Eu era a filha do pescador mudo que se casou com o Rei do Rio, apenas para me tornar sua prisioneira.
Dante Vitiello não me amava; ele usava meu silêncio como uma arma e deixava sua amante, Valeria, mandar na minha casa.
Quando Valeria se envenenou para me incriminar, Dante não procurou a verdade.
Ele drenou meu sangue para salvar a vida dela, depois me jogou numa masmorra congelante para apodrecer entre os ratos.
Ele planejava se casar com ela enquanto eu tremia no escuro, me dizendo que eu não passava de lixo da sarjeta.
Sem voz para gritar e sem ter como lutar, eu escolhi a única saída que me restava.
Engoli um frasco de veneno letal de baiacu, trocando minha vida por um coma que imitava a morte.
Eu queria assombrá-lo. Eu queria que meu corpo frio fosse sua punição.
Mas quando acordei, um ano depois, o mundo tinha mudado.
Eu não estava no inferno. Estava numa clínica, e Dante estava caído no chão com uma bala na cabeça.
Ele tinha descoberto a verdade tarde demais.
Para me acordar, ele aceitou um jogo mortal de roleta-russa.
Assinou nossos papéis de divórcio com a mão firme, depois puxou o gatilho para comprar minha liberdade.
O monstro estava morto.
E, pela primeira vez, o silêncio era meu.
Capítulo 1
Sienna POV
A transmissão ao vivo na tela de sessenta polegadas estava granulada, mas a imagem era nítida o suficiente para parar meu coração.
Meu pai estava de joelhos.
Minha mãe, ao lado dele.
Estavam amarrados com enforca-gato, os tornozelos presos a blocos de concreto, balançando na beira do cais enferrujado onde passei minha infância limpando sardinhas.
"Olhe para eles, Sienna."
Dante Vitiello não gritou.
Ele não precisava.
Como o Chefão dos Chefões das famílias do Rio, seu sussurro carregava mais peso que um tiro.
Eu estava parada no centro de seu escritório de mogno, minhas mãos tremendo ao lado do corpo.
Eu não conseguia gritar.
Eu não falava uma palavra desde os seis anos, desde o dia em que vi uma gangue rival cortar a língua do meu tio.
Dante sabia disso.
Ele usava meu silêncio como uma arma.
Ele contornou sua mesa, seu terno italiano desenhando uma silhueta afiada contra o horizonte da cidade.
Ele cheirava a uísque caro e ao cheiro frio e metálico da violência.
"Você tem sido difícil ultimamente", ele disse, parando bem na minha frente. "Recusando-se a ir ao baile de gala. Recusando-se a aceitar a posição da Valeria nesta casa."
Ele estendeu a mão e colocou uma mecha do meu cabelo atrás da minha orelha.
Seu toque era gelo, mas queimava como uma marca de ferro.
"Valeria é da família", ele continuou, sua voz desprovida de empatia. "O pai dela controla os portos. Ela fica. Você aceita. Ou a imagem apaga."
Ele gesticulou para a tela.
No monitor, um soldado mascarado apontava uma pistola para a cabeça do meu pai.
Meu pai, um homem que cheirava a sal e suor, que pagava a Dante uma taxa de proteção toda semana só para poder respirar.
Eu gesticulei freneticamente, minhas mãos se movendo num borrão de desespero.
*Ela me humilha. Ela me trata como uma empregada na minha própria casa.*
Dante segurou meus pulsos.
Seu aperto era brutal, calando minha voz antes que eu pudesse terminar a frase.
"Você não é uma empregada", ele rosnou, seus olhos escuros cravados nos meus. "Você é uma Vitiello. Aja como tal. Orgulho é um luxo que você não pode ter quando seus pais estão no fundo da Baía de Guanabara."
A porta do escritório se abriu.
Valeria entrou.
Ela era linda de um jeito que revirava o estômago - afiada, polida e letal.
Alta, loira, cruel.
Ela usava um robe de seda que eu reconheci.
Era meu.
"Dante", ela ronronou, me ignorando completamente como se eu fosse parte da mobília. "Meu pai está perguntando sobre a carga."
Dante não soltou meus pulsos.
"Já está resolvido", ele disse a ela, os olhos ainda fixos em mim. "Sienna estava justamente concordando com nossos termos."
Ele olhou para a tela novamente.
"Abaixe a cabeça", ele ordenou.
Eu olhei para meus pais.
Minha mãe estava chorando, seus ombros tremendo mesmo através da imagem pixelada.
Senti a bile subir pela minha garganta.
Eu abaixei a cabeça.
Um movimento rígido e quebrado.
Dante me soltou.
"Boa menina."
Ele pegou o celular e digitou uma mensagem.
Na tela, o soldado abaixou a arma e deu um passo para trás.
