No nosso quinto aniversário de casamento, meu marido empurrou uma caixa de veludo preta pela mesa.
Dentro não havia um anel de diamante, mas uma caneta-tinteiro.
"Assine os papéis do divórcio, Aurora", disse Ethan. "Aline está surtando de novo. Ela precisa ver que acabamos."
Eu era a esposa do subchefe do Comando, mas estava sendo descartada pela protegida da Família.
Antes que eu pudesse responder, Aline invadiu o restaurante.
Ela gritou que eu ainda estava usando o anel dele e atirou uma tigela de sopa de lagosta fervendo direto no meu peito.
Enquanto minha pele se enchia de bolhas e descascava, Ethan não correu para mim.
Ele a abraçou.
"Está tudo bem", ele acalmou a mulher que acabara de me atacar. "Eu estou aqui com você."
A traição não parou por aí.
Quando Aline me empurrou da escada dias depois, Ethan apagou as gravações de segurança para protegê-la da polícia.
Quando fui sequestrada por seus inimigos, liguei para sua linha de emergência - aquela para situações de vida ou morte.
Ele rejeitou a chamada.
Estava ocupado demais segurando a mão de Aline para salvar sua esposa.
Foi nesse momento que a corrente se partiu.
Enquanto a van dos sequestradores acelerava na rodovia, eu não esperei por um resgate que nunca viria.
Abri a porta e pulei na escuridão.
Todos pensaram que Aurora Barros morreu naquele asfalto.
Dois anos depois, Ethan estava do lado de fora de uma galeria em Paris, olhando para a mulher que ele havia destruído, finalmente percebendo que protegeu a mulher errada.
Capítulo 1
Meu marido empurrou a caixa de veludo preta pela toalha de mesa impecavelmente branca.
Mas, em vez do anel de diamante esperado para um quinto aniversário, uma caneta-tinteiro preta repousava lá dentro, esperando que eu assinasse os papéis do divórcio que salvariam a vida da amante dele.
"Feliz aniversário, Aurora."
Eu encarei a caneta.
A ponta de ouro brilhava sob as luzes do lustre do Fasano.
Ao nosso redor, a elite de São Paulo jantava em tons sussurrados, sem saber que o homem sentado à minha frente era o subchefe da Família Barros.
Ethan Barros não parecia um monstro. Ele parecia um rei.
Seu smoking ajustava-se aos seus ombros largos com precisão militar, escondendo a arma no coldre sob seu braço esquerdo. Seus olhos tinham a cor de uísque envelhecido - frios, distantes e completamente vazios do amor que ele um dia jurou.
"Assine, Rory", disse ele.
Sua voz era baixa. Era o mesmo tom que ele usava ao ordenar uma execução de um membro de um cartel rival.
"Aline está surtando de novo. Ela ameaçou cortar os pulsos se não visse a prova de que terminamos."
Eu não peguei a caneta.
Em vez disso, olhei para suas mãos.
Aquelas mãos grandes e capazes que prometeram me proteger no altar agora estavam me empurrando para o exílio pela trigésima oitava vez.
Este era o nosso ritual doentio.
Aline Lobo, a protegida da Família, teria uma crise de nervos. Ela exigiria minha remoção. E Ethan, preso por uma dívida de honra distorcida ao pai falecido dela, me baniria para um apartamento de segurança até que ela se acalmasse.
Trinta e oito vezes eu fiz uma mala.
Trinta e oito vezes eu interpretei a esposa obediente do Comando.
Mas hoje era nosso aniversário.
"Ela está aqui?", perguntei.
Ethan não vacilou.
"Ela está no carro. Precisa ver você sair do restaurante sozinha."
A humilhação me engoliu como uma onda gelada.
Ele a trouxera para o nosso jantar de aniversário. Ele a deixara na limusine como um animal de estimação esperando para ser solto, enquanto descartava sua esposa lá dentro.
"Eu não vou sair, Ethan."
A temperatura ao redor da nossa mesa caiu dez graus.
Ethan se inclinou para frente. O movimento foi sutil, mas irradiava a ameaça letal que fazia homens feitos tremerem na base.
"Não me teste hoje, Aurora. Tive uma semana longa. Mandei três corpos para a cova ontem para manter nossas fronteiras seguras. Não tenho paciência para sua rebeldia."
Ele não era meu marido agora.
Ele era o subchefe.
E eu era apenas um ativo que estava com defeito.
Peguei a caneta.
