Isabelle
O tilintar de uma campainha na boqueta chamou minha atenção, eu caminhei até lá, pegando a nova comanda que havia sido entregue por um dos garçons. Retornei para a bancada central da cozinha que eu comandava em um restaurante na área nobre de Miami.
- Atenção, marchando. Mesa dezessete, Uma vieira, Um lagostin, Duas lagostas com molho Champagne - eu li a comanda em voz alta.
- Sim, chef - a resposta foi unânime.
Com um pequeno sorriso eu peguei um prato que tinha acabado de ser deixado sobre o balcão esperando minha aprovação, eu o finalizei com o molho de laranja, limpando qualquer resíduo antes de colocá-lo na boqueta, tocando a campainha em seguida.
Aquela era minha rotina pelos últimos dois anos, quando me tornei Chef do Le Petit Cuisine, um restaurante em Miami.
Eu adorava minha profissão mas não podia dizer que era uma vida fácil. Eu passava cerca de dez horas em pé em um ambiente quente e abafado, muitas vezes abria mão de minhas folgas e mal tinha uma vida social, toda aquela rotina estava me esgotando em um nível mentalmente perigoso, foi por esse motivo que meu terapeuta recomendou que eu tirasse no mínimo um mês de férias antes que eu acabasse tendo um colapso nervoso aos vinte e sete anos.
Mais uma vez o tilintar, fui até lá, peguei a comanda, marchei mais uma série de pratos sob o barulho constante de panelas.
- Penélope, caso você não tenha percebido, seu filet mignon está pegando fogo, acabaram as raspas de limão, quem foi que fez o mise en place hoje?
- Sinto muito, Izzy. Eu vou conseguir mais raspas - Hugo, meu sub chef avisou.
Aquela noite estava tranquila, e eu pensava que continuaria assim, mas a entrada de Cora Mitchell, a gerente do restaurante, na cozinha carregando um prato devolvido me mostrou que eu estava errada.
- Ainda estou esperando o Ceviche da mesa cinco - Eu declarei antes de me virar para a mulher, analisando um salmão perfeitamente preparado e quase intocado. - Qual o problema?
- A cliente deseja falar com você e explicar pessoalmente o que ela deseja - ela me deu um sorriso enigmático.
- Falar comigo? Cora, eu tenho muito o que fazer!
- Hugo fica no seu lugar por enquanto - ela acenou para o rapaz, praticamente me arrastando para fora da cozinha, apenas me dando tempo de retirar o avental.
Eu odiava quando aquilo acontecia, bem, não me importava tanto quando se tratava de elogios, mas esse tipo de cliente que deseja me ensinar a cozinhar é a pior parte do trabalho.
- Lembre-se de ser educada, Izzy.
- Eu sempre sou educada, Cora.
Nossa pequena discussão foi impedida de avançar quando chegamos à mesa de um típico casal de classe média alta. Aquilo não teria me incomodado tanto, se não fosse a forma como a mulher me mediu.
Eu também não pude deixar de analisá-la, seus cabelos loiros cacheados e as maçãs do rosto bem destacadas lhe concediam um ar jovial, e, adicionado a expressão debochada em seu rosto, transformaram o conjunto em algo odioso.
- Você é a chef? - Ela perguntou descrente.
- Sim, Isabella Dempsey, nossa chef há dois anos - Cora afirmou com orgulho enquanto eu aguardava pacientemente que ela me dissesse logo o que desejava.
- Mesmo? Eu jurava que o chef desse lugar seria um velho gordo, baixinho e de bigode.
- Lindsay! - o rapaz que a acompanhava murmurou parecendo constrangido.
- Bom, eu duvido muito que tenha um velho gordo baixinho e bigodudo por aí chamado Isabella Dempsey, então sim, eu sou a chef!
Eu notei o rapaz esconder um pequeno sorriso ao abaixar o rosto, enquanto Lindsay continuava com aquela mesma expressão, me encarando.
- O que eu posso fazer pela senhorita? - eu decidi terminar de uma vez com aquilo.
