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Tarde Demais Para Arrependimento, Meu Amor

Tarde Demais Para Arrependimento, Meu Amor

Autor:: Thalia
Gênero: Moderno
Meu noivo, Beto, e eu estávamos construindo um império do design. Quando ele quebrou a perna, contratou uma diarista temporária, Gilda, enquanto eu viajava a trabalho. Eu achei que ela estava lá para ajudar; não percebi que estava lá para me substituir. Ela sistematicamente tomou conta da minha casa, virando Beto contra mim, pedaço por pedaço. A gota d'água foi encontrar meu gato, Apolo, trancado numa gaiola, machucado e faminto. Quando os confrontei, Beto a defendeu. Ele me chamou de monstro e mandou eu me livrar do meu gato, tudo pelo bem do bebê que eu carregava em segredo. O choque da traição dele foi um golpe brutal. Tão brutal que perdi o bebê naquela mesma noite. Ele nunca soube. Apenas gritou que eu era uma vadia fria e calculista e que Gilda era uma "mulher de verdade", que o amava de verdade. Então eu fui embora. Peguei meu gato, liquidei minha metade da nossa empresa e desapareci. Três anos depois, entrei em uma festa de gala do setor e o vi do outro lado do salão: um homem quebrado. Ele me olhou com um arrependimento desesperado, mas eu apenas sorri. Minha vingança não seria barulhenta; seria o meu sucesso.

Capítulo 1

Meu noivo, Beto, e eu estávamos construindo um império do design. Quando ele quebrou a perna, contratou uma diarista temporária, Gilda, enquanto eu viajava a trabalho. Eu achei que ela estava lá para ajudar; não percebi que estava lá para me substituir.

Ela sistematicamente tomou conta da minha casa, virando Beto contra mim, pedaço por pedaço. A gota d'água foi encontrar meu gato, Apolo, trancado numa gaiola, machucado e faminto.

Quando os confrontei, Beto a defendeu. Ele me chamou de monstro e mandou eu me livrar do meu gato, tudo pelo bem do bebê que eu carregava em segredo.

O choque da traição dele foi um golpe brutal. Tão brutal que perdi o bebê naquela mesma noite.

Ele nunca soube. Apenas gritou que eu era uma vadia fria e calculista e que Gilda era uma "mulher de verdade", que o amava de verdade.

Então eu fui embora. Peguei meu gato, liquidei minha metade da nossa empresa e desapareci. Três anos depois, entrei em uma festa de gala do setor e o vi do outro lado do salão: um homem quebrado. Ele me olhou com um arrependimento desesperado, mas eu apenas sorri. Minha vingança não seria barulhenta; seria o meu sucesso.

Capítulo 1

Eu soube no momento em que Gilda Souza passou pela nossa porta que ela era problema. O que eu não sabia na época era que ela não apenas partiria meu coração; ela desmontaria minha vida inteira, pedaço por pedaço agonizante. Mas naquele tempo, eu estava ocupada demais construindo um império para ver a podridão silenciosa e insidiosa começando em casa.

Tudo começou com a perna do Beto. Um jogo de basquete, uma queda desajeitada e, de repente, meu noivo e sócio, o "rosto" carismático da Almeida-Moraes Design, estava confinado à nossa casa meticulosamente projetada. Nossa governanta, Maria, estava conosco há anos, era praticamente da família. Mas a doença repentina de sua irmã na Bahia significou que Maria teve que partir imediatamente, sem aviso. Foi uma saída caótica e inesperada.

Beto, sempre bom de papo, me tranquilizou.

"Não se preocupa, Alina. Já achei alguém. A prima da Maria, Gilda. Ela precisa do trabalho, e a Maria garantiu que ela é ótima. Disse que é um anjo."

Eu já estava com um pé fora de casa, minha mente consumida pelo projeto do arranha-céu em Brasília. Uma fase crítica, horas intermináveis, sem tempo para drama doméstico.

"Temporária, certo?", perguntei, minha voz tensa com uma mistura de preocupação pelo Beto e o estresse de sempre de lançar um novo projeto.

"Claro, temporária", Beto disse, me mandando um beijo. "Só até eu me recuperar."

Duas semanas depois, o lançamento em Brasília foi um sucesso retumbante. Exausta, mas eufórica, peguei o primeiro voo para casa. Meu celular, geralmente um zumbido constante de e-mails de trabalho, estava cheio de mensagens do Beto. Ele não parava de elogiar a Gilda.

