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The Storm

The Storm

Autor:: Bruna Olliver
Gênero: Romance
Lia é uma garota de 17 anos que acaba de perder seus pais em um terrível acidente, a garota e seu irmão mais novo Petter passam a morar com a tia que se muda as pressas para Ohio. O ultimo ano letivo se inicia e Lia conhece o novato Taylor Nolan, um garoto que veio transferido para Ohio cujo o qual ninguém sabe nada sobre. A garota acaba se envolvendo com o novato e se metendo em diversas confusões, ela vive um sentimento intenso por Taylor, sentimento que acaba machucando Natan, o melhor amigo de infância ao qual a mesma possui um leve envolvimento. Lia descobre que sempre viveu uma mentira, duas histórias diferentes, um único sentimento, o passado pode ser uma tormenta, mas ele não irá mudar.

Capítulo 1 Memory

Cada momento é tão precioso e único, ainda assim nunca paramos para bater uma fotografia mental das situações tão divertidas que passam depressa. A felicidade age pelos caminhos do acaso, uma vez percebida, é melhor senti-la do que conferi-la, por isso as crianças têm esse dom e, em parte, tive uma infância feliz.

Por sete anos fui filha única, foi um período bom e confesso que aproveitei bastante essa carreira solo, mas com o nascimento do meu irmão mais novo, o roteiro tomou outro rumo. Inicialmente foi estranho ter que dividir atenção e essas coisas, mas depois de ver de perto aquela miniatura de ser humano com roupinhas de algodão, tão indefeso, enroscando os dedinhos no meu dedo indicador, senti que seria meu aliado para a vida toda. Petter é aquele motivo a mais que toda pessoa precisa para tomar decisões importantes.

Nada mudou, não como eu imaginei que fosse. Se antes minha mãe me levava para o Parque perto de casa chamado Lakewood, Petter se tornou mais um tripulante sem faltas dos passeios de todo fim de tarde, todo enrolado e dorminhoco no carrinho de bebê, enquanto eu corria sobre o gramado verde em direção ao balanço, propositalmente desengonçada, só para ouvir minha mãe gritar: "Lia, cuidado, não corre assim!", mas era em vão, já que eu adorava sentir que alguém se importava muito comigo.

Como uma boa administradora, sempre preocupada em dar atenção dupla, ela posicionava o carrinho do Petter virado para sua visão e perto do balanço, afastado o suficiente para que não corresse o risco de ser machucado pelo meu impulso, logo mais era minha vez de brilhar, até tinha uma frase ensaiada, bem profissional que aprendi assistindo a filmes espaciais:

- Comandante Lana, preparar para decolar. – fingia segurar um walkie talkie numa mão, enquanto a outra segurava com firmeza na corrente fixada à base do brinquedo. Minha mãe, como uma boa apoiadora do faz de conta, respondia na mesma intensidade, sem perder a brincadeira:

- Entendido, patrulheira Lia.

A cada empurrão no balanço para frente, me sentia mais solta, mais livre e, como gostava de tornar aquele momento mágico, fechava os olhos para deixar o vento tomar conta do vai e vem que me transformava num passarinho ainda sob os cuidados das mãos maternais que balançavam numa velocidade segura, porém, sem perder a diversão. E assim as tardes passavam até que o sol se despedisse e tornasse a noite dona da vez, a gente chegava bem cansado em casa, passávamos sempre da porta direto para o banheiro.

Depois de horas despendidas em risadas, a noite era focada em descansar. A cereja do bolo era ver minha mãe aconchegada na poltrona de amamentação acinzentada com Petter no colo, e a janela atrás com a cortina puxada para o lado mostrava a escuridão iluminada do anoitecer estrelado. Eu, agasalhada num pijama com o rosto inteiro do Ursinho Pooh estampado na blusa de moletom, me encolhia no tapete felpudo azul, cobria meu corpo com uma manta tão fofa que parecia uma ovelha, enquanto apreciava o cantarolar da minha mãe ao mesmo tempo em que tinha a incrível habilidade de sorrir ao cantar.

A música era sempre lenta e calma, como sussurros delicados do fundo da garganta para que Petter adormecesse enquanto se alimentava, e essa tática sempre dava certo, tanto para ele quanto para mim, que pouco a pouco me embalava no sono que chegava pesado, então, a última imagem que eu tinha dela era de um sorriso lindo e tão gracioso quanto a presilha em formato de lírio – sua flor favorita – que prendia sua franja para trás. Os seus olhos, carregados e expressivos em doçura e ternura, eram a base da família.

Adormecida, ela me carregava do chão e levava para cama e, depois de um dia inteiro, escutava bem lá no fundo a voz do meu pai entrando no meu quarto. Ele se abaixava na altura da cama, me dava um beijo na testa, acendia o abajur e deixava a porta entreaberta, porque sabia que às vezes eu tinha pesadelos durante a madrugada.

Meu pai costumava chegar muito tarde em casa por causa do trabalho, e isso era motivo suficiente para uma chateação tremenda entre ele e a mamãe, que tentavam discutir em voz baixa para não acordar a mim e nem a Petter, e por anos essa guerra silenciosa funcionou, mas a gente cresceu, e as brigas entre mamãe e papai também.

Como uma boa irmã mais velha de dezessete anos, coube a mim buscar Petter – já com dez anos – na escola, uma vez que os nossos horários de saída e ruas são os mesmos. Ao longo do caminho, desviamos um pouco e, é claro, sempre cedo aos pedidos manhosos de Petter quando o assunto é tomar sorvete no Lakewood Park, o mesmo que eu adorava ser embalada quando criança e que agora é o favorito do caçula da família.

Na maioria das vezes eu adorava essas escapadas, porque fugimos um pouco de casa e também, mas não menos importante, é a parte do dia que Petter me mostra os desenhos que ele mesmo faz de tanto dinossauro com tanto nome esquisito que é tedioso tentar lembrar, mas eu sempre finjo prestar muita atenção. Em resumo, é um tempo só nosso, de irmão para irmão, só a gente sabe. Ainda que a nossa diferença de idade seja grande, tento ser a mais atenciosa possível. Devorados os sorvetes, sempre prestávamos atenção a qualquer gotinha na roupa que nos denunciasse.

