Meu chefe me empurrou para dentro de uma sala para lidar com uma paciente VIP que ameaçava se matar. Era Evelyn Bittencourt, uma famosa influenciadora de moda, histérica por causa do noivo.
Mas quando ela, em prantos, me mostrou a foto do homem que amava, meu mundo desabou. Era meu marido há dois anos, Bento, um pedreiro gentil que encontrei depois que um acidente o deixou com amnésia. Só que, naquela foto, ele era Bernardo Lacerda, um magnata implacável, em pé na frente de um arranha-céu que levava seu nome.
Naquele exato momento, o verdadeiro Bernardo Lacerda entrou na sala, vestindo um terno que valia mais que o meu carro.
Ele passou por mim como se eu não existisse e envolveu Evelyn em seus braços.
"Amor, eu estou aqui", ele sussurrou, sua voz com o mesmo tom grave e reconfortante que usava comigo depois de um dia ruim. "Eu nunca mais vou te deixar. Eu prometo."
Ele tinha me feito essa exata promessa centenas de vezes.
Ele beijou a testa dela, declarando que só a amava - uma performance para uma única espectadora: eu. Ele estava me mostrando que todo o nosso casamento, nossa vida juntos durante sua amnésia, era um segredo a ser enterrado.
Enquanto a carregava para fora da sala, seus olhos gelados encontraram os meus uma última vez.
A mensagem era clara: Você é um problema a ser eliminado.
Capítulo 1
A primeira coisa que ouvi quando entrei na clínica foi o som de uma mulher gritando. Não era um grito de dor, mas de pura raiva, sem qualquer controle. O tipo de raiva que deixa o ar pesado.
Coloquei minha bolsa na minha mesa, o cheiro familiar de antisséptico e papel velho um contraste estranho com o caos que vinha do corredor.
"O que está acontecendo?", perguntei à minha colega, Sara, que espiava nervosamente de sua sala.
"É melhor nem perguntar", ela sussurrou, com os olhos arregalados. "É uma VIP. Peixe grande."
Um barulho agudo de algo se quebrando veio em seguida, o som de vidro se estilhaçando contra a parede. Os gritos se intensificaram.
"Ele é MEU! Eu me mato antes de deixar ele ir!"
Caminhei em direção ao som. Na maior sala de consulta, uma jovem em um vestido de grife estava em pé numa cadeira, segurando um caco de um vaso quebrado contra a própria garganta. Seu rosto estava manchado de lágrimas, a maquiagem cara, um borrão. Ela era linda, mas naquele momento, parecia um animal encurralado.
"Alice, graças a Deus", disse meu chefe, Dr. Matos, correndo até mim. Ele estava pálido. "Você tem que resolver isso."
Ele me empurrou para frente. "Ela é Evelyn Bittencourt. A influenciadora de moda. A equipe dela ligou. Disseram que ela só falaria com uma terapeuta mulher, e você é a melhor que temos."
Evelyn Bittencourt. O nome era vagamente familiar das capas de revista no supermercado.
"E ela está aqui por causa do noivo", Dr. Matos acrescentou, em voz baixa. "O único, o inigualável Bernardo Lacerda."
Meu coração parou.
Bernardo Lacerda.
O nome do meu marido é Bento Lacerda. Ele é pedreiro. É simples, gentil e me ama mais do que tudo. Moramos num apartamento pequeno na Zona Leste.
Tinha que ser uma coincidência. Lacerda é um sobrenome comum. Bernardo, nem tanto, mas ainda assim, possível.
Tentei dizer a mim mesma que era só isso, para afastar a sensação fria que se espalhava pelo meu peito. Era só um nome. Uma coincidência estúpida e sem sentido.
Dr. Matos enfiou uma pasta nas minhas mãos. "Aqui estão as informações dela. Boa sorte."
Abri a pasta. Minhas mãos tremiam. Em "Nome do Noivo", estava impresso em letras frias e oficiais: Bernardo Lacerda.
Minha respiração ficou presa na garganta. Senti o sangue sumir do meu rosto.
Forcei-me a manter a postura profissional. Sou terapeuta. Lido com crises. Respirei fundo, alisei meu vestido de trabalho simples e entrei na sala.
"Evelyn", eu disse, minha voz calma, embora por dentro eu estivesse gritando. "Meu nome é Alice. Podemos conversar?"
