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Tarde Demais Para Sua Proposta

Tarde Demais Para Sua Proposta

Autor:: Rickie Appiah
Gênero: Moderno
Meu namorado, o Caio, escolheu ir esquiar com sua "melhor amiga" manipuladora, a Bruna, depois que eu dei um ultimato. "Se você for, a gente termina", eu avisei. Ele apenas riu e me disse para não ir chorando atrás dele quando eu ficasse sozinha. Mas enquanto ele estava fora, o estresse do seu silêncio e das postagens provocadoras da Bruna no Instagram me levaram para o hospital com uma úlcera estomacal sangrando. Deitada em uma cama de pronto-socorro, ligada a um soro, eu o vi curtindo as postagens dela - fotos deles parecendo um casal feliz, com legendas zombando de mim. Ele não estava apenas ignorando minha dor; ele estava ativamente endossando-a. Naquele quarto estéril, algo dentro de mim não apenas se quebrou; congelou. Os anos implorando por seu afeto, lutando por sua atenção, simplesmente evaporaram. Então, quando ele voltou para casa esperando seu jantar favorito, eu tinha uma surpresa para ele. "A gente terminou", eu disse, apontando para as caixas de mudança que continham cada vestígio dele. Ele tirou uma pulseira da Vivara, alegando que ia me pedir em casamento. Mas era tarde demais. Eu já tinha chamado a transportadora.

Capítulo 1

Meu namorado, o Caio, escolheu ir esquiar com sua "melhor amiga" manipuladora, a Bruna, depois que eu dei um ultimato. "Se você for, a gente termina", eu avisei. Ele apenas riu e me disse para não ir chorando atrás dele quando eu ficasse sozinha.

Mas enquanto ele estava fora, o estresse do seu silêncio e das postagens provocadoras da Bruna no Instagram me levaram para o hospital com uma úlcera estomacal sangrando.

Deitada em uma cama de pronto-socorro, ligada a um soro, eu o vi curtindo as postagens dela - fotos deles parecendo um casal feliz, com legendas zombando de mim. Ele não estava apenas ignorando minha dor; ele estava ativamente endossando-a.

Naquele quarto estéril, algo dentro de mim não apenas se quebrou; congelou. Os anos implorando por seu afeto, lutando por sua atenção, simplesmente evaporaram.

Então, quando ele voltou para casa esperando seu jantar favorito, eu tinha uma surpresa para ele.

"A gente terminou", eu disse, apontando para as caixas de mudança que continham cada vestígio dele.

Ele tirou uma pulseira da Vivara, alegando que ia me pedir em casamento. Mas era tarde demais. Eu já tinha chamado a transportadora.

Capítulo 1

POV Ellie:

A mensagem brilhou na minha tela, uma piada cruel embrulhada em uma caixa azul-turquesa. Era a foto da pulseira que eu sempre quis, aquela que eu apontei em todas as vitrines da Rua Oscar Freire no último ano, apenas para ser recebida com um encolher de ombros indiferente do Caio.

"Tô indo praí pra jantar. Espero que esteja pronto", dizia a mensagem, como se fosse um decreto real.

Meu coração não se apertou, não como costumava. Apenas zumbiu, um som baixo e constante.

Era quase engraçado, o descaramento dele. Ele tinha adicionado casualmente: "Ah, e a Bruna vai com a gente."

Bruna. Sempre a Bruna. Ela era a sombra que se agarrava ao nosso relacionamento, um zumbido constante e irritante no fundo que finalmente se transformou em um rugido ensurdecedor.

Então veio a próxima mensagem, uma separada, porque o Caio sempre tinha que exercer aquele pingo extra de controle. "Faz meu prato favorito, você sabe qual é. Não me decepcione."

Antes que eu pudesse processar a audácia, a ligação que sem dúvida levou a essas mensagens foi desligada. Sem um adeus. Sem uma confirmação. Apenas um clique, cortando a conexão, me deixando no vácuo.

Mas eu não estava mais no vácuo. Eu estava de pé no meio da nossa sala de estar, o cheiro de papelão novo e fita adesiva substituindo o aroma persistente de seu perfume. Seus pertences, meticulosamente separados e dobrados, enchiam meia dúzia de caixas de mudança. Cada uma estava etiquetada com o nome dele em letras grandes e pretas. Isso não era um jogo. Isso era real.