Chegando em casa, Petter subia as escadas em disparada em direção ao quarto para fazer as tarefas e eu ajudava minha mãe nos afazeres de casa.

O dia todo passava sem estresse, que durava até a hora em que meu pai chegava muito tarde em casa. A cada noite ele se atrasava cada vez mais, e isso enfurecia minha mãe num extremo tão forte que, ao finalmente tê-lo em casa, a briga era de lei e não tinha prazo para terminar, enquanto à postura silenciosa que tinham quando eu e Petter éramos pequenos, se perdeu com o tempo. Eram gritos, xingamentos e dedos na cara por motivos que nunca entendi.

Certa madrugada, quando já estava dormindo, acordei com o barulho da gritaria e escutei o nome da tia Ana – irmã da mamãe – envolvido, seguido de um jarro com flores de lírios jogado contra a parede. Na hora não pensei em mais nada que não fosse correr até o quarto de Petter e abraçá-lo para que a confusão não o assustasse mais ainda, e assim fiz por muito tempo.

Com tanta violência exposta e um monte de merda sendo dita o tempo todo, chegou a um ponto em que até o casal vizinho teve que se envolver, eles se intrometeram e chamaram a mim e Petter para a casa deles até que tudo estivesse normalizado.

Nossos pais fizeram de tudo para que a polícia não fosse acionada e prometeram rendição, pareciam duas crianças e aquilo estava começando a me dar nos nervos.

Naquela mesma noite, quando estavam mais calmos e nós voltamos para casa na condição de que a briga parasse, olharam fixamente para os dois filhos assustados, os pais Lana e Thomaz Freeman sentados lado a lado no sofá, pela primeira vez em tempos eles estavam tão próximos e sem gritos e ofensas, ao invés de ternura, minha mãe tinha cansaço e lágrimas secas nos olhos, e meu pai tinha olheiras e pálpebras semicerradas, como dois loucos esgotados até a última gota, bem diferentes do casal sorridente e apaixonado que estampavam as fotos postas nos porta-retratos espalhados pela nossa sala. Até hoje consigo lembrar dele pegando na mão dela, cruzando ambos os dedos e dizendo:

- As coisas vão mudar. Vamos ser uma família feliz de novo. Eu prometo.

E eu acreditei. De verdade, juro que acreditei, até porque na manhã seguinte, meu pai já tinha providenciado reservas num hotel perto de Headland Beach State Park, uma praia pública localizada em Mentor e Painesville aqui em Ohio. Era para ser um relaxamento simples, nada ultrarromântico como ir para Paris, mas o suficiente para que os dois tivessem um momento a sós e reatassem a harmonia de um casamento saudável que impactaria no bom funcionamento da nossa família, era só o que eu queria: paz!

Eles amanheceram de malas arrumadas: mamãe, com seu vestido florido verde um pouco abaixo da coxa e sandálias brancas estava radiante, ou fingia estar, enquanto papai passava determinação em cada palavra dita, vestido com uma bermuda bege e camisa praiana, pareciam dois banhistas ansiosos pelo mar.

Eu e Petter nos despedimos deles na porta de casa com abraços fortes e palavras de esperança sobre aquele ser o primeiro passo para a mudança, seguido de um monte de "eu te amo".

Papai tomou a direção, manobrou o carro, acenou pela janela aberta e sumiu rua a fora com algumas buzinas seguidas. Nós acenamos de volta, sorrimos um para o outro e entramos.

Foi depositada em mim a confiança de cuidar do Petter pelo que seria só um final de semana fora de casa, mas ao fim do dia, antes mesmo da lua se mostrar gigante no céu, a campainha de casa foi acionada.

Assustada, pausei o desenho que estava assistindo com o Petter na televisão da sala e, como ele já estava adormecido, retirei meu braço debaixo de seu pescoço da forma mais sorrateira possível para não acordá-lo.

Ao abrir a porta, me deparei com dois policiais fardados, os dois tinham umas caras irritantemente surpresas, mas que buscavam manter a compostura diante da notícia que seria metralhada:

- Aqui é a casa de Lana e Thomaz Freeman? – perguntou o primeiro, apoiando as mãos cruzadas em cima da barriga cujo uniforme apertado ressaltava a saliência da barriga redonda e dura de cerveja. Com a mão ainda grudada na maçaneta, enquanto meus arregalados e assustados olhos azuis encaravam os dois policiais ao mesmo tempo, respondi em gaguejo:

-Si-sim.

-Você é a filha mais velha deles?

-Sim.

Um policial olhou para o outro, e então finalmente decidiram quem daria a notícia cruel. Escutei aquelas palavras pronunciadas em câmera lenta, e nunca quis tanto que tudo fosse apenas a porcaria de um pesadelo ou uma pegadinha de muito mau gosto:

-É com pesar que... – o policial limpou a garganta antes de prosseguir. -...lamentamos informar que... Lana e Thomaz Freeman sofreram um acidente na estrada...

O mundo ao meu redor desapareceu, e meus pés não sentiam mais um chão. Com os olhos abertos, atenta a cada palavra, principalmente quando finalizaram a frase com "...devido ao impacto, vieram a óbito imediatamente. Sentimos muito."

Demorou alguns minutos até que a ficha caísse e eu ainda estava em pé, com a atenção cravada nos policiais que já estavam preocupados com a minha não reação aparente. Meu coração pulsava mais rápido que o normal, minha mente tilintava como uma bomba relógio, meus poros se eriçavam em calafrios que iam e viam, e somente depois de uns cinco minutos, a ficha caiu.

Meus pais saíram em busca de um final feliz, e receberam apenas um final. Quando entendi tudo com clareza, olhei para trás por cima do ombro, vi Petter dormindo no sofá e só consegui lembrar da promessa que nosso pai jamais poderá cumprir. Nossa família não existe mais, não sei se seremos felizes de novo., nossos pais estavam mortos.

Um choque de alta tensão deve ter o mesmo impacto, a mesma corrente eletrizante que dispersa em velocidade pelas veias e, com sorte de não morrermos, ainda assim permanecemos com os pés chumbados ao chão, imóveis, medrosos pelo caminho que o futuro guarda para amanhã. Naquela noite, enquanto os policiais tentavam usar apenas palavras de fácil compreensão, imediatamente minha tia Ana foi acionada, ela que, por sua vez, não pensou duas vezes antes de arrancar com o carro de Chicago até Ohio para nos encontrar. Já era de madrugada, mas aceitou mesmo assim.