"Ela é incrível, Alina! Tão atenciosa. A comida que ela faz é espetacular. Você não vai acreditar como estou me sentindo melhor."

Minha sobrancelha se ergueu. Melhor que a comida da Maria? Maria, que aperfeiçoou os pratos favoritos dele ao longo de anos? Mesmo assim, um alívio me invadiu. Pelo menos ele estava sendo bem cuidado. Imaginei alguém mais velha, talvez um pouco simples, gentil e eficiente. Um tipo maternal. Alguém que se misturaria ao fundo, uma peça temporária até a vida voltar ao normal.

No momento em que meu carro entrou na garagem, Apolo, meu gato ruivo, estava na janela, uma sentinela peluda. Ele piscou lentamente para mim, um bem-vindo silencioso. Senti uma saudade imensa dele. A casa parecia quente, uma luz suave emanando da sala de estar. Cheirava a algo saboroso cozinhando lentamente.

Abri a porta da frente, minhas malas rolando atrás de mim. Meus saltos estalaram no piso de madeira polida. Não havia ninguém na sala, mas ouvi vozes baixas vindas da cozinha. A risada distinta do Beto, um pouco alta demais, depois uma risadinha feminina, mais suave.

"Olá?", chamei, minha voz ecoando um pouco na casa silenciosa.

Uma mulher saiu da cozinha. Ela não era o que eu esperava. Nem velha, nem simples. Tinha seus trinta e poucos anos, com cabelos escuros e brilhantes presos em um coque arrumado, traços suaves e olhos que eram um tom espertos demais para alguém que deveria ser uma ajuda temporária. Seu uniforme, um simples avental sobre roupas discretas, de alguma forma conseguia destacar suas curvas em vez de escondê-las. Ela se portava com uma confiança silenciosa que beirava a compostura.

"Você deve ser a Alina", disse ela, sua voz surpreendentemente calma, quase serena. Nenhum sorriso de boas-vindas, nenhuma saudação efusiva como a de Maria teria sido. Apenas uma avaliação fria. Ela não se ofereceu para ajudar com minhas malas.

"Sou eu", respondi, um leve tremor de desconforto começando no meu estômago. "E você é a Gilda."

"Sim. Bem-vinda de volta." Ela não parecia particularmente acolhedora.

Ofereci um sorriso educado, engolindo a sensação estranha.

"Obrigada. Escuta, eu trouxe uma coisa pra você."

Peguei na minha bagagem de mão e tirei uma pequena caixa elegantemente embrulhada. Era um lenço de grife que comprei em Brasília, algo que eu sempre fazia para a Maria ou outros funcionários como um pequeno gesto de apreço. Meu jeito. Minha maneira de mostrar que os valorizava.

Gilda olhou para a caixa, depois de volta para mim, sua expressão indecifrável.

"Ah, não precisava."

"É só uma coisinha para agradecer por cuidar do Beto enquanto eu estava fora. Eu sempre trago pequenos presentes para quem ajuda aqui em casa."

Minhas palavras deveriam ser graciosas, mas soaram forçadas no silêncio súbito e estranho.

Ela balançou a cabeça, um movimento suave, quase imperceptível.

"Não, obrigada. Estou apenas fazendo meu trabalho."

Eu pisquei. Ela estava recusando? Maria teria ficado emocionada, uma enxurrada de agradecimentos.

"Não é um pagamento, Gilda. É um presente de boas-vindas. Uma pequena lembrança."

"Prefiro não aceitar presentes fora do meu salário combinado, Sra. Moraes. Isso complica as coisas."

Sua voz era suave, mas havia uma rigidez inflexível nela. Um limite, firmemente traçado. Mas pareceu menos profissionalismo e mais uma rejeição.

"Que alvoroço é esse aí fora?", a voz do Beto soou do escritório. Ele mancou para fora, apoiando-se pesadamente em uma muleta, sua perna envolta em um gesso desajeitado. Seu rosto se iluminou quando me viu. "Alina! Você voltou!"

Instintivamente, dei um passo à frente, minha mão se estendendo para firmá-lo, uma vida inteira de cuidado com ele entrando em ação. Mas Gilda foi mais rápida. Ela se moveu com um movimento rápido e fluido, deslizando sob o braço dele antes que minha mão se estendesse completamente. Ela o estava apoiando, seu corpo próximo ao dele. Minha mão caiu inutilmente ao meu lado.

