Quatro anos depois que meu filho, Léo, se afogou, eu ainda estava perdida em um nevoeiro de dor. Meu marido, Elias Montenegro, o magnata da tecnologia, era o santo para o público, um pai devoto que construiu uma fundação em nome de Léo.
Mas quando fui finalizar a certidão de óbito de Léo, o comentário casual de um funcionário estilhaçou meu mundo: "O Sr. Montenegro tem outro dependente registrado."
O nome me atingiu como um soco no estômago: Caio Soares, filho de Cássia Soares, a mulher que perseguiu Elias por anos. Eu os encontrei, uma família perfeita, Elias rindo, uma felicidade que eu não via há anos. Então, ouvi Cássia confessando a Elias que o caso deles foi o motivo pelo qual ele não estava vigiando Léo no dia em que ele morreu.
Meu mundo desabou. Por quatro anos, eu carreguei a culpa, acreditando que a morte de Léo foi um acidente trágico, consolando Elias que se culpava por uma "ligação de trabalho". Era tudo uma mentira. A traição dele havia matado nosso filho.
O homem que eu amava, o homem que construiu uma prisão de luto ao meu redor, estava vivendo uma vida feliz com outra família. Ele me viu sofrer, me deixou culpar a mim mesma, enquanto seu segredo apodrecia.
Como ele pôde? Como ele pôde ficar ali e mentir, sabendo que suas ações levaram à morte do nosso filho? A injustiça queimava, uma raiva fria e cortante substituindo minha dor.
Liguei para meu advogado, depois para meu antigo mentor, Cássio Lopes, cuja pesquisa experimental de apagamento de memória era minha única esperança. "Eu quero esquecer", sussurrei, "Eu preciso esquecer tudo. Apague ele para mim."
Capítulo 1
Quatro anos.
Fazia quatro anos que meu filho, Léo, tinha se afogado. Quatro anos de uma névoa espessa da qual eu não conseguia sair.
Meu marido, Elias Montenegro, era um santo para o público. O magnata da tecnologia que ficou ao lado de sua esposa enlutada, sua devoção eterna uma história que todos amavam.
Hoje, decidi fazer algo. Algo para sentir que estava seguindo em frente, mesmo que um centímetro.
Eu ia ao cartório de registro civil para finalizar a certidão de óbito de Léo.
Um pequeno passo. Um adeus final. Talvez trouxesse algum tipo de paz.
O cartório era simples, o ar viciado. Esperei na fila, com as mãos frias. Quando chegou a minha vez, dei ao funcionário o nome de Léo.
Ele digitou no computador, o rosto neutro. Então ele parou, a testa franzida.
"Senhora, estou vendo um alerta no cadastro do seu marido", disse ele, sem me olhar. "Elias Montenegro."
"Um alerta? O que isso significa?"
"É só uma referência padrão para dependentes. Ao finalizar o registro de um dependente, o sistema anota quaisquer outros. Para fins de seguro e inventário." Ele continuou digitando. "Mostra que o Sr. Montenegro tem outro dependente registrado."
O mundo girou. Minha respiração ficou presa na garganta.
"Isso é impossível", eu disse, minha voz mal um sussurro. "Nós só tivemos um filho. O Léo."
Elias amava Léo mais do que tudo. Depois que Léo morreu, Elias construiu uma fundação pública em seu nome. Ele fazia discursos com lágrimas nos olhos. Ele me abraçava todas as noites enquanto eu chorava até dormir. Ele era o perfeito pai enlutado.
"O sistema diz o contrário, senhora." O funcionário virou o monitor para mim.
Lá estava. Em preto e branco.
Dependente: Caio Soares.
Mãe: Cássia Soares.
Cássia Soares.
O nome me atingiu como um soco no estômago. Meu sangue gelou.
Cássia. A mulher que perseguiu Elias por anos.
Lembrei-me dela em nossos eventos de caridade, seus olhos fixos em Elias, ignorando todos os outros.
Lembrei-me dela aparecendo em seu escritório, gritando que o amava, que eu não o merecia. A segurança teve que arrastá-la para fora.
Lembrei-me do dia do nosso casamento. Cássia, vestida com um vestido branco igual ao meu, tentando forçar a entrada na igreja. Ela gritou que era com ela que ele deveria se casar.