Ainda como menor de idade, eu não podia resolver nada que envolvesse a situação da guarda do Petter e todos os conflitos judiciais que a morte traz em acréscimo, seguida de leis, súmulas, parágrafos, artigos... Um monte de troço difícil de entender e que eu não queria dar a mínima, na verdade, só queria que aquela noite horrível acabasse.

Horas depois, derrubando o silêncio de um bairro mergulhado no burburinho silencioso dos vizinhos que espiavam a tudo de longe, trajados em roupões tão velhos quanto eles, um carro chegou cantando pneu.

O dia já estava quase amanhecendo, foram quase seis horas de viagem. O automóvel manobrou como em Velozes e Furiosos e freou sem delicadeza alguma no meio-fio. A motorista era tia Ana, tão agitada e nervosa que até esqueceu de retirar a chave do carro e trancá-lo. Ela parecia uma corrente de vento furiosa que se metia entre os policiais dando de ombros ao que eles falavam. Seus olhos castanhos e esgazeados estavam mirados em mim e em Petter, e logo ela nos concedeu um abraço coletivo. Nunca fui de muita demonstração física de carinho com as pessoas, principalmente com ela, mas naquela hora, quando a vi tão familiar em meio a tantas pessoas fardadas e estranhas, não recusei a sorte de um consolo apertado, diria até que devolvi na mesma intensidade. Tia Ana, tentando esconder o sofrimento escancarado no semblante assustado, afinal, ela também perdera uma irmã, dizia a todo instante:

-Vai ficar tudo bem. Eu sei que vai. Sei que vai. Eu cuido de tudo, podem ficar tranquilos. Eu tô aqui.

E assim ela fez, cuidou de todos os trâmites, desde o velório até o tão sofrido enterro. Não preciso confessar que foi o pior dia da minha vida. Tinha muita gente, a família toda reunida por num trágico evento, uma multidão vestida em roupas pretas, cada um concentrado na cena fúnebre, assistindo a dois coveiros surpreendentemente magros cavarem com força os tais sete palmos no chão. Uns fungavam a coriza dos narizes úmidos, outros choravam em silêncio e eu tentava ser a mais forte possível. Me permiti marejar os olhos quando vi as pás jogarem quilos e mais quilos de terra no buraco fundo e retangular até que os dois caixões, um em cima do outro, estivessem totalmente cobertos. Petter, com a cabeça encostada na minha cintura, me abraçava forte e chorava a dor que criança nenhuma deveria passar de forma tão prematura. Tinha que ser forte por ele. Enfim, eu não estava sozinha. Ao meu lado direito, literalmente, tinha Susan, e atrás de mim, Natan. Meus dois melhores amigos desde que me entendo por gente, sempre fizemos tudo juntos, e não seria diferente num momento crucial como aquele. São irmãos que a vida me deu:

-Você vai conseguir. Estamos aqui com você e pra você. – sussurrou Susan, se inclinando e chegando um pouco mais perto para que sua voz baixa fosse escutada. Em seguida, me deu um beijo na testa. Eu apenas balbuciei um agradecimento, esbocei um sorriso fechado que sumiu depressa e continuei apertando forte a mão dela.

Atrás de mim, Natan massageava meus ombros suavemente. Não me disse nada, talvez por medo de não saber o que dizer, porém, sabia que as palavras dele eram exatamente as de Susan. E também escutava seus soluços vindos de trás. Além do mais, a massagem me ajudava a me manter acordada e saber que alguém estaria pronto para me aparar caso a consciência me faltasse, afinal, por mais firme que minha posição demonstrasse, eu estava um caco destruído em milhões, sem cola no mundo que pudesse unir tudo.

Ao final do enterro, após vários abraços de apoio, pedi à tia Ana e seu ex-marido, tio Martin, que levassem Petter até o carro, pois, no momento em que vi as pessoas finalmente indo embora, caiu a ficha de que voltaria para casa sem dois integrantes principais, me despedir deles a sós era mais do que necessário.

Meneei a cabeça para Susan e Natan, ambos entenderam e seguiram para longe.

Sozinha. Olhei para a terra remexida de cima e me senti errada, não sabia por quê. Resolvi conversar melhor de cócoras, e assim eu fiz. De pertinho pude ler o epitáfio escrito na lápide: "Thomaz e Lana Freeman, deixarão saudades!", uma frase não muito criativa, mas aquela era a palavra do momento: saudades.

Durante o velório todo segurei com carinho um mini ramalhete com sete lírios que fiz questão de comprar: os favoritos da mamãe. Perto da lápide eu as depositei, senti o peito tremer agoniado e não contive a primeira lágrima:

-Mãe, espero que goste. Pai... eu amo vocês!

Dando um ponto final ao adeus, depois de quase três minutos de silêncio, um trovão estrondou e cortou o céu num clarão rápido que durou milésimos. As nuvens negras se chegaram aos montes pouco a pouco. Em seguida, a chuva desceu rala até se tornar cada vez mais forte. A tempestade estava próxima.

Por mim, deixaria que a água me encharcasse toda, no entanto, senti a mão leve da tia Ana amaciando meu ombro direito, seguido de um singelo:

-Lia, precisamos ir.

Na hora despertei, limpei os olhos bem rápido e segui até o carro em que tio Martin esperava no volante e Petter no banco de trás. Tia Ana entrou por último ao lado do tio Martin, juntos seguimos em silêncio para casa. Eu bem abraçada a Petter, e ele também me apertando como se fosse sua última pessoa no mundo.

Depois do enterro, precisei de um tempo sozinha. Sem responder às mensagens dos meus dois únicos amigos, sem tempo para desenhos de dinossauros do Petter, e sem frases de efeito dos meus tios, que entenderam perfeitamente o meu luto e cuidaram muito bem do Petter e tudo pela casa.

Capítulo 2 The Ohio school

Três meses depois...

Somente um celular é o responsável por nos acordar de manhã: o da tia Ana. O aparelho é tão potente que o gargarejo do maldito galo tocando como alarme atravessa as paredes do meu quarto, do quarto de Petter e, se duvidar, de todo bairro. Cubro o rosto com o cobertor e decreto em silêncio que hoje não vou comparecer ao primeiro dia de aula. Meus olhos estão pesados e ainda sonolentos, ou seja, sinto um total de zero vontade de sair da cama.

