Gênero Ranking
Baixar App HOT
Início > Romance > Tempo de mudanças
Tempo de mudanças

Tempo de mudanças

Autor:: Ana C Dutra
Gênero: Romance
Um executivo carrancudo faz Ana recomeçar sua vida após uma discussão que culminou em sua demissão, muitas mudanças à vista, ela tem que lidar com problemas pessoais e buscar novos ares, enquanto o amor finalmente bate a sua porte de uma forma totalmente inesperada e indesejada, será que ela consegue superar seus problemas e o rancor que guarda da pessoa pela qual se apaixonou?

Capítulo 1 O tempo virou

A chuva batendo no telhado, copiosamente, desde que se lembrava, não tinha visto o sol, nem de relance o mês todo, já estava acabando novembro, teoricamente a primavera daria lugar a um verão ensolarado no Natal no Hemisfério Sul.

Desde pequena, sua cidade natal era famosa pelas longas temporadas de chuva, tinha ótimas lembranças de banhos de chuva no verão, também de ficar sentada na janela observando a chuva lavar tudo pelo caminho, não importava quantos dias já se passavam chovendo, sempre vinha uma tormenta mais forte e sempre havia o que carregar, nasceu em uma casa no alto de uma colina.

Depois de alguns anos, mudou-se de cidade e descobriu que a chuva não era rotina em outros lugares, sentiu falta da umidade, logo retornou e a chuva novamente fez parte de sua rotina, tão certo como viver numa nuvem, os dias de sol, por serem mais escassos, eram aproveitados de forma plena, era como se quando a chuva dava trégua tudo parecia mais sublime.

Naquele dia, contudo, já adulta, não reparava mais no tempo, sol ou chuva, eram parte da rotina, na verdade a chuva a tornava resmungona, sempre que podia, dava uma volta em alguma cidade para ver um pouco mais de sol, principalmente na casa dos pais que ficava no litoral. Levantou-se com o barulho com que acordou da água transbordando da calha e respingando em algum objeto no chão.

Aquele barulho a deixava inquieta, alguma coisa dentro dela ficava a flor da pele, algo estava errado, desceu as escadas e deu comida aos cachorros, tinha dois companheiros de guarda fiéis, sempre felizes independente do tempo, da hora ou do humor da dona.

Foi depois então ver o que estava fazendo barulho na sua janela, como temia, um balcão com seus vasos de flores foi derrubado. Imediatamente fez uma varredura, patas de lama em todos os lugares na garagem.

Ao que parece os dois monstrinhos caninos se mantiveram ocupados por toda a noite, o barulho que ouviu a noite não foi um trovão ao final, eram os monstrinhos derrubando o balcão, e o barulho que seguia a calha era água batendo nos vasos caídos.

Ótima maneira de começar um dia, mal passava das 7 da manhã, pegou um balde, vassoura e pano, ia se atrasar para o trabalho, mas não ia deixar que os dois monstrinhos fizessem mais bagunça e também precisava tentar salvar suas flores, juntando o pouco que sobrou de terra do chão.

Passava das oito e meia quando finalmente chegou ao escritório, seus colegas, na verdade sua equipe de trabalho nem comentaram seu atraso, ultimamente não conseguia chegar no horário, péssimo exemplo para gerente.

Ao que parecia chegar às oito da manhã era uma missão impossível, também não cobrava pontualidade de ninguém, tinha em mente que a produtividade vinha em primeiro lugar, quer chegar às dez da manhã e sair às cinco da tarde? Tudo bem, desde que no decorrer do dia se trabalhe com excelência e se produza acima dos colegas.

Todos admiravam e gostavam de sua maneira de gerir, também tinha aqueles que reclamavam, principalmente por que seguiam estritamente as regras, mas produziam pouco, não gostavam de serem cobrados, entrar na hora e sair na hora era tudo que eles achavam ser suficiente para a empresa.

Mesmo como gerente nunca tinha demitido ninguém, pelo menos não diretamente, buscava remanejar alguém que não se encaixava na equipe, trocando funcionário com outro setor, por isso sua equipe era cobrada constantemente e ela se via na obrigação de passar a situação real para todos, sem passar a mão na cabeça de ninguém.

Naquele dia, tudo parecia conspirar para dar errado, além de chegar atrasada, acabou esquecendo de ir para um reunião na parte da tarde, ficou tão atarefada a manhã toda que não foi almoçar, então no meio da tarde resolveu comer um lanche como ultimamente sempre fazia, um horário de almoço num intervalo curto.

Quando já estava sentada na cafeteria esperando seu pedido ficar pronto, recebe uma mensagem do chefe: "onde você está?", respondeu depressa: "cafeteria, almoço", recebeu em resposta: "esqueceu a reunião as 15:30?", em seguida: "estamos esperando você".

"Que dia", pensou, respondeu que retornaria imediatamente, pediu para a atendente embalar o pedido para viagem e saiu correndo pela rua com seu guarda chuva laranja, não era mais do que dois quarteirões, mas não queria dar mais mancada de fazer o chefe esperar ainda mais para iniciar a reunião.

Entrou na sala totalmente envergonhada, com as bochechas vermelhas pelo exercício, o pacote de sanduíche e o guarda chuva em uma das mãos o celular e o suco na outra, não tinha o costume de ir fazer lanche com bolsa, levava apenas seu cartão de crédito no bolso da calça.

Com toda a bagunça em casa pela manhã, não teve tempo de passar uma roupa social, estava com calça jeans e blusa, um colar de bijuteria e o cabelo amarrado em rabo de cavalo, mais simples impossível, como era jovem, não era difícil ser confundida com alguma estagiária de vez em quando o que era muito lisonjeiro e até melhorava seu dia.

Contudo, naquela tarde, gostaria de ter perdido mais do que 10 minutos se arrumando, a reunião estava no calendário mensal da empresa, mancada total ter esquecido, totalmente sem desculpas, mas desta vez, gerentes de todas as unidades daquela filial na região estavam presentes, inclusive gerentes de filiais superiores e também o tão temido Ceo da Empresa, Dr. Juliano Ruiz, estava presente.

Sua unidade apesar de pequena era estratégica, ótima com produção, dava suporte e cumpria determinações de outras unidades, como atividade complementar ajudava também a logística, recursos humanos, financeiro e manutenção da empresa.

Por esse motivo sua presença era essencial na reunião, deixar todo mundo esperando era totalmente constrangedor e se apresentar daquela forma, com seu quase almoço era ainda mais, ela ia deixar os monstrinhos de castigo, mas lembrou-se que ultimamente andava distraída e atrasada, portanto se não fosse a bagunça deles, teria outro motivo para estar atrasada.

O gerente da unidade a apresentou a todos formalmente, já conhecia a maioria por telefone, email ou até mesmo pessoalmente em visitas às outras unidades, ela era muito conhecida e todos reconheciam seu excelente trabalho, pelo menos isso a deixou mais confortável, contudo não havia apenas figurinhas repetidas, na sala havia uma turma de três figurões, destoavam dos demais pelos trajes impecáveis, alta diretoria da matriz.

"Ok, o importante era não cometer outra gafe", pensou, então seu gerente passou ao Juliano, que começou mostrando alguns relatórios, todos receberam cópias, depois começou a falar uma palavra que deixou todos atônitos: cortes de pessoal.

Seu estômago se revolveu, a fome estava criando um buraco negro no seu estômago, consumindo tudo que tinha, inclusive a barra de cereal que tinha consumido antes do meio dia, aquela palavra conseguiu fazer o pouco que havia lá dentro e a deixar enjoada. Prestou muita atenção nos números e em toda a explanação, então o gerente da unidade voltou a falar, agora dando as diretrizes, que partes de cada filial haveria redução.

Já havia se adiantado lendo o relatório de forma dinâmica, pulando todo texto explicativo e indo direto aos números esperados, algumas unidades seriam fundidas e seus funcionários temporariamente remanejados.

Um plano de demissão voluntária e também um processo seletivo de remoção interna seria aberto. Depois do prazo iniciariam as demissões e os fechamentos, ela já esperava a longo prazo um encolhimento nas operações físicas, até porque com a internet sendo cada vez mais presente, os clientes demandavam que as operações passassem à era virtual.

