Para o aniversário de Ryan Owen, Nicole Evans escolhera um presente cuidadoso.
Ao se aproximar da sala privativa onde ele estava com os amigos, vozes chegaram até ela.
"Agora que Olivia voltou, vocês dois podem finalmente ficar juntos, Ryan. Mas a Nicole é teimosa que só. E se ela causar problemas?"
Através do vidro, a penumbra dificultava enxergar o rosto de Ryan, mas seu tom era inconfundivelmente frio. "Ela é só uma criança. O que diz não importa."
"A Nicole pode ser jovem, mas todo mundo vê que ela gosta de você. Quer dizer que nunca pensou nela assim?"
A pergunta incisiva de Vernon Clayton acelerou o coração de Nicole.
Ela se concentrava para capturar cada palavra, desesperada para saber se Ryan alguma vez nutrira por ela algum sentimento romântico.
Reclinado no centro do sofá, Ryan transparecia uma confiança inabalável, serena e autossuficiente.
Após uma pausa calculada, respondeu, a voz gelada e inflexível: "Pessoal, não alimentem esse tipo de conversa. A Nicole é jovem e impulsiva. Para mim, ela é minha sobrinha. Nunca a vi de outra forma."
As palavras a atingiram como uma lâmina, cortando-lhe o peito.
Alheio à sua presença do lado de fora, Vernon continuou com a provocação: "Tá bom, tá bom, já entendemos. A Olivia é a única que importa pra você. A Nicole nunca ocuparia o lugar dela."
Ryan acenou levemente. "Só tomem cuidado para não mencionar a Nicole perto da Olivia. Não quero confusão."
"Precisamos mesmo falar dela?" Vernon soltou um suspiro pesado, o tom carregado. "Com a personalidade que tem, a Nicole não vai ficar de braços cruzados vendo você acabar com outra."
"Pois é", outro homem acrescentou, rindo, claramente se divertindo. "Ela tem o quê, vinte anos agora? Por que não fica com as duas? A Nicole não tem para onde ir e vive pendurada em você. Provavelmente aceitaria sem hesitar."
Os olhos de Ryan afiaram-se como gelo, e o olhar que lançou foi suficiente para silenciar a sala. "Que tipo de sujeira é essa que estão falando? A única razão pela qual pedi ao meu irmão para adotá-la foi por pena. Meu coração sempre pertenceu à Olivia. Não digam coisas que me dão arrepio."
Os dedos de Nicole se cerraram na maçaneta com tanta força que doeram. Por um instante, mal conseguiu respirar.
Era isso, então. Era assim que ele via seus sentimentos. Algo repulsivo.
Ela chegara pronta para entrar, talvez até para se defender, mas a força a abandonou de repente.
Sem dizer uma palavra, baixou os olhos, engoliu o nó na garganta e se afastou.
Lá fora, a rua estava silenciosa e vazia, estendendo-se interminavelmente à sua frente.
A exclusividade do clube à beira-rio fazia com que nem um único táxi esperasse.
Com o presente apertado contra o peito, Nicole caminhou apressada pela calçada deserta.
A conversa de Ryan com os amigos ecoava em sua mente.
Depois de tantos anos, a que exatamente ela estivera se agarrando?
Um riso amargo escapou-lhe dos lábios enquanto sussurrava para si mesma: "Nicole, você foi mesmo tão tola?"
Lágrimas silenciosas rolaram por seu rosto. Ela nem se deu ao trabalho de enxugá-las.
No cruzamento seguinte, um feixe de faróis a ofuscou, a claridade ferindo seus olhos já doloridos. Naquele momento, sua mão se abriu.
O presente - um par de abotoaduras caras, comprado com seu próprio bônus - caiu no chão com um baque surdo e definitivo. Agora, não significavam mais nada para ela.
Respirando fundo, Nicole pegou o celular e fez uma ligação.
"Kyson, decidi. Aceito sua proposta. Vamos nos casar."
Kyson Blake era cinco anos mais velho, um vizinho de infância do círculo da família Owen. Após o ensino médio, fora para o exterior e só recentemente retornara a Aslesália.
Na última vez que se viram, Kyson falara abertamente sobre as pressões que enfrentava - expectativas, casamentos arranjados, os negócios da família. Sua proposta fora pragmática, mas também acolhedora.
