Clarisse é uma garota meiga, tímida e que sempre prefere seu mundo particular e privado, o fato de gostar de meninas influencia muito nesse seu jeito. Sua irmã, Camila, a convida para um acampamento escolar, o que vai modificar sua vida para sempre. Ela se ver na situação mais dramática da sua vida, dividida entre dois amores e tendo que tomar sua decisão. Em meio a isso ela só quer fazer a melhor escolha para chegar a sua felicidade.
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Era uma manhã de domingo, especificamente dia 03 de julho de 2016, onde eu, teoricamente iria acordar na hora que eu bem entendesse e meu corpo respondesse, pois estou de férias, tanto do trabalho quanto da faculdade, mas, sem se importar com isso, minha irmã está na sala dando pulos de alegria e gritando alto "EU CONSEGUI, EU CONSEGUI", o que? Eu não sei, mas forço-me a me manter deitada e de olhos fechados, em vão, os gritos são maiores que a vontade de ficar.
Minha irmã Camila tem 16 aninhos, somos filhas de pais diferentes, ou seja, meia-irmã, ela é uma pessoa interessante, digamos que é uma pessoa popular em sua escola, nós conversamos bem pouco, talvez por nosso círculo de amizades ser bem diferente, o que explica muita coisa, mas nos damos bem, ela no mundo dela e eu no meu.
Ela tem cerca de 1,60 m de altura, cabelos cacheados, do qual se orgulha muito, magra, um pouco mais morena que eu, de um corpo que pode causar inveja a qualquer uma, ou um, e ela sabe disso, sei que os garotos e muitas garotas, babam por ela na escola, o que a deixa mais orgulhosa ainda, e sei que se ela está gritando por algo, é porque ela realmente conseguiu alguma coisa que queria muito, mas até então não escutei nem um barulho da minha mãe.
Minha mãe é extraordinária, a melhor, sei que todos dizem isso das suas, então é inevitável eu não falar da minha, ela tem 49 anos, cerca de 1,70 m de altura, magra também, Camila teve de quem herdar, cabelos curtos e lisos, estilo o da atriz Gloria Pires, ela sempre falava que seu cabelo iria ficar igual ao dela, e ficou, sua cor de pele é idêntica à da minha irmã, um pouco mais morena que eu, talvez por meu pai e o de Camila serem muito diferentes fisicamente, o meu era mais branco, estilo galego, o dela já é moreno, mostra o gosto diversificado da minha mãe. Ela casou-se duas vezes, na primeira com meu pai, que veio a falecer quando eu tinha 4 anos, ele era militar, não sei exatamente como ele faleceu, ela não costuma falar disso, só diz que ele era maravilhoso, na segunda vez com o pai da Camila, ficaram juntos 5 anos e separaram-se, ela só diz que foi por falta de entendimento, ele trabalha mais viajando, talvez tenha sido isso, mas ele é uma pessoa muito boa, sempre traz presentes e conversa comigo quando chega de suas viagens, João Paulo, mas só Paulo para nós.
Bem, minha mãe se chama Adriana, moramos nós três, ela não teve mais nenhum relacionamento após o Paulo, as vezes acho que eles ainda têm alguma coisa, mas nunca mais presenciei nada, Camila ficaria muito feliz se eles voltassem, e confesso que eu também, sinto que minha mãe sente falta de dormir de conchinha, e até das brigas de casais, ela sempre conversa com a gente, mas sempre respeitando nosso espaço. Comprou nossa casa com o dinheiro que recebeu de indenização pela morte do meu pai, e apesar de receber pensão, trabalha como secretária em um escritório de advocacia, dos Srs. Dr. Rodriguez e Dr. Moreira, eles demonstram confiar muito nela, tanto que até hoje permanecem sendo seus chefes.
Eu? Eu me chamo Clarisse, tenho 21 anos, de 1,70 m de altura, magra, pelo menos puxei isso da minha mãe, cabeços longos, lisos, pretos, e cor de pele razoavelmente branca, acho que isso vem do meu pai, que se chamava André, sobrancelhas bem grossas, gosto delas assim, moro com minha mãe e minha irmã, faço faculdade de direito, muito influenciada por minha mãe, moramos em São Luis, no Maranhão, trabalho em uma loja de roupas, mais para conseguir ajudar minha mãe à pagar minha faculdade.