No momento em que ela me viu, sua energia frenética mudou. O olhar selvagem em seus olhos se suavizou para uma vulnerabilidade infantil. Ela largou o caco de vidro, que caiu no chão com um barulho seco.
"Alice", ela choramingou, descendo da cadeira. Ela correu na minha direção e se jogou nos meus braços, soluçando no meu ombro. "Você tem que me ajudar."
Eu a segurei, meu corpo rígido. Ela se agarrou a mim como uma criança, todo o seu comportamento gritando por uma vida onde sempre conseguiu o que queria.
Ela se afastou, limpando as lágrimas com as costas da mão. "É o Bernardo. Ele tem estado tão distante ultimamente."
Ela pegou o celular, os dedos deslizando pela tela. "Olha", disse ela, mostrando-o para mim. "Somos nós. Não somos perfeitos juntos?"
A foto mostrava Evelyn beijando a bochecha de um homem em um terno perfeitamente cortado. Ele sorria, seus olhos se enrugando de um jeito que era dolorosamente familiar.
Era o meu Bento.
Não, era Bernardo Lacerda. E ele estava em pé na frente de um arranha-céu com o logo do Grupo Lacerda estampado nele.
"Ele me ama tanto", Evelyn se gabou, sua voz ganhando força. "No meu último aniversário, ele me comprou uma ilha particular. Ele disse que faria qualquer coisa por mim, que me daria o mundo inteiro."
Meu mundo estava girando. O chão parecia estar sumindo sob meus pés.
"Mas algo mudou há alguns meses", ela continuou, seu rosto se nublando novamente. "Desde que ele voltou. Ele ficou desaparecido por um tempo, sabe. Dois anos. Ele sofreu algum tipo de acidente, perdeu a memória. Quando finalmente voltou, ele estava... diferente. Mais frio."
Dois anos.
O tempo exato que eu estava casada com o Bento.
A verdade me atingiu com a força de um soco. Tirou o ar dos meus pulmões, deixando um vazio oco e dolorido.
Meu Bento. Meu marido amoroso e simples era Bernardo Lacerda, o implacável magnata do mercado imobiliário. E eu era o segredo que ele manteve durante seus dois anos de amnésia.
Uma memória brilhou em minha mente, nítida e clara.
Dois anos atrás. Uma noite chuvosa. O metal retorcido de um acidente de carro numa estrada deserta. Eu estava voltando para casa de uma sessão tardia quando vi. Parei o carro, meu coração batendo forte. Eu o encontrei inconsciente, sangrando por um ferimento na cabeça. Ele não tinha documentos, nem celular. Apenas as roupas do corpo.
Sou terapeuta, não médica, mas sabia que ele precisava de ajuda. Levei-o ao postinho de saúde mais próximo. O diagnóstico veio: traumatismo craniano grave, resultando em amnésia total.
Ele não sabia quem era, de onde vinha, nada. Era como uma criança no corpo de um homem, perdido e assustado. Senti uma onda de compaixão por ele. Eu não podia simplesmente abandoná-lo. A polícia não tinha pistas. Ele não tinha para onde ir.
Então, eu o levei para casa.
Eu o chamei de Bento. Era o nome do meu pai. Simples, forte.
No pequeno espaço do meu apartamento, um novo mundo nasceu. Ele era tão dependente de mim, tão grato. Seus olhos me seguiam por toda parte. Ele aprendeu tudo de novo, e eu fui sua professora, sua guia, sua única ligação com um mundo do qual ele não se lembrava.
Nossa conexão cresceu rápida e profunda. Ele era tão aberto, tão vulnerável. Sem o peso de um passado, ele era puro afeto. Ele me disse que sentia como se tivesse nascido no dia em que o encontrei.
Ele aprendeu a cozinhar para mim. Ele arrumou um emprego numa obra aqui perto, orgulhoso de chegar em casa com as mãos calejadas e sujas, ganhando dinheiro para nós. Ele economizava por semanas para me comprar uma única rosa, perfeita.
Ele me amava com uma ferocidade que era de tirar o fôlego. Ele me dizia que eu era seu sol, sua lua, seu céu inteiro. Ele disse que mesmo que nunca recuperasse a memória, não se importaria, porque sua vida começou comigo.
Seis meses depois que o encontrei, ele me pediu em casamento. Ele não tinha um anel, apenas uma pedrinha lisa que encontrou perto do rio. Ele se ajoelhou na nossa pequena sala de estar, seus olhos brilhando com lágrimas.
