Jake Shaw estava obcecado por uma jovem estudante universitária, a garota que ele havia patrocinado. O nome dela era Elsie Davies.
Nosso relacionamento, já desgastado pelos anos, parecia ter chegado ao fim.
No dia em que pedi a Jake que escolhesse entre mim e Elsie, eu estava estranhamente serena. Depois de uma discussão tensa, ele me escolheu e prometeu afastar Elsie de vez.
Quando finalmente ficamos noivos, recebemos a notícia de que Elsie tinha sofrido um acidente e caído no lago.
Com os olhos marejados, segurei o braço de Jake, que estava em pânico, e disse: "Jake, se você sair daqui, não haverá volta para nós."
Mas os olhos de Jake, ao me encararem, estavam cheios de desprezo e uma reprovação cortante. "Perder Elsie é o mesmo que morrer para mim. Isabel, se você tentar me impedir de salvá-la, vou te odiar para o resto da vida."
Fiquei paralisada, assistindo enquanto ele se desvencilhava do meu toque, virava as costas e saía correndo, sem olhar para trás.
Entre risadas amargas, olhei para o vestido de noiva que vestia e percebi que Jake havia feito a escolha dele. Então por que eu não conseguia seguir em frente?
As lágrimas escorreram sem controle quando a porta bateu.
...
Eu sabia, no fundo, que Jake já vinha apoiando Elsie havia algum tempo.
Ele havia vencido um projeto de caridade corporativa e, para melhorar a imagem da empresa, incentivou todos os executivos a patrocinarem estudantes carentes.
A maioria apenas doava por obrigação. Eu também fiz isso.
Mas Jake foi além. Ele se encantou pela estudante ingênua e doce.
Enquanto todos os funcionários tinham diplomas de universidades renomadas, Jake enfrentou as críticas e deu a Elsie um cargo no departamento de secretariado, mesmo ela vindo de uma faculdade medíocre.
Quando os rumores começaram, eu decidi confiar nele, nos nossos sete anos juntos.
Só que, aos poucos, as coisas começaram a mudar.
Jake trocou a senha do celular, alterou o papel de parede e limitou as postagens nas redes sociais para os últimos três dias. Ele, que antes falava comigo com atenção, passou a se comunicar por frases soltas. Além disso, encontrei em seu celular uma coleção de figurinhas animadas com carinhas fofas.
Isso me corroía por dentro.
Então, passei a observar seus comportamentos com mais atenção.
Na noite do nosso aniversário, o celular de Jake vibrava sem parar na mesa de cabeceira. Ele mal participou da nossa intimidade, se levantou sem dizer nada, vestiu a camisa e foi ao banheiro.
Não ouvi o som da água. O que ouvi foi sua risada baixa, abafada pelo vidro fosco.
Um impulso me guiou, e peguei o iPad que ele usava para o trabalho.
Mesmo sendo cauteloso, Jake cometia erros. Eu não sabia se ele estava se iludindo por outra mulher ou se confiava tanto no meu amor para se tornar tão sem-vergonha.
E ali estava: o histórico sincronizado de conversas com uma mulher que usava o apelido "Senhorita Coelhinha". As mensagens de voz dela eram absurdamente doces, quase infantis.
Ela questionava Jake com charme sobre a demora em responder, e ele, solícito, se desculpava com emojis e dizia estar ocupado no trabalho.
Continuei rolando a conversa. Eles falavam sobre bolos de padaria e filmes mais comentados do momento, e discutiam qual formato de unha combinava melhor com os dedos finos dela.
Jake respondia a cada mensagem dela. Sua gentileza quase quebrou minhas últimas barreiras emocionais.
Em sete anos de relacionamento, eu nunca o vi ser tão gentil.
No fim da conversa, Jake escreveu: "Sua menstruação está chegando. Evite bebidas geladas a partir de amanhã."
Elsie riu e pediu um beijo de boa noite em mensagem de voz.
Poucos segundos depois, veio o áudio - um beijo suave, cheio de ternura. Pela primeira vez, senti que Jake tratava alguém como um verdadeiro tesouro.
Antes que Jake saísse do banheiro, limpei a tela do iPad e o coloquei de volta no lugar. Passei a noite em claro, chorando, enquanto Jake dormia profundamente ao meu lado.
