Por dezessete anos, eu amei meu melhor amigo, Heitor Reis. Eu era a garota quieta que sempre tinha um curativo para os joelhos ralados dele, acreditando em segredo que estávamos destinados a ficar juntos.
Mas ele estilhaçou meu mundo com seis palavras: "Ela é minha irmã. Só isso." Ele se apaixonou pela cruel e glamorosa Fabiana, chegando a levá-la ao nosso refúgio secreto.
O ciúme dela era um veneno. Ela fingiu uma gravidez para prendê-lo, depois contratou um homem para me atacar num beco. O trauma rompeu um aneurisma no meu cérebro, e eu fiquei cega.
E em todo esse tempo, Heitor a defendeu. Ele se recusou a acreditar que ela era capaz de tamanha maldade, escolhendo o monstro que conhecia há meses em vez da garota que conhecia a vida inteira.
Meu salvador, um médico gentil chamado Jairo, me ofereceu um futuro, e planejamos um casamento de mentira para dar esperança aos meus pais apavorados.
Mas enquanto eu estava no altar, cega, Heitor invadiu a cerimônia. Ele caiu de joelhos, com um anel de diamante na mão.
"Eu te amo, Clara", ele implorou. "Casa comigo."
Capítulo 1
Ponto de Vista: Clara Valente
"Eu te amo, Clara", Heitor Reis sussurrou, sua voz embargada por uma emoção que eu esperei a vida inteira para ouvir. "Sempre foi você." Ele se ajoelhou diante de mim, seu rosto bonito marcado pelo desespero, um anel de diamante seguro entre seus dedos trêmulos. "Casa comigo."
Olhei para baixo, para o homem que amei por dezessete anos, o garoto que tinha sido meu mundo inteiro. Então, desviei o olhar para o homem ao meu lado, cuja mão repousava gentilmente nas minhas costas.
Eu sorri, um pequeno e triste curvar de lábios. "Heitor", eu disse, minha voz clara e firme, "eu já sou casada."
Um mês atrás, meu mundo tinha uma cor diferente. Era pintado nos tons de Heitor Reis.
A Festa da Primavera da USP estava a todo vapor, o ar denso com o cheiro de pipoca e dos jacarandás floridos. Risadas e música giravam ao meu redor, mas eu só tinha olhos para uma pessoa. Heitor. Ele estava perto do palco improvisado, o sol poente realçando os reflexos dourados em seu cabelo castanho, um sorriso confiante brincando em seus lábios enquanto conversava com seus irmãos da atlética de administração.
Ele era carismático, popular, o sol em torno do qual tantas pessoas orbitavam. E eu, Clara Valente, era apenas uma lua silenciosa, contente em girar em sua órbita, um segredo que eu guardava desde os dez anos de idade.
Éramos inseparáveis. "O show de Clara e Heitor", nossos pais nos chamavam. Ele era o aventureiro, eu era a cautelosa. Ele era quem ralava os joelhos, e eu era quem sempre tinha um curativo pronto. Ele me via como sua irmãzinha, um papel que eu desempenhava com uma facilidade praticada, enquanto meu coração gritava uma verdade diferente.
"Sério, Reis, quando você vai chegar na Fabiana Clark?", um de seus amigos, Léo, o cutucou de brincadeira.
Meu coração deu um salto doloroso no peito. Fabiana Clark. A rainha da universidade, uma influencer com um milhão de seguidores e um fundo fiduciário para bancar tudo. Ela era tudo o que eu não era: ousada, glamorosa e rica.
Heitor soltou uma risada baixa, um som que geralmente fazia meu estômago revirar. Desta vez, pareceu uma pedra caindo num poço. "Dá um tempo, cara. Tô trabalhando nisso."
"Trabalhando nisso? Cara, a garota tá te dando sinal verde há meses", outro amigo interveio. "Qual é a demora? Você não tá ainda preso na sua sombrinha, tá?"
Minha respiração falhou. Eu me encolhi atrás de um grande carvalho, a casca áspera cravando nas minhas costas. Eu não deveria estar ouvindo. Isso era particular.
A voz de Heitor, quando veio, foi desdenhosa. "A Clara? Não seja ridículo. Ela é como uma irmã pra mim. É só isso que ela vai ser."
Irmã.
A palavra foi como um martelo, estilhaçando a frágil casa de vidro dos meus sonhos. Eu a tinha ouvido mil vezes, mas desta vez, no contexto dele querendo outra pessoa, pareceu um julgamento final.
"Bom", disse Léo, batendo nas costas dele. "Porque a Fabiana é um partidão. A família dela é dona de metade de São Paulo. Se você garantir essa, tá feito na vida."
"Não é por isso", disse Heitor, com uma ponta de defensiva em seu tom. "Ela é... empolgante. Diferente."
As palavras não ditas pairavam no ar: Diferente da Clara.
Eu não precisava ouvir mais nada. Virei-me e fugi, com a visão embaçada pelas lágrimas que me recusei a deixar cair. Encontrei um canto deserto atrás da biblioteca, um lugar onde as sombras eram profundas e reconfortantes. Deslizei pela parede de tijolos fria, puxando os joelhos contra o peito, e finalmente deixei os soluços sacudirem meu corpo.
Tinha acabado. Uma história de amor que só existiu na minha cabeça tinha chegado ao seu trágico fim.
Depois que as lágrimas cessaram, uma fria determinação se instalou em meu peito. Tudo bem. Se ele só me via como uma irmã, então era isso que eu seria. Eu enterraria meus sentimentos tão fundo que ele nunca os encontraria. Eu sorriria, eu o apoiaria, e eu o veria se apaixonar por outra pessoa, mesmo que isso me matasse.
Ajeitei minhas roupas, limpei o rosto e voltei para a festa, uma máscara cuidadosamente construída de indiferença alegre firmemente no lugar.
Mais tarde naquela noite, o mundo explodiu em uma chuva de fogos de artifício. Sob o céu cintilante, eu o vi. Heitor estava no meio do gramado lotado, segurando uma única e perfeita rosa vermelha. Ele estava olhando para Fabiana Clark, seus olhos brilhando com uma adoração que eu só sonhara em receber.
"Fabiana", ele disse, sua voz se destacando em uma pausa entre as explosões. "Eu sei que demorei para agir, mas a verdade é que não consigo parar de pensar em você. Quer ser minha namorada?"
A multidão ao redor deles suspirou em admiração. Fabiana, parecendo uma estrela de cinema em seu vestido de grife, soltou um suspiro encantado. Ela pegou a rosa, seus dedos perfeitamente manicureados roçando nos dele. "Claro, Heitor. Pensei que você nunca fosse pedir."
Ele a puxou para seus braços e a beijou, um beijo profundo e apaixonado que selou sua nova realidade. A multidão explodiu em aplausos.
Minhas próprias mãos estavam tão cerradas que minhas unhas cravavam nas palmas. O buquê de flores do campo que eu tinha colhido para ele mais cedo, um gesto bobo e esperançoso, parecia um monte de mato em minhas mãos. Uma única lágrima escapou e traçou um caminho frio pela minha bochecha.
Virei-me antes que alguém pudesse ver. Enquanto caminhava em direção à saída do campus, passei por uma lixeira. Sem pensar duas vezes, joguei as flores lá dentro. Elas caíram com um baque suave e patético.
Um sorriso amargo e autodepreciativo tocou meus lábios.
É hora de deixar ir, Clara, eu disse a mim mesma, as palavras um mantra silencioso e doloroso. Ele não é seu. Nunca foi.
Duas semanas depois, Heitor deu uma festa em sua casa fora do campus para celebrar seu novo relacionamento. Um convite apareceu na minha caixa de entrada, com um "Você tem que vir, Clarinha!" casual anexado em uma mensagem. Meu primeiro instinto foi apagar, fingir uma doença, fazer qualquer coisa para não ir. Mas isso seria admitir a derrota. Seria mostrar a ele que ele me machucou.
Então eu fui.
Vesti-me de forma simples, com jeans e um suéter macio, um contraste gritante com o brilho e o glamour dos amigos de Fabiana. A casa pulsava com música de baixo pesado e a cacofonia de cem conversas.
Heitor me viu do outro lado da sala e seu rosto se iluminou. "Clarinha! Você veio!" Ele me envolveu em um abraço familiar e esmagador. Por um segundo, deixei-me derreter nele, respirando seu cheiro, o cheiro de casa.
Então ele se afastou, pegando outra mão. "Clara, esta é a Fabiana. Fabiana, minha melhor amiga, Clara."
O sorriso de Fabiana era brilhante, mas não alcançava seus olhos. Seu aperto de mão foi frio e firme. "É um prazer finalmente conhecer a famosa Clara. O Heitor fala de você o tempo todo."
"Só coisas boas, espero", consegui dizer, meu próprio sorriso parecendo rígido e artificial.
"Claro", disse ela, seu braço envolvendo possessivamente a cintura de Heitor. "Ele me disse como você é a irmã que ele nunca teve."
Lá estava de novo. Aquela palavra. Irmã.
"Parabéns, vocês dois", eu disse, minha voz soando surpreendentemente firme. "Vocês formam um belo casal."
Peguei um copo de plástico com cerveja de uma mesa próxima e dei um longo gole, o líquido amargo fazendo pouco para anestesiar a dor em meu peito. Passei o resto da noite na periferia, um fantasma na festa, observando Heitor mimar sua nova namorada. Ele era atencioso, charmoso, um namorado perfeito.
A festa finalmente diminuiu. Fabiana estava encostada em Heitor, parecendo cansada, mas triunfante. Heitor olhou para mim, um lampejo de preocupação em seus olhos.
"Clarinha, como você vai para casa?", ele perguntou. "Está tarde."
Antes que eu pudesse responder, Fabiana falou, sua voz doce como mel. "Nós podemos te dar uma carona, Clara. Não é incômodo nenhum." Não era uma pergunta; era uma declaração de posse. Nós somos uma unidade agora. Você é a de fora.
Uma onda de desafio, afiada e inesperada, cortou minha névoa induzida pelo álcool. "Não, obrigada", eu disse, pegando minha bolsa. "Já chamei um Uber."
Não esperei por uma resposta. Saí pela porta e entrei no ar frio da noite, sem olhar para trás. Enquanto meu carro se afastava da calçada, olhei no retrovisor. Vi Heitor dar um passo em direção à porta, uma carranca no rosto, mas Fabiana o puxou de volta, sussurrando algo em seu ouvido. Ele hesitou, depois a deixou levá-lo de volta para dentro.
Ele nem sequer olhou para trás.
As lágrimas finalmente vieram, quentes e silenciosas, enquanto o carro acelerava pelas ruas vazias.
"Noite difícil?", o motorista, um homem mais velho de rosto gentil, perguntou suavemente, seus olhos encontrando os meus no espelho.
Eu balancei a cabeça, limpando rapidamente o rosto. "Não. Eu só estou... muito feliz pelo meu amigo."
A mentira tinha um gosto de cinzas na minha boca.
Dezessete anos. Eu conhecia Heitor Reis há dezessete anos. Ele se mudou para a casa ao lado quando eu tinha cinco. Ele me ensinou a andar de bicicleta. Ele deu um soco no nariz de um valentão por puxar meu cabelo na terceira série e pegou uma semana de suspensão. Lembro-me de sentar do lado de fora da sala do diretor, chorando, até ele sair.
Ele tinha bagunçado meu cabelo e dito, com toda a bravata que um menino de nove anos poderia reunir: "Não chore, Clarinha. Eu sou seu irmão mais velho. Sempre vou te proteger."
Esse foi o dia em que meu afeto infantil se transformou em algo mais profundo, mais quieto e mais profundo. Eu o segui, o apoiei, torci por ele das arquibancadas de sua vida, sempre acreditando que um dia ele se viraria e me veria. Me veria de verdade.
Ele havia prometido me proteger para sempre.
Mas quem iria me proteger dele?
Ponto de Vista: Clara Valente
O carro dirigia sem rumo pelas ruas molhadas de chuva, o movimento rítmico dos limpadores de para-brisa um contraponto hipnótico à turbulência em meu coração. Eu não podia ir para casa. Ainda não. Meus pais veriam os estragos das minhas lágrimas não derramadas, o olhar astuto da minha mãe perfuraria minha fachada cuidadosamente construída.
"Só... me deixe no hotel mais próximo", eu disse ao motorista, minha voz rouca. "Vou pegar um quarto por uma noite."
Ele hesitou, uma carranca preocupada vincando sua testa. "Tem certeza, moça? Talvez você devesse esperar..."
"Tenho certeza", eu disse, um pouco bruscamente demais.
Ele parou na calçada em frente ao Grand Hyatt, um monólito de vidro e aço que atendia à elite da cidade. Paguei-lhe, murmurei um obrigado e saí para o ar frio e úmido.
Enquanto eu passava pelas portas giratórias de vidro, uma onda de calor e o leve cheiro de lírios me envolveram. Eu estava prestes a ir para a recepção quando uma risada familiar me paralisou.
Lá, perto do balcão de check-in, estavam Heitor e Fabiana.
Ele estava encostado nela, o braço casualmente sobre seus ombros enquanto ela falava com a recepcionista. Ele parecia bêbado, suas feições geralmente afiadas suavizadas pelo álcool e pela fadiga. Ela sustentava seu peso, sua postura irradiando uma possessividade triunfante.
Eles estavam fazendo o check-in. Juntos.
Eles pegaram o cartão-chave, e Fabiana entrelaçou seu braço no dele, guiando-o em direção aos elevadores. Eles estavam rindo, suas cabeças próximas. Enquanto esperavam, Heitor se inclinou e pressionou um beijo demorado em seus lábios, bem ali no saguão iluminado.
Eu fiquei congelada no meio da entrada, sentindo-me como uma espectadora invisível em uma peça que eu nunca quis ver. O ar nos meus pulmões parecia ter congelado. Eu não conseguia me mover. Eu não conseguia respirar. Meus pés estavam enraizados no tapete felpudo.
"Senhorita? Você está bem? Precisa de ajuda?" Um mensageiro de aparência preocupada estava parado na minha frente.
Abri a boca para responder, mas tudo o que saiu foi um soluço engasgado. Lágrimas que eu nem percebi que estava segurando começaram a escorrer pelo meu rosto, quentes e imparáveis. Os olhos do mensageiro se arregalaram em alarme.
"Eles... eles vão ficar juntos?", sussurrei, as palavras rasgando minha garganta. Apontei um dedo trêmulo em direção ao elevador, onde as portas estavam se fechando sobre Heitor e Fabiana. "No mesmo quarto?"
A expressão do jovem se suavizou com pena. Ele olhou para a tela da recepção, depois de volta para mim. "Sim, senhorita. Uma suíte king no 25º andar."
A confirmação foi um golpe final e brutal. A última lasca de esperança, a crença ingênua de que talvez, apenas talvez, ele estivesse apenas sendo um cavalheiro e conseguindo um quarto para ela, se estilhaçou em um milhão de pedaços.
Tropecei para fora do hotel, meu corpo tremendo incontrolavelmente. A chuva havia se intensificado, colando meu cabelo no rosto, mas eu mal sentia o frio. Afundei em um vaso de pedra na calçada, a borda áspera cravando em minhas coxas, e olhei fixamente para os borrões dos faróis que passavam.
Uma parte insana e masoquista de mim se recusou a sair. Fiquei ali, na chuva, um monte patético e encharcado de miséria, e esperei. Não sei o que estava esperando. Que ele voltasse? Que me dissesse que tudo era um erro?
Esperei enquanto o céu passava de um preto-tinta para um roxo machucado, depois para um cinza suave e nebuloso.
E então eu os vi.
Eles saíram do hotel de mãos dadas, parecendo revigorados e ridiculamente felizes. Fabiana usava o mesmo vestido, mas Heitor havia trocado por uma camisa limpa. Ele abriu a porta do passageiro de seu carro para ela, depois correu para o lado do motorista e entrou. O carro se afastou da calçada e desapareceu no trânsito da manhã.
A última brasa de esperança dentro de mim se apagou, deixando apenas cinzas frias e cinzentas.
Finalmente arrastei meu corpo pesado e dolorido para casa. A casa estava vazia; meus pais já haviam saído para o trabalho. Desabei na minha cama, os eventos das últimas vinte e quatro horas se repetindo em um loop implacável em minha mente. Cada sorriso, cada toque, cada risada que eles compartilharam foi uma nova facada de dor.
Chorei até não ter mais lágrimas, e então caí em um sono profundo e exausto.
Quando acordei, o sol da tarde entrava pela minha janela, lançando longas sombras pelo quarto. Peguei meu celular, uma sensação de pavor se enrolando em meu estômago. Meu polegar pairou sobre o contato de Heitor, depois deslizou para sua página de mídia social.
Um novo vídeo havia sido postado há uma hora.
Meu coração parou.
Era Fabiana, seu rosto iluminado de alegria, girando em um campo de flores. Minhas flores. Nossas flores. Era o refúgio secreto que Heitor e eu havíamos descoberto em uma caminhada anos atrás, aquele que ele jurou ser "nosso lugar", um santuário que ninguém mais conhecia.
Ele a tinha levado lá. Ele tinha dado a ela meu santuário.
Meus dedos tremeram enquanto eu digitava um comentário, minha visão embaçando novamente. *Esse é o nosso lugar?* As palavras pareciam cruas e patéticas na tela. Eu as apaguei. *Você prometeu que nunca levaria mais ninguém lá.* Apagado.
Com a mão trêmula, finalmente consegui uma única e vazia frase.
*Lindo lugar. Espero que vocês sejam felizes.*
Uma resposta veio quase instantaneamente. Era de Heitor.
*É mesmo! A Fabiana adorou. Sabia que você não se importaria de eu compartilhar nosso segredinho. Ela achou tão romântico.*
Ele não se lembrava. Ele não se lembrava da promessa que me fez sob o céu de verão naquele mesmo campo, sua voz sincera e séria. "Este é o nosso lugar, Clarinha. Só para nós. Para sempre."
Para sempre acabou sendo muito mais curto do que eu esperava.
Um soluço estrangulado escapou dos meus lábios, e então eu estava chorando de novo, um som cru e gutural de pura agonia. Parecia que meu coração estava sendo fisicamente arrancado do meu peito.
No mês seguinte, eu fui um fantasma. Fui às aulas, fiz meus trabalhos, mas estava oca por dentro. Falava em monossílabos, o esforço de formar palavras era demais para suportar. Minha mãe me observava com olhos preocupados.
"Clara, querida, você mal disse uma palavra a semana toda", ela disse uma noite, colocando uma mão reconfortante no meu ombro. "Aconteceu alguma coisa?"
Eu apenas balancei a cabeça, incapaz de falar além do nó na minha garganta.
Mais tarde naquela semana, ela entrou no meu quarto. "Ouvi da mãe do Heitor que ele tem uma nova namorada", ela disse gentilmente, sua voz cheia de compreensão. E assim, ela soube. Ela sabia o motivo do meu silêncio, das sombras sob meus olhos.
No dia seguinte, ela inventou uma desculpa esfarrapada sobre precisar de uma marca específica de café importado que só era vendida em uma loja gourmet no centro. "Eu simplesmente não consigo encontrar em nenhum outro lugar, e você sabe como seu pai fica sem o café da manhã dele", disse ela, pressionando as chaves do carro na minha mão. "Você poderia ser um anjo e ir buscar um pouco para mim?"
Era uma tentativa descarada de me tirar de casa, da minha prisão autoimposta de miséria. Eu não tinha energia para discutir.
"Ok, mãe", murmurei.
A loja gourmet, claro, estava sem o café. Derrotada, eu estava voltando para o meu carro quando os vi novamente. Heitor e Fabiana, saindo do Hospital das Clínicas da USP, do outro lado da rua.
Meu primeiro instinto foi me esconder, mas era tarde demais. Heitor já tinha me visto.
"Clarinha!", ele chamou, um sorriso largo no rosto.
Forcei-me a caminhar em direção a eles, meus pés parecendo de chumbo. "Oi, Heitor. Fabiana."
Fabiana ofereceu um sorriso de lábios apertados, seus olhos frios e avaliadores.
"O que vocês estão fazendo aqui? Está tudo bem?", perguntei, meu olhar fixo em Heitor. Ele parecia um pouco pálido, sua habitual postura despreocupada substituída por uma camada de ansiedade.
"Ah, estamos bem", disse Fabiana, sua voz um pouco brilhante demais. Ela agarrou o braço de Heitor com mais força. "Eu só tenho me sentido um pouco... enjoada ultimamente. Viemos para um check-up."
Um pavor frio, agudo e familiar, me invadiu. Eu não queria ouvir isso. Eu não queria saber.
A mão de Fabiana deslizou para sua barriga lisa, um sorriso tímido e triunfante brincando em seus lábios. Ela olhou de mim para Heitor, seus olhos brilhando.
"Eu estou grávida."
Ponto de Vista: Clara Valente
O mundo girou em seu eixo. Observei, como se em câmera lenta, o nó apertado de ansiedade na testa de Heitor se suavizar, substituído por um olhar de alívio atordoado e inconfundível. Ele estava feliz. O pensamento foi um caco de gelo no meu coração.
"Uau", consegui sussurrar, a palavra parecendo estranha na minha língua. "Isso é... isso é uma ótima notícia. Parabéns."
O sorriso de Fabiana se alargou, seus olhos brilhando de triunfo. "Obrigada, Clara! Estamos tão animados." Ela se inclinou, baixando a voz conspiratoriamente. "Você poderia me fazer um favor enorme e guardar segredo por um tempo? Queremos contar aos nossos pais pessoalmente, fazer uma surpresa especial."
Heitor apenas ficou ali, um sorriso bobo e chocado no rosto, concordando com a cabeça. Ele ia ser pai. Com ela. Ele nem sequer olhou para mim. Era como se eu nem estivesse ali.
Uma pergunta desesperada e tola subiu pela minha garganta. "Vocês não estão... com medo? Quero dizer, vocês nem se formaram ainda."
Fabiana acenou com uma mão desdenhosa, o grande diamante em seu dedo capturando a luz. "Por favor. Eu posso simplesmente tirar um ou dois semestres. Minha família vai ficar emocionada. Eles queriam que eu me assentasse." Seu olhar se voltou para mim, um brilho de aço sob a doçura.
"Clara, por favor", Heitor finalmente disse, sua voz suave, mas firme. Ele estava olhando para mim agora, mas seus olhos imploravam em nome de Fabiana. "Só por um tempinho. Não conte a ninguém."
O peso de seu pedido me pressionou, sufocando-me. Meu corpo inteiro parecia tenso, enrolado como uma mola. Eu era a guardiã do segredo feliz deles, um segredo que estava me rasgando por dentro.
Dei um aceno brusco, incapaz de formar palavras. "Eu tenho que ir", murmurei, virando-me e me afastando o mais rápido que minhas pernas trêmulas permitiam. Não olhei para trás, mas podia sentir o olhar surpreso de Heitor em mim. Minha partida rápida era tão diferente da minha presença usualmente demorada em sua vida.
Entrei em um beco, o fedor de lixo enchendo meus pulmões, e deslizei pela parede, meu corpo finalmente cedendo. As lágrimas vieram, silenciosas e agonizantes. Era real. Era tudo real. Um bebê. Uma família. Um futuro do qual eu não fazia parte.
*Deixe ele ir*, uma voz na minha cabeça gritou. *Ele é pai agora. Você precisa deixar ele ir.*
Mas por que tinha que ser tão rápido? Como dezessete anos de história compartilhada, de piadas internas e promessas secretas, poderiam ser apagados por alguns meses de um romance turbulento?
De volta ao hospital, Fabiana me observou fugir, um lampejo de irritação cruzando seu rosto. Ela se virou para Heitor, que ainda me olhava com uma carranca.
"Heitor?", ela disse suavemente, a mão em seu braço. "Está tudo bem?"
"Sim", ele disse, balançando a cabeça como se para clareá-la. "Não é nada."
"Você está... bravo comigo?", ela perguntou, o lábio inferior tremendo ligeiramente. "Por ter conseguido aquele chá especial do exterior para sua mãe? Eu sei que você disse que ela não queria incomodar ninguém com a doença dela, mas eu só queria ajudar..."
A expressão de Heitor se suavizou. Ele a puxou para um abraço, bagunçando seu cabelo. "Claro que não. Não seja boba. Foi uma boa desculpa. Obrigado." Ele olhou uma última vez na direção em que eu havia desaparecido, uma emoção estranha e indecifrável em seus olhos.
Fabiana viu aquele olhar. Ela sentiu a sutil mudança em sua atenção. E naquele momento, uma determinação fria e dura se instalou em seu coração. Ela sabia que eu era apaixonada por Heitor. Era pateticamente óbvio. E ela não daria, sob nenhuma circunstância, a menor chance para eu reconquistá-lo.
Alguns dias depois, meu celular vibrou com uma mensagem de Fabiana.
*Oi Clara! Eu e umas amigas vamos fazer compras no centro. Você devia vir! Vai ser divertido :) bjs*
Olhei para a mensagem, uma onda de náusea me percorrendo. A última coisa que eu queria era passar uma tarde com a mulher que estava vivendo meu sonho.
"Você deveria ir", disse minha mãe, espiando por cima do meu ombro. "É bom sair. E é importante se dar bem com a namorada do seu melhor amigo."
O tremor na minha voz era inegável quando respondi. "Ok, mãe." Seu rosto se suavizou com uma pontada de simpatia. Ela sabia o quanto isso estava me custando.
A tarde de compras foi uma tortura especial. Fabiana e suas duas amigas, ambas cópias dela em suas roupas de grife e expressões entediadas, flutuavam de uma boutique de luxo para outra. Eu as seguia, uma sombra silenciosa e desajeitada.
Fizemos uma pausa em um café chique. As garotas tagarelavam, a conversa delas um turbilhão vertiginoso de fofocas e nomes de marcas.
"Ah, Fabi, esse colar é divino!", uma delas, uma loira chamada Tiffany, exclamou. "É novo?"
A mão de Fabiana foi para o delicado pingente de diamante em seu pescoço. "O Heitor me deu ontem à noite", disse ela, sua voz pingando de orgulho casual. "Ele não é o mais fofo?"
Senti uma pontada familiar. Heitor nunca me dera joias. Nenhuma vez em dezessete anos.
Nesse momento, o celular de Fabiana tocou. Seu rosto se iluminou. "É ele!", ela gritou, atendendo com um meloso: "Oi, meu bem."
Tentei ignorar o lado dela da conversa, concentrando-me em mexer meu latte superfaturado, mas suas palavras eram como pequenos punhais. "Ah, que incrível! ... Sim, claro, estarei lá. ... Eu também te amo."
Ela desligou, o rosto brilhando. "A mãe do Heitor quer me conhecer", ela anunciou para a mesa. "Ela me convidou para jantar lá hoje à noite."
"Meu Deus, você vai conhecer os pais!", Tiffany gritou. "O casamento vai rolar com certeza!"
Senti o ar sair dos meus pulmões. Casamento. A palavra ecoou no silêncio repentino da minha mente. Eu provavelmente seria convidada para ser madrinha. O pensamento era tão grotescamente doloroso que quase ri alto.
Os olhos de Fabiana, afiados e calculistas, pousaram em mim. "Você devia ir comigo visitar a Sra. Reis um dia, Clara. Tenho certeza de que ela adoraria te ver." Era um jogo de poder, uma forma de me lembrar de seu novo e íntimo lugar na família Reis, um lugar que costumava ser meu.
"Estou um pouco ocupada com as provas", eu disse, minha voz tensa. "Mas, por favor, diga a ela que mandei um oi."
"Claro", disse Fabiana, seu sorriso não alcançando os olhos. "Com certeza direi. Talvez da próxima vez o próprio Heitor possa te receber." A implicação era clara: Ele é o anfitrião agora, e você é a convidada.
Senti uma onda de vergonha e inadequação me invadir. Fabiana era linda, confiante e de um mundo de riqueza e influência que eu só podia imaginar. O que eu tinha a oferecer em comparação? Um amor quieto e constante que ele nem queria.
Fabiana e suas amigas se levantaram para sair para o jantar. Eu estava prestes a juntar minhas coisas e ir para casa quando Tiffany, a loira, "acidentalmente" tropeçou.
Sua xícara cheia de café fervente voou pelo ar e atingiu em cheio meu peito e meu braço.