Não somos ricos, mas temos uma vida boa, pelo menos eu considero assim, enfim, sou solteira, na minha, vivo em meu mundo que resume-se a meu quarto, e tenho uma melhor amiga, a Eduarda que conheci na faculdade após 4 semestres ainda somos melhores amigas. Ah! E sou lésbica, fato que poucas pessoas conhecem, muito menos minha irmã, mas sei que ela sabe, só não toca no assunto, o que agradeço, e principalmente minha mãe, as vezes acho que ela também sabe, mas se for o caso ela esconde muito bem, não sei qual seria sua reação, mas vou deixando acontecer o que tiver que ser será, muitas pessoas na faculdade sabem, algumas ex namoradas, e claro, a Eduarda.
Voltemos, após tanto barulho e gritos de felicidade resolvo levantar e ver o que está acontecendo. Desço as escadas e encontro minha irmã e minha mãe abraçadas, onde me pergunto o porquê. Estou toda descabelada, com o rosto amassado e de baby-doll:
- O que está acontecendo? Esqueceram que hoje é domingo? – Pergunto.
Minha mãe me olha e só abre os braços num sinal de que não sabe o que aconteceu.
- A Camila chegou aqui toda alegre com esse papel que ainda não me disse o que é. – diz minha mãe.
Então Camila à solta e corre para me abraçar, me assustando com o seu salto.
- Camila fale logo o que aconteceu. - Diz minha mãe.
E Camila me solta e começa a gritar ao mesmo tempo que pula:
-NÓS VAMOS ACAMPAR, NÓS VAMOS ACAMPAR.
Eu e minha mãe nos olhamos sem entender nada, Camila me olha com uma cara que já conheço e não é de hoje, "está implorando por algo", e então em um estalo de lembrança, sei do que ela está falando. E digo:
- Não! Nem pensar.
E ela continua me olhando daquele jeito, minha mãe sem entender nada grita:
- Alguém pode me dizer o que está acontecendo?
Camila explica:
- Mãe, lembra daquele acampamento de férias que eu ia me inscrever? E você disse que eu só iria se a Clarisse fosse? – Minha mãe assente em um sinal de sim com a cabeça. Camila continua. – Pois é, acabaram de confirmar que realmente terá, e eu tinha colocado o meu nome e o da Clarisse, começará no dia 08 de julho, sexta, até o fim do mês. – Camila explica cheia de entusiasmo em sua voz.
Eu permaneço de cabeça baixa o tempo todo, maldita hora que concordei com isso, mas ela veio com essa cara dela de "pidona", não pude dizer não, isso já faz 2 meses, já havia esquecido e tinha certeza que não daria certo, pois até onde eu sabia, a escola não havia conseguido recurso para o acampamento, mas pelo visto conseguiu.
- Mas como? Se é da escola, como a Clarisse poderia ir? Eu falei isso, justamente porque sabia que ela não iria. – Fala minha mãe com a voz cheia de dúvidas.
- Não Mãe. Não é só para estudantes. É para todos. Na verdade, como não conseguiram um número de inscritos compatível com a necessidade de gastos, abriram vagas para outras pessoas. – Explica Camila.
Então aparece uma esperança, como assim "necessidade de gastos? ", encontrei minha saída.
- Então será pago? – Digo cheia de esperança da resposta ser sim.
Em um movimento rápido minha irmã faz aquela cara para a minha mãe, sei que a resposta dela será sim.
- Mãe, por favor, será só um custo de alimentação, o resto a escola conseguiu, até o aluguel do acampamento será de graça, ônibus, tudo, só tem uma taxa de alimentação. Por favor, diga sim. – Camila fala isso quase chorando.
Minha mãe não diz uma palavra, apenas olha para Camila, sei que ela vai dizer sim, até porque imagino que Camila já falou com seu pai, e se mamãe disser que não tem dinheiro ela dirá que o pai deu, então minha mãe me olha, sei o que quer dizer.
