Cap. 1
Eu procurava ardentemente um motivo para não me entregar aquela paixão. Não conseguia tirar aquele homem da cabeça, desde o minuto em que o vi no aeroporto eu não conseguia esquecê-lo.
Eu já estava separada havia um ano, e ainda não compreendia o motivo daquela separação. Todos dizem que dinheiro resolve a vida das pessoas, mas na minha vida foi diferente. Todo amor e carinho que existia em meu lar foi trocado por brigas e discussões. Acabava de encontrar meu ex-marido para tentar um entendimento, tínhamos marcado de almoçar e conversar. Quão tola eu fui em acreditar que poderia ser pelo menos amiga, eu respeitava os anos que vivemos juntos, mas esse não era o caso dele.
Ao chegar no restaurante encontrei Albert – meu ex-marido conversando com uma loira, e descobri assim que me aproximei, que o assunto dele era a respeito de dinheiro. Lembro-me bem das palavras dele:
- Sarinha meu amor! Estou aqui com fulana – essa parte eu não lembro, pois estava furiosa – estamos pensando em fazer uma festinha para comemorar nosso enlace, e queria muito que você fosse... Ah, e estou entrando num investimento ótimo e gostaria de te convidar a fazer parte. Você poderia entrar com um dinheiro....
Eu não deixei ele nem terminar a frase e com muita elegância, "gritei" entre os dentes: - dinheiro?! Cadê toda grana que você recebeu? Casamento? Você pensa que sou burra ou algo assim?
Nem esperei a resposta, abandonei aquela cena patética – meu ex-marido e a nova namoradinha - não que fosse ciúmes, acho que senti raiva por mim mesma, por ter imaginado reatar um casamento que a muito tempo não existia.
Foram 4 anos de união com um homem e agora não restava nem sequer uma amizade. Como podemos nos enganar tanto com as pessoas. Enquanto não tínhamos muito dinheiro vivíamos tranquilos, lutando para sermos felizes.
Depois que ganhei na loteria as coisas ficaram diferentes, Albert passou a viver como um playboy solteiro, indo a boates e festas todos os dias. Não pensava em investimentos, em trabalho. E chegou ao ponto de sair com outras mulheres.
Um dia eu encontrei manchas de batom no colarinho de sua blusa e resolvi investigar. Esperei uma das noitadas dele e o segui. Albert foi para uma boate. Fiquei parada dentro do carro, aguardando próximo à entrada. Depois de algumas horas eu o vi sair acompanhado de uma mulher loira. Fiquei paralisada, não queria acreditar que era verdade. Consegui com esforço me controlar e segui novamente o carro dele até a porta de um motel. Isso foi o suficiente, não precisei entrar para saber o que estava acontecendo lá dentro. O que eu deveria fazer? Fui embora, foi o fim do meu casamento.
Em casa, aguardei Albert chegar da noitada e o confrontei:
- Onde você estava? Disse tentando manter a voz firme.
- Que isso Sarinha, eu fui jogar pocker com uns amigos. Sabe como é.... ele me respondeu cinicamente.
Tive vontade de voar no pescoço dele, de esbofetear a cara. Mas respirei fundo e contei o que vi. Ele não mentiu mais, apenas falou que era uma aventura. E que a culpa era minha, eu estava trabalhando demais e dando pouca atenção para ele.
Pedi a separação, e ele concordou desde que ficasse com metade de todo nosso dinheiro. Melhor, meu dinheiro. Fui eu quem ganhei. Mas éramos casados, ele tinha direito.
Dei metade de tudo, não precisava de muito. Com minha parte fiz excelentes investimentos e tinha tudo o que eu precisava, amor da minha família e amigos, uma casa ótima, um trabalho edificante, e paz.
Trabalhei muito duro nesse último ano e fiz prosperar o que eu tinha. Já Albert, esse se afundava em festas e mulheres, gastando tudo sem se preocupar com o futuro. Mas a vida dele já não era mais problema meu, e ainda bem que o divórcio saiu rápido.