- Ahh sim, o meu prato estava com um gosto muito acentuado de peixe - ela declarou com uma expressão séria.
Eu permaneci encarando a mulher pelo o que pareceu uma pequena eternidade, antes de olhar em volta à procura de alguma câmera escondida.
Isso tem que ser uma pegadinha!
- Lindsay, certo?
Ela balançou a cabeça em concordância, aguardando por uma resposta, enquanto seu namorado me lançava um olhar de desculpas.
- Bom, Lindsay, você pediu salmão ao molho de limão Siciliano.
- Sim, foi o que eu pedi - Ela confirmou com um sorriso.
Eu olhei para Cora, que permanecia com aquela expressão conciliadora em seu rosto.
- Salmão é um peixe.
- Sim, mas dependendo do método de cocção ele não fica com gosto de peixe, e...
- Lindsay, o método de cocção não mudará a proteína final, eu poderia cozinhar a posta de mil maneiras diferentes e ela ainda teria sabor de peixe, porque é um peixe! - eu estava me esforçando para fazê-la compreender o quão absurdo era seu desejo.
Ela respirou fundo como se eu estivesse me recusando a cumprir um pedido simples.
- Tudo bem, Isabella Dempsey, hoje é uma noite especial para Carter e eu, e eu realmente queria que tudo saísse perfeito, então você pode me trazer outro prato que não tenha um gosto tão forte de peixe?
- Eu posso te trazer um medalhão de filet mignon com molho de vinho tinto, e te garanto que não terá nenhum gosto de peixe. Agora se me dão licença, eu preciso voltar ao trabalho - eu não dei a ela a chance de responder, me limitei a dar a costas e retornar para a cozinha, Cora me seguiu de perto após se desculpar com o casal.
Cora me alcançou assim que eu entrei na cozinha, parecendo insatisfeita com minha resposta anterior.
- Isabella, você está mesmo indo a terapia?
- Duas vezes por semana, como você exigiu - eu murmurei indo até a pia para higienizar minhas mãos após colocar mais uma vez o avental em minha cintura, alisando até que ficasse perfeitamente alinhado com o dólmã que eu vestia.
Eu senti a atenção de toda a equipe de cozinha sobre nós, mas escolhi ignorá-los.
- E você não pode dar uma resposta mais educada?
Eu me virei para a mulher com um olhar descrente. O que ela esperava que eu falasse para aquela mulher!?
- Cora, ela me pediu para tirar o gosto de peixe do Salmão! Minha resposta foi educada até demais.
Ouvi algumas risadas sufocadas pela cozinha, mas as ignorei.
- Eu juro que se você não tivesse feito meu restaurante ficar entre os melhores nos últimos anos, eu já teria te demitido - Ela murmurou.
Ela teria me demitido, essa é boa!
- Bom, o seu restaurante me levou à terapia, então o maior risco é que eu me demita! Mas para sua sorte, eu saio de férias em três dias e espero que algumas semanas no Alasca me ajude a esfriar a cabeça para conseguir lidar com pedidos estúpidos de pessoas estúpidas - eu declarei com um sorriso no rosto, recebendo em troca um revirar de olhos.
E eu estava contando as horas para poder rever Gwen, Zach e principalmente o pequeno Daniel, que no auge de seus quatro anos era a criança mais ativa e inteligente que eu conhecia. Não que eu tivesse contato com tantas crianças.
O fato é que eles eram o mais próximo que eu tinha de uma família, e ainda que a vida tenha nos levado para lados opostos do continente, nós mantínhamos contato e éramos bastante próximos.
E eu não via a hora de revê-los.
Isabelle
Chequei o horário mais uma vez para garantir que não me atrasaria. Eu precisava sair de casa em vinte minutos se não quisesse perder o meu voo até Fairbanks, onde Gwen e Zachary estavam vivendo no Alasca pelos últimos anos.
Há três anos, quando meus amigos decidiram deixar Missoula, onde vivíamos na época, eu considerei seriamente pedir um teste de sanidade, mas ao ouvir o quanto eles, principalmente Danny, tinham se adaptado bem à nova vida, eu senti que eles tinham tomado a decisão correta.