Elias ficou furioso. Ele conseguiu uma medida protetiva. Ele usou seu poder para fazê-la desaparecer de nossas vidas, ou assim eu pensava. Ele queria arruiná-la completamente, mas eu o impedi. Eu disse a ele para deixar pra lá. Senti uma estranha pena dela. Uma pena equivocada, estúpida.
E agora, o nome dela estava em um documento oficial, ao lado do meu marido. Como a mãe do outro filho dele.
Não podia ser verdade. Era um erro. Um erro horrível e cruel.
Saí cambaleando do cartório e entrei no meu carro, minha mente em branco. Meu celular vibrou. Uma mensagem de Elias.
"Pensando em você, meu amor. Chego em casa mais cedo hoje. Vamos jantar no seu restaurante favorito."
Lágrimas escorriam pelo meu rosto. Lembrei-me de como nos conhecemos na faculdade. Como ele me conquistou com uma paixão implacável e gentil. Ele era o homem mais brilhante que eu conhecia, e ele me olhava como se eu fosse o centro do universo.
Quando eu estava mergulhada em minha pesquisa, esquecendo de comer ou dormir, ele me trazia comida e me envolvia em um cobertor, sussurrando que minha mente era a coisa mais linda que ele já tinha conhecido.
Ele desistiu de uma sociedade em uma empresa de tecnologia rival porque queriam que ele se mudasse para o exterior, e ele se recusou a me deixar. Ele disse que seu mundo era onde quer que eu estivesse.
Tudo mentira. Tinha que ser.
Minhas mãos tremiam, mas encontrei o endereço de Cássia Soares no documento que fotografei com meu celular. Eu tinha que ver por mim mesma. Eu tinha que provar que tudo isso era um pesadelo.
Eu dirigi. O endereço me levou a um condomínio fechado de luxo, não muito longe do nosso. Meu coração batia forte contra minhas costelas.
Estacionei do outro lado da rua. E então eu o vi.
Elias.
Ele estava no jardim da frente de uma bela casa moderna, rindo. Um menino, talvez de três ou quatro anos, o perseguia com uma pistola de água. Elias pegou o menino nos braços, girando-o. A risada da criança encheu o ar.
Então a porta da frente se abriu. Cássia Soares saiu, um sorriso sereno no rosto. Ela foi até Elias e o beijou. Não um selinho na bochecha. Um beijo de verdade, demorado. O tipo que ele só dava para mim.
Ele não a empurrou. Ele sorriu de volta para ela, um sorriso de pura, inalterada felicidade. Uma felicidade que eu não via em seu rosto há quatro anos.
Eu não conseguia respirar. Meus pulmões travaram. Uma lágrima rolou pela minha bochecha, quente e afiada.
Eles entraram. A pequena família perfeita.
Eu não sabia o que estava fazendo. Saí do carro e caminhei em direção à casa, meus movimentos robóticos. Fui sorrateiramente para o lado, para as grandes janelas de vidro da sala de estar.
Elias estava no chão, construindo uma torre de blocos com o menino, Caio. Ele era paciente, sua voz suave. Ele era um homem diferente. O homem por quem eu me apaixonei, mas uma versão que eu havia perdido. Uma versão que ele estava dando para outra pessoa.
Cássia sentou-se no sofá, observando-os, a mão pousada possessivamente no ombro de Elias.
Ele olhou para ela e sorriu. "Ele está ficando tão grande."
"Ele é a sua cara", disse ela, a voz cheia de orgulho.
Meu próprio filho, Léo, era a minha cara.
O telefone de Elias tocou. Ele olhou, e seu sorriso desapareceu. Ele se levantou e caminhou em direção à porta do porão.
"É a Helena", disse ele a Cássia. "Vou atender lá embaixo."
Movi-me sem pensar, seguindo o som de seus passos, espiando por uma pequena janela do porão. Era uma adega. Elias estava andando de um lado para o outro, o telefone no ouvido.
"Helena, meu amor. Está tudo bem?" Sua voz era a que eu conhecia. A cheia de falsa preocupação.
Eu não conseguia ouvir minha própria voz do outro lado, apenas as respostas dele.
"Claro, estou a caminho do escritório. Uma reunião de última hora... Sim, estarei em casa logo depois."