"Nicole, você sabe como funciona. Você e eu estamos destinados a casamentos que servem às nossas famílias, não a nós mesmos. Se vamos ser empurrados para algo, por que não escolher um ao outro - alguém que entende? Que tal a gente simplesmente casar?"
Quando Kyson fizera a sugestão pela primeira vez, Nicole apenas rira, sem levar a sério. Mas naquela noite, a ideia não parecia nada absurda.
Ela olhou por cima do ombro para o clube, suas luzes de neon pulsando em explosões ousadas e coloridas - cada lampejo um eco dos resquícios de sua afeição por Ryan.
"Nos conhecemos desde criança. É bem melhor do que casar com um estranho. Se você ainda estiver disposto e sua família estiver com pressa, podemos oficializar isso logo", disse ao telefone.
Kyson ficou pasmo com a rapidez de sua decisão. Houve uma pausa, então ele respondeu: "É só dar o sinal, e eu vou te buscar. Quando estará pronta?"
Seu olhar desviou-se para a sacola de presente esquecida na calçada. "Deixe-me resolver os arranjos do meu estágio primeiro."
Se fosse se casar com Kyson, não havia motivo para permanecer em Jucrídio.
Desligou e caminhou por um tempo que pareceu uma eternidade até finalmente conseguir um táxi de volta para a Propriedade Pôr do Sol.
A propriedade ficava no coração da cidade, um local privilegiado a apenas cinco quilômetros da casa onde nascera - antes de tudo desmoronar.
Aos nove anos, a vida de Nicole despedaçou-se quando a empresa da família faliu. Oprimidos pelas dívidas crescentes e pelo assédio incessante dos credores, seus pais perderam as esperanças e a deixaram completamente sozinha. Até a casa deles fora destruída, restando apenas cinzas.
Os credores não tiveram piedade, e por um tempo, pareceu que nem a pequena Nicole estava a salvo de suas garras.
Ryan interveio quando ninguém mais o fez.
Ele tinha apenas dezessete anos na época, mas manteve-se firme diante de seu irmão mais velho, Sawyer Owen. "Não posso ser o tutor legal dela sem uma esposa. Você a adota no papel - eu cuido de todo o resto."
Ryan manteve essa promessa. Deu a Nicole o melhor de tudo, protegendo-a e mimando-a à medida que os anos passavam.
Mas, para ela, ele nunca foi verdadeiramente um tio, por mais que usasse o título.
Nicole cresceu acreditando que ela e Ryan eram feitos um para o outro.
No seu décimo oitavo aniversário, disse-lhe que gostava dele.
Ryan a cortou, chamando-a de jovem demais, dizendo que havia distância demais entre eles, insistindo que só poderia tratá-la como sobrinha.
Contudo, mesmo erguendo esse muro, nunca permitiu que outro homem se aproximasse dela.
Nicole confundiu seu protecionismo com algo mais, convencendo-se de que era ciúme - de que ele apenas esperava que ela ficasse mais velha.
Ela acreditava sinceramente que um dia, se esperasse o suficiente, tudo se encaixaria para eles.
Enquanto a cidade desfilava numa névoa de luzes e sombras pela janela, Nicole ficou ali, perdida em pensamentos. Lágrimas marejaram seus olhos por razões que não conseguia nomear.
Percebeu que envelhecer não amenizara a dor, e desprender-se do amor era uma tristeza à parte.
Naquele momento, fez a si mesma a promessa silenciosa de finalmente libertar Ryan de seu coração.
Pouco depois, Nicole finalmente chegou em casa. Enxugou as últimas lágrimas, reprimiu todos os sentimentos e subiu as escadas sem uma palavra. Um banho quente acalmou seus nervos, e logo ela se deixou levar pela escuridão da cama.
Estava certa de que o sono a evitaria, mas, em vez disso, dormiu mais profundamente do que esperava. Na manhã seguinte, acordou com barulhos altos ecoando pela casa, como se alguém estivesse reorganizando a cozinha inteira.
Depois de se vestir, Nicole seguiu o ruído até o andar de baixo, onde ele ficava ainda mais agudo e persistente.
Ainda sonolenta, bocejou e dirigiu-se à cozinha, supondo que a empregada já estivesse a postos. "Você acordou bem cedo..."