Eu sempre falava com eles e com Danny por chamada de vídeo, mas não era a mesma coisa de tê-los ao meu lado. A última vez que os vi foi há quase dois anos, quando eles decidiram vir até Miami ao saber da minha mudança, e apesar de sempre me convidarem para visitá-los, essa era a primeira vez que conseguia uma folga para isso.
Eu fechei a última mala, tendo a certeza que não tinha roupas de frio o suficiente para aguentar o inverno no Alasca, eu teria que comprar algumas peças lá. Com minhas malas em mãos eu fui até a garagem da pequena casa que eu mantinha em Miami com o meu salário como chef.
Antes que eu conseguisse tirar meu carro da garagem meu celular começou a tocar, me fazendo bufar ao ver o número estampado na tela.
- Cora...
- Dempsey, estamos com um problema com os fornecedores - ela começou, sem sequer me desejar bom dia.
- Os fornecedores? - eu franzi o cenho enquanto colocava o cinto de segurança.
- Sim, eu preciso que você...
Precisa? Eu vou embarcar daqui uma hora! Ela enlouqueceu?
- Cora, a não ser que você termine a sua frase com "se divirta muito em suas três semanas de férias no Alasca" eu não quero saber! - eu a cortei.
Aquilo era típico, não podia surgir o menor problema que fosse que ela esperava que eu resolvesse.
- Izzy, você é a chef!
- Não, pelas próximas três semanas Hugo Diaz é o chef, e eu serei apenas uma turista na terra de gelo - eu a corrigi.
Apesar de trabalhar bastante e nem me lembrar da última vez que tirei férias, eu não era o tipo de pessoa viciada em trabalho, apenas contava com um emprego que não me dava muito tempo livre.
- Mas...
- Cora, eu vou embarcar em uma hora, não posso te ajudar!
Eu encerrei a chamada sem me preocupar em esperar uma resposta. Não podia negar que me tornar chef no Le Petit Cuisine havia feito maravilhas para minha carreira, aos vinte e oito anos eu havia alcançado uma posição que muitos passavam a vida lutando.
Mas em momentos como esse, eu me perguntava se valia a pena. Muitas vezes eu cogitei a possibilidade de pedir demissão e abrir meu próprio restaurante.
Talvez até um pequeno quiosque à beira mar.
Mas afastei aqueles pensamentos, me focando no curto trajeto até o aeroporto internacional de Miami.
Cerca de meia hora mais tarde, eu liguei para Gwen, já aguardando pelo embarque.
- Por favor, por favor, por favor. Me diz que você não desistiu! - a voz da minha amiga soou ansiosa do outro lado me fazendo rir.
- Eu aposto que ela está ligando pra avisar que ficou presa no trabalho e não vai conseguir vir - Zachary zombou.
Eu não podia culpa-lo por aquele comentário, já que foi exatamente o que aconteceu no último verão, quando eu tinha prometido passar uma semana com eles. Gwen ficou tão chateada com minha atitude que passamos algumas semanas sem nos falar, mas acabamos nos resolvemos e eu prometi que passaria o natal com a família. E eu cumpriria minha promessa.
- Se você esperava que eu desse para trás, vai se decepcionar, Monaghan. Eu embarco em vinte minutos - avisei.
A animação do outro lado da linha foi palpável, me fazendo sorrir.
- Ahhh eu estou tão feliz, a gente está morrendo de saudades, principalmente o Danny. Ele está tão animado para te ver.
- Eu também. Mas você não me passou o seu endereço, eu preciso pegar o táxi.
- Nós vamos te buscar, não se preocupe. Que horas você vai pousar?
Eu pensei em negar aquela oferta, mas eu faria o mesmo por ela.
- Eu pouso às nove da manhã. Como está o clima aí? Aqui em Miami está fazendo cerca de dezessete graus e eu estou com medo de não ter roupas o suficiente - eu suspirei.
Por um momento, silêncio foi a única resposta que eu obtive, até que Zachary se manifestou.