Beto se apoiou nela, quase casualmente.

"Gilda, meu amor, o que foi?"

Ele a chamou assim antes? Minha mente deve ter se enganado.

"A Sra. Moraes estava tentando me dar um presente", disse Gilda, sua voz baixando para um sussurro teatral, como se eu fosse um eco distante e incômodo. "Eu disse a ela que não era necessário."

Beto franziu a testa, depois seu rosto se clareou. Ele olhou para o lenço na minha mão.

"Ah, Alina, você sempre escolhe as melhores coisas! Gilda, querida, é a Alina. Ela é atenciosa. É uma coisa boa. Aceite."

Ele pegou a caixa dos meus dedos dormentes e a pressionou na mão de Gilda.

A expressão de Gilda suavizou, um sorriso pequeno, quase tímido, enfeitando seus lábios.

"Se o senhor insiste, Sr. Almeida", ela murmurou, seus olhos se voltando para os meus por uma fração de segundo. Um brilho de triunfo. "Obrigada a ambos."

"Ah, é só a Gilda sendo humilde", disse Beto, dando um tapinha no ombro dela. "Ela é tão dedicada. Sabe, ela também é uma cozinheira incrível. Você vai amar a comida dela. Ela fez meu famoso risoto de cogumelos hoje à noite! Eu contei tudo sobre suas preferências, então não se preocupe."

Meu peito se apertou, uma sensação estranha de estar presente e invisível ao mesmo tempo.

"Que bom", consegui dizer, minha voz um pouco rouca. "Estou faminta."

Um momento depois, enquanto eu ia para o meu quarto para me refrescar, Gilda chamou:

"O jantar estará pronto em dez minutos, Sra. Moraes."

Eu assenti, grata pelo aviso. Maria sempre fazia isso. Era uma cortesia profissional. Abri a porta do meu quarto, sem me dar ao trabalho de bater na minha própria porta. Eu tinha alguns minutos para mim antes do jantar. Só queria trocar de roupa e jogar uma água no rosto.

A porta se abriu com um rangido, revelando meu santuário interior. Meu espaço privado. Era onde eu trabalhava, onde eu relaxava. Eu estava no meio de desabotoar minha camisa, de costas para a porta, quando ouvi uma tosse suave.

Eu congelei. Meu coração pulou para a garganta. Virei-me, agarrando a camisa contra o peito.

Gilda estava parada na porta, a cabeça levemente inclinada, um sorriso fraco, quase imperceptível, brincando em seus lábios. Ela não estava batendo. Ela nem estava esperando por uma resposta. Ela estava apenas... parada ali.

"Ah", disse ela, seus olhos percorrendo meu corpo, demorando-se por um momento a mais. "Eu só vim dizer que o jantar está na mesa."

Meu rosto queimou. Não. Não era assim que as coisas funcionavam. Maria nunca...

"Gilda", eu disse, minha voz perigosamente baixa. "Você não bate antes de entrar no quarto de alguém?"

Seus olhos se arregalaram, fingindo inocência.

"Ah, o Sr. Almeida bate? Ele simplesmente entra."

Minha respiração falhou. Beto? Entrando no meu quarto sem bater? Isso não acontecia há anos, se é que já aconteceu. Nosso relacionamento era construído com base no respeito mútuo, em limites.

"Saia", eu disse, minha voz tremendo. "Agora. E bata da próxima vez."

A cabeça do Beto apareceu atrás de Gilda, uma carranca confusa em seu rosto.

"Alina? O que há de errado?"

"Nada", eu disse entredentes, meus olhos fixos nos de Gilda. "Apenas um mal-entendido sobre espaço pessoal."

Beto, abençoado seja seu coração que evita conflitos, pareceu perceber a tensão.

"Gilda, por que você não vai garantir que o jantar continue quente?", ele sugeriu gentilmente, um empurrão sutil.

Gilda me deu um último olhar demorado antes de se virar.

"Claro, Sr. Almeida."

Ela desapareceu, me deixando sozinha com as consequências.

Bati a porta, encostando-me nela, meu peito arfando. O ar no meu próprio quarto parecia contaminado. Fechei os olhos, respirando fundo e tremendo. Isso não foi um mal-entendido. Foi uma violação. E era apenas o começo.

