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Sua Vontade

Sua Vontade

Autor:: AutoraAngelinna
Gênero: Romance
Ao ser salva por Bryan Elliot, um agente secreto sexy, gentil, sofisticado e milionário, a bancária Lucy Miller teve de reconhecer que ele fazia jus ao seu codinome: Casanova. Bryan era realmente um homem de tirar o fôlego! Lucy estava correndo perigo por ser espiã também, e Bryan decidiu levá-la para o local mais seguro que conhecia: sua casa em Manhattan. Lá ganhou um outro nome, roupas novas e ficou deslumbrante! Lucy estava cumprindo à risca o papel de nova namorada de Bryan, mas tinha de se lembrar a todo instante que a atração entre eles era apenas um disfarce... Ou não?

Capítulo 1 1

Ao ser salva por Bryan Elliot, um agente secreto sexy, gentil, sofisticado e milionário, a bancária Lucy Miller teve de reconhecer que ele fazia jus ao seu codinome: Casanova. Bryan era realmente um homem de tirar o fôlego! Lucy estava correndo perigo por ser espiã também, e Bryan decidiu levá-la para o local mais seguro que conhecia: sua casa em Manhattan. Lá ganhou um outro nome, roupas novas e ficou deslumbrante! Lucy estava cumprindo à risca o papel de nova namorada de Bryan, mas tinha de se lembrar a todo instante que a atração entre eles era apenas um disfarce... Ou não?

REGISTRO DIÁRIO

Referente ao caso da Alliance Trust

Trouxe a testemunha para a minha casa. Ela está dis¬farçada, para sua própria segurança. Ninguém saberá sua verdadeira identidade. Eu mesmo mal consigo re-conhecê-la.

Vai ser difícil esconder minha identidade secreta da minha família com ela por aqui, mas não tenho escolha.Não tinha outra maneira de eu continuar trabalhando para a polícia.

Estamos na mira dos fraudadores por causa dos da¬dos que iria conseguir baixar do sistema do banco. Es¬pero conseguir solucionar esse caso até o final do mês. Minhas investigações me levaram a algumas conclu¬sões perturbadoras. Se eu estiver certo, não podemos confiar em ninguém.

Por via das dúvidas, decidi manter a testemunha sempre perto de mim. Tenho de admitir, contudo, que com sua beleza, essa não é das tarefas mais difíceis. Te¬nho de me lembrar constantemente de que tudo não passa de mais uma missão.

Vou usar todos os recursos que o meu dinheiro me fornecer para garantir a sua segurança.

Casanova

CAPÍTULO UM

- Você tem de me tirar dessa - disse Lucy Miller entre os dentes ao falar no celular secreto que havia sido enviado para sua casa havia algumas semanas.

O aparelho tinha tocado quando ela estava saindo de uma reunião de equipe. Lucy entrara rapidamente no banheiro feminino e verificara cada um dos compartimentos para se certificar de que estava sozinha.

- Relaxe, Lucy - disse a voz do outro lado da li¬nha que ela passara a conhecer tão bem. Lucy já ha¬via perdido a conta de quantas vezes tinha fantasiado com o dono daquela voz profunda e sexy. Hoje, po¬rém, estava aterrorizada demais para pensar em qual¬quer outra coisa que não fosse salvar a própria pele.

- Não me diga para relaxar - sussurrou ela de volta. - Não é você que está preso neste banco ten¬tando agir com naturalidade, mesmo sabendo que existe alguém querendo liquidá-lo.

- Liquidá-la? Acho que você tem visto muito te¬levisão ultimamente. Não há ninguém querendo ma¬tar você.

- Você não viu o homem que estava me seguin¬do. Sei reconhecer um assassino quando vejo um. Ele estava usando um sobretudo neste calor de rachar.

- Mas também choveu hoje em Washington. Ele provavelmente estava usando uma capa de chuva.

- Casanova, você não está me levando a sério! Meu disfarce foi descoberto. Alguém entrou na mi¬nha casa. Ou você me tira daqui ou pego o primeiro vôo para a América do Sul e carrego todos os dados comigo.

- Seja razoável, Lucy...

- Eu estou farta de ser razoável. Estou farta de fa¬zer tudo o que você me pede sem questionar. Confiei cegamente em você, apesar de nunca tê-lo visto e se-quer saber o seu nome. Agora é a sua vez de confiar em mim. Não sou nenhuma idiota. Se você não me ti¬rar dessa, este aparelhinho vai acabar no esgoto você nunca mais terá notícias minhas.

- Está bem, posso encontrá-la na sua casa por volta das cinco e meia, seis horas no máximo. Você acha que consegue se segurar até lá?

Lucy respirou fundo, tentando se acalmar. Ela ti¬nha começado a ficar alerta havia três dias, mas on¬tem percebera que alguém entrara em sua casa. Seu observador, porém, não a havia confrontado direta¬mente. Talvez fosse possível esperar por mais algu¬mas horas.

- Farei o melhor que puder. Se alguma coisa me acontecer, diga aos meus pais que os amo.

- Não seja dramática. Você ficará bem.

Ela desligou antes de dizer alguma coisa da qual pudesse se arrepender depois. Dramática? Será que Casanova estava achando que ela era uma paranóica?

E tudo o que ela havia conseguido nessas últimas se¬manas não contava? Casanova. Por que alguém esco¬lheria um codinome desses, afinal?

Lucy guardou o celular em sua bolsa e já ia saindo do banheiro quando parou para dar uma olhadinha no espelho. Estava parecendo uma maluca. Seu rosto es-tava emoldurado por mechas eriçadas que haviam es¬capado do coque que usava para trabalhar no banco. Suas bochechas estavam rubras e os olhos arregala¬dos de medo por trás das lentes dos óculos. Ela ajei¬tou o cabelo, empoou o nariz e passou um batom ro¬sado nos lábios. A maquiagem não fez muito efeito, mas isso não tinha muita importância. Ela não queria ficar mais atraente, e sim manter uma aparência con¬dizente com a das outras executivas do seu local de trabalho. A última coisa que queria era chamar a atenção.

Já recomposta, deixou a tranqüilidade do banheiro e se aventurou em direção ao escritório, torcendo para poder trancar a porta e se enclausurar até o fim da tarde.

Que bela espiã você me saiu, Lucy Miller! Desmontando-se toda ao primeiro sinal de perigo.

Virou no corredor e deu de cara com o presidente do banco, o homem que a havia contratado.

- Olá, Lucy - disse ele, educadamente. - Eu estava mesmo procurando por você.

- Desculpe, eu estava no banheiro. O almoço não me fez muito bem.

Lucy achou que ele não faria muitas perguntas a esse respeito. Já havia percebido que ele ficava em¬baraçado com muita facilidade.

Ele avaliou o rosto dela com seu olho sadio. O ou¬tro fora arruinado em algum tipo de acidente, mas ela não conhecia os detalhes. Lucy estava com os nervos à flor da pele. Será que ele havia notado algu¬ma coisa?

- Você realmente não está com boa aparência - disse ele. - Acha mesmo que está em condições de trabalhar?

- Estou - disse ela.

O Sr. Vargov era sempre muito gentil com ela. Ele era amigo de seu tio Dennis e a contratara a pedido dele quando ela estava precisando de um emprego se¬guro e estável. Lucy não tinha a qualificação necessá¬ria para assumir o cargo de auditora. Possuía apenas um bacharelado em Finanças e não tinha experiência comprovada, mas havia conseguido se sair muito bem no novo trabalho.

Bem até demais, na opinião do Sr. Vargov. Ele achava que ela se dedicava excessivamente ao banco e não havia levado as suas suspeitas de fraude muito a sério. Foi por isso que ela acabou se envolvendo com a Homeland Security e, por conseguinte, com Casanova.

- Por que você não tira o resto da tarde de folga? - sugeriu o Sr. Vargov.

- Não posso. O senhor me disse que precisava da¬queles relatórios...

- Isso pode esperar. Seu tio me comeria vivo se soubesse que eu a estava obrigando a trabalhar mes¬mo doente.

- Obrigada, Sr. Vargov. Talvez eu saia um pouco mais cedo se o mal-estar não passar.

- Acho que você deveria mesmo.

Se saísse mais cedo, talvez conseguisse despistar o homem que a estava seguindo. Ela não sentiria falta da Alliance Trust. Tinha precisado de um lugar para reestruturar sua vida e aquele banco cumprira essa missão, mas agora era hora de seguir em frente. Ela decidiu passar ainda uma hora baixando o máximo de informações possíveis para o seu pen drive de altíssi¬ma capacidade e depois deixar aquele lugar para nun¬ca mais voltar.

Casanova a levaria para um abrigo para testemu¬nhas sob proteção policial. Ela permaneceria lá até que todos os envolvidos na fraude fossem presos e ela pudesse recomeçar a vida em algum outro lugar. Um novo trabalho, uma nova vida. Parecia o paraíso.