- A gente arruma alguma coisa para você. Ainda veste o mesmo tamanho?
- Sim...
- Então não se preocupe com isso, nós não vamos deixar você congelar. Até amanhã, Izzy - Gwen garantiu.
Eu estou prestes a embarcar para o alasca em pleno inverno. É oficial, eu perdi meu juízo.
Mas eu não iria voltar atrás. Eu passaria o natal com a minha família, para variar. Ou pelo menos, a família que eu passei a considerar como minha, já que meus próprios pais estavam mais interessados em suas próprias vidas.
A verdade é que Zachary, Gwen e eu éramos apenas desajustados, vindos de lares disfuncionais que acabaram se juntando no ensino médio e nunca mais nos separamos.
Afinal, apesar da distância, o sentimento e consideração continuava o mesmo.
Eu não tinha percebido o quanto sentia falta até aquela ligação. Durante todo o tempo que estive acordada no voo, eu me peguei presa nas lembranças que me esforcei para deixar para trás, enquanto pensava o que me esperava no Alasca.
Um milhão de possibilidades passou pela minha cabeça até que eu pousasse, e nenhuma delas chegou nem perto do que me esperava. Para começar, o céu estava bastante escuro quando pousei, apesar de já passar das nove da manhã, e depois de conseguir minha mala e ir até a área de desembarque, Gwen e Zachary não estavam em lugar nenhum.
Eu olhei em volta praguejando mentalmente, até que uma pequena placa com o meu nome chamou minha atenção.
O homem que a segurava era alto, seu cabelo era curto e cuidadosamente arrepiado, seus olhos castanhos eram intensos e eu me senti corar quando seu olhar se prendeu ao meu e ele veio em minha direção.
Tudo bem, eu posso perdoar aqueles dois por não me recepcionar.
- Izzy? - um sotaque incomum se fez presente na voz daquele desconhecido.
Meu Deus, tem como melhorar?
- Sou eu...
- Gustaf Bergqvist, eu sou amigo do Zachary e da Gwen, eles tiveram um pequeno contratempo, então eu me ofereci para buscá-la.
Ele soltou a placa com uma das mãos, a estendendo para mim em seguida, eu retribui o gesto, vendo minha mão ser totalmente engolida pela dele.
Gustaf, um nome interessante. De que parte da Europa será que ele é?
- Sinto muito por terem te incomodado com isso, se tivessem me avisado eu teria pego um táxi - eu garanti.
- Não foi incomodo nenhum, eu te garanto - Seu olhar não se desprendeu do meu, fazendo com que eu tivesse uma ligeira palpitação.
A viagem com certeza já valeu a pena.
Foi quando percebi que minha mão continuava entre a dele, enquanto eu o encarava com uma expressão idiota.
- Gwen me avisou que você viria de Miami e pediu para te entregar isso.
Gustaf parece ter notado o mesmo que eu, já que soltou minha mão depressa, se inclinando para pegar duas grandes sacolas no chão.
- Você pode ir até o banheiro se vestir, eu espero.
Quando ele diz que eu posso ir me vestir, ele quer que eu troque toda a minha roupa num banheiro de aeroporto?
- Eu tenho que ir ao banheiro? Não posso só colocar as blusas aqui? - eu fiz uma careta.
- Depende, você está usando algo por baixo da calça?
Gustaf me mediu, fazendo meu rosto corar imediatamente. Que tipo de pergunta é essa?
- Isso soou totalmente errado - ele fechou os olhos por um momento, parecendo mortificado - o que eu quero saber é se você está usando alguma segunda pele ou meia calça, e se sua bota é forrada.
Tudo bem, olhando dessa maneira não foi uma pergunta tão inconveniente.
- Essa calça é grossa e eu estou com uma bota simples e uma meia, mas eu só tenho que aguentar até chegar no carro, não é? O que pode acontecer? - eu tentei evitar a todo custo a possibilidade de me trocar em uma cabine de banheiro de aeroporto.
Gustaf me avaliou com uma expressão ilegível antes de dar de ombros.