Um sorriso pequeno e amargo tocou meus lábios. "Você esqueceu?", digitei, anexando uma foto das caixas empilhadas. "A gente terminou."

Eu apertei enviar. Nenhuma resposta. Apenas o silêncio irritante e autoconfiante que eu passei a desprezar.

Continuei a embalar os últimos itens do armário do banheiro, sua escova de dentes, seu creme de barbear raramente usado, em uma caixa menor. Cada movimento era deliberado, sem pressa. Não havia tremor em minhas mãos, nem agitação no meu peito. Apenas um foco silencioso e determinado.

O sol havia se posto, pintando as janelas em tons de roxo machucado e azul profundo. Eu não me dei ao trabalho de acender as luzes. O apartamento, antes cheio do calor de risadas compartilhadas e discussões acaloradas ocasionais, parecia vasto e vazio na penumbra crescente. Era um espaço que eu estava reconquistando, uma caixa de cada vez.

Então, o tilintar familiar de chaves na fechadura. Seguido por uma explosão de conversa animada, duas vozes, uma grave e ressonante, a outra aguda e tilintante, ecoando no corredor.

A risada da Bruna soou, um pouco alta demais, um pouco perto demais. "Ah, Caio, você é um terror! Para com isso!"

Ouvi o som distinto de um empurrão brincalhão, seguido pelo gemido divertido do Caio. Era a intimidade fácil de duas pessoas que conheciam a linguagem corporal uma da outra, que haviam compartilhado inúmeras piadas internas. Fiquei parada, misturando-me às sombras, uma testemunha de uma cena que eu já havia ensaiado mentalmente mil vezes.

"Vem, bonitão, vamos entrar", Bruna ronronou, sua voz pingando uma afeição exagerada que revirou meu estômago. "Sua pobre Ellie provavelmente passou o dia todo se matando na cozinha para sua majestade real."

Um cheiro fraco de perfume barato, a marca registrada da Bruna, entrou pela fresta da porta. Eu quase podia imaginá-la, encostada nele, sua mão provavelmente descansando em seu braço, seus olhos brilhando com falsa adoração.

Caio riu, um som que costumava fazer meu coração palpitar, agora apenas uma pontada surda de reconhecimento. "É bom que tenha feito. Tô morrendo de fome."

Sua voz estava carregada de uma arrogância casual, assumindo minha obediência, minha presença inabalável. Era o mesmo tom que ele usava quando esperava suas roupas passadas, seu café feito, cada capricho seu atendido.

Respirei fundo, o ar denso de antecipação. O momento havia chegado.

"Ellie?", a voz do Caio flutuou pelo apartamento, uma pergunta tingida de impaciência. "Amor, você tá aí? Por que tá tudo escuro?"

Houve um clique, e a sala de estar foi subitamente banhada pelo brilho forte e impiedoso da luz do teto. Caio estava parado na porta, uma leve carranca no rosto, Bruna um pouco perto demais atrás dele, o braço ainda entrelaçado no dele.

Seus olhos percorreram o cômodo, saltando das caixas empilhadas para os espaços vazios onde seus pertences costumavam estar. A carranca se aprofundou, a confusão nublando suas feições.

"Que porra é essa?", ele exigiu, sua voz afiada de descrença. Ele gesticulou descontroladamente para as caixas, como se tivessem se materializado do nada. "Por que você empacotou todas as minhas coisas?"

Antes que eu pudesse responder, seu olhar pousou em mim, parada silenciosamente perto do balcão da cozinha, meu rosto desprovido de emoção. Sua confusão rapidamente se transformou em raiva.

"E cadê o jantar?", ele latiu, entrando mais no cômodo, seus olhos em chamas. "Eu te avisei que vinha, e tô morrendo de fome! Que tipo de recepção é essa?"

Ele não esperou por uma resposta, seus olhos já varrendo a cozinha. Ele abriu a porta da geladeira com um puxão, olhando para dentro com uma indignação quase teatral. A geladeira estava vazia, exceto por meus poucos itens pessoais.

"Você tá falando sério?", ele rugiu, virando-se para mim. "Não tem nada aqui! Nem uma pizza congelada?"