As três e dez, ela estava pronta. Escondeu o pen drive no sutiã e levou apenas a bolsa e o guarda-chu¬va. Na saída, disse a Sra. Peggy Holmes, secretária executiva do Sr. Vargov, que estava indo para casa mais cedo devido a um mal-estar do estômago.

- Oh, minha querida, espero que não seja nada sério. Você só faltou a um dia de trabalho desde que veio para cá. Creio que foi por causa de um tratamen¬to de canal.

A Sra. Peggy já passava dos 60 anos e trabalhava para o Sr. Vargov havia mais de vinte. Baixinha, gorda e com o cabelo muito armado, ela parecia a avó de todos por lá, mas Lucy sabia que ela era muito inteli¬gente e tinha uma memória que beirava o patológico.

- Ficarei bem - disse Lucy, torcendo para que aquilo fosse mesmo verdade.

A idéia de ir sozinha até o estacionamento não pa¬recia muito atraente, mas pedir ajuda a um dos seguranças significaria colocar mais uma pessoa em risco.

Ela decidiu fazer o contrário do que se poderia es¬perar e pegar um ônibus. Havia um ponto a apenas um quarteirão de distância do escritório.

O dia estava quente e úmido, com uma chuvinha fina e persistente. Ela abriu o guarda-chuva, aprovei¬tando a oportunidade para olhar discretamente ao re¬dor, tentando avistar o homem da capa.

Lucy fingiu olhar as vitrines, não querendo perma¬necer tempo demais parada no ponto. Correu ao ver o ônibus se aproximando e embarcou no último mo¬mento. Respirou aliviada ao ver que os únicos passa¬geiros além dela eram uma mãe e suas duas criancinhas.

Não havia ninguém à vista quando ela desceu no ponto perto da sua casa em Arlington, Virginia. Tal¬vez tivesse conseguido despistar seu perseguidor. Ele também poderia ter desistido dela, achando que não havia com o que se preocupar, já que, com certeza, não encontrara nada em sua casa que pudesse in¬criminá-la, pois ela mantinha o pen drive sempre consigo.

Morava numa casa minúscula com apenas uma porta que havia preparado esta manhã para saber se alguém havia estado lá dentro. Ela checou se o fio de cabelo que havia prendido entre o umbral e a porta ainda estava no mesmo lugar. Então, destrancou a porta e se preparou para entrar, detendo-se apenas para fechar o guarda-chuva e sacudi-lo ainda do lado de fora.

Já morava lá há dois anos. Seu tio encontrara a casa, e ela tinha se comprometido a alugá-la sem vê-la antes. O lugar era razoável, mas sem qualquer atrativo, assim como a sua vida, até algumas semanas atrás. Lucy não fizera esforço algum para transfor¬mar aquela casa em um verdadeiro lar. Decididamen¬te, não sentiria falta daquele lugar.

Assim que entrou e fechou a porta, uma mão tapou sua boca e um braço forte a puxou contra um corpo rígido e musculoso.

Em pânico, ela seguiu seu instinto. Mirou o guar¬da-chuva para trás e acertou a coxa de seu agressor com toda a força de que foi capaz.

Ele soltou um grito abafado e afrouxou o braço o suficiente para que Lucy pudesse dobrar os joelhos e cair no chão. Ela então agarrou uma das pernas do ho-mem e a puxou, derrubando-o. Empertigou-se e avan¬çou na direção dele, mirando a ponta de seu guarda-chuva na direção de sua garganta.

O homem agarrou a arma improvisada e a desviou a tempo de não ser atingido por ela.

- Pare com isso, Lucy! Sou eu, Casanova!

Ele arrancou o guarda-chuva de suas mãos e ati¬rou-o longe. Isso, porém, tirou-lhe o equilíbrio, fa¬zendo com que caísse bem em cima dele, olhando di-retamente nos mais belos olhos azuis que já havia visto na vida.

- Casanova? - repetiu ela, apesar de reconhecer a voz.

- Sua louca! Você quase me matou!

- Você invade a minha casa, me ataca, e a louca sou eu?

- Eu não tinha idéia de que era você. Só estava esperando a sua chegada para daqui a uma hora.

-Onde foi que aprendeu a lutar desse jeito?

- Fiz umas aulas de autodefesa. O que é que você está fazendo aqui?

- Eu não podia correr o risco de ser visto por al¬guém que possa estar vigiando a sua casa, por isso tive de invadi-la.

- Como? Eu tenho um alarme.

- Mas a sua vizinha, não.

Ele sorriu e Lucy pôs-se a averiguar a sala, depa¬rando-se com um enorme buraco no meio da parede.

- Você atravessou a parede? Você não assustou a Sra. Pfluger, não é? Meu Deus, o que o proprietário vai dizer?!

- Você não estará aqui para descobrir. Nós esta¬mos de partida.

Aquela foi a primeira coisa reconfortante que ele disse.

- Quer dizer que você acredita em mim?

- Sua casa está repleta de aparelhos de escuta. Alguém realmente esteve aqui.

Lucy baixou a voz até sussurrar.

- Eles estão ouvindo o que nós estamos dizendo neste exato momento?

- Acho que eles estão usando um mecanismo acionado pela voz, mas não creio que estejam moni¬torando sua casa quando pensam que você não está. Nós não temos muito tempo. Se você pudesse, ah...

Lucy ficou desconcertada ao perceber que ainda estava deitada sobre ele e que não havia feito o menor esforço para sair dessa posição. Ela podia sentir to¬dos os músculos firmes do corpo dele contra o seu e tinha de admitir que a sensação não era nada desagra¬dável. Já fazia muito tempo que não tinha um contato mais íntimo que um mero aperto de mão com um ho¬mem.

Ela saiu de cima de Casanova, toda estabanada, acertando-o involuntariamente com o joelho no meio das pernas.

- Nossa, você é uma mulher muito perigosa.

Ele se sentou e balançou a cabeça, como se tentas¬se clarear as idéias. Lucy sempre o havia imaginado como um homem lindo e charmoso, mas nenhuma de suas fantasias chegava sequer aos pés do verdadeiro Casanova. Ele era maravilhoso. Um corpo firme de l,80m de altura, cabelos negros e espessos e olhos in¬críveis. Seu cabelo estava todo despenteado, como se ele tivesse acabado de se levantar da cama.

Oh, Lucy, pare com isso.

- Você tem exatamente três minutos para pegar seus artigos de primeiríssima necessidade. Remé¬dios, escova de dentes e uma muda de roupa de baixo. Não se preocupe com as roupas.

Lucy seguiu as recomendações ao pé da letra. Cor¬reu para o quarto e enfiou algumas calcinhas e meias, a escova de dentes e o remédio contra alergia numa pequena mochila. Como ainda tinha algum tempo de sobra, aproveitou para tirar a saia e a meia-calça que a estava incomodando e as trocou por um jeans e um par de tênis. Ela não sabia quanto tempo teria de pas¬sar viajando, nem para onde, e queria pelo menos ga¬rantir um mínimo de conforto.

Ela saiu do quarto em cima da hora. Casanova pa¬recia impaciente.

- Já não era sem tempo.

- Você disse que eu tinha três minutos, e os apro¬veitei - disse ela, não conseguindo conter um sorri¬so.

- Está gostando disso, não é?

- De certa forma - admitiu ela. Já fazia algum tempo que não sentia a adrenalina correr em suas veias e as bochechas corarem. Até havia se esquecido de como era bom. - Você também gosta disso, caso contrário, não seria um espião.

Ele fez um meneio de cabeça, concordando.

- Vamos embora.

Casanova conduziu Lucy através do buraco que havia feito na parede.

- Ainda bem que a Sra. Pfluger não estava em casa - disse ela. - Ela teria ficado apavorada.

- O que a faz pensar que ela não estava em casa? Lucy se surpreendeu ao ver a vizinha de 82 anos, sentada em sua poltrona, assistindo à TV. Ela sorriu ao ver Casanova.

-Então você voltou - disse ela. Ela estava qua¬se incapacitada devido à artrite, mas sua mente conti¬nuava tão afiada quanto a de uma moça de 20 anos. - Olá, Lucy querida.

Lucy olhou-a, estupefata.

-Vocês se conhecem?

- Agora sim. Ele bateu à minha porta e me disse que precisava da minha ajuda para salvá-la de alguns terroristas que a estavam perseguindo - disse a Sra. Pfluger, dando de ombros como se estivesse se refe¬rindo a algo rotineiro.

- Mas ele destruiu a sua parede - disse Lucy.

- Ele me deu dinheiro vivo para pagar pelo con¬serto - disse ela a Lucy, para então voltar-se para Casanova: - Juntei as coisas que você me pediu - disse ela, apontando para uma velha sacola de com¬pras. - São roupas e acessórios da época em que eu ainda era gorda. Não vou precisar mais de nada disso.

Casanova inspecionou o conteúdo da sacola, sor¬riu e olhou para Lucy.

- Excelente. Lucy, vista essas roupas. Você está prestes a se transformar em Bessie Pfluger.