- A escolha é sua, o máximo que pode acontecer é você ter que amputar os dedos dos pés por enfrentar uma temperatura de vinte e seis graus negativos vestida assim.
Ele disse que a temperatura lá fora é de vinte e seis graus negativos? Por que eu não os convenci a ir para Miami?
- O banheiro fica naquela direção - Gustaf apontou ao ver o choque estampado em meu rosto.
- Obrigada - eu balbuciei, pegando as sacolas de sua mão.
Eu demorei quase meia hora para voltar para o lugar onde Gustaf me esperava com paciência, eu mal conseguia me mover através de tantas camadas de roupa, mas devo confessar que me sentia bem melhor.
- Está pronta? - Gustaf se levantou do banco onde estava sentado, mexendo no celular.
- Sim, espero conseguir manter meus dedos dos pés seguros agora - eu brinquei, recebendo um pequeno sorriso em resposta.
Nós dois passamos a caminhar lado a lado em direção ao estacionamento. Assim que deixamos o aeroporto, eu observei o brilho alaranjado do nascer do sol que se aproximava, mas minha contemplação logo foi interrompida quando uma rajada gelada me atingiu no rosto.
- Me diz, é sempre assim? - Eu ajeitei o cachecol que usava em volta do pescoço para cobrir parte do meu rosto exposto.
- No inverno o sol geralmente nasce quase às onze da manhã e se põe por volta das três da tarde - ele não precisou de nenhuma explicação adicional para compreender sobre o que eu estava falando.
Eu parei de caminhar, arregalando os olhos diante da informação.
- Você está brincando! Quer dizer que vocês têm apenas quatro horas de luz do sol? - Eu balbuciei.
- No inverno sim.
Eu fiz uma pequena careta antes de voltar a caminhar. Eu vou passar três semanas quase sem sol!
- Em Miami nós temos no mínimo doze horas por dia - eu choraminguei.
Gustaf alcançou um SUV, abrindo o porta malas para colocar a minha bagagem.
- As coisas aqui são um pouco diferentes de Miami, - ele me avisou.
- Se você não falasse, eu não perceberia diferença nenhuma - ironizei.
Gustaf soltou uma pequena risada, antes de abrir a porta do lado do passageiro, indicando que eu entrasse.
Isabella
- Obrigada.
Em alguns minutos nós dois estávamos na estrada, eu não queria perder tempo para tentar conhecê-lo melhor, então, assim que deixamos a área do aeroporto, eu puxei assunto.
- Então, Gustaf... Você conhece os Monaghan há muito tempo?
- Eu os conheci logo que se mudaram - ele me lançou um rápido olhar.
- Bom, eu poderia dizer que ouvi falar muito sobre você, mas estaria mentindo. Meus amigos nunca citaram seu nome, e acho que isso foi um erro imperdoável - eu lhe ofereci meu melhor sorriso.
- Eu ouvi falar muito sobre você.
- Mesmo? Eu acho difícil acreditar.
- Isabella Dempsey, Izzy para os íntimos, vinte e oito anos, chef de cozinha em um restaurante francês chique e faz a melhor codorna do mundo - ele começou - ahh, e é a melhor tia do universo depois de comprar uma bateria para o pequeno Danny no último aniversário.
Uau, eles falam tanto assim de mim? Por que nunca me falaram sobre ele?
- Tudo bem, essa sou eu, mas não muda o fato de que eu não sei nada sobre você.
- Faça sua pergunta, Isabella Dempsey.
Por qual pergunta eu deveria começar?
- Onde você conseguiu esse sotaque? - Eu decidi satisfazer a primeira curiosidade.
- Suécia. Próxima pergunta - Ele deu um pequeno sorriso.
Meu olhar percorreu sua mão em busca de um sinal claro de compromisso.
- Você não tem uma aliança - acabei soltando sem pensar.
- Isso não foi uma pergunta - ele achou graça.
- Você é solteiro ou apenas não chegou ao ponto de colocar uma aliança no dedo?
Gustaf riu, voltando sua atenção para a estrada.