- Bom, acho que no momento você só depende de Clarisse, você sabe que só vai se ela for. – Diz minha mãe, e por um momento visualizei o mesmo olhar de pidão de Camila em sua face.
Meus Deus, estou ferrada, e agora? Não tenho como fugir, se duvidar Camila conseguiu dinheiro até para mim, como escapar dessa? Então lembro-me de algo.
- Você lembra-se da nossa condição para eu ir?
E com um sorriso irônico de lado a lado Camila fala:
- Ah irmãzinha, você realmente não me conhece. Então pronto, Clarisse vai mãe. – Camila fala olhando para mamãe.
O que ela quis dizer com isso? Não entendi nada. Mas se ela disse, já está feito, terei de ir a esse acampamento, que na verdade nem é um acampamento verdadeiro, está mais para um parque com a temática de um acampamento. Sorrio internamente.
- Bom se está tudo certo, então, está ok, comecem a se organizar para não fazer tudo às pressas. Como funcionará esse pagamento Camila? – Diz minha mãe.
Elas ficam conversando, Camila explica tudo a ela, entrega-lhe o papel que ela deve assinar, pois Camila ainda é menor de idade. Eu resolvo subir para meu quarto, não dormir, mas pensar. Como pude me meter nessa? Camila sabe persuadir. Resolvo ligar para Eduarda.
-Oi.
- O que Camila falou para você?
- Como assim?
- Eu falei a você do maldito acampamento, e que colocaria imposição para não ir, e a imposição, seria você. Eu só iria se você fosse.
Escuto risadas do outro lado da linha. Ela está achando graça de mim. Não consigo conter a minha raiva dela nesse momento.
- Não acredito que você fez isso Duda?
- Você precisa sair Clare, precisa respirar novos ares, conhecer novas pessoas, principalmente novas garotas, a última deixou você acabada, fora que nesses acampamentos tem muitos garotos lindos.
Sim, ela não é gay, eu tenho sim uma melhor amiga hétero, por incrível que pareça, isso ajuda muito na vida. Ela é uma pessoa ótima, 20 anos de idade, cerca de 1,60 m de altura, cabelos incrivelmente loiros e lisos, olhos claros, um pouco mais gordinha que eu, mas como sou magra, digamos que ela também seja, pele branca como a neve, gosta de usar uma maquiagem um tanto forte, confesso que ela é muito linda, e se não fosse minha amiga.... Ah! Se não fosse hétero, o que não nos impediu de muitas coisas, mas não vem ao caso. Ela é de uma família razoavelmente rica.
- Então você fez isso por você e não por mim.
- Fiz por nós duas, da última vez que nos decepcionamos em nossas relações você sabe como acabou, foi bom, mas não foi saudável.
Sei bem do que ela está falando, logo que nos conhecemos na faculdade, ela tinha um namorado e eu uma namorada, fomos a uma festa, bebemos todas, e saímos por um minuto, quando voltamos eles estavam aos beijos no meio do clube, aquilo foi um choque tanto para mim quanto para ela, então sem pensar duas vezes, fomos embora da festa, e decidimos ir para sua casa, pegamos mais bebida e subimos pro seu quarto, já estávamos muito bêbadas, mas ali, nas nossas cabeças malucas resolvemos nos vingar, e então rolou, como ela disse foi muito bom, mas foi loucura, afinal, ela até onde eu sabia é hétero, e sei que é. Mas ela soube usar do seu lado gay nesse dia, bem, só sei que no dia seguinte, nossas expressões de arrependimento eram mútuas, resolvemos esquecer e nunca mais falar nisso, e desde então somos melhores amigas, jeito meio maluco de começar uma grande amizade.
- É. Eu sei, mas isso não justifica nada, você sabia que eu não queria ir.
- Clare, por favor, deixa rolar, é só um acampamento bobo, eu estarei lá. O que de mal pode acontecer?
Por um momento pensei o mesmo, ela está certa, é só um mês, como outro qualquer, vou e fico o tempo todo no quarto ou barraca seja lá onde for, contanto que eu esteja no meu mundinho.
- Tá certo, afinal já foi mesmo, vocês duas já decidiram como será meu mês. Espero que esteja certa.