Na manhã seguinte, ele nem percebeu os meus olhos inchados, concentrado demais procurando um remédio para cólica na sala de estar.
Observei quando Jake encontrou a caixa de remédios, pegou um comprimido e o guardou no bolso do terno.
Olhei para ele, estranhando. "O que está fazendo?"
Por dentro, eu já sabia a resposta e, mesmo assim, me agarrei à esperança de que ele fosse dizer a verdade.
Jake hesitou por um instante, depois abaixou os olhos. "Nada, só estava procurando uma coisa."
Essa resposta me destruiu mais um pouco, mas, ainda assim, continuei me enganando.
No nosso círculo social, infidelidades eram quase banais. Eu já tinha me acostumado a ver mulheres sendo trocadas como acessórios.
Porém, a verdade era que eu nunca havia pensado que Jake me trairia, pois construímos um negócio juntos ao longo dos sete anos de relacionamento.
Cada centímetro da Corporação Shaw carregava meu suor, minha dedicação. Eu não podia simplesmente abrir mão de tudo.
Então, naquela noite, pedi que ele escolhesse. "Jake, entre mim e Elsie, quem você escolhe?"
Não lembrei qual expressão fiz, e só me recordei da janela escura e do nó sufocante na garganta.
Em vez de responder, Jake passou horas fumando na varanda, as cinzas se acumulando no chão, depois desapareceu.
Três dias se passaram.
Quando Jake voltou, tinha marcas vermelhas no pescoço e a voz rouca ao dizer: "Resolvi tudo com ela. Elsie não fará mais parte das nossas vidas."
Soltei uma risada seca. "E onde ela está?"
Jake ergueu a cabeça com brutalidade, os olhos em fúria. "Você quer que ela morra para ficar satisfeita? Ela não tem ninguém no mundo. É órfã."
Ele me olhava como se eu fosse uma inimiga. Diante desse olhar, engoli minhas palavras, já que não tinha forças para discutir.
Jake pareceu perceber o exagero, respirou fundo e disse, mais calmo: "Isabel, eu sei que errei. Prometo que não vai se repetir. Só... por favor, não dificulte as coisas para Elsie. Ela é inocente, ingênua demais."
Foi ali que meu coração se partiu de verdade.
Eu o amei por sete anos e, pela primeira vez, ele suplicava... não por mim, mas por ela.
Naquela mesma noite, ele me pediu em casamento, e eu aceitei.
Mas nós dois sabíamos que nunca mais seríamos os mesmos.
Desde então, nunca mais vi Elsie, que sumiu da minha vida como se tivesse evaporado.
Mas, no dia da nossa festa de noivado, entre champanhes e flashes de câmeras, Jake viu a foto de uma mulher parecida com Elsie no celular de um dos convidados. E, diante de dezenas de testemunhas e da imprensa, ele me deixou.
A festa de noivado terminou de forma abrupta, deixando um rastro de constrangimento que pesava sobre mim e minha família. Em poucas horas, todos já cochichavam pelas costas, me rotulando como a noiva que Jake havia abandonado no altar.
Minha mãe, mesmo com os olhos marejados, se posicionou diante de mim com a firmeza de uma leoa. Ela não deixou que os repórteres, impiedosos, se aproximassem.
Já meu pai, com a elegância de sempre, se limitou a pedir desculpas educadamente aos convidados.
Quando a noite caiu, finalmente, eles foram embora.
Mais tarde, a porta de nossa casa se abriu e Jake entrou carregando Elsie nos braços. Ela estava completamente encharcada, como se tivesse enfrentado uma tempestade, e ele a envolvia com gestos suaves, como quem embalava algo frágil.
Era a primeira vez que eu via Elsie de perto. Ela parecia um filhote assustado, vulnerável. Sua pele era de uma palidez quase translúcida, e seus olhos estavam vermelhos e úmidos.
Quando seus olhos cruzaram com os meus, ela recuou, se aconchegando ainda mais ao peito de Jake.
Jake franziu o cenho e, com um tom irritado disfarçado de preocupação, disparou: "Isabel, mude essa expressão. Você está assustando ela."
Ignorei e voltei a organizar minhas coisas, em silêncio.
