O despertador tocou às seis e vinte, como fazia todas as manhãs nos últimos meses. A luz suave da manhã atravessava a cortina rendada do pequeno apartamento no centro de São Paulo. O som da cidade - buzinas, sirenes, vozes apressadas - já pulsava lá fora como um lembrete cruel de que a vida não esperava ninguém, muito menos ela.
Isadora Mendes abriu os olhos lentamente. Por um instante, quis permanecer no calor dos cobertores, onde nada a lembrava da realidade dura que enfrentava diariamente. Mas não havia tempo para devaneios. A vida real era impiedosa.
Levantou-se, prendeu os cabelos castanhos claros em um coque desalinhado e caminhou até a cozinha minúscula. Colocou água para ferver e encarou o reflexo no vidro do micro-ondas. Seus olhos cor de âmbar pareciam ainda mais intensos na penumbra da manhã. Lindos, sim - mas também cansados.
Há dois anos, tudo desmoronou. O carro dos pais derrapou na estrada molhada numa volta comum do litoral. O telefonema no meio da noite. A sensação de desmoronamento. O silêncio ensurdecedor depois do enterro.
Sua tia - a única parente viva - chegou atrasada à cerimônia. Era uma empresária importante que vivia fora do país e, mesmo abalada, não pôde ficar. Após um rápido abraço, pediu desculpas e partiu às pressas, alegando uma urgência inadiável. Isadora mal teve tempo de conversar com ela. Depois disso, ficou completamente sozinha.
A faculdade de Administração foi deixada de lado. As contas chegaram antes. Conseguiu um emprego numa empresa promissora de inteligência artificial, onde a promessa de crescimento foi apagada por um ambiente tóxico e um chefe que confundia hierarquia com poder. A gota d'água veio quando, após semanas de insinuações e humilhações veladas, ele soltou uma frase nojenta durante uma reunião. Ela não respondeu. Apenas se levantou, recolheu suas coisas e saiu.
Agora, com vinte e um anos, desempregada, sem diploma e com o aluguel vencendo em uma semana, Isadora ainda assim se recusava a se curvar. Era teimosa. Era fogo. Era bonita de um jeito que incomodava - e não fazia ideia do quanto.
Tomou o café preto amargo como sempre, abriu a janela e deixou o vento da manhã lhe bagunçar o coque. Vestiu uma calça jeans surrada, camiseta branca, tênis limpo e pegou a bolsa. Ia sair para entregar currículos, bater de porta em porta como fazia nos últimos dias. Sabia que a maioria nem olharia seu nome, mas ela ia tentar. Sempre tentava.
Antes de sair, parou diante do espelho da sala. Respirou fundo.
- Vai dar certo - sussurrou para si mesma.
Desceu as escadas do prédio - o elevador estava quebrado de novo - e caminhou até o ponto de ônibus. O celular vibrou. Era uma mensagem de Sofia.
Sofia: "Amiga, preciso MUITO falar com você. Urgente. Me espera no café da esquina? Tô chegando!"
Isadora respondeu com um "Ok" simples. Conhecia aquele tom. Sofia não era do tipo que exagerava. Havia algo sério ali.
Vinte minutos depois, as duas estavam sentadas numa mesa encostada na janela, com canecas fumegantes nas mãos. Sofia, como sempre, estava impecável: rabo de cavalo bem puxado, batom nude e blazer azul-marinho.
- Tá me assustando - disse Isadora, soprando o café. - O que aconteceu?
Sofia apoiou as mãos sobre a mesa e soltou:
- Tem uma vaga aberta na empresa onde eu trabalho. E eu te indiquei.
Isadora piscou. - Vaga de quê?
- Secretária do presidente.
Ela soltou uma risada nervosa. - Tá brincando, né? Eu? Logo pra secretária de CEO?
- Tô falando sério, Isa. O presidente do Grupo Alcântara. Lorenzo Alcântara. Frio, exigente, insuportável... mas respeitado. A antiga secretária pediu demissão ontem. E adivinha quem ele mandou caçar uma substituta com urgência?
Isadora ficou em silêncio por um instante. O nome soava como algo saído de uma série de drama de escritório. Lorenzo Alcântara. Nem o nome era simpático.
- Você surtou. Eu nem terminei a faculdade, nem tenho experiência com executivos de verdade... - começou ela, mas foi interrompida.
