Para salvar meu pai e a galeria de arte da nossa família, fui forçada a me casar com o impiedoso Caio Almeida. Ele me tratava como uma mercadoria, seu coração pertencia apenas a outra mulher, Eva.
Quando meu pai precisou de uma cirurgia de vida ou morte, Caio me fez uma oferta cruel. Para conseguir o dinheiro, eu teria que beber um licor ao qual eu era mortalmente alérgica durante um jogo de pôquer de apostas altíssimas.
Eu bebi e quase morri. Acordei no hospital e descobri que o dinheiro nunca foi enviado. Meu pai estava morto.
Caio me abandonou para ir atrás de Eva e, mais tarde, me trocou com um juiz lascivo como se eu fosse um objeto. Minha vida, a vida do meu pai... tudo valia menos que a obsessão dele.
Mas então eu encontrei a prova. A mãe dele havia orquestrado tudo: a ruína da minha família, o assassinato do meu pai. Minha dor se transformou em gelo.
Das sombras, comecei a transmitir para o mundo cada um dos crimes da família Almeida.
Capítulo 1
Ponto de Vista de Isabela Ferraz:
No dia em que me entregaram o contrato de casamento, a galeria do meu pai, aquela mergulhada em gerações do legado dos Ferraz, estava por um fio, assim como meu próprio coração. Eu vi a tinta preta e brilhante manchando o papel impecável, uma promessa sombria de um futuro que eu não escolhi. Era uma troca fria e dura: minha liberdade pela obra da vida dele.
Caio Almeida não era apenas um homem; ele era uma estátua de gelo, com arestas cortantes, o herdeiro de um império construído sobre os sonhos esmagados de outros. Ele me olhou naquele dia não com desdém, mas com total indiferença, como se eu fosse uma mosca particularmente irritante que ele desejava que simplesmente desaparecesse. Seu verdadeiro olhar, eu sabia, estava sempre reservado para Eva Dantas, a socialite etérea cuja imagem estampava todas as colunas sociais de São Paulo. Ela era o sol dele, e eu era apenas uma sombra forçada a ficar em seu lugar.
Sua mãe, Clarice Almeida, sentou-se à nossa frente, uma predadora em um colar de pérolas de grife, seu sorriso afiado como uma navalha recém-amolada. Ela orquestrou toda essa farsa, essa união forçada, com a precisão arrepiante de uma mestra de marionetes. Ela queria a galeria da nossa família e queria que Caio solidificasse ainda mais o nome Almeida. Eu era apenas um peão.
Então o impossível aconteceu, uma ironia perversa que só o destino poderia conjurar. Eva, sua suposta alma gêmea, fugiu com outro homem. Ela se casou em segredo, com outra pessoa, desaparecendo da vida dele tão subitamente quanto um sussurro ao vento. Eu vi a manchete da notícia, uma reviravolta cruel que fez meu estômago revirar.
Caio, cego de raiva e dor, foi atrás dela. O carro dele capotou numa estrada escorregadia pela chuva, um destroço tão estilhaçado quanto seu coração. Ele sobreviveu, mas uma parte dele morreu naquele dia, e ele me culpou por isso. Ele precisava de um bode expiatório, alguém para canalizar sua fúria, e eu, sua noiva relutante, estava perfeitamente posicionada.
Minha vida se tornou uma transação. Meu valor era meticulosamente calculado, cada momento com um preço atribuído. Não era mais apenas sobre o dinheiro; era sobre a humilhação, o lembrete constante de que eu não era nada mais que uma mercadoria.
O primeiro ano do nosso casamento foi um borrão de tarefas exaustivas e ingratas. Eu recebia uma ninharia para esfregar o chão, polir a prata e organizar cômodos que pareciam completamente estranhos para mim. Um dia, um caco de vidro de um vaso quebrado cortou minha mão profundamente. Caio viu o sangue, mal olhou e me lembrou que o desleixo custava dinheiro. Eu apenas cerrei os dentes e continuei limpando.
