Eu era a esposa perfeita e a mente por trás do império do meu marido. Por dez anos, acreditei que sua possessividade sufocante era a maior prova de amor que um homem poderia dar.
Até que descobri a verdade. Ele me drogava todas as noites com um "suplemento para estresse", me deixando inconsciente para que pudesse me trair em nossa própria cama com a estagiária que eu mesma ajudei.
As peças se encaixaram: a sonolência, o cheiro doce no quarto, tudo era parte de sua traição. Eu não era sua amada, mas uma prisioneira em uma gaiola dourada, uma boneca descartada enquanto ele se divertia.
E no meio dessa humilhação, a descoberta mais cruel: eu estava grávida. Carregando o filho do monstro que me envenenava e profanava nosso lar.
"Você nunca, nunca merecerá conhecer esse filho", eu jurei em silêncio.
Com a ajuda de uma força misteriosa, eu tinha três dias para escapar. Eu não apenas desapareceria; eu forjaria minha própria morte, deixando Álvaro acreditar que ele mesmo havia me matado, para que ele se afogasse em sua própria culpa.
Capítulo 1
Julieta Castro POV:
Eu me casei com ele. Eu o amei. Eu sacrifiquei tudo pelo seu império. Mas a verdade é que Álvaro Félix nunca foi meu. Nunca foi de ninguém, a não ser dele mesmo.
Ele me idolatrava publicamente, uma fachada perfeita para o mundo ver. Mas por trás de portas fechadas, sua adoração se transformava em uma gaiola dourada. Eu era seu troféu, sua mente brilhante nos negócios, sua noiva impecável. E ele temia me perder.
Esse medo, ele dizia, era a razão para sua possessividade sufocante. Eu acreditei, ou quis acreditar, que era amor. Que era a intensidade de um homem que havia construído tudo do nada, e que me via como uma parte essencial de seu mundo.
Eu era a COO da Império Félix, a mente por trás da estabilidade e do sucesso. A proposta para ser CEO de uma empresa concorrente? Joguei fora por ele. Por nós. Pelo nosso "império".
Minhas escolhas estavam sempre limitadas pela sua vontade, pela sua segurança, pelo que ele considerava "nosso bem". Eu sentia o peso de sua proteção, como um manto pesado que me impedia de respirar.
Álvaro estava sempre perto. Seus olhos me seguiam em cada sala, suas mãos buscavam as minhas constantemente. Ele me abraçava por trás enquanto eu trabalhava, sussurrando o quanto eu era indispensável.
"Você não vai me deixar, vai, minha Julieta?", ele perguntava, a voz embargada por uma vulnerabilidade que só eu via. "Prometa que nunca vai me abandonar."
Ele era o CEO carismático, o magnata da tecnologia, o homem que fazia multidões vibrarem com suas palavras. Mas comigo, no silêncio da nossa casa, ele era um garotinho assustado.
Eu era a única a ver Álvaro Félix despir-se de sua armadura, revelar suas inseguranças mais profundas. Era um privilégio, eu pensava. Uma prova do nosso laço inquebrável.
Dez anos. Dez anos de uma vida construída lado a lado. Desde que o Império Félix era apenas um sonho ambicioso em uma garagem apertada, até se tornar a gigante que era hoje. Eu estava lá, em cada passo, em cada batalha.
Álvaro sempre teve esse pavor de ser abandonado. Ele vinha de um passado difícil, que eu o ajudei a superar. Eu o ensinei a confiar, a amar. Ou assim eu pensei.
"Você está tão pensativa hoje, meu amor", ele disse, aproximando-se. Seus braços envolveram minha cintura. "Quer me dizer o que te aflige?"
Eu me virei, meu corpo encostando no dele. "Estou apenas cansada. Você sabe, a fusão com a Horizon... tem sido exaustivo."
Ele beijou meu pescoço, um beijo possessivo, que antes me acalmava. "Você é a única que consegue segurar as pontas. Mas não se esforce demais. Eu não aguentaria se algo acontecesse com você."
Sua aura, antes protetora, agora me parecia sufocante. Era um abraço que não me deixava mover, uma presença que me consumia. Eu sentia um arrepio na espinha. Não era apenas proteção. Era posse.
"Você pensa demais nas coisas, Julieta", ele complementou, como se lesse meus pensamentos. "Minha intenção é apenas te proteger, te manter segura aqui comigo."
Eu observei seu rosto, a expressão cuidadosamente construída de carinho. Eu me perguntei, no fundo da minha alma, se ele realmente acreditava nisso. Ou se era apenas mais uma peça na grande encenação que era a nossa vida.
A insegurança de Álvaro era uma fera que eu havia tentado domesticar. Mas talvez, eu apenas a tivesse treinado para se esconder melhor, para morder com mais ferocidade quando ninguém estivesse olhando.
Julieta Castro POV:
Álvaro estava na sala de reuniões, a voz imponente ecoando pelas paredes da nossa mansão. O CEO carismático estava em seu elemento, fechando mais um negócio multimilionário. Eu sabia que ele não voltaria para me checar por horas.
Era a minha chance. A hora de usar o último favor que "O Oráculo" me devia. Meu coração batia forte, um ritmo irregular que eu não compreendia. Eu tinha que saber. Tinha que ver com meus próprios olhos.
Não era por ciúme mesquinho. Era para entender. Para desvendar a verdade por trás de sua possessividade, de seus medos. Para ver o que ele escondia.
Eu fechei os olhos, concentrando-me. A sensação era como um choque elétrico percorrendo cada nervo, um formigamento que anunciava a abertura de um portal.
De repente, eu estava lá. Não fisicamente, mas minha consciência pairava sobre a cena. Era o meu quarto. O nosso quarto.
Eu me vi deitada na cama, imóvel. Meus olhos estavam fechados, minha respiração lenta e profunda demais para ser um sono natural. Eu não estava acordada. Eu estava apagada.
Álvaro estava lá. E com ele, Sabina Leite. A estagiária ambiciosa, aquela que eu mesma havia recomendado para o programa da empresa.
Ele a beijava, os lábios vorazes, enquanto as mãos de Sabina exploravam seu corpo. Minha visão se focou neles, uma imagem tão nítida que doía.
Eles se moviam em minha cama, a cama que era nosso santuário, o palco da nossa intimidade. Sabina sorria, aquele sorriso vitorioso que eu já havia notado em seus lábios quando ela exibia um bracelete novo, um presente "inesperado".
Meu corpo estava ali, inerte, uma boneca abandonada. Eu era um objeto, uma peça de mobília ignorada. A visão me embrulhou o estômago. Eu me sentia como um brinquedo velho, jogado no canto.
As lembranças começaram a se encaixar, como peças de um quebra-cabeça macabro. A dor de cabeça ao acordar, a sonolência que persistia até o meio da manhã. Eu achava que era estresse, exaustão.
O cheiro. Um cheiro doce, quase floral, que eu sentia ao entrar no quarto algumas manhãs. Eu sempre atribuía ao perfume de Sabina, que por vezes ficava na mansão após alguma entrega de documentos tardia.
O "suplemento para estresse" que Álvaro me dava todas as noites. O mesmo que me fazia desmaiar em um sono profundo e sem sonhos. Aquele que ele insistia que eu tomasse, com um sorriso gentil e preocupado.
Não era um suplemento. Era um sedativo. Ele me drogava. Todas as noites. Para poder me trair, na minha própria cama, enquanto eu estava desacordada.
Meu mundo, aquele que eu havia construído com tanto esmero, desabou em um milésimo de segundo. Álvaro não me amava. Ele me controlava. Ele me usava. E ele me traía.
A confiança, essa base frágil que eu tanto lutei para solidificar, se estilhaçou em milhões de pedaços. Eu não podia mais me enganar. Não depois disso.
Eu percebi que não era apenas uma vítima. Eu era uma prisioneira, drogada e humilhada. Mas essa percepção, por mais dolorosa que fosse, era o primeiro passo para a liberdade.
Julieta Castro POV:
Um rosnado brutal irrompeu de mim, um som que eu nunca soube que meu corpo poderia produzir. Não era humano. Era a fera dentro de mim, rasgando o peito, exigindo sangue.
Eu me curvei, o estômago se revirando. Uma náusea avassaladora me atingiu, e eu vomitei no chão de mármore. O gosto amargo do líquido me fez chorar.
Meu corpo, o templo que ele havia profanado, estava reagindo por conta própria. Eu sentia uma mudança dentro de mim, uma que não era apenas raiva ou nojo. Havia algo mais.
A fera interior, aquela que me protegia e me guiava, estava agitada. Seus instintos estavam em alerta máximo. Algo estava diferente.
Eu toquei minha barriga, um gesto automático. Um calor estranho emanava dali. Meu coração gelou. Não poderia ser.
A ficha caiu. A náusea, o cansaço, os cheiros que de repente me agrediam. Eu estava grávida.
A ironia era tão cruel, tão perversa. Enquanto ele me drogava e me traía, uma nova vida, uma parte de nós, estava crescendo dentro de mim. O fruto da nossa "união perfeita", enquanto o pai a destruía.
A fera uivava, dividida entre a raiva assassina e um instinto maternal primordial. Como eu poderia amar algo que veio dele? Como eu poderia odiar algo que era parte de mim?
"Álvaro Félix", eu sussurrei, a voz rouca de dor e fúria. "Você nunca, nunca merecerá conhecer esse filho."
Eu olhei para cima, para o teto, como se o próprio universo estivesse zombando de mim. Deuses, me deem uma saída.
"A verdade foi revelada. Seu caminho está claro." A voz de O Oráculo ecoou em minha mente. "Mas a liberdade tem um preço. Você deve cortar cada laço, apagar cada rastro."
"E o tempo?" , eu perguntei, a voz embargada.
"Três dias. É o que você tem. Para se libertar do seu carcereiro. Cada segundo é um passo em direção ao seu renascimento."
Três dias. Apenas três dias para desmantelar uma década.
Eu ri, um riso sem humor. Um riso oco que ecoou no silêncio do quarto. Eu havia construído a Império Félix. Eu era a força por trás do trono. E agora, eu era uma mulher traída, drogada, grávida e com prazo para sumir.
A imagem deles, movendo-se em minha cama, repetiu-se em minha mente, uma tortura sem fim. Meu mundo havia implodido, e eu estava no epicentro, sozinha.