tão simples. O preconceito o persegue, os fantasmas do passado não o deixam em paz e um antigo comparsa quer arrastá-lo de volta para o crime. Entre lutas e frustrações, ele encontra em Lara, sua vizinha determinada e de espírito livre, um refúgio inesperado. Mas ela também carrega cicatrizes profundas e um medo que volta a assombrá-la. Entre intrigas, mentiras e uma corrida contra o tempo para impedir um casamento forçado, Felipe e Lara precisarão provar que o amor deles é mais forte que as sombras que tentam separá-los. Mas será que, no fim, o destino permitirá que fiquem juntos?

Capítulo 1 Liberdade

Era manhã de terça-feira e o sol que entrava pela janela quadrada iluminava toda a cela. Felipe estava sentado em um canto, no chão, encarando a parede, imaginando o que faria a seguir, já que sua imagem havia sido manchada no país todo e, mesmo agora, depois de dez anos, ele sabia que não seria fácil reconstruir a vida.

O falatório no corredor aumentou, despertando Felipe de seus pensamentos. Então o carcereiro chegou à sua cela e bateu na grade.

- Bora, riquinho.

Felipe levantou-se apressado e aproximou-se da grade enquanto a fechadura era destravada. Dessa vez, não havia algema, mas, como de costume, ele colocou os braços para trás e posicionou-se ao lado do carcereiro.

Oliveira era um homem baixinho, de meia idade, bem enérgico com os detentos, mas no fundo tinha um coração enorme e era um grande brincalhão, o que o fez tornar-se um amigo.

Conforme andava pelo corredor, os gritos dos outros presos o acompanhavam. Não era como se ele tivesse feito vários amigos, mas havia conquistado o respeito de alguns que agora se despediam de trás das grades. Mas, ainda assim, não eram todos e Felipe pôde ouvir também algumas vaias e insultos.

Quando chegaram ao escritório, mais dois policiais o aguardavam. Um deles tinha em mãos os seus pertences em um saco de plástico, que jogou por sobre a mesa. Felipe pegou o pacote e olhou os itens: sua carteira, seu relógio Rolex e os óculos Ray-Ban, pequenos reflexos de sua antiga vida.

- É só assinar aqui, disse o outro policial com um formulário.

Felipe assinou o seu documento de soltura em silêncio, ouvindo apenas o barulho dos ventiladores da sala. Quando terminou, não houve despedidas, apenas o conduziram até o corredor da saída, onde ele andou acompanhado da sensação de que as paredes estavam se fechando ao seu redor.

Ao chegar ao grande portão, o mesmo se abriu, permitindo que a luz do sol entrasse, incomodando os olhos de Felipe, o que dificultou que ele reconhecesse de cara o homem parado, encostado no capô de um carro preto.

Não havia mais ninguém, nenhum repórter ou algum de seus antigos amigos, o que, de certa forma, foi um alívio. Depois de alguns segundos, sua visão se adaptou e ele pôde reconhecer o irmão, enquanto o mesmo tirava os óculos escuros.

- Você tá péssimo - disse Matheus.

- Ah, obrigado. - Felipe respondeu à provocação.

Os dois se abraçaram e Felipe estranhou a sensação de aconchego e o nó na garganta que se formou em sua garganta.

- Não vai chorar, vai? - Matheus tornou a provocar. - Com fome?

Felipe assentiu e colocou seus óculos escuros, então os dois entraram no carro de Matheus. O silêncio era constrangedor, enquanto ambos pensavam em algo a dizer. Matheus colocou a chave na ignição e ligou o carro.

- Alguma ideia do que vai fazer agora? - Ele perguntou a Felipe.

- Arrumar um emprego, talvez - respondeu ele. - Só viver. Um dia de cada vez, sabe?

- Acho que é melhor mesmo - respondeu Matheus. - O apartamento que eu separei para você é numa área bem urbana, tem bastante comércio. Acho que não vai ser difícil encontrar algo. Não é no centro, mas é uma área boa.

Matheus parou o carro em frente a uma churrascaria e, assim que sentiu o cheiro da carne, Felipe salivou. Foram dez anos comendo aquela comida horrível e sem gosto da prisão e agora, finalmente, teria acesso à comida de verdade.