Minha mão não tremeu; aprendi a congelar minhas entranhas há muito tempo.
Assinei meu nome no guardanapo de linho, não no papel legal.
"Pronto", eu disse. "Uma lembrança."
O maxilar de Ethan se contraiu.
Antes que ele pudesse falar, uma sombra caiu sobre nossa mesa.
Eu olhei para cima.
Aline estava ali.
Ela não estava no carro. Usava um vestido vermelho, justo demais, chamativo demais para este lugar. Seus olhos estavam arregalados, maníacos, saltando entre Ethan e eu.
"Você não fez isso", ela sussurrou.
Ethan se levantou rápido.
"Aline, volte para o carro."
Ela o ignorou.
Olhou para mim com ódio puro, sem disfarces.
"Você ainda está usando o anel dele!", ela gritou.
O restaurante ficou em silêncio. Garçons congelaram.
Aline pegou a tigela de sopa de lagosta da bandeja do garçom ao nosso lado. Estava fumegante.
Ethan se moveu, mas se moveu em direção a ela, não a mim.
Ele estendeu a mão para acalmá-la.
Aline balançou o braço.
O líquido espesso e alaranjado me atingiu em cheio no peito.
O calor foi instantâneo. Atravessou meu vestido de seda, queimando a pele do meu colo e pescoço.
Eu ofeguei, a dor roubando o ar dos meus pulmões.
Levantei-me, arranhando o tecido, tentando afastar a seda ardente da minha pele.
Ethan segurou os pulsos de Aline.
Ele não olhou para mim. Olhou para ela.
"Calma", ele a acalmou. "Está tudo bem. Eu estou aqui com você."
Eu fiquei ali, pingando sopa, minha pele empolando, cercada por estranhos me encarando.
Meu marido estava abraçando a mulher que acabara de me agredir.
O cheiro de antisséptico é o perfume do meu casamento.
Eu estava sentada no papel amassado da maca na clínica particular da Família. Meu vestido de seda foi cortado, jogado em um monte no chão.
O médico aplicava um gel refrescante nas queimaduras de segundo grau em meu peito. Ele trabalhava em silêncio, seus olhos fixos estritamente nas feridas. Ele sabia que não devia fazer perguntas.
A porta se abriu.
Ethan entrou.
Ele havia tirado o paletó do smoking. Sua camisa branca estava impecável, sem manchas. O caos da noite não deixara marcas nele. Nenhuma gota de sopa o tocara.
"Como ela está?", Ethan perguntou ao médico.
Ele não olhou para o meu rosto. Olhou para as queimaduras.
"Ela vai se recuperar", disse o médico, com a voz baixa. "Mas vai deixar cicatrizes. A sopa estava fervendo."
Ethan assentiu, como se recebesse um relatório sobre um carregamento de armas danificado.
"Deixe-nos."
O médico saiu da sala instantaneamente.
Ethan se aproximou. O cheiro de seu perfume - sândalo e chuva fria - misturava-se com o leve cheiro metálico de sangue que ele sempre carregava. Encheu meu nariz, sobrepujando o ar estéril.
Ele estendeu a mão, seus dedos pairando sobre a pele em carne viva e empolada.
Eu me encolhi.
Sua mão caiu ao lado do corpo.
"Aline está sedada", disse ele.
Eu não respondi. A dor no meu peito era uma batida de tambor pulsante, sincronizada com a raiva que se acumulava na minha garganta.
"Ela não fez por mal, Rory. Ela viu o anel. Isso desencadeou uma crise."
Eu olhei para ele então.
Olhei nos olhos do homem que governava o submundo, o homem que aterrorizava a polícia e os políticos. E não vi um monstro.
Vi um covarde.
"Ela jogou sopa fervendo em mim num restaurante de luxo, Ethan. Isso não foi uma crise. Foi uma agressão."
"Abaixe a voz."
"Não."
Deslizei da maca, segurando o fino avental de hospital contra o peito para me cobrir.
"Eu quero ir para casa."
"Você não pode ir para a mansão", disse ele.
Meu estômago revirou.
"Por quê?"
"Eu mudei a Aline para a ala de hóspedes. Ela precisa de supervisão constante. Os médicos dizem que há risco de fuga se ela ficar sozinha."
Eu ri.
Foi um som seco e quebradiço, como folhas mortas sendo esmagadas.
"Então sou eu quem sai. De novo."
"É para sua segurança, Aurora."
"Não use essa palavra", eu disparei.
Minha voz falhou.
"Não ouse falar comigo sobre segurança. Você é o subchefe. Você comanda um exército. Você protege carregamentos de drogas, cassinos e políticos. Mas não consegue proteger sua esposa de uma louca de um metro e sessenta?"
Ethan agarrou meu braço.
Seu aperto era de ferro.
"Cuidado com o que você fala. Aline é da família. O pai dela levou um tiro no lugar do meu. Eu devo minha vida a ela."
"E o que você me deve?", sussurrei.
Ele congelou.
Seus olhos buscaram os meus, procurando a garota submissa com quem ele se casou. Mas ela não estava mais lá.
Ela havia sido queimada junto com o vestido de seda.
"Eu te devo tudo", disse ele, com a voz rouca. "É por isso que estou te mandando para a cobertura nos Jardins. Você estará segura lá."
Ele soltou meu braço.
Verificou o relógio.
"Preciso voltar para ela. Ela acorda gritando se eu não estiver no quarto."
Ele se virou e saiu.
Deixou sua esposa ferida sozinha em uma clínica fria para ir segurar a mão da mulher que a queimou.
Olhei para a porta.
A fechadura não mantinha as pessoas do lado de fora.
Ela me mantinha dentro.
Em vez de ir para a cobertura, peguei um táxi direto para a mansão.
Era uma fortaleza de pedra e ferro, construída para resistir a cercos de famílias rivais, mas o verdadeiro inimigo já estava lá dentro.
Entrei pelas portas da frente, ignorando as expressões chocadas dos seguranças. Eles não ousaram me parar.
Eu ainda era a Dona, mesmo que meu marido me tratasse como uma amante.
A casa estava silenciosa.
Silenciosa demais.
Fui em direção à escadaria principal. No topo do patamar, a parede da galeria se estendia - um espaço que deveria estar coberto com nossas fotos de casamento. Eram grandes impressões em preto e branco do dia em que duas famílias do crime se uniram.
Agora, a parede estava nua.
As molduras jaziam estilhaçadas no chão de mármore abaixo, e o vidro estalava sinistramente sob meus saltos.
Olhei para cima.
Aline estava no topo da escada. Ela usava um dos meus robes de seda, parecendo um fantasma - pálida e sorridente.
"Achei que ficavam melhores aí embaixo", disse ela.
Sua voz ecoou no salão cavernoso.
"Saia da minha casa, Aline."
Ela inclinou a cabeça. "Ethan disse que esta é a minha casa agora. Ele disse que você ia ficar fora por muito tempo."
A raiva, quente e ofuscante, inundou minhas veias.
Comecei a subir as escadas, de dois em dois degraus. Eu não me importava com a fragilidade dela. Não me importava com o pai morto dela. Eu ia arrastá-la para fora pelos cabelos.
Quando cheguei ao patamar superior, Aline não recuou.
Em vez disso, ela deu um passo à frente.
Colocou as mãos nos meus ombros. Seu aperto era surpreendentemente forte.
"Você está no caminho", ela sussurrou.
Então, ela empurrou.
Não foi um tropeço. Foi um empurrão calculado e forte.
Meus saltos escorregaram no mármore polido, e a gravidade assumiu o controle.
Eu caí para trás.
O mundo girou.
Minhas costas bateram na borda de um degrau com um estalo medonho.
Minha cabeça bateu contra o corrimão.
Eu rolei escada abaixo, uma boneca de pano de membros e dor, finalmente caindo sobre os cacos das minhas próprias fotos de casamento no final.
Fiquei deitada no chão frio enquanto a escuridão se insinuava nas bordas da minha visão. Eu não conseguia mover minhas pernas.
Através da névoa, vi a porta da frente se abrir.
Ethan entrou.
Ele parou abruptamente.
Olhou para mim, quebrada e sangrando no chão, antes de desviar o olhar para o topo da escada.
Aline estava gritando, lágrimas falsas escorrendo pelo rosto.
"Ela escorregou! Ethan! Ela tentou me bater e escorregou!"
Ethan olhou de volta para mim.
Ele não correu para verificar meu pulso.
Em vez disso, pegou o celular.
"Apague as fitas de segurança do salão principal", ordenou ao aparelho.
Então ele olhou para seu chefe de segurança.
"Pegue o carro. Precisamos tirar a Aline daqui antes que a polícia chegue."
Sem um segundo olhar, ele passou por cima do meu corpo para chegar até ela.