Ela estava até certo ponto se preparando para isso, buscava constantemente modernizar seus processos de trabalho para tornar tudo mais integrado e rápido de executar, mas foi pega de surpresa quando leu no relatório que sua equipe de dez pessoas ficaria reduzida em cinco num intervalo de noventa dias, sendo que na verdade duas pessoas iriam vir de duas outras filiais, então das cinco apenas três seriam da atual equipe.

Sim, havia pessoas não tão produtivas, mas mandá-las para casa parecia um crime que ela não queria cometer, muito menos quando o relatório todo parecia invenção de um diretor que em 10 anos era a primeira vez que pisava naquela unidade.

Havia dados insólitos, projeções de demanda e a produtividade geral estavam fora da realidade. Infelizmente, por não estar preparada para a reunião não havia trazido seu notebook, tinha um relatório preparado para a reunião mensal, acabou esquecendo que era naquele dia, mas o relatório estava pronto, também possuía projeções mensais e anuais, de pelos menos os últimos cinco anos para corroborar seus dados.

Ao final o gerente da unidade abriu para os presentes darem seus pareceres, muitos dos chefes de unidades estavam acovardados, temendo por seus cargos, outros apenas digerindo tudo que havia sido dito.

Ela pediu a palavra e falou o que acreditava, não se importando com seu cargo, criticou a redução drástica imediata, concordou que a longo prazo havia uma tendência de redução, mas essa redução imediata traria apenas prejuízos à empresa, muitos processos hoje envolvidos seriam prejudicados, a produtividade, o descontentamento, a total falta de tranquilidade ia gerar uma instabilidade geral.

Percebeu Dr. Juliano dar uma risada irônica com suas palavras, ao final, impulsiva que era, explicou que se a empresa seguisse naquela direção não via outra saída que não fosse se voluntariar à demissão, pois não consideraria correto demitir a maior parte da sua equipe e ficar apenas para juntar as peças.

Recebeu uma resposta imediata: "se essa é a visão da senhorita, considere o pedido de demissão aceito", ele olhou aos demais e reforçou o mesmo a eles, se não se sentissem confortáveis com a nova diretiva da empresa, poderiam também deixar o quadro.

Como um total deboche ainda agradeceu a iniciativa dela de pedir demissão e que era de fato um exemplo a ser seguido, já que seus interesses não estavam alinhados com a direção, era coerente que ela buscasse uma empresa que atendesse seus objetivos.

Ela saiu imediatamente da sala, sem cerimônia, afinal, estava demitida, apenas para cumprir trinta dias contratuais de aviso prévio. Voltou à sua sala vermelha da cabeça aos pés, saiu tão atordoada da sala de conferência que esqueceu seu almoço lá mesmo.

Os colegas perguntaram o que havia ocorrido, ela não teve coragem de naquele momento expor, também já não cabia a ela contar a grande notícia, a maior parte deles em breve compartilharia de sua raiva e frustração, mas resolveu que não seria ela que faria isso com eles.

Deu uma desculpa qualquer, informou que terminaria seu expediente mais cedo, devido a não estar se sentido bem. Pegou seu guarda-chuva e foi até o carro, sentou-se e chorou por uns 30 minutos, o para-brisa estava borrado pela chuva e suas lágrimas.

Começou na empresa ainda na faculdade como estagiária, aos poucos foi ganhando terreno, efetivou-se, primeiro emprego, formou-se, nunca tinha trabalhado em outro lugar, era a melhor no que fazia na empresa, todos a conheciam pelo seu trabalho excelente e pela sua rapidez na execução.

Nunca tinha sequer buscado outro emprego, nem sabia por onde começar naquela altura da vida. O que faria se não encontrasse outro emprego? Isso era apenas sua angústia, que logo seria um coro de duzentos funcionários demitidos em noventa dias.

Buscava não se exasperar, ao menos não tinha uma família para sustentar, era sozinha, e se precisasse de verdade podia contar com ajuda dos pais.

Mas o choro ficou ainda mais forte quando pensou nas pessoas que não teriam a mesma facilidade, as famílias que dependiam daquela empresa, pensou no quão fácil era para aquele homem vir de tão longe, imprimir um relatório insólito e apresentar uma solução para todos os problemas da empresa, aquele homem era um monstro com seu sorriso debochado.

A raiva substituiu o desespero, aos poucos as lágrimas eram de ódio daquele ser maligno. Até que seu coração se abrandou, começou a bolar um plano em sua cabeça, enxugou suas lágrimas e deu a partida no seu SUV automático, que recém tinha comprado e estava pagando um financiamento caro.

Mais lágrimas chegaram aos olhos quando pensou que talvez tivesse que se desfazer de seu carro, antes de pedir dinheiro aos pais, ia vender o carro, se necessário, ela amava seu carro, adorava dirigir, principalmente aquele SUV se sentia uma madame, não que fosse fútil, mas gostava de se mimar as vezes.

Foi para casa, seus cachorros, monstrinhos que destruíram seu jardim suspenso pela manhã, agora tratavam de tranquilizar a dona, enquanto isso, ela foi terminar de arrumar seus vasos, pensou que o primeiro a fazer era acertar as coisas, nenhum pequeno detalhe deveria ser deixado de lado.

Depois tomou um banho, foi para seu notebook e correu algumas páginas de emprego, atualizou seu currículo, aquele mesmo de quando pedia a vaga de estágio, agora colocando a infinidade de cursos de especialização, pós e mestrado que havia realizado ao longo dos anos, sempre foi uma aluna exemplar e estudar era um prazer secreto.

Após acabar a faculdade de engenharia, tinha feito outras duas graduações, todas à distância, pois não podia dispor de horas fixas semanais para estudar, tinha muita facilidade com computadores, raciocínio lógico, rapidez no pensamento. Era calculista e muito perspicaz, era difícil enganá-la, fazia um pré-julgamento das coisas, situações e pessoas muito assertivo.

E era bem por isso que estava sozinha, não conseguia se prender a ninguém, às vezes engatava relacionamento com algum cara, mas eram relacionamentos curtos, acreditar no cara era seu pior defeito, ela esquecia todos os alertas mentais, toda a lógica nas primeiras semanas, e quando via toda a lógica e realidade caía como uma pedra na sua cabeça.

Ultimamente havia desistido disso, quase uma vida de celibato, o trabalho bastava para consumir seu tempo e lhe dar prazer, o resto ela passava estudando, lendo ou conversando com as amigas e seus pais.

Naquela noite, sentiu falta de ter alguém para desabafar, mandou mensagem para algumas amigas, mas todas estavam ocupadas, seus pais estavam longe, não queria mesmo preocupá-los de imediato com seus problemas.

Pegou seu carro e foi até a casa do irmão que ficava do outro lado da cidade, ela morava num bairro mais agitado, em uma casa que herdou antecipadamente dos pais, quando eles foram morar no litoral, já o irmão morava num bairro muito mais calmo, tinha dois filhos, um recém- nascido e outra a sua paixão estava com três anos.

Foi recebida pela sobrinha que correu para seu colo para ganhar um abraço, era sempre uma delícia, esquecer os problemas e poder rastejar duas horas com as bonecas, carrinhos, até a dor gostosa de pisar em uma daquelas peças de montar espalhadas pelo chão da casa, geralmente ia embora antes da pequena cair no sono.

Naquele dia porém, depois que a sobrinha acabou dormindo no sofá enquanto assistia um musical, ela aproveitou para conversar com o irmão e a cunhada que estava amamentando o pequenino, era uma cena muito terna, os dois sentados ela passando a mão na cabecinha quase sem cabelo do bebezinho que estava agarrado ao peito da mãe e sua mãozinha juntinha da mãe.

Um aperto forte no coração, não quis estragar aquela paz, seria um crime jogar seus problemas e negatividade naquela família tão feliz. Se despediu, e indo ao carro viu que uma das amigas respondeu sua mensagem, estava a convidando à ir um pub novo na cidade.

Ela estava com uma roupa péssima para um barzinho, mas decidiu ir mesmo assim, afinal sua intenção seria apenas conseguir desabafar com a amiga e ir embora, tinha muita coisa para fazer no dia seguinte, teria que começar de verdade a fazer algo por sua vida.