- Tá bom, cabeça dura. Você vai ver Clare, será tudo ótimo, e quando voltarmos irá nos agradecer. Beijos.
- Tchau Duda.
Bom, ela pode estar com a razão, tenho que conhecer gente nova certo? Não vou pensar nisso, eu vou, levo livros e meu tempo será bem aproveitado. Isso, assim será.
Na terça minha mãe sai para depositar o dinheiro, não sei porque, mas ela faz questão de pagar o meu também, e parece muito animada porque decidi ir, isso parece estranho, será que ela sabe de algo? Não! Se soubesse já teria falado alguma coisa. O pensamento sai da minha cabeça, e volto-me para continuar a arrumar a mala.
Já está quase tudo pronto. E Camila está mais animada do que nunca com a proximidade, acho que o carinha que ela gosta ou namora, ou fica, ou paquera, ou sei lá o que, irá também, o que explica sua animação. Duda a todo momento, manda um WhatsApp perguntando algo, acho que ela está mais preocupada em eu desistir do que qualquer outra coisa. Ela me conhece melhor do que ninguém.
E assim a semana passa, mala, mensagens e animação. Em minha mala coloco bastante biquínis, e umas camisetas, gosto muito de me sentir confortável, e alguns shorts de pano mole para poder vestir por cima do biquíni, esse é meu estilo, principalmente dentro de casa, digamos que dentro de casa eu e Camila nos vestimos igual, mas fora, ela tende a ser um pouco mais sofisticada.
Costumo ficar de cabelo solto, mas gosto também de usar um rabo de cavalo. Chega a sexta, hora de ir, mamãe passará na casa da Duda e vamos juntas até o ponto de encontro do ônibus, que será na escola que Camila estuda. Saímos de casa às 7:00hs para pegar a Duda. Chegamos à escola antes das 8:00hs.
Ao descermos do carro, observo que o mês não será tão calmo como eu imaginei, a quantidade de jovens é absurda, são cerca de 15 ônibus à espera, para saírem cheios, sinto um pequeno calafrio percorrer meu corpo, e penso comigo mesmo "isso não vai dar certo", Duda ao perceber minha aflição me dar um abraço meigo, onde retribuo e sei que ela sabe o que estou sentindo nesse exato momento.
Camila mais do que nunca está animadíssima, ela tira suas malas do carro, envolve em um abraço forte nossa mamãe, que lhe dá a benção, e deseja boa viagem, e sai correndo para seu grupinho da escola, sei que a decisão mais sábia que eu fiz foi ter posto a condição para Duda vir. Sinto-me aliviada.
Mamãe percebe a ansiedade de Camila, queria aproveitar mais um pouco do momento com suas filhas, mas conhece bem a filha mais nova que tem, e isso faz com que ela a deixe ir para junto de seus amigos. Tiramos nossas malas do carro, dou um abraço bem à forte em minha mãe, que se despede de Duda também, peço a benção mamãe, e a vejo sair, ainda irá trabalhar, vejo o carro se afastando bem devagar, sei que ela está chorando, é a primeira vez que iremos passar tanto tempo longe, na verdade é a primeira vez que ela ficará só, ou acho que ficará sozinha, pois sempre que uma de nós viaja a outra sempre fica pra ninguém ficar só, mas Camila conseguiu até isso, não tenho raiva dela nesse momento, tenho inveja, sua determinação e socialização são agradáveis, eu sinto que iria gostar de ser assim, mas paro de pensar nisso assim que escuto um apito que uma mulher usa para chamar a atenção de todos, ela está pedindo silêncio, todos param para escutá-la, e assim ela começa seu discurso de boas-vindas, fala das regras do acampamento, e diz que os alojamentos serão separados por sexo, acho que isso deixa Duda muito triste, mas já era esperado, fala também que teremos hora pra dormir, mas não pra acordar, a pessoa estará livre para fazer sua rotina, a não ser pelas horas exatas das refeições, o que inclui o café da manhã.
- Espertos – Digo.
- O que? – Pergunta Duda.