- Você é inteligente, organizada, fluente em inglês, tem boa escrita e uma memória absurda. Você é perfeita pro cargo. E mais: você precisa dessa chance. Vai por mim. Se não der certo, tudo bem. Mas tenta.
Isadora mordeu o lábio inferior, pensativa. A ideia era tão absurda que quase fazia sentido.
- Tá. Eu tento - disse, pegando o celular. - Mas se esse Lorenzo for um babaca, eu vou jogar café quente nele.
Sofia sorriu. - Não duvido nem um pouco.
Naquela manhã, Isadora Mendes deu o primeiro passo rumo a uma vida que mudaria tudo. Ela só não sabia ainda.
Mas o destino... ah, esse já estava bem à frente, esfregando as mão
O coração de Isadora batia no mesmo ritmo frenético dos pneus do ônibus saltando nas imperfeições da Avenida Paulista. Era como se o destino tivesse apertado o botão de aceleração sem aviso. Na bolsa, uma pasta simples com o currículo, uma garrafinha d'água e uma dose de coragem que parecia evaporar a cada metro percorrido. Na cabeça, um mantra desesperado: "CEO? Grupo Alcântara? Eu, ali dentro?"
O prédio era uma torre de vidro espelhado, arrogante e elegante. A fachada parecia julgá-la antes mesmo de entrar. Ela respirou fundo, ajeitou os cabelos levemente ondulados e conferiu o reflexo na porta giratória. Jeans escuro, camisa branca abotoada até o colarinho, sapatilhas discretas. Sóbria, porém marcante. Ela não sabia que causava impacto. Mas causava.
Na recepção, uma mulher de terninho preto e coque severo analisou seus documentos como se escaneasse sua alma.
- Isadora Mendes? O presidente a verá agora - disse com frieza, entregando-lhe um crachá provisório.
"Ele a verá?" pensou Isadora. "Quem fala assim em pleno século XXI?" Mas engoliu o comentário, acenou em silêncio e seguiu para o elevador.
O 39º andar era silencioso. O tapete espesso abafava os passos, o ar cheirava a madeira nobre e poder consolidado. À frente, a porta de vidro fosco exibia em letras douradas: "Lorenzo Alcântara – Presidência".
Ela parou. Engoliu seco. Bateu na porta, ouviu um entre, pelo menos a voz é bonita. Entrou devagar um tanto receosa.
O escritório era amplo, minimalista, imponente. A luz natural inundava o ambiente, revelando cada detalhe. Atrás da mesa retangular de madeira escura, estava ele: Lorenzo Alcântara.
E ele era... um problema de categoria internacional.
Alto. Impecável num terno cinza grafite feito sob medida. Cabelos escuros, penteados para trás. A expressão dura, fria. Os olhos castanhos escuros eram gélidos, de quem comanda sem titubear. Ele nem levantou a cabeça. Apenas fez um gesto com a mão, indicando a cadeira.
Isadora sentou-se, rígida. Mãos unidas no colo. Tentava controlar a respiração, o coração, a alma.
- Senhorita Mendes - disse ele, finalmente erguendo os olhos. Seu olhar a atravessou como um raio-X. - Sem experiência como secretária de presidência. Sem curso superior completo. Último cargo: auxiliar administrativa. Saiu da empresa sem aviso. Por quê?
Ela mordeu a raiva. Engoliu o passado.
- Assédio moral. Preferi sair a suportar humilhação. Tenho referências da supervisora direta. Não me arrependo.
Ele arqueou uma sobrancelha. - Direta. Gosto disso.
Ela quase respirou aliviada. Mas ele não dava espaço para descanso.
- O cargo exige pontualidade, descrição, agilidade e inteligência emocional. Eu não repito ordens duas vezes. A senhorita se considera apta?
"Isso é uma entrevista ou um interrogatório da CIA?" pensou. Mas respondeu com firmeza:
- Sim. E aprendo rápido o que não sei.
Silêncio. Um daqueles que esmagam o ar. Ele a olhava com atenção incomum. Havia algo nela que lhe fugia ao controle. E isso o irritava.
- Última pergunta - disse ele, cruzando os braços. - Por que quer esse cargo?
Ela poderia mentir. Mas não combinava com ela.
- Porque preciso. Porque sou boa. E porque não tenho tempo pra esperar o momento perfeito.