Capítulo 2

Respirei fundo outra vez, tentando acalmar a batida frenética do meu coração. Tinha sido um dia longo, e agora isso. Vesti rapidamente uma blusa e calças novas, jogando água fria no rosto. A imagem do sorriso de Gilda, o jeito como seus olhos se demoraram, queimava em minha mente. Foi uma invasão sutil, mas potente. Eu disse a mim mesma que era apenas uma nova funcionária aprendendo as regras, embora uma bem atrevida. Eu disse a mim mesma que estava exagerando. Mas a sensação de desconforto persistiu, um nó frio no meu estômago.

Quando finalmente entrei na sala de jantar, a cena diante de mim parecia alienígena. Beto já estava sentado na cabeceira da longa mesa de carvalho, sua perna apoiada em uma almofada. Gilda sentava-se diretamente à sua frente, no outro extremo da mesa, engajada em uma conversa baixa e íntima. Seu prato, cheio de comida, já estava pela metade. Meu lugar de sempre, à direita de Beto, estava vazio. Sem prato, sem talheres. Nada.

Meu corpo inteiro enrijeceu. Maria nunca teria se sentado conosco, muito menos começado a comer antes de eu chegar. E ela certamente teria posto meu lugar.

"Alina, querida, finalmente!", Beto exclamou, alheio à tempestade que se formava dentro de mim. "A Gilda fez risoto de cogumelos, seu favorito! E uma salada linda."

Meus olhos percorreram a mesa elegante, depois se fixaram em Gilda.

"Gilda", eu disse, minha voz calma, quase perigosamente calma. "Há alguma razão para o meu lugar não ter sido posto?"

Gilda ergueu os olhos, um garfo a meio caminho da boca. Seus olhos, geralmente tão compostos, continham um brilho de surpresa.

"Ah, me desculpe, Sra. Moraes. Eu presumi que a senhora se sentaria em qualquer lugar. O Sr. Almeida disse que não havia problema em eu me juntar a ele, já que ele está machucado."

"Não há problema em se juntar a ele, sim", esclareci, meu olhar inabalável. "Mas não em começar a comer antes que a família esteja reunida. E certamente não na mesa principal."

Gesticulei vagamente para a pequena e discreta copa na cozinha, onde Maria comia suas refeições.

"Nosso acordo, assim como com a Maria, é que os funcionários da casa jantem separadamente assim que suas tarefas terminarem."

Beto pigarreou, mexendo-se desconfortavelmente na cadeira.

"Alina, querida, a Gilda tem sido tão gentil, me ajudando com tudo. Eu disse a ela que podia comer comigo, só para ter companhia. Sabe, minha perna e tudo mais."

"Companhia durante a refeição é uma coisa", eu disse, meus olhos ainda em Gilda, que agora havia largado o garfo, seu rosto uma máscara de leve indignação. "Mas limites profissionais são outra. A Maria entendia isso. O jantar é um assunto de família. Assim como pôr a mesa para todos."

O queixo de Gilda se ergueu.

"Eu entendo, Sra. Moraes. Eu estava apenas seguindo as instruções do Sr. Almeida."

"E eu estou lhe dando as minhas agora", rebati, minha voz firme. "Por favor, mude-se para a copa. E da próxima vez, certifique-se de que todos os lugares estejam postos antes do início da refeição."

O rosto de Beto se nublou.

"Alina, qual é. É só um jantar. Não precisa de tanto alarde."

Eu não desviei o olhar de Gilda.

"Eu não estou fazendo alarde, Beto. Estou estabelecendo uma regra da casa."

Gilda, com os lábios pressionados em uma linha fina, lentamente empurrou sua cadeira para trás. O arrastar da madeira no azulejo ecoou na sala subitamente silenciosa. Ela pegou seu prato.

"Muito bem, Sra. Moraes. Peço desculpas pelo inconveniente."

Sua voz estava carregada de um ressentimento mal disfarçado.

"Espere um minuto, Gilda", eu disse, parando-a. Um novo pensamento acabara de me ocorrer, uma onda fria varrendo a raiva anterior. "Beto mencionou que você fez risoto de cogumelos. E salada."

"Sim", ela respondeu, ainda de costas para mim, um toque de desafio em sua postura.

"Você se lembrou da minha alergia a nozes?", perguntei, minha voz neutra. Não era apenas uma alergia; era grave, fatal. Amêndoas, nozes, pecãs – um único traço poderia me levar a um choque anafilático. Maria sabia. Todos que cozinhavam para mim sabiam. Estava meticulosamente documentado, listado em um cartão plastificado colado na geladeira.