¬- Eles falam que não tem hora para acordar, mas definem o horário das refeições, o que teoricamente nos obriga a acordar no horário para comer, se quisermos comer, é claro. – Explico a Duda, que assente com a cabeça e um sorriso no rosto, olhando para o lado, acho que ela já encontrou com o que se ocupar o mês todo. Procuro o que ela tanto olha e encontro, um garoto, moreno, cabelos quase raspados, olhos escuros, que retribui o sorriso dela. Definitivamente ela encontrou sua ocupação, o que me deixa mais arrependida de ter topado essa aventura. Camila nem sei mais onde está.
A mulher que fala no autofalante identifica-se como Laura e diz que é a chefe desse acampamento, e apresenta mais 30 monitores, 15 homens e 15 mulheres, que estarão "tomando conta" da gente durante todo o tempo. Duvido muito, penso. Ela segue falando que o objetivo é conhecer e interagir e por tal motivo, os ônibus que irão nos levar serão aleatórios, poderemos entrar em qualquer um, assim como as alas de quartos das cabanas serão feitas por sorteios, o que nos proporcionará conhecer novas pessoas.
Essa informação me dá um nó na barriga. O que, como assim sorteio? Posso ficar longe da Duda e da Camila? Duda me olha e percebe meu medo. Por um minuto ela me tranquiliza com um olhar. Meu Deus essa mulher me conhece mesmo. Aceito. Laura ainda diz que essa separação será apenas para dormir, durante o dia poderemos nos comunicar com qualquer pessoa do acampamento, isso me tranquiliza mais. Bom, só dormir acho que consigo. Ela ainda fala sobre os atos sexuais, o que faz com que muitos soltem gritos, penso: isso vai ser uma loucura. Ela diz que nenhum ato sexual é proibido, mas explica que há menores de idade no acampamento e qualquer ato descoberto sendo praticado com menores de idade será denunciado à direção, assim também como qualquer denúncia de violência, seja ela de que tipo for. Ela diz que "a dispensa está cheia de camisinhas, mas como serão separados por sexo, ou vamos para a mata ou as camisinhas irão vencer na dispensa". Isso seria para soar engraçado da parte dela, mas não achei nenhuma graça.
Abaixo a cabeça e ao levantar observo uma garota que, acredito eu, também não tenha gostado nenhum pouco da brincadeira, ela está de cara feia, tem um cara abraçando-a, não consigo parar de olhá-la, meu Deus ela é muito linda. Loira, olhos claros e cabelos cacheados. Como ela é linda. Está com uma blusa amarela, e uma mochila nas costas, o cara que a abraça, está aos gritos pelos comentários de Laura, ela não está gostando, deve ser seu namorado, porque não consigo parar de olhá-la? Então ela percebe, e me olha também, sem nenhuma expressão em seu rosto, nos encaramos por algum tempo. E então me espanto com o grito de Laura no autofalante, "ENTÃO, VAMOS NESSA". Ela ainda está me olhando, mas Duda começa a me puxar, para irmos para o ônibus.
Muita gente reunida, avistamos Camila com mais uns 5 amigos, incluindo o carinha que ela gosta, parece que seu nome é Pedro. E seguimos todos para um só ônibus, eu e Duda sentamos mais atrás, assim temos uma visão total de todos, mas claro, Camila e seus amigos ficaram nos assentos da frente, ela senta-se ao lado de Pedro, evidentemente.
Quando nos encaminhamos para o banco, percebemos que tem um pequeno folheto em cada assento, com o nome na frente PARQUE PARADSO: ONDE SUA IMAGINAÇÃO GANHA ASAS, estão descritas todas as atividades disponíveis do parque, assim como suas regras. Concentro-me paro para ler com Duda, que logo começa a falar como achou o carinha lindo, e isso e aquilo. Bom, ela sabe o que fazer. E ele está a apenas uns 5 metros longe dela, sim, ele está no ônibus, para a sorte dela.
- Vamos Clare, se anime, você veio para se divertir. – Diz Duda me dando um empurrãozinho com o ombro.
- Eu sei Duda, eu sei. – Respondo forçando-me a dar um sorriso.