Depois de cinco minutos sem que ninguém fizesse barulho nas maçanetas dos quartos, tia Ana grita com a voz rouca de sono:

-Lia, vai se atrasar pro primeiro dia na escola, querida.

Emburrada, puxo o lençol para baixo e descubro meus olhos que se abrem alternados, uma piscadela de cada vez até que a luminosidade do dia lá fora, que ultrapassa a cortina fechada, não seja mais um problema. Suspiro de mau humor. Certamente a escola nem vai notar minha ausência logo no primeiro dia. Ainda deitada, grito:

-Eu não vou hoje. – estou determinada a seguir o que digo com convicção e não movo um músculo. Porém, tia Ana, nossa atual tutora legal, não agiria com tamanha negligência, ainda mais quando se trata da nossa educação e, principalmente, é o que a nossa mãe faria. Sem esperar mais, ouço minha porta abrindo bem devagar. Pela fresta, tia Ana aparece apenas com a metade do rosto, dá um suspiro cansado e eu logo a encaro:

-Lia, você precisa. Vem, espero você em cinco minutos.

Ao vê-la dando as costas e escutando seus passos descendo as escadas, penso que seria muito fácil fazer birra e sustentar a minha vontade, mas não seria justo com quem largou tudo em Chicago para nos cuidar. Reconheço que lidar conosco não é uma tarefa fácil, ainda mais comigo.

Num estrondo descuidado, Petter abre a porta do meu quarto como um furacão e vem disparado para debaixo do meu cobertor.

-Ah, Lia, levanta logo. Se a gente for pra escola, dá pra tomar sorvete depois da aula. Peguei três dólares na caixinha. – ele pula e agita o colchão nas diversas pedidas enquanto puxa meu braço para cima. -Por favor, por favor, por favor, por favor...

Na intenção de acalmar o furacão Petter, o agarro num abraço e logo respondo: -Tá boooom, tá bom. Eu levanto. Vai logo tomar café. Eu já tô descendo.

-Ebaaaa! – festeja Petter, que sai correndo com os braços planando como um avião, e por alguns segundos fixo minha atenção nas ações dele, dessa pequena criança que tenho o prazer de chamar de irmão.

Às vezes invejo sua inocência infantil que não dá a mínima para os problemas dos adultos. Os olhinhos claros, branco feito papel e os cabelos castanhos claros que ele sempre dá um jeito de abarrotar de gel, puxou todos os traços da mamãe. Já eu, herdei as características do meu pai: olhos azuis expressivos; cabelos lisos castanhos e desalinhados; lábios carnudos e rosados; bochechas cheias e a pele tão pálida quanto neve.

Levanto de uma vez por todas antes que eu me arrependa. Entre passos pesados, consigo chegar até o banheiro na coragem arrastada de uma preguiça, abro a porta, dou de cara com o espelho e me espanto com o que vejo. Nossa, a decência está passando longe! Repuxo meu cabelo e encontro tanto nó que até repenso a possibilidade de poder desembaraçar tudo em alguns minutos. Minhas pálpebras, por mais acordada que eu esteja, caem involuntariamente.

Ainda encarando meu reflexo, sinto um cheiro não tão bom exalar de algum canto. Ao aproximar o nariz do meu pijama, recuo imediatamente e penso: "Direto pro banho, Lia."

Depois de uma boa ducha, sinto minha dignidade recuperada em parte, abro o guarda-roupa e o aroma que vem de dentro é nostálgico: o perfume do amaciante das roupas limpas que minha mãe tanto gostava se espalha pelo meu quarto, por isso exagerava na quantidade extra das dosagens que sempre colocava na máquina de lavar.

Sem dar muito espaço para as lembranças que ainda doem, não faço muita cerimônia para escolher uma muda de roupa para um dia que nem estou com vontade de viver. Pego uma calça rasgada, uma blusa com capuz e apresso os passos para descer.

A cada degrau descido da escada, o cheiro de comida matinal fica cada vez mais forte e até que me alegra um pouco. Vejo tia Ana embrulhada no seu roupão vermelho vinho de sempre, com a barriga grudada no fogão e concentrada na frigideira que frita alguns ovos. Me aproximo sem fazer muito barulho e, perto da mesa em que Petter está sentado devorando tudo o que vem pela frente, tenho uma visão mais panorâmica da exaustão estampada no semblante horrível da tia Ana, com um cabelo embaraçado e preso num coque por fazer, olheiras enormes ao redor dos olhos e pálida. Por alguns instantes, meu coração aperta, porque não parece a mesma mulher no auge de sua juventude que vejo estampada em alguns retratos de fotografias antigas de família que ainda cultivamos pela casa, tão linda, dos olhos esverdeados, castanhos cabelos macios e sedosos. Talvez se tornar responsável por uma jovem saindo da aborrecência e uma criança não a esteja fazendo tão bem.

-Bom dia! – digo, chamando a atenção dela para mim.

-Bom dia! Que bom que desceu, já estava quase subindo. – responde ela, deixando alguns ovos no meu prato. De perto posso ver seu cansaço transparente e, ainda que não tenhamos tanta aproximação e nem conversas duradouras, tenho noção dos sacrifícios que ela tem feito até agora. Como uma forma de retribuir, digo: -Ah... tia, pode deixar que eu busco o Petter na escola hoje. Vai descansar um pouco.

-Obrigada, querida. – responde ela em um agradecimento sorridente. -Ah, Martin vai chegar de viagem hoje. Então... teria problema ele vir jantar conosco?

Apesar de sua pergunta ser quase uma confirmação que precisa de uma mínima aceitação, logo vejo a alegria de Petter ao ouvir o nome do tio Martin:

-Obaaa! Tio Martin vai amar meus jogos novos. – festeja Petter, abocanhando o bacon no prato.

Eu, uma pessoa de poucas palavras, prefiro ser breve:

-De boa. – engulo rápido um pedaço de torrada e já estou preparada para sair. -Vamos, Petter.

Antes de chegar na porta, tia Ana nos alcança e ressalta:

-Boa aula, meninos. E Lia... Sem arranjar problemas, hein. Hoje não.