Quando saiu do carro para o manobrista estacionar já se arrependeu, duas mulheres produzidas passaram por ela e deram um olhar de desprezo, a roupa era confortável mas brega, ela sabia. Não era feia, recém-chegada à turma dos trinta, era de estatura mediana e com peso dentro do aceitável, uma gordinha sexy.

Tirou pelo menos o casaco que usava, ficou apenas de regata, era final de novembro, já não estava frio, mas a chuva não deixava o clima mais ameno. Uma coisa que a deixava bem era que tirando as duas do esquadrão da moda, as pessoas no pub pouco se importavam com a roupa que ela estava vestindo, exceto é claro sua amiga que a esperava junto ao bar.

A primeira coisa que a amiga disse foi criticar a roupa que ela estava vestindo. Ela tratou logo de explicar, contando toda a tragédia do dia, a amiga de faculdade, apesar de ser engenheira também, trabalhava numa loja de móveis e desenhava ambientes, acabou virando arquiteta. Era muito requintada e tinha um conceito de moda impecável, a única que tinha autorização para falar mal da sua roupa.

Nunca tinha visto a amiga com algo de gosto duvidoso, nem seus namorados, que sempre pareciam ter saído de alguma capa de revista, pena que a amiga não socializava esses bofes, ela também já tinha desistido de sair com algum amigo deles, pois os caras em geral eram muito mais preocupados com academia e alimentação saudável, o que não era nenhum defeito, mas era o avesso do estilo de vida dela.

Os encontros arranjados também eram sempre um desastre, ela já tinha decidido que o próximo cara ia ser um encontro casual e definitivamente alguém com gostos compatíveis aos dela. A amiga não perdia mais tempo apresentando ninguém.

Diana, sua amiga além de modelo era arquiteta, estava essa noite impecável num macacão azul marinho, em decote V, nada muito vulgar ou provocativo, sexy sem ser vulgar, ela por outro lado vestia uma calça jeans completando o look com regata folgada estampada de um seriado de TV e um Louboutin preto que tinha comprado em um brechó na última viajem à Nova York.

O sapato conseguia dar ao menos um ar sexy, prendeu seu cabelo num coque meio solto e passou alguma maquiagem no carro, não estava de todo ruim, para o gosto dela.

Passou todo o serviço para amiga de uma vez, estava engasgada com toda a frustração e raiva do dia, amiga boa é aquela que xinga e chora junto, essa era a Diana, ficou chocada com a notícia da demissão, mas tratou logo de soltar o verbo para o carrasco.

Um cara veio puxar assunto com a amiga, olhou de relance para ela, leu sua camiseta e riu um bocado, era a série favorita dele também, engatou conversa por alguns momentos, mas não estava no clima romance, trocaram telefones e ela seguiu desabafando com a amiga.

Preferiu não beber, pois estava dirigindo, depois de exaurir todo seu vocabulário de xingamentos para o ex-chefe, seguiu para casa disposta a abrir uma boa garrafa de vinho, a amiga lhe tinha ajudado expandir sua mente para novas oportunidades, deu várias ideias úteis.

Acordou, o dia anterior parecia um pesadelo distante, abriu os olhos e algo estranho estava batendo em sua janela: o sol, ficou um tempinho parada olhando os raios de sol na sua cortina, onde o sol tímido se levantava, por entre os prédios e vegetação que circundavam sua casa.

Não demorou muito uma nuvem invejosa o cobriu, ele voltou a ser fruto da imaginação dos moradores daquela cidade, que o simples fato do sol sair já era motivo para todas as conversas naquela manhã serem sobre ele.

Chegou ao trabalho determinada a iniciar seu procedimento de retirada da empresa, não tinha volta, sempre foi uma pessoa que cumpre com a palavra, orgulhosa jamais pediria desculpas, ainda que ela mesma tivesse errado, parecia imperdoável consigo mesma trair seus princípios.

Não se surpreendeu com o email recebido da diretoria:

Prezada Srta. Ana,

Agradecendo os esforços e dedicação destes últimos 10 anos, temos o pesar de comunicar que, devido à reestruturação em nossa empresa, seus serviços não serão mais necessários, fica notificada a partir do recebimento desta comunicação, que em trinta dias, V. Sra. deixará de compor o quadro de nossa empresa.

Exprimimos nossos votos de boa sorte em sua nova carreira e também estamos a disposição para oferecer uma carta de recomendação, devido ao alto padrão e dedicação nos serviços prestados nesta empresa.

Uma circular será enviada à sua unidade nesta data, pelo que solicitamos que seja assinada e entregue com aposição de ciência.

Desde já agradecemos sua colaboração na transição para nova chefia.

Ass. Diretoria. 30/11/xx

Foram rápidos, pensou, devem ter mesmo ficado incomodados com suas palavras, talvez com medo dela influenciar outras chefias e criar um motim, ela tratou de passar os dias seguintes reunindo relatórios e compilando dados, o novo chefe foi escolhido dentro de sua própria equipe pelo gerente, pelo menos uma decisão acertada, pensou.

Ela reuniu sua equipe pela tarde para informar que estava deixando a empresa, sem dar muitos detalhes, era muito ética para vazar informação confidencial, além do mais não era nada produtivo criar pânico, podia dentro de pouco tempo não mais participar daquela empresa, mas não cometeria um ato de impropriedade para macular seu currículo.

Quanto ao relatório recebido da diretoria na reunião do dia anterior, esperou para que o novo chefe fosse indicado e pediu autorização por email ao gerente para passar à ele, para que pudesse se preparar ao que iria vir.

O que para ela foi um choque e motivo de rebeldia, o colega recebeu de forma nervosa, mas muito diferente dela, tratou de já fazer uma lista com os nomes dos colegas que seriam eliminados da equipe, transpareceu após o primeiro choque, muita tranquilidade, e na reunião que se seguiu na presença do gerente, falava até com entusiasmo.

Ela gostava muito da pessoa que havia sido indicada para ocupar seu lugar, era um colega que sempre pode contar nos momentos de necessidade, mas aquela reação fez com que ele perdesse todo seu apreço, sua total falta de solidariedade com os colegas que seriam demitidos, sua aceitação, até sua empolgação a deixaram decepcionada.

Não era essa a reação que esperava das pessoas, depois de alguns dias ela colocou as coisas em perspectiva, o colega estava apenas tomando a situação pelo que ela era: inevitável, sete pessoas seriam demitidas, ele se demitindo como ela fez ou não, então, três pessoas ficariam e teriam que tocar o barco adiante.

Quando conseguiu raciocinar de forma imparcial sobre o tema, num breve momento, arrependeu-se da atitude impulsiva. Mas depois lembrou que jamais conseguiria vencer o desafio moral de garantir a própria pele e detrimento de outras pessoas, isso não estava na sua personalidade.

Já a atitude na reunião era típica dela, era tímida, mas, estar diante de uma situação de injustiça, fazia demonstrar com firmeza sua posição, sempre disposta a arcar com as consequências de seus atos, levou essa forma de agir em todos os aspectos da sua vida, era conhecida por amigos e família por ser franca e honesta.

As pessoas que não conhecem sua personalidade fazem um pré-julgamento e acabam por considerá-la antipática por ser muito objetiva, na verdade ela era um pouco arrogante mesmo, pois acredita estar certa e se permite passar por cima de convenções sociais ou até mesmo hierarquia para dizer o que pensa doa a quem doer.

Ela também não se esforça para que estranhos tenham uma boa opinião, justamente pensa que as pessoas merecem conquistar sua confiança para então ela mostrar seu lado doce e gentil, porque sim, ela tem esse lado também.

Por se um pouco tímida, ela abusava da altivez como forma de esconder sua personalidade, uma máscara para espantar pessoas superficiais e mal intencionadas, que podem tentar manipular seu coração mole.

Capítulo 2 Encontros indesejados

Acreditou que após a reunião a equipe do Juliano, voltaria logo à matriz, mas observou que após uma semana, os dois diretores adjuntos se foram, mas o Juliano ainda permanecia na empresa.

Dez anos trabalhando tinha encontrado o Ceo raramente, apertou sua mão uma vez quando ele participou de uma premiação na matriz, mas ela não tinha boa lembrança, pois ele pouco interagiu com os gerentes e limitou-se a falar apenas com seus diretores.