Minha mãe surgiu da cozinha segurando uma tigela fumegante de sopa de frango. Ela passou por Jake sem sequer olhá-lo e veio direto até mim. "Isabel, tome um pouco, querida. Vai te aquecer."
Eu abri a boca para agradecer, mas o som de um choro interrompeu minhas palavras. "Jake, eu sinto tanta falta da minha mãe... Ninguém nunca fez sopa de frango para mim."
Jake limpou suas lágrimas com uma delicadeza revoltante. E então me lançou um olhar cortante. "Isabel, você sabe que Elsie não tem família. Acha mesmo apropriado exibir esse carinho todo com sua mãe na frente dela? Ela é sensível, inocente... Vai levar isso para o coração. Por que você precisa dificultar tudo?"
Sustentei o olhar dele e respondi, com frieza: "O fato de ela não ter família não é responsabilidade minha. E se você acha que estou dificultando algo, te garanto que não tenho tempo nem paciência para isso."
Eu nunca costumava discutir com Jake, muito menos nesse tom.
Por um instante, ele pareceu surpreso, logo em seguida, impaciente. "Mesmo que não seja sua culpa direta, você teve sua parcela no que aconteceu com Elsie. Se não tivesse insistido para que ela sumisse naquela época, ela não teria..."
Jake se interrompeu.
Ao olhar para a mão esquerda dele e perceber que o anel de noivado havia desaparecido, um sorriso amargo surgiu em meu rosto.
No fim, não importava o quanto ele fingisse ou tentasse parecer justo, a verdade sempre escapava pelas rachaduras.
Jake nunca havia me perdoado completamente e, pior ainda, nunca havia deixado de amar Elsie.
Engoli o nó na garganta. "Então, o que exatamente você quer?"
Jake desviou o olhar, como se fosse difícil me encarar. "Vou reservar um bom hotel para os seus pais, eles podem sair ainda hoje. A presença deles só vai deixar Elsie mais desconfortável. E você... bem, você vai cuidar dela pelos próximos dias."
Levantei o rosto e o encarei. "Eu vou embora com os meus pais."
Jake parecia não acreditar. Ele parou por um segundo e, em seguida, soltou um suspiro aliviado. "Isabel, você sempre foi tão compreensiva... Eu sabia que entenderia. Algumas pessoas não são boas para a recuperação dela. Mas não se preocupe... Quando tudo estiver mais calmo, vou te buscar."
Após dizer isso, ele avançou e tentou segurar minha mão - coisa que raramente fazia, e que agora, curiosamente, parecia estar disposto a fazer por causa de outra.
Seus dedos estavam quase tocando os meus quando Elsie o puxou de volta. "Jake, estou com muito frio..."
Jake virou a cabeça reflexivamente, viu os olhos de Elsie cheios de lágrimas e, sem dizer mais nada, a carregou apressadamente até o banheiro.
Pela porta entreaberta, vi quando ele se ajoelhou diante dela, retirando com cuidado a blusa molhada de seus ombros.
"Jake, eu consigo sozinha..."
Com tom de voz suave, ele respondeu: "Seja boazinha. Não se mexa O médico disse que seus pulsos ainda estão frágeis."
Observei as costas largas tão familiares dele, a mesma imagem do rapaz que, anos atrás, cuidava de mim com tanto zelo naquele pequeno apartamento alugado, logo após a faculdade.
Naquela época, um simples colar de prata era o suficiente para representar nosso amor.
Mas os tempos haviam mudado, e Jake também.
A dor apertou minha garganta e fechei os olhos, tentando conter as lágrimas. Talvez eu devesse ter percebido há muito tempo que ele não era mais o jovem que fazia meu coração disparar.
"Mas Jake, eu não voltarei nunca mais."
Nesse instante, compreendi que escapar do casamento havia sido um acerto. Pelo menos, não havia bens a partilhar, nenhuma guerra judicial à vista. Mesmo assim...
"Senhorita Douglas, os bens entre você e o senhor Shaw somam um valor significativo. Leva em torno de uma semana para finalizar a separação."
Eu acenei com a cabeça.
Como eu havia decidido terminar com Jake, não deixaria meus bens com ele. Eu estava esperando há sete anos, então mais uma semana não me mataria.