Como reação imediata, reviro os olhos e abro logo a porta, me arrependo de ter sentido pena dela por alguns instantes. Eu sei que, assim como eu, ela também perdeu alguém muito importante, mas... algo entre nós nos mantêm distantes, talvez o fato de ter escutado o nome dela envolvido numa briga do papai e da mamãe tenha colaborado nesse mini ranço sem explicação, ou como ela olha para mim às vezes com pena, às vezes com cansaço. Às vezes eu tento nem pensar, porém, nós duas sabemos implicitamente que não conseguimos ficar perto uma da outra por mais de dez minutos, e assim viemos nos comportando desde que nossa convivência se tornou diária.

Com Petter ao meu lado em direção às nossas escolas, faço questão de apertar os passos, só quero que esse dia acabe logo, quando dou por mim, minhas preces são ouvidas e em apenas cinco minutos o caminho se tornou mais curto do que de costume, em alguns passos já chegamos na escola de Petter.

Não sei o motivo, ou talvez eu saiba até demais, mas não consigo me despedir de Petter. Na verdade, não queria seguir sozinha para nenhum outro canto. Desde que tudo aconteceu, não testei a vida em sociedade, somente Petter e o meu quarto foram o meu aconchego.

Com o peito em resfôlego, de mãos dadas com Petter, finjo manter a visão nas outras crianças entrando no colégio. Petter olha para nossas mãos unidas em entrelaço e, em seguida, olha para mim, pois pode até ser novo em idade, mas sabe exatamente como lidar comigo, ainda que eu tente ser super durona na maior parte do tempo.

Vendo que estou travada e não dou o primeiro passo para nossa despedida, ele fala: -Ei, sorvete hoje sem falta depois da escola. No parque.

Com sua voz mandona, saio do transe e, com pesar, largo sua mão. Imediatamente me recomponho, sorrio e repito:

-Sem falta. - Petter me abraça apertado e diz antes de correr para longe:

-Fica tranquila, Lia. - E, de fato, era tudo o que eu precisava escutar.

Vendo-o passando pela porta dupla aberta, com sua professora responsável o recebendo com um abraço, dou partida em direção ao que será o meu inferninho particular.

Ainda distante alguns metros, repito mentalmente que não será um dia fácil, mas que dá para sobreviver. O que vão fazer? Me matar? Não, não vão, mas até que não seria má ideia.

Com mais três minutos de caminhada, consigo ver o letreiro gigante que enfeita a marquise da escola que sustenta letras vermelhas que juntas formam: The Ohio School.

Penso em dar meia volta e adiar o meu primeiro dia, mas ao mesmo tempo me pergunto: se não for hoje, uma hora vai ter que ser. Em confronto comigo mesma, decido terminar o que comecei. Numa tentativa inútil de camuflagem, ponho o capuz, insiro os fones nos ouvidos e ando com a cabeça nem tão baixa para não esbarrar em ninguém, e nem tão alta para não soar arrogante.

O caminho por onde ando divide dois gramados adjacentes em que as pessoas se amontoam em grupinhos de quatro ou cinco, pouco a pouco miram a atenção para mim, é claro que todos já estão cientes da morte dos meus pais. O que me incomoda não é esse fato horrível que vai me assombrar por um bom tempo, mas sim a falta de senso das pessoas, que ao invés de ao menos disfarçarem, olham para mim e ainda cutucam os colegas ao lado para que olhem também. Enfim, um bando de idiota sem noção.

"Calma, Lia, uma hora isso passa." repito mentalmente enquanto aperto o passo e chego ao interior da escola. Os alunos antigos estão tão preocupados em contar como passaram o verão que, pela graça dos céus, ainda estão todos no gramado, deixando o corredor livre e silencioso para mim. Como de costume, a ornamentação é a mesma: o mesmo corredor de piso de concreto polido, paredes brancas de um tom hospitalar, com faixas e cartazes pregados dando as boas-vindas aos alunos veteranos e novatos, portas pretas com janelas de vidro no meio e vários detalhes tão sem graça e comuns que não vale a pena destacar.

Logo nos primeiros passos, alguém vem por trás e puxa meus fones de ouvido. Recuo assustada na mesma hora e sinto um alívio imenso ao ver de quem se trata:

-Meu Deus, Susan. – ponho a mão no peito enquanto suspiro e penduro os fones no ombro direito. -Que susto! Não... faz mais isso.

Susan, por sua vez, nem escuta o que falo e parte para um abraço completamente imediato e apertado. Eu não esboço nenhuma reação, afinal, nem deu tempo, mas sinto certo conforto no coração em ver alguém que me quer bem por perto.

-Eu fiquei tão preocupada. E você não respondia as minhas mensagens, mas... que bom que veio. – ela finalmente me solta, ocupa as mãos pegando nas alças da mochila pendurada nas costas e solta uma palavra atrás da outra. -E o Natan tava aqui também, só que o time de futebol queria uma reunião antes da aula começar, então ele teve que ir. Mas me pediu pra não deixar você entrar sozinha.

-É bom te ver. – digo quase em sussurro, arrependida por não tê-la respondido e a evitado por um bom tempo, o remorso é perceptível no meu tom, mas tenho certeza que ela entende.

Pela primeira vez um sorriso se faz no meu rosto, e não seria diferente, já que Susan tem esse poder desde que nos conhecemos quando éramos bem pequenas, desde que era aquela menininha ruiva acobreada, de sardas em pontinhos fortes e espalhados pelo nariz e bochechas, sempre foi muito defensora de mim e da nossa amizade. Ela não sabe, mas agradeço todos os dias por tê-la como amiga.

Juntas seguimos corredor a fundo até encontrarmos a nossa sala com uma lista imensa de números postos um abaixo do outro na parede ao lado da porta. Essa numeração indica o armário renovado que cada aluno recebeu, e esse ano fiquei com o 516, um novinho em folha que eu e Susan exigimos na diretoria no ano passado, porque os nossos antigos não funcionavam as trancas direito, e como resultado tínhamos furtos constantes. Ao ver que nossos pedidos foram atendidos nesse ano, sorrio para Susan e ela para mim. Em outras circunstâncias, pularíamos de felicidade e estalaríamos um high five com as palmas de nossas mãos, mas Susan é sensata, um sorrisinho meu para ela já basta. Sem mais esperar, coloco todos os meus pertences dentro, inclusive os materiais que reciclei do ano passado.