"Alice", ele disse, a voz embargada de emoção. "Eu não tenho um passado, mas sei que quero que todo o meu futuro seja com você. Case-se comigo."
Eu disse sim sem hesitar por um segundo.
Tivemos uma cerimônia simples no cartório. Apenas nós dois. Foi o dia mais feliz da minha vida.
Nosso primeiro ano de casamento foi um turbilhão de paixão e alegrias simples. Não tínhamos muito dinheiro, mas tínhamos um ao outro. Éramos inseparáveis. Ele me idolatrava, e eu o adorava.
Então, cerca de três meses atrás, ele me disse que precisava viajar a "trabalho". Ele foi vago, disse que era um grande projeto de construção em outro estado. Ele ficou fora por uma semana.
Quando voltou, estava diferente. A mudança foi sutil no início. Ele estava mais reservado, menos afetuoso fisicamente. Parou de me chamar pelos apelidos que havia inventado. Disse que estava apenas cansado do trabalho.
Agora eu vejo tudo. Aquele "trabalho" não era um trabalho. Era sua memória voltando. Era ele voltando para sua vida real. Para a vida de Bernardo Lacerda.
E nossa vida, nosso casamento, foi apenas uma parada temporária no caminho. Um segredo. Um inconveniente.
Evelyn ainda estava falando, mas sua voz era um zumbido distante. Tudo o que eu conseguia sentir era a realidade fria e dura desabando sobre mim.
"Você está me ouvindo?", Evelyn perguntou, parecendo irritada. Ela cutucou meu braço. "Seus olhos estão vermelhos. Está chorando por mim? Você deve achar minha vida tão trágica."
Suas palavras eram tão absurdamente irônicas que quase ri.
De repente, a porta da sala de consulta se abriu com um estrondo.
"Evelyn!"
Bernardo Lacerda estava parado na porta. Ele usava um terno caro que provavelmente custava mais que o meu carro. Ele parecia poderoso, imponente e tão completamente diferente do homem que consertou minha torneira vazando na semana passada.
Seus olhos me encontraram. Por uma fração de segundo, vi um lampejo de choque, de reconhecimento. Então, desapareceu, substituído por uma máscara fria e dura.
Ele me lançou um olhar. Não foi apenas um olhar; foi um aviso. Uma ordem silenciosa e brutal para ficar quieta.
Ele passou por mim como se eu não existisse e envolveu Evelyn em seus braços. "Amor, estou aqui. Está tudo bem."
"Bernardo!", ela gritou, derretendo-se em seu abraço. "Você demorou tanto! Eu estava com tanto medo."
"Eu sei, eu sei", ele murmurou, sua voz com o mesmo tom grave e reconfortante que costumava usar comigo quando eu tinha um dia ruim. "Eu nunca mais vou te deixar. Eu prometo."
As palavras foram um soco no meu estômago. Ele tinha me feito essa exata promessa, centenas de vezes.
Ele beijou a testa dela. "Eu te amo, Evelyn. Só você."
Virei a cabeça, incapaz de assistir. Meus olhos ardiam, mas me recusei a deixar as lágrimas caírem.
Ele estava fazendo uma declaração pública, uma performance para uma única espectadora: eu. Ele estava me mostrando o meu lugar. Estava me mostrando que eu não era nada.
Ele ergueu Evelyn em seus braços, carregando-a como um tesouro precioso. Ao sair, seus olhos gelados encontraram os meus uma última vez por cima do ombro dela. A mensagem era clara: Você é um problema a ser eliminado.
Fiquei ali, congelada, muito depois de eles terem ido. A sala estava silenciosa novamente, exceto pelo som do meu próprio coração estilhaçado.
Voltei para minha mesa com as pernas bambas. Peguei meu celular. Minhas mãos tremiam tanto que precisei de três tentativas para desbloqueá-lo.
Rolei meus contatos até encontrar um número para o qual não ligava há anos.
Minha mãe.
Ela atendeu no segundo toque. "Alice? É você, querida?" Sua voz era nítida, com um leve sotaque europeu.
"Mãe", eu disse, minha própria voz um sussurro embargado. "Preciso da sua ajuda."
"Claro, meu bem. Qualquer coisa. O que aconteceu?"
"Eu... eu quero me mudar. Quero ir para aí. O mais rápido possível."