Na festa da premiação alguns gerentes sentados à sua mesa tiveram a coragem de ir conversar com ele, bom, pelo menos tentar, pois ele nunca teve cara de bons amigos e tratou de dar uma desculpa qualquer e virar as costas para eles.

Os gerentes voltaram para sua mesa decepcionados e passaram o resto da noite falando mal do homem. Naquela festa ela nem se incomodou de perder seu tempo, não era de seu feitio ir bajular, continuou comendo os ótimos canapés e bebendo champagne que rodava livremente pela mesa, pelo nervosismo quase tomou um porre, mas soube parar antes de passar vergonha.

Depois dançou com um colega de outra sede, que fez amizade num treinamento, não havia muitas mulheres na sede, para piorar ela era a mais jovem, inclusive naquela ocasião ganhou o prêmio por ser a mais jovem gerente da empresa e outro por ter conseguido alcançar a meta de redução de matéria prima, num trabalho que realizou para uma pós-graduação.

Já tinha ido várias vezes à matriz e trabalhou lá em algumas ocasiões por semanas, mas nunca tinha sido recebida por ele, ou participado em uma reunião em que ele se encontrasse, até porque não tinha uma posição de alta chefia,era apenas uma gerente de produção.

Eventualmente o viu andando apressado por algum corredor na matriz, e uma vez quase tinha sido atropelada por ele, mas por óbvio ele nunca se lembraria do acontecido, que lhe fez rasgar uma calça cara, pois ao correr para sair de seu caminho e não ser atropelada acabou caindo na calçada, isso rendeu risos dos colegas de curso que a acompanhavam na volta do almoço.

Dentro de seu Bentley blindado, pensou ela, nem deve notar os pobres mortais, desde aquele dia, juntou dinheiro para trocar de carro, apesar de que seu SUV querido nem chegar perto de um Bentley, daria um belo susto roncando alto o motor e tinha planejado um dia estacionar na vaga do chefão quando fosse fazer treinamento na matriz.

Nos informativos da empresa ele sempre estampava as capas, estava eventualmente viajando fora do país, inaugurando alguma planta nova, tratando de expandir os negócios, raramente ele se dignava a acompanhar a transição nas chefias das filiais, na filial dela tinha sido a primeira vez que ele pisava.

Por isso via com mais desconfiança e descrédito ele acompanhar as fusões e demissões mais imediatas de outros diretores, isso também fez com que a empresa entrasse em um clima tenso. Algumas pessoas desconfiaram de sua demissão, a rádio corredor ficou muito ativa nas suas duas últimas semanas.

Algumas pessoas não acreditavam na sua demissão e passaram a divulgar que ela tinha aceito secretamente uma proposta na matriz, não sabia de onde mas outros espalhavam que ela tinha ganhado uma bolsa para estudar fora, bom esse boato surgiu quando ela conversava com uma colega na sala de café, sobre uma bolsa que tinha ganhado da mãe que acabara de retornar de um cruzeiro no natal.

Ela já estava contando os segundos para deixar a empresa, enviado muitos currículos, feito algumas entrevistas, até recebeu uma proposta em uma empresa pequena que estava buscando expansão, já estava quase fechando com chave de ouro, quando na última segunda-feira, o Ceo adentrou sua sala, já vazia para a posse do novo chefe na sexta, enquanto ela limpava, literalmente, com pano e álcool a mesa.

Estava com a mesma roupa do dia da reunião, até porque tinha pretendido fazer faxina nos arquivos e coisas pessoais, deixar tudo pronto para a posse do colega, tinha alguns quadros na parede da sala, gostava de limpar ela mesma, tinha medo das faxineiras quebrarem e eles eram muito queridos para ela, lembranças de suas viagens, lugares únicos que visitou.

Os quadros estavam já numa caixa grande de papelão, limpos, faltava apenas embrulhar com plástico bolha, ela estava passando pano no mouse e teclado quando o chefão entrou, ele tossiu como se tivesse alergia ao cheiro de álcool com eucalipto, ela olhou para ele e depois para si, perplexa por ele presenciar aquela cena.

Ele a olhava confuso, tossindo, rapidamente ela fechou o vidro do produto e correu para abrir a janela, também foi buscar um copo d´água para o pobre homem, internamente queria vê-lo morrendo de tanto tossir, mas era religiosa, a sua maneira, acreditava no perdão, afinal logo ela estaria longe num novo desafio, não tinha porque guardar rancor.

Voltou com um copo, ofereceu ao homem, que aceitou sem cerimônia, logo que ele recobrou a voz, pigarreando um pouco, agradeceu a ajuda, e começou uma inquisição: "É Ana, certo?", "Sim, senhor", frisou o senhor, ele devia ter em torno dos quarenta anos.

De acordo com a biografia dele, que omitia a idade, disponível nos informativos da empresa, ele comprou a empresa logo após se graduar em administração, quando a rede passou por uma recuperação judicial, após escândalos políticos, envolvendo propinas e muitos diretores presos em operações anticorrupção.

Ele era herdeiro de uma rede petroleira e quis diversificar os negócios da família investindo em tecnologia e produção de bens de consumo, aproveitou o momento, tinha ações em outras empresas, a rede de empresas que administrava atualmente, da qual ele era virou o sócio majoritário, conseguiu reerguer das cinzas, a história do renascimento da empresa, e como ela voltou a ser competitiva, estava até nos livros de administração, como um case de sucesso.

Ele mesmo já tinha escrito dois livros, que ela até comprou, estavam numa das caixas cheias com seus pertences, ele passou os olhos na caixa e viu a edição mais recente, o título em dourado, "Reduzindo custos, ganhando lucratividade", ela achava muito clichê, mas tinha planejado ler os livros nas horas vagas, não passou do primeiro capítulo, de tão maçante que encontrou a leitura.

Ele orgulhoso, se interessou por seu livro, tirando da caixa e o pegando na mão para folhear, caindo um desenho que a sobrinha tinha feito dela, uma bola com um risco amarelo em cima, um sol e beijo de batom estampado, assinatura da sobrinha, que sempre que ia a sua casa, dava um jeito de detonar as maquiagens brincando de perua.

Constrangida ela juntou a pintura e segurou como se fosse um afresco de Da Vinci, não gostou dele mexer nas suas coisas, achou totalmente desagradável, "lembrança da sua filha?", ele pergunta olhando um porta-retrato dentro da caixa onde estava ela com a menina no colo ainda bebê, ela fita alguns segundos, achando o cara totalmente sem noção, "não, sobrinha".

"Realmente, engano meu, li na sua ficha que não é casada e não tem filhos", ela fica sem reação diante da falta de educação do camarada, "mas muitas mulheres omitem filhos na ficha, pois acham que podem ser demitidas", completa "tolice na minha opinião, hoje em dia, é totalmente descabido demitir uma mulher por ter filhos", ela pensou consigo mesmo, que pouco adiantava ter ou não filhos, aquele desalmado ia demitir qualquer um com quem não fosse com a cara, começando por ela.

Ainda se recuperando da informação de que o Ceo tinha lido sua ficha, um silêncio constrangedor se instaurou na sala, pelo que ele se manifestou "Só vim saber como está programada a transição desta chefia, esse setor é estratégico e fiquei preocupado", antes dela responder qualquer coisa, "mas vejo que ainda está na fase na faxina, então acho que volto outra hora em que o André, é esse o nome do substituto não é mesmo, esteja aqui, assim podemos sentar e conversar um pouco."

Ela prontamente lhe responde "claro senhor, peço desculpas pela bagunça, mas estou buscando deixar o lugar vago o mais breve possível", ele se levanta e vai até a pilha de quadros no canto da sala, ela quase tem uma síncope com medo que ele quebre algum, folheia cada um deles, um por do sol em Verona, ela no meio de dois alemães com um caneco de um litro na mão, um artista de rua se apresentando na margem do Senna, ela embrulhada em uma camada de casacos no meio da Times Square no ano novo e se demorando no último, uma foto dela numa cachoeira na Croácia.

"A senhorita viaja bastante", ela responde altiva "sim, gosto de aproveitar minha vida, conhecendo lugares novos ou velhos de outros ângulos", "foi muitas vezes à Nova Iorque? Vejo que tem dois quadros de lá, um no inverno e outro no verão", ele se referia ao outro quadro que ainda estava pendurado, que era o reflexo dos prédios no Central Park em pleno verão.

"Sim, Nova Iorque é uma cidade nova a cada visita" e claro que adorava também fazer compras lá, mas não ia entregar seu lado consumista ao inquisidor à sua frente. "Já planejou onde vai na sua próxima viagem?", "Sim", não quis dar o serviço completo, achou ele muito invasivo, afinal não eram amigos, ele estava sendo muito inconveniente, mexendo em suas coisas, lhe fazendo perguntas sobre sua vida pessoal, inclusive lendo sua ficha, ainda mais perguntando o que ela ia fazer agora que estava demitida justamente por causa dele.

Outro silêncio se instaurou enquanto ele contemplava seus quadros, ela tratou de despachar a visita, "Não quero lhe provocar outra alergia, amanhã esta sala já estará desocupada, André deve retornar da filial do centro oeste amanhã."

"Oh sim, claro, peço desculpas pela intromissão, o que ele está fazendo fora da sede?", "eu o enviei para que acompanhar uma troca de sistema, acredito que agora ele será o responsável por isso também, vou avisá-lo que o senhor o espera. Qual o melhor horário?" Pegou fôlego depois de praticamente expulsar o chefão, não ia dar espaço para mais intromissão.

"As 15:30 eu passo aqui amanhã, espero tudo em ordem", "Pode deixar senhor, tudo estará limpo e organizado." Foi se encaminhando para a porta, quando notou que ele ainda estava com seu livro na mão, o livro podia ter sido escrito por ele e ser uma droga, mas ela tinha pago uma grana por ele, "O senhor pode devolver meu livro?", "ele olhou para mão que ela indicava incrédulo", achou que ele nem tinha notado que ainda estava carregando, era impossível que ele não tivesse uma cópia em todo lugar que fosse.

"Nossa, perdão, nem notei, imagino que a senhorita já tenha lido tudo, fico feliz que tenha gostado a ponto de não querer se separar dele", "muito pelo contrário, não consegui terminar de ler ainda" ela disse isso, pegando o livro e pondo de volta à caixa sem muito cuidado, fazendo barulho ao se chocar com algo metálico lá dentro.

"Até amanhã", ele virou-se e foi embora, bem contrariado, ela internamente torceu por ele ficar ofendido pelo comentário pelo livro, achou uma leitura chata e sem muita consistência, não ia mentir.

Não terminou o primeiro livro porque tinha pego no sono nas duas vezes que tentou ler o primeiro capítulo, levou ao trabalho na tentativa de conseguir ler no horário de almoço, mas nunca teve tempo ou disposição para lê-lo ali, no fim eles escoravam um porta-retrato que tinha na estante, sua principal serventia agora.

Planejou vender num sebo, por isso não ia se livrar deles agora gratuitamente. Terminou sua faxina, reabrindo o vidro de álcool, rindo internamente de toda a situação, depois mandou uma mensagem ao colega, avisando da reunião no dia seguinte, estava em contagem regressiva, após a faxina, terminou de empacotar as coisas, ia esperar todos saírem para começar a levar suas caixas ao estacionamento.

Tinha planejado fazer isso quando não tivesse testemunhas, pois não queria ninguém sentindo pena, sempre que via essas cenas nos filmes, sentia uma tristeza pelo personagem, não queria que ninguém sentisse tristeza por ela, também não queria despertar curiosos, que iriam bombardeá-la com perguntas inconvenientes, nesta parte pensou no Juliano.

Capítulo 3 Acidente de percurso

Já tinha anoitecido, estava levando uma caixa ao carro, com seus quadros empacotados, quando notou que a sala da Diretoria ainda estava iluminada, nunca tinha presenciado o Diretor Geral trabalhando até mais tarde, exceto no final de ano quando faziam o balanço da empresa, quando todos ficavam até mais tarde, inventariando.

Para Ana trabalhar até tarde, por outro lado, era rotina, conhecia o horário dos colegas, por isso a sala da Diretoria acesa sabia que o Ceo devia estar ainda reunido com alguma comissão, e antes de alcançar o elevador que ficava em frente ao corredor da diretoria, para que pudesse descer sem ser percebida, ele sai pela porta no fim do corredor, então ela numa manobra rápida desce pela escada.

A caixa estava particularmente pesada, tinha que ter cuidado, afinal eram todos os quadros envidraçados, por um descuido e pressa, acabou tropeçando caindo sentada, a caixa voou dos seus braços e foi parar degrau abaixo, muitos cacos de vidro pelo caminho.

Fez muito barulho na queda, principalmente seus quadros se chocando contra o mármore da escada, conseguiu chamar atenção de quem ainda estava no prédio, os guardas vieram, o Diretor Geral, alguns Diretores de seção, que ainda estavam em reunião e aquele que foi o motivo de sua afobação, Juliano, o primeiro a chegar ao local.

Ela como tinha caído sentada, não sabia bem o que fazer, algumas lágrimas chegaram aos olhos, estresse acumulado das últimas semanas, um pouco de dor no quadril e braço, um aperto no peito pelos seus quadros, que tanto adorava, eram apenas fotos impressas em tamanho pôster, mas tinha gastado uma grana mandando envidraçar.

Antes que alguém se propusesse a ajudá-la tentou levantar, mas uma dor forte foi acompanhada do reconhecimento de que tinha torcido o pé e quebrado o salto do seu sapato, as lágrimas se alargaram e já escorriam pelo seu rosto, dor pelo seu sapato favorito, porque apesar de não estar produzida, nunca abandonava seus scarpins, tinha um complexo por ser baixinha.

Logo lhe alcançou o Juliano, a levantou apoiando seu braço bom, o outro braço estava ardendo, outros rapazes auxiliaram para levá-la escada abaixo, com cuidado para não tropeçarem nos cacos de vidro, era apenas um andar até o estacionamento, acharam melhor levá-la logo ao pronto socorro, quando viu estava dentro de uma Mercedes Benz, banco de couro branco e seu braço ralado, sujando aquela preciosidade.

Implorou por ter à mão um lenço, alguém lhe estendeu um, ela estava atordoada por tanta gente, nem notou quem foi, ao que ser disposta no banco e lhe ajudarem a fazer um estanque para seu ferimento e acomodar no banco do carona, todos se afastaram e se viu dentro do carro.

Pelo vidro agradeceu a ajuda dos meninos, com um sorriso forçado, alguns ela tinha muito carinho, principalmente os vigilantes que eram seus companheiros de noite no trabalho, já tinha dividido muito pizza, refrigerante, café nos dias frios, bolo de cenoura com cobertura de chocolate que fez especialmente para eles.

Logo em seguida se senta ao seu lado o Juliano, estava realmente machucada, sabia que tinha que chegar ao pronto socorro e enfaixar pelo menos o pé, torcendo para não ter quebrado nada, mas pela dor que estava sentindo, sua esperança estava ficando fraca.

Fechou os olhos e permaneceu assim durante todo o trajeto, por sorte o homem não fez nenhuma gracinha, percorreu o caminho até o pronto socorro perguntando apenas onde ficava o atendimento mais próximo pelo GPS do celular, ela até ia responder quando ouviu pergunta e então veio instantaneamente uma voz mecânica do aparelho celular responder por ela, indicando o caminho.

Depois disso silêncio total, ao chegar ao hospital deu falta de sua bolsa, tinha ficado na sala, junto com seu celular, ficou feliz pelo aparelho, ainda bem, seria outro item perdido junto com seus quadros nesse momento, caso tivesse acompanhado a queda, mas dar entrada no pronto socorro sem seus documentos ia ser um problema.

Ao encostar o carro o Juliano a deixa sozinha por um breve momento, eles não chegam a conversar, ela supõe que ele foi atrás de ajuda para que ela possa ser atendida, logo volta com uma cadeira de rodas, logo sua porta é aberta e ela é transferida pelos braços de Juliano, ela nota que sua camisa já está suja sangue, morta de vergonha e muito agradecida, não consegue dizer nada.