Quando voltei à empresa, os olhares eram inevitáveis. Cada passo pelos corredores era acompanhado por murmúrios curiosos e especulações silenciosas.
Só dentro do elevador pude respirar aliviada, ainda que por pouco tempo.
Foi então que percebi que os botões estavam cobertos por adesivos de coelho.
Minha assistente, Noreen Robertson, percebeu minha confusão e hesitou antes de explicar: "Foi a senhorita Davies quem colou. O senhor Shaw mandou deixar, já que isso a deixa feliz."
Noreen sabia das tensões entre mim e Jake, por isso, escolheu as palavras com cuidado. "Jake é um bom homem, Isabel. Só está cuidando dela porque... bem, porque ela não tem mais ninguém. Você é diferente, é a noiva dele."
Por muito tempo, eu acreditei nisso também, que Jake era apenas um bom samaritano, alguém que estendia a mão por piedade, mas, de repente, ele simplesmente deixou de me amar.
"Nós não temos mais nada", murmurei.
"Como disse?", Noreen perguntou, confusa.
Olhei para o coração rosa colado no botão do último andar e repeti com firmeza: "Jake e eu não temos mais nada."
Assim que terminei a frase, as portas se abriram.
Jake estava ali, parado, com uma Elsie sorridente em um vestido encantador atrás dele.
Talvez Jake tivesse escutado o que eu disse. E, pelo jeito como me olhava, definitivamente não gostou do que ouviu.
Elsie se aproximou com um sorriso infantil que me tirava do sério e disse: "Isabel, o senhor Shaw me levou a um jantar de negócios ontem à noite, e foi a primeira vez que vi tanta comida gostosa junta! Mas o melhor de tudo... foram os pastéis de nata! Ele pediu especialmente para mim. Disse que eram bons para minha saúde."
O ar estava impregnado com um perfume floral enjoativo, tão forte que me vi cobrindo o nariz e soltando uma tosse discreta.
Resolvi ignorar Elsie, mas Noreen não deixou barato. "Você devia chamá-la de senhorita Douglas aqui no escritório, Elsie, não sabia disso?"
Bastava esse pequeno lembrete para Elsie desmoronar. Ela se encolheu atrás de Jake, com os olhos marejados como se tivesse sofrido uma crueldade imperdoável.
Jake, protetor, acariciou sua cabeça com delicadeza, tentando acalmá-la. Em seguida, lançou um olhar gélido na minha direção, dizendo: "Controle sua assistente. Estamos no ambiente de trabalho. Isso aqui não é lugar para descontar sentimentos pessoais."
Elsie disfarçou bem a satisfação que passou por seus olhos e logo se agarrou ao braço de Jake, com a voz trêmula e um olhar fingidamente aflito. "Senhor Shaw, a culpa foi minha... Por favor, não seja tão duro com a senhorita Douglas."
Jake pareceu prestes a me dizer algo, mas eu fui mais rápida: segurei o braço de Noreen e a puxei para fora do elevador.
"Isabel, ainda não terminei de falar com você!", ele exclamou.
Respirei fundo, me virei devagar e o encarei sem demonstrar nenhuma emoção. "Você me chamou de Isabel? Já esqueceu o que disse há pouco? Desde quando tem o direito de falar meu nome assim, com essa familiaridade toda? Você é o vice-presidente, senhor Shaw."
O ar parecia pesar ao redor de Jake.
Ele ficou paralisado por um instante, como se estivesse diante de uma estranha, então estendeu a mão na minha direção, hesitante. "Isabel, eu não quis..."
"Plaft!" A mão dele parou no ar, levemente avermelhada onde minha palma havia acertado.
Uma pequena multidão começava a se formar no corredor, mas eu ignorei completamente. "Senhor Shaw, eu o contratei com um bom salário para que contribuísse com a empresa, não para tratar seus dramas amorosos aqui dentro. Se não consegue separar o pessoal do profissional, terei que reconsiderar se está mesmo preparado para o cargo que ocupa."
O silêncio caiu como uma pedra. De repente, Elsie soltou um grito melodramático: "Senhor Shaw, você está bem? Dói? Eu não queria causar esse clima entre você e a senhorita Douglas..."