- Você é bem direta.
- Eu só tenho três semanas de férias, não quero perder meu tempo com uma furada - eu apoiei o braço na janela fechada antes de tentar uma pose sensual, tendo certeza de falhar.
- Eu odiaria se você perdesse seu tempo.
- Então você...
Eu franzi o cenho, me endireitando ao ver uma placa avisando que estávamos saindo de Fairbanks.
Meu coração começou a acelerar ao me dar conta que eu estava em um carro com um completo desconhecido em uma cidade estranha. Eu nem liguei pra Gwen para confirmar a história que ele contou!
- O que você está fazendo? - eu ergui um pouco a voz, surpreendendo o homem.
Ele alternou o olhar entre mim e a estrada parecendo alarmado pela minha súbita reação.
- O que? O que eu fiz?
- Nós acabamos de sair de Fairbanks! Para onde estamos indo? - eu estava prestes a acerta-lo com a minha bolsa, o que provavelmente seria uma péssima ideia, já que ele estava dirigindo.
O olhar de Gustaf se tornou ainda mais confuso.
- Eu estou te levando para a pousada dos Monaghan!
- Que fica em Fairbanks! - eu ergui a voz.
- Não, a The Little Snowman fica na cidade vizinha e não em Fairbanks. Eu não estou te sequestrando - ele me corrigiu, parecendo relaxar um pouco ao compreender o motivo da minha explosão.
Outra cidade? Mas por que eles nunca me contaram que não viviam em Fairbanks?
- Eu tenho certeza que sempre me falaram que moravam em Fairbanks!
- O Polo norte fica apenas a 15 milhas de distância, tenho certeza que apenas citaram Fairbanks por ser mais conhecida.
Gustaf tentou me tranquilizar, mas em minha mente uma única informação dançava.
- Espera, você disse "Polo norte"?
- Sim, é para onde estamos indo - ele confirmou.
- Polo Norte, como O Polo norte?
- Sim - ele franziu o cenho.
- Você está me falando que a minha amiga mudou para a casa do papai Noel. Esse Polo Norte? - eu o encarei descrente.
- Não, Elliot Jones é a única pessoa que vive na casa do Papai Noel. E por que você está repetindo "Polo Norte" toda hora?
- Quem é Elliot Jones? - minha voz subiu algumas oitavas.
- O Papai Noel - Gustaf me lançou um olhar divertido.
Ótimo, eu provavelmente sofri um acidente e estou em coma em algum hospital. Por que não existe outra explicação para o que está acontecendo!
- Só falta você me falar que o Danny é um duende do Papai Noel - eu murmurei.
- Claro que sim, todas as crianças da cidade são - ele garantiu.
Eu arregalei os olhos, o encarando com uma expressão assombrada!
- Você tá brincando comigo!
- É claro que estou! - ele riu da minha reação.
Eu mesma não pude evitar rir por ter caído naquela história absurda.
- Que susto, por um momento eu acreditei que meus amigos haviam se mudado para a terra do natal - eu acertei um leve soco no braço do rapaz.
- Eu falei sério sobre o Polo Norte, estava brincando sobre o Danny ser um duende - ele explicou.
Aquela expressão descrente voltou a tomar conta do meu rosto, o sol havia nascido, nos banhando e uma luz dourada, eu olhei para fora a tempo de ver a placa de entrada da cidade.
" Bem vindo ao Polo Norte. A cidade onde o espírito natalino vive o ano inteiro"
- Então é verdade...
- Qual é o seu problema com o natal? - Gustaf perguntou.
- Eu não tenho problema com o natal, apenas não é uma data que Gwen, Zachary ou eu comemoramos - decidi explicar.
Ele me observou por um momento, antes de voltar sua atenção para a estrada.
Aquele lugar era inacreditável, os postes de luz eram em forma de bengala doce, a arquitetura era quase infantil com o tanto de enfeites e os nomes das ruas...
Rua floquinho de neve, avenida Papai Noel...
Meu Deus, onde eu vim parar!?
