Índice:
"O ser humano necessita procurar se engrandecer e não sufocar as razões de sua existência".
Jéssica Cardoso de Oliveira
1. As sibilas do destino
Uma história que se passa na Idade Média, baseada na obra "O casal Arnolfini", de 1434 de Jan Van Eyck. Van Eyck se torna uma testemunha de todas as situações da história, como se fosse um espelho dos outros, refletindo seus pensamentos através de poemas melancólicos, os envolvendo numa atmosfera sombria do cenário medieval até o Juízo Final após a morte, onde a verdade sobre todos é revelada.
2. A dança das gárgulas
Uma história que se passa na Idade Média, sobre uma maldição que transformou dois humanos em gárgulas.
3. Voice of the Blood
Esta história é sobre um cavaleiro que foi à guerra na Era Medieval para combater inimigos do seu reino quando era criança.
4. Somniabunt
Uma história sobre um homem medieval que busca conhecer o significado de seus sonhos e possui uma série de questionamentos sobre o que se passa em sua mente. Tudo o que ele precisa descobrir é uma revelação em sua vida.
5. Leonor de Aquitânia
Uma história sobre a rainha medieval Leonor de Aquitânia, que conta sobre a sua vida com seu encanto pela arte, seus sonhos, suas amizades, seus amores e seus sofrimentos.
6. Douceline
Uma história sobre a vida de Douceline, considerada uma santa pela Igreja Católica na era medieval. Ela quer agir de acordo com aquilo que acredita, levando os ensinamentos de Cristo por onde passa.
7. O anjo da morte
Um anjo vive com o seu dom dado por Deus para proteger os seres humanos, mas percebe que diante sua corrupção, ele se vê forçado a não ter mais compaixão pelos mortais.
PERSONAGENS:
JAN VAN EYCK / SIBILA I
BEATA / SIBILA II
BRUXA / GIOVANNA
PADRE
ARNOLFINI
SERVO
BUFÃO
VASSALO
CAVALEIRO
PRIMEIRA PARTE
ARNOLFINI:
Meus senhores que visitam estas redondezas
Não se esqueçam de comprar belos tecidos, para bem exibirem as suas belas riquezas
São lãs, linhos, as mais finas sedas, brocados bordados
Comprem já para um traje especial, para ficarem bem adornados
É mais que um tecido, é uma obra excepcional
Artigos de luxo! Com muita vanglória!
Para que se conformar?
Alcançaremos muitas vendas, essa é nossa vitória!
Tecidos que os protegem contra o frio mais ameaçador
Olhe bem para este veludo, como é macio e aquecedor!
Venham, venham!
Quem quiser pode aproveitar!
Fiquem à vontade, vejam o que eu tenho a lhes apresentar
Vindos de toda a Borgonha
Temos as alternativas em preto, as mais encantadoras
Conquistem já os seus triunfos com as propostas mais incentivadoras
Temos de tudo até do Reino das Jequitinhonhas
Com estampas de flores e até de animais com bicos de cegonhas
Podem se vislumbrar, por que eu não lhes venderia?
Temos em várias cores, você não imaginaria?
Mercadorias que valem muito e pelas quais se paga pouco
Hoje em dia, basta contribuir
Não há segredinhos
Este aqui faz amansar até o cavalo louco!!
CENA I: FEITICEIRA EM CHAMAS
[Diálogo entre a Bruxa, o Padre e Arnolfini]:
[Ouvem-se gritos da bruxa e do povo. A julgada como bruxa é condenada à morte está prestes a ser queimada na fogueira, enquanto o povo grita como forma de manifestação contra o mal. Ela está desesperada, pois quer se livrar da morte. O padre da Igreja Católica inicia um discurso enquanto todos ficam em silêncio, apontando suas armas para a mulher. Ouvem-se gritos do povo, enquanto ela implora para não ser incendiada].
PADRE: Eis uma alma dilacerada que cometeu o pecado mais terrível: o de se relacionar com a Besta! Feiticeiras luciferianas faltam à graça e trazem maldição ao Reino Sagrado! São hereges! Estas não são dignas de existência e devem padecer diante das chamas! É injusto deixar que uma criatura pecaminosa viva enquanto o povo luta para conquistar seu espaço nos céus!