Não demora muito até que o corredor comece a se encher de gente, todos deixaram para verificar seus armários nos dois últimos minutos antes da campainha tocar, em consequência disso, a muvuca começa. O que antes estava vazio e calmo, agora parece uma feira agitada de vendedores ambulantes.

Eu carrego meu livro de Biologia, e Susan, segurando quase uma Bíblia de química, se sente na responsabilidade de me acompanhar até a porta da minha primeira aula do dia. Geralmente não gosto muito dessa atenção exagerada em cima de mim, mas penso que ela está fazendo o que acha que é certo por uma amiga, e eu compreendo essa atitude, na verdade, não esperaria menos dela.

Na porta da minha sala, Susan me dá outro abraço apertado e diz: -Olha, na saída a gente se encontra. Eu, você e Natan. Vamos fazer alguma coisa. O que acha?

-Acho bom. – respondo, ainda incomodada por estar sendo motivo dela estar se esforçando para me descontrair, mas não demonstro, apenas sorrio e finalizo. -Então, a gente se vê no final do dia.

-Belê. Até depois. – Susan some pela multidão que se formou no corredor, enquanto eu entro na sala, com o livro preso pelos meus braços cruzados.

Mantenho meu olhar baixo, retiro o capuz e me sento no meu lugar favorito: no fundão e perto da janela, porque é silencioso e a visão para o gramado da escola compensa, sem papear com ninguém. Susan e Natan são os únicos com quem eu falo e tenho uma amizade sincera, dentro ou fora da escola, só me comunico com o restante quando fazemos grupos para trabalhos. Os alunos não costumam ser tão receptivos com bolsistas, como se fossem os donos da porcaria do mundo. Ano passado, isso deu o que falar: os professores notaram essa divisão de bolsistas e não bolsistas. Como solução, buscaram uma semana de interação de um aluno com todos e todos com um. É claro que eu, Susan e Natan não participamos, e por isso fomos obrigados a fazer algumas sessões de terapia.

Voltando sobre a questão da atenção inconveniente que estão direcionando a mim, na sala de aula não é diferente, sinto uma multidão de olhares, mas finjo folhear o livro.

O professor Magnus, um quarentão um tanto charmoso e cheio de vida, na intenção de me dar uma recepção calorosa, diz em meio ao silêncio:

-Bom te rever, Senhorita Freeman. – ele acena e sorri. É claro que ele tinha a melhor das intenções, mas só me deixa mais desconfortável do que já estou. Como resposta, só esboço um sorriso e continuo fingindo que algo no livro de biologia me interessa. A vontade que eu tenho é de gritar "POR FAVOR, PAREM DE OLHAR PRA MIM."

A campainha alarmante anuncia o fim dos alunos entrando na sala e o início da aula, o professor Magnus bate uma mão na outra em conformidade, se levanta, verifica a porta para ver se não tem ninguém ainda chegando atrasado ou coisa parecida. Com a checagem de que todos estão a postos, a porta é fechada e, então, ele começa:

-Então, pessoal, bom dia! - Um coro baixo, sem ânimo e uníssono responde:

-Bom dia.

-Misericórdia, quanta animação. Mesmo assim temos que começar de algum lugar. – ele busca o seu livro aberto em cima da mesa e, com o objeto em mãos, volta sua atenção para nós. -Pra quem não me conhece, sou Magnus, professor de biologia encarregado de ensinar a vida em evolução a vocês. Não só a vida como também a... Três batidas na porta são ouvidos. Logo, a pessoa responsável pelo incômodo dá as caras.

-Aaah, o trio do atraso. Os anos passam e nada muda, não é? Vamos, entrem logo. Só porque hoje eu tô legal.

Em uma fila em trio, uma vem entrando atrás da outra: Megan, a líder das megeras e, Diana e Cris, que são só as cobaias de Megan, tão insignificantes que sequer possuem uma posição de "respeito" nessa amizade segurada pelo status, o trio que vem atazanando minha vida desde que entrei nessa escola, respiro fundo em insatisfação.

Megan se senta logo na primeira cadeira da quarta fileira, e, consequentemente, Diana e Cris, nessa mesma ordem, se sentam nas cadeiras atrás da líder. O mais engraçado é que os assentos pareciam estar esperando por elas, como se fossem as donas dos lugares e, de fato, são, uma vez que elas mesmas ditaram essa regra e todos se veem obrigados a seguir. E depois dizem que o dinheiro não tem poder.

Megan, ao se confortar na cadeira, não perde a oportunidade de me procurar pela sala com os olhos e acaba me achando encolhida no fundão e perto da janela. Olhando para trás por cima do ombro, ela não tem outra feição senão pena. Pela primeira vez não me lança um sorrisinho sarcástico e eu nem sei se acho empático ou morro de raiva, na verdade, é o último sentimento que espero que tenham de mim, mesmo que esteja mais do que escancarado na face das pessoas.

-Então, continuando, eu falava sobre a vida, não é? – Magnus tenta prosseguir, reajustando a gravata azul escura por baixo de sua gola. -Biologia que, se formos atrás da etimologia da palavra, temos... – com o pincel azul ele escreve na lousa branca em letras garrafais a primeira fase de sua explicação: -"Bio", que vem do grego e significa vida, enquanto o sufixo "logia" entendemos como ciência de algo. Ou seja... – ele sublinha os dois termos no quadro e se vira animado para nós. -...estudaremos a ciência da vida, que agrupa os organismos, sua origem, seu funcionamento, evolução, reprodução e toda essa relação que qualquer ser vivo tem com o ambiente em geral. Resumindo, senhores, tudo aquilo que tem vida possui um sistema, e é aí que a gente entra bem animado pra aprender. Vamos vasculhar tudo o que pudermos, do início da vida de uma célula até sua morte.

-E do que adianta a gente decorar um monte de coisa em latim e até entender o organismo de uma lombriga se vai todo mundo morrer um dia? – pergunta Jonas, figurinha carimbada dos professores e bastante conhecido por gostar de chamar a atenção com piadas sem graça, isso quando não está na última cadeira da sala no fundão dormindo, não é à toa que o chamam de Soneca, o cara faz jus ao apelido. - A vida é um sopro, fessor. Eu não sei se amanhã vou estar aqui, então, se eu fosse o senhor...