Ele desligou e suspirou. Cássia o havia seguido. Ela o abraçou por trás, envolvendo a cintura dele.
"Ela ainda está um caco?", perguntou Cássia, a voz escorrendo veneno.
"Ela foi finalizar a certidão de óbito do Léo hoje", disse Elias, de costas para mim. "É um dia difícil para ela."
Cássia riu, um som baixo e feio. "É sempre um dia difícil para ela. Já se passaram quatro anos, Elias. Quando você vai se cansar de bancar o santo?"
"Cássia, pare."
"Não, eu não vou parar." Ela se pressionou contra ele. "Você já pensou nisso? Se você não estivesse comigo naquela tarde, estaria vigiando o Léo na piscina. Ele ainda estaria vivo."
O mundo parou.
Tudo dentro de mim ficou frio e silencioso.
O dia em que Léo morreu.
Elias deveria estar vigiando-o. Ele me disse que tinha entrado por um minuto para atender uma ligação de trabalho. Uma ligação crucial, de vida ou morte para sua empresa. Ele saiu e encontrou Léo na piscina. Ele se culpou, se torturou por anos por causa daquela ligação.
E eu o confortei. Eu disse a ele que não era culpa dele. Foi um acidente trágico. Eu carreguei a culpa com ele, sentindo que eu deveria estar lá, que eu havia falhado como mãe.
Por quatro anos, essa culpa vinha me consumindo viva.
E era tudo uma mentira.
Ele não estava em uma ligação de trabalho. Ele estava com ela. O caso dele havia matado nosso filho.
Eu tremia tanto que tive que me agarrar à moldura da janela para me manter em pé. Pressionei a mão sobre a boca para abafar um grito.
"Não diga isso", a voz de Elias era ríspida, mas não havia negação. "A Helena nunca pode saber. Isso a destruiria."
"Ela já está destruída", Cássia ronronou, beijando seu pescoço. "E de quem é a culpa? Você adora vê-la quebrada, não é? Impotente e completamente dependente de você. É isso que você ama, Elias. Não ela."
Ele não respondeu. Apenas ficou ali, deixando-a tocá-lo.
"Sabe", disse Cássia, a voz tornando-se astuta. "Já que ela sente tanta falta do Léo, talvez devêssemos deixá-la conhecer o Caio. Ele poderia ser um substituto. Talvez a fizesse se sentir melhor."
Elias se virou, e por um segundo pensei ter visto um lampejo de raiva. "Não seja ridícula. Caio é meu filho. Meu herdeiro. Ele não é um substituto." Ele então a puxou para um beijo rude, as mãos emaranhadas em seu cabelo.
Afastei-me da janela, cambaleando de volta para o meu carro. Dirigi, sem saber para onde estava indo, até me encontrar no cemitério.
Ajoelhei-me em frente à pequena lápide de Léo, o mármore frio cortando meus joelhos. As lágrimas que eu segurei finalmente vieram, uma tempestade de soluços silenciosos e agonizantes que me deixaram vazia e em carne viva.
Meu celular vibrou novamente. Era Elias.
"A caminho de casa agora, meu amor. Mal posso esperar para te ver."
As palavras fizeram meu estômago revirar. Seu amor era um veneno. Seu toque era uma mentira. Ele me viu de luto por nosso filho, sabendo que sua traição era a causa. Ele me deixou culpar a mim mesma.
Eu estava presa em uma prisão de luto que ele construiu, enquanto ele vivia outra vida, uma vida feliz, com outra família.
O amor que eu tinha por ele se transformou em algo frio e nojento.
Enquanto eu estava sentada ali, tremendo no escuro, outra chamada entrou. Não era Elias. Um número antigo que eu não via há anos.
Cássio Lopes. Meu antigo mentor.
Quase não atendi. Mas algum instinto me fez pressionar o botão verde.
"Helena?" Sua voz era hesitante, mas calorosa. "É o Cássio. Sei que faz muito tempo. Ouvi falar de uma nova bolsa de pesquisa e isso me fez pensar em você... no seu trabalho. Estava ligando para saber como você estava."
Sua gentileza foi um choque para o meu sistema. Uma única gota de água limpa em um oceano de sujeira.
"Cássio", sussurrei, minha voz falhando.