Estou o tempo todo de cabeça baixa, lendo o folheto, e eis que num momento de mexer o pescoço, pois já dói um pouco, levanto a cabeça e vejo ela entrando, cabelos loiros e cacheados, meus Deus, ela realmente é muito linda, ela está o tempo todo de mãos dadas com o rapaz, parece ter a mesma idade que ela, a mesma parece ser um pouco mais nova que eu, talvez 18 ou 19 anos. Mas no momento não estou interessada na idade dela, ela me avista assim que entra. Nossos olhares se encontram como se fosse um vulcão em erupção, sei que tem algo de especial nela, sei que tem, ela senta com o rapaz em duas poltronas à frente da que estou. O que estou fazendo? Pare com isso Clarisse! Ela está acompanhada. Digo isso a mim mesma durante quase toda a viagem, mas não consigo parar de olhar para ela, alegro-me por Duda não ter percebido, ela está muito ocupada com seu novo "amigo".
No meio da viagem, que durará umas 3 horas, (sendo que saímos da escola às 9:00hs). Resolvo distanciar-me dos pensamentos que envolvem "cabelos loiros e cacheados", não sei seu nome então refiro-me a ela assim, pego meu celular coloco meu fone, começo a escutar Fifth Harmony, como gosto dessas meninas, é um grupo só de meninas formado em um programa de TV Americana, daqueles reality show que descobrem talentos. E que talentos. Começa a tocar Write on me:
Pegue uma caneta, coloque no papel
Escreva em minha pele, traga-me à vida
Você não pode começar de novo, não tem borracha
Todas as minhas falhas, você as entende muito bem
Tudo é vazio até que você me desenhe
Tocando em meu corpo como se me conhecesse
Escreva em mim
Colora para fora das linhas
Adoro a forma como você me marca por completo
Amor, leve o tempo que precisar
Escreva em mim
Me dê asas, eu voarei
Adoro a forma como você me marca por completo
Nunca mudarei de ideia
Escreva em mim, escreva em mim
Escreva em mim, escreva em mim
(Escreva em mim)
Escreva em mim (escreva em mim)
Escreva em mim
Adoro a forma como você me marca por completo
Escreva em mim
Parece que quando as coisas são para acontecer, acontecem de qualquer forma, a música cai como uma luva, e isso me deixa relaxada, ao dar uma última olhada em "cabelos loiros e cacheados" percebo que ela me observa, e quando a olho ela desvia o olhar, dou um sorriso interno, meu Deus como ela é linda. Relaxo no banco e me deixo levar pela música e as vozes das meninas que me irradiam calmaria, principalmente quando elas cantam em espanhol, e com um sorriso espontâneo no rosto, pego no sono.
- Clare. Clare. Clare, acorda!
Duda está para me derrubar do banco tentando me acordar, e avisa que chegamos. Abro os olhos devagar e percebo que as pessoas já estão a descer do ônibus. Nossa, eu dormi muito! E como um bebê. Duda está muito desesperada, mas sei que é para não perder o garoto bonito de vista. Então resolvo me recompor e descemos também, pegamos nossas bagagens e saímos.
Todos estão em um local cheio de árvores, não é exatamente um acampamento, há alojamentos, estilo hotel, com quartos compartilhados, existem tobogãs, balanços, mesas de jogos, jet-ski, mas também existem muitas árvores, há três lagos, segundo o que o orientador do parque nos diz, um para os jet-skis, outro para jogos, como natação, lutas de cama de gato, onde existem equipamentos para isso, entre outros, e outro lago que serve apenas para tomar banho, ou pegar sol, ou apenas namorar - ele diz isso sorrindo. Acho que ele já viu bastante coisa nesse lago para falar isso, o que já dá ideia para muita gente, inclusive para Duda.
Fico deslumbrada com tudo, é um lugar maravilhoso, natureza misturada ao lazer. Duda me olha e bate em meu queixo, sei que ela quer dizer: "EU TE DISSE", mas não o faz. Eu só retribuo com um sorriso que ela sabe o que significa.