- Vocês tem um Papai Noel gigante na praça da cidade - eu gemi, escondendo o rosto com as mãos.
- Esse é o problema? Você tem medo do Papai Noel? - Gustaf me provocou.
- Eu não tenho medo do Papai Noel.
- Não é o que parece, e isso explica a sua reação.
Eu revirei os olhos, já irritada por estar presa naquela loucura.
- Eu não tenho medo do Papai Noel - eu pontuei.
- Então, se eu parar na casa do Papai Noel agora, você vai tirar uma foto com ele?
- Gustaf, se eu quisesse sentar no colo de um velho barrigudo e barbudo, era só eu visitar qualquer moto clube de Miami, não precisava vir ao Alasca!
Minha pequena explosão arrancou uma gargalhada do rapaz, que parecia estar se divertindo com toda aquela situação.
- Não precisa se envergonhar, é normal ter medo. Conheci muitas pessoas que tinham medo do Papai Noel.
Eu me limitei a lançar um olhar cansado em sua direção.
- Na verdade, eram bebês, eu nunca vi um adulto com medo do Papai Noel, mas não precisa ter vergonha - ele continuou.
- Falta muito pra chegar? - eu murmurei, decidindo ignorá-lo.
Gustaf indicou um grande sobrado que tinha a forma de uma cabana. Aquele lugar estava longe de ser um grande hotel, mas tinha espaço para no mínimo cinco quartos. Não era algo grande, mas para uma pousada no polo norte, devia ser o suficiente!
Polo Norte. Que loucura!
- Eles estão começando a enfeitar hoje - Gustaf apontou uma rena solitária na frente do hotel - quando cheguei estavam tirando todas as caixas do sótão.
- Eu pensei que aqui fosse natal o ano inteiro - eu franzi o cenho quando ele estacionou em frente a pousada.
- Não é bem assim, nós mantemos o espírito natalino durante o ano, mas fazemos algo especial para dezembro. Principalmente os Monaghan.
Aquilo era difícil de acreditar. Quantos natais nós simplesmente ignoramos enquanto vivíamos em Montana?
- Eu te ajudo a descer - ele desligou o carro, logo saltando para fora.
Eu abri a porta depressa, descendo antes que ele me alcançasse.
- Não precisa, eu...
Ao pisar no chão congelado eu senti minha bota escorregar. Eu gostaria de ser romântica e dizer que Gustaf foi rápido o suficiente para me segurar e impedir minha queda, mas não foi o que aconteceu. Nem mesmo a quantidade de roupa que eu vestia amorteceu o impacto, por um segundo eu senti meu mundo girar quando bati a cabeça no chão ao cair de costas.
O sol brilhava com força no meu rosto, apesar de não ser quente, e eu pude ouvir Gustaf se aproximar apressado.
- Isabella, você está bem? - Ele se abaixou ao meu lado.
- O que você acha? Eu apostava que cairia na saída do aeroporto e não aqui- Eu gemi tentando me sentar.
- Vem, eu te carrego.
Gustaf tentou passar os braços por baixo de mim, mas eu logo me afastei, me livrando dele.
- Não precisa!
- Você pode ter se machucado, deixa eu te ajudar - ele Insistiu.
Eu me esforcei, me colocando em pé em seguida. Então, sem nenhum aviso, ele se inclinou, me pegando no colo com facilidade, passando a caminhar em direção a casa.
- O que você está fazendo? - eu reclamei.
- Você pode ter se machucado - ele repetiu.
- Eu posso andar!
Mas sabia que meus protestos eram em vão, principalmente porque já estávamos chegando na porta da cabana.
- Por que você é tão teimosa? Não precisa ter medo, eu não sou um papai Noel! - Gustaf gracejou ainda me carregando.
- Pela última vez, você pode esquecer essa história de...
Antes que eu terminasse a frase, a porta da frente se abriu, revelando Gwen.
- Papai Noel - eu terminei a frase com um fiapo de voz.
- Izzy, Gustaf? o que aconteceu? - Gwen alternou o olhar entre nós parecendo confusa.