Ele a leva para a recepção para fazer sua ficha, a recepcionista pede seus documentos, ela informa que não está com sua bolsa, a atendente de poucos amigos, informa que é necessário que alguém com documentos assine sua ficha, o Juliano já apresenta sua carteira de motorista, assinando sua internação.

Ela então tratou de trocar alguma palavra com ele, agradecendo a ajuda e pedindo o favor de trazer sua bolsa e celular, assim ela poderia chamar alguém de sua família para ajudá-la. Ela é levada para atendimento e então eles se separam, após ser atendida e devidamente, recebe alguns analgésicos que a deixam anestesiada.

Perdeu a noção do tempo, mas estava limpa e enfaixada, uma bota muito incômoda é posta em sua perna, uma tipoia no pescoço suspendendo seu braço, onde levou três pontos.

Depois de alguns raio x e uma tomografia, o médico a tranquilizou, não era nada grave, uma torção no tornozelo, um corte no braço, uma luxação no cotovelo, o médico riu de seus "ossos fortes" como ele falou, ela deu graças por ser mais cheinha e ter carne suficiente para proteger suas juntas.

Mas achou um exagero todo aquele aparato, apesar do médico frisar que ela teria que passar pelo menos 15 dias com a bota, a tipoia era necessária até pelo menos a retirada dos pontos no braço, antes de poder sair, tinha que acertar na recepção do pronto socorro sua internação e todos os procedimentos, ela tinha plano de saúde, mas precisava de sua bolsa para fornecer seu cartão do seguro.

Ao chegar à recepção ainda se adaptando às muletas, suas novas amigas por duas semanas, viu que o Juliano já havia voltado com suas coisas e a esperava no saguão, ela agradeceu novamente a gentileza, foram juntos até o balcão de atendimento para concluir seu cadastro, a enfermeira exigiu que o Juliano assinasse sua alta, ela ficou muito constrangida, pois observou que a conta do atendimento já havia sido paga por ele, então seus documentos serviram apenas para completar seu cadastro como paciente.

Ela tentou reverter aquele engano, mas ao que parece seria um processo de ressarcimento chato e ela teria que pagar a diferença, pois quando perguntou quanto tinha sido a conta, era quase um mês de seu salário e seu plano era para enfermaria, percebeu que Juliano ao fazer o cadastro havia exigido um tratamento vip.

Envergonhada, ficou sem saber o que fazer, decidiu pensar depois em uma solução para ressarcimento, não ia ficar em dívida, não com ele. Estava cansada, tonta pelos analgésicos, não queria se desgastar e discutir também, a recepcionista pareceu pouco amigável, além do mais, não era com ela que tinha que negociar, ia entrar em contato com o financeiro do hospital diretamente, para achar uma saída.

Não, que não tivesse o dinheiro, mas ele iria sair direto de seu fundo de viagem, e sabia que já tinha lido em algum lugar que era obrigação do hospital cobrar apenas o valor dos procedimentos não cobertos por seu plano de saúde.

Saiu da recepção acompanhada do Juliano, ele tratou de acompanhá-la ao seu carro, novamente, ela já de posse do seu celular, agradeceu toda a ajuda, mas que ia pegar um táxi até em casa, já tinha dado trabalho demais. Ele insistiu em levá-la, ela olhou a hora, achou mais prudente, com muletas e tudo pegar uma carona com esse cara que se mostrava uma boa alma.

Ele perguntou onde ficava sua casa, ela deu o endereço que foi prontamente falado ao GPS, e então relaxou no banco de couro, antes tratou de limpar a manchinha de sangue que estava no banco durante o caminho, usando o lencinho que ainda levava, com seu braço bom, o que lhe rendeu algumas caretas de dor.

Seu companheiro de trajeto não falou nada, desde que entrou no carro e após conseguir a direção de sua casa, ligou seu rádio e ficou quieto o resto do caminho, sua casa ficava num bairro mais afastado, mas bem agitado, onde havia muitos comércios e indústrias, sua rua por outro lado era um oásis de tranquilidade, com uma vegetação intacta no seu quintal, sem vizinhos imediatos, um achado imobiliário de sua mãe.

Ficava no alto de uma colina, então ela tinha vista para a cidade, se ela tivesse mais dinheiro poderia construir um casarão, mas ainda estava se situando na casa deixada pelos pais, então ela estava do jeito que eles construíram com seu orçamento modesto, dois andares, uma pequena varanda, e muito espaço, onde seus cachorros se divertiam.

Assim que entrou na rua, sentiu uma pontada de orgulho, era um bom lugar para morar, ao menos disso sempre teve muito orgulho, ao chegar em casa sentiu falta do seu carro parado na entrada do portão, afinal ele tinha ficado na empresa, ao parar na entrada Juliano lhe ajudou com as muletas.

Seus cachorros vieram recebê-la no portão, seu comitê de boas vinda diário, viu Juliano se retrair pelo tamanho dos monstrinhos, ela agradeceu toda a ajuda, explicou que os cachorros não eram sociáveis e para ela seria complicado prendê-los naquele momento, com muleta e tudo mais, ele bem contrariado ele se despediu e desejou melhoras.

Ao entrar no portão, por algum motivo lembrou da reunião marcada para o dia seguinte, e pensou que ainda tinha que fechar a semana para então descansar um pouco, tinha planejado fazer um tour pela Europa de trem dali a duas semanas, já tinha comprado a passagem para seu primeiro destino: Paris.

Com a demissão iria ganhar uma indenização, isso iria lhe render fundos para se manter por uns 6 meses e ainda custearia parte da viagem, a outra seria do fundo de viagem que tinha montado, pensou em tirar esse mês antes de encarar o novo desafio, até porque não sabia quando poderia tirar férias novamente.

Deixou acertado na nova empresa que iniciaria depois do ano novo, assim, teria tempo de viajar e passar as festas de fim de ano com a família, no fim das contas sua demissão acabou sendo algo a comemorar, uma mudança, que ela esperava fosse positiva, a empresa nova pagaria um pouco menos, mas ela teria mais comando, a pessoa que estava no cargo iria se aposentar no início do ano.

Assim ela iniciaria ainda com o encarregado geral no comando, passando a gerência aos poucos a ela, até que ela se interasse do funcionamento pleno da empresa. Secretamente ela passou a pesquisar sobre a empresa e até conseguiu o último balanço anual para estudar suas atividades de caixa.

Na empresa atual ninguém sabia para onde ela iria, mas a conheciam o suficiente para sabe que quer ela não ficaria desamparada, alguns viravam o nariz para ela, a chamando de patricinha, por ter herdado a casa dos pais. Todo o resto ela sempre arcou sozinha, até mesmo parte de seus estudos, pois assim que começou na empresa como estagiária já conseguiu ter dinheiro para se manter sozinha.

Depois de lutar contra seus cachorros para entrar sem ser derrubada, largou as muletas no sofá da sala, estava com tremendo problema, como chegar ao seu quarto, os dois lances de escada pareceram obstáculo intransponível, estava tarde, não ia tirar seu irmão de casa, resolveu deitar ali mesmo, pelo menos naquele dia não ia testar a sorte com as muletas para subir sua escada.

Pegou na bolsa a cartela de analgésicos, buscou um copo de água na cozinha, pulando num pé só, tudo ia ser difícil essa semana, coisas simples como essa era um desafio, deitou no sofá e se cobriu com a mantinha, a dor latejante no braço e na perna foi reduzindo, tinham voltado logo que entrou no carro.

Acordou sem sonho, uma chuva forte se ouvia, nossa, ir trabalhar com muleta, sombrinha, tipoia, bolsa, tinha que pensar em como resgatar seu carro, não ia ter jeito, tinha que pedir ajuda ao irmão, ligou para ele logo depois de tomar o café, precisava que ele viesse lhe ajudar a subir a escada tomar banho e trocar de roupa.

Assim que falou com ele, em poucos minutos a trupe toda estava a sua volta lhe paparicando, a sobrinha ria toda vez que ela pegava a muleta, não era nem oito da manhã e a casa estava em polvorosa, por sorte o irmão só começava as nove no trabalho, ia pode ajudá-la.