O orientador que se identifica como Marcos, fala sobre o uso do celular, ele diz que normalmente não é autorizado o uso do mesmo no parque, mas como se trata de uma temporada longa e de muitos jovens, será permitido, desde que não atrapalhe o aproveitamento do local, pois a principal intensão é essa, se soltar da vida real, e curtir a imaginação. Marcos nos mostra duas caixas, uma tem todos os nomes dos garotos e outra todos os nomes das meninas, o sorteio dos quartos será feito agora. Segundo ele, são cerca de 450 pessoas, o número me assusta, mas diz que o parque foi reservado pelo mês todo apenas para nós. Isso me tranquiliza, e deixa muita gente animada. Marcos segue dizendo que existem 50 quartos que foram adaptados para alojarem 10 camas cada, ele não sabe o número exato de homens ou mulheres, cada quarto tem 2 banheiros, nós temos que nos organizar, ele irá começar a sortear os nomes, 10 por vez, até acabar os das meninas, após cada 10sorteados, ele dirá o número do quarto e nos encaminharemos, onde um dos monitores já estará à nossa espera.
Então ele começa... 10 nomes, quarto 1. Mais 10 nomes quarto 2.... Mais 10, sai o de Camila que fica muito alegre por sair uma de suas amigas também, quarto 17. Mais 10 nomes quarto 22. Mais 10. Sai o meu... meu deus é agora. Fico na expectativa e nada do nome de Duda, sai os outros 4 nomes e a decepção toma conta de mim, sem Camila e sem Duda. Não acredito, não poderia ser pior, Duda me olha e diz com os lábios, "EU TO AQUI", ela sabe que fiquei muito triste. Baixo a cabeça e sem olhar para trás sigo para o quarto 25.
Não consigo nem pensar direito no momento, seria tão perfeito se Duda estivesse junto comigo, entro no quarto com mais umas 8 meninas atrás de mim em uma fila perfeita, não olho para trás só para baixo, mas algo está estranho, eu sei que está. Entro no quarto e a monitora nos espera. Ela se apresenta como Bruna, e diz que será responsável pelo quarto que estamos, o que isso significa eu não sei, então manda escolhermos nossas camas, que são beliches, 5 beliches e mais uma, acredito que seja a de Bruna. Escolho uma mais próxima do banheiro, a cama de baixo, não gosto de pensar que posso dormir e cair, isso seria estranho. Então Bruna pede para que digamos nossos nomes, eu falo um pouco baixo e de cabeça ainda baixa, triste pelo acontecimento e decepção de não ter Duda ali.
Então escuto alguém falando:
- Meu nome é Jasmine.
Que nome diferente, mas a voz é linda, como nunca tinha escutado igual, meu coração acelera e por um minuto me sinto fria, forço-me a levantar a cabeça, e lá está ela, linda como nunca, como consegue ficar ainda mais linda? Ela me olha como se fosse a primeira vez que nos vemos, "cabelos cacheados e loiros" tem um nome: Jasmine. Jasmine, Jasmine, repito inúmeras vezes em pensamento, e as apresentações continuam. Mas eu não consigo parar de olhá-la, como uma pessoa desconhecida tem esse efeito sobre mim?
Assim que terminamos de nos apresentar, Bruna pede que deixemos as malas em cima das camas para arrumar depois. Cada beliche tem uma pequena cômoda ao lado, com 4 gavetas grandes e duas pequenas. As parceiras de beliche terão que dividir as gavetas, o almoço será servido em meia hora, ou seja, às 13:00, o café da manhã as 7:30hs e o jantar as 19:00hs. Esses serão os horários todos os dias. Quem não estiver lá, não comerá depois. Essa é uma regra rígida de funcionamento do parque.
Não sei o que pensar nesse momento, ela está aqui, dormindo no mesmo quarto que eu, isso me desvia do momento de tristeza que aparecia em meu olhar. Não sei se é bom ou ruim, mas ela está aqui. Nossos olhos a todo instante se cruzam, ela também sente, eu sei que sente, não sei o que é, mas ela sente.
Seguimos para um local que tem umas mesas ao ar livre, estilo parques de piqueniques, estou à procura de Duda, e espero que ela esteja à minha. Avisto-a olhando para cima, para meu alívio faz um sinal ao me ver, ela estava à minha procura sim.