No segundo ano, a situação piorou. Ele me forçou a tocar em seus eventos corporativos, minha música reduzida a ruído de fundo para seus sócios predadores. Minhas mãos, antes ágeis com o arco do violoncelo, tremiam enquanto eu tocava para homens que me viam apenas como mais um luxo do império Almeida. Uma vez, um convidado bêbado agarrou meu braço, torcendo-o até eu gritar. Caio, do outro lado da sala, simplesmente ergueu sua taça, um aviso frio e silencioso para não fazer cena. Meu pulso doeu por semanas.
Então veio o terceiro ano, e o verdadeiro terror começou. Uma ligação do hospital. Meu pai. Ele precisava de uma cirurgia de vida ou morte, uma quantia impossível de dinheiro. Meu mundo se resumiu a esse fato aterrorizante.
Eu fui até Caio. Engoli meu orgulho, entrei em seu escritório e implorei. Minha voz era um sussurro desesperado. Seus olhos, frios e vazios, olhavam além de mim, através de mim.
Ele se recostou em sua cadeira de couro, um sorriso cruel brincando em seus lábios.
"Você quer dinheiro, Isabela? Prove seu valor. Ganhe."
Meu estômago despencou.
"Como?"
"Jogo de pôquer hoje à noite. Apostas altas. Você joga. Se ganhar, o dinheiro é seu."
Senti uma tontura, minha cabeça latejando.
"Caio, eu... eu não estou me sentindo bem. Tenho alergias. Não consigo... lidar com nada hoje à noite."
Ele zombou, seu olhar endurecendo.
"Ah, alergias? Essa é a sua desculpa? Ou você está apenas tentando evitar suas obrigações de novo, como evitou ser a Eva?"
Suas palavras eram um chicote.
"Você é sempre fraca, sempre dando desculpas. A vida do seu pai depende disso, Isabela. Você é tão inútil assim?"
A acusação me atingiu, suas palavras ecoando a mentira que eu contava a mim mesma todos os dias para sobreviver. Fechei os olhos, uma batalha silenciosa travando dentro de mim. Meu pai. A vida dele.
"Tudo bem", sussurrei, a única palavra uma rendição, uma sentença de morte.
Naquela noite, na mesa de pôquer, o ar estava denso com fumaça de charuto e o cheiro de uísque caro. Minhas alergias já estavam atacando, minha garganta se fechando. Caio observava do outro lado da sala, um copo de líquido âmbar na mão. Ele colocou uma garrafa do meu alérgeno, um licor potente, bem na minha frente.
"Vira, Isabela. As apostas são altas hoje."
Peguei o copo, minha mão tremendo. O líquido âmbar brilhava, um cálice envenenado. O rosto do meu pai passou diante dos meus olhos. Respirei fundo e bebi.
O primeiro gole queimou. O segundo, uma onda de calor. No terceiro, minha garganta estava se fechando, minha visão embaçando. Bati o copo na mesa, meu corpo se contorcendo, convulsionando. Meu peito se apertou, cada respiração uma luta. Eu podia sentir a erupção na minha pele, minhas vias aéreas se contraindo. As cartas se embaralharam, os rostos ao meu redor se torceram em máscaras grotescas. Eu estava me afogando, sufocando. Meu corpo bateu contra a mesa, espalhando as fichas. Uma dor aguda e lancinante me atravessou.
Caio se levantou, um brilho estranho em seus olhos. Era preocupação? Arrependimento? Desapareceu tão rápido quanto apareceu, substituído por uma máscara de controle frio.
"Isabela, o que você está fazendo?" Sua voz estava carregada de raiva, não de preocupação. "Recomponha-se. Você está fazendo uma cena."
Eu arquejei, cada respiração um ruído em meu peito, meu corpo gritando em agonia.