Não fez muita sala, o irmão a ajudou a subir, a cunhada deixando o bebê no carrinho, ajudou com a louça do café e a própria bagunça da filha, eles já sabiam da sua saída na empresa, então compreenderam quando ela insistiu em ir trabalhar naquele estado, deram uma carona até a empresa, ficou combinado que no final da tarde, o irmão iria buscá-la junto com a cunhada e ele levaria seu carro devolva à sua casa. Agradeceu aos céus por ter uma família tão prestativa.

Chegou à empresa e os vigilantes ficaram preocupados por seu estado, ajudaram-na pegar o elevador e até carregaram sua bolsa, chegou toda paparicada no seu setor, ela ia sentir falta deles. Não foi diferente com sua equipe, André lhe disse que o Ceo veio cedo avisar que ela não viria para a reunião da tarde, e que sua demissão havia sido postergada até sua recuperação.

Ela ouviu aquilo incrédula, mas já tinha acertado as coisas, sentou na sua sala, que ainda tinha duas caixas num canto, a mesa limpa, ligou o computador, faltava transferir alguns arquivos pessoais e liberar espaço em disco, sentiu uma pontada pensando nos quadros quebrados do dia anterior, devem ter jogado fora as fotos.

Em casa tinha resolvido encerrar o contrato naquele dia mesmo, não ia ter condições de ir trabalhar todos os dias, seu irmão não ia dar conta da carona todo dia, mas a notícia que seu contrato foi prorrogado até o final de sua licença, tratou de passar nos recursos humanos para se certificar dos procedimentos legais, se pudesse já encerrar o contrato amigavelmente o faria, assim, tudo já ficava resolvido e ela livre para poder se cuidar.

Antes de ir até aquele setor, André se antecipou e chamou Lúcia, a chefe de RH para conversar, ele mesmo parecia impaciente em resolver a situação com ela, porém Lúcia deixou bem claro que ela teria que estar plena para poder assinar a demissão, pois teria que fazer um exame médico revisional, política da empresa.

Então ela se resignou, ficaria duas semanas em casa, no retorno poderia vir assinar sua demissão, acertar a indenização, o comando já passaria ao André de toda forma, que ficaria já encarregado do cargo, as 15:30 no horário da reunião Juliano adentrou na sala em que ela esperava com André, ele pareceu perplexo quando a viu.

Informou que não era necessária sua presença e que poderia descansar em casa, ela explicou que tinha que ficar até as 18:00 quando alguém viria para buscar seu carro e levá-la para casa, ele olhou para suas muletas fixamente, André tomou a dianteira, convidando-o a sentar-se, eles tinham preparado uma apresentação ao CEO, um relatório da situação da filial, sob aspecto da produção, aguardaram o Diretor Geral chegar para iniciar a reunião.

Juliano ficou quieto durante toda a reunião, Ana tomou a palavra para reforçar a parte do relatório sobre a quantidade de operadores na equipe, o CEO fechou a cara, não parecia gostar do que estava vendo, ao final entregaram o relatório detalhado, ele deu mais uma folheada, tomou a palavra e colocou suas preocupações quanto a transição, fez várias perguntas à Andre sobre a situação atual, como que para testá-lo.

André era um cara esperto, ótimo funcionário, por isso sempre foi o gerente substituto, se a empresa não estivesse em retração, seria ideal para uma posição de Diretoria em alguma nova filial, em condições normais não haveria porque ele não dar conta do serviço com certa facilidade.

O problema é que com a redução no quadro, muitas pessoas acumulariam funções, algumas adaptações seriam necessárias nas operações, novos recursos teriam que ser contratados, com urgência, elevando o custo da empresa, o que não compensaria com a economia com pessoal, pelo menos não no curto prazo, principalmente pela necessidade de atualização do software de gestão, esse seria um custo alto imediato.

O CEO pareceu preocupado, mesmo depois das perguntas, fitava o relatório pensativo, quando chegou próximo das 18:00, eles ainda estavam discutindo alguns números, quando Ana recebeu a ligação de seu irmão, que estava quase chegando com sua cunhada para recolhê-la e o pegar o carro.

Ela pediu licença, desejou a todos sorte na empreitada, ficaria duas semanas fora e quando retornasse seria apenas para formalizar a demissão, o Diretor Geral da unidade quis iniciar um discurso improvisado de despedida, mas ela teve que cortá-lo, pois seu irmão já estava esperando no estacionamento da empresa, ela pediu desculpas novamente, explicando que sua carona acabava de chegar. O CEO apenas apertou sua mão e lhe desejou melhoras. André lhe deu um abraço afetuoso, ele era bem mais velho que ela, mas os anos trabalhando era quase família.

Muito discretamente ela comentou que teriam uma festa de despedida no seu retorno, o que era uma frase bem incoerente, mas fazia todo o sentido na sua situação. Dois colegas de equipe a ajudaram levando suas caixas até o carro, as duas últimas, os quadros já estavam no lixo ela sabia, mas ali tinham outras preciosidades.

O resto da semana de descanso em casa pareceu interminável, estava certa que estaria fora da empresa na sexta, mas com toda aquela história, esqueceu-se de desmarcar a viagem que iria começar na segunda, então passou o resto da semana ligando para a companhia aérea para remarcar a viagem e para os hotéis em que tinha feito reserva para ajustar as datas de entrada, alguns estavam lotados para outras datas, então teve que negociar para que ressarcissem o valor no seu cartão de crédito.

Também tinha problemas para tratar com o hospital, uma vez que tinha situação da internação pendente, estava em débito com Juliano, além da ajuda prestada não permitiria que lhe ficasse devendo o dinheiro, mesmo que isso fosse de pouca importância para ele, era uma questão de honra.

Na semana seguinte foi ao hospital tirar os pontos também fazer retorno com o médico para ver se a luxação no tornozelo estava melhor, fez outra radiografia, estava tudo voltando ao lugar, já não sentia dores, e o pé estava desinchando, ela perguntou se podia abandonar a muleta, mas foi proibida, iria poder largar o kit na próxima consulta se tudo estivesse já finalmente no lugar.

Neste período ficou andando de Uber, estava se sentindo uma madame, com motorista, quase se convenceu a vender o carro e passar a usar apenas o aplicativo para locomoção, mas tinha muito apego ao SUV para vendê-lo, além do mais, de certa forma tinha ficado limitada aos trajetos essenciais com a bota no pé, não ficava desfilando de um lado para outro.

Seu irmão e cunhada vinham fazer companhia neste período, ajudá-la vez ou outra, ela também se permitiu ter uma empregada por duas semanas, indicação da cunhada, era um custo alto, mas necessário, de fato tinha virado uma madame com esse acidente.

Na saída do hospital, enquanto aguardava seu Uber, encostou uma Mercedez, bem a sua frente, ela foi com sua muleta mais para o lado na calçada, para assim, poder aguardar o Uber com tranquilidade, nem notou que Juliano saía do carro, e quando ele bateu em seu ombro estava distraída olhando na tela do celular o trajeto que o carro do Uber estava fazendo para chegar.

Levou um susto, seu celular caiu ao chão, por obvio ela não conseguiria com bota e muleta descer para juntar, ele a ajudou e ela viu com muita tristeza que sua capa da Bonequinha de Luxo estava quebrada, mas recobrou a felicidade ao ver que a tela estava intacta, foi voltou para a realidade a sua volta, Juliano estava a sua frente, o fato bem insólito.

Ele ofereceu carona, mas ela apontou o celular dizendo que estava esperando seu Uber, então ele perguntou como ela estava, ela achou que ele estava esperando alguém do hospital, um sorriso saiu sem querer quando pensou que talvez ele fizesse um bico de paramédico, puxando uma conversa bem tímida, ela informou que veio tirar os pontos, ele perguntou quando ela tiraria a bota, ela informou que ficaria presa àquela coisa por mais uma semana.

Ela perguntou sobre a empresa, de forma bem genérica, pois apesar de ainda vinculada legalmente por conta da licença médica, já estava se desapegando daqueles problemas, não queria voltar a se preocupar aquilo que na prática já não era mais seu, mas internamente sempre tinha curiosidade, talvez um pouco de vaidade, de saber como as coisas estavam se saindo.