Mais silêncio. Lorenzo se levantou, caminhou até a janela. De costas para ela, permaneceu em silêncio por alguns segundos. Então pegou o telefone:
- Camila, agende o treinamento com o RH. Senhorita Mendes começa na segunda.
Isadora arregalou os olhos. - Eu... estou contratada?
- Está em teste. Duas semanas. Um erro, está fora.
Ela assentiu. Queria sorrir, gritar, correr. Mas manteve a postura.
- Entendido.
Ele estendeu a mão.
- Bem-vinda ao Grupo Alcântara.
Aperto de mão firme. Frio. Mas algo... tremeu por dentro. Um calor súbito. Um toque de algo que ainda não sabiam nomear.
O despertador tocou às 5h45. Isadora acordou como se estivesse sendo convocada para uma missão secreta. Na verdade, talvez fosse mesmo. Seu primeiro dia como secretária do CEO mais temido do Grupo Alcântara já começava com uma mistura de frio na barriga e cafeína pura.
Escolheu um look mais comportado: calça de alfaiataria bege, camisa azul clara e um blazer creme. Cabelos soltos, mas domados. Um toque de batom rosado e um perfume leve. Olhou no espelho e pensou: "Seja discreta, Isadora. Discreta!". E saiu.
Chegou no prédio antes das 7h30. A recepcionista, que no dia anterior parecia um robô sem sentimentos, hoje só assentiu com a cabeça. Pegou o crachá oficial e subiu para o 39º andar. O andar do gelo.
O corredor estava vazio. Sua mesa ficava em frente à sala de Lorenzo. Um tampo de vidro com computador, telefone, uma estante discreta e uma cafeteira caríssima que parecia nunca ter sido usada. Sentou-se, respirou fundo e ligou o sistema. Tentava se ambientar quando ouviu a porta da sala abrir.
Ele. Lorenzo Alcântara. Pontual como um relógio militar. Vestia um terno azul escuro, sem um vinco fora do lugar. Passou por ela sem dizer uma palavra. Entrou, fechou a porta. Era como se um iceberg tivesse cruzado o corredor.
Isadora engoliu seco. Pensou: "Ok. Vai ser assim."
Começou a organizar os e-mails, entender o sistema interno, responder algumas mensagens de boas-vindas automáticas e agendar duas reuniões de rotina. Tudo ia bem... até o telefone interno tocar.
- Isadora. Na minha sala. Agora.
Era a voz dele. Seca, sem margem para interpretações.
Ela levantou, ajeitou o blazer, pegou o bloco de anotações e caminhou firme. Só que...
BLAM!
Andou direto na porta de vidro.
Isso mesmo. Esqueceu que era de vidro. Esqueceu que era real. Esqueceu que estava no mundo. A pancada ecoou pelo andar como um trovão em uma noite silenciosa.
- Ai, meu Deus! - murmurou, recuando dois passos, a mão na testa. Um segurança do outro lado do andar deu uma risadinha contida. A recepcionista nem se moveu. Robôs não têm empatia.
A porta se abriu devagar.
Lorenzo a encarava, uma sobrancelha arqueada. Olhos de tempestade, braços cruzados.
- A porta estava fechada - disse, seco.
- Sim... sim, senhor. Eu percebi - respondeu, tentando manter a dignidade enquanto rezava para não estar com um galo crescendo na testa.
Entrou. Sentou-se na cadeira à frente da mesa dele. Manteve o olhar baixo, mas o cérebro gritava socorro.
- Preciso que organize a reunião com o conselho amanhã, prepare um resumo das últimas decisões do jurídico e entre em contato com a assessoria de imprensa. O release da nova campanha precisa sair até o meio-dia.
- Certo. Anotado. Mais alguma coisa?
Ele a encarou por um segundo a mais do que o necessário.
- Evite acidentes no futuro. Não temos seguro contra desastres cômicos.
Foi só aí que ela percebeu: ele estava zombando dela. Um traço quase imperceptível de ironia no canto da boca.
Isadora saiu da sala com as bochechas queimando, mas com a cabeça erguida. Ok, talvez tenha batido de frente com a porta. Talvez o chefe seja um robô elegante e sarcástico. Mas ainda era o primeiro dia.
E se ela sobreviveu ao iceberg, à porta de vidro e ao toque gelado de Lorenzo Alcântara, ela podia sobreviver a qualquer coisa.
Ou quase.
Porque a cafeteira... a bendita cafeteira de design futurista... acabaria com o resto do dia.