Mas eles não cortaram os enforca-gato.
"Eles vão passar a noite aí", disse Dante, virando as costas para mim para servir uma bebida para Valeria. "Para te lembrar das consequências da desobediência."
Eu me virei e corri.
Corri para fora do escritório, pelo corredor de mármore que parecia mais um mausoléu do que um lar.
Consegui chegar ao banheiro e tranquei a porta.
Caí no chão, abraçando os joelhos contra o peito para não desmoronar.
Aceitar Valeria significava aceitar a morte por mil cortes.
Recusar significava a morte dos meus pais.
Não havia saída.
Não viva.
A menos que eu mudasse as regras.
Puxei meu celular descartável do bolso.
Minhas mãos tremiam tanto que o deixei cair duas vezes antes de conseguir desbloquear a tela.
Mandei uma mensagem para Gia.
*Preciso daquilo. O veneno de baiacu. Hoje à noite.*
A resposta veio três segundos depois.
*Tem certeza? Não tem volta.*
Olhei para meu reflexo no espelho.
Pele pálida, olhos fundos.
A filha do pescador mudo que pensou que poderia se casar com um Rei e sobreviver.
*Tenho certeza*, digitei de volta.
*Traga no portão dos fundos.*
Sienna POV
O ar da noite estava pesado de umidade, grudando na minha pele como uma segunda camada quando encontrei Gia perto da entrada de serviço.
Ela não disse uma palavra.
Apenas pressionou um frasco pequeno e frio na minha palma.
Parecia água.
Mas eu sabia que não era. Era morte líquida.
"Uma gota desacelera seu coração", ela sussurrou, seus olhos vasculhando a escuridão, procurando os guardas de Dante. "O frasco inteiro para. Você tem uma janela de quatro minutos antes de cair no chão."
Apertei a mão dela.
*Obrigada.*
Voltei para dentro da mansão, o frasco de vidro queimando um buraco fantasma no meu bolso.
Eu precisava escondê-lo.
Eu estava indo em direção ao meu quarto quando Valeria saiu das sombras.
Ela segurava uma taça de vinho tinto, girando o líquido escuro casualmente.
Ela sorriu, mas o sorriso não alcançou seus olhos.
"Onde você esteve, mudinha?", ela perguntou.
Tentei contorná-la.
Ela bloqueou meu caminho.
"Dante está no banho", disse ela, encostando-se na parede com uma facilidade ensaiada. "Ele me contou como você implorou por seus pais. Patético."
Trinquei o maxilar.
Levantei as mãos e gesticulei: *Saia do meu caminho.*
Ela riu.
"Senão o quê? Vai abanar as mãos para mim?"
Seus olhos se voltaram para o corredor, escutando.
De repente, ela jogou o vinho.
Não em mim.
Ela o arremessou na parede atrás dela.
O vidro se estilhaçou com o impacto. O líquido vermelho espirrou por toda parte, parecendo terrivelmente uma cena de crime.
Então ela gritou.
"Socorro! Dante! Ela está louca!"
Ela se jogou no chão em meio aos cacos de vidro, cortando deliberadamente a palma da mão em um estilhaço.
Passos pesados ecoaram pelo corredor.
Dante apareceu, uma toalha enrolada na cintura, a água ainda pingando de seu peito.
Ele viu o vinho. O vidro. Valeria sangrando no chão.
"Ela me trancou!", Valeria soluçou, apontando um dedo trêmulo para mim. "Ela tentou me empurrar para a adega e trancar a porta! Ela está com ciúmes, Dante! Ela está louca!"
Dante se virou para mim.
Seu rosto era uma máscara de calma aterrorizante.
Eu balancei a cabeça violentamente.
*Mentira*, gesticulei freneticamente. *Ela está mentindo.*
Dante nem sequer olhou para minhas mãos.
Ele olhou apenas para o sangue na palma de Valeria.
"Eu te disse para aceitá-la", ele disse, sua voz baixa e perigosa. "Eu te disse para se comportar."
Ele agarrou meu braço.
Ele não me arrastou para o quarto.
Ele me puxou pela cozinha, passando pelas bancadas de aço inoxidável, até a pesada porta industrial nos fundos.
A câmara frigorífica.
O negócio de fachada dos Vitiello era distribuição de frutos do mar.
A cozinha da mansão estava sempre abastecida.
Dante abriu a porta com um puxão.
Uma rajada de ar abaixo de zero me atingiu como um golpe físico.
Cheirava a ozônio e peixe morto.
Meu estômago revirou.
O cheiro me levou de volta ao cais. Às facas de escamar. Ao sangue sob minhas unhas que eu nunca conseguia limpar.