Houve uma pausa. "Mas e o seu marido? E o Bento?"
Fechei os olhos com força. Uma risada amarga e dolorosa escapou dos meus lábios. "Ele não vai."
Enquanto eu arrumava minhas coisas, pronta para deixar a clínica e nunca mais voltar, uma sombra caiu sobre minha mesa.
Eu olhei para cima.
Era Bernardo. Ele tinha voltado.
"Precisamos conversar", disse ele, sua voz baixa e desprovida de qualquer emoção.
Ele estava ali, uma silhueta perfeitamente alinhada contra as luzes fluorescentes e duras do corredor da clínica. O Bernardo Lacerda na minha frente era um estranho. O relógio caro em seu pulso, o cálculo frio em seus olhos, a aura de poder - não havia nada do homem gentil e trabalhador com quem eu pensei ter me casado.
"Tudo bem", ouvi a mim mesma dizer, minha voz pequena. Eu era apenas uma terapeuta de origem modesta. Que escolha eu tinha?
Ele me levou para fora, até um carro preto e elegante que provavelmente custava mais que todo o meu prédio. Um motorista abriu a porta para mim.
O interior cheirava a couro caro e a um perfume que não era o meu. Uma almofada rosa e fofa com as iniciais 'E.B.' bordadas em dourado estava no assento. Evelyn Bittencourt. Claro.
Senti uma onda de algo - não exatamente raiva, mais como uma dor surda e latejante. Peguei a almofada e a coloquei no tapete do carro, um pequeno e patético ato de desafio.
Meu Bento - o homem que eu conhecia - dirigia uma caminhonete velha que sempre cheirava a serragem e café. Ele economizou por um ano para trocar os pneus gastos. Este carro, esta vida, era de outro universo.
A viagem foi silenciosa. A tensão no pequeno espaço era sufocante. Olhei pela janela para as luzes da cidade se transformando em borrões, sentindo como se estivesse em um filme, não na minha própria vida.
Ele me levou ao Fasano, o restaurante mais exclusivo da cidade. O tipo de lugar com uma lista de espera de seis meses.
Meu coração se apertou. Bento e eu tínhamos passado por este lugar uma vez. Eu tinha pressionado o rosto contra o vidro como uma criança, admirando os lustres de cristal e os clientes elegantemente vestidos.
"Um dia, Lice", ele prometeu, envolvendo meu ombro com o braço. "Quando meu grande projeto der certo, eu te trago aqui. Vamos pedir tudo do cardápio."
Agora, aqui estava eu. Mas o sonho havia se transformado em um pesadelo.
Eu me senti deslocada em meu vestido de trabalho simples em meio ao mar de seda e joias. Bernardo, no entanto, se encaixava perfeitamente. O maître o cumprimentou pelo nome, curvando-se ligeiramente.
Fomos levados a uma mesa reservada com vista para toda a cidade. Bernardo pediu para nós dois em francês fluente, sem nem se dar ao trabalho de perguntar o que eu queria.
Ele esperou até que o garçom tivesse servido o vinho e se retirado para finalmente falar. Sua voz era tão fria quanto o gelo nos copos de água.
"Quando você descobriu?"
Eu o encarei, minha taça de vinho tremendo na minha mão. "Hoje", sussurrei. "Na clínica. Quando ela me mostrou sua foto."
Ele assentiu lentamente, sua expressão indecifrável. "Entendo." Ele empurrou uma taça de vinho em minha direção. "Beba."
Não era uma sugestão. Era uma ordem.
"Preciso que você seja inteligente sobre isso, Alice", disse ele, sua voz baixa e perigosa. "Evelyn e eu vamos nos casar. Nossas famílias planejam isso há anos. Você foi... uma complicação imprevista."
Minha respiração falhou. "Uma complicação?"
Ele se inclinou para frente, seus olhos fixos nos meus. "O que estou propondo é que você continue a ser minha esposa. Em segredo, é claro. Você pode ficar com o apartamento. Eu lhe darei uma generosa mesada. Tudo o que você precisa fazer é ficar quieta. Se comportar."
A audácia daquilo me tirou o fôlego. "Você quer que eu seja sua amante?", perguntei, as palavras com gosto de veneno. "Sua esposa secreta, escondida enquanto você vive sua vida real com ela?"