Após deixar Albert com sua mulher, fui para casa e senti que precisava sair da cidade, do país. Precisava de férias. Apesar de ser uma terça feira após um acalorado fim de carnaval, a cidade ainda estava repleta de turistas de toda parte do Brasil e do exterior. Marchinhas de carnaval tocavam em bares e restaurantes, e ao longo das praias. Decidida a esquecer aquele encontro desastroso e desejando fazer uma pausa na minha vida que não estava muito fácil ultimamente, resolvi pegar a estrada e quem sabe um avião. Pensei em Nova York, no frio.
Preparei uma mala pequena e peguei meu passaporte, estava tudo certo com o visto. Eu tinha planejado viajar no natal, mas compromissos de trabalho me fizeram adiar. Agora era o momento certo, não ia perder tempo.
Dirigi até o aeroporto Tom Jobim, a mais ou menos 2 horas de onde eu estava, e descobri que todos os voos já estavam lotados.
Liguei para Dayana, minha secretária. – Alô, Dayana? Oi, estou planejando umas férias, afinal passei as minhas na escola. Preciso que você remarque todos os meus compromissos para daqui 15 dias. Não sei onde vou, Nova York, África, Ásia... Tome conta de tudo por mim, entrarei em contato assim que puder.
Assim que desliguei o celular percebi um reboliço no aeroporto, um homem de sobretudo preto, corpo elegante e másculo. Olhos negros como noite sem luar... tentando embarcar no avião, mas ao seu lado tinha um homem baixinho que o impedia.
Nossos olhos se encontraram e eu fiquei sem graça, aquele "Deus" grego olhava já algum tempo para mim, mas eu fingi que não percebi e voltei ao balcão e mais uma vez implorei por uma passagem. O homem se aproximou de mim e me puxou pelos braços, ofereceu-me a passagem que estava na sua mão e eu resolvi aceitar, é claro.
Depois de uma meia hora, já acomodados no avião, me vi rindo ao descobrir que minha passagem seria para aquele homem baixinho, que foi abandonado no aeroporto, esperneando alguma coisa. Kalil (que nome mais exótico) havia abandonado seu acessor e estava embarcando para Nova York para participar de um congresso sobre joias. Falava da sua insatisfação com seu acessor, pois vivia arrumando trabalho durante as férias dele no Brasil.
Ainda consigo ouvir a voz dele se apresentando:
- Kalil Mahad, 33 anos, empresário no ramo de joias preciosas, solteiro, seu escravo menina.
Kalil falava um português com um sotaque que eu não conseguia saber de onde era, mas o entendia bem.
Eu me apresentei – Sarah Alves, 29 anos, solteira, empresária – dona de uma escola. É um prazer conhecer um homem tão charmoso e gentil. Ah, preciso pagar a passagem. Cheguei a pegar a carteira, mas ele me interrompeu:
- Não posso aceitar seu dinheiro, aceite como uma recompensa.
- Recompensa? Perguntei sem entender.
- Sim, você vindo comigo, deixei Jim (o acessor) no Brasil, e até ele me alcançar eu já terei partido de Nova York e sumirei por uns dias para relaxar e finalmente curtir algumas férias.
Tantas horas de voo e Kalil não tirava os olhos marcantes de cima de mim. O que será que ele pensava? Será que me considera uma mulher elegante? Tenho olhos azuis, cabelos longos e cor de mel, pequena, mas bem feminina.
Dava para perceber que ele absorvia cada movimento, cada gesto, cada palavra, parecendo fascinado.
Kalil não entendia como uma menina tão falante, sedutora, poderia ter um olhar triste, um soar amargo na voz ao relatar a época em que não tinha muito dinheiro, mas que vivia feliz ao lado do marido. Falava de como um simples jogo tinha mudado a sua vida e a fizera tão importante profissionalmente e ao mesmo tempo tão infeliz com o fim do casamento. E me pediu que contasse a minha história.