BRUXA: Hipócritas! Como podem me acusar de forma tão venenosa? – [fala interferindo o discurso e o povo aponta as lanças para ela que teme ser machucada].
PADRE: Lembrem-se que Adão e Eva comeram do fruto proibido e mereceram ser expulsos do Jardim do Éden! Neste mundo, o Satanás traz a sua falsa luz através da imagem da mulher pecaminosa que a mantém acesa. Não podemos nos entregar a ela, pois esta nos leva ao longo túnel do sofrimento, da tristeza, do aborrecimento e do desespero! Para o fundo das trevas! Temos que condená-la, abafá-la e martirizá-la antes que ela nos leve ao caminho da perdição eterna!
BRUXA: Arnolfini! Revele diante de todos quem tu és! Tu me abandonaste e me julgaste como indigna! Tu sabes o que fizeste e carregarás este peso de tua culpa até o último dia de tua existência!
ARNOLFINI: Não venhas esconder o que é o teu ser através desta falsa inocência, feiticeira de Lúcifer! Confesses o teu pecado, tu tens consciência do mal que causaste a mim e a este povo! Tuas facetas não enganarão mais ninguém! Neste momento é inútil te esconderes nas sombras de tuas próprias mentiras!
BRUXA: Calúnia! Acusas o outro com testemunho falso! O teu passado tu jamais poderás queimar e as chamas da tua culpa permanecerão acesas durante toda a tua existência na Terra até que chegue o teu julgamento final!
ARNOLFINI: Então queres me acusar para livrar-te da tua culpa?! Se for isto o que queres, então faças! Mas acabe com esta farsa, pois tu jamais conseguirás desfazer o que fizeste e não há como te vitimares! Cries as palavras mais defensoras que puderes, mas nada limpará a tua sujeira!
PADRE [fala interrompendo a discussão]: Diante dos céus, dou continuidade a esta cerimônia e sacrificamos o corpo que merece ser punido para nos livrarmos desta maldição terrena! Afastemos estes demônios que nos rodeiam, escurecendo o céu com o negro pecado, escondendo a luz divina. Olhemos para o alto e sintamos a mão de Deus, vinda dos céus iluminando com seus raios de esplendor. É disso que precisamos, não destes falsos anjos caídos que nos envolvem em pecados humanos, brilhando com suas asas negras, infestando nossos lares com o mal e amaldiçoando nossa Igreja. Que nos livremos destas malditas criaturas enviadas do inferno para causar tormento! E cuidemos, pois estão por toda a parte, surgindo de buracos profundos e escuros no chão, roubando nossas coragens para enfrentá-los e se alimentando de nossos medos. Afastemos as serpentes que enroscam pernas humanas nuas e envenenam com o pecado!
[Ouvem-se gritos da bruxa e do povo]
VAN EYCK:
Um fruto proibido é oferecido pela serpente do mal
Que nos ilude para tirar o proveito.
Para controlar a mente tola
E tornar o homem submisso
Ela é uma que vive querendo se esconder dentro de nós, vinda do inferno cheio de lodo e gases ferventes...
O mal quer a destruição contínua
Ele vem como um fogo que deixa nossas brenhas cinzentas
Que amaldiçoa a nossa água, deixando-a cheia de impurezas
Ele leva-nos à escuridão com seu veneno mortal.
Serpente do Éden,
Com olhos vermelhos, se rasteja pelas portas dos templos
Chave falsa para a entrada no paraíso
Aquela que quer o homem tentado
Volte para as trevas, sucumba em carne seca!
Suplicamos a luz verdadeira!
CENA II: O CASAMENTO DE ARNOLFINI
PADRE: Aquele que se une matrimonialmente deve ter a graça consigo mesmo de se lembrar sempre destas seguintes palavras: "o casamento deve unir as riquezas do casal desde agora até o último dia de suas vidas". O cônjuge deve honrar sempre o direito de ter a sua esposa desde agora e para todo o sempre. Portanto, a esposa deve também honrar o direito de ter o seu cônjuge da mesma forma [...]. Assim sendo é desejada a fertilidade para dar continuidade à geração de sua família. Com estas alianças, jurem união matrimonial um ao outro diante de nós, testemunhas do casamento e perante à Igreja. E como documento legal certificando a ocorrência desta cerimônia em particular, será pintado um retrato por Jan Van Eyck.