Bryan Elliot, também conhecido como Casanova, tentou não sorrir ao ver Lucy Miller repuxar desajei¬tada as enormes calças de lycra cor de laranja e pren¬dê-las na cintura.

Eleja havia recolhido muitas informações a seu respeito antes de escolhê-la para ajudar a desvendar o caso dos desfalques. Ela era uma pessoa responsável e inteligente, e provara ser de grande ajuda nas últi¬mas semanas ao baixar toneladas de informações do sistema do banco, seguindo à risca suas instruções sem questionar nenhuma delas.

Pessoalmente, porém, parecia bem mais agitada do que ele poderia supor, além de muito eficiente quando se tratava de se defender. Talvez com o trei-namento apropriado... Não, era melhor nem pensar nisso. Ele já se deixara arrastar para dentro de uma vida de mentiras e sombras, sem volta, e não desejava o mesmo para a doce Lucy Miller.

Ele podia tentar preservá-la do lado feio da vida, mas não tinha mais como evitar que ela entrasse em contato com as roupas mais feias de todo o universo. Ela havia colocado um roupão repleto de apliques com motivos de arco-íris sobre a calça laranja e co¬berto os cabelos com uma peruca de cachos pratea¬dos. Para completar o visual, colocou ainda um par de óculos antigos da Sra. Pfluger, com uma armação vermelha, ligeiramente mais feios que os da própria Lucy.

- O meu antigo andador está lá no canto - disse a Sra. Pfluger, indicando um ponto da sala.

- Isso não vai funcionar - disse Lucy, resmun¬gando. - Ninguém vai acreditar que tenho 80 anos.

- Oitenta e dois - corrigiu a Sra. Pfluger.

- Pode acreditar em mim. Quem quer que possa es¬tar vigiando este lugar não vai se preocupar com nada além do seu próprio alvo - ele montou o andador portátil e o colocou na frente de Lucy. - Vamos ver como è que você se sai no papel de uma senhora idosa.

Lucy se curvou e se apoiou no andador, fazendo uma imitação bastante convincente de alguém com artrite.

- Oh, meu Deus - disse a Sra. Pfluger. - Por fa¬vor, diga-me que não ando assim.

- Eu estou exagerando - disse Lucy, abraçando a vizinha. - Oh, Sra. Pfluger, não sei como lhe agra¬decer pela ajuda. A senhora nem conhece esse rapaz.

- Ele me mostrou um distintivo - disse a Sra. Pflu¬ger inocentemente, sem imaginar que se tratava de um distintivo falso que podia ser comprado em qualquer canto de Washington. - Além disso, ele tem um olhar confiável. Sei que ele vai cuidar bem de você.

- É o que espero - disse Lucy, olhando intensa¬mente para Bryan. - Podemos ir agora?

Bryan agradeceu a Sra. Pfluger e então "ajudou" Lucy a sair pela porta da frente e a descer pela rampa própria para as cadeiras de rodas.

- Mantenha a cabeça baixa. Isso - sussurrou ele. -Você está se saindo muito bem. Se eu não soubes¬se quem você realmente é, juraria que se tratava de uma vovozinha.

A verdade, porém, é que ele sabia exatamente quem estava por baixo de todos aqueles panos. O cor¬po que pressionara o seu depois da queda na casa de Lucy não tinha nada a ver com o de uma vovó. Ele havia se surpreendido com o corpo bem-feito que ela escondia por debaixo daquelas roupas largas e sem charme que estava usando. Seu Mercedes estava es¬tacionada no meio-fio. Ciente de que a casa de Lucy podia estar sendo vigiada, ele evitara fazer qualquer movimento suspeito, optando por dirigir-se direta¬mente à porta da vizinha de Lucy e tocar a campai¬nha. Sabia que ela estaria em casa, assim como tam¬bém sabia que fora enfermeira na Coréia e que o ma¬rido havia sido um veterano da Segunda Guerra Mun¬dial. Bryan apostara no seu patriotismo, acreditando que ela se disporia a ajudá-lo, e não se decepcionou.

Ele conseguiu relaxar um pouco depois de dar a partida no carro. Quem quer que os estivesse obser¬vando fora despistado pela interpretação de Lucy. Ninguém os seguia.

Bryan conduziu o carro até o estacionamento de um shopping e estacionou num lugar muito próximo de onde a havia encontrado.

- Por que estamos parando aqui? - perguntou Lucy.

- Para trocar de carro - ele desligou o motor e puxou a chave mestra da ignição.

- O que é isso? - perguntou Lucy, apontando para a estranha ferramenta. - Oh, meu Deus, você roubou o carro!

- Só peguei emprestado. A dona está fazendo compras no shopping, na santa paz de Deus. Ela ja¬mais saberá o que aconteceu.

- Isso é assustador - disse Lucy. - Pensar que existe uma ferramenta como essa e que agentes do governo podem roubar carros por aí...

-Acho que existam agentes do governo fazendo coisas muito mais graves do que isso - disse ele ao sair do carro. Infelizmente, havia aprendido isso da pior maneira possível.

Lucy pegou o andador do banco de trás mas não teve de usá-lo. Apenas seguiu Bryan rapidamente até o carro o para o qual ele se dirigira no estacionamento, um Jaguar prateado. Ele não estava com um carro da companhia quando falou com Lucy ao celular e não quis correr o risco de ser identificado por isso.

- Gostei ainda mais deste do que do Mercedes - comentou ela depois de colocar o andador na mala. - Este também é roubado?

- Não, este carro é meu.

- Eu não sabia que os agentes do governo ganha¬vam tão bem a ponto de poderem comprar um Jaguar.

- E não ganhamos mesmo. Essa não é a minha única fonte de renda.

Bryan nunca havia imaginado que o negócio que montara para disfarçar sua principal atividade e satisfazer a curiosidade da família e dos amigos pudesse dar tanto lucro. Ele abriu a porta para ela.

- Pode tirar o disfarce agora. Nós estamos a salvo.

- Graças a Deus.

Ela arrancou a peruca. Seu verdadeiro cabelo se soltou do coque frouxo, caindo graciosamente sobre os ombros. Ele nunca havia achado um cabelo casta-nho tão atraente antes, mas o de Lucy era espesso e sedoso.

Lucy tirou o roupão que havia jogado sobre a ca¬misa branca enquanto ele deu a volta no carro.

- Esqueci os meus jeans -- disse ela, lamentando-se.

- Não, eu os peguei - disse Bryan, mas então se deteve. Ele havia ficado tão fascinado ao ver Lucy tirá-los para colocar o disfarce, deixando entrever, por um rápido momento, a delicada calcinha branca, que tinha se esquecido de trazer os jeans. - Não se preocupe, nós arranjaremos umas roupas para você.

A lembrança da visão de Lucy se trocando o dei¬xou quase tão perturbado quanto a descoberta dos aparelhos de escuta na casa dela. Bryan não a tinha levado a sério no início, mas o grampo que ele havia encontrado em seu telefone era coisa de gente graúda. Somente o pessoal da sua agência tinha acesso àquela tecnologia de ponta russa, o que reduzia sua lista de suspeitos a alguns poucos nomes.

Ele fora traído por alguém da sua própria orga¬nização, o que significava que ele e Lucy estavam correndo sério risco até que o inimigo fosse neutra¬lizado.

Capítulo 2 2

Eles permaneceram em silêncio por algum tempo. Bryan fez um trajeto por fora da cidade para ter abso¬luta certeza de que não seriam seguidos.

-Você está bem? - perguntou ele. Ele linha achado que Lucy ia enlouquecê-lo com perguntas querendo saber para onde estavam indo e o que aconteceria em seguida, mas ela havia perma¬necido estranhamente quieta.

- Estou.

- Sinto muito por tê-la colocado em perigo.

- Você tinha me avisado que isso seria arriscado.

- Saiu-se muito bem. Só lamento por não termos tido tempo de concluir o trabalho.

- Eu concluí.

- Como?

- Voltei à Alliance Trust depois que falei com você. Deixei todas as precauções de lado e baixei tudo o que vi pela frente.

- Tudo? - perguntou ele, mal podendo acreditar no que estava ouvindo.

-Tudo aquilo de que vou precisar, mas levarei algum tempo para desvendar todo o material. A pes¬soa que está fraudando os fundos de aposentadoria é muito perspicaz. Localizei agendas, listas telefônicas, horários de entrada e saída e de acesso ao com¬putador, além de senhas e a relação de quem partici¬pou de que reunião e quando. Posso descobrir quem fez as retiradas ilícitas usando um processo de elimi¬nação.

- Você não vai precisar fazer isso. A agência tem os melhores cérebros do país.

Bryan se deteve. Ele não ousaria passar aquelas informações para mais ninguém até descobrir quem o havia traído. Bastaria uma única tecla para apagar to¬dos os dados pelos quais Lucy arriscara a vida.

- Posso dar conta disso - disse Lucy. - Sua or¬ganização pode ter os maiores especialistas, mas co¬nheço as pessoas envolvidas no caso. Não há nin¬guém mais qualificado do que eu para esse trabalho.