"O dinheiro", engasguei, minha voz mal um coaxar. "Você prometeu... meu pai..."
Um telefone vibrou em sua mão. Seus olhos correram para a tela, e uma nova expressão, algo parecido com esperança desesperada, tomou conta de seu rosto. Ele olhou para mim, depois para o telefone, depois de volta para mim.
"Eu resolvo isso", ele murmurou, já se afastando, de costas para minha forma em colapso. "Apenas... resolva isso."
Minha visão se afunilou. Uma dor lancinante rasgou meu abdômen. Minha cabeça bateu no chão com um baque surdo. A escuridão me consumiu.
Acordei em um quarto branco e estéril, o bipe rítmico das máquinas minha única companhia. Meu corpo doía, cada músculo gritando em protesto. Uma enfermeira, com o rosto marcado pelo cansaço, explicou a grave hemorragia interna, a reação alérgica quase fatal.
"Você tem sorte de estar viva, Sra. Almeida."
Forcei um sorriso fraco. Pelo menos eu tinha o dinheiro. Meu pai estaria seguro.
"Os fundos", murmurei. "Foram transferidos? Para o meu pai?"
Os olhos da enfermeira se suavizaram com pena.
"Sinto muito, querida. Não houve transferência. Seu pai... ele faleceu na noite passada."
As palavras me atingiram como um golpe físico, roubando o ar dos meus pulmões. Não. Não podia ser. Caio. Ele prometeu.
Arranhei os lençóis, lágrimas escorrendo pelo meu rosto.
"Não! Preciso ligar para ele! Ele tem o dinheiro!"
A enfermeira me conteve gentilmente.
"Ele não atendeu nenhuma de nossas ligações. Tentamos por horas."
Meu coração se partiu em um milhão de pedaços. Ele me traiu. Ele me deixou para morrer, e deixou meu pai morrer também.
Finalmente consegui falar com seu assistente, uma voz trêmula do outro lado.
"O Sr. Almeida não está disponível. Ele está... com a Srta. Dantas. Ela voltou, sabe."
Então a voz de Caio, fria e distante, cortou a linha.
"Isabela? Ainda viva? Bom para você. E daí?"
"Meu pai!", gritei no telefone, minha voz rouca de dor e raiva. "Você nunca mandou o dinheiro! Ele morreu!"
Uma longa pausa. Então, um suspiro.
"Ah, isso. Certo. Prioridades, Isabela. A Eva precisava de mim. De qualquer forma, te mandei uma coisa. Um símbolo da minha... apreciação. Acabei de assinar a transferência. Um trocado, na verdade. Mas deve dar para o funeral, talvez."
A linha ficou muda. O "trocado" caiu na minha conta - uma quantia tão insultuosamente pequena que não cobria nem a cremação mais básica. Ele valorizava a presença fugaz de Eva mais do que a vida do meu pai, mais do que minha agonizante quase morte. Meu mundo acabou naquele dia.
Ponto de Vista de Isabela Ferraz:
"Um trocado, na verdade. Mas deve dar para o funeral, talvez." As palavras de Caio ecoavam em meus ouvidos, uma cruel canção de ninar de traição. Ele me ofereceu menos que nada pela vida do meu pai, uma ninharia tão miserável que parecia uma ferida nova.
Apenas algumas horas depois, eu vi - uma enxurrada de posts nas redes sociais. Caio havia comprado para Eva Dantas um Porsche 911 Targa clássico, um testemunho reluzente de sua devoção, que diziam valer milhões. A foto a mostrava, uma mão delicada repousando no capô polido, um sorriso tímido brincando em seus lábios. "Ah, Caio, você não devia", dizia a legenda dela, seguida por uma série de emojis de coração. "Você sabe que não ligo para bens materiais, mas este gesto... diz muito sobre seu coração."