A voz sumiu no instante em que viu a pessoa parada ali.
Uma mulher movia-se entre o fogão e a bancada, vestida de branco, um avental creme amarrado com precisão na cintura. Os cabelos longos estavam presos com uma pinça elegante, e tudo nela parecia cuidadosamente arrumado.
Nicole parou, diante do primeiro amor de Ryan, da mulher que ele nunca conseguira verdadeiramente esquecer. Olivia Marsh.
Olivia virou-se com um sorriso radiante, como se pertencesse àquele lugar. "Nicole, você acordou! Eu ia terminar o café e depois te chamar. Não achei que fosse acordar tão cedo."
Nicole reprimiu um riso amargo. Com aquele barulho todo, teria que ser surda para continuar dormindo.
Respirou fundo para se recompor e forçou um sorriso fraco. "O que a traz aqui tão cedo?"
Olivia tocou os lábios, fingindo modéstia. "O Ryan exagerou na bebida ontem. Trouxe ele para casa, ajudei a limpá-lo e, já que você estava sozinha, pensei em fazer o café para nós."
Então... os dois haviam passado a noite juntos.
Qualquer vestígio de polidez no rosto de Nicole esvaiu-se, e a voz esfriou. "Por acaso eu pedi isso?"
Nesse momento, uma voz aguda veio de trás dela. "Nicole, foi essa a atitude que aprendeu comigo? Peça desculpas!"
As costas de Nicole se enrijeceram. Após um momento de hesitação, ela se virou lentamente.
Ryan acabara de sair do banho, com a água ainda escorrendo dos cabelos. Mesmo de pijama cinza-escuro, estava tão elegante e bonito como sempre. Se não fosse pela expressão severa, poderia facilmente ser o homem ideal de qualquer mulher.
Nicole manteve os lábios firmemente cerrados e virou a cabeça, decidida a não dizer nada.
O olhar de Olivia oscilou entre os dois, então ela lançou um olhar brincalhão para Ryan antes de entrelaçar o braço no dele. "Por que está sendo tão agressivo? Nicole acabou de acordar. Quem não fica de mau humor de manhã? Você também não é muito gentil, sabia?"
As palavras soaram como uma repreensão branda, mas o tom de brincadeira na voz suavizou a aresta.
O rosto de Nicole perdeu a cor, e ela não conseguia se livrar da sensação de que não pertencia àquele lugar.
Embora o humor de Ryan não tivesse melhorado totalmente, a tensão no ambiente diminuiu um pouco. Ele deu um tapinha no ombro de Olivia, oferecendo um pouco de conforto, e então olhou para Nicole com um olhar sério. "Venha comigo ao escritório."
Sem dizer uma palavra, Nicole o seguiu.
Olivia falou atrás deles com uma expressão preocupada: "Você até é o tio dela, mas não precisa ser tão duro. Tente falar com Nicole com mais gentileza."
Ao ouvir isso, Nicole soltou uma risada sarcástica para si mesma. Eles ainda nem estavam casados, e Olivia já estava fazendo o papel de esposa.
Distraída pelos próprios pensamentos, Nicole não percebeu que Ryan havia parado até esbarrar nele, o impacto fazendo o nariz formigar.
"O que está te deixando tão perdida?"
A voz grave de Ryan ecoou sobre ela, e Nicole ergueu os olhos para encontrar o olhar frio dele fixo nos dela.
Quase sem pensar, retrucou: "Você não sabe o que está na minha mente?"
Fosse o último lampejo de esperança ou apenas curiosidade sobre a reação dele, as palavras escaparam.
As sobrancelhas de Ryan se franziram. Ele a observou por um longo e silencioso momento antes de finalmente falar. "Nicole, já te avisei para não alimentar ideias equivocadas. Você está prestes a se formar, e vou garantir que encontre um namorado adequado, mas nunca serei eu. Sou seu tio, e em breve Olivia será minha esposa. Você precisa tratá-la com o mesmo respeito que me trata. Entendeu?"
Era a primeira vez que Nicole o ouvia falar com tanta clareza.
Ele não só não compartilhava dos sentimentos dela, como estava determinado a arranjar seu futuro com outra pessoa.
Isso se alinhava perfeitamente ao que Kyson dissera.