ARNOLFINI [começa o juramento segurando a mão da cônjuge]: Eu, Giovan Arnolfini, que recebo esta aliança. Faço este desposório por minha mulher. Prometo honrar a minha esposa desde agora e para todo o sempre, diante de tua testemunha.
GIOVANNA: Eu, Giovanna Cenami, que recebo esta aliança, faço o mesmo juramento ao meu esposo, que vale agora e para todo o sempre.
SERVO: E em nome de nosso Todo-Poderoso, Criador do Céu e da Terra, prometo servir ao casal Arnolfini como pagamento de minhas dívidas à senhora feudal tendo devoção às mesmas palavras já ditas. Amém.
[Escurece a cena, foco em Van Eyck, com seu monólogo. Este é feito apenas para o público de forma que este representa os seus pensamentos de forma poética].
VAN EYCK:
O ilusório torna suavemente o que é onírico em algo grotesco.
Páginas de contos de fadas cujas linhas são palavras vazias
Mantiveram a chama cálida da ilusão acesa,
Mas não por muito tempo...
Foi assim que o paraíso foi destruído: com a própria farsa.
Por isso rasgue o seu livro, pois ele não disfarçará mais nada.
Tudo poderia ser perfeito por se esconder em belas mentiras,
Mas a verdade jamais poderá ser obscurecida eternamente.
O real se transparece diante das cinzas.
Cinzas de asas de borboletas queimadas.
CENA III: O PAGADOR DE PECADOS
[Diálogo entre o servo e o padre]:
SERVO: Padre! Eu tenho devotado grande parte da minha vida para servir à Igreja, como forma de ser perdoado pelos meus erros, para ir aos céus livre destes pecados imundos... Porém onde está a cura para esta peste que tem causado à minha família este tenebroso sofrimento?
PADRE: Como se atreve a falar desta maneira com nossa Igreja? Por acaso ousas duvidar das palavras do livro sagrado? Muitas feiticeiras de Lúcifer foram condenadas à morte por trazerem a maldição a este Reino... Essas pestes só devem vir dessas mulheres que se entregam à tentação! Que entram no caminho do diabo e não seguem as ordens da Santa Igreja! Pois nossas leis nunca devem ser ignoradas! Tu deves pagar pelas tuas promessas, pois ninguém alcança as alturas em vão! Foi-lhes este atrevimento perdoado, mas dívidas devem ser pagas, antes que suas origens levem às trevas! Os céus possuem decretos para sua entrada, isso requer que indulgências sejam pagas e foste tu quem cometeu o pecado de roubo. Agora para receberes teu perdão misericordioso, deves servir a quem tomou o que não lhe pertencia!
SERVO: Eu lhe imploro, caro sacerdote! Suplico-lhe graça! [fica de joelhos e olhos baixos] Deixe-me prestar explicação sincera! Minha chorosa face lhe apresento...
PADRE: Então digas meu caro homem...
SERVO: Roubei o remédio da propriedade da senhora feudal, para salvar a vida de minha esposa, que estava prestes a cair na desgraça de uma doença terrível. Ela estava sofrendo muito, então não quis que ocorresse o mesmo que aconteceu com meus filhos. Sou de origem modesta e não tenho dinheiro para pagar pelo preço do remédio, então o roubei justamente para tentar salvá-la!
PADRE: Ó filho, tens apenas que seguir as minhas ordens e esta será tua promessa para receberes a benção dos céus. O passado carregado de culpa permanecerá em ti por toda a eternidade se não cumpri-las. Só assim te livrarás deste inferno nevoento. Estrondosos seriam os gritos em suas chamas, por isso todos o temem. Um corpo cujo coração nunca foi honesto, culpado pelos próprios pecados latejantes, após o juízo final seria castigado... Nesta vida, há de se pagar pelo que se faz... É apenas com o sofrimento que as portas do paraíso se abrirão!
SERVO: Mas Vossa Reverendíssima! Nesta vida, a infelicidade está raiando diante de todos, pois muitos estão sofrendo com a praga e à beira da morte. É minha alma que incendeia pedindo para afastar a obscuridade do medo que impede o meu viver. Peço-lhe perdão para meus atos errôneos. Sou um ser compassivo que carece de dignidade, antes que lágrimas continuem a ser derramadas pela dor que esta epidemia tem causado à minha família...