"Você gosta de agir como uma rata de esgoto?", Dante rosnou, me empurrando para dentro. "Então pode se refrescar com o resto do estoque."
Eu tropecei para trás, caindo sobre uma caixa de pescada congelada.
O frio atravessou meu fino vestido de seda instantaneamente, penetrando em meus ossos.
"Dante!", tentei gritar, mas apenas um soluço engasgado saiu.
Corri para a porta, batendo no metal.
Ele ficou do outro lado, imóvel.
"Pense em respeito, Sienna", ele disse.
Então ele bateu a porta pesada.
A trava clicou.
A escuridão me engoliu.
A única luz vinha do pequeno medidor de temperatura na parede.
Marcava -10 graus.
Encolhi-me em uma bola no chão de metal, tremendo violentamente.
O cheiro de peixe era sufocante.
Cobria minha língua.
Enchia meus pulmões.
Aqui dentro, eu não era a esposa do Chefão.
Eu era apenas a filha do pescador novamente.
Inútil.
Descartável.
Toquei o frasco no meu bolso.
Era a única coisa quente que restava no meu mundo.
Sienna POV
Duas horas depois, Rocco finalmente abriu a porta do freezer com um puxão.
Ele não me olhou nos olhos.
"O chefe mandou se arrumar. Vamos para o baile de gala."
Meus lábios estavam rachados e azuis.
Meus dedos eram garras dormentes, tão rígidos que mal consegui abotoar o vestido de grife que Dante havia deixado na cama.
Era branco.
Branco puro, inocente.
Parecia uma piada cruel.
O baile de caridade acontecia em um salão que fedia a dinheiro velho e corrupção - um espetáculo que custava mais do que o salário de uma vida inteira do meu pai.
A luz refratava em enormes lustres de cristal, dançando sobre torres de champanhe.
Para onde quer que eu olhasse, havia homens que matavam por dinheiro usando smokings que custavam trinta mil reais.
Dante prendeu a mão na minha cintura quando entramos.
Seu toque era quente, possessivo.
"Sorria", ele sussurrou no meu ouvido, seu hálito quente contra minha pele congelada. "Você está pálida."
Eu queria vomitar.
Valeria estava lá, é claro.
Ela estava envolta em seda vermelho-sangue.
Ela estava ao lado de seu pai, um Capo que controlava o porto do Rio, parecendo a realeza.
O leilão começou uma hora depois.
Era um "Leilão de Encontros de Caridade".
Homens ricos dando lances por danças com as mulheres elegíveis da Família.
Era tudo fachada. Lavagem de dinheiro com um sorriso.
Quando Valeria subiu ao palco, a sala ficou em silêncio total.
Ela sorriu, mandando um beijo para a multidão.
"Lance inicial de cinco mil", anunciou o leiloeiro.
"Dez mil", gritou uma voz.
"Vinte", disse outra.
Dante deu um passo à frente, se afastando do meu lado.
Ele levantou a mão.
"Cinco milhões."
A sala ofegou.
O silêncio se estendeu, pesado e sufocante.
O sorriso de Valeria se alargou em um sorriso vitorioso. Ela olhou diretamente para mim.
Dante não olhou para ela. Ele olhou para a multidão, desafiando qualquer um a desafiá-lo.
Ele estava marcando seu território.
E eu era apenas a mobília.
De repente, senti uma vibração na minha bolsa.
Depois outra.
Pela sala, os celulares começaram a acender como vaga-lumes.
Murmúrios se espalharam pela multidão, crescendo como uma maré que se aproxima.
As pessoas olhavam para suas telas, depois olhavam para mim.
Algumas estavam rindo.
Vi uma mulher perto de mim sussurrar para o marido, cobrindo a boca, mas não os olhos. Seus olhos eram zombeteiros.
Com os dedos trêmulos, peguei meu próprio celular.
Eu tinha uma notificação. Uma mensagem em massa enviada para todos na lista de convidados.
*A Pesca do Dia do Chefão.*
Abri o anexo.
Era uma foto minha de cinco anos atrás.
Eu usava um macacão de borracha, coberta de tripas de peixe, segurando uma faca de escamar. Meu cabelo estava emaranhado com sangue e lodo. Eu parecia selvagem. Pobre. Suja.
Abaixo, uma legenda: *Você pode tirar a garota da favela, mas não pode tirar o cheiro de peixe da garota.*
Deixei o celular cair.
A tela rachou no chão de mármore.
Eu olhei para cima.
Dante estava acompanhando Valeria para fora do palco.
Ele tinha a mão na base das costas dela.
Ele ainda não tinha visto os celulares.
Ou talvez tivesse.
E talvez não se importasse.
Eu estava ali, no meu vestido branco, cercada por diamantes e seda, e nunca me senti tão imunda em toda a minha vida.