Naquele dia, minha avó, que tanto amava, foi levada às pressas para o hospital, com Alzheimer em estado grave.
O médico disse que só um tratamento experimental caríssimo poderia salvá-la, um custo que nossa família humilde jamais poderia arcar.
Desesperada, liguei para o único número que poderia me ajudar, o do magnata Benjamin Contreras.
"Eu concordo." Minha voz mal saiu, trocando minha dignidade e meu futuro pela vida dela.
Tudo parecia um sonho dourado, com Ben me mimando, me dando o mundo, e eu acreditava que era amada.
Ele até me levou ao Corcovado, prometendo: "Pequena, todos os anos, estarei aqui com você."
Essa ilusão durou dois anos, até Fiona Lawrence, sua ex-noiva, retornar.
Ela me humilhou, revelando que eu era apenas uma substituta barata, uma cópia dela.
Fiona propôs um teste cruel: quem Benjamin socorreria primeiro, ela ou eu?
Meu coração despencou quando o celular dela tocou e o meu ficou em silêncio.
Ele negou até me conhecer, me descartando como lixo na frente de todos.
Depois me trancou num porão, como se eu fosse um animal.
Eu não podia acreditar na frieza dele, na sua traição.
Será que todo o amor que ele demonstrou foi apenas uma farsa, um jogo sádico para saciar o ego de Fiona?
Mas enquanto eu afundava na escuridão, uma antiga porta se abriu: a bolsa que recusei para ficar com ele ainda me esperava.
Decidi partir. Para Lisboa. Para recomeçar.
Naquele dia, a minha avó, que sofria de Alzheimer, teve uma recaída súbita e foi levada de urgência para o hospital.
O médico disse que a condição dela era grave e que, sem um tratamento experimental caríssimo, ela poderia não sobreviver por muito mais tempo.
Eu fiquei parada no corredor do hospital, sentindo o mundo desabar à minha volta. Eu tinha apenas dezoito anos e tinha acabado de entrar na faculdade de arquitetura, o meu sonho. Mas o custo do tratamento era uma montanha que a nossa família humilde de Salvador nunca poderia escalar.
Desesperada, liguei para o único número que representava uma possível saída, um número que eu nunca pensei que usaria.
A chamada foi atendida rapidamente.
"Decidiu?"
A voz do outro lado era profunda e fria, a voz de Benjamin Contreras.
Eu mordi o lábio com força, o gosto de sangue enchendo a minha boca.
"Eu concordo."
"Ótimo. O dinheiro estará na conta do hospital em dez minutos. O meu motorista vai buscá-la em uma hora. Saiba o seu lugar, Raegan."
Ele desligou antes que eu pudesse dizer mais alguma coisa. Dez minutos depois, a enfermeira chamou-me, com os olhos arregalados, dizendo que a conta do tratamento da minha avó tinha sido totalmente paga.
Uma hora depois, um carro de luxo preto parou em frente ao hospital. Entrei, deixando para trás a minha dignidade e o meu futuro.
Naquela noite, na sua luxuosa mansão com vista para o mar, tornei-me a amante de Benjamin Contreras, um magnata da construção dez anos mais velho que eu.
Benjamin mimava-me de uma forma que me deixava tonta. Ele descobriu que eu admirava a restauração do Palácio Rio Branco e, no dia seguinte, arranjou-me um estágio "especial" no projeto, dando-me acesso a plantas e materiais que outros estagiários só podiam sonhar.
Quando tive uma crise de enxaqueca, ele cancelou uma reunião crucial com investidores em São Paulo e voou de volta para Salvador só para cuidar de mim. Ele segurou a minha cabeça, massajou as minhas têmporas e ficou ao meu lado até eu adormecer.
No meu vigésimo aniversário, ele levou-me de surpresa para o Rio de Janeiro. Acordámos de madrugada para ver o nascer do sol no Corcovado. Com os primeiros raios de sol a pintar o céu, ele abraçou-me por trás e sussurrou no meu ouvido.