Gilda se virou, sua expressão se transformando de indignação para uma carranca cuidadosa.

"Ah. O Sr. Almeida disse que a senhora é uma grande fã de pinoli no risoto. E nozes na salada para dar textura."

Minha respiração ficou presa na garganta. Pinoli. Nozes. Ambos na minha lista proibida. Meu estômago revirou.

"Ele disse isso?", perguntei, virando-me para Beto, cujo rosto havia ficado pálido.

Ele gaguejou: "Bem, eu... eu posso ter esquecido de mencionar as nozes específicas, querida. Eu só disse que você adorava nozes em geral, as saudáveis, sabe?"

Seus olhos disparavam nervosamente entre mim e Gilda.

Caminhei até a mesa, meus passos medidos. O risoto de cogumelos, geralmente um prato reconfortante, agora parecia um assassino em potencial. Vi os minúsculos e dourados pinolis salpicados generosamente sobre o arroz cremoso. A salada, vibrante com folhas verdes, tinha nozes trituradas entre as folhas mistas.

Minhas mãos tremiam levemente enquanto eu pegava uma colher de servir, colocava uma pequena porção do risoto em um prato de sobremesa e caminhava até a lixeira da cozinha. Sem uma palavra, raspei tudo para dentro. Um barulho suave.

Beto ofegou.

"Alina! O que você está fazendo?"

Virei-me para eles, meu rosto desprovido de emoção.

"Isso não está próprio para consumo."

Voltei para a mesa, peguei a tigela inteira de risoto e calmamente despejei seu conteúdo na lixeira. Depois, a tigela de salada.

"Nada disso é seguro. Nada disso é consumível."

O silêncio na sala de jantar era ensurdecedor. Beto encarava as tigelas vazias, sua mandíbula frouxa. Gilda parecia um cervo pego nos faróis, sua compostura cuidadosamente construída finalmente se quebrando. Suas bochechas estavam coradas, seus olhos arregalados.

"Alina, isso foi desnecessário!", Beto finalmente conseguiu dizer, sua voz tensa de raiva. "A Gilda se esforçou muito naquela refeição!"

Eu não respondi. Apenas voltei ao meu lugar vazio, puxei a cadeira e me sentei. Meu apetite havia sumido, substituído por uma determinação fria e dura.

Beto bateu com o punho na mesa, estremecendo imediatamente com a dor em seu gesso.

"Qual é o seu problema?", ele exigiu, sua voz se elevando.

Encontrei seu olhar, meus próprios olhos frios e inabaláveis.

"O problema é que meu noivo, que afirma me conhecer melhor do que ninguém, 'esqueceu' de uma alergia fatal. O problema é que sua cuidadora temporária, depois de ser informada das minhas 'preferências', conseguiu incluir dois dos meus alérgenos mais mortais. O problema é que estou sentada à minha própria mesa de jantar, não convidada e indesejada, na minha própria casa. É isso que está errado, Beto."

Ele recuou como se tivesse sido atingido. Gilda, enquanto isso, havia sutilmente saído da sala.

Empurrei minha cadeira para trás, o som estridente rasgando o silêncio tenso.

"Perdi o apetite", afirmei secamente. "E a paciência."

Virei-me, saí de casa e entrei no meu carro. O motor rugiu para a vida, um som reconfortante de fuga. Dirigi até o pequeno apartamento que eu mantinha perto do escritório principal da empresa – um investimento prático, um refúgio tranquilo para noites tardias. Era esparso, funcional, um contraste gritante com a casa grandiosa que eu acabara de deixar. Pelos próximos dias, foi meu santuário.

As mensagens de Beto começaram quase imediatamente. Uma enxurrada de desculpas, súplicas, confusão.

*Alina, o que foi aquilo?*

*Querida, por favor, volte para casa. Sinto sua falta.*

*Foi um mal-entendido, eu juro. A Gilda se sente péssima.*

*A casa parece vazia sem você.*

Normalmente, ele teria aparecido na minha porta, com muletas ou não. Ele teria usado seu charme para entrar, me convencido com suas desculpas sinceras e olhos de cachorrinho pidão. Mas com a perna ainda quebrada, ele estava confinado. Tudo o que ele podia fazer era mandar mensagens.