Os dois entraram no restaurante e um garçom os recepcionou, os levou até uma mesa e entregou-lhes os cardápios, retirando-se em seguida para deixá-los à vontade. Felipe pegou o menu e logo de cara assustou-se com os preços dos pratos à la carte.

- Eu vou pedir um rodízio para mim - disse Matheus. - Quer algo diferente do cardápio ou vai no rodízio também?

- Pode ser. - Felipe respondeu, um pouco atordoado.

- Vai beber o quê? - Matheus perguntou.

- Guaraná.

Felipe não precisou pensar muito para responder, pois desde criança ele amava guaraná e na prisão ele não tinha acesso a isso. Matheus fez o pedido ao garçom e logo depois, com as comandas em mãos, os dois foram até o bufê.

Eram tantas opções que foi difícil decidir o que comer: arroz, macarrão, lasanha, panqueca, tudo parecia estar muito bom. Mas Felipe se conteve e disse a si mesmo que teria todo o tempo do mundo para comer o que quisesse. Pegou arroz, feijão, batata frita e salada e voltou para a mesa com o irmão.

Logo as carnes começaram a chegar e Felipe aceitava qualquer coisa que lhe oferecessem, mas o silêncio na mesa começou a incomodá-lo. Ele olhou para o irmão. Matheus tinha envelhecido bem. No lugar dos traços suaves, agora ele tinha mandíbulas e bochechas bem marcadas e algumas linhas de expressão já apareciam em seu rosto.

- Ainda na cerâmica? - Ele perguntou.

- É - respondeu Matheus. - Montei uma loja online, contratei artesãos. É um negócio pequeno, mas tem potencial. Eu te levaria para trabalhar comigo, mas, se bem me lembro, você jamais moraria no meio do mato.

Felipe riu.

- Confesso que não parece mais uma ideia ruim, mas ainda assim, passei muito tempo trancado. Quero voltar a sentir a correria da cidade.

- Faz sentido. - Matheus respondeu. - Mas muita coisa mudou nos últimos dez anos. Pode ser um pouco difícil de se adaptar.

- Eu vou dar um jeito - disse Felipe. - E o pai e a mãe, como estão?

- Bem - respondeu Matheus. - Eles se mudaram para Curitiba e não falam sobre você. Fizeram o que o pai disse quando você admitiu o que fez: apagaram todas as suas memórias.

Felipe ficou em silêncio por alguns segundos antes de voltar a falar.

- Eu não os culpo - disse. - Eu fiz algo terrível e eu vou entender se você quiser ficar do lado deles. Mas, se puder me passar o endereço, depois que eu estiver instalado, eu pretendo visitá-los.

- Passo sim - respondeu Matheus. - E eu não concordo com eles. Você cometeu um erro, mas se arrependeu, cumpriu pena e tem todo o direito de recomeçar. E do que precisar é só me ligar.

Felipe agradeceu a atitude do irmão. Apesar da relação dos dois sempre ter sido distante, ele se orgulhava de cada conquista de Matheus e tinha medo que o irmão fizesse alguma besteira espelhando-se nele.

Depois que acabaram de comer, Matheus pagou a conta e os dois voltaram para o carro. O trânsito de São Paulo estava ainda mais caótico do que Felipe se lembrava e os motociclistas se enfiavam entre os carros como loucos.

Em meio àquela loucura, finalmente Matheus entrou em uma rua mais calma e, em seguida, na garagem de um prédio, cujo portão ele abriu com um controle remoto.

Matheus o guiou até o saguão e o elevador, enquanto Felipe olhava ao redor, vendo a piscina e o que talvez fosse uma academia. Ao entrarem no elevador, Matheus apertou o botão do quarto andar e eles subiram. Ao ver o interior do apartamento, Felipe ficou perplexo.

Estava tudo desmontado e encaixotado, parecendo mais um depósito do que um apartamento.

- Eu não quis montar - disse Matheus. - Não sabia como você gostava. Só instalei o fogão, a geladeira, a internet e o chuveiro, é claro. O restante das coisas, achei que você ia saber melhor onde colocar.

Felipe tentou esconder o descontentamento. Afinal, o irmão já estava fazendo muito de ceder o apartamento, mas ele podia ter pelo menos pensado que o irmão ia querer descansar.

- Obrigado - agradeceu ele. - É uma pena, eu te ofereceria um café se houvesse um sofá para sentarmos.

- Ah, não se preocupe - respondeu Matheus. - Eu também não posso ficar, tenho muito trabalho ainda.

Ele pegou a carteira do bolso e tirou um papel de dentro, entregando a Felipe.

- É o endereço dos nossos pais e o meu telefone também, caso precise de algo. Não vai se meter em mais problemas, vai?

- Não pretendo. -Felipe respondeu. - Qual é, até parece que você é o mais velho. Eu vou ficar bem. Não vou tentar recuperar o luxo, só vou viver.

- Se cuida, tá?

Mateus abraçou Felipe e se despediu, deixando com ele as chaves do apartamento e uma bagunça enorme para ser arrumada.

Quando Felipe finalmente ficou sozinho, foi direto para o quarto, onde havia visto sua mala. E lá estava ela, intacta, com o cadeado unindo os zíperes, sem nenhum sinal de ter sido aberta nos últimos anos.

Encarando o relógio, pôs-se a pensar se deveria abri-la antes de arrumar o apartamento, afinal, a mala não iria fugir, mas o tempo iria passar e ele tinha que montar os móveis para poder dormir à noite. Então, olhou ao redor, as madeiras da cama e um outro amontoado que parecia um guarda roupas ou uma cômoda.

Felipe voltou para a sala e pegou a caixa de ferramentas que estava no meio do espaço, encarando também o que havia ali. Conseguiu identificar os sofás e a mesa de jantar com facilidade, já que não tinha muito o que desmontar deles. Num canto isolado, uma montanha de plástico bolha escondia o que parecia ser uma televisão e um computador.

Voltando para o quarto, ele separou as ferramentas e começou a montar a cama. Não era uma box, mas a madeira parecia ser de muito boa qualidade, pois era bem pesada. Ele arregaçou as mangas e começou a montar, sem muita dificuldade.

Depois da cama montada, ele sentou-se sobre ela e olhou mais uma vez em direção à mala, sentindo a ansiedade de abri-la e conferir se tudo estava ali. Ele sabia o que ia encontrar, mas era melhor encarar a realidade logo de uma vez.

Num longo suspiro, Felipe puxou do bolso a carteira e tirou dela a chave do cadeado, então puxou a mala para perto da cama e a abriu, encontrando suas antigas roupas de marca, dois pares de sapato e alguns itens como um retrato de sua família reunida no dia da formatura do Matheus.

Deixando o sentimentalismo de lado, ele tirou as roupas da mala, até encontrar a maleta protegida por senha. Ele a puxou para seu colo e tratou de colocar o código para destravá-la, que era simplesmente a data de sua confissão à polícia, algo que ninguém pensaria que era importante para ele.

Ao abri-la, um nó se fez em seu estômago. O dinheiro estava todo ali, os dez mil reais que ele havia separado para refazer sua vida. E, ao lado, sua arma, que ele também havia guardado para poder se defender, uma vez que não sabia como seria sua saída da prisão.

Felipe pegou o revólver e, sentindo seu peso, permitiu que as lembranças daquele dia invadissem sua mente.

Capítulo 2 Lembranças

A empresa estava um caos naquele dia e Felipe estava com a cabeça cheia. Ele, Cléber e Sérgio tinham ficado até mais tarde em reunião, discutindo o que deveriam fazer para aumentar os lucros.

Haviam muitos esquemas fraudulentos, mas nenhum desviava dinheiro dos caixas da empresa, mesmo assim, Cléber insistia que aquele era o problema. Felipe não participava, mas sabia de todo o esquema e apenas fazia vista grossa, pois não queria problema com quem estava envolvido.

Já o Sérgio, além de participar, acreditava que era alguém importante no esquema, o que às vezes fazia Felipe rir, porque Sérgio era um peixinho entre os tubarões, mas defendia os comparsas com tudo de si.

- Você devia se preocupar mais, Felipe - disse ele naquela noite. - Se o esquema vazar, tá todo mundo na merda, inclusive você.

- Tá, mas daí a você achar que o Cléber tá conspirando. - Felipe respondeu. - Você já tá levando isso longe demais. O que ele ganharia com isso?

- Você é cego, Felipe? - Sérgio gritou. - O cara trabalha com segurança de dados. Se ele denunciar o esquema, vai sair como heroi e a nossa empresa vai à falência.

- Eu já te disse, cara. - Felipe insistiu. - Ele tem tanto a perder quanto a gente.