Eu não sabia ao certo porque estava contando minha vida para ele, mas eu me sentia segura ao seu lado e acredito que precisava me abrir com alguém. Apesar de ter algumas amigas, nenhuma me ouvia de verdade, geralmente me interrompiam dizendo que eu era boba e devia aproveitar mais a vida. Mudando sempre o foco da conversa. Então falei:
- Um ano e meio atrás, eu havia jogado na loteria, era uma brincadeira. Pensei em como seria bom se eu tivesse um bom dinheiro, suficiente para abrir uma casa de repouso para idosos. Resolvi jogar na loteria, pois existe um ditado que diz "Você nunca vai ganhar o jogo se não jogar". Escolhi o dia do nascimento das 6 pessoas mais velhas da minha família – e joguei.
- Ganhei cerca de 60 milhões. Foi a partir daí que tudo mudou. Meu marido ficou furioso porque eu decidi abrir a casa de repouso para idosos. Ele considerava um desperdício de dinheiro. Assim começou nossas discussões e ele começou a fazer noitadas, gastando dinheiro com festas e mulheres.
Contei a minha aventura de detetive e a forma como descobri que ele me traia.
- Depois de um tempo entendi que ele queria mesmo era metade do prêmio, que ele tinha direito por ser casado comigo. Só que eu fiz tudo na lei com advogado e justiça, pois ele não teria direito em mais nada e a minha parte eu pude fazer o que quiser.
- Como moro numa cidade ainda considerada de interior – os 30 milhões da minha parte, eram muito dinheiro. Usei boa parte ajudando ao próximo. Ajudei meus familiares próximos, abri uma escola que atende desde creche até o ensino médio e realizei meu sonho inaugurando a casa de repouso para idosos. Espaço com muito verde, numa área próxima do centro da cidade. Preparei tudo como se fosse um hotel fazenda, com hidroginástica, terapias e fisioterapias, enfermeiros e pessoal adequado para cuidar dos idosos com muito zelo. A vaga na casa sempre dá prioridade aos idosos sem família, e aos que possuem necessidades especiais que os familiares não tem condições de pagar. Parte do dinheiro da minha escola mais a ajuda de empresários e da prefeitura da cidade, mantém o lugar funcionando bem.
- O que restou do dinheiro para mim? um excelente trabalho na escola, com um salário bom, casa própria, algum dinheiro aplicado, e o melhor de tudo, ver os velhinhos sendo assistidos com todo carinho do mundo.
Kalil pouco falava, apenas me ouvia. O voo já durava horas, nós jantamos e dormimos um pouco, e eu voltei a falar, falar e falar... Percebi o quanto eu tagarelava sobre minha vida e que pouco sabia sobre Kalil. Apenas que era um homem moreno e sensual, que estava ao meu lado ouvindo cada palavrinha minha. Então perguntei: - E você Kalil, o que faz no ramo das joias? Onde você mora?
Kalil não entrou em detalhes, falou que vivia na Polinésia, numa ilha onde haviam pouco mais que 100.000 habitantes. Ele trabalhava com joias, principalmente feitas de pérolas negras, raras. Estava sempre viajando o mundo para participar de congressos e eventos, levando o nome da família e das joias nos eventos.
Contou também que estava no Brasil para curtir o verão carioca, o carnaval na Sapucaí. Se encantou com tantas fantasias e mulheres bonitas. Mas, que o seu acessor Jim, havia importunado suas férias arrumando mais aquele congresso. Kalil pretendia mais uma ou duas semanas de férias antes de voltar a fazer viagens de trabalho.