Um aluno sentado atrás pega seu livro de biologia e bate nas costas de Jonas na intenção de fazê-lo perceber que está sendo inconveniente ao extremo, Jonas se vira com raiva, e pergunta:

-Qual foi, cara?

Não preciso ser profissional em leitura facial para saber que o aluno que bateu em Jonas olhou de esguelha para mim como quem alerta "Cala boca, idiota, a Lia perdeu os pais. Para com essa porra de 'a vida é um sopro!", uma vez que Jonas, ao se virar e fazer contato visual, logo olha para mim e solta um:

-Aaaaaah, foi mal, a sala inteira não dá um único suspiro.

Professor Magnus, já impaciente e constrangido pela situação, vai em direção à mesa de Jonas, abre seu livro de biologia e força uma fala simpática com reprovação em seu tom, acompanhado de seu rosto carrancudo:

-Se eu fosse você, Senhor Jonas, faria o favor de ficar calado e me deixar ser o professor. Pode ser ou será que tá difícil? - Jonas, envergonhado, levanta as mãos abertas ao ar em forma de trégua e não fala mais nada.

Odeio o clima denso que se formou decorrente da gracinha do Jonas, por mais que o professor contorne a situação e mude de assunto, sei que tudo, a partir de agora, vai ser dito com o maior dos cuidados para não me afetar, sinto falta de quando eu era invisível.

Na cadeira da frente, Megan é a única que ainda olha para mim, com o semblante sério e a falta de noção de sempre, isso me dá nos nervos de uma forma que não sei explicar.

Dou de ombros, abro o livro na página em que o professor pede e sigo fingindo que presto atenção, ignorando o elefante gigantesco que anda pela sala.

Depois das primeiras angustiantes horas de aula, a campainha toca e anuncia o horário do almoço, que é a minha salvação. Enquanto ando a caminho do refeitório, passo os olhos por todos os lugares: nenhum sinal de Susan ou de Natan.

Na grande praça de alimentação da escola, de longe consigo ver o cardápio do dia: uma salada com batatas que mais parecem borrachas do que algo para comer. Sinto minha barriga estremecer só de pensar em engolir algo assim, dou meia volta e resolvo que o gramado perto da quadra de futebol americano pode ser uma boa estadia para alguém que não deseja ser vista. E, realmente, o ar fora da escola está mais tragável e bem mais fácil de respirar, principalmente quando estamos sem alguém por perto para desabafar.

Meus pensamentos estão tão longes que sou tomada por um pânico gigante quando alguém chega me abraçando por trás tão forte que a única reação que tenho é me debater.

Sem visão de quem seja, e ainda mais quando percebo se tratar de um menino, grito estridente:

-Me solta!

-Uou, uou! Calma aí, sou eu!

Ao finalmente me libertar, vejo que é apenas Natan, todo fardado com o uniforme do time de futebol americano da Ohio School. Aliviada, respiro fundo antes de falar alguma coisa:

-Pelo amor de Deus, você e a Susan tiraram o dia pra me receber de uma maneira tão... – nem consigo terminar a frase de tão nervosa que estou. Com a mão no coração, vejo-o tentando se retratar.

-É, tem razão, foi mal. Foi mal, mesmo. Mas é que... Você ficou tão afastada nas férias que quando te vi vindo pra cá, corri logo pra te abraçar, e... – Natan, procurando um meio de prosseguir com sua frase, remexe em seus cabelos ondulados e castanhos escuros, olha para os lados e então diz: -...eu queria que soubesse que a perda dos seus pais foi...

-...muito grande. Eu sei, eles eram como pais pra você também. – termino a frase. Odeio como meu tom sai ríspido demais, mas foi mais forte que eu.

O silêncio entre nós é constrangedor, e eu me arrependo de ter falado alguma coisa. Natan, sempre sagaz, arranja um jeito de reverter a situação:

-É, olha, me desculpa. Vamos mudar de assunto. Eu queria que eu, você e Susan...

Enquanto ele força um sorriso entusiasta e arregala os olhos castanhos para parecer o mais animado possível, um integrante do time vem correndo cortando o campo gramado e, de longe, chama Natan:

-Qual é, cara? O pessoal tá te esperando.

-Tá, tá, avisa que já tô indo. Só um minuto. – Natan, ao respondê-lo gritando ao meu lado, volta sua atenção para mim e, antes de falar qualquer outra coisa, pega nas minhas duas mãos e diz com a voz amaciada: -Que tal eu, você e Susan sairmos depois da aula? O que acha?

-Foi exatamente o que Susan disse. – sorrio.

-Ótimo, isso quer dizer que ela topa. E você? – Natan me olha com a maior cara de pidão do mundo, quase parecido com o gato de botas do Shrek. Eu não fazia ideia de que estava com saudade disso até presenciar. Sem mais delongas, faço que sim com a cabeça.

-Ah, legal. Então, vejo vocês duas depois da aula. – ele se despede, atravessando o campo, indo ao encontro do colega de time apressadinho. Antes de virar as costas de vez, ele diz em alto e bom som: -Senti sua falta, Lia Freeman.

Como já estou longe, apenas mexo os lábios na intenção de que Natan os leia: -Eu também senti.

Dou meia volta, ando por um tempo ao redor do gramado até ter, literalmente, somente um minuto para a campainha tocar. É uma tática para cruzar com o mínimo de pessoas possíveis, e funciona.

Como estou atrasada, corro em direção ao meu armário, quase ninguém mais está perambulando pelos corredores e nem pelo refeitório.

Apressada, pego o livro da aula da vez e, quando fecho a porta do armário, dou de cara com Megan, Chris e Diana. Minha aura, que tinha melhorado um pouco com o abraço inesperado do Natan, despenca para zero e a cor agora é avermelhada.

Apenas reviro os olhos, tento me desviar sem trocar nenhuma palavra, porém Megan se mete na minha frente e começa seu falatório, com o mesmo olhar de pena dela e das outras duas. Isso me enraivece num nível que não dá para explicar.

Tento uma fuga silenciosa, mas Megan se coloca na minha frente para onde quer que eu vá.