- Você que sabe, Felipe. Eu só acho que você devia dar mais valor ao que construiu. Tantas noites sem dormir, estudando, trabalhando virado. Lembra do seu primeiro carro? De quando comprou sua casa? Você conquistou tudo com muito suor e lágrimas. Esse seu currículo, do qual você se orgulha tanto, vai virar lixo se descobrirem que a empresa vende os dados dos clientes na dark web. Então, se eu fosse você, ficaria esperto.

Sérgio saiu da sala de Felipe batendo a porta atrás de si e o deixando pensativo sobre tudo aquilo. Então ele foi até a cristaleira que tinha na sala e pegou a garrafa de uísque, servindo-se de uma dose generosa.

Sentou-se em sua cadeira e olhou pela janela, lembrando-se de todo o esforço para chegar até ali, onde se sentia vitorioso, o homem com a vida completa que sempre sonhara em ser. Ocupava o cargo máximo de sua área, estava noivo de uma bela jovem, não havia mais nada que pudesse querer.

Então o telefone tocou, fazendo Felipe revirar os olhos, pois era Cléber, pedindo para que ele fosse até sua sala. Ele bebeu o copo de uísque todo de uma vez e levantou-se, saindo em direção à sala do sócio, que ficava do outro lado do andar.

- O que foi dessa vez, Cléber? - Ele perguntou ao chegar lá.

- Queria conversar a sós com você - respondeu o sócio. - Acho que você tem mais cabeça que o Sérgio.

- Não tô afim de ficar no meio do fogo cruzado de vocês. - Felipe respondeu sem ânimo.

- Você sabe que isso não tá certo, Felipe. - Cléber insistiu. - Os usuários confiam em nós.

- Cléber, para com isso. Eles são tubarões e a gente é só atum. Se você continuar com isso, eles te tiram da jogada.

Cléber levantou-se e começou a andar pela sala, inquieto. E Felipe já não sabia mais o que fazer, porque, apesar de serem sócios, dos dez, ele e Cléber eram os únicos que não participavam do esquema de venda de dados. Nunca nem havia chegado a oferecer a ele que participasse. E talvez fosse isso que incomodava tanto o colega.

- Tem certeza de que o que te incomoda é mesmo a venda dos dados? - Cléber parou de andar ao ouvir. - Ou será que você também gostaria de ter uma parte nisso tudo?

- Felipe, eu lutei tanto quanto você pra chegar onde cheguei. E você sabe o quanto a gente evitou o caminho mais fácil, quanta gente vimos crescer mais rápido de maneira desonesta. Eu não consigo mais ficar parado, sem fazer nada. Isso tem que acabar.

- O que você pretende fazer? - Felipe perguntou, receoso.

- Alguma coisa - respondeu ele, olhando para o céu pela janela. - Nem que eu tenha que expor esse maldito esquema.

Felipe estremeceu ao ouvir aquelas palavras saindo da boca de Cléber. Então Sérgio não estava tão maluco e ele tinha razão, pois, se Cléber denunciasse aquele esquema, não sobraria nada e tudo pelo qual ele tinha lutado se perderia.

- Cléber, você não tá pensando direito - disse ele. - Se você denunciar o esquema, a gente perde tudo o que construiu.

- Você acha que eu ligo? - Cléber gritou. - Eu construo de novo! Não me importo! Eu tenho todas as provas necessárias, um e-mail que eu enviar e tudo acaba!

O desespero tomou conta da mente de Felipe. Ele precisava parar o sócio de alguma forma, pois não podia deixá-lo jogar fora todos aqueles anos de esforço. Pela fresta da gaveta entreaberta, ele pôde enxergar o revólver do sócio.

Cléber tinha voltado a andar pela sala e agora tinha o celular nas mãos. Felipe abriu a gaveta da mesa e pegou a arma, erguendo-a na direção do sócio.

- Cléber, eu não posso deixar você fazer isso. - Suas mãos tremiam ao empunhar a arma.

- Vai fazer o quê? - Cléber questionou. - Me matar? Vai em frente, essa vai ser a única forma de me parar mesmo.

Cléber virou as costas para ele e voltou a mexer no celular, andando em direção à saída da sala. Felipe precisava pará-lo, então mirou no ombro do sócio e puxou o gatilho. O som do tiro assustou Cléber, que se moveu para o lado, mudando de lugar o alvo que Felipe tinha mirado.