A conversa estava tão excitante que nem percebemos a chegada a Nova York. Só percebemos quando o piloto falou: - Senhoras e Senhores, em alguns instantes estaremos no aeroporto de Newark. O dia está claro, mas com uma temperatura baixa, cerca de 9°C. E um pouco de neve deve surgir até o final da tarde. Desejamos a todos uma boa estadia e obrigado por escolher a nossa companhia aérea.
Trocamos o número de telefone, e eu peguei um táxi, não sabia ao certo onde iria, mas Kalil me indicou um hotel ótimo com vista para o Central Park. Na chamada Midtown Manhattan, região próxima a Times Square, Grand Central Station e as principais ruas com lojas, restaurantes e bares. E ainda me emprestou o sobretudo dele. Que loucura, escolhi Nova York e nem fiz uma mala descente, como não lembrei que era inverno nos EUA.
Me acomodei num quarto muito confortável, com uma cama grande, duas cômodas uma em cada lado da cama, em cima tinha um abajur e um telefone. De um lado do quarto um gaveteiro, para guardar roupas. Foi quando percebi que a minha bagagem era uma pequena mala, com uma camisola, calça jeans, duas blusas finas de manga comprida, calcinhas e coisas de higiene. Na pressa de viajar não dei conta que em Nova York estava frio e que era uma cidade luxuosa, precisava comprar algumas roupas urgente. Peguei o sobretudo que Kalil me emprestou, e fiquei arrepiada com o cheiro amadeirado do perfume que emanava.
Uma camareira bateu na porta do quarto e me entregou um buquê de rosas vermelhas – naquele momento me senti muito atraente, pois um homem quando manda rosas ele está muito impressionado com a mulher – antes de ler eu já sabia que era de Kalil, a única pessoa que sabia onde eu estava.
A mensagem também era um convite:
"Admirável Sarah, espero que aceite jantar comigo essa noite, estarei no saguão do hotel às 20:00 horas para buscá-la. O jantar será num restaurante simples, mas muito charmoso, não precisa se preocupar com roupas finas. "
Kalil Mahad
Olhei para o relógio e percebi que já eram quase uma hora da tarde, estava com fome, precisava me alimentar e ainda comprar um vestido, arrumar os cabelos, as unhas... foi aí que percebi quão desarrumada eu estava. Saí em missão de cumprir todo ritual que era necessário para sair com um homem simplesmente lindo, e que além de admirá-la – mesmo ela estando tão desajeitada – mandou-lhe rosas vermelhas.
Ás 20:00 em ponto o telefone do quarto tocou, era a recepção comunicando que Kalil estava aguardando no saguão. Quando saí do elevador, Kalil mal pode conter a admiração, seus olhos brilharam. Eu estava deslumbrante, com um vestido negro, um pouco abaixo do joelho, manga estilo princesa, deixando o colo de fora. Sobretudo em cotelê, também preto. Cabelo preso estilo coque, com alguns fios soltos. Um brinco de ouro branco de tamanho médio – o que eu tinha, afinal não sou muito ligada nesses detalhes - meia calça e salto preto, e uma bolsa de mão. Não esqueci do sobretudo de Kalil, para devolver.
- Olá, como estou? Dei uma volta e sorri para Kalil.
- Você está excitantemente linda. Kalil se aproximou e colocou em meu pescoço um colar. A princípio eu não aceitei, mas fui convencida. Era uma gargantilha finíssima de ouro branco – ele havia reparado no meu brinco – e o pingente era uma chave muito delicada com uma pedra de brilhante. Delicada e linda, absolutamente linda.
Eu quis perguntar o que representava aquela chave, mas Kalil se adiantou e falou: -Você é uma mulher linda, porém mais brilhante e valiosa que essa joia. Essa chave representa meu coração, que estou dando a você, pois me conquistou, mas vai depender de você conseguir usá-la para abrir e entrar nele.
