Dedicara a minha vida a ele, ao Tiago, e ao império vinícola que juntos construímos.
Sacrifiquei as minhas próprias ambições pelo nosso sonho.
Mas a vida tinha outros planos: um diagnóstico de leucemia mieloide aguda, em estado avançado.
E, enquanto eu enfrentava a morte, o Tiago estava ocupado a construir uma 'nova história' com a Carolina, a gestora de marketing.
Ele tornou-se frio, distante.
As provocações dela eram diárias, as mensagens de intimidade deles invadiam o meu telefone.
Quando o confrontei com o nosso caso, ele protegeu-a abertamente, chamando-me 'dramática', acusando-me de inventar.
A dor do corpo era nada comparada à dor da sua traição e desprezo.
Caí de joelhos, perguntando: "E se eu estivesse a morrer, Tiago?".
A resposta? Um desprezo gelado, "Isabela, estás a ser dramática para chamar a atenção.".
Foi então que decidi: morreria sozinha.
Vendi as joias, comprei o meu jazigo com vista para o rio e apaguei cada vestígio da minha vida contigo.
A última entrada no meu diário foi a minha condenação mais íntima: "Se eu nunca te tivesse conhecido, Tiago, talvez não doesse tanto morrer.".
Mas a minha partida não seria o fim, seria apenas o começo do teu inferno particular.
O médico à minha frente, Dr. Almeida, suspirou, os ombros descaídos.
"Isabela, os resultados não são bons."
A sua voz era baixa, quase um sussurro, mas cada palavra ecoava na sala de consulta fria e impessoal.
"Leucemia mieloide aguda. E, lamento dizer, está num estado avançado."
Senti o ar a faltar-me nos pulmões, o chão a fugir-me debaixo dos pés.
Avançado. Uma sentença de morte.
Assenti lentamente, incapaz de formar palavras.
Lágrimas silenciosas começaram a escorrer-me pelo rosto, mas limpei-as rapidamente.
Não agora. Tinha de ser forte.
"Quanto tempo?" consegui finalmente perguntar, a voz rouca.
"É difícil dizer com exatidão," respondeu ele, evasivo. "Alguns meses, talvez menos sem tratamento agressivo. Com tratamento, podemos tentar ganhar algum tempo, mas a qualidade de vida..."
Abanei a cabeça. Não queria tratamentos agressivos que me deixassem ainda mais debilitada.
Queria... queria o quê?
Lembrei-me de Coimbra, da universidade, dos corredores de pedra fria onde conheci o Tiago.
Ele era um estudante de enologia, sonhador, com as mãos sempre sujas de terra e o cheiro a uvas entranhado na pele.
Eu, uma aspirante a tradutora, fascinada pela sua paixão.
A imagem dele a sorrir, os olhos brilhantes enquanto me falava da sua pequena vinha no Douro, invadiu-me a mente.
"Vamos erguer isto juntos, Bela," dizia ele, a voz cheia de esperança.
E erguemos.
Trabalhei em traduções de manuais técnicos vinícolas, ajudei-o com a burocracia, sacrifiquei as minhas próprias ambições para que a "Quinta do Tiago" se tornasse a marca de renome que era hoje.
O nosso amor era como um vinho jovem, vibrante e cheio de promessa.
Agora, tudo o que restava era um sabor amargo na boca.
O sucesso subiu-lhe à cabeça.
As viagens de negócios tornaram-se mais frequentes, as ausências mais longas.
E depois apareceu a Carolina.
A gestora de marketing. Ambiciosa, calculista, com um sorriso que nunca chegava aos olhos.
Começaram os jantares de trabalho tardios, as mensagens trocadas às escondidas.
O Tiago que eu amava desapareceu, substituído por um estranho frio e distante.
O ressentimento dele por eu não conseguir engravidar, um fantasma que nos assombrava há anos, tornou-se uma arma nas suas mãos, nas mãos dela.
"Talvez o problema não seja meu, Isabela," dissera ele uma vez, a voz gélida, depois de mais uma tentativa falhada de fertilização.
As palavras dele ainda me queimavam.
Ajeitei a mala no ombro, o peso dos papéis do médico a esmagar-me.
Saí do consultório, a decisão já tomada.
Não lhe contaria. Não ainda.
Para quê? Para ver a falsa compaixão nos seus olhos? Para ouvir mais acusações veladas?
Não.
Este fardo, carregá-lo-ia sozinha.
Cheguei a casa, o nosso apartamento em Coimbra, outrora um ninho de amor, agora um mausoléu de memórias.
O silêncio era ensurdecedor.
Tiago estava, como sempre ultimamente, no Douro. Com ela, provavelmente.
Fui até à estante, procurando um livro qualquer para me distrair.
Os meus dedos roçaram um objeto esquecido, escondido atrás de uma fila de romances.
Um velho gira-discos que o Tiago me tinha oferecido nos nossos primeiros tempos.