Um sorriso cruel tocou seus lábios. Não alcançou seus olhos. "Não se iluda, Alice. Isso não é sobre amor ou desejo. Eu não sinto nada por você. Meu corpo não sente nada por você. Pense nisso como um... pacote de demissão. Um pagamento por serviços prestados."
Serviços prestados. Ele estava falando dos dois anos em que eu o amei, cuidei dele, construí uma vida com ele.
"Você me salvou", ele continuou, seu tom transacional. "Sou grato. Então, vou pagar essa dívida. Diga o seu preço. Um cheque. Uma casa. O que você quiser. Então você desaparece."
A dor era tão intensa que parecia física, como um punho apertando meu coração. Mas meu treinamento entrou em ação. Mantive meu rosto uma máscara em branco. Eu não o deixaria me ver quebrar.
"E a nossa certidão de casamento?", perguntei, minha voz tremendo um pouco. "Isso não significa nada?"
Ele zombou, um som curto e agudo de desprezo. "Aquele pedaço de papel? Não tem valor. Eu o assinei quando não tinha memória de quem eu era. Foi um erro. Um produto das circunstâncias."
"Os sentimentos eram reais, Bento", eu implorei, o nome escapando antes que eu pudesse evitar.
Seu rosto endureceu. "Meu nome é Bernardo. E o 'Bento' pode ter sentido algo por você. Mas eu não sou o Bento. Nossos mundos são diferentes demais. Nós nunca fomos feitos para ficar juntos."
Ele tomou um gole de seu vinho, seu olhar inabalável. "Eu não vou magoar a Evelyn. Ela está me esperando há dois anos. Ela não merece ser magoada."
E eu? O que eu merecia?
Lágrimas ardiam atrás dos meus olhos, mas eu as engoli. Eu não choraria na frente dele. Levantei o queixo.
"Tudo bem", eu disse, minha voz fria. "Eu aceito o dinheiro."
Se ele ia reduzir nosso amor a uma transação, então eu pegaria o que me era devido. Ele me devia pelos dois anos da minha vida que eu lhe dei, pelas dívidas que contraí para pagar suas contas médicas quando o encontrei.
Um olhar de alívio passou por seu rosto. "Ótimo. Meu advogado vai redigir um contrato."
"E o restaurante?", perguntei, um gosto amargo na boca. "Você me trouxe aqui. O lugar que eu sempre quis vir."
Por um momento fugaz, algo piscou em seus olhos. Um fantasma do homem que eu conhecia. "Eu me lembrei que você queria vir aqui", disse ele, quase suavemente.
Meu coração deu um estúpido e pequeno pulo.
Então seu telefone tocou.
O toque era a voz de uma mulher, doce e risonha. "Bernardo, meu amor, atende!" Era Evelyn.
O lampejo de calor em seus olhos desapareceu, substituído por uma preocupação instantânea. Ele atendeu imediatamente.
"Evelyn? O que foi?" Sua voz estava cheia de uma ansiedade terna que ele nunca havia me mostrado, nem uma vez desde que "voltou".
Eu não conseguia ouvir o lado dela da conversa, mas seu rosto ficava cada vez mais tenso.
"Ok. Não se mexa. Estou a caminho", disse ele, desligando.
Ele se levantou abruptamente, agarrando meu braço. "Vamos. Temos que ir."
"Ir para onde? O que aconteceu?"
"Evelyn teve um pesadelo. Ela está com medo", disse ele, me puxando para fora do restaurante tão rápido que quase tropecei.
Um pesadelo. Ele estava me arrastando para fora do nosso "jantar de negócios" porque sua noiva teve um sonho ruim. O absurdo daquilo era impressionante.
Chegamos a uma enorme propriedade que mais parecia um castelo em uma colina. Ele não diminuiu a velocidade, apenas me puxou pela grande entrada e subiu uma escadaria imponente.
"Ela precisa de uma terapeuta", disse ele, a voz tensa. "Essa é você. Vá acalmá-la."
Ele me empurrou em direção a um par de portas duplas ornamentadas. Ele estava me usando. Eu não era sua esposa, nem mesmo uma memória. Eu era uma ferramenta para acalmar sua preciosa noiva.
Ele abriu as portas. Evelyn, vestindo um robe de seda, estava sentada em uma cama gigantesca. No momento em que viu Bernardo, ela saiu da cama e se jogou em seus braços, ignorando completamente minha presença.