Bruna, sempre a oportunista, deu um passo à frente, sua mão tocando gentilmente o braço do Caio. Sua expressão era uma aula de falsa preocupação, seus olhos arregalados com uma simpatia fabricada. "Ah, Caio, amor, calma. Talvez a Ellie só teve um dia longo. Ela provavelmente esqueceu." Ela se virou para mim, sua voz doce como veneno. "Ellie, querida, tá tudo bem? Você sabe o quanto o Caio estava ansioso por isso. Ele estava até planejando uma surpresa especial, não é, docinho?"

Ela apertou o braço dele, seus olhos lançando um desafio triunfante para mim. Caio se mexeu desconfortavelmente, sua raiva momentaneamente esvaziada pela intervenção súbita da Bruna.

Meu olhar oscilou entre eles, uma clareza fria se instalando sobre mim. A performance era patética, quase risível.

Dei um passo à frente, minha voz calma, uniforme. "Não tem jantar, Caio, porque a gente terminou." Apontei para as caixas. "E essas são suas coisas. Você precisa levar."

Minha voz era monótona, desprovida da emoção que ele provavelmente esperava, das lágrimas com as quais estava acostumado. Estendi a mão, meus dedos roçando a caixa de cima, um gesto simbólico de finalidade. Era isso. O fim de um capítulo muito longo e muito doloroso.

Capítulo 2

POV Ellie:

"A gente terminou", repeti, minha voz firme, as palavras ecoando no apartamento subitamente silencioso. Caio piscou, o queixo caído. O sorriso triunfante da Bruna vacilou, substituído por um lampejo de irritação. Eles não esperavam por isso. Eles esperavam lágrimas, discussões, um apelo desesperado por reconciliação. Eles esperavam a antiga Ellie.

"Você esqueceu o que eu te disse?", continuei, saindo das sombras, minha presença agora inegável. "Se você fosse naquela viagem de esqui com a Bruna neste fim de semana, a gente terminava. Essas foram minhas palavras exatas."

Os olhos do Caio dispararam pelo cômodo, evitando meu olhar, um sinal revelador de seu desconforto. Ele sabia. Ele sabia perfeitamente. Ele só nunca pensou que eu cumpriria.

"Não venha chorando pra mim quando estiver sozinha", imitei suas palavras exatas, aquelas que ele gritou para mim, o rosto contorcido de raiva, pouco antes de sair pela porta para sua "viagem de caras". Minha voz era leve, um contraste gritante com o veneno por trás da memória.

De repente, Caio soltou um rugido primitivo, seu punho batendo na pequena mesa lateral ao lado dele. O folheado barato se estilhaçou, e uma pequena luminária de cerâmica tombou, caindo no chão em uma chuva de cacos de porcelana.

Bruna gritou, um som agudo e penetrante que cortou a tensão. "Caio! Sua mão!" Ela correu para o lado dele, cuidando de seus nós dos dedos, que já estavam ficando vermelhos. "Meu Deus, olha o que você fez, Ellie! Ele tá machucado!"

Ela me fuzilou com o olhar, seus olhos estreitos e acusadores. "Sua vadia egoísta! Como você pôde fazer isso com ele? Depois de tudo que ele planejou? Ele ia te pedir em casamento, sua vaca ingrata!"

Minha respiração falhou. Um pedido de casamento? As palavras pairaram no ar, pesadas e absurdas.

Caio, ainda segurando a mão, olhou para Bruna, sua raiva momentaneamente subjugada por sua demonstração de preocupação. "Bruna, não, não-"

"Não, Caio, ela precisa saber!", Bruna o interrompeu, sua voz subindo em um crescendo teatral. "Ele comprou aquela pulseira da Vivara que você estava babando! Ele ia te pedir em casamento hoje à noite! E você simplesmente... você simplesmente empacotou as caixas dele e o expulsou? Como você pôde ser tão cruel?"

Ela apontou um dedo dramático para a luminária quebrada. "Olha! Ele está de coração partido! Ele te ama, Ellie! Ele ia te fazer sua esposa!"

Os olhos do Caio, agora inchados com o que parecia suspeitosamente com autopiedade, encontraram os meus. "Ela tá certa, Ellie", ele murmurou, a voz rouca. Ele enfiou a mão no bolso, tirando a pequena caixa de veludo da Vivara. Ele a abriu, revelando a delicada pulseira de prata aninhada lá dentro. "Isso era pra você. Eu ia te pedir hoje à noite."