PADRE: Não se desespere homem! A doença é castigo divino! Mas já que insistes, ouvirei o que tens a dizer...
SERVO: O que está acontecendo padre, é um mal que vai afligir o povo se tiver continuidade! Logo serão nossos filhos que adoecerão na miséria... Já pagamos muito para ter o benefício dos feudos e pouco sobra para o nosso sustento! Nossas famílias entrarão em desespero quando a peste nos atingir... Não há como cuidarmos de nossa saúde e ela se alastra até matar! Nós servos, nascemos, crescemos e morremos e não conhecemos liberdade alguma... Tudo o que procuramos é um pouco de vida nos céus! Vivemos presos a terra e ela nos traz esta maldição, esta triste agonia! Muitos já caíram na mendicância, outros já estão no banditismo! A rapina tira de nós o pouco dinheiro que temos e ainda cresce cada vez mais todos os dias, nos deixando sem o pão na mesa conquistado pelo nosso suor. Nossas casas estão quase desabando... Outros já estão tomados pelos prantos, pela dor insuportável e nem posso mencionar o número de pessoas que perdem suas vidas... Tudo o que queremos é nos livrar do tenebroso sofrimento que nos atormenta, dia após dia, noite após noite...
PADRE: A Santa Igreja existe com a função de nos afastar de todos os males infernais e fazer o homem ter sua indulgência para conquistar seu espaço no Reino dos Céus. Portanto, para livrar-te do mal, deves obedecer nossas ordens, pois sabes que o diabo sempre segue nossos passos e estará sempre ao nosso redor. Temos que enfrentá-lo orando, adorando ao Senhor e pagando o dízimo. Toda essa peste é maldição dos hereges! Destes praticantes de feitiçaria! Por que será que muitos já foram condenados? Ah! Não quiseram seguir a palavra da Igreja, então caíram na própria desgraça. É isto o que se merece por se estar preso pelas correntes do pecado! Sendo assim, jamais poderemos quebrá-las tão facilmente... Ou façamos isto ou esta será a agonia sem fim até a morte. Tu tens esta escolha de nos seguir ou de te tornar um profano, mas sabes que jamais serás salvo! E dê-me licença homem, tenho que prestar atenção a alguns peregrinos...
SERVO: Se é o que estás dizendo padre, eu sigo com fé o seu conselho...
VAN EYCK [aparece lentamente enquanto o padre sai de cena]:
Pague suas promessas e deixe os seus medos aqui comigo
Deixe-me lhe fantasiar, deixe-me brincar com o seu imaginário.
Eu posso fazer você acreditar que possui a verdade em suas mãos
E embora eu nunca tenha existido para você, eu sempre fui o reflexo de você mesmo.
Seu espelho partido em pedaços
Pedindo mais, na melancolia das trevas.
Buscando a felicidade como todos e uma chance de acreditar no amor da vida
Um em cores de pétalas rosadas, que agora estão cinzentas.
Descanse no embalo das sombras em sintonia
Pois tudo ao redor são luz e trevas imortais que definem o destino
Escrito e pressentido pelos profetas
E silenciado em rolos de pergaminho.
Nas mais belas iluminuras,
Elas permanecerão intocáveis.
SERVO: Quem é você? O que queres? [diz assustado].
VAN EYCK: Não te assustes pobre homem. Não incomodarei o teu ser, sou o que pensares que eu seja. Mas não penses que sou um louco, mas talvez um trovador, quem sabe. Apenas guardes para si o que ouvires e não caia em tentação. Ela está ao teu redor...
Você pode viver o mesmo pesadelo de novo
Aparições sempre continuam vivas para te amedrontar
Adormecidas em sua própria mente
E enquanto você se sente fraco para enfrentá-las, elas cobrem sua atmosfera em névoa e neblina.
Fétidas serão as imagens que inundam os seus pensamentos de impurezas
O medo é o que domina a sua mente
Aprisionando-lhe por dentro, deixando a coragem escapar.
Você sempre permanecerá acorrentado se deixá-la fugir.
O tempo pode enferrujá-las, mas o fará se sentir perdido na imensidão do nada.
Rosas são cálidas
Pétalas sempre serão rosadas enquanto estiverem vivas
E quando se abrem, são como o ser buscando algo que nunca viu.
E então tudo parece mudar assim como este tempo que nunca existiu.