Talvez ela tivesse razão.

- De que você precisará?

- De um computador suficientemente potente para lidar com essa quantidade de dados e um lugar tranqüilo para trabalhar.

O plano sobre o qual ele começara a pensar pela manhã foi ganhando consistência. Aquilo era uma loucura, mas ele não conseguia pensar em outra ma-neira de garantir a segurança de Lucy. Ele tinha aces¬so a muitos abrigos para testemunhas, mas todos eles eram do conhecimento das outras pessoas envolvidas naquela missão - Tarantula, Eletro, Orquídea e seu superior imediato, Sibéria. A sua lista de suspeitos. Quatro pessoas a quem ele, até uma hora atrás, con¬fiara à própria vida.

- Acho que posso conseguir isso para você - ele falou.

Ela se recostou em seu assento, parecendo satis¬feita.

Para onde estamos indo?

-Ele já estava admirado por ela ainda não ter tocado no assunto.

-Nova York.

-A sua terra?

Bryan ficou apreensivo. Como é que ela sabia disso?

-Seu sotaque - disse Lucy, antes que ele tivesse tempo de perguntar. - Tive um amigo na escola que era de lá. Você fala igualzinho a ele.

Lucy era realmente observadora. Como é que ele, que fora treinado para eliminar qualquer evidência que pudesse revelar detalhes de sua vida pessoal, ha-via baixado tanto a guarda a ponto de ela conseguir descobrir de onde ele era?

-Você trabalha para a CIA?

-No início, trabalhava.

Eles o recrutaram quando ainda estudava Admi¬nistração de Empresas, com a intenção de trabalhar na Editora Elliot com o restante de sua família: Os agentes do governo disseram-lhe que tinha sido esco¬lhido devido às excelentes notas e ao seu talento para o atletismo.

Então alguém sem rosto e sem nome o recrutou para um recém-formado braço investigativo da Homeland Security, uma agência tão secreta que não ti¬nha nome nem escritório central.

Bryan costumava mentir com certa desenvoltura, mas por alguma estranha razão não queria enganar Lucy. Optou então por contar-lhe apenas parte da verdade:,

- Trabalho para a Homeland Security.

- Eu não sabia que eles tinham seus próprios es¬piões.

- As coisas ainda estão evoluindo por lá.

- Como alguém se torna um espião?

- Por quê? Está interessada em se juntar a nós?

- Talvez. Qualquer coisa é melhor do que o que eu vinha fazendo até agora.

- Por que é que você trabalhava num banco se não gostava disso?

Ela deu de ombros.

- Era o que esperavam que eu fizesse. Além do mais, o salário era muito bom. Mas estou querendo fazer alguma coisa diferente.

- Como o quê?

- Não sei. Quem sabe me juntar ao pessoal do cir¬co? Eu daria uma boa domadora de leões.

- Você? - disse ele sem pensar, arrependendo-se logo em seguida ao ver a reação dela.

- Acha que eu não conseguiria domar os leões?

- Oh, tenho certeza de que sim. Você os acertaria com seu guarda-chuva.

- Você ri agora, mas não pareceu achar tanta gra¬ça quando o derrubei e quase furei você com ele. - Ela olhou ao redor e percebeu que havia esquecido o adorável disfarce.

- Oh, nós o deixamos para trás. Eu postava tanto dele.

-Comprarei um novo para você - disse ele, sen¬tindo um pouco de pena dela. Sua vida fora interrom¬pida e nunca mais seria a mesma e ela parecia ainda não ter se dado conta disso.

- Quer dizer que não vamos voltar.

- Não tão cedo.

- Ótimo. Acho que eu cortaria os pulsos se tivesse de passar mais um dia naquela casa sem graça. -Usando aquelas roupas tão sem graça quanto ela.

Ela o havia surpreendido mais uma vez. Pelo que ele pudera averiguar, ela vinha de uma sólida família de agricultores no Kansas. Tinha freqüentado a uni-versidade estadual e obtivera boas notas. Estava tra¬balhando num emprego para o qual não tinha qualifi¬cação suficiente, mas os relatórios de seus patrões eram todos muito elogiosos.

O único mistério a respeito de Lucy Miller era um período de dois anos, logo após a faculdade, sobre o qual Bryan não conseguira obter muitas informações. Seu passaporte indicava que ela havia viajado algu¬mas vezes para o exterior. Talvez ela tivesse ido visi¬tar o irmão mais velho, que morava na Holanda.

- Minha família vai ficar preocupada - disse ela.

- Você não poderá entrar em contato com eles.

- Nunca mais? - perguntou Lucy, num fio de voz. - Vou entrar no programa de proteção às teste¬munhas?

- É isso o que você quer?

Ela suspirou.

- Eu bem que gostaria de ter uma nova identida¬de. Sempre odiei meu nome. Mas gostaria de esco¬lher o meu próprio codinome.

- E qual você escolheria?

- Certamente nada tão idiota quanto Casanova, se bem que, a julgar pela maneira como você encan¬tou a Sra. Pfluger, ele deve se adequar muito bem a você. Ela nunca foi tão simpática comigo.

- Casanova não foi idéia minha. Você pode me chamar de Bryan.

Ela acabaria descobrindo o seu verdadeiro nome em breve, de qualquer maneira.

- E você pode me chamar de... Lindsay. Lindsay Morgan.

- Muito sofisticado. Você conhece alguém com esse nome?

- Não, mas sempre gostei da atriz Lindsay Wag¬ner. Aquela da Mulher Biônica.

- Então este será o seu novo nome daqui por diante. E melhor ir se acostumando.

Oh, meu Deus, ele estava falando sério. Ela real¬mente ia ganhar uma nova identidade. Uma nova vida, um novo trabalho, uma nova casa, talvez num lugar tão excitante quanto Nova York. Ela sabia que deveria estar aterrorizada. Sua casa fora invadida por gente ligada ao terrorismo internacional para a colo¬cação de aparelhos de escuta. Eles podiam estar à sua procura para matá-la. Ela, porém, não conseguia sen¬tir outra coisa senão expectativa.

Lucy percebeu que Bryan estava preocupado. Era como se ele estivesse pisando sobre areia movediça.

Ele não lhe dera ouvidos quando ela disse que estava sendo seguida. Só fora até sua casa porque ela prometeu desaparecer com todos os dados que baixara, e Bryan se surpreendeu enormemente ao descobrir que ela tinha razão e que a operação fora desco¬berta.

-Eu não deixei pistas - disse ela abruptamente, ansiosa por esclarecer qualquer dúvida. - Sempre fui muito cuidadosa. Só baixava os dados em perío¬dos curtos, de cinco a dez minutos, e apenas quando estava absolutamente sozinha em meu escritório, com a porta trancada. Nunca falei sobre isso com nin¬guém e tenho certeza de que ninguém teve acesso ao meu pen drive. Eu o mantive o tempo todo no sutiã.

Ele olhou para ela.

-Verdade? Ele está aí agora? Está.

O carro desviou um pouco do caminho, sem qual¬quer razão aparente. A simples menção às peças ínti¬mas femininas não poderia ter perturbado um espião que provavelmente já havia visto coisas inimaginá¬veis.

Já fazia muito tempo que ela não provocava ne¬nhum tipo de reação no sexo oposto. Ela já tinha en¬terrado aquela garota irresponsável que flertava abertamente com os rapazes havia algum tempo, debaixo de uma roupa antiquada, um par de óculos de lentes grossas e um cabelo desarrumado. Tudo isso por uma única razão da qual ela se lembrava muito bem, por¬tanto, Bryan provavelmente desviara de um obstácu¬lo na estrada e ponto final.

Ainda estava claro quando eles chegaram a Nova York. Lucy havia esquecido o quanto amava aquele lugar. Nova York tinha uma energia diferente de to¬das as outras cidades. Ela saberia reconhecê-la de olhos fechados.

- Nós vamos ficar em Manhattan? - ela pergun¬tou.

- Sim.

- Você vai me colocar num hotel?

- Não. Eles pediriam a sua documentação.

- Um abrigo, então?

- Sim. O mais seguro de todos - disse ele, sor¬rindo.

Aquela foi a primeira vez em que ela o viu com uma expressão diferente daquela grave tão caracte¬rística. Aquele sorriso mexeu com ela. Não era de se estranhar que a encrenqueira da Sra. Pfluger tivesse ficado tão disposta a cooperar com ele. Dez minutos mais e a mulher provavelmente acabaria tirando a própria roupa. A idéia fez com Lucy se lembrasse de que havia tirado a calça na frente de Bryan, um per¬feito estranho. Ela estava tão amedrontada que nem se importou com isso na hora.

Eles cruzaram Manhattan pelo Lincoln Tunnel e, no chegarem no centro, viram-se rodeados por arranha-céus, carros, táxis e pedestres. Gente de todas as cores, idiomas e tamanhos.

Lucy costumava evitar a lembrança da última vez em que estive na cidade, pouco antes de fazer uma longa viagem de volta ao Kansas, durante a qual chorara do início ao fim. Ao pensar no episódio agora, no entanto, ela percebeu que a dor já não era mais tão aguda.