Ele não foi muito esclarecedor, assim como a pergunta foi genérica a resposta também o foi, pelo que ela não teve muito esclarecimento, as mensagens que recebia vez ou outra de André, pedindo alguma informação, diziam muito mais sobre o que estava afligindo a empresa. O silêncio, já costumeiro entre eles, voltou, ela desbloqueou a tela de seu celular para voltar a acompanhar a rota de seu Uber, que já devia estar chegando pelo tempo que havia se passado desde de que tinha pedido.

Observou, que com a queda o botão de cancelar a viagem foi ativado, assim, seu Uber não chegaria, como que adivinhando, Juliano lhe perguntou se demoraria muito sua carona, ela explicou que a viagem tinha sido cancelada sem querer na queda, ela ficou vermelha como um pimentão, pois era certo que ele encararia aquilo como um aceite à sua carona.

Ela não fez muita cerimônia, estava com vontade mesmo de passear de Mercedes e lembrou que precisava ainda tratar com ele do ressarcimento que já tinha conseguido e seria direcionado ao cartão de crédito dele, não tinha mencionado na reunião um assunto pessoal, pois nem tinha ainda resolvido o problema, mas naquela semana em casa conseguiu se comunicar com o financeiro do hospital e acertar as coisas.

Assim que ele deu partida no carro ela informou que tinha conseguido acertar as coisas com o hospital, ele a olhou de relance e cerrou os olhos, ela seguiu explicando os detalhes técnicos que explicavam a demora no acerto, pediu que ele conferisse no extrato de seu cartão se de fato fizeram o estorno e que se algo desse errado que ele lhe informasse, o prazo dado foi de 5 dias úteis, então venceria na próxima quarta feira.

Ele assentiu com a cabeça, não tirando os olhos da estrada, viu que ele não pôs no GPS a direção de sua casa, mas ele parecia conhecer, não lhe perguntou nada, continuava dirigindo, era próximo do meio dia, pensou que era seu horário de almoço, lhe voltou o pensamento do que ele fazia no hospital naquele momento, logo após sua saída da consulta.

Apesar da timidez, decidiu tirar a limpo, perguntando se não estava atrapalhando seu trajeto, ele prontamente respondeu que não, em seguida questionou sobre o fato dele estar no hospital, demonstrando uma falsa preocupação sobre algum colega que por ventura estivesse precisando de cuidados, pois estava realmente desconfiada da sua presença naquele local.

Ele ficou quieto por alguns segundos, suspirou e respondeu que a recepcionista havia lhe ligado informando da consulta logo pela manhã, ela lembrou que recebeu a mesma ligação pela manhã em seu celular, e lembrou que o número dele devia estar ainda em seu cadastro como número de contato, praxe do hospital, pois ele tinha figurado como seu responsável, assinando inclusive sua alta naquele dia.

Ela ficou muito envergonhada, não sabia o que responder, ele sentiu seu embaraço, e respondeu que tinha uma reunião no centro logo após o almoço, então era caminho, pensou em ver como ela estava, ela agradeceu a atenção, estavam chegando à sua casa, pareceu uma indelicadeza desta vez não lhe convidar a entrar, apesar de que não tinha muita coisa para oferecer, torcia que a empregada que tinha contratado temporariamente já tivesse com o almoço pelo menos começado.

Ele aceitou, com a empregada em casa seus cachorros passavam o dia no pátio traseiro, pois a empregada não conseguia controlá-los e tinha medo deles, todo dia pela manhã ela usava todo seu charme e persuasão, que se resumia uma caixa de biscoitos caninos, para atraí-los ao pátio traseiro, onde um cerca separava o quintal da parte frontal da casa, ao final da tarde os soltava para poder transitar livremente por toda a casa, exceto o interior.

Ele a ajudou a sair do carro, com sua muleta, ela vasculhou na bolsa seu controle remoto do portão, muito pacientemente ele a acompanhou até a entrada de sua casa, com sorte ao entrar sentiu o cheiro da comida da Dona Olga, que se mostrou melhor cozinheira do que faxineira, mas ela achou ótimo, nunca foi uma neurótica por limpeza.

Ela o apresentou à empregada, ele olhava sua casa com curiosidade, sentaram-se na sala, que agora era uma espécie de quarto improvisado, mas Olga deixava tudo arrumado. Ela tratou de puxar alguma conversa, já que ele permanecia mudo, ela viu que ele olhava para os retratos na mesa de centro, sua família, tinha também livros e alguns rabiscos dela, depois para os quadros, que eram mais registros de viagem.

O por do sol numa vila INCA no Peru, outro dela no meio de ciganos no mercado em Praga, já tinha visitado muitos países, ela tratou de falar amenidades de viagem, contar as circunstâncias de viagens, ela perguntou se ele já tinha ido à Nova York, já que lhe parecia fascinar a cidade, ele respondeu que tinha ido pelo menos cinco vezes esse ano.

Ficou totalmente envergonhada da pergunta, é claro que um homem de negócios como ele já deveria ter rodado o globo em busca de parcerias comerciais, ele explicou também que passou boa parte da adolescência nos Estados Unidos, bem como retornou ao Brasil para se graduar na USP em Economia e fez especialização em Harvard, morou em Nova York por dois anos, antes de voltar ao Brasil.

Tinha lido sua biografia, sabia disso, mas não era fácil ouvir do próprio homem, suas viagens eram apenas souvenir para ele, que devia olhar com curiosidade como os pobres mortais se vangloriavam dessas pequenas conquistas.

Ele se voltou para os livros de viagem que ela tinha sobre a mesa de centro, alguns esboços de casas, um hobby que tinha, também estava aberta sua agenda onde planejava sua viagem, na verdade estava toda rabiscada a página, pois tinha remanejado toda a viagem com o acidente.

Dona Olga veio perguntar algo sobre o almoço, quando ela voltou atenção para seu convidado ele tinha um dos esboços na mão e olhava com atenção, elogiou seu trabalho artístico, não era grande coisa, era um desenho mais técnico, mas com esses dias de tédio tinha dedicado bastante atenção naquele esboço, era como ela imaginava sua casa dos sonhos no alto da colina, se um dia tivesse dinheiro e coragem para derrubar sua casa atual.

Ele perguntou porque ela tinha não tinha um desenho desses em um quadro, ela muito timidamente, explicou que na verdade não era uma desenho artístico, mas um projeto arquitetônico, ele perguntou então se ela tinha formação em arquitetura, ela explicou que chegou a fazer algumas matérias quando ainda estava na faculdade de engenharia, mas que não tinha habilitação para construção civil.

Dona Olga voltou convidando eles a se sentarem para o almoço, ela viu que havia apenas dois pratos na mesa arrumada, com os olhos pediu para ela trazer outro prato, Dona Olga negou com a cabeça, como se tivesse com medo do convidado, mas ela insistiu, ela olhou para o convidado sentado que olhava aquele embate silencioso com curiosidade, um sorriso no canto da boca.

Ela ganhou a batalha de olhares e Dona Olga voltou com um prato a mais e os talheres sentando na frente do convidado, na ponta da mesa ela já estava sentada, comeram, vez ou outra Juliano fazia algum elogio espontâneo à comida, Dona Olga foi ficando mais a vontade, orgulhosa.

Logo a empregada passou de retraída para faladeira, contando um pouco da rotina da patroa nessa última semana, instigada por um inquisidor como Juliano, que até estava se divertindo com a empregada, principalmente quando ele perguntou como a enferma estava se portando esta semana.

Dona Olga passou o relato dos primeiros dias difíceis, de como ela era teimosa em não querer ajuda, ela tentou amenizar dizendo que era a primeira vez que tinha uma empregada em casa, que realmente esta semana estava sendo um aprendizado. Terminado o almoço Juliano a ajudou a sair da mesa e voltaram para a sala, ele informou que tinha que retornar à empresa, agradeceu o excelente almoço e deu votos de que ela se restabelecesse logo.

Sentiu que estava ficando amiga daquela pessoa, que até algumas semanas atrás era um completo estranho, mas ao lembrar das circunstâncias em que seus caminhos se cruzaram, sentiu um aperto ao peito, ainda estava ressentida pelo emprego, era um fato, não podia esquecer tal coisa assim tão fácil, e o sorriso que tinha dado ao se despedir dele morreu.

Baixar livro

COPYRIGHT(©) 2022