Eu era Sofia, uma humilde artesã de cerâmica, e ele, Leo, um homem sem memória que amei incondicionalmente.
Vivíamos em nossa bolha de felicidade e simplicidade, ele até tatuou minhas iniciais em sua clavícula.
Mas tudo desmoronou quando sua memória voltou.
O Leo que eu amava morreu; dele surgiu Ricardo Andrade, um magnata frio e implacável.
Ele me ignorava, e sua noiva, Isabella, surgiu para me humilhar sem pudor.
O auge veio com a destruição do medalhão da minha avó, a única coisa que me restava.
Pior ainda: numa festa, a amiga de Isabella, com um sorriso debochado, esmagou minha mão direita.
A mão que me conectava à minha arte, à minha essência, foi brutalmente quebrada.
Ricardo, o homem que eu pensei amar, permitiu tudo, assistindo impassível à minha destruição.
Como pude ter sido tão ingênua?
Por que o amor de mil vidas se transformou na mais cruel das traições?
Ele me ofereceu cinco milhões de Reais para "sumir" da vida deles, para proteger sua reputação.
Aceitei o dinheiro sujo, engolindo minha ira, prometendo a mim mesma que jamais olharia para trás.
Mas o que eles não sabiam é que, das cinzas da humilhação, uma nova Sofia Alves renascerá.
E o jogo, para eles, estava apenas começando.
Dona Helena Andrade olhou para Sofia com um desprezo mal disfarçado.
"Menina, vamos direto ao ponto."
Ela empurrou um cheque sobre a mesa de centro rústica da pequena sala de Sofia.
"Um milhão de Reais. Para você sumir da vida do meu filho."
Sofia olhou para o cheque, depois para a mulher elegante à sua frente.
O valor era astronômico, uma fortuna que ela jamais sonhara em tocar.
Dona Helena continuou, a voz fria como o mármore de sua mansão.
"Você não pertence ao nosso mundo, Sofia. Ricardo tem um futuro brilhante, uma noiva do seu nível social. Aceite e desapareça. É o melhor para todos."
Sofia sentiu o peso da humilhação, mas seu rosto permaneceu calmo.
Ela pegou o cheque.
"Eu aceito."
Com o cheque na bolsa, Sofia voltou para a mansão dos Andrade.
O luxo do lugar agora parecia vazio, opressor.
Ela parou diante de um pequeno vaso de cerâmica que fizera, uma peça simples, quase infantil, que Ricardo, quando ainda não lembrava quem era, havia colocado com orgulho na suntuosa sala de estar.
Aquele vaso desencadeou uma avalanche de memórias.
Anos antes.
Sofia lutava para vender suas peças de cerâmica nas feiras de artesanato do Rio de Janeiro.
Numa noite chuvosa, ao cortar caminho por uma viela escura de sua comunidade, encontrou um homem caído, ferido e ensanguentado.
Ele não tinha documentos, não lembrava o próprio nome.
Vítima de um atentado, ela descobriria muito depois, ligado a disputas de terras de sua família rica.
Sofia, com seu coração puro, apesar das dificuldades da vida, cuidou dele.
Alugaram uma casinha simples na comunidade.
Ele, a quem ela passou a chamar de "Leo", fazia pequenos trabalhos, "bicos", para ajudar nas despesas.
Ela se desdobrava com sua cerâmica.
Eram pobres, mas a felicidade transbordava na simplicidade dos dias.
Num gesto de amor, ele tatuou as iniciais "S.A." em sua clavícula.
"Sofia Alves," ele dissera, beijando o local. "Para eu nunca me esquecer de você, meu amor."
A memória de Ricardo Andrade retornou de forma abrupta, num dia qualquer.
O choque.
Ele era um magnata do agronegócio.
Levou Sofia para sua mansão em São Paulo, um mundo de opulência que a sufocava.
Ele se tornou outro homem. Distante, frio, imerso em negócios e planilhas.
A imprensa começou a veicular boatos sobre seu noivado com Isabella Bittencourt, herdeira de usineiros de cana-de-açúcar.
Sofia se sentia um peixe fora d'água, ignorada, desprezada sutilmente por todos, inclusive por ele.
Após uma discussão ríspida, onde Ricardo minimizou os boatos como "coisas da sociedade", Sofia percebeu.
O "Leo" que ela amava tinha morrido no dia em que Ricardo Andrade renasceu.
Foi então, já desgastada e profundamente humilhada, que a proposta de Dona Helena surgiu como uma tábua de salvação, ainda que amarga.
Ela decidiu ir embora.
No dia marcado para ir ao consulado tirar o visto para Portugal, onde planejava recomeçar, Sofia passou em frente a um restaurante de luxo.
Seu coração parou.
Ricardo e Isabella estavam lá, rindo, brindando.
Ele a viu.
Seus olhos se encontraram.
Ele se levantou, veio em sua direção, o rosto uma máscara de fúria.
"O que você está fazendo aqui? Está me seguindo?"
Isabella aproximou-se, um sorriso falso nos lábios.
"Querida, junte-se a nós. Experimente esta lagosta, é divina."
Sofia sentiu o ar faltar.
Ela era terrivelmente alérgica a frutos do mar.
A crise alérgica foi imediata, violenta.
A humilhação pública, enquanto Ricardo a olhava com frieza e Isabella com triunfo dissimulado, foi a gota d'água.
Sofia voltou para a mansão, o corpo ainda tremendo da crise alérgica, o rosto inchado.
Subiu direto para o quarto que ocupava, um cômodo luxuoso que nunca sentiu como seu.
Ignorou os remédios sobre a cômoda. A dor física era menor que a da alma.
Abriu o guarda-roupa e começou a jogar suas poucas roupas numa mala velha.
O cheiro dele, um perfume caro e amadeirado, ainda pairava no ar, misturado ao dela, um sabonete barato de lavanda.
A porta do quarto se abriu com força. Ricardo entrou, o rosto contorcido pela raiva.
"O que significa isto, Sofia? Que palhaçada é essa?"
Ele gesticulou para a mala.
"Vai fazer drama por causa daquele mal-entendido no restaurante? Ciúmes infantis?"
Sofia não respondeu, continuou a dobrar suas roupas com uma calma que o irritava profundamente.
"Responda!" ele gritou.
Ela fechou a mala.
"Não há nada para responder, Ricardo. Estou indo embora."
Ele riu, um som seco, sem humor.
"Você não vai a lugar nenhum. Pare com isso."
Ele se virou e saiu, batendo a porta com tanta força que as paredes pareceram tremer.
Na manhã seguinte, Sofia desceu as escadas e encontrou Ricardo e Isabella na sala de café.
Isabella sorriu para ela, a personificação da falsidade.
"Sofia, querida, que bom que desceu. Estávamos justamente falando sobre o leilão beneficente de hoje à noite. Joias, arte... você deveria vir conosco."
Ricardo sequer olhou para Sofia.
"Faça o que quiser," ele disse, a voz neutra, folheando um jornal.
Sofia sentiu o convite como mais uma armadilha, mas algo a impeliu a aceitar.
Talvez fosse a última oportunidade de ver até onde a crueldade deles poderia ir.
"Eu adoraria," ela respondeu, a voz surpreendentemente firme.
No leilão, o brilho das joias e a ostentação das obras de arte apenas ressaltavam o abismo social que a separava daquele mundo.
Ricardo arrematava peças caríssimas para Isabella, uma pulseira de diamantes aqui, um colar de esmeraldas ali.
Ele a ignorava completamente, como se ela fosse invisível.
Sofia observava, o coração apertado.
Ela já tinha aceitado o dinheiro de Dona Helena. Em breve, estaria livre daquela farsa.
De repente, um item especial foi anunciado.
Um antigo medalhão de ouro com a imagem de Nossa Senhora Aparecida.
O coração de Sofia disparou. Era o medalhão de sua avó.
Sua única herança, a única lembrança física que tinha dela.
Um flashback doloroso a atingiu.
Quando encontrou Ricardo ferido, ela não tinha dinheiro para os remédios e curativos iniciais.
Desesperada, penhorou o medalhão. Prometera a si mesma que o recuperaria assim que pudesse.
Agora, ali estava ele, diante de seus olhos.
Com o pouco dinheiro que ainda tinha consigo, o que Dona Helena lhe dera ainda estava intocado no banco, ela deu um lance tímido, a voz embargada pela emoção.
Os lances subiram.
Ricardo, sem sequer olhar para ela, sem reconhecer o valor sentimental da peça – ou talvez ignorando-o propositalmente – deu um lance astronômico.
O martelo bateu.
"Vendido para o senhor Andrade!"
Ele pegou o medalhão e, com um sorriso galanteador para as câmeras e os presentes, colocou-o no pescoço de Isabella.
A humilhação queimou o rosto de Sofia como fogo.