Com lágrimas falsas escorrendo pelo rosto, ela segurou a mão dele e a esfregou com cuidado, como se fosse algo sagrado. E então, para o espanto geral, ela se ajoelhou diante de mim, implorando: "Senhorita Douglas, eu sou nova nisso tudo... não entendo direito como funcionam essas coisas de escritório. Se eu disse algo que a ofendeu, me castigue como quiser. Eu aguento! Mas, por favor, não trate o senhor Shaw assim. Ele é um homem tão bom, e eu amo..."
Elsie não terminou, mas não precisava, pois todos entenderam exatamente o que ela queria dizer.
Jake, que parecia perdido até então, finalmente reagiu - primeiro olhou para mim, depois para Elsie, em prantos no chão, se abaixou e a pegou nos braços.
Diante de todos, ele declarou com frieza: "Peço desculpas se minha mulher lhe causou problemas, senhorita Douglas. Da próxima vez, serei mais cuidadoso."
Em seguida, ele saiu sem olhar para trás, e eu me senti completamente amargurada.
Quando a porta do escritório se fechou, as lágrimas que estavam acumuladas em meus olhos caíram. Talvez eu tivesse chorado não por causa de Jake, mas pela Isabel de sete anos atrás.
Sozinha, fui à conferência de negócios. Depois de algumas taças de vinho com os parceiros comerciais, vi Jake surgir na entrada com Elsie ao lado.
Ainda havia ecos do nosso noivado recente no ar, o que deixava muitos empresários em dúvida sobre como nos abordar.
Após me aproximar, estendi o roteiro do discurso a Jake com tranquilidade. Ele seria o responsável por apresentar nossos novos produtos esta noite.
Antes que ele pudesse pegar, Elsie tomou o papel das minhas mãos. "Ah, esse é o roteiro de apresentação? Parece fácil. Jake... digo, senhor Shaw, posso tentar depois?"
Entendendo bem o que ela queria, interrompi de imediato. "Essa apresentação é importante, e você nem conhece as especificações do produto..."
"Ela pode fazer isso." Jake se colocou entre mim e Elsie e me lançou um olhar indiferente. "Este é meu dever. Elsie é minha secretária, então é normal que ela fale em meu nome."
Travei a mandíbula, sentindo o gosto amargo da decepção. Jake sabia exatamente o quanto significava para mim esse projeto, no qual eu havia trabalhado quase três anos com minha equipe.
"Isabel, ela precisa de oportunidades para crescer. Nem todo mundo tem os privilégios com os quais você nasceu."
Seu olhar firme me tirou o chão. Como ele, que sabia melhor que ninguém o quanto lutei, podia dizer isso?
Mas não havia mais tempo para argumentar, pois o apresentador já anunciava o início da apresentação.
Diante de uma plateia repleta de profissionais do setor e jornalistas, Elsie subiu ao palco.
O desastre veio rápido. Elsie gaguejava, perdia o fio da meada, e errava dados básicos, mal conseguindo concluir a primeira parte. Com o rosto vermelho e os olhos lacrimejando, ela murmurou: "Jake..."
Jake estava ao meu lado. Ele fechou os lábios com força, refletindo por um instante, até se levantar com firmeza. Seu olhar cruzou o meu, e por um segundo vi culpa em seus olhos.
Jake atravessou o salão sob os cochichos do públic, pegou o microfone das mãos de Elsie e a abraçou. "Sinto muito, pessoal. Minha secretária ainda não está familiarizada com as operações de mercado. A partir de agora, eu mesmo conduzirei a apresentação."
Fiquei imóvel, observando os dedos dos dois entrelaçados.
Jake falou com segurança, cativando a plateia.
Quando ele terminou, os aplausos foram estrondosos, e as câmeras se ergueram, enquanto os repórteres corriam até ele e Elsie.
"Senhor Shaw, é verdade que houve um desentendimento entre o senhor e a senhorita Douglas no noivado? Essa moça seria seu novo amor?"
"A relação entre você e a senhorita Douglas se tornou irreconciliável?"
"Poderia nos contar mais sobre essa jovem ao seu lado?"
Em meio ao bombardeio de perguntas, o olhar de Jake recaiu sobre mim mais uma vez.
Mas eu já não prestava atenção, pois a tela do meu celular havia se acendido.