"Helena, você está bem? Você parece..."
"Preciso da sua ajuda", interrompi, as palavras saindo antes que eu pudesse detê-las. Lembrei-me de sua pesquisa. Seu trabalho controverso, brilhante e experimental sobre apagamento de memória. "Seu ensaio clínico. Aquele para apagar memórias traumáticas. Já está pronto?"
Houve uma longa pausa do outro lado da linha. "Helena, é experimental. Não é aprovado. Os riscos são enormes."
"Eu não me importo", eu disse, uma determinação desesperada se solidificando dentro de mim. "Eu quero ser sua primeira cobaia."
"Helena, o que está acontecendo?"
"Eu assino qualquer coisa. Assumo todos os riscos. Eu só quero esquecer. Preciso esquecer tudo." Engasguei com um soluço. "Por favor, Cássio. Apague ele para mim."
O caminho para casa foi um borrão. Minha mente estava entorpecida, mas um pensamento era cristalino.
Liguei para o meu advogado.
"Eu quero o divórcio", eu disse, minha voz sem emoção.
"Sra. Montenegro? O Elias sabe disso?", o advogado perguntou, surpreso.
"Ele vai saber", eu disse, e desliguei antes que ele pudesse fazer mais perguntas.
Entrei na casa que compartilhávamos. O grande hall de entrada era dominado por um enorme retrato de casamento meu e de Elias. O braço dele estava ao meu redor, seu sorriso tão cheio de amor. Meu próprio sorriso era radiante, felizmente inconsciente.
Era um monumento às suas mentiras.
"Tire todas as fotos minhas e do Sr. Montenegro", eu disse à governanta, minha voz desprovida de emoção. "E traga-as para o jardim."
Ela me olhou, confusa, mas fez o que foi dito.
Logo, uma pilha de nossa vida juntos jazia no pátio de pedra. Dez anos de memórias, capturadas em molduras de prata. Derramei fluido de isqueiro sobre os rostos sorridentes e joguei um fósforo.
As chamas irromperam, consumindo as mentiras. Eu assisti, sem sentir nada.
Peguei a última foto antes de jogá-la dentro. Uma foto minha, de Elias e do bebê Léo. Éramos uma família perfeita. Quando a podridão começou? Ou sempre esteve lá, sob a superfície?
Ainda ontem à noite, ele me abraçou e sussurrou: "Nós vamos superar isso, Helena. Seremos sempre você e eu. Para sempre."
Meu celular vibrou. Uma mensagem de Cássio.
"O cronograma pode ser adiantado se você tiver certeza. Venha ao laboratório amanhã."
Apaguei a mensagem. Meu coração estava tão frio e morto quanto as cinzas das fotos.
Eu o esqueceria. Eu apagaria cada memória de Elias Montenegro.
Ele chegou em casa tarde, seus faróis cortando a escuridão. Ele viu o fogo no jardim e correu, seu rosto marcado pelo pânico.
"Helena!" Ele me envolveu com os braços, me afastando das chamas. "Você está ferida? O que aconteceu?" Ele se virou e gritou para a governanta: "Por que você não a impediu?"
Dei um passo para trás, saindo de seu abraço. "Fui eu que fiz isso."
Seus olhos se suavizaram com um olhar dolorido e compreensivo. O olhar de um mestre manipulador. "Meu amor, eu sei que você está sofrendo, mas isso..."
"Eu não quero mais ver o rosto dele", eu disse, minha voz oca. "Eu não quero me lembrar do Léo."
Era uma mentira que ele acreditaria. Uma dor que ele poderia entender e usar.
Ele suspirou, seus ombros caindo em empatia fingida. Ele me pegou nos braços e me levou para o quarto como se eu fosse uma boneca frágil.
Ele me deitou na cama e tirou um documento de sua pasta.
"Helena", disse ele suavemente. "Eu ia esperar, mas acho que você precisa disso agora."
Era um contrato de transferência de ações. Ele estava me dando cinquenta e um por cento do Grupo Montenegro.
"Você é a dona desta casa, Helena. A única", disse ele, a voz sincera. "Vou anunciar isso na gala amanhã à noite. Todos saberão."
Ele se inclinou, seu hálito quente na minha pele. "E eu tenho outra surpresa para você. Algo para te fazer feliz de novo."
