João Pedro, um arquiteto visionário, estava a poucos dias do casamento com Isabela, a sua parceira de longa data e grande amor, com quem partilhava um próspero escritório e sonhos de futuro.
Mas um encontro casual nas entranhas do seu próprio espaço de trabalho revelou uma realidade obscura: Lucas, um músico talentoso mas manipulador, havia-se infiltrado nas suas vidas, tornando-se o misterioso "protegido" de Isabela.
A situação precipitou-se quando Lucas, com um brilho calculista nos olhos, orquestrou uma falsa agressão, e Isabela, sem hesitar, acreditou na farsa, virando-se contra o seu noivo, acusando-o publicamente de ciúme doentio, levando-o à esquadra.
Como pôde a mulher que jurara amá-lo confiar num estranho e condená-lo sem um segundo pensamento? A cegueira de Isabela e a traição de Lucas eram um pesadelo, deixando João Pedro com um nó na garganta e uma ferida aberta na alma.
Humilhado e traído, João Pedro tomou uma decisão drástica: cancelou o casamento e, com o apoio inabalável do seu poderoso pai, mudou-se para São Paulo, determinado a reconstruir a sua vida e carreira longe daquele veneno, sem saber que o rancor de Lucas ainda ecoaria à distância.
"Padre, eu quero cancelar o casamento."
A voz de João Pedro era calma, mas final, ecoando na sacristia silenciosa da igreja.
Padre Miguel, que arrumava os paramentos, parou, as suas mãos enrugadas suspensas no ar, ele virou-se lentamente, a sua expressão era de surpresa e desaprovação.
"Cancelar? João Pedro, meu filho, o que dizes? Falta menos de um mês, os convites foram enviados, toda a cidade está à espera de celebrar a vossa união."
"Eu sei, Padre, mas não posso continuar."
"Isso é por causa daquele rapaz, o Lucas?" perguntou o padre, os seus olhos perspicazes fixos em João Pedro, "Isabela falou-me dele, um músico talentoso que ela está a ajudar, um protegido."
A palavra "protegido" fez o estômago de João Pedro revirar.
"Ela disse-lhe que ele a salvou?"
"Sim, salvou a sua carreira num caso importante, ela sente-se em dívida, é natural que ela o queira ajudar, a Isabela sempre teve um coração generoso."
João Pedro sentiu um aperto no peito, uma sensação de sufoco.
Generosidade? Ou cegueira?
Ele não disse nada, mas a sua mente voltou à tarde anterior, a imagem gravada a fogo na sua memória.
Ele tinha chegado mais cedo ao escritório de arquitetura, o espaço moderno e minimalista que ele e Isabela tinham projetado juntos, o símbolo do seu futuro partilhado.
A porta do seu estúdio privado estava entreaberta.
Lá dentro, Isabela estava de costas para a porta, nos braços de um homem que João Pedro nunca tinha visto.
O abraço não era de amizade, era íntimo, apertado, a cabeça dela descansava no ombro dele, os olhos fechados como se estivesse a absorver a sua força.
João Pedro ficou paralisado.
O som dos seus passos, por mais leves que fossem, quebrou o momento.
Isabela afastou-se rapidamente, o rosto corado, mas sem culpa.
"João Pedro! Chegaste cedo," disse ela, com um sorriso radiante, "Quero apresentar-te o Lucas."
O homem, Lucas, virou-se, ele era magro, com cabelo comprido e um ar de artista sofrido, os seus olhos, no entanto, eram frios e calculistas.
"Prazer," disse Lucas, a sua voz suave, mas com um tom que irritou João Pedro instantaneamente.
"Este é o homem de quem te falei," continuou Isabela, animada, "O músico que me ajudou a ganhar o caso Ferraz, se não fosse por ele, a minha carreira estaria arruinada."
João Pedro sentiu uma dor aguda, ele sabia o quão importante aquele caso era para ela, e agora, este estranho era o herói.
Ele, que a apoiara durante anos, que celebrara cada vitória e a consolara em cada derrota, era agora um mero espectador.
A sua relação de uma vida, o amor que todos na cidade viam como um conto de fadas, parecia de repente frágil, invadido por um recém-chegado.
Ele tentou engolir a sua dor, forçar um sorriso.
"Fico feliz por teres tido ajuda," conseguiu dizer.
A memória desvaneceu-se, deixando um gosto amargo.
Ele olhou para o Padre Miguel.
"Padre, não é uma decisão impulsiva, é o resultado de muita dor."
O padre suspirou, sentando-se pesadamente numa cadeira de madeira.
"Meu filho, o casamento é um sacramento, um compromisso para a vida, não se pode desistir assim."
Antes que João Pedro pudesse responder, o seu telemóvel vibrou, era Isabela.
Ele ignorou.
A vibração parou, e um momento depois, começou de novo.
Ele atendeu, a sua voz tensa.
"Estou ocupado."
"Ocupado? João Pedro, estou no escritório, onde estás? O Lucas não tem para onde ir, os senhorios expulsaram-no, pensei que ele podia ficar na sala de reuniões por uns tempos, transformá-la num estúdio improvisado."
A proposta era tão absurda que João Pedro riu, um som seco e sem alegria.
"Isabela, aquele é o nosso escritório, um espaço profissional, não um abrigo para sem-abrigo."
"Não sejas insensível!" a voz dela tornou-se ríspida, "Ele não tem família, é órfão, passou por muito, temos de o ajudar, é o mínimo que podemos fazer depois do que ele fez por mim."
"Eu pago-lhe um hotel, um apartamento, o que ele quiser," ofereceu João Pedro, tentando manter a calma.
"Já lhe sugeri isso," a voz dela estava cheia de frustração, "Ele recusou, disse que não quer a nossa caridade, só um lugar para trabalhar a sua música em paz, por que és tão egoísta e ciumento?"
A acusação atingiu-o em cheio.
Ciumento? Sim, ele era.
Egoísta? Talvez.
Mas acima de tudo, ele sentia-se traído.
"Isabela, a tua compaixão por ele está a cegar-te."
Houve um silêncio tenso do outro lado da linha.
Então, uma voz suave, a de Lucas, soou ao fundo.
"Isabela, não discutas com ele por minha causa, eu vou-me embora, encontro outro sítio."
"Não!" a resposta de Isabela foi imediata e feroz, "Tu ficas aqui, esta é a minha decisão, o escritório também é meu, ele vai ter de aceitar."
João Pedro desligou o telemóvel.
O seu coração batia descontroladamente.
Ele olhou para o Padre Miguel, os seus olhos cheios de uma dor que já não conseguia esconder.
"Padre, acabou."
As palavras de Isabela ecoaram na sua mente, cada uma como um golpe.
"Ele vai ter de aceitar."
Ela não lhe pediu, ela impôs.
O espaço que eles construíram juntos, tijolo a tijolo, sonho a sonho, era agora o santuário de outro homem.
Ele sentiu-se um intruso na sua própria vida.
Voltou para o escritório, a sua decisão tomada.
Quando entrou, a cena que o saudou foi pior do que imaginara.
Lucas estava sentado na sua cadeira de arquiteto, a mexer nos seus desenhos, enquanto Isabela lhe servia um café, sorrindo com uma ternura que ele não via há muito tempo.
Ao verem-no, não pareceram envergonhados.
"João Pedro, que bom que voltaste," disse Isabela, o seu tom casual, como se nada estivesse errado, "Já decidiste? O Lucas pode ficar?"
Lucas levantou-se, um sorriso humilde no rosto.
"João Pedro, se for um incómodo, eu posso mesmo ir embora, a Isabela já fez muito por mim."
Era uma manipulação tão óbvia que chegava a ser insultuosa.
"Não, Lucas, tu não vais a lado nenhum," disse Isabela, pondo-se à frente dele como uma leoa a proteger a sua cria, "Este lugar é tão meu quanto dele, tu ficas."
João Pedro olhou para ela, para o homem que ela defendia com tanta paixão, e sentiu algo a quebrar-se dentro de si.
Ele respirou fundo, a sua voz surpreendentemente calma.
"Tudo bem, ele fica."
Isabela sorriu, vitoriosa.
"Sabia que ias entender."
Lucas também sorriu, um brilho de triunfo nos seus olhos.
"Obrigado, João Pedro, prometo não incomodar."
"Não vais," concordou João Pedro, "Porque eu vou-me embora."
Ele foi ao seu estúdio, pegou numa pequena mala que guardava para viagens e começou a arrumar as suas coisas mais pessoais: algumas fotografias, os seus cadernos de esboços, um prémio que ganhara na faculdade.
Isabela seguiu-o, confusa.
"O que estás a fazer?"
"Estou a arrumar as minhas coisas," disse ele, sem olhar para ela, "Como disseste, o espaço também é teu, podem ficar com ele todo, afinal, eu sou supérfluo aqui."
"Para com o drama, João Pedro!" ela gritou, a sua paciência a esgotar-se, "Estás a agir como uma criança mimada! Onde está a compaixão que o teu pai sempre te ensinou a ter?"
A menção ao seu pai foi a gota de água.
O seu pai, um homem que construiu um império do nada, que sempre o ensinou a ser forte, mas também justo.
Ele virou-se, a sua calma a evaporar-se.
"O meu pai? Não te atrevas a falar do meu pai," a sua voz era baixa e perigosa, "O meu pai ensinou-me a ajudar os necessitados, não os manipuladores, e ensinou-me a proteger o que é meu, e tu, Isabela, estás a dar o que é nosso a um estranho."
Ele passou por ela, a mala na mão, e dirigiu-se para a porta.
Isabela ficou pálida, as suas palavras presas na garganta.
Na rua, alguns vizinhos curiosos já olhavam da janela, a pequena cidade era um viveiro de coscuvilhices.
No dia seguinte, João Pedro estava no seu estúdio temporário, um pequeno espaço que alugara acima de uma loja, quando Lucas apareceu.
Ele parecia angustiado, os seus olhos vermelhos.
"João Pedro, por favor, volta para a Isabela, ela está a sofrer, ela ama-te."
João Pedro olhou para ele com desprezo.
"Poupa-me do teu teatro."
"Não é teatro," insistiu Lucas, aproximando-se, "Eu sei que estás zangado comigo, e tens razão, eu não devia ter aceitado a ajuda dela, mas eu não consegui evitar, ela é tão... boa."
Ele fez uma pausa dramática.
"Naquela noite, depois de saíres, ela estava tão triste, a chorar, eu tentei consolá-la e... nós beijámo-nos."
A confissão foi feita com uma falsa relutância, desenhada para causar o máximo de dor.
E causou.
João Pedro sentiu o sangue a fugir-lhe do rosto.
"Sai daqui," disse ele, a sua voz um sussurro.
"Eu só quero que vocês fiquem bem," disse Lucas, com uma sinceridade fingida, "Eu até disse a ela que sou como um irmão perdido dela, que talvez as nossas famílias se conhecessem no passado, qualquer coisa para a acalmar."
A menção de "irmão" fez João Pedro explodir.
Ele avançou, agarrando Lucas pelo colarinho.
"Tu não és nada dela!"
Era exatamente a reação que Lucas queria.
No momento em que João Pedro o empurrou, Lucas tropeçou para trás de forma exagerada, caindo sobre uma mesa de maquetes e derrubando tudo no chão com um estrondo.
Ele gritou de dor, agarrando o seu braço.
"Tu atacaste-me! Estás louco de ciúmes!"