O que ela estava esperando?
Não fora ela mesma quem tentara deixar tudo para trás?
Nicole soltou um suspiro lento, percebendo que não era tão difícil deixar para lá quanto imaginara.
"Entendi, tio Ryan", respondeu, com um aceno de cabeça.
As sobrancelhas de Ryan se arquearem, surpreso com a rapidez com que ela aceitara as palavras.
Geralmente, ela só o tratava com tanta formalidade quando queria ser perdoada depois de aprontar, e sempre retrucava.
Acreditando que Nicole finalmente aprendera a lição, Ryan suavizou a expressão. "Sabe, Olivia se esforça para ser gentil com você. Ela até preparou o café da manhã hoje. Tente não ser tão fria com ela, está bem?"
Nicole não pôde deixar de pensar que, mesmo se Olivia não tivesse cozinhado, Ryan teria feito. Além disso, comida era a última coisa em que pensava. Mesmo assim, manteve os pensamentos para si e falou: "Está bem. Vou me dar bem com ela."
A mudança na atitude deixou Ryan inquieto. Ele a observou por um longo momento, como se procurasse algo mais a dizer, antes de perguntar: "Por que não apareceu ontem à noite?"
Ontem fora o aniversário de vinte e oito anos dele. Nicole fora à boate, mas não entrara na sala privada.
Pensando nisso, respondeu calmamente: "Houve um seminário na faculdade que se estendeu até tarde. Fiquei exausta, então fui direto para casa. Feliz aniversário, tio Ryan."
Tudo o que queria agora era resolver as pendências e seguir em frente silenciosamente, sem razão para prolongar a conversa ou dar mais explicações.
Ryan acenou com a cabeça, hesitou por um momento, depois estendeu a mão e deu um tapinha na cabeça dela. "Se precisar conversar, pode me procurar. Não guarde as coisas para si. Vá comer alguma coisa."
Nicole não esperava se ver naquela situação, tomando café da manhã com o homem que amava, comendo a comida feita pela mulher que ele amava.
Por um instante, pensou em se desculpar, mas percebeu que, se estivesse realmente pronta para deixar para lá, conseguiria lidar com cenas como aquela.
Além do mais, logo deixaria a cidade.
Terminado o café, Ryan subiu para se trocar.
Nicole pretendia voltar ao quarto para arrumar as coisas. Mais tarde, teria que se encontrar com o orientador na faculdade para discutir o estágio em Aslesália.
"Nicole."
A voz a fez parar.
Ao se virar, viu Olivia na porta da cozinha, de luvas de borracha, apoiada no batente com uma postura à vontade, a imagem perfeita de uma mulher no comando.
Nicole sentiu um nó na garganta, mas manteve o semblante neutro ao perguntar: "O que houve?"
"Nada urgente, só queria bater um papo rápido." Olivia esboçou um sorriso suave, embora os olhos não demonstrassem afeto algum. "Soube que você sempre se destacou nos estudos, até pulou séries, não foi? Agora que a formatura está chegando, já escolheu onde fará o estágio?"
As palavras soaram gentis, mas Nicole percebeu que ela farejava informações.
Com um sorriso educado e vazio, respondeu: "Não acho que isso seja da sua conta."
Originalmente, Ryan providenciara para que ela estagiasse numa empresa do Grupo Owen. A ideia a deixara entusiasmada; imaginara trabalhar lado a lado com ele. Mas agora, nada daquilo parecia importar.
O rosto de Olivia se enrijeceu por um instante antes de forçar um sorriso. "Só queria saber de você. Afinal, Ryan é homem, e há muitas coisas que pode não se sentir à vontade para discutir com você."
Nicole quase disse que sempre confiara em Ryan para tudo, mas então lembrou que o coração dele pertencia a Olivia, não a ela. Não havia sentido em discutir.
"Entendi", disse Nicole num tom neutro.
Olivia piscou, surpresa com a falta de resistência. Após um momento de hesitação, propôs: "Você já está crescida. Não é um pouco estranho morar com Ryan? Talvez devesse vir morar comigo. Seria bom ter sua companhia."
Nicole já ouvira muitas histórias sobre vidas amorosas complicadas e assistira a dramas românticos cheios de mentiras e armações. Achava que eram exagerados, mas agora percebia que não estavam tão longe da realidade. Olivia não a convidava por bondade, só queria tirá-la da vida de Ryan.