Suas palavras foram uma nova facada, um testamento do abismo entre o valor percebido dela e a vida do meu pai. Caio, em sua lógica perversa e distorcida, havia declarado abertamente: um carro, uma bugiganga, valia mais que uma vida humana, mais que o homem que me amou incondicionalmente.
Uma compreensão profunda e desoladora se instalou em mim. No mundo deles, a vida era barata, facilmente descartada, enquanto gestos superficiais e metal reluzente tinham um valor imensurável. A certidão de óbito do meu pai parecia pesada em minhas mãos, um contraste gritante com a alegria frívola que emanava da persona online cuidadosamente curada de Eva.
O médico legista ligou, sua voz gentil. Ele me informou que meu pai, um homem de dignidade silenciosa, havia recusado o tratamento antes do que eu sabia. Ele escolheu partir, sabendo da enorme dívida que pesava sobre meus ombros, na esperança de me poupar de mais sofrimento. A culpa era um cobertor sufocante. Ele morreu por mim, pensando que isso me libertaria, e eu nem sequer consegui salvá-lo.
Lembrei-me da vida que eu havia colocado em espera por ele, a bolsa de estudos da faculdade de artes recusada, a carreira musical adiada, tudo para manter a galeria funcionando, para manter seu legado vivo. Eu havia sacrificado meus sonhos pelos dele, e ele, por sua vez, havia sacrificado sua vida pela minha. O ciclo de dor parecia interminável.
Mas algo mudou dentro de mim. A dor, a culpa, a agonia crua e lancinante, começaram a se calcificar. Endureceu-se em uma determinação fria e focada. Eu não era mais apenas uma vítima. Eu era uma sobrevivente, e devia ao meu pai viver, viver de verdade, e fazer aqueles que nos prejudicaram pagar.
Calculei meticulosamente cada centavo devido aos Almeidas, cada pagamento humilhante, cada apresentação forçada. Eu os pagaria de volta, até o último centavo. Então eu iria embora, uma mulher livre, desvinculada de seus contratos cruéis e jogos distorcidos. Eu me prepararia para minha fuga, silenciosa e invisível.
Enquanto isso, a reconciliação de Caio e Eva se tornou um espetáculo público. Suas fotos cuidadosamente encenadas enchiam meu feed - jantares à luz de velas, caminhadas em praias particulares, mãos entrelaçadas. "O amor verdadeiro sempre encontra o caminho de volta", declarava uma legenda. Meu estômago revirava.
O estresse, a dor, o abuso implacável, cobraram seu preço. Meu corpo, já frágil pela reação alérgica, começou a falhar. Eu tossia constantemente, um som profundo e rouco que rasgava meus pulmões. Meu peito parecia apertado, meus membros pesados.
Eva, sempre a intelectual, postava sobre sua "jornada de autodescoberta", sua "busca por iluminação filosófica". Ela compartilhava fotos de si mesma, um livro na mão, um olhar pensativo no rosto, sempre em um cenário perfeitamente curado. A hipocrisia era nauseante.
Outra emergência médica. Desta vez, uma infecção pulmonar grave, consequência do meu sistema imunológico enfraquecido. Eu estava em outra cama de hospital, o bipe familiar das máquinas um conforto mórbido. Meu corpo era um campo de batalha, marcado e cansado.
Eva, alheia ou indiferente, continuava sua farsa. "O desapego dos desejos mundanos é o caminho para a paz interior", ela escreveu, sob uma foto de si mesma meditando em um iate. Suas palavras eram uma zombaria amarga da minha realidade.
Finalmente, o dia chegou. Eu havia economizado o suficiente. Entrei no escritório impecável de Clarice Almeida, um cheque branco e nítido apertado em minha mão trêmula.
"Aqui", eu disse, minha voz firme apesar do tremor em minha alma. "Cada centavo que devo à sua família. Estamos quites."
Clarice, com seus olhos afiados, pegou o cheque. Ela olhou para mim, um brilho de algo que eu não conseguia decifrar em seu olhar.