Eu respondia com respostas curtas de uma palavra, ou nada. Meu foco estava no trabalho. O projeto de Brasília ainda era exigente, mesmo à distância. A distância, o silêncio, me permitiram pensar. Ver as rachaduras que haviam sido encobertas.

Dias se transformaram em uma semana. Então, uma mensagem mais longa de Beto apareceu na minha tela. Esta era diferente. Não era apenas um pedido de desculpas. Era pensada, estratégica.

*Alina, eu sei que errei. Errei feio. Eu disse à Gilda as regras, deixei tudo bem claro. Ela entendeu. Ela não vai comer na mesa, vai bater na porta, e decorou a lista de alergias. Eu até comprei panelas e frigideiras novas, só para garantir. Sinto falta da nossa vida. Sei que você está ocupada, mas podemos falar sobre nosso futuro? Os planos do casamento, a próxima fase da empresa? Estive olhando algumas novas oportunidades de investimento, coisas que podemos construir juntos. Eu só preciso de você aqui, ao meu lado. Podemos conversar hoje à noite. Por favor.*

Ele enviou fotos dos novos utensílios de cozinha, brilhantes e sem uso. Fotos dos nossos catálogos de casamento, abertos na mesa de centro. Fotos de Apolo, enrolado na nossa cama, parecendo desolado.

Sua mensagem parecia genuína. Ou, pelo menos, persuasiva o suficiente. O pensamento da nossa vida, nossas ambições compartilhadas, o império que estávamos construindo juntos... aquilo mexeu com algo dentro de mim. Talvez, apenas talvez, ele tivesse entendido. Talvez isso fosse um deslize, um tiro de alerta. Ele precisava de mim. E eu, contra meu bom senso, ainda queria acreditar nele.

Enviei uma única resposta: *Estarei em casa hoje à noite.*

Capítulo 3

O ar da noite estava fresco e nítido enquanto eu dirigia de volta. Meu apartamento parecia pequeno e vazio sem o Apolo, e o silêncio começara a me irritar. Eu sentia falta do ritmo familiar de casa, mesmo com a discórdia recente. Ao entrar na garagem, o brilho suave das janelas da sala de estar me acenou, uma promessa silenciosa de normalidade.

Ao entrar, o aroma de um ensopado delicado, livre de quaisquer ingredientes suspeitos, encheu o ar. Gilda estava na varanda dos fundos, regando as orquídeas que Beto amava. Ela ergueu os olhos quando entrei, seus olhos encontrando os meus por um momento breve, quase imperceptível. Nenhum cumprimento, nenhum sorriso. Apenas um reconhecimento frio e neutro. Não ofereci nenhum em troca, indo direto para o escritório do Beto.

Ele estava sentado em sua grande mesa de mogno, cercado por rascunhos arquitetônicos e projeções financeiras para nossa próxima grande expansão da empresa. Ele ergueu os olhos, seu rosto se abrindo em um sorriso largo e esperançoso no momento em que me viu.

"Alina! Você veio!"

Ele se levantou, suas muletas fazendo um leve barulho.

"Claro", eu disse, um leve sorriso tocando meus lábios. "Você disse que queria falar sobre o futuro."

"E eu quero!" Ele gesticulou para as pilhas de papéis. "Vem, olha isso. Novos clientes, novas cidades. Poderíamos estar expandindo para a Europa, Alina. Imagina isso. Almeida-Moraes Design, dominando o globo."

Ele sorriu, seu entusiasmo contagiante, me puxando de volta para o nosso sonho compartilhado.

Sentei-me ao lado dele, folheando as propostas impressionantes. Enquanto lia, uma parte de mim amoleceu. Este era o Beto por quem me apaixonei – o visionário, o sonhador. Éramos uma equipe formidável.

"Sobre a Gilda", ele começou, sua voz baixando, quase conspiratória. "Sabe, ela tem uma história de vida bem difícil. Mãe solteira, escapou de uma situação complicada."

Ele me olhou com aqueles olhos sinceros e vulneráveis que sempre me desarmavam.

"Ela é só um pouco... sem modos, não está acostumada com... o nosso tipo de vida."

Meu olhar se aguçou.

"Você está tentando arranjar desculpas para ela, Beto?"

Ele imediatamente recuou, sua mão alcançando a minha.

"Não, não, meu bem, de jeito nenhum! Eu juro. Eu dei uma bronca nela. Sério. Ela chorou, Alina. Disse que não queria ofender. Eu disse a ela que você é a chefe, minha sócia e minha noiva. Ela sabe o lugar dela agora. E eu mostrei a ela a lista de alergias. Fiz ela repetir para mim. Sem nozes, nunca. Prometo."