Entramos num carro preto USV, e fomos ao restaurante The Little Owel, na West Village. Um restaurante simples e acolhedor, bastante confortável, com luz baixa e música ambiente. Pedimos peito de frango grelhado com aspargos, couve, abacate e quinoa. Para beber Kalil pediu um Pink Prosecco Lemonade, um prosecco com limonada de toranja rosa. Deliciosa bebida.
Conversamos sobre a tarde que tivemos, da minha preocupação em não ter levado roupas adequadas, e sobre o congresso que ele disse ter sido promissor, embora maçante.
Era a primeira vez que eu via Kalil falando, estava sorrindo e contando sobre como foram bajuladores e politiqueiros os homens no evento. – Será que eu realmente preciso de tanta bajulação? Ele falou de forma descontraída – acho que foi o prosecco, ele falou mais sobre ele. De repente um dos funcionários se aproximou da mesa – Desculpe senhor Mahad, tem uma ligação para o senhor. Ele pediu licença e foi atender. Fiquei olhando para os detalhes no restaurante – como era agradável aquele lugar, e a comida, estava uma delícia – fui brutalmente interrompida em meu devaneio. Kalil me puxou pelo braço e pediu que o acompanhasse. Não entendi nada até chegar ao hotel. Eu estava confusa, pois saímos às pressas e pelos fundos. Kalil então começou a se explicar:
- Sarah, perdoa-me por fazê-la sair assim do restaurante, tem algo sobre mim que preciso contar... Antes que Kalil terminasse de falar, apareceram alguns repórteres gritando e fotografando...
Um deles falou mais alto: - príncipe Kalil Mahad, quem é essa mulher? A futura pretendente?
- Príncipe, vossa alteza está mesmo noivo? Esta é a futura princesa Mahad, a escolhido do rei?
- Saiam todos, eu não estou noivo, e se estivesse, não é da conta de ninguém. – Enquanto Kalil escondia o meu rosto e me ajudava a entrar no hotel, ele gritou com os repórteres, e fomos salvos pelos seguranças do hotel que não permitiram a entrada deles atrás de nós.
Foi naquele momento que descobri que aquele homem realmente era um príncipe, não só em sonhos, mas de algum lugar da Polinésia. Eu não entendia porque ele não me contou e fiquei furiosa. Ele tentava falar comigo, me seguia, e eu arrumei minhas coisas e fechei a conta do hotel. Ele me olhava e tentava me explicar: - Me perdoe menina por não ter contado antes quem eu realmente sou. Tudo que falei sobre mim era verdade, só omiti o fato de ser um príncipe. Perdoa-me, eu não a conhecia e queria que gostasse do homem Kalil e não do príncipe.
Nesse momento eu já estava quase do lado de fora do hotel – pelos fundos – queria entrar num táxi e sumir dali o mais rápido possível. Olhei em seus olhos e disse: - Kalil, ou melhor, alteza.
- Não fale assim Sarah, para você sou Kalil e sempre serei apenas o homem que você conheceu.
- Tudo bem, você, apenas você – falei respirando fundo e segurando para não ser grosseira e não gritar- você mentiu para mim. Eu mais uma vez estava sendo enganada por um homem, e estava magoada por ele não ter confiado em mim, e mal conseguia falar.
- Desculpa! Percebi em sua voz uma ponta de verdade, mas continuei.
- Você não acreditou na minha pureza, na minha sinceridade, deve ter imaginado que eu era uma pistoleira ou algo assim – verdade que isso devia acontecer frequentemente, mas eu não queria dar o braço a torcer.
- Sarah, sei que desculpas não vão apagar a situação, mas estou sendo sincero agora. Espero que compreendas, já tive tantas mulheres que se aproximaram de mim, ou melhor do príncipe, que fiquei inseguro. Eu iria te contar, pois você, como já disse, conquistou meu coração. Vamos começar de novo: - Muito prazer, meu nome é Principe Kalil Mahad, de uma pequena ilha na Polinésia. Tenho 33 anos, sou solteiro, estava de férias quando te conheci, e realmente a minha família trabalha no ramo das joias e tudo o mais que falei. Quero ter a chance de te conhecer melhor, que tal viajar comigo para nos conhecermos?