"Nos deixando, Isabela?", ela perguntou, sua voz surpreendentemente suave. "Porque a Eva voltou?"
"Porque eu cansei", respondi, a verdade simples e brutal. "Cansei dos seus jogos. Cansei do seu filho. Cansei desta vida."
Ela assentiu lentamente.
"Sabe, sua avó e eu éramos amigas de infância. Viemos de origens semelhantes. A Galeria Ferraz, já foi um farol de integridade. Sempre admirei sua família."
Uma expressão estranha, quase melancólica, cruzou seu rosto, uma rachadura momentânea em sua fachada gelada.
"Este... este casamento, era para selar uma aliança poderosa. Pensei que beneficiaria a todos. Suponho que eu estava errada."
Meu coração martelava contra minhas costelas. Amiga de infância? Uma aliança poderosa? Do que ela estava falando? Mas eu ignorei. Não importava agora.
Virei-me e saí, deixando a gaiola dourada para trás. As pesadas portas de carvalho se fecharam, selando meu passado. O ar fresco encheu meus pulmões, frio e limpo. Eu estava livre. Pisei na luz do sol, minha visão momentaneamente cega por seu brilho. Uma nova vida. Um novo começo.
Então, uma dor súbita e aguda. Uma mão tapou minha boca, outra torceu meu braço para trás. A escuridão desceu, rápida e absoluta.
Ponto de Vista de Isabela Ferraz:
Minha cabeça latejava. O mundo girava. Tentei me mover, mas meus pulsos e tornozelos estavam amarrados, roçando em uma corda áspera. O pânico arranhou minha garganta. Onde eu estava? O que estava acontecendo?
Uma voz familiar cortou a névoa.
"Olha o que o gato trouxe, Caio."
Meus olhos se abriram de repente. Caio Almeida estava ao lado de uma chaise longue, seu rosto uma máscara de aborrecimento. Ao lado dele, envolta em seda, estava Eva Dantas, suas feições perfeitas torcidas em um olhar de falsa preocupação.
"Caio?", murmurei, minha voz rouca pelo desuso. "O que é isso? Por que estou amarrada?"
Ele suspirou, passando a mão por seu cabelo perfeitamente penteado.
"Não se faça de inocente, Isabela. Você tentou fugir. Mas nós temos... certas obrigações a cumprir."
Obrigações? Minha mente disparou.
"Do que você está falando?"
Eva riu, um som que irritou meus nervos em carne viva.
"Ah, querida, você é a mercadoria, lembra? Uma muito útil, aparentemente."
Meu sangue gelou.
"Mercadoria? O que vocês fizeram?"
O olhar de Caio era frio.
"Você foi trocada, Isabela. Um acordo de negócios. Pela estabilidade do império Almeida, é claro."
Trocada. Como uma ação. Como um móvel.
"Para quem?"
O sorriso de Eva se alargou, revelando um lampejo de malícia genuína.
"Para alguém que aprecia... ativos únicos. Alguém que está esperando por você há muito tempo. O Juiz Medeiros."
Medeiros. O nome enviou um arrepio de puro terror pela minha espinha. O homem lascivo e cruel que orbitava os negócios de Caio como um abutre, seus olhos sempre se demorando em mim por tempo demais. Ele teve um papel na ruína da minha família, um peão menor no grande esquema de Clarice, mas um predador mesmo assim.
"Não", sussurrei, a palavra um apelo desesperado. "Você não pode. Ele não."
Caio deu de ombros, como se estivesse discutindo o tempo. Eva simplesmente se abanou com uma mão delicada, sua expressão entediada.
"Qual é o problema, Isabela? São apenas negócios. Sua reputação, sua vida... é tudo apenas moeda de troca neste mundo."
Seu dedo perfeitamente manicureado tocou um colar de diamantes. *Isso* é valor real, seus olhos diziam. *Você* não é.
Caio assentiu.