Ele deu um passo em minha direção, a caixa estendida. "Ellie, por favor. Não vamos fazer isso. Você tá chateada, eu entendo. Mas a gente pode consertar isso. Você sabe que eu te amo. Deixa eu colocar isso em você." Ele tentou pegar meu pulso.

Recuei como se estivesse queimada. A pulseira, antes um símbolo dos meus desejos mais profundos, agora parecia uma algema.

Bruna zombou, um som baixo e gutural. "Patético. Mesmo depois de tudo isso, você ainda o quer?" Seus olhos brilharam com malícia. "Algumas mulheres simplesmente não sabem reconhecer uma coisa boa quando a têm."

A súbita declaração de um pedido de casamento, o brilho da pulseira, era tudo demais. Minha mente girou, me puxando de volta para aquela discussão final e fatídica. Não foi há uma semana, não realmente. Parecia uma vida inteira.

Flashback:

"Caio, me escuta", eu tinha implorado, parada no corredor apertado, bloqueando sua saída. "Eu não aguento mais isso. Essa 'amizade' com a Bruna? Não é uma amizade. É uma invasão constante. Ela está sempre lá, sempre nos minando sutilmente, sempre fazendo piadas às minhas custas que você simplesmente ignora."

Ele estava vestindo sua jaqueta de esqui, de costas para mim. "Ellie, você tá sendo ridícula. A Bruna é minha amiga. A gente se conhece desde a faculdade. Você só tá com ciúmes."

"Ciúmes?", minha voz tinha falhado, a dor queimando em meu peito. "É ciúme quando sua namorada te pede para estabelecer limites com uma mulher que flerta constantemente com você, que posta fotos sugestivas com você, que claramente quer mais?"

Ele finalmente se virou, o rosto tenso de aborrecimento. "Ela não quer! Você tá imaginando coisas! E mesmo que quisesse, qual o problema? Eu tô com você!" Ele não parecia convencido.

"Então prove", eu disse, minha voz perigosamente baixa. Era isso. A linha na areia. "Aquela viagem de esqui neste fim de semana. Com a Bruna. Com ela e os amigos dela que acham tudo isso hilário. Se você for nessa viagem, Caio, a gente termina. É sério desta vez. Isso não é uma ameaça. É um ultimato."

Ele me encarou, seus olhos frios. Um compasso de silêncio se estendeu entre nós, denso de palavras não ditas, de anos de ressentimento não dito. Eu prendi a respiração, implorando com os olhos para que ele me escolhesse. Para que ele finalmente nos escolhesse.

Seu celular vibrou na mão, uma mensagem de texto da Bruna, sem dúvida o incentivando, dizendo para ele não ser "mandado". Eu quase podia ouvir a voz dela, um sussurro minúsculo e insidioso em seu ouvido.

Ele soltou uma risada curta e amarga. "Tá bom!", ele gritou, as palavras rasgando o fio frágil do nosso relacionamento. "Vai em frente! Não venha chorando pra mim quando estiver sozinha!"

E então ele saiu, batendo a porta atrás de si, me deixando sozinha no silêncio súbito e ecoante.

Fim do Flashback.

De volta ao presente, Caio ainda segurava a caixa da Vivara, seus olhos suplicantes, sua voz grossa com um remorso falso. "Ellie, por favor. Eu errei. Eu sei que errei. Mas a gente pode consertar isso. Apenas pegue a pulseira. Deixa eu colocar em você. A gente pode esquecer tudo isso, ok?"

Ele se aproximou, tentando enfiar a pulseira no meu pulso. Eu puxei meu braço, batendo em uma de suas caixas embaladas. A caixa se moveu, revelando um vislumbre de seu moletom surrado da faculdade, uma relíquia de um passado que nunca revisitaríamos. Era um lembrete tangível de tudo que eu estava finalmente deixando para trás.