Dentro do hall de recepção do hotel estava um casal que eu não conhecia, Danny e outro garotinho da sua idade brincavam entre tantas caixas espalhadas.
- Eu sabia! Sabia que depois da última ligação da Alva exigindo bisnetos você se casaria com a primeira que encontrasse - O rapaz, que tinha olhos extremamente verdes, provocou Gustaf.
Quem é Alva? Eu virei o rosto para observar sua reação.
- Por que ao invés de falar besteira você não abre espaço no sofá, Dixgard? - Gustaf murmurou, parecendo constrangido pela insinuação.
- O que aconteceu? - Gwen Insistiu.
- Ela caiu quando desceu do carro, e...
- Eu estou bem, eu disse que você me carregar para dentro seria um exagero - eu me levantei assim que Gustaf me colocou no sofá.
Gwen veio e me obrigou a me sentar, assumindo o lugar ao meu lado.
- Tia Izzyeeeee - Danny correu em minha direção, me escalando com agilidade antes de me abraçar.
- Hey, meu pimentinha. Como você está? - eu o abracei esperando uma resposta.
Então, sem o menor aviso, ele pulou para o chão e começou a correr de um lado para o outro, gritando a plenos pulmões. Eu encarei a cena boquiaberta, principalmente pelo fato de todos ignorarem o menino, prosseguindo em seus afazeres.
- Izzy, eu posso falar com você um pouco? - Gwen indicou uma porta atrás do balcão de recepção com a cabeça.
Nós nos levantamos, deixando aquela bagunça para trás. Gwen entrou na sala, fechando a porta atrás de si enquanto eu observava um escritório simples.
- Ele está bem?
- Não se preocupe, Danny descobriu a capacidade pulmonar dele e tem explorado bastante. É bem irritante, mas a gente descobriu que se ignorar, ele se cansa depressa - ela sorriu, mas algo em sua expressão me preocupou.
Aquela estava longe de ser a recepção que eu esperava, principalmente levando em conta que não nos víamos há dois anos. Sem nenhum aviso, Gwen se lançou em minha direção, me envolvendo em um abraço apertado.
- Que bom que você está aqui, é tão bom te ver - ela respirou fundo.
Aquilo estava longe de ser normal.
- Aconteceu alguma coisa? Onde está o Zach? - Eu me afastei para olhar em seu rosto.
Minha amiga suspirou, confirmando minhas suspeitas. Alguma coisa estava acontecendo e não era bom.
- Seiko ligou agora a pouco.
Eu a encarei sem saber o que dizer por alguns segundos. Aquilo era péssimo, como que ela os encontrou?
- Por que ela tem o seu telefone?
- Kate passou para ela!
A indignação começou a crescer em mim com aquela informação. De todas as pessoas, Kate era a última que deveria ter feito isso!
- Ela mais do que ninguém sabe o que fizeram com ele, como ela pode? - eu ergui um pouco a voz recebendo um olhar cansado da minha amiga.
- Elijah está no hospital.
Aquilo era para me comover? Porque eu não dava a mínima para o estado de saúde daquele monstro!
- Grande coisa, quantas vezes ele mandou o Zach pro hospital?
- Seiko disse que os médicos já o desenganaram, ele quer ver o Zach uma última vez - ela fez uma careta.
Ótimo, agora que está morrendo teve uma crise de consciência.
- O Zach está arrumando a mala agora - Gwen suspirou.
- Você não vai deixar ele fazer isso sozinho, certo?
- Bom, isso que eu queria falar com você. Você pode cuidar do Danny e do hotel por alguns dias? Eu sei que você veio para descansar, mas eu não vou levar o Danny para Minneapolis, e a temporada da cabana do Papai Noel começa em alguns dias - ela suplicou.
Bom, isso estava longe de ser as férias que eu esperava, mas eu não poderia negar esse favor a ela, principalmente com tudo o que estava acontecendo.
- Você pode ir sem se preocupar, Gwen. Eu cuido de tudo.
E eu faria o melhor para ajudar meus amigos naquela situação.