O tiro atingiu Cléber de forma que seus ombros se arquearam para trás antes que seu corpo caísse para frente. Os olhos de Felipe se arregalaram com a cena e ele podia ouvir seus batimentos cardíacos. Em meio a adrenalina, ele se aproximou do corpo e percebeu que o sócio já não respirava.

Felipe levou as mãos à cabeça, pensando no que fazer. Então, enfiou a arma por dentro da calça e saiu dali para a sua sala, onde, com um pano com álcool, em meio às lágrimas, ele limpou o revólver e guardou-o no cofre escondido em sua sala.

Capítulo 3 Recomeço

Felipe só percebeu que adormecera quando abriu os olhos e se viu deitado na cama com o braço pendurado para fora, ainda segurando sua arma. Ele levantou-se devagar, esfregando os olhos, tentando afastar o incômodo que a luz do sol causava. Definitivamente, precisaria comprar cortinas.

Logo seu estômago roncou, denunciando que ele estava com fome, afinal, sua última refeição tinha sido o almoço do dia anterior. Deixando a arma em cima da cama, ele caminhou até a cozinha e abriu a geladeira, mas a mesma estava vazia.

Desanimado e pensando que o irmão não iria deixá-lo sem comida, ele abriu os armários um por um, até que encontrou alguns pacotes de biscoito, salgadinhos e macarrão instantâneo. Abriu então um biscoito e passou a comer, sentindo falta de um café para acompanhar.

Fato era que ele precisaria ir ao supermercado, pois não poderia viver muito tempo sem comida de verdade, além do mais, ele não tinha encontrado nada mais na casa, nem mesmo papel higiênico e sabonete no banheiro tinha.

Mas antes, Felipe precisava arrumar aquele apartamento, pois não podia começar uma nova vida no meio da bagunça. Então ele voltou para o quarto, encarando novamente o amontoado de madeira que devia ser o guarda roupas, decidido a montar aquilo.

Não foi fácil, pois sempre que ele montava um lado, o outro não tinha apoio e acabava caindo, o que o fez praguejar um pouco, mas, no fim, ele colocou a madeira da lateral no chão e parafusou as prateleiras, a base e o topo, depois, prendeu a outra lateral. Em seguida, com um pouco de dificuldade, porque o móvel era pesado, ele conseguiu colocá-lo em pé.

Então, pregou o fundo e o arrastou para onde deveria ficar. Fixou as portas e colocou as gavetas no lugar, o que, finalmente, completou a montagem. Depois ele montou a cômoda, que foi bem mais fácil, comparada ao guarda roupas.

Em seguida, ele foi para a sala, onde o amontoado de caixas era maior. Felipe as afastou e tratou de montar os sofás, formando um L e deixando o maior na parede da janela. Depois, montou o aparador e colocou em cima a televisão e o modem da internet.

Sentando-se no sofá, ele olhou pela janela por um instante, observando as nuvens e concentrou-se em sua respiração, sentindo o ar entrar e sair de seus pulmões. Então assim era a liberdade, sem grades ou preocupações com os negócios, apenas a existência pura e simples.

Olhando novamente para as caixas, percebeu que os únicos móveis que faltavam montar eram as mesas, já que o restante das caixas eram eletrodomésticos e eletrônicos. Então ele levantou-se e passou a montar a mesa de jantar, depois dispôs as quatro cadeiras em seus lugares e arrastou a escrivaninha para o quarto, onde ele achou que ficaria melhor, com exceção do fato de que o modem estava na sala.

Ele teria que fazer um buraco na parede para passar o fio e ele não tinha uma furadeira ali. Mesmo assim, ele passou o aparelho que estava no aparador para a mesinha que ele havia colocado entre os sofás, assim ficaria encostado na parede do quarto e seria mais fácil para passar o fio.

Depois de colocar tudo no lugar, a fome voltou a aparecer, então, Felipe encheu uma panela com água e pôs para ferver e assim preparou um Miojo e, enquanto comia, planejou como faria para ir ao mercado, já que não tinha um carro trazer as compras de volta. E pensou que o ideal seria pegar um táxi.