-Não, espera aí, Lia. – diz Megan. Desisto de tentar desviar, bufo insatisfeita, engulo em seco e pergunto:

-O que você quer, Megan? - Megan ajeita uma mecha de cabelos loiros atrás da orelha direita, ajeita o livro entre os braços e força uma

voz meiga:

-Eu estava conversando com as meninas e... pelo que aconteceu com você, queria que a gente deixasse as nossas... desavenças pra trás e... quem sabe, até podemos ser amigas. – o mais incrível na entonação da Megan é que, mesmo que ela tente parecer uma pessoa boa e mudada, sua prepotência é tão gigante que algo entranhado no ser dela não permite qualquer ato de bondade.

-É, Lia. Aceita. Inclusive, ia até dizer que você tá linda hoje. Quer dizer, não mais que eu, mas nada que um banho de shopping em você não resolva. – diz Chris, balançando seus cabelos curtos e bem lisos.

Diana, por sua vez, não diz nada, só fica apreciando as amigas boas samaritanas enquanto olha para mim com o rosto recheado de pena. Para mim, isso é a gota d'água:

-Só... calem a boca e me deixem passar. – nem eu mesma acredito que essas palavras saem da minha boca com tanta rapidez e agilidade, mas minha chateação é tão grande que a tela preta toma conta da minha mente e, como consequência, as minhas atitudes são tomadas pelo controle automático da raiva.

-Isso não é maneira de tratar quem só tá tentando ajudar, garota. – intervém Megan.

Algo dentro de mim ferve como fogo, não preciso da solidariedade de ninguém. Todos os olhares de hoje, a situação da sala de aula, a pena nítida no rosto de todos... Tudo isso culmina num pico de fúria que me faz explodir:

-Parem de olhar assim pra mim! Parem de tentar ser legais, porque vocês não são! Eu não preciso de vocês, e nem de ninguém na merda dessa escola. Eu só quero que... saiam do meu caminho, que saco.

Diana, que até então estava oculta, se coloca a minha frente, atrapalhando minha passagem e protesta enquanto segura sua cintura, indicando indignação:

-A gente vem aqui, na boa, te oferecer o que quase todo mundo quer na merda dessa escola e você nos trata igual como trata aqueles dois farrapos que você chama de amigos?!

Meu sangue ferve de raiva e então, o que sai a partir de agora, fica por conta do ódio acumulado e desprezo por tocarem no nome das duas únicas pessoas no mundo que eu defendo, assim como eles fariam por mim. Sorrio sarcasticamente, contenho a respiração acelerada e me aproximo intimidadora de Diana, enquanto digo cara a cara.

-Fala mais uma vez deles pra ver se eu não meto um tapa nessa sua cara de vagabunda.

-Uuuh, ela quer partir pra agressão. – Diana desfaz da situação. -Anda, bate aqui, ó. Só se prepara pras consequências, porque é assim que nós tratamos gentalha ingrata.

Não recuo nenhum centímetro, no entanto, Megan puxa Diana pelo braço e diz:

-Esquece, Di. É por isso que nós três estamos acima desses merdinhas. Vamos, deixa a Lia aí, no final do dia ela vai voltar correndo pro papai e pra mamãe pra contar que fomos muito malvadas com ela. – Megan dá as costas com as outras, e juntas elas sorriem e seguem pelo corredor.

Pela primeira vez não meço meus atos, parto na direção de Megan, que está no meio do trio, enrolo minha mão no cabelo loiro dela e puxo com a força do ódio que sinto.

Ela grita e resmunga, tentando puxar o cabelo de volta, possivelmente para amenizar a dor no couro cabelo que está sendo puxado.

Enquanto enrolo uma mecha grossa de cabelo dela em meu punho, digo estridente:

-Fala de novo dos meus pais, cadela! FALA! Pelo menos eu tinha pais descentes. E você, hein? Não é porra nenhuma senão uma menininha birrenta que depende da porra dessa aparência mentirosa de dona do mundo pra parecer mais interessante, porque todo mundo aqui sabe que na sua casa você não é nada além de um saco de pancadas.

Todas as minhas palavras saem como balas disparadas uma após a outra. Dentro de mim vários sentimentos se espalham e, na verdade, nem sei direito o que falei, entretanto, pela cara das três, disse uma besteira imensa que vai contra a minha índole, mas já é tarde demais, eu disse e não dá para voltar atrás.

Numa resposta raivosa a tudo o que eu proferi, Megan também age de acordo: recupera o domínio de seu cabelo e me empurra com força em direção à porta do meu armário, seguido de um estrondo barulhento e metálico que ecoa pelo corredor quando minha cabeça se choca com o alumínio.

Megan me encurrala e diz furiosa:

-É isso que a gente ganha por tentar ajudar gentinha ridícula que nem você. Pelo visto, seu luto já acabou, não é? E você se prepara, se antes era ruim, vou fazer questão de infernizar sua vida pessoalmente, Lia Freemerda!

As três não percebem quando o professor Williams vem chegando por trás, provavelmente por ter escutado o barulho do meu impacto contra o armário, e pega Megan no flagra me cercando:

-Mas o que é que tá acontecendo aqui?

Megan se vira de imediato para trás, arregala os olhos e não sabe como explicar:

-Acontece que... a gente só tava tentando ser legal e a Lia...

-Senhorita Rougffield, não consigo encontrar resposta no mundo que justifique você estar encurralando uma colega dessa forma? Ainda mais se esse barulho todo tiver vindo daqui. – Williams, passa a mão pelo rosto todo em exaustão, suspira e finaliza: -Quer saber, nenhuma conversa a mais. Lia e Megan, na minha sala. Vocês... – ele aponta para Diana e Chris. - Voltem agora pra a sala de aula.

Eu não falo absolutamente nada, apenas obedeço ao que me foi mandado.

Williams anda na nossa frente indicando o caminho, ao que Megan me fuzila com os olhos e sussurra ao meu lado:

-Se esse idiota ligar pro meu pai, eu acabo com você.

-Vai em frente, Megan. Aí eu digo o que me levou a uma medida tão agressiva. Os professores vão amar saber que tem uma aluna psicopata que gosta de tirar sarro do sofrimento alheio. Talvez três meses de terapia dê jeito. E também eles precisem falar com seus pais. – sussurro de volta, Megan se cala, no entanto, não consegue disfarçar seu bufo de ódio.

Ao entrarmos na sala dele, vejo-o correndo em direção a um pedaço de pano jogado e amarrotado no canