Fui ao advogado da família para uma liberação de viagem de rotina. Em vez disso, recebi uma sentença de divórcio. A tinta tinha três anos.
Enquanto eu bancava a esposa perfeita do Don, Dante tinha se divorciado de mim em segredo. Um dia depois do nosso quinto aniversário.
Vinte e quatro horas depois, ele se casou legalmente com a babá, Jade, e nomeou o filho dela, um garoto de olhos cruéis, como seu herdeiro.
Voltei para casa para confrontá-lo, mas o menino jogou sopa de tomate fervendo em mim.
Dante nem olhou para as minhas queimaduras. Ele aninhou o menino nos braços e me olhou com puro ódio, alimentado por drogas, me chamando de monstro por perturbar seu "filho".
O golpe final veio em uma garagem de shopping. Um carro acelerou em nossa direção.
Dante não me puxou para um lugar seguro. Ele me empurrou na frente do veículo, usando meu corpo como um escudo humano para proteger sua amante.
Caída e destroçada no asfalto, percebi que Alina Vitale já estava morta para ele. Então, decidi oficializar.
Organizei um voo particular sobre o Atlântico e me certifiquei de que não haveria sobreviventes.
Quando Dante chorava sobre os destroços, percebendo tarde demais que havia sido envenenado contra mim, eu já estava na França.
A Canária estava morta. A Ceifadora havia renascido.
Capítulo 1
Ponto de Vista de Alina
A tinta na sentença de divórcio tinha três anos, mas o papel cortou meu polegar como uma lâmina nova enquanto eu o segurava.
Eu estava sentada na poltrona de couro de espaldar alto, de frente para o Dr. Rossi, o advogado da família que me conhecia desde que eu era uma criança de tranças. Ele estava suando. Uma gota de suor escorria por sua têmpora grisalha, traindo o silêncio aterrorizante que sufocava a sala.
Eu vim aqui simplesmente para renovar minha autorização de segurança para viagens internacionais, um procedimento de rotina para a esposa de um Don. Em vez disso, eu encarava meu próprio apagamento.
"Isso é um erro", eu disse, minha voz soando oca, como se viesse de muito longe. "Nós somos católicos. Somos da Família. Nós não nos divorciamos."
Dr. Rossi enxugou a testa com um lenço trêmulo. Ele não conseguia me encarar.
"Foi protocolado discretamente, Dona Alina. Selado pelos mais altos juízes de São Paulo. O Don insistiu em sigilo absoluto."
Olhei para a data novamente. Três anos atrás. O dia seguinte ao nosso quinto aniversário. O dia seguinte em que acordei sozinha em nossa cama, informada pelas empregadas que Dante tinha um assunto urgente.
"E isso?" Apontei para o segundo documento.
Uma certidão de casamento. Datada de vinte e quatro horas após o divórcio.
Dante Vitale. Jade Russo.
Meu marido não era meu marido. Por três anos, eu vivi uma mentira, desempenhando o papel de esposa dedicada, organizando seus jantares, aquecendo sua cama, tudo enquanto ele estava legalmente ligado à mulher que chamava de babá.
Dr. Rossi deslizou um terceiro documento pela mesa de mogno, seus movimentos hesitantes.
"Ele também reconheceu formalmente o menino, Léo, como seu herdeiro de sangue. A linhagem Vitale continua através dele."
O mundo girou. Agarrei os braços da cadeira para não deslizar para o chão. Léo. O menino com olhos cruéis e a mãe que misturava chás de ervas que cheiravam a enxofre e podridão.
Uma náusea me subiu pela garganta. Lembrei-me do dia do meu casamento. Lembrei-me de Jade, de pé no fundo, sorrindo enquanto eu bebia o vinho que tinha um gosto estranho, metálico, errado. Lembrei-me da doença que se seguiu, dos meses de agonia, e do médico me dizendo que meu útero tinha secado. Eu era estéril.
Lembrei-me de Dante segurando minha mão naquela época. Ele havia jurado uma Vendetta contra qualquer um que tivesse me machucado. Ele havia prometido queimar o mundo por mim.
Agora eu sabia que ele havia se casado com a incendiária.
Levantei-me. Minhas pernas pareciam chumbo, mas minha coluna era de aço. Era a única coisa que me mantinha inteira.
"Vou levar estas cópias", eu disse.
Dr. Rossi parecia querer me impedir, oferecer algum pedido de desculpas inútil, mas ele sabia que não devia. Saí do escritório e entrei no carro blindado que me esperava. O trajeto de volta para a mansão foi um borrão de ruas cinzentas de São Paulo. Eu não sentia nada. O choque era um anestésico frio, entorpecendo a amputação da minha vida.
Quando entrei no hall, a casa parecia diferente. Não era mais meu santuário. Era um palco, e eu era o adereço que havia ficado mais tempo do que deveria.
Vozes vinham da sala de estar. Parei do lado de fora das portas abertas, permanecendo nas sombras.
Dante estava lá. Ele andava de um lado para o outro, seus movimentos bruscos, suas pupilas dilatadas. Jade estava sentada no sofá de veludo, observando-o com a paciência de um predador.
"Ela está fazendo perguntas, Dante", disse Jade suavemente. Sua voz era como xarope com veneno. "Ela foi ao Rossi hoje."
Dante passou a mão pelo cabelo. Ele parecia maníaco, um homem se desfazendo.
"Não importa. Ela não é nada. Você é a Rainha, Jade. Sempre foi."
Ele caiu de joelhos diante dela, enterrando o rosto em seu colo. Foi uma demonstração de submissão que revirou meu estômago. Dante Vitale não se ajoelhava. O Ceifador não implorava. Mas este homem, esta casca de marido, a estava adorando.
"Eu preciso de você", ele murmurou no tecido do vestido dela, sua voz falhando. "O chá, Jade. Minha cabeça está explodindo."
Ela acariciou seu cabelo, seus olhos se levantando para encontrar os meus no corredor. Ela sabia que eu estava lá. Ela sorriu.
"Logo, meu amor", disse ela para ele, olhando diretamente para mim.
Eu recuei. Refugiei-me na ala de hóspedes, o único lugar que parecia remotamente seguro. Minha mão foi para meu estômago liso, sentindo a dor fantasma dos filhos que eu nunca teria. Eles haviam tirado meu marido, meu título e meu futuro.
Peguei meu celular descartável da bolsa. Minhas mãos estavam firmes agora. O tremor parou quando a esperança morreu.
Disquei um número que nunca havia usado, mas que memorizei por uma vida inteira.
"Lucas", sussurrei quando a linha se abriu.
"Alina." A voz dele era profunda, áspera como cascalho. "Por que está ligando nesta linha?"
"Preciso de um 'faxineiro'", eu disse, encarando a parede em branco.
"Quem é o alvo?", ele perguntou.
"Eu."
Ponto de Vista de Alina
Lucas ficou em silêncio na linha por um longo e tenso momento.
Eu podia ouvir o zumbido distante e caótico de uma rua movimentada do lado dele, um contraste brutal com a quietude sepulcral do meu quarto.
"Explique", ele finalmente exigiu, sua voz baixa.
"Eu estou morta aqui, Lucas", sussurrei, agarrando o telefone. "Se eu ficar, eles vão me matar. Ou eu vou me matar. Preciso desaparecer."
Ouvi o clique metálico de um isqueiro, seguido pelo som de uma expiração forte.
"O Ceifador vai virar esta cidade de cabeça para baixo se você sumir."
"Ele não vai", eu disse, meu olhar se desviando para a foto de casamento na mesa de cabeceira. O vidro estava rachado como uma teia de aranha de onde havia sido jogado. "Ele tem uma substituta na fila. Um novo herdeiro. Eu sou apenas uma ponta solta esperando para ser cortada."
Contei tudo a ele: os papéis do divórcio, o casamento de fachada, o brilho químico que eu via nos olhos de Dante.
"Preciso de um acidente", eu disse, minha voz tremendo. "Destruição total. Um descarte clássico na rota para o litoral."
"Considere feito", respondeu Lucas, seu tom mudando para um gelo profissional. "Esteja na pista particular em duas horas. Tenho um esconderijo em Provença preparado para você."
Desliguei. Provença. Campos infinitos de lavanda. Um lugar onde o nome Vitale não tinha peso, nem sangue.
Comecei a fazer as malas com uma eficiência frenética. Sem roupas, sem joias. Levei apenas dinheiro e o passaporte falso que Lucas havia forjado para mim anos atrás, uma garantia que eu rezei para nunca usar.
Eu estava fechando o zíper do forro da mala quando a maçaneta da porta girou.
Empurrei a mala para debaixo da cama no momento em que a governanta, Maria, entrou. Ela parecia pálida, as mãos torcendo o avental.
"O Don está perguntando por você, Dona Alina."
Assenti, recompondo-me. Verifiquei meu reflexo no espelho; eu parecia pálida, fantasmagórica. Apropriado para uma mulher caminhando para seu próprio funeral.
Saí e desci a grande escadaria. Dante estava esperando no hall de entrada. Jade estava ao seu lado, a mão dela pousada em seu antebraço com uma possessividade que revirou meu estômago.
O menino, Léo, brincava com um carrinho no chão de mármore frio.
Dante olhou para cima. Por um instante, vi o homem que eu amava lutando para emergir através da névoa, confuso, com dor. Então o brilho químico voltou, engolindo-o por completo.
"Aí está você", disse ele. Sua voz estava muito alta, muito maníaca.
Dei os últimos passos lentamente. Senti o cheiro imediatamente, o perfume dela. Era enjoativo, doce e pesado, agarrado ao paletó dele como uma segunda pele.
"Quem são nossos convidados?", perguntei, mantendo meu rosto como uma máscara.
Dante piscou, como se estivesse genuinamente surpreso por eu ter que perguntar.
"Esta é Jade. A nova babá. E este é Léo. Estou o acolhendo como meu protegido. Ele precisa de uma figura paterna."
Jade sorriu de lado. Foi uma expressão pequena e afiada, como uma lâmina deslizando para fora da bainha.
"Prazer em conhecê-la, Sra. Vitale", disse ela, enfatizando o título que ela já havia roubado.
Léo ergueu os olhos do carrinho. Ele tinha dez anos, mas seus olhos não continham inocência infantil.
"Oi, mamãe", ele zombou.
A palavra foi um tapa calculado. Jade soltou uma risadinha pequena e delicada.
"Ele só está brincando", ela arrulhou.
Senti a bile subir pela minha garganta, queimando. Virei-me para subir as escadas, minhas mãos tremendo ao lado do corpo.
"Espere", ordenou Dante. Seu tom mudou, tornando-se agudo e autoritário. "Léo fez o almoço para você. Para começarmos com o pé direito."
Léo se levantou, tirando uma poeira imaginária dos joelhos. Ele correu para a cozinha e voltou um momento depois com uma tigela fumegante de sopa de tomate. Ele caminhou em minha direção, uma expressão estranha e ansiosa estampada em seu rosto.
"Aqui", disse ele.
Estendi a mão para pegar a tigela, com a intenção de colocá-la na mesa mais próxima e sair.
Mas no momento em que meus dedos tocaram a cerâmica, a expressão de Léo se contorceu. Ele empurrou a tigela para a frente com uma força cruel.
O líquido fervente espirrou sobre minha mão e pulso.
Eu ofeguei, a dor foi instantânea, lancinante. A tigela se estilhaçou no chão, a sopa vermelha parecendo um respingo de sangue arterial no mármore branco.
Antes que eu pudesse sequer respirar, Léo se jogou para trás no chão.
"Ela me queimou!", ele gritou, agarrando seu braço ileso, o rosto contorcido em uma agonia falsa. "Ela jogou em mim!"
Ponto de Vista de Alina
As portas duplas do escritório bateram contra o painel. Dante entrou correndo, com Jade logo atrás.
Ele não olhou para mim. Nem sequer olhou para a pele vermelha e empolada da minha mão. Ele foi direto para o menino que se contorcia no chão.
"Léo!", Dante rugiu, pegando a criança nos braços.
"Ela fez de propósito!", Léo soluçou, enterrando o rosto no peito de Dante. "Ela disse que me odeia!"
Dante se virou para mim. Seus olhos eram poços negros, as pupilas totalmente dilatadas. Não havia reconhecimento neles, nenhuma memória dos dez anos que passamos juntos. Havia apenas a fúria alimentada por drogas de um protetor defendendo sua matilha.
"Qual é o seu problema?", ele cuspiu.
Segurei meu pulso, a pele se descascando em tiras raivosas. "Dante, ele derrubou a sopeira", gaguejei. "Ele me queimou."
"Mentirosa!", gritou Jade. Ela correu para o lado de Dante, acariciando o cabelo de Léo. "Ela está com ciúmes, Dante. Com ciúmes porque ela é defeituosa. Porque não pode te dar o que eu te dei."
O olhar de Dante caiu para o meu estômago. A expressão de nojo em seu rosto estilhaçou o que restava do meu coração.
"Você é um monstro", disse ele, sua voz baixa e venenosa. "Você ataca uma criança por causa do seu próprio fracasso?"
"Meu fracasso?", sussurrei, minha voz tremendo. "Você jurou me proteger."
"Eu protejo minha família", Dante rosnou. "Suma da minha frente. Se você tocar nele de novo, Alina, vou esquecer quem você foi para mim."
Ele virou as costas. Ele se afastou, carregando o menino que sorria maliciosamente por cima de seu ombro. Jade o seguiu, parando na porta para olhar para trás, para mim.
Ela não disse uma palavra. Apenas sorriu, uma volta da vitória em silêncio.
Fiquei ali, congelada, por um longo tempo. A sopa estava secando, pegajosa e dura na minha pele. A queimadura latejava no ritmo do meu coração, uma agonia distinta e rítmica.
Fui até a pia da cozinha. Deixei a água fria correr sobre minha mão. Enrolei-a em uma toalha. Fiz tudo mecanicamente, como um robô programado apenas para sobreviver.
Lembrei-me de uma vez em que um garçom derramou vinho no meu vestido. Dante quebrou os dedos do homem. Agora, eu era a inimiga.
Subi para o meu quarto. Sentei-me na beirada da cama que costumávamos compartilhar.
Uma hora depois, a porta se abriu. Dante estava lá. Ele parecia exausto, a energia maníaca se transformando em um colapso químico.
"Vou dormir no quarto do Léo hoje", disse ele. "Ele está traumatizado."
Eu não olhei para ele. Encarei o curativo branco na minha mão.
"Tudo bem", eu disse.
Ele demorou. Talvez esperasse uma briga. Talvez, no fundo, o verdadeiro Dante estivesse gritando para sair. Mas as drogas eram mais fortes.
"Bom", disse ele.
Ele saiu.
Deitei-me no escuro. As paredes da mansão eram grossas, mas não o suficiente.
Ouvi a porta da ala de hóspedes se abrir. Ouvi a voz de Jade, baixa e murmurante. Ouvi o ronco profundo de Dante.
E então ouvi o rangido rítmico das molas da cama. Os sons do meu marido levando outra mulher para a cama na casa que meu pai construiu.
Eu não chorei. Lágrimas eram para os vivos. Meu casamento era um cadáver, e eu só estava esperando o enterro.