"Pequena, todos os anos, estarei aqui com você."
Eu acreditei nele. Acreditei que era amada.
Essa ilusão durou dois anos, até ao dia em que Fiona Lawrence regressou da Europa.
Ela marcou um encontro comigo num café sofisticado em Ipanema. Era alta, elegante, e olhava para mim com um desprezo mal disfarçado.
"Raegan Miller, certo?"
Ela nem esperou pela minha resposta. Empurrou um cheque na minha direção, sobre a mesa de mármore.
"Um milhão de reais. Para você desaparecer da vida do Ben."
O meu coração gelou.
"Não sei do que está a falar."
Fiona riu, um som frio e cortante.
"Não se faça de tonta. Você é a pequena substituta dele, não é? A paixão pela arquitetura, o fascínio por edifícios históricos... tudo tão parecido comigo."
Ela inclinou-se para a frente, os seus olhos a faiscar.
"Vamos fazer uma aposta. Para ver quem ele realmente valoriza."
O meu estômago revirou-se de ansiedade.
"Eu vou mandar uma mensagem para o Ben a dizer que o meu carro avariou na Linha Amarela. Você vai mandar uma a dizer que sofreu um acidente de carro. Vamos ver para quem ele liga primeiro."
O desespero tomou conta de mim. Eu precisava de provar a mim mesma que ela estava errada.
"Eu aceito."
Peguei no meu telemóvel com as mãos a tremer e digitei a mensagem. Fiona fez o mesmo, com um sorriso vitorioso no rosto.
Enviámos as mensagens ao mesmo tempo.
O meu coração batia descontroladamente no meu peito. Os segundos pareciam horas.
Então, o telemóvel de Fiona tocou.
O nome "Ben" brilhava no ecrã.
Ela atendeu, colocando-o em alta voz. A voz preocupada de Benjamin encheu o café.
"Fiona? O que aconteceu? Onde você está? Não se mexa, estou a caminho."
O meu telemóvel permaneceu silencioso. O meu mundo desmoronou.
Fiona desligou a chamada, o seu sorriso era cruel.
"Viu? Ele nem sequer se importou com o seu 'acidente'."
As lágrimas escorriam pelo meu rosto, mas ela não tinha terminado.
"O estágio no Palácio Rio Branco? Foi lá que o Ben me pediu em namoro. A viagem ao Corcovado para ver o nascer do sol? Foi o nosso ritual de aniversário durante cinco anos. Ele nunca te amou, Raegan. Você foi apenas uma sombra, uma imitação barata para preencher o vazio que eu deixei."
Cada palavra era um golpe. A humilhação queimava-me por dentro. Eu era uma piada.
Empurrei o cheque de volta para ela, mas a minha mão tremia tanto que ele caiu no chão. Curvei-me para o apanhar, as minhas unhas a cravarem-se na minha palma.
"Eu vou desaparecer", murmurei, a minha voz era um fio.
Levantei-me e saí do café, sentindo os olhares de todos sobre mim. A chuva tinha começado a cair, uma garoa fina e fria.
Quando cheguei à esquina, o carro de Fiona passou por mim em alta velocidade, jogando a água suja de uma poça sobre o meu vestido. Ouvi a sua gargalhada a ecoar enquanto ela se afastava.
Fiquei ali, encharcada e humilhada, a chuva a misturar-se com as minhas lágrimas. Naquele momento, o meu telemóvel tocou. Era um número desconhecido. Atendi, a voz embargada.
Era o meu antigo professor da faculdade.
"Raegan? Sou eu, Professor Alves. Sei que é em cima da hora, mas a bolsa de estudos para Lisboa... a vaga ainda é sua, se a quiser. É a sua última oportunidade. Preciso de uma resposta até amanhã."
A bolsa que eu tinha recusado para ficar com Benjamin. Uma porta que eu pensei ter fechado para sempre.