Estava partido. Uma das agulhas tinha-se perdido há anos.
Como nós.
Ao lado, um pequeno caderno de notas, de capa dura, azul-escura.
O meu caderno de traduções.
Mas não continha apenas termos técnicos e listas de vocabulário.
Nas margens, nas páginas em branco, eu desabafava.
Pequenos poemas, pensamentos soltos, a crónica da nossa ascensão e da nossa queda.
Abri-o ao acaso.
"Hoje o Tiago vendeu a primeira grande encomenda. Celebramos com um vinho barato e sonhos caros. Sinto que podemos conquistar o mundo."
A caligrafia era a minha, mas parecia de outra pessoa, de outra vida.
Folheei mais algumas páginas.
"Ele está diferente. Distante. A Carolina ligou outra vez. Diz que é trabalho."
A última entrada era de há poucas semanas.
"A dor no peito voltou. Ele nem reparou."
Um conflito rasgou-me por dentro.
Devia mostrar-lhe? Devia esfregar-lhe na cara a dimensão da sua traição, da sua negligência?
Ou devia simplesmente desaparecer, levando comigo o segredo da minha doença e a dor do nosso amor desfeito?
Um humor cínico apoderou-se de mim.
Ele nem sequer notaria a minha ausência, quanto mais a falta deste caderno.
A chave a rodar na fechadura sobressaltou-me.
Tiago.
Entrou de rompante, a cara fechada, o telemóvel encostado à orelha.
"Sim, Carolina, já estou a tratar disso. Relaxa."
Desligou a chamada e olhou para mim, os olhos frios a varrerem o caderno nas minhas mãos.
"O que é isso?" perguntou, a voz ríspida. "Andas a remexer em coisas velhas? Não tens mais nada que fazer?"
O choque da sua hostilidade imediata atingiu-me como um soco.
"São só... memórias," murmurei, a voz a falhar.
Ele riu, um som seco, desprovido de alegria.
"Memórias? Devias era pensar no futuro. Num futuro em que não me chateias com os teus dramas."
A dor no meu peito intensificou-se, uma pontada aguda que me fez engolir em seco.
Ele não via. Não queria ver.
A desilusão era um nó apertado na minha garganta.
Lembrei-me de uma noite, há muitos anos, quando tive uma gripe forte.
Ele cuidou de mim com uma ternura infinita.
Fez-me canja, mediu-me a febre de hora a hora, não saiu do meu lado até eu adormecer.
Onde estava esse Tiago?
A frieza dele agora era uma lâmina a cortar-me a alma.
Ele aproximou-se, o cheiro do perfume caro dela a precedê-lo.
"Olha, Isabela," começou, num tom falsamente conciliador, "eu sei que as coisas não têm estado fáceis. A pressão do negócio, a Carolina a precisar de mim para fechar aquele contrato internacional..."
Interrompi-o, a voz mais firme do que esperava.
"Não fales dela. Não aqui."
Ele revirou os olhos.
"Sempre o mesmo drama. A Carolina é essencial para a empresa. E, francamente, tem sido um apoio que tu não me dás há muito tempo."
Traição. A palavra ecoava na minha cabeça.
Anseava pelo passado, por um tempo em que éramos nós contra o mundo.
Agora, era ele e ela contra mim.
Ele pegou no telemóvel outra vez, um sorriso a desenhar-se-lhe nos lábios enquanto lia uma mensagem.
Provavelmente dela.
Exibicionismo ostensivo. Queria magoar-me.
"Tiago," disse eu, a voz embargada, "acho que devíamos separar-nos."
A palavra "divórcio" pairou no ar, pesada, definitiva.
Ele olhou para mim, o sorriso a desaparecer, substituído por uma expressão de desprezo.
"Separar? Não sejas ridícula, Isabela. Estás a ser melodramática. Temos um império para gerir. Não tenho tempo para estas tuas crises."
Agarrou num casaco que estava pousado no sofá.
"Tenho de ir. A Carolina está à minha espera para um jantar importante."
Bateu a porta atrás de si, deixando-me sozinha com o eco das suas palavras cruéis e a certeza do meu fim.
O meu fim. E o fim de nós.
A dor física voltou com força, uma garra a apertar-me o peito e as costas.
Curvei-me, a respiração ofegante.
Tentei ligar-lhe. Caixa de correio.
Claro. Estava com ela.
Fui até ao calendário na cozinha. Marquei o dia de hoje com um X vermelho.
A finalidade da minha situação abateu-se sobre mim com um peso esmagador.
Não havia mais nada a fazer.
Era o início do fim.
No dia seguinte, comecei a desfazer-me das minhas coisas.
As joias de família, herança da minha avó.
Peças antigas, de ouro trabalhado, com pequenas pedras preciosas.
Liguei a um avaliador recomendado por uma amiga.
Enquanto ele examinava os colares e anéis, imaginei a Carolina a usá-los.
Um sorriso irónico aflorou-me aos lábios.