Aquele nó familiar se formou na garganta de Nicole, latejando como uma farpa. Incapaz de se conter, aproximou-se, fitando Olivia nos olhos. "Devo ficar grata pela sua gentileza?"
Algo no olhar firme de Nicole pareceu abalar Olivia, que recuou um passo, confusa. "Não precisa disso."
De repente, o olhar dela se desviou para além do ombro de Nicole, e a voz se suavizou: "Nicole, não precisa se preocupar que vou levar Ryan embora. Ele sempre cuidará de você. Eu..."
Olivia não terminou a frase quando tropeçou no batente da porta, caindo para trás com um baque.
Nicole moveu-se instintivamente para ajudá-la, mas antes que pudesse reagir, alguém a puxou para o lado com força, fazendo-a colidir com a quina da mesa.
Ryan a encarou, com uma expressão fria e cheia de decepção. "Nicole, quanto mais velha você fica, mais cruel se torna!"
Os olhos de Ryan estavam frios e inflexíveis. Nicole ficou paralisada, sem conseguir proferir uma palavra.
A dor irradiava do lado machucado dela, e ela só conseguia observar em silêncio enquanto ele pegava Olivia com cuidado e a levava embora, deixando-a para trás.
Lágrimas quentes escorreram pelo rosto dela antes que percebesse. Nicole só funga, presa ao lugar, incapaz de se mover.
Não demorou muito para que o som distante da porta da frente se abrindo quebrasse o silêncio.
A empregada chegou, cantarolando baixinho a caminho da sala de jantar. A melodia alegre parou de repente quando ela avistou Nicole. "Nicole, o que foi? Por que está chorando assim?"
Aquela pergunta simples fez com que ela perdesse o último resto de compostura. As palavras saíram trêmulas da boca de Nicole: "Pode me ajudar? Estou com muita dor no lado."
A mulher não perdeu tempo. Ligou para o síndico pedindo um carro e rapidamente levou Nicole ao hospital mais próximo.
Depois de uma bateria de exames, os resultados trouxeram um certo alívio: nada grave fora danificado.
"Evite bater na cintura por um tempo e lembre-se de passar a pomada regularmente." O médico olhou para Nicole, notando o rosto jovem. "Podem aparecer alguns hematomas feios, mas vão sumir logo. Não se preocupe."
Nicole agradeceu em silêncio e saiu com a empregada.
Lá fora, a mulher se virou para ela. "Quer que eu ligue para o senhor Martins?"
"Não precisa."
Nicole imaginou que Ryan devia estar ocupado cuidando de Olivia, e era improvável que ele se preocupasse com ela naquele momento.
Um sorriso amargo lhe surgiu nos lábios enquanto torcia a cintura devagar, sentindo a dor ter aliviado um pouco. Entregou a pomada à empregada e disse baixinho: "Pode voltar. Vou para a faculdade."
A mulher hesitou, a preocupação estampada no rosto. "Tem certeza que vai ficar bem?"
"O médico disse que não é nada sério, nenhum osque quebrou. Vou me virar."
Foi preciso insistir um pouco, mas a empregada finalmente concordou em ir embora. Sozinha no banco de trás do carro, uma onda de solidão invadiu Nicole.
Ela morava na casa de Ryan desde criança, sempre sentindo-se protegida de qualquer perigo. Mas agora, quando realmente precisava de alguém, o único conforto vinha da empregada.
Todos os relacionamentos acabam se distanciando, suspirou ela por dentro. O dela com Ryan só tinha acabado um pouco mais cedo.
Mais tarde, depois de entregar a papelada, Nicole informou ao orientador sobre a intenção de estagiar em Aslesália.
O orientador piscou, surpreso. "Aslesália? É tão longe daqui. Pensei que você não aguentaria a ideia de deixar seu tio e que ia entrar na empresa dele. Ele não ficaria preocupado com você indo para tão longe?"
Nicole hesitou, sem saber como explicar a relação complicada dela com Ryan. Depois de uma pausa, respondeu: "Não somos parentes de sangue, e não posso ficar dependendo dele para sempre. Vou fazer vinte e um anos em breve. Já está na hora de aprender a me virar sozinha. Ele não tem motivo para se opor."