"Eu aceito", disse eu, a minha voz subitamente firme. "Eu vou para Lisboa."
Tive quinze dias para organizar a minha partida. Quinze dias para apagar dois anos da minha vida.
Em segredo, tratei do meu passaporte, da matrícula na universidade e da minha passagem. Durante o dia, eu fingia que nada tinha mudado. À noite, no silêncio do meu quarto, eu empacotava a minha vida em caixas.
Encontrei a maquete que passei meses a construir. Era uma casa de praia, um presente de aniversário para Benjamin. Cada detalhe, desde a varanda com vista para o mar até ao pequeno estúdio de arquitetura, tinha sido pensado para ele, para nós.
Olhei para ela por um longo momento, a dor a apertar-me o peito. Depois, com um movimento decidido, peguei nela e atirei-a para o lixo.
O meu voo estava marcado para o dia do aniversário de Benjamin.
Naquela manhã, acordei com uma febre alta e uma dor de cabeça latejante. O meu corpo estava a protestar contra o stress e a dor emocional. Eu mal conseguia ficar de pé.
Tomei um analgésico e deitei-me, esperando que o efeito começasse. Foi então que o meu telemóvel tocou. Era o assistente de Benjamin, Ricardo.
"Senhorita Miller, o Senhor Contreras pede que venha ao escritório. Ele e a Senhora Lawrence estão à sua espera."
A minha cabeça girava.
"Eu não me estou a sentir bem, Ricardo. Não posso ir."
"São ordens do Senhor Contreras. Ele disse que é importante."
A sua voz era firme, sem espaço para discussão. Arrastei-me para fora da cama, o meu corpo a tremer. Vesti-me e chamei um táxi.
Quando cheguei ao imponente edifício da Contreras Empreendimentos, o meu corpo estava coberto de suor frio. Ricardo levou-me até à sala de reuniões, mas parou à porta.
"Por favor, espere aqui um momento."
A porta estava entreaberta. Ouvi vozes lá de dentro. A voz de Fiona, melosa e provocadora.
"Ben, querido, porque é que ainda a mantém por perto? Ela é apenas um peso morto. Uma distração. Agora que eu voltei, você não precisa mais do seu pequeno pássaro dourado."
Um silêncio pesado. Depois, a voz de Benjamin, fria e calculada.
"Ela ainda tem o seu propósito, Fiona. Tenha paciência."
O meu coração partiu-se em mil pedaços. Pássaro dourado. Peso morto. Era isso que eu era para ele. Uma ferramenta. Uma peça num jogo que ele estava a jogar com Fiona. A bile subiu-me à garganta.
Fiona abriu a porta de repente, o seu sorriso a alargar-se quando me viu.
"Olha quem está aqui! A pequena Raegan. Entre, querida. O Ben estava ansioso por vê-la."
Ela puxou-me para dentro da sala. Benjamin estava sentado à cabeceira da mesa, o seu olhar impassível. Quando me viu, o seu rosto suavizou-se numa máscara de preocupação.
"Pequena, você está pálida. Está tudo bem?"
Ele levantou-se e veio na minha direção, a sua mão a tocar a minha testa. O seu toque, que antes me confortava, agora queimava a minha pele.
"Você está com febre."
Ele agia como se Fiona não estivesse ali, como se a conversa que eu acabara de ouvir nunca tivesse acontecido. A sua atuação era perfeita.
Fiona observava-nos com os braços cruzados, um brilho divertido nos olhos. Ela estava a desfrutar do espetáculo.
Eu não disse nada. Fiquei parada, deixando-o representar o seu papel. A dor dentro de mim era tão intensa que se transformou numa estranha calma. Eu já não sentia nada. Era apenas uma espectadora da minha própria humilhação.
Eu era a sua ferramenta para provocar Fiona. E eu ia desempenhar o meu papel até ao fim.