Ela ficaria bem com eles, pensei com um desapego surpreendente.
Ela ficava com o meu marido, com a minha vida, porque não com as minhas joias?
O dinheiro da venda, embora significativo, pareceu-me pouco para o valor sentimental que aquelas peças tinham.
Mas eu já não precisava delas.
Liguei à Beatriz.
A minha melhor amiga, a minha rocha. Ceramista em Caldas da Rainha, com mãos de artista e um coração de ouro.
"Bea, preciso da tua ajuda para uma coisa... mórbida," disse eu, tentando manter a voz leve.
"Isabela? O que se passa? Estás bem?" A preocupação na voz dela era palpável.
"Estou ótima," menti. "Só preciso de comprar um... jazigo."
Silêncio do outro lado da linha.
"Um quê?"
"Um jazigo. No Cemitério da Conchada. Quero um com vista para o rio."
Era a minha única defesa.
"Isabela, estás a assustar-me. O que raio se passa?"
Respirei fundo.
"Tenho leucemia, Bea. Terminal."
O choque na voz dela foi como um murro no meu próprio estômago. Ouvi-a prender a respiração.
"Não... não pode ser. Tu... tu és tão nova."
"Aparentemente, o cancro não escolhe idades," respondi, com uma calma que não sentia. "Podes vir a Coimbra ajudar-me com os preparativos?"
"Claro, claro que vou. Apanho o primeiro comboio."
Beatriz chegou no dia seguinte, os olhos vermelhos e inchados de chorar.
Abraçou-me com força, como se quisesse transferir para mim a sua própria vitalidade.
Fomos ao Cemitério da Conchada.
Escolhi um pequeno jazigo, simples, numa zona tranquila, com a prometida vista para o Mondego.
Paguei com o dinheiro das joias.
Lembrei-me dos sacrifícios financeiros que fizera pela quinta do Tiago.
Vendi um pequeno apartamento que os meus pais me tinham deixado para investir no sonho dele.
Agora, gastava os últimos vestígios do meu património na minha própria sepultura.
"Não devias estar a fazer isto sozinha," disse Beatriz, a voz embargada.
"Mas não estou sozinha. Estou contigo," respondi, apertando-lhe a mão.
O calor da sua preocupação genuína foi um bálsamo fugaz na minha dor.
À noite, a dor atacou com uma violência brutal.
Uma pontada lancinante no abdómen fez-me dobrar ao meio, a gritar.
Queria evitar o hospital a todo o custo, mas o meu corpo traía-me.
Senti as pernas fraquejarem, a visão a escurecer.
Desmaiei.
Quando acordei, estava na cama, a Beatriz a colocar-me uma compressa fria na testa.
"Liguei ao Tiago," disse ela, a voz carregada de raiva. "Ele tem de saber."
Tiago chegou horas depois, a irritação estampada no rosto.
"O que foi desta vez, Isabela? Mais um dos teus dramas?"
Antes que eu pudesse responder, a campainha tocou.
Beatriz abriu a porta.
Carolina.
Entrou com um ar de falsa preocupação, os olhos a varrerem o quarto, a avaliarem a minha fraqueza.
"Oh, querida, soube que não te sentias bem," disse ela, a voz melosa. "O Tiago ficou tão preocupado."
Era tudo o que eu sentia por aquela mulher.
"O que é que tu estás aqui a fazer?" perguntei, a voz fraca mas firme.
"Vim dar apoio ao Tiago, claro. E a ti."
Afirmava a sua posição, a sua intimidade com ele.
"Tiago," comecei, ignorando a presença dela, "precisamos de falar."
Ele cruzou os braços, impaciente. "Sobre o quê? Sobre como estás sempre a arranjar maneira de me prender aqui?"
"Sobre ti e ela," disse eu, apontando para a Carolina.
A discussão aqueceu rapidamente.
"Não há nada entre mim e a Carolina, para além de trabalho!" gritou ele. "Estás a imaginar coisas! És paranoica!"
Senti-me tão pequena, tão insignificante.
Carolina passeava pelo quarto, observando os meus pertences com um ar de superioridade.
Pegou num dos meus perfumes, um frasco que o Tiago me oferecera há anos.
"Este cheiro já não se usa, querida," disse ela, com um sorriso condescendente. "O Tiago prefere fragrâncias mais... modernas. Como a minha. Ele até me disse que a minha almofada cheira divinamente."
A revelação do seu conhecimento íntimo do nosso espaço pessoal, da nossa cama, foi como um veneno a espalhar-se pelas minhas veias.
Num impulso, levantei a mão e dei-lhe uma bofetada.
O som ecoou no quarto.
Tiago reagiu instantaneamente.
Puxou-me para o lado com força, protegendo a Carolina.
"Estás louca, Isabela?" gritou ele, o rosto vermelho de fúria. "Atacar a Carolina? Ela não te fez nada!"
Ele estava cego. Completamente cego à maldade dela, à minha dor.
Era o fim.