Ele apertou minha mão, seu polegar acariciando meus nós dos dedos.

"Eu prometo, Alina. Tudo vai ser diferente agora."

Seu toque, suas palavras, a ansiedade genuína em seus olhos minaram minha resolução. Ele parecia tão vulnerável, tão arrependido. Ele estava tentando. E eu estava grávida. Eu precisava de estabilidade. Eu precisava dele.

"Tudo bem", eu disse, minha voz mais suave do que eu pretendia. "Só... certifique-se de que seja."

Uma batida suave e educada soou na porta do escritório.

"O jantar está servido", a voz de Gilda chamou, perfeitamente modulada, perfeitamente respeitosa.

Beto piscou para mim.

"Viu? Progresso."

Quando entramos na sala de jantar, a mesa estava impecavelmente posta. Meu prato estava em seu devido lugar. Gilda estava parada perto da entrada da cozinha, não à mesa, com as mãos entrelaçadas na frente. Ela esperou até que Beto e eu estivéssemos sentados antes de dizer:

"Hoje temos ensopado de cordeiro cozido lentamente com legumes, e vagem no vapor de acompanhamento. Sem nozes de qualquer tipo, Sra. Moraes. Eu verifiquei tudo duas vezes."

Seu olhar era direto, quase desafiador, mas seu tom era deferente.

Eu assenti, um reconhecimento silencioso. Beto sorriu, satisfeito.

"Viu, Alina? Eu te disse."

A refeição foi silenciosa. Não totalmente confortável, uma tensão persistente no ar, mas pacífica o suficiente. Gilda nos serviu, depois se retirou para a copa. Eu podia ouvir o leve tilintar de seus talheres de lá. Era progresso, eu supunha. Uma trégua frágil.

Depois do jantar, Beto se acomodou na sala de estar para assistir a um documentário, com a perna apoiada. Decidi me retirar para o meu escritório para verificar mais alguns e-mails. As novas propostas ainda estavam na minha mesa, esperando revisão. Senti uma sensação de calma retornando, uma esperança silenciosa de que as coisas poderiam realmente ficar bem.

Abri meu laptop, mas o calor da casa, a refeição satisfatória e o cansaço persistente de Brasília começaram a pesar sobre mim. Minhas pálpebras ficaram pesadas. Recostei-me na minha cadeira ergonômica, fechando os olhos, apenas por um momento.

Um baque suave, um som metálico, me despertou. Veio da minha mesa de cabeceira. Meus olhos se abriram de repente. Eu estava definitivamente no meu escritório, não no meu quarto. O som tinha sido distinto, fora de lugar. Meu coração martelava contra minhas costelas.

Sentei-me lentamente, meu olhar fixo no canto da sala onde meus documentos pessoais, meu laptop e uma pilha de plantas confidenciais de clientes estavam. Minha respiração ficou presa.

Uma pequena figura, não mais alta que a minha cintura, estava agachada perto da minha mesa, de costas para mim. Ele estava remexendo no meu portfólio, suas pequenas mãos folheando as delicadas e confidenciais plantas. Uma das minhas canetas-tinteiro caras estava no chão, sem tampa, uma mancha escura de tinta se espalhando por um esboço de design impecável.

"Ei!", gritei, minha voz afiada, a adrenalina inundando meu sistema. "O que você pensa que está fazendo?"

A criança se assustou, deixando cair um maço de papéis. Ele se virou, o rosto manchado de tinta, um biscoito meio comido na mão. Seus olhos, arregalados e desafiadores, eram os olhos de Gilda.

Ele não podia ter mais de nove ou dez anos. Usava uma camiseta colorida e shorts, completamente fora de lugar no meu escritório formal.

"Quem é você?", exigi, levantando-me da cadeira, minha voz aumentando de volume. "E o que você está fazendo com as minhas coisas?"

Ele não respondeu, apenas me encarou por um segundo, depois enfiou o resto do biscoito na boca.

"Gilda! Beto!", gritei, minha voz rouca com uma mistura de incredulidade e fúria. Isso era demais. Isso era completamente inaceitável.

A criança, em vez de ficar com medo, se jogou no chão e começou a chorar, um grito teatral e ensurdecedor. Ele chutava as pernas, batia os punhos no tapete, fazendo uma birra completa.