Suas mentiras eram um cobertor sufocante. Olhei para os papéis, e uma única lágrima pingou na linha da assinatura. Ele viu e seu rosto se contorceu com dor performática.
"Não chore, meu amor", ele sussurrou, enxugando a lágrima com o polegar. Ele me beijou, mas seus lábios pareciam gelo. "Apenas me prometa que nunca vai me deixar. Eu não posso viver sem você."
Ele tirou uma pequena caixa. Dentro havia dois relógios, elegantes e prateados.
"Eles estão conectados", disse ele, prendendo um no meu pulso. "Eles monitoram nossos batimentos cardíacos. Assim você sempre saberá que meu coração bate apenas por você."
O coração dele. Aquele que estava batendo por outra mulher, em outra casa.
"O Léo se foi, Helena", disse ele, a voz embargada de emoção. "Mas nós ainda temos um ao outro. Temos que ficar juntos. Para sempre."
A náusea era avassaladora. Virei a cabeça, desviando de seu próximo beijo.
Eu queria gritar. Eu queria arranhar seu rosto e exigir saber como ele podia ficar ali e mentir para mim.
Mas engoli as palavras. Eu tinha um plano.
Na noite seguinte, a gala era um mar de champanhe e flashes de câmeras. Elias estava em seu elemento, o CEO carismático. Ele fez o anúncio sobre a transferência de ações, e a sala explodiu em aplausos.
A mídia enlouqueceu. "Magnata da Tecnologia Elias Montenegro Doa Bilhões para Esposa Enlutada."
As mulheres me olhavam com inveja. Elas viam um conto de fadas trágico. Eu via uma gaiola dourada.
Então, Elias pegou o microfone novamente. "E agora, para minha outra surpresa."
Um menino pequeno, aquele do jardim, correu para o palco e pulou nos braços de Elias. "Papai!"
A sala ficou em silêncio.
Elias sorriu, segurando o menino para que todos vissem. "Helena, meu amor, eu sei o quanto você sentiu falta de ter uma criança em casa. Eu o encontrei para você. Para nós."
Ele olhou para mim, seus olhos brilhando. "Ele é de um orfanato. Eu pensei... ele poderia ser um substituto."
Meus dedos cravaram nas minhas palmas.
"Ele até se parece um pouco com o Léo, não acha?", Elias continuou, alheio à tempestade que se formava dentro de mim. "Eu o chamei de Caio. Caio Montenegro. Para trazer alegria de volta à nossa família."
Ele estava trazendo seu filho bastardo para nossa casa. Desfilando-o na frente do mundo como um presente para mim. A crueldade daquilo era de tirar o fôlego.
Não havia sorriso no meu rosto. Meu coração estava sangrando.
Caio se contorceu nos braços de Elias, estendendo a mão para mim. "Mamãe."
Fui forçada a pegá-lo. Ele parecia pesado, um peso estranho em meus braços. A multidão suspirou, seus rostos cheios de admiração pelo meu marido perfeito.
Então, o menino espirrou.
De repente, uma figura correu pela multidão. Era Cássia. Ela arrancou uma flor do meu cabelo, seu rosto uma máscara de pânico.
"Meu Deus, o Caio é alérgico a pólen!", ela chorou, caindo de joelhos. "Sinto muito, Sra. Montenegro! Sou a assistente social dele do orfanato. Eu deveria ter te avisado!"
A sala ficou em silêncio mortal. Todos olhavam.
Eu olhei para ela, para a mentira que ela estava representando tão perfeitamente. Mordi a língua, sentindo o gosto de sangue.
"Eu sinto muito, muito mesmo", ela soluçou, agarrando a mão de Caio. "Por favor, não fique brava com ele."
O rosto de Elias se transformou em uma tempestade. Ele agarrou o braço de Cássia, seu aperto como aço.
"Você ousa aparecer aqui?", ele rosnou, a voz baixa e perigosa. "Você ousa perturbar minha esposa?"
Ele estava desempenhando seu papel. O marido protetor.
"Eu vou te destruir", ele sibilou, alto o suficiente para os mais próximos ouvirem. Ele começou a arrastá-la para longe, um suspiro coletivo percorrendo a multidão.
As pessoas sussurravam, lembrando das histórias da crueldade de Elias Montenegro.
Eu os observei ir, e então, no piloto automático, eu os segui.
Deixei o salão barulhento e os encontrei em um corredor silencioso. As costas dela estavam contra a parede, mas ela não estava com medo. Ela estava rindo, os braços em volta do pescoço dele.
"Você foi tão convincente, meu amor", ela ronronou. "Meu herói."
"Você não deveria ter vindo", disse ele, mas não havia raiva em sua voz. Ele se inclinou e a beijou, com força.
O som da paixão deles foi um toque de finados para o meu coração. Ele a levantou, as pernas dela envolvendo sua cintura, e a levou para uma sala escura, chutando a porta para fechá-la atrás deles.
Eu queria seguir, gritar, mas uma mãozinha puxou meu vestido.
Era Caio. Ele olhou para mim, o rosto contorcido em um desprezo.
"Você não é minha mamãe", disse ele, e então pisou no meu pé, com força. Suas unhinhas cravaram no meu braço, rompendo a pele.
Fiquei ali, congelada, suportando a dor. A imagem de Elias e Cássia estava gravada em minha mente. Meu coração sangrava gota a gota.
A festa acabou. Elias saiu da sala, parecendo satisfeito. Cássia o seguiu, o batom borrado, os joelhos vermelhos e em carne viva sob uma meia-calça rasgada.
Caio os viu e correu para mim, mordendo meu ombro com toda a força. A dor súbita me fez recuar, e ele caiu no chão.
Ele começou a gritar.
Elias correu. Cássia me empurrou para o lado, pegando o menino chorando em seus braços.
"Está tudo bem, bebê, está tudo bem", ela arrulhou, me fuzilando com o olhar. "Sra. Montenegro, eu sei que você está chateada, mas ele é apenas uma criança!"
Ela se virou para Elias, os olhos úmidos de lágrimas falsas. "Talvez... talvez eu devesse apenas pegá-lo e ir embora. Não seremos mais um incômodo para ela."
"Pare com isso", disse Elias, mas seus olhos estavam em mim, frios e desapontados. "Helena, você precisa se controlar. Você não pode continuar vivendo no passado."
Suas palavras foram um tapa na cara.
"Isso é para o bem da nossa família", disse ele, a voz firme. "Precisamos ser felizes de novo."
Ele providenciou para que eu fosse para casa com Caio, enquanto ele e Cássia iam "finalizar a papelada da adoção".
Ele me deixou lá, sozinha com seu filho bastardo.
Aquela noite foi uma tortura.
Sentei-me no escuro, observando o ponto vermelho da localização de Elias no meu celular. Estava na casa de Cássia. O monitor de frequência cardíaca no meu relógio conectado pulsava violentamente, um ritmo constante e doentio que espelhava suas atividades na cama de outra mulher.
No andar de cima, Caio gritava.
Elias havia mandado todos os funcionários para casa naquela noite, querendo que eu "criasse um vínculo" com o menino. Deixando-me sozinha na casa cavernosa com o produto de sua traição.
Fui ao quarto de Caio. Ele estava jogando brinquedos, o rosto vermelho de raiva.
"Eu te odeio!", ele gritou quando me viu. Ele avançou e me atingiu com o corpo, sua pequena estrutura surpreendentemente forte.
Eu o empurrei, e ele caiu no chão, instantaneamente explodindo em soluços teatrais.
"Você me bateu! Vou contar pro meu papai que você me bateu!"
Ele não era uma criança. Ele era uma arma, treinada por sua mãe.
"Eu tenho uma mamãe! Você é uma mulher má!", ele gritou.
Meu rosto era uma máscara de pedra. No meu pulso, o relógio mostrava a frequência cardíaca de Elias disparar novamente.
Passei a noite inteira ouvindo uma sinfonia de tormento: o choro incessante de Caio do andar de cima e a evidência silenciosa e pulsante da traição do meu marido no meu pulso.
Pela manhã, eu me sentia um fantasma.
Lembrei-me das promessas de Elias. Depois que Léo morreu, eu estava um caco. Ele nunca saiu do meu lado. Ele me abraçou, me alimentou, me protegeu do mundo. Ele havia isolado acusticamente nosso quarto para que nada perturbasse meu sono frágil.