O orientador ponderou as palavras dela e soltou um suspiro suave. "Sabe, ninguém precisa me contar o quanto seu tio se importa com você. Todo mundo no campus vê, professores e alunos. Mesmo agora que você está quase adulta, ele ainda aparece para te buscar, como se estivesse te protegendo de qualquer perigo. Mas você está certa em querer crescer por conta própria. Tem muito a aprender fora daqui. Acredito mesmo que você vai se dar bem, não importa para onde vá. Estou torcendo por você."
Nicole acenou agradecida e ficou mais alguns minutos conversando antes de deixar o campus.
Seus dias na faculdade não foram muitos, mas as palavras do orientador trouxeram lembranças.
No primeiro ano, Ryan até comprou um apartamento perto do campus para poder cozinhar para ela.
Aquele tipo de cuidado parecia coisa de outra vida.
Agora, o mundo dele girava em torno de outra pessoa, alguém que ele queria amar e com quem construir um futuro. Nicole entendia que, no fundo, sua presença estava começando a pesar para ele.
Talvez se afastar fosse a melhor forma de demonstrar gratidão, um presente de despedida silencioso.
Ela tinha certeza de que Ryan estaria ocupado demais com Olivia para voltar para casa naquela noite.
Mas, ao entrar, o avistou no sofá, concentrado no notebook.
O som da porta o fez olhar. "Já voltou da aula?"
Nicole não esperava vê-lo. A empregada devia tê-lo mantido informado.
"Sim", respondeu, guardando as coisas no armário em silêncio. Depois de uma breve pausa, perguntou: "Como está a Olivia? Ela está bem?"
Ouvir o nome de Olivia fez Ryan franzir a testa, e a irritação transpareceu no rosto dele.
Nicole percebeu que ele estava prestes a repreendê-la por ter machucado Olivia de novo, então baixou a cabeça e calou-se.
Para sua surpresa, Ryan mudou de assunto. "Saí com tanta pressa mais cedo. A empregada me contou que você bateu forte na mesa. Foi feio?"
A mão de Nicole fechou-se ao lado do corpo, depois se soltou devagar. Ela fitou o chão e respondeu baixinho: "Não foi nada. Estou bem."
Ryan não acreditou nem por um segundo. Lembrou-se de que a empregada mencionara Nicole chorando, coisa que raramente acontecia. Ela sempre foi forte, então a dor devia estar insuportável.
Fechou o notebook, pousou-o na mesa e aproximou-se. "Deixa eu ver o machucado..."
Quando ele estendeu a mão, Nicole afastou-se instintivamente.
A mão de Ryan ficou pairando no ar, o gesto interrompido. A surpresa brilhou nos olhos dele com o recuo dela.
"Nicole?" A voz dele estava mais suave, conflituosa. "Sei que só pensei na Olivia naquela hora e não percebi o que você estava passando. Me desculpa, tá bom?"
Uma dor surda se instalou no peito de Nicole. Toda a preocupação dele era com a Olivia - ele nem a tinha visto.
De cabeça baixa, escondendo o rosto, Nicole respondeu num tom neutro: "Foi só um hematoma. Nada comparado ao que a Olivia sofreu. Você devia ficar com ela."
"Tem certeza que está bem?"
"Estou."
Ryan observou-a por um longo momento antes de relaxar, convencido de que ela falava sério. Conhecendo o temperamento dela, imaginou que ela teria feito um escândalo se fosse algo grave.
Ia continuar a conversa quando o celular tocou. Atendeu, e a voz dele se suavizou na hora. "Olivia? O que foi? Se machucou?", perguntou, já pegando o casaco sem hesitar. "Já estou indo."
Correu até a porta, mas parou e olhou para trás, para Nicole. "Se acontecer qualquer coisa, me avisa. Se cuida, e tenta não sair sem necessidade."
Nicole ficou em silêncio, observando enquanto ele saía apressado, ligava o carro e desaparecia na rua.
O silêncio se estendeu ao seu redor, e a cintura começou a latejar de novo.
De repente, o celular vibrou dentro da bolsa. A tela se iluminou com o nome de Kyson, e um nó se formou na garganta dela.
Atendeu, a voz marcada pela vulnerabilidade. "Kyson, me machuquei."