Eu o encarei, horrorizada. Eu já tinha lidado com clientes difíceis, sócios exigentes, mas nunca com uma criança de nove anos fazendo birra no meu escritório particular, cercada pelo meu trabalho arruinado.

Nesse momento, Gilda entrou correndo, o rosto uma máscara de preocupação.

"Léo! O que foi, meu filho?"

Ela o pegou nos braços, pressionando o rosto dele contra o peito, me fuzilando com o olhar por cima da cabeça dele. Seus olhos eram duros, acusadores.

"O que você fez com o meu filho?"

Meu queixo caiu.

"Seu filho?", gaguejei, apontando um dedo trêmulo para as plantas arruinadas. "Ele estava no meu escritório! Mexendo nas minhas coisas! Olha essa bagunça!"

Gilda abraçou a criança chorando com mais força.

"Ele é só um menino, Sra. Moraes. Ele não fez por mal."

Ela me olhou com um olhar feroz e protetor.

"Por que você está gritando com ele?"

"Por que ele está aqui?!", exigi, ignorando completamente a pergunta dela. "Me disseram que não haveria crianças! Este é um ambiente profissional e uma casa particular! Quem te deu permissão para trazer seu filho aqui?"

Ela suavizou a voz, seus olhos percorrendo a sala, depois voltando para mim.

"O Sr. Almeida disse que não tinha problema. Minha babá cancelou, e eu não tinha onde deixá-lo. Ele só queria ver a mamãe."

"Beto!", rugi, minha paciência esgotada. Saí do escritório, com Gilda pairando defensivamente sobre seu filho ainda soluçando. Encontrei Beto absorto em seu documentário, de fones de ouvido, felizmente inconsciente do caos.

Arranquei os fones de seus ouvidos.

"Beto Almeida, o que você fez?!"

Ele olhou para mim, perplexo.

"Alina? Que diabos?"

"Levanta!", sibilei, agarrando seu braço e puxando-o. Suas muletas caíram com um barulho enquanto ele lutava para me acompanhar. "Levanta e veja o que sua 'generosidade' causou!"

Eu o arrastei, mancando, de volta ao meu escritório. Gilda ainda estava embalando Léo, que agora apenas choramingava, nos espiando por trás do braço de sua mãe, um brilho travesso em seus olhos.

"Você deu ou não deu permissão para a Gilda trazer o filho dela para nossa casa?", exigi, minha voz tremendo de raiva mal contida.

O rosto de Beto passou de confusão para uma defensiva envergonhada.

"Bem, sim, eu dei. Ela disse que estava em apuros, Alina. E ele parecia um garoto doce. Eu não achei que ele daria... tanto trabalho."

"Garoto doce?"

Eu o empurrei em direção à minha mesa, fazendo-o olhar para a carnificina.

A tela do meu laptop estava rachada, uma teia de aranha de pixels quebrados. Plantas de clientes, delicadas e insubstituíveis, estavam rasgadas, manchadas de tinta e migalhas de biscoito, rabiscadas com giz de cera. Minhas canetas caras estavam espalhadas, algumas quebradas. Minha coleção de papelaria rara e vintage, arruinada. Meu portfólio de couro feito sob medida, marcado com arranhões profundos.

Um cheiro fraco, doce e enjoativo pairava no ar. Olhei para minha penteadeira, sua superfície impecável agora uma bagunça caótica. Meu perfume favorito, aquele que Beto me deu no nosso aniversário, jazia estilhaçado no chão, seu líquido precioso encharcando o tapete, misturando-se com sombra e base derramadas. Cacos de vidro brilhavam sob a luz suave da lâmpada.

Beto olhou, seu rosto empalidecendo, a cor sumindo dele. Seus olhos se arregalaram, sua boca se abrindo e fechando inutilmente. Ele olhou do perfume quebrado para as plantas arruinadas, depois para Gilda, que agora o encarava com olhos arregalados e inocentes, seu filho escondido atrás dela.

"O que... o que aconteceu?", Beto sussurrou, sua voz quase inaudível. Ele olhou para mim, um brilho de medo em seus olhos.

Eu não respondi. Apenas apontei para a devastação, depois para Gilda e seu filho.

"Este", eu disse, minha voz fria e dura, despojada de toda emoção, "é o seu 'garoto doce'. E você, Beto, vai explicar exatamente como vai consertar isso. Cada pedacinho."

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