- Eu, viajar com você? Impossível Kalil, daqui algumas horas meu rosto estará em todos os noticiários de Nova York, e quem sabe no Brasil ou pelo resto do mundo? Eles vão descobrir quem sou e pode imaginar o que dirão? "Uma jogadora da loteria do Brasil ganha prêmio duas vezes, uma ao jogar e outra ao conhecer o príncipe..." Será um caos, com certeza, e tudo que nunca quis na vida foi ser reconhecida em qualquer lugar.
- Sarah, independente de eu ser um príncipe e você uma empresária de sucesso, somos adultos, solteiros e independentes. Não podemos parar nossas vidas por causa do que os outros dirão ou pensarão sobre nós.
- Não devemos mesmo, mas eu não consigo me imaginar nos tabloides, sendo alvo de tantos comentários, eu prezo muito pela descrição.
- Jim já está aqui em Nova York, ele vai encontrar os repórteres e fará o impossível para não divulgarem as suas fotos. Venha comigo, vamos viajar...
- Não Kalil, não podemos... – não terminei de argumentar, pois era difícil resistir aquele charme, toda a sedução do seu toque, da sua voz ao meu ouvido. Não resisti e concordei em ir com ele para onde quer que fosse.
Tantas coisas aconteceram e só havia passado 1 dia. Será que aqueles acontecimentos seriam apenas sorte, ou o destino mudando minha vida novamente.
Cap. 3 a ilha
Pegamos um jato particular naquela mesma noite, viajamos quase que a noite toda, foram umas 8 horas e aterrissamos numa ilha no pacífico sul. Era um arquipélago, e fomos para uma ilha menor, a 1 hora da ilha que Kalil morava.
Ele foi me mostrando pela janela do avião, a maior era a capital, onde seus pais moravam, onde ele também morava. Era ocupada por cerca de 80.000 habitantes, e os outros quase 20.000 habitantes, viviam espalhados ao longo do arquipélago.
Fomos de lancha para uma das ilhas menores, e mesmo Kalil insistindo muito, aquela noite e toda viagem ao lado dele não me deixava avaliar todos os acontecimentos e eu precisava ficar sozinha.
Decidi ficar em um hotel, enquanto Kalil foi para sua casa de praia, a uns 3 km dali. Fiquei hospedada num quarto muito simples, bem no estilo havaiano, com uma cama encostada na parede, uma arara com cabides, o banheiro com uma ducha, pia e vaso sanitário, tudo muito rústico, mas aconchegante. E tinha tudo o que eu precisava naquele momento, banho e cama. Apesar de dormir no avião, não foi uma noite descansada.
Tomei uma ducha e fui na cozinha do hotel, lá e consegui um lanche, depois de comer voltei para o quarto e fiquei na cama o restante daquela tarde, acabei adormecendo. Acordei algumas horas mais tarde, e vi que já era noite. Aquele dia demorou a passar devido ao fuso horário. Saí para dar uma volta no pequeno vilarejo, tinham umas lojinhas de lembranças e alguns restaurantes, todos simples, mas aconchegantes. Me lembrei de Paraty, aquela cidade linda no Rio de Janeiro.
Jantei uma massa com frutos do mar, num restaurante muito pequeno e confortável. Tive um pouco de dificuldade de escolher o prato, por sorte uma das atendentes falava um pouco de inglês. Estava delicioso. Resolvi voltar para o hotel, já era tarde e eu não conhecia o lugar.
Fiquei algum tempo pensando em tudo, e percebi que Kalil não tinha mentido, compreendi a situação dele, um príncipe! Ainda não dava para acreditar, mas era verdade, e ele não podia mesmo sair se apresentando como tal, existem muitas mulheres interesseiras.