Capítulo 3

POV Ellie:

Observei a mão do Caio, ainda estendida, segurando a caixa da Vivara. Seu rosto era uma máscara de remorso calculado, seus olhos lacrimejantes. Naquele momento, uma parte de mim, a antiga e ingênua eu, quase acreditou nele. Quase esperou que talvez, apenas talvez, ele se arrependesse genuinamente de tudo. Eu costumava cair nessa toda vez. As palavras suaves, os apelos desesperados, os pequenos gestos que imitavam sinceridade. Eu costumava pensar: É isso. Este é o momento em que ele finalmente me vê.

Mas então, um toque agudo e quase imperceptível cortou o silêncio tenso. Era o celular da Bruna, vibrando insistentemente em seu bolso. Ela olhou para ele, um lampejo de aborrecimento cruzando seu rosto antes de pegá-lo suavemente.

"Ah, é só a Sara", disse ela, a voz um pouco casual demais. Seus olhos encontraram os do Caio, uma comunicação silenciosa passando entre eles, um olhar apressado e cúmplice. "Ela tá perguntando se a gente ainda vai na festa pós-esqui. Sabe, já que alguém acabou de voltar de uma viagem incrível."

Ela enfatizou "viagem incrível", seu olhar dardejando para mim, uma provocação cruel. Caio estremeceu, mas não protestou.

"Sabe de uma coisa?", Bruna continuou, guardando o celular no bolso, sua voz subitamente mais firme, menos preocupada. "Caio, amor, talvez a gente devesse ir. A Ellie obviamente não aprecia nada que você faz. Olha pra ela. Fria como gelo." Ela se virou para mim, um sorriso venenoso nos lábios. "Algumas pessoas simplesmente não conseguem ser felizes, não é, Ellie?"

Ela agarrou o braço do Caio, seu aperto surpreendentemente forte. "Vamos, vamos embora. Ela não te merece. Você merece alguém que aprecie uma pulseira da Vivara e um pedido de casamento. Alguém que não seja um porre total."

Caio hesitou, seus olhos demorando em meu rosto. Um momento fugaz de confusão genuína, talvez até arrependimento, cintilou em seu olhar. Ele deu um pequeno passo em minha direção, seus lábios se separando como se para falar.

Meu coração deu um pequeno e quase imperceptível solavanco. Não, pensei. De novo não.

Bruna puxou seu braço com mais força. "Para de ser tão frouxo, Caio! Você vai deixar ela pisar em você de novo? Ou vai finalmente criar coragem e perceber o que está deixando para trás?" Sua voz estava carregada de um desafio, uma provocação que apenas alimentava seu ego.

Seus olhos encontraram os meus uma última vez, um brilho patético de indecisão, então ele endureceu. A escolha foi feita. De novo.

"Tá bom!", ele rosnou, puxando o braço do aperto da Bruna, mas não para ficar. Foi um gesto de desafio, direcionado a mim. "Se é isso que você quer, Ellie, então tá bom! A gente terminou!"

Ele passou por mim furioso, Bruna seguindo triunfante atrás dele. A porta do apartamento bateu com um baque doentio, sacudindo os quadros na parede. O som vibrou pelo assoalho, pelos meus próprios ossos.

Eu estava sozinha. De novo.

O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor. Fiquei no meio da sala, o cheiro persistente do perfume da Bruna e da colônia do Caio pesado no ar. No balcão da cozinha, o jantar elaborado que eu havia planejado ainda estava lá, meio preparado. Seu frango assado favorito, a salada de macarrão intrincada, o tiramisu caseiro para a sobremesa. Tudo isso, um monumento a um amor que agora estava irrevogavelmente morto.

Uma risada amarga e histérica escapou dos meus lábios. Eu tinha cozinhado, afinal. Ele esperava que eu cozinhasse, e de uma forma distorcida, eu tinha.

Sentei-me à mesa de jantar, o único prato já posto para dois, e comecei a comer. Comi devagar, mecanicamente, cada mordida uma luta. Os sabores ricos se transformaram em cinzas na minha boca. Meu celular vibrou no meu bolso. Era a Bruna.

Seu story no Instagram. Um boomerang dela e do Caio brindando com taças de champanhe no teleférico. "Um brinde aos novos começos!", dizia a legenda, seguida por um emoji piscando.

Eu rolei. Outro. Caio, agasalhado em seu equipamento de esqui, rindo enquanto Bruna limpava neve de seu rosto de forma brincalhona. "Algumas pessoas simplesmente tornam tudo melhor", a legenda cantava.