Os dois últimos anos a ajudaram a curar as má¬goas. Ela tinha precisado dessa pausa, desse porto se¬guro que o trabalho no banco havia lhe proporciona¬do. Porém, agora, mais velha e mais sábia, estava pronta para encarar mais uma etapa de sua vida.

Agora, lá estava ela, seguindo pela Décima Aveni¬da, num Jaguar prateado, com um espião do governo. Isso não era o tipo de coisa que acontecia todo dia.

Lucy baixou o seu vidro e o cheiro da cidade to¬mou suas narinas de assalto. Ela sentiu o aroma de alguma comida exótica e seu estômago roncou. Lembrou-se de que não havia comido nada desde o café da manhã, quando mal fora capaz de terminar o seu iogurte.

-Estou morrendo de fome - disse ela. - Acha que haverá comida na geladeira desse abrigo? Nós poderíamos pedir comida chinesa - disse ela, cheia de esperança.

-Não se preocupe, cuidarei da sua alimentação.

Eles seguiram pela West Side, uma rua ladeada por lojas de alta classe, bares e restaurantes chiques e mansões luxuosas onde moravam pessoas famosas. Lucy passara a maior parte de sua estada em Nova York naquela região, perto do apartamento de Cruz.

Ela avistou um restaurante chamado Une Nuit. Ainda era cedo pelos padrões de Manhattan, mas já havia fila na porta.

- Eu li a respeito desse lugar - disse ela. - Acho que foi na revista People. Ou talvez na Buzz. Algum astro de cinema comemorou o aniversário aqui.

- Foi uma das irmãs Hilton.

- Ah, quer dizer que você também gosta de uma boa fofoca? Como é que um espião tem tempo para ler a Buzz?

- Na verdade, não li. Eu estava lá.

- Sério? Você conhece as irmãs Hilton?

Lucy sempre fora aficionada pelos astros. Era vi¬ciada em revistas sobre celebridades desde a adoles¬cência e sempre teve a fantasia de vir a ser uma delas, ou pelo menos conviver com elas.

Bryan não respondeu. Apenas dobrou a esquina e entrou numa garagem subterrânea, usando um cartão personalizado.

- Nós não vamos comer aqui, não é? - pergun¬tou Lucy, olhando para as suas calças de cor laranja. - Eu adoraria ir a esse restaurante, mas eles certa¬mente não me deixariam entrar com essa roupa.

Bryan sorriu.

Eu poderia colocá-la para dentro, mas não vamos para lá agora. Esse, na verdade, vai ser o seu abrigo.

Ele estacionou numa vaga reservada e desligou o motor.

-Que lugar estranho para um abrigo para teste¬munhas comentou ela. - Achei que seria algo mais isolado.

-A segurança de um abrigo está no fato de ninguém conhecê-lo.

Ele a conduziu por uma porta onde estava escrito "Acesso ao Une Nuit". Depois de chegar a um pequeno foyer, porém, eles seguiram direto para um elevador de aparência suspeita. Bryan apertou um botão em que não havia número algum.

- Senha, por favor - disse a voz do computador.

- Enchilada Coffe - respondeu Bryan, acionan¬do o elevador.

Bryan viu a surpresa estampada no rosto de Lucy e teve de admitir que estava adorando as suas reações. Ele achou que teria de lidar com uma paranóica eternamente em pânico, mas ela demonstrara uma pre¬sença de espírito muito rara na maioria dos civis.

- Que coisa mais James Bond! - ela disse. - Este elevador só funciona com senha?

- É um programa de última geração que reconhe¬ce a minha voz. Ninguém mais consegue chegar até esse apartamento, a não ser eu e os meus convidados, é claro.

-Quer dizer que você mora aqui?

- Sim. Tem algum problema com isso?

- Não, só achei um pouco estranho. Não pensei que os espiões trouxessem as testemunhas sob prote¬ção para as suas próprias casas.

- Isso realmente não acontece com freqüência, mas esse é um caso especial.

- Por quê?

Bryan não sabia se deveria lhe contar a verdade, mas acabou concluindo que ela saberia lidar com a si¬tuação. Ele precisava instruí-la a não confiar em mais ninguém a não ser ele.

- Tenho fortes motivos para acreditar que fui traído por alguém da minha própria equipe, o que sig¬nifica que nenhum dos outros abrigos disponíveis se¬ria seguro para nós, no momento. Acho que este é o único lugar onde provavelmente ninguém poderia encontrá-la.

- Está me dizendo que as pessoas que trabalham com você não sabem onde você mora?

- Eles sequer sabem o meu nome. Para eles, in¬clusive para o meu chefe, sou apenas Casanova.

- Uau!

A porta do elevador se abriu e Bryan a conduziu até uma sala particular. Ele comprara o prédio onde funcionava o Une Nuit havia alguns anos. Tinha re¬novado e expandido a área do restaurante, utilizando o segundo andar para os escritórios e a despensa e os dois andares superiores como área residencial.

O foyer se abria de um lado para uma enorme e moderna cozinha que ele próprio havia projetado, os eletrodomésticos de aço escovado de última ge¬ração, a cozinha era diretamente conectada à sala, as janelas grandes e altas que davam para a Avenida. O chão era feito de tábuas de ma¬deira impecavelmente enceradas. Havia algumas paredes em tijolo aparente, e outras de um branco puríssimo.Havia poucos móveis, porém eram ultramodernos e confortáveis. Bryan passava grande parte do tempo no restaurante, portanto não precisava de dezenas de cadeiras ou sofás em casa. O lugar era decorado com obras de arte originais, mas nada em excesso. Havia umas adquiridas de artistas iniciantes e outras assina¬das por artistas renomados que deviam valer uma for¬tuna.

-Adorei este lugar! - disse ela, admirando a sala. -Você mora aqui?

-Quando não estou viajando, o que tem sido vez mais raro.

-Quanto tempo vou ficar aqui? Você vai querer que eu testemunhe num tribunal? Vou ter de ficar o tempo todo dentro de casa ou poderei sair à rua?

Ele sorriu com a exuberância que transbordava de dos poros. Ela tinha um sorriso contagiante e olhos brilhantes num tom de azul-claro que ele raramente havia visto.

-Não vou mantê-la trancada - disse ele. - Não acredito que você possa cruzar com alguém conheci¬do tão longe de casa.

- Acho que isso não é exatamente verdade - dis¬se ela. - Morei aqui por algum tempo.

- O quê? - aquilo era uma novidade para ele. Sua pesquisa não havia revelado nada a respeito. - Isso é impossível - disse ele, para então se lembrar daqueles dois anos sobre os quais não tinha qualquer informação.

- Já ouviu falar na banda In Tight? - perguntou ela.

- Claro. Eles estão fazendo muito sucesso no mo¬mento.

- Eu trabalhava para eles. Bryan ficou chocado.

- Você trabalhou para uma banda de rock?

- Respondi a um anúncio na internet e passei a tratar da contabilidade deles.

Bryan teve dificuldade em imaginá-la às voltas com um bando de roqueiros cabeludos. Será que ela estava tentando enganá-lo?

- Chequei a sua vida pregressa - disse ele. - Não havia menção alguma a...

- Eles me pagavam por fora. A banda não era tão famosa na época. Eles também me deram um lugar para morar, portanto não há registro algum de aluguel ou compra em meu nome. Só estou lhe dizendo isso para que saiba que posso vir a encontrar alguém que venha a me reconhecer.

- Teremos de cuidar para que isso não aconteça - ele a avaliou dos pés à cabeça. - O que acha de passar por uma transformação radical?

- Eu adoraria! Posso ficar loura? Acho que Lindsay Morgan é loura.

- Como você quiser. Minha prima Scarlet é editora assistente de moda da revista Charisma. Ela pode conseguir tudo de que precisamos - roupas, cosméticos, produtos para cabelo... Você precisa mesmo desses óculos?

- Se eu não quiser sair por aí esbarrando em tudo e em todos, sim.

- Vamos providenciar lentes de contato, então. Talvez verdes, embora seja uma pena cobrir esses seus belos olhos azuis.

Ela desviou o olhar, embaraçada.

- Não me provoque. Os meus olhos têm um tom de azul muito comum. Comum até demais!

- Não os acho nada comuns.

Ela o olhou diretamente nos olhos.

- Você está tão sério.

Ele não devia ter dito aquilo. Não queria que Lucy se sentisse ameaçada, tendo de entregar a própria vida em suas mãos.

- Não se preocupe, não vou me aproveitar de você. Só acho realmente que você tem olhos muito bonitos.

- Se aproveitar de mim... E quando é que vai acontecer a grande mágica?

- Que tal depois do jantar?

Bryan mostrou a suíte de hóspedes a Lucy.

- Onde fica o seu quarto? - perguntou ela.

- No andar de cima, junto com o estúdio. Vou mostrá-lo mais tarde. É lá que fica o meu computa¬dor. Você, com certeza, vai passar muito tempo de¬bruçada sobre aquele teclado.