"Bernardo! Eu tive o sonho mais horrível!", ela lamentou. "Sonhei que você me deixava!"
"Nunca", ele murmurou, acariciando seu cabelo. Ele segurou o rosto dela entre as mãos e a beijou profundamente. "Eu te amo. Eu sempre vou te amar."
Ele se afastou e desabotoou o topo de sua camisa, revelando seu peito. Ali, sobre seu coração, havia uma tatuagem. Um desenho delicado e intrincado de uma única rosa desabrochando com a letra 'E' entrelaçada no caule.
"Está vendo isso?", ele disse a ela, sua voz um zumbido baixo de devoção. "Eu fiz isso para você, meu amor. Um símbolo do meu coração, que pertence apenas a você."
Eu olhei para a tatuagem, e o último resquício de ar deixou meus pulmões.
Um ano atrás, Bento tinha chegado em casa com aquela mesma tatuagem. Ele me disse que era uma rosa para mim, porque disse que meu amor o permitiu florescer novamente. Ele disse que a inicial significava 'Eternidade'. Ele mentiu. Significava Evelyn.
Sempre foi para Evelyn.
Virei-me para sair. Não conseguia respirar naquele quarto por mais um segundo.
"Onde você pensa que vai?", a voz de Bernardo era afiada, cortando minha névoa de dor.
"Meu trabalho está feito", eu disse sem me virar. "Ela parece bem agora. Não tenho obrigação de ficar."
"Você tem, se quiser isso de volta", disse ele friamente.
Eu me virei. Ele estava segurando algo. Uma pequena caixa de madeira.
Meu coração despencou. Era a caixinha de música do meu pai. A única coisa que me restava dele. Eu pensei que a tinha vendido um ano e meio atrás para uma loja de penhores para cobrir o resto das contas médicas de Bento. Aquilo partiu meu coração, mas eu teria feito qualquer coisa por ele.
E ele a tinha. Ele a teve o tempo todo.
"Fique", ele ordenou, seus olhos como lascas de gelo. "Ou você nunca mais a verá."
Dei um passo em direção à cama, meus olhos fixos na caixinha de música na mão de Bernardo. Aquela pequena caixa de madeira continha a última peça tangível da memória do meu pai.
Quando me aproximei, um travesseiro voou pelo ar e me atingiu em cheio no rosto.
"Tire ela daqui!", Evelyn gritou, seu rosto contorcido de ciúme e fúria. "Não quero vê-la! Bernardo, você trouxe outra mulher para o meu quarto!"
"Amor, acalme-se", disse Bernardo, sua voz um murmúrio suave destinado apenas a ela. "Ela é só uma terapeuta. Eu a chamei para você."
"Eu não a quero! Quero que ela suma! Fora! Fora!", Evelyn gritou, apontando um dedo trêmulo para mim. Ela era como uma criança mimada fazendo birra.
Bernardo me lançou um olhar de puro gelo. "Você a ouviu", ele me disse, sua voz seca. Ele então se virou para os dois seguranças enormes parados perto da porta. "Tirem-na da minha casa."
Não tive tempo de reagir antes que os guardas agarrassem meus braços. Eles foram rudes, seus dedos cravando na minha pele enquanto me arrastavam para fora do quarto, pela grande escadaria e para fora da porta da frente.
Eles me empurraram para a entrada de cascalho e bateram a porta atrás de mim.
O ar frio da noite me atingiu como um tapa. Eu estava em uma colina remota, a quilômetros da cidade, sem carro e sem sinal de celular. O vento açoitava meu vestido fino, e comecei a tremer.
Não havia nada a fazer a não ser andar.
Comecei a descer a longa e sinuosa estrada, meus sapatos de festa apertando meus pés. Cada passo era uma nova onda de agonia, tanto física quanto emocional.
Uma memória surgiu, sem ser convidada. Um ano atrás, Bento e eu tínhamos feito uma trilha não muito longe daqui. Eu tropecei e torci o tornozelo. Sem uma palavra, ele se agachou, insistindo em me carregar de volta até a caminhonete. Suas costas eram quentes e fortes.
"Eu sempre estarei aqui para te segurar, Lice", ele sussurrou, seu hálito quente contra minha orelha. "Sempre."
Tropecei em uma pedra solta, meus joelhos batendo com força no asfalto. A dor aguda me trouxe de volta ao presente.