Agora, eu estava sentada sozinha na sala de estar, esperando meu marido voltar da cama de outra mulher, enquanto o filho deles gritava obscenidades para mim do andar de cima.
A equipe da casa voltou pela manhã, e me forcei a ir para o meu quarto, desesperada por um momento de sono, um momento de silêncio.
A porta foi aberta com um chute.
A mãe de Elias, Flora Montenegro, entrou furiosa. Seu rosto era uma nuvem de fúria.
Ela me agarrou pelo braço, suas unhas cravando, e me arrastou para fora da cama e escada abaixo.
"Sua inútil!", ela gritou. "O Caio está com febre! O que você fez com ele?"
Ela me empurrou para o quarto de Caio. Elias estava lá, de pé ao lado da cama. Cássia estava ao seu lado, passando um pano úmido na testa de Caio.
Quando Caio me viu, ele recuou, puxando os cobertores sobre a cabeça.
"Não deixe ela me bater!", ele gritou, a voz abafada. "Não me faça tomar banho frio de novo!"
Olhei incrédula. Flora agarrou meu cabelo, puxando minha cabeça para trás.
"Sua monstra!", ela cuspiu, o rosto a centímetros do meu. Ela me bateu contra uma cômoda, o canto cravando em minhas costelas. "Você matou meu primeiro neto, e agora está tentando matar este também! Sua megera inútil e estéril!"
Suas palavras eram veneno. Ela sempre me desprezou, minha origem de classe média uma mancha em seu precioso nome de família.
"Isso não é verdade", eu ofeguei, a dor percorrendo meu lado. "Verifiquem as câmeras de segurança."
Cássia caiu em prantos, caindo de joelhos. "A culpa é minha", ela soluçou. "Eu não deveria tê-lo deixado com ela. Ela estava tão brava, descontou no pobre menino."
Ela olhou para cima, os olhos suplicantes. "Olhem as pernas dele."
Flora arrancou os cobertores de Caio. Suas pernas estavam cobertas de hematomas azuis e verdes raivosos.
A visão deixou Flora em fúria. Ela me deu um tapa no rosto, a força do golpe virando minha cabeça para o lado.
Minha bochecha ardia. Olhei para Elias, procurando em seu rosto qualquer sinal de apoio, qualquer indício de que ele me conhecia, de que ele sabia que eu nunca faria isso.
Seus olhos eram gelo.
O protesto morreu na minha garganta. Ele acreditou neles. Claro que acreditou.
"Helena", a voz de Elias era baixa e pesada de desapontamento. "Isso foi longe demais."
Ele não olhou para mim. Ele olhou para a parede atrás de mim.
"Levem-na para a represa", ele ordenou aos seguranças que apareceram na porta. "Tranquem-na na casa de bombas. Ela precisa esfriar a cabeça."
Minhas pupilas tremeram. A casa de bombas na represa. Uma sala pequena e escura que frequentemente inundava.
Água.
Meu maior medo desde Léo.
Eu não lutei. Deixei que me arrastassem, meu corpo entorpecido.
Eles me empurraram para dentro da pequena sala de concreto e trancaram a porta. A água já estava se infiltrando, fria e preta. Subiu rapidamente, passando pelos meus tornozelos, meus joelhos, minha cintura.
Fechei os olhos, e estava de volta lá, quatro anos atrás. O sol brilhante, a água azul da nossa piscina, o silêncio aterrorizante. O pequeno corpo de Léo, flutuando. Meus próprios gritos, crus e inúteis.
Elias tinha sido quem me tirou do meu medo. Ele passou meses pacientemente me ajudando, me segurando em uma piscina até que eu pudesse respirar novamente sem pânico. Ele construiu um muro contra o meu terror.
E agora ele estava usando esse mesmo terror para me punir. Por um crime que eu não cometi.
A água fria alcançou minha boca. A escuridão e a pressão sufocante se fecharam. Um pesadelo do qual eu nunca poderia acordar.
Na escuridão, vi o rosto de Léo. Ele estava sorrindo, estendendo a mão para mim.
Uma lágrima escapou do meu olho, misturando-se com a água gélida.
Meu amor, minha confiança, minha vida inteira com Elias. Estava tudo podre até o âmago.
Deixei-me afundar.