Quando acordei, já devia ser umas 7 da manhã. Resolvi sair do quarto, tomei um cafezinho na cozinha do hotel, e sai para caminhar na beira da praia. Eu não tinha roupas de banho, mas o vestidinho que eu trouxera na bolsa deu para sair as compras. Antes deveria ligar para minha secretária Dayana, e foi o que fiz. Pensei que tivesse sido noticia na televisão, mas não fui. Fiquei sabendo mais tarde que Kalil conseguiu omitir minha identidade e pagou para que as imagens com meu rosto não aparecessem.
Encontrei Kalil e fomos comprar roupas de banho. Estava um calor bom e o sol brilhava convidando a todos a um banho naquele mar cristalino.
Passamos em várias lojinhas, experimentei pelo menos uma dúzia de biquínis, mas fiquei só com 2. Um deles era tomara eu caia vermelho, e a parte de baixo um floral. O outro no mesmo modelo, mas na cor azul. Eles realçaram minha pele que estava muito branca. Como podia aquilo, eu morava numa cidade praiana, mas nunca tinha tempo de pegar um solzinho nas águas cristalinas das praias na minha própria cidade.
Após as compras, já vestida adequadamente, fomos tomar um sorvete e dar uns mergulhos. Aquele moreno era mesmo sedutor e havia me ajudado a esquecer o Albert quase que para sempre. O que meses depois vi que seria impossível, pois meu ex-marido era intrometido demais na minha vida.
As praias eram lindíssimas, uma areia branquinha, águas cristalinas. Bem parecidas com as da minha cidade, a diferença era que essa era uma ilha e tudo era mais rústico.
Foi um dia maravilhoso, Kalil falou sobre aquela ilha, sobre como amava ficar ali. Explicou sobre as fazendas de pérolas e como era realizado o cultivo de pérolas negras. Todo trabalho era manual, primeiramente com a escolha de ostras apropriadas da espécie Pinctada margaritifera.
- As ostras escolhidas precisam ser abertas e faz-se uma incisão com bisturi em sua carne, tudo com muito cuidado. É implantada uma conta esférica junto com um pequeno pedaço de tecido vivo da camada interior de uma concha doadora. Depois as ostras são colocadas na fazenda, na laguna e cuidamos delas tirando qualquer acúmulo de algas ou cracas. O que acontece é que o tecido vivo implantado envolve e reveste a conta, camada por camada, com uma substância perolada brilhante chamada nácar ou madrepérola. Se o implante não for rejeitado, a pérola será produzida dentro de um ano e meio a dois anos. Uma notável simbiose natural, com auxílio do homem.
Eu fiquei extasiada com as informações, achei tudo muito perfeito. Estar com Kalil foi perfeito. Só que eu insisti em ficar no hotel, pelo menos mais aquela noite. Na manhã seguinte fui acordada pela recepcionista, com outro buquê de flores- desta vez flores do campo – e outra mensagem:
"Arrume suas coisas, deixe na recepção e aguarde que em 30 minutos vou te buscar. Vamos tomar café da manhã próximo ao paraíso. "
Com carinho, Kalil Mahad
Resmunguei um pouco, pois 30 minutos não era tempo suficiente para me arrumar, e as malas?! Quem ele pensava que era? Ah é mesmo, um príncipe. O príncipe Kalil Mahad, o homem lindo e sedutor, por quem eu estava encantada. Já tinha aceitado ir até ali, porque não aceitar o convite num todo. O que eu estava evitando, aquele homem era maravilhoso e ficar mais perto dele seria prazeroso.
Em 30 minutos eu estava pronta e Kalil chegou num jipe dirigido por um homem nativo, que devia ter uns 50 anos. Não rodamos muito, e logo entrávamos numa pequena aldeia mais ao norte da ilha, atravessamos uma ponte sobre um rio estreito e nos deparamos com uma casa – casa não, uma mansão – á beira mar. Parecia uma casa de filmes, com grandes janelões de vidro, portas duplas de correr no andar superior, que deduzi serem os quartos, uma piscina com um lindo jardim ao redor. Uma verdadeira casa de cinema.
No interior tudo era mais bonito ainda, entramos em uma grande sala com sofás brancos, uma TV de plasma em uma das paredes, na lateral a esquerda uma mesa rústica em madeira com cadeiras forradas em tecido floral. Ao fundo uma escada em meio círculo, ela era de madeira, que dava ao andar superior. Todo andar inferior era em tábua corrida. No final da parede a esquerda uma porta de correr estilo açougue dava para uma cozinha bem estruturada e para minha surpresa moderna, toda em cimento queimado e com aparelhos domésticos em aço.
- Kalil, que casa maravilhosa!
- Meu avô comprou alguns anos atrás, e a família vem conservando e modernizando. Mas eu não venho muito aqui, acho que 1 ou 2 vezes por ano.
- Um paraíso desses e você simplesmente não desfruta dele.
Kalil mostrou o andar superior, que era composto por 5 suítes, todas tinham uma varanda interligando-as, seguindo a parte superior da casa ao redor dela todo.
Me levou ao cômodo que eu ficaria, uma suíte ao lado da dele. A minha varanda dava para parte de trás da casa, e dava para ver a piscina e ao fundo o mar. Era aconchegante, uma cama enorme, o tecido da roupa de cama era digno da realeza – algodão egípcio, provavelmente – bordado com iniciais MM, que deveria ser do sobrenome Mahad. No banheiro havia uma bancada comprida com duas pias, em mármore carrara, com uma banheira moderna, toalhas felpudas também com as mesmas iniciais MM, estavam em um nicho inserido a parede lateral a pia.
Kalil bateu na porta depois de 20 minutos e me convidou para o café que foi servido à beira da piscina. Kalil começou a falar primeiro: - Perdoa-me Sarah por fazê-la passar por tantas coisas. Eu consegui com Jim que não publicassem sua imagem, mas a história ficou no ar.
Respondi com ternura: - eu sei que você tentou me proteger de todo aquele assédio e realmente é bom recomeçar. Vamos deixar o passado, somos Sarah e Kalil, amigos que viajam juntos para descansar e se conhecerem melhor.
- Ok menina, nada de falarmos do passado, tudo se inicia hoje.
Naquele instante descobri que a minha vida, a minha alma pertencia aquele "Deus" grego, e que a chave que ele me deu, já estava dando a primeira volta na tranca do coração de kalil Mahad.
Aquele dia passou rápido, com banhos de mar, muita alegria nas brincadeiras à beira da água, parecíamos crianças sorrindo, correndo. Realmente era um conto de fadas que estava acontecendo comigo. De vez em quando eu lembrava da minha realidade, aquela bem distante daquele paraíso, onde eu tinha um ex-marido que insistia em me atormentar, trabalho por realizar. Almoçamos na beira da piscina também, era lagosta com risoto de frutos do mar. Uma bela taça de vinho branco para acompanhar. Conversamos muito, ele se desculpou umas dezenas de vezes mais.
Já tinham passado 5 dias, logo o ano letivo estava tendo início e eu, a diretora, nem pensava em voltar ao trabalho. Como eu queria que aquele sonho não acabasse.
Liguei para Dayana, precisava pedir que ela tomasse conta de tudo por mim, eu não podia ir embora ainda. Kalil Mahad era um sonho e eu desejava ardentemente aproveitar cada segundo dele, antes de acordar.
Aquela noite foi difícil, eu sentia que algo me incomodava, era o calor, a ausência. Ausência? Sim, eu não queria aquela parede entre eu e o homem maravilhoso que havia conhecido. Mas eu não conseguia deixar nada acontecer entre nós. Ao mesmo tempo que eu evitava Kalil, buscava ardentemente um motivo para não me entregar aquela paixão.