Quando acabou de comer, colocou a panela na pia e foi para o quarto para pegar dinheiro para as compras, sem fazer ideia de quanto gastaria, pois já tinha percebido que os preços tinham subido bastante e sua estimativa estaria bem abaixo do que de fato custaria.

- Duzentos será que dá? - Ele se perguntou enquanto abria a maleta.

Felipe deu de ombros e colocou as duas notas de cem na carteira, se caso não fosse o suficiente, ele poderia voltar ao mercado outro dia para comprar mais coisas. Aproveitando que a maleta estava aberta, ele guardou o revólver e a trancou, devolvendo-a em seguida dentro da mala de roupas.

Assim, ele saiu do apartamento e, na portaria, perguntou ao rapaz onde era o mercado mais próximo.

- Sobe a rua e vira à esquerda na avenida - respondeu o porteiro. - Depois de uns três quarteirões você vai chegar ao supermercado.

- Valeu!

Felipe saiu andando apressado por aquela rua que para ele era tão estranha. Era um bairro diferente do que ele era acostumado, mas isso não o incomodava já que ele estava disposto a ter a vida mais simples que conseguisse.

Logo ele chegou ao mercado que, na realidade, era um hipermercado, com suas luzes chamativas e um estacionamento enorme. Entrando, observou o ambiente em volta de si, lotado de pessoas que se irritavam por ele estar andando tão devagar.

Felipe pegou um carrinho e começou a andar pelos corredores, procurando mantimentos básicos. Os preços estavam muito diferentes do que ele se lembrava, mas as pessoas ao redor apenas escolhiam seus produtos e colocavam nos carrinhos.

A maioria com seus celulares nas mãos e Felipe estranhou os aparelhos, os fones de ouvido bluetooth que antes poucos tinham agora estavam nas orelhas de todos. Inclusive das crianças que, para o seu espanto, caminhavam apenas olhando para as telas em suas mãos.

Felipe riu ao encarar a ironia, pois ele mesmo trabalhava em uma grande empresa de tecnologia e agora estava ali chocado com a evolução que ele mesmo previra com seus estudos. Tudo agora era tão digital e ele ficou ansioso para testar tudo aquilo.

Sua compra não foi muito farta, afinal. Apenas arroz, feijão, um pacote de café, cujo preço foi o que mais o assustou, uma cartela de ovos, açúcar, óleo, farinha e leite. Depois, papel higiênico, sabonete e detergente. Acabou pegando também uma caixa de hambúrgueres só para ter alguma carne. E foi para o caixa.

A fila estava bem grande, mas, se havia algo que ele adquirira na prisão era paciência, então apenas debruçou-se no carrinho e esperou chegar sua vez.

- Boa tarde, senhor - disse a operadora do caixa. - Tem cadastro?

- Cadastro? - Ele perguntou, confuso. - Não. Não sabia que precisava.

A atendente sorriu.

- É para ter descontos. Se quiser, faço para você agora, rapidinho. Só preciso do seu documento.

Felipe hesitou antes de entregar o documento a ela, mas não quis parecer estranho e desconfiado demais, então, entregou a ela, que, em silêncio, digitou as informações no computador.

- Prontinho - disse ela, devolvendo-lhe o documento. - Depois é só entrar no aplicativo do mercado para finalizar. CPF na nota?

- Não. - Ele apressou-se em responder.

- Cento e cinquenta e sete e treze - disse a moça, depois de passar as compras.

Felipe tirou os duzentos reais da carteira e entregou a ela, que se pôs a conferir as notas.

- O senhor teria dez centavos? - Ela perguntou.

- Não tenho - respondeu ele. - Nem uma moedinha. Me desculpe.

- Tudo bem - disse ela.

Depois de pegar o troco, Felipe colocou as sacolas no carrinho, agradeceu e saiu dali, procurando por um ponto de táxi e, esperando que houvesse um no estacionamento, então desceu as escadas rolantes.

Não foi difícil achar o ponto de táxi, então Felipe andou até lá e perguntou aos taxistas quanto cobrariam para levá-lo para casa. Eles conversaram entre si e cobraram vinte reais e, como ele não tinha opção, aceitou a viagem, que foi em silêncio do início até o fim.

Ao chegarem, Felipe pagou a corrida e desceu do carro com as compras e entrou no condomínio, onde duas senhoras estavam conversando com o porteiro. Ele as cumprimentou e subiu para o seu apartamento.

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