"A Eva está certa. É sobre proteger o que é nosso. Seu... infeliz incidente... com o Medeiros poderia ter sido complicado. Este acordo limpa as coisas."
Uma percepção profunda e doentia me atingiu. Eles não eram apenas cruéis; eles eram verdadeiramente, profundamente maus. Não havia fundo para a depravação deles. Isso não era mais sobre dinheiro ou poder para eles; era sobre controle, sobre me desumanizar completamente.
Engoli em seco, um plano se formando em minha mente.
"Por favor, Caio", eu disse, minha voz cuidadosamente modulada para soar derrotada, desesperada. "Não me deixe com ele. Eu faço qualquer coisa. Por favor."
Fixei meu olhar nele, tentando projetar submissão total.
Um brilho de algo em seus olhos - pena? Arrependimento?
"Vou garantir que você seja... compensada, Isabela. Mais tarde. Apenas... coopere por enquanto."
Suas palavras eram ocas, sem sentido. Meu pai me ensinou isso.
Meu pai. A memória dele, suas mãos gentis, seu sorriso cansado, alimentou um fogo frio em meu ventre. Ele morreu acreditando que estava me libertando. Ele não teria morrido em vão.
A porta rangeu ao se abrir, e o Juiz Medeiros entrou pesadamente, seu olhar predatório e possessivo. Um sorriso grotesco se espalhou por seu rosto, seus olhos se demorando em minha forma amarrada.
"Ah, a adorável Isabela. Toda minha, ao que parece."
Caio colocou um pequeno pássaro de madeira, primorosamente esculpido, sobre a mesa.
"Conforme nosso acordo, Juiz. Uma peça rara, de fato."
O pássaro. Minha vida por uma bugiganga.
Caio e Eva se viraram para sair, já de costas para mim.
"Caio!", gritei, minha voz rouca e desesperada. "Não me deixe!"
Ele parou, mas não se virou. Eva puxou seu braço, sussurrando algo em seu ouvido. Ele assentiu, e eles continuaram pela porta, o clique da fechadura ecoando na sala cavernosa.
Medeiros avançou, seus passos pesados sacudindo o chão. Seus olhos, escuros e famintos, me devoraram.
"Agora, minha querida Isabela", ele ronronou, sua voz viscosa. "Vamos discutir seu passado... e seu futuro."
Ele desabotoou o cinto, um sorriso lascivo no rosto.
"Você sempre foi orgulhosa demais, pura demais. Vou arrancar isso de você."
Ele se lançou. Suas mãos, grossas e calejadas, agarraram meu braço, me puxando bruscamente da cadeira. A corda cortou minha pele. Gritei, me debatendo, meus membros amarrados inúteis. Ele me deu um tapa, uma dor aguda e ardente no meu rosto.
"Ainda lutando? Bom. Gosto de um desafio."
Minha mente disparou. Eu não podia deixar. Eu não iria. Meu pai não morreu para isso. Com uma onda desesperada de adrenalina, chutei, acertando-o em cheio na virilha. Ele ofegou, me soltando, agarrando-se, o rosto contorcido de dor. As cordas estavam frouxas, arranhando, mas eu tinha folga suficiente. Lutei, torcendo minhas mãos, rasgando as fibras ásperas.
A porta se abriu com um estrondo. Dois guardas enormes entraram correndo.
"Juiz! O que aconteceu?"
Medeiros, ainda curvado, apontou um dedo trêmulo para mim.
"Ela me atacou! Não a deixem sair!"
Meu coração afundou. Sem escapatória. Os guardas se moveram para bloquear as janelas, a única outra saída. Mas uma pequena varanda alta dava para um pátio abaixo. Era uma queda perigosa, mas era minha única chance.
Com um grito primal, me lancei sobre o parapeito. A queda foi um borrão vertiginoso, o chão correndo para me encontrar. Fechei os olhos com força, preparando-me para o impacto.