Cada post era um golpe calculado, desferido com precisão e malícia. Eles estavam aproveitando meu fim de semana, o fim de semana pelo qual eu lhe dei um ultimato. O fim de semana que ele escolheu em vez de mim.

Continuei comendo, forçando cada último bocado, um ato perverso de autopunição. A comida parecia pesada no meu estômago, um caroço frio e indigesto.

Finalmente, quando o prato estava limpo, uma onda de náusea me invadiu. Meu estômago revirou violentamente. Tropecei até o banheiro, desabando sobre o vaso sanitário, esvaziando o conteúdo do meu estômago, lágrimas escorrendo pelo meu rosto. Não era apenas a comida que eu estava expurgando. Era a dor, a traição, a humilhação.

Os dias seguintes foram um borrão de intensos ataques de ansiedade. Meu peito parecia apertado, minha respiração superficial. Cada pensamento era uma tempestade caótica, cada memória uma ferida fresca. Eu não conseguia comer, não conseguia dormir. O mundo fora do meu apartamento se desvaneceu em um pesadelo distante e nebuloso.

Na terceira noite, a dor no meu estômago se tornou insuportável. Uma dor aguda e lancinante que me dobrava ao meio. Consegui ligar para uma amiga, a Emily, minha voz um sussurro fino.

"Ellie? O que foi? Você parece péssima!", ela gritou.

Eu mal conseguia falar, agarrando meu abdômen, lágrimas quentes embaçando minha visão. Emily, abençoada seja, estava lá em vinte minutos. Ela me encontrou enrolada no chão do banheiro, tremendo, meu rosto pálido.

Ela me levou às pressas para o pronto-socorro. As luzes fluorescentes da sala de emergência zumbiam, uma trilha sonora cruel para minha miséria. Eles me ligaram a um soro, o líquido frio se infiltrando em minhas veias. A médica, uma mulher de rosto gentil, falou suavemente sobre gastrite induzida por estresse, beirando uma úlcera estomacal.

"Você esteve sob muita tensão emocional, não é?", ela perguntou, seus olhos gentis.

Eu apenas assenti, incapaz de formar palavras.

Mesmo ligada a um soro, com uma dor latejante nas entranhas, eu não consegui me conter. Meu polegar encontrou o aplicativo do Instagram.

Os stories da Bruna continuavam, um ataque implacável ao meu espírito já fraturado. Uma foto dela e do Caio, silhuetas contra um nascer do sol deslumbrante, empoleirados no pico de uma montanha. "Algumas pessoas simplesmente tornam tudo melhor", a legenda dizia novamente, um eco direto de seu post anterior, uma celebração zombeteira de sua nova conexão.

Então, uma nova foto. Caio, sorrindo, o braço em volta do ombro da Bruna, um brilho travesso no olho. Eles pareciam felizes. Despreocupados. Como se eu nunca tivesse existido. Os comentários choviam: "OMG, vocês são tão fofos!", "Finalmente, o universo se alinhando!", "A Ellie nunca o entendeu, você entende!"

Caio tinha até curtido alguns deles. Ele tinha visto o post dela, ele tinha visto os comentários, ele tinha curtido. Enquanto eu estava no pronto-socorro, lutando contra uma doença induzida pelo estresse causada por suas ações, ele estava validando as provocações públicas da Bruna.

Não era apenas negligência. Era uma crueldade consciente e deliberada. Ele estava permitindo que ela torcesse a faca, que me humilhasse publicamente, e ele estava endossando isso.

O gotejamento do soro, o cheiro de antisséptico, a dor surda no meu estômago – nada disso importava mais. Naquele quarto estéril e impessoal, uma clareza profunda me invadiu. Não era apenas sobre a viagem de esqui. Era sobre tudo. Seu descaso casual, sua manipulação emocional, sua covardia mascarada de liberdade.

Ele não apenas escolheu a viagem em vez de mim. Ele escolheu deixar a Bruna me destruir. E eu tinha permitido.

Aquele foi o momento. O ponto de ruptura absoluto e inegável. A dor no meu estômago não era nada comparada ao vazio completo que se instalou em meu coração. Ele não apenas partiu meu coração. Ele estilhaçou toda a minha visão de mundo. E eu estava farta de deixá-lo fazer isso.

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