Aquele homem, Bento, se foi. Talvez ele nunca tenha realmente existido. O amor que ele me mostrou, as promessas que fez - pertenciam a um fantasma, um homem sem memória. Bernardo Lacerda se lembrava de tudo, e ele escolheu me esquecer.
A percepção foi uma pedra fria e dura no meu estômago. Acabou. Completa e totalmente acabado.
Levantei-me, minhas mãos arranhadas e sangrando, e continuei minha longa e solitária caminhada montanha abaixo. Lágrimas escorriam pelo meu rosto, congelando no ar frio.
Quando cheguei à estrada principal e consegui parar um táxi, o sol estava começando a nascer.
Entrei no meu apartamento, o lugar que tinha sido nosso lar, e parecia uma tumba.
A primeira coisa que fiz foi ligar meu notebook. Preenchi os formulários de imigração para a Europa, meus dedos voando pelo teclado. Eu precisava sair. Precisava escapar desta cidade, desta vida, desta dor.
Então liguei para minha clínica e pedi demissão, com efeito imediato. Disse a eles que era uma emergência familiar.
Meu telefone tocou enquanto eu fazia uma mala. Era um número desconhecido. Quase ignorei, mas algo me fez atender.
"Alice."
A voz de Bernardo. Fria e imperiosa.
"Preciso que você vá ao Hotel Palácio Tangará. Pegue um vestido para a Evelyn. É para a gala da família Lacerda hoje à noite."
Não era um pedido. Era uma ordem. Ele estava me tratando como uma garota de recados.
"Bernardo", eu disse, minha voz perigosamente baixa. "Você e eu acabamos. O contrato está sendo redigido. Não tenho nenhuma obrigação com você ou sua noiva."
Ele riu, um som baixo e ameaçador. "Você se esqueceu da caixinha de música do seu pai? É uma coisinha frágil. Seria uma pena se algo... acontecesse com ela."
A ameaça pairava no ar, densa e sufocante.
"E já que está nisso", ele acrescentou, "você vai pedir desculpas à Evelyn por tê-la aborrecido ontem à noite."
Meu sangue gelou. "Pedir desculpas? Pelo quê?"
"Por existir", disse ele, sua voz pingando desprezo. "Esteja lá em uma hora." Ele desligou antes que eu pudesse dizer outra palavra.
Fiquei ali, tremendo com uma raiva tão profunda que me deixou sem fôlego. Mas a ideia da caixinha de música do meu pai, a última peça dele, sendo destruída por este monstro... eu não podia suportar.
Vesti um casaco e fui para o hotel.
A suíte ficava no último andar. A porta estava entreaberta. Empurrei-a e entrei, minha mão agarrando a alça da minha bolsa.
E então ouvi suas vozes do quarto.
Congelei, escondendo-me atrás de uma grande planta decorativa na entrada.
"Foi apenas um acidente, meu amor", Bernardo dizia, sua voz tingida de uma doçura melosa que me enjoava. "Meus dois anos de amnésia... encontrá-la, casar com ela... foi tudo um erro. Um desvio infeliz no meu caminho de volta para você."
"Mas você esteve com ela!", a voz de Evelyn era um gemido agudo. "Você a tocou!"
"Apenas uma vez, depois que minha memória voltou", ele disse rapidamente. "E eu juro, pensei que era você. Fui drogado em uma reunião de negócios, estava desorientado. Quando acordei ao lado dela, saí imediatamente. Ela não significa nada para mim, Evelyn. Absolutamente nada. Já a paguei para desaparecer. Você nunca mais terá que vê-la, eu prometo."
Uma mentira. Uma mentira cruel e calculada para se proteger. Naquela noite, ele tinha voltado para casa e feito amor comigo com uma paixão desesperada que eu confundi com amor.
"Sério?", Evelyn perguntou, sua voz suavizando.
"Sério", ele confirmou. "Agora, venha aqui. Senti tanto a sua falta."
Ouvi o farfalhar de lençóis, um gemido suave de Evelyn.
"Bernardo, pare... a prova do vestido...", ela riu.
"A prova pode esperar", ele murmurou, sua voz grossa de desejo. "Eu quero você. Agora."
"Você é tão mau", ela ronronou. "O que você vai fazer com aquela mulher? Aquela que você chamou? Como devemos puni-la?"
Houve uma pausa, então a voz de Bernardo, sombria e indulgente. "O que você quiser, meu amor. O que te fizer feliz."