- Pode acreditar nisso.

- Deixarei você se refrescar um pouco enquanto arranjo alguma coisa para comermos.

- Tudo bem. Tem alguma coisa que eu possa usar até sua prima chegar? Eu não queria voltar a colocar as calças da Sra. Pfluger depois do banho.

- Vou trazer alguma coisa para você.

Bryan encontrou um pijama, ainda dentro da em¬balagem, que ganhara da avó. Ela sempre lhe dava a mesma coisa de presente, e ele nunca tivera coragem de lhe dizer que não usava pijamas.

Lucy já estava no banho quando ele voltou. A por¬ta do banheiro estava entreaberta e ele sentiu uma vontade enorme de espiar e vê-la nua. Não havia pa-rado de imaginar coisas desde que ela havia caído em cima dele.

Ele, porém, não o fez, perguntando a si mesmo por que estava sendo tão nobre. Afinal, era um espião e estava acostumado a investigar os segredos de outras pessoas. Colocou o pijama sobre a cama de Lucy e foi providenciar o jantar. Uma rápida ligação para o restaurante no andar de baixo resolveu tudo. Agora era a vez de falar com Scarlet.

- Você sabe que adoro este tipo de desafio - dis¬se a prima. - Vou passar no escritório, pegar tudo de que preciso e depois vou para aí. Chego dentro de uma hora.

- E como vai o John? Vocês vão casar, afinal?

- O casamento é só no ano que vem. Se você não passasse tanto tempo fora por causa desse restaurante saberia disso. Será que não existem temperos exóticos aqui na América?

Parecia que a desculpa padrão para as freqüentes ausências - a de que ele estava atrás de temperos exóticos -já não estava funcionando mais.

-Tenho de me manter a par das últimas tendên¬cias- respondeu ele.

- Onde foi que conheceu essa moça, afinal? As moças com quem você costuma sair não precisam da minha assessoria para se vestir ou maquiar.

- Oh, ela não é... - ele se deteve. Como é que ia explicar a presença de Lucy em sua casa para Scarlet o resto da família? Ela podia ter de ficar sob sua proteção por meses. - Ela não é igual às outras - prosseguiu ele. - Lindsay é especial. Ela veio do campo, mas está querendo se adaptar a Nova York.

- Terei muito prazer em ajudá-la - disse Scarlet.

Bryan sabia que a prima tentaria arrancar o máxi¬mo de informações possível de Lucy sobre esse novo romance. Ele tinha de avisá-la de que ela acabara de virar sua namorada.

Capítulo 3 3

Lucy mal podia acreditar no que tinha acabado de ouvir. Não tivera a intenção de fuxicar, mas tinha ido até a cozinha e não pôde deixar de ouvir a conversa de Bryan com a prima.

Bryan voltou-se para ela e percebeu o que havia acontecido.

- Acho que temos de falar sobre isso, não é? Sin¬to muito, mas não havia outra maneira de explicar a sua presença aqui. Minha família não sabe que sou um agente do governo, nem pode saber. Você com¬preende, não é?

- Sim, mas...

- Você já demonstrou que sabe agir sob pressão. Só precisa seguir as minhas orientações, certo?

Lucy não via problema algum naquilo. Na verda¬de, achava a idéia até muito excitante. Só uma coisa a incomodava.

- Você acha que alguém vai acreditar que sou a sua namorada?

- E por que não?

- Porque não passo de uma bancária desenxabida, enquanto você é...

- Sou proprietário de um restaurante. Essa é a versão que todo mundo conhece.

O interfone tocou e Bryan foi atendê-lo. Ela não pôde deixar de notar que ele não havia feito qualquer objeção à maneira como ela havia se referido a si mesma. Pelo jeito, ele também a achava desenxabida.

- É o nosso jantar. Volto já.

Lucy tentou se acostumar com a idéia de que era namorada de Bryan. Ela já tinha acreditado uma vez que poderia ser uma mulher fatal e acabou atraindo Cruz Tabor, o baterista da In Tight, um dos homens mais atraentes do país, de acordo com os tablóides. Decidira manter uma relação estritamente profissional com o pessoal da banda, mas Cruz come¬çou a flertar com ela, e ela se perdeu. Ele havia lhe dito que ela era maravilhosa, sexy e atraente e a leva¬ra nas turnês, além de enchê-la de presentes caros.

Mais tarde, ela descobriu que ele dizia e fazia tudo isso com todas as mulheres com quem dormia, e não oram poucas. Tinha sido muita ingenuidade de sua parte acreditar que era realmente especial para ele.

A situação atual era bem diferente. Não tinha qual¬quer ilusão em relação a Bryan, nem conseguia ima¬ginar como alguém poderia acreditar que ela o tives¬se conquistado.

Ele era muito bonito e poderia ter a mulher que bem entendesse. Seu restaurante sofisticado atraía di¬versas celebridades. Será que já tinha dormido com alguma delas? Como ela competiria com esse tipo de coisa? Encontrou dois pratos no armário da cozinha e pôs a mesa sobre o balcão de granito. Um maravilhoso aroma invadiu o ambiente quando Bryan surgiu no elevador com duas enormes sacolas brancas.

- O que é isso?

- Camarão grelhado com verduras à moda da Polinésia. Não é muito temperado, e você pode tirar qualquer coisa de que não gostar.

- E o molho francês?

-Essa é a idéia do Une Nuit. A fusão da culinária asiática com a francesa.

Ele colocou as bolsas no balcão e olhou rapida¬mente para ela. Lucy estava usando apenas a parte de cima do pijama. Como era verão e a peça batia em seus joelhos, ela achou que poderia dispensar as cal¬ças do conjunto, mas estava arrependida.

- Belo modelito - disse ele, piscando para ela.

Bryan desempacotou a comida e serviu uma por¬ção generosa em cada um dos pratos. Havia trazido também uma garrafa de vinho branco gelado.

- Você gosta de vinho?

- Eu não... Gosto.

O álcool era uma das coisas das quais ela se afas¬tara quando tomou a decisão de mudar de vida e parar de se comportar como uma adolescente irresponsá¬vel. Nunca realmente abusara do álcool, mas seu con¬sumo desenfreado era bastante característico das pes¬soas e do modo de vida que ela queria deixar para trás. Uma taça de vinho Chardonnay depois de um dia como hoje, porém, pareceu-lhe uma ótima idéia.

Bryan serviu duas taças de cristal e lhe estendeu uma delas.

- Um brinde à sua nova vida como Lindsay Morgan. À Lindsay.

Aquilo tudo parecia um sonho. Ela se sentou num dos bancos e experimentou a comida.

-Nossa, isto está delicioso. Não é de admirar que o restaurante faça tanto sucesso. A idéia foi sua ou você já comprou o restaurante em funcionamento?

- Isto aqui era um bistrô francês. A idéia de inte¬grar a culinária asiática ao cardápio nasceu de uma brincadeira, certa noite, quando eu, o gerente e o che¬fe de cozinha bebemos um pouco além da conta. Co¬meçamos a fazer experiências e o restaurante acabou caindo no gosto do público.

- Dá para entender por quê.

A mistura sutil de temperos exóticos, com diver¬sas texturas, formas, cores e aromas, era um deleite para todos os sentidos. Se aquilo era uma amostra de como seria a sua alimentação dali para a frente, era melhor ela pensar seriamente em começar a se exer¬citar.

O interfone tocou, anunciando a chegada de Scarlet. Bryan desceu para recebê-la e ajudá-la a carregar as coisas, enquanto Lucy terminava de lavar a louça.

Ela estava nervosa com a perspectiva de conhecer a prima de Bryan. Já fazia muito tempo que não lida¬va com a família de algum namorado. Repetiu deze¬nas de vezes para si mesma que a opinião de Scarlet sobre ela não faria a menor diferença, já que ela e Bryan não eram namorados de verdade e aquela si¬tuação era apenas temporária, mas não adiantou. Queria que Scarlet gostasse dela, mas temia que a achasse extremamente desinteressante. A mulher era editora assistente de moda de uma das maiores revis¬tas femininas do país. Estava acostumada com mode¬los e estrelas, não bancárias desajeitadas.

Bryan subiu carregando um monte de roupas nas mãos. Atrás dele vinha uma das criaturas mais boni¬tas e exóticas que Lucy já vira. Era quase tão alta quanto Bryan, esbelta e com um belo cabelo castanho-claro que caía em abundantes e brilhantes ondas sobre os ombros e as costas. Ela estava vestindo uma blusa verde-clara levemente transparente que deixa¬va seus ombros à mostra e calças justas, numa estam¬pa coordenada; tudo combinando com seus atentos olhos verde-claros, focados em Lucy.

- Então você é a minha vítima - ela disse sorrin¬do, pousando a própria braçada de roupas, uma saco¬la de compras e uma maleta repleta de maquiagens. - Oi, eu sou a Scarlet - disse ela, estendendo a mão. - Você deve ser Lindsay.

Lucy tentou parecer natural, mas estava tremendo por dentro. No que é que ela estava se metendo? Es¬tava começando a viver uma mentira naquele exato momento. E se não conseguisse sustentar aquilo? Bryan fora muito claro a respeito da importância do sigilo sobre sua verdadeira atividade. Ela jamais se perdoaria se colocasse tudo a perder.

- Levante-se - disse Scarlet. - Quero dar uma olhadinha em você.

Bryan apoiou um cotovelo sobre o balcão e ficou observando de longe. Lucy sentiu o rosto enrubescer novamente. Aquilo já seria suficientemente embaraçoso, ainda mais na presença dele.

Scarlet pareceu perceber o desconforto de Lucy, virou-se para Bryan e disse:

-Você não tem nada para fazer? Um restaurante para tocar, por exemplo?

- Quero ver o que você vai fazer com ela.

- Nada disso - ela disse com firmeza. - A transformação de Lindsay diz respeito apenas a ela e não às suas fantasias quanto à mulher perfeita. Ago¬ra, vá embora e não volte antes da meia-noite.

Bryan resmungou mas obedeceu. Antes de chegar ao elevador, porém, virou-se abruptamente e foi até Lucy.

- Divirta-se. Vejo você daqui a pouco - disse ele, acariciando-lhe a bochecha e puxando suave¬mente o rosto dela para beijar levemente seus lábios.

O beijo durou menos de um segundo, mas abalou Lucy tão fortemente que ela teve de se agarrar a um dos bancos para não correr o risco de cair.

Ela sabia que aquilo era apenas representação, e que fazer de conta que eles eram namorados era algo tão natural para Bryan quanto respirar, mas não para ela. A possessividade casual com que ele a havia tra¬tado parecera-lhe extremamente real.

Aparentemente alheia a tudo isso, Scarlet estava avaliando o peso e a textura do cabelo ainda úmido de Lucy.

- Seu cabelo é maravilhoso. Grosso e saudável. Você pode fazer o que quiser com ele. Suponho que não queira mexer muito no comprimento, mas nós po...

- Não, quero cortá-lo bem curtinho e pintá-lo de louro. Quero ficar o mais diferente possível.

- Você quer fazer luzes?

- Não, quero ficar radicalmente loura.

Scarlet sorriu.

- Fico feliz em ouvir você dizer isso. Eu estava tentando ir devagar, mas já que confia em mim, vou botar pra quebrar e te deixar prontinha para uma capa da revista Charisma.

Lucy riu com ironia.

- Como se isso fosse possível.

- Que não? Você tem uma excelente estrutura ós¬sea, dentes saudáveis, traços bonitos. Mas esses ócu¬los vão ter de cair fora.

- Quero passar a usar lentes de contato - disse Lucy, lembrando-se das instruções de Bryan. - Ver¬des. Só não sei se você vai conseguir fazer muita coi¬sa pela minha "comissão de frente".

- Pois saiba que a maior parte das nossas mode¬los tem seios menores que os seus. Você ficaria sur¬presa com o que uma boa lingerie pode fazer por uma mulher. Ajude-me a carregar isso tudo para o quarto, para que possamos pôr mãos à obra.

- Eu estou... - ela quase estragou tudo nos pri¬meiros minutos! Não poderia estar no quarto de hós¬pedes sendo namorada de Bryan. - Estou quase sem roupa - consertou rapidamente. - Vou precisar de absolutamente tudo novo.

- O que foi que aconteceu com as suas roupas? - quis saber Scarlet, sentindo o cheiro de uma história interessante. - Não se preocupe. Não me choco fa¬cilmente. Minha irmã gêmea é casada com um astro do rock.

- É mesmo? Quem?

Por favor, Deus, não permita que seja alguém que eu conheça. Tudo, menos alguém ligado à In Tight.

- Zeke Woodlow.

Lucy respirou aliviada, mas só até se dar conta do que Scarlet tinha dito. Ela havia lido sobre o casa¬mento de Zeke na Buz.

- Você é irmã de Summer Elliot. Você pertence à família Elliot, dona daquele império editorial.

Scarlet estava atônita.

- Você não sabia disso?

Talvez fosse melhor ela calar a boca de uma vez.

- É que eu não tinha ligado o nome à pessoa, sabe como é? Nós não estamos juntos há muito tempo - acrescentou ela, torcendo para que isso justificasse sua ignorância. - Quanto às minhas roupas, eu... eu as queimei. Estava em busca de um recomeço.

- Queimou? Onde?

Foi então que ela lembrou, tarde demais, de que era proibido por lei queimar qualquer coisa em Nova York.

- Em casa.

- Onde fica a sua casa?

- No Kansas, numa fazenda.

Pelo menos isso era verdade.

-Seus pais ainda mo¬ravam lá.

- E o que é que Bryan estava fazendo no Kansas? Achei que ele estivesse na Europa.

- E estava. Nós nos conhecemos em Paris.

- Quer dizer que você o conheceu em Paris, vol¬tou para sua casa no Kansas, queimou todas as suas roupas e veio para cá, nua?

Lucy sorriu como se não estivesse tentando con¬vencê-la da veracidade da história mais ridícula de todos os tempos.

- Isso mesmo.

- Garota, você tem estilo.

Bryan ainda estava tentando se recuperar daquele beijo. Ele sabia que tinha de fazer tudo direitinho para convencer sua família de que Lucy era realmen¬te sua namorada. Ele nunca tivera um relacionamento sério antes. Bem, já havia tentado uma vez, mas des¬cobriu rapidamente que isso não era compatível com os seus desaparecimentos esporádicos, por isso pas¬sou a ter apenas encontros ocasionais. Raramente tra¬zia uma mulher para casa. Teria de parecer completa¬mente embevecido para justificar a súbita presença de Lindsay em sua casa, e isso significava bancar o namorado apaixonado, com demonstrações públicas de afeto, olhares de desejo e tudo o mais.

Ele deveria ter preparado Lucy melhor para o pa¬pel que ela representaria. Eles sequer tinham combi¬nado uma história comum, mas Lucy parecia sufi-cientemente esperta para improvisar. Bastaria que ela lhe passasse os detalhes do que tinha dito à Scarlet.

Ela linha reagido àquele beijo como a perfeita na¬morada apaixonada. Bryan quis surpreendê-la, mas acabou surpreendendo a si mesmo também. Aquilo não tinha sido mais que um beijo inocente, um mero roçar de lábios, mas o havia abalado profundamente.

Os funcionários cumprimentaram-no alegremente ao vê-lo chegar.

Kim Chim, o cozinheiro que comandava a cozinha como um militar, desviou os olhos de sua panela e grunhiu um cumprimento.

- Já estava na hora.

Ele estava em falta com o restaurante. O caso da Alliance Trust havia ocupado todo o seu tempo dis¬ponível nos últimos dias. Lucy tinha entrado no caso recentemente, mas ele já estava rastreando as pes¬soas que recebiam os fundos fraudados havia muito tempo.

- Onde está Stash? - perguntou ele a Kim.

- Aquele francês miserável deve estar flertando com os fregueses lá fora.

Aquilo era pura implicância. Stash praticamente vivia no restaurante, pagando as contas, preparando a folha de pagamento e tratando das centenas de deta¬lhes que mantinham o Une Nuit no topo da lista dos melhores restaurantes da cidade.

- Bryan, você voltou!

Stash cumprimentou-o com um caloroso abraço. Obstinado e otimista, ele era o gerente perfeito para trabalhar com um proprietário que se ausentava com tanta freqüência.

- Por que você passou tanto tempo fora desta vez? Isto aqui poderia ter virado uma carrocinha de cachorro-quente nesse meio-tempo.

Bryan tinha preparado uma longa história para jus¬tificar as suas aventuras na Europa, mas, em vez dis¬so, disse apenas:

- Conheci uma pessoa.

Ele não tinha muita dificuldade em mentir por cau¬sa dos anos de prática, mas o mais assustador é que não teve de fazer qualquer esforço para alterar o tom de voz ao falar sobre Lucy para parecer convincente.

Scarlet finalmente permitiu que ela se olhasse no espelho. Lucy teve de olhar duas vezes para a ima¬gem refletida. Sua própria mãe não seria capaz de re¬conhecê-la, o que efetivamente era a intenção.

Havia madeixas de cabelo castanho espalhadas por todo o chão. Scarlet o havia cortado até a altura do queixo, além de clarear o tom até chegar ao louro-claro. A escova o havia deixado liso, fazendo com que ele caísse numa franja brilhante que balançava a cada movimento. Ela havia feito as sobrancelhas de Lucy e mudado o seu formato, e os cosméticos artisticamente aplicados haviam esculpido e redefinido a li uma de sua boca. Ela agora tinha maçãs do rosto.

Depois vieram as roupas. Scarlet decidira que Lucy precisava de um visual personalizado e esco¬lheu uma série de roupas justas de cores suaves - verde-musgo, ameixa, melão e bronze. Ela estava vestindo uma calça de cintura-baixa e uma camiseta lisa sem mangas, colada no corpo, ambos na cor verde. Sobre a camiseta havia ainda uma camisa de mangas curtas com um zíper frontal num tom mais claro de verde. Sandálias de salto alto e algumas pou¬cas jóias completavam o visual.

O mais surpreendente de tudo, porém, é que agora ela tinha busto. Scarlet lhe conseguira um sutiã mila¬groso, que erguia e juntava os seus seios, fazendo-os parecer dois números maiores.

Lucy punha os óculos para se olhar de longe e en¬tão os tirava, para avaliar seu rosto de perto. Mal po¬dia acreditar no que estava vendo. Estava realmente parecendo alguém que poderia ser a namorada de Bryan.

- Isso é surpreendente - disse ela, pela terceira vez.

- As modelos que você vê nas revistas não têm nada que nós não tenhamos - disse Scarlet. - Bons cabeleireiros, grandes maquiadores, uma boa luz e um fotógrafo talentoso podem transformar qualquer mulher numa diva.

Lucy estava convencida disso. Só não estava bem convicta de que a Lucy Miller de dentro combinava com a nova Lucy de fora. Mulheres bonitas como Scarlet tinham autoconfiança, uma maneira de falar e de se mover que ela não tinha.

- E se eu não conseguir agir de acordo com este visual? - perguntou ela, num fio de voz.

- Você vai conseguir. Bryan não teria se apaixo¬nado se você não fosse muito, muito especial. Pense nisso.

O que Scarlet não sabia é que Bryan não havia se apaixonado por ela. Ela, na verdade, havia caído no seu colo, e ele agora tinha de lidar com esse pro¬blema.

- Você e Bryan são próximos? - perguntou Lucy, achando que aquela seria uma boa oportuni¬dade de descobrir um pouco mais sobre seu suposto namorado.

- Todos os primos Elliot são muito próximos uns dos outros. Suba na cama e deixe-me fazer a bainha dessa calça.

- Há muitos de vocês trabalhando nas revistas? - perguntou Lucy, tentando não pensar no fato de que estava de pé na cama de Bryan, tentando não pensar nele dormindo ali. Ou fazendo qualquer outra coisa.

- Todos nós trabalhamos na Editora Elliot de uma forma ou de outra. Exceto Bryan. Ele foi o único que escapou desse destino.

- Por quê?

- Acho que o problema cardíaco o manteve um pouco afastado dos outros primos. Antes da cirurgia, ele não podia correr nem brincar conosco, e nós éra¬mos um bando extremamente ativo. Vire-se.

Lucy obedeceu, com a mente em turbilhão.

-Um problema cardíaco?

-Ele começou a investir pesado no esporte de¬pois da cirurgia para compensar o tempo perdido, e já tinha grande interesse por culinária nessa época. Acho que as revistas não tinham qualquer ape¬lo especial para ele. Ele estudou Administração de Empresas com o intuito de trabalhar na editora, mas o projeto acabou não vingando. Ele queria ter o pró¬prio negócio. Talvez ele tenha sido o mais inteligente de todos nós.

- Por que está dizendo isso? Deve ser um sonho trabalhar na Charisma.

- Normalmente é mesmo. Mas com essa com¬petição... Bryan não deve ter lhe falado sobre isso, não é?

Lucy ficou intrigada.

- Que competição?

- Meu avô decidiu se aposentar e nomear um de seus filhos para presidente da editora. Cada um está à frente de uma de nossas revistas - Pulse, Snap, Buzz, Charisma. Aquele que demonstrar maior lucro no final do ano ganha a posta. Não é preciso dizer que todos estão em pé de guerra. Tia Fin, a minha chefe, está praticamente morando na editora. Ela está obcecada com a vitória. Já o tio Michael... Bem, sua prioridade no momento é cuidar da mulher, que está se recuperando de um câncer de mama.

Scarlet deteve-se de repente.

- Bryan vai me matar se souber que andei lavan¬do a roupa suja da família com a sua nova namorada.

- Não vou dizer nada a ele - assegurou-lhe Lucy.

O que será que ele estava fazendo? Certamente não estava nada ansioso para voltar para casa e reen¬contrá-la.

- Eu odeio ter de desfazer todo o seu trabalho, mas acho que vou tirar toda essa maquiagem e me; deitar - disse Lucy. - Foi um dia longo. Muito obrigada, Scarlet. Foi realmente muita gentileza sua passar a noite comigo.

- O prazer foi todo meu, pode acreditar. Elas se abraçaram. Lucy sentiu um misto de afeto e gratidão pela prima de Bryan. Ela não tinha nenhu¬ma amiga íntima em Washington. Algumas colegas de trabalho a haviam convidado para sair, mas ela sempre se manteve distante de todos. Tentou se con¬vencer de que queria manter o foco em seu trabalho e não desviar a atenção de sua carreira, mas agora com¬preendia que, na verdade, estava se punindo. A diver¬são havia lhe causado muitos problemas no passado, por isso decidira eliminar esse quesito de sua vida.

Scarlet, por sua vez., deveria ter muitas amigas. Lucy provavelmente não teria muito tempo para uma vida social. Ela tinha de estudar todos os dados que conseguira baixar do banco e descobrir a identidade do fraudador.

Ela ajudou Scarlet a empacotar as coisas e a acom¬panhou até o elevador.

- Eu a acompanharia até o carro e a ajudaria a co¬locar as coisas na mala, mas não sei como entrar no¬vamente.

Scarlet revirou os olhos.

-Esse maldito elevador de Bryan. Sei que ele tem algumas obras de arte valiosas em casa, mas acho quer exagerou um pouco na segurança.

Elas se despediram e Lucy se apressou para arru¬mar tudo antes que Bryan voltasse, mas não conse¬guiu fazê-lo a tempo.

- Lucy? - chamou ele, enquanto caminhava em direção à sala. - Oh, aí está você. Demorei mais do que o previsto para... - ele parou no meio do cami¬nho e ficou olhando para ela. - O que foi que você fez com seu cabelo?

- Você não gostou?

Scarlet a havia advertido de que os homens gosta¬vam de mulheres de cabelo comprido, mas como a idéia era ficar completamente diferente e não exata¬mente agradá-lo, Lucy foi em frente. Agora, porém, percebia o quanto queria que ele gostasse da nova Lucy. Ou melhor, de Lindsay.

-E que você está tão... Largue essas roupas em algum lugar e deixe-me olhar direito para você.

Lucy fez o que ele pediu e ficou esperando, impaciente, enquanto ele a avaliava meticulosamente.

Ele se aproximou dela e tocou-lhe o rosto. Ela tentou não reagir quando ele tirou seus óculos e estudou-lhe os traços.

- Scarlet me deu o nome de um oftalmologista que pode me fornecer lentes de contato verdes. Posso resolver isso amanhã mesmo.

- Certo - disse ele, sem lhe devolver os óculos, enfiando-os no bolso da camisa.

- Bem? - perguntou ela. - Acha que isso pode funcionar ou estou simplesmente ridícula?

Um sorriso insinuou-se lentamente no rosto de Bryan.

- Lucy, você está parecendo uma estrela de ci¬nema.

Seu olhar parecia uma lâmpada quente focada nela. Ou talvez o calor viesse de dentro dela. Não es¬tava conseguindo enxergar muito bem, portanto, era bem provável que o interesse no olhar dele não pas¬sasse de imaginação da sua parte.

De repente, ela não conseguiu mais pensar em ou¬tra coisa a não ser no modo como ele a havia beijado, horas atrás. Ele fizera a coisa toda parecer muito ca¬sual, mas ela quase se desmanchou ali mesmo. Aqui¬lo não passava de um jogo para ele, mas, ela ainda não estava acostumada a ser tão convincente.

- Não acha melhor passar a me chamar de Lindsay o tempo todo? Seria bom também que você me desse algum tipo de sinal quando fosse me beijar no¬vamente daquele jeito.

- Mas nós temos de parecer apaixonados. Você deve estar disponível para que eu a beije a qualquer momento,

- Certo.

- Você não me pareceu muito segura - ele a pe¬nou pelos braços e olhou no fundo dos seus olhos. - Acha que pode dar conta disso? Caso contrário, tere¬mos de pensar em algo diferente. Minha família não pode suspeitar de nada. Seria um desastre.

Lucy ficou perturbada frente à possibilidade de ele mudar de idéia e levá-la para outro lugar. Já havia se acostumado à idéia de que bancaria a namorada de Bryan.

- Eu posso dar conta - disse ela. - Talvez fosse bom ensaiarmos um pouco, quero dizer, checar as versões que contamos aos outros, de modo que eu saiba o que esperar...

Ele estava olhando para a sua boca. Ela se deteve, insegura.

- O que foi? Eu me sujei de batom?

- Não, minha querida, você está linda. Só acho que você não pode parecer uma gatinha alarmada cada vez que eu tocar ou beijar você.

-Acho que tem razão.

-Precisamos ensaiar.-Dizendo isso, colou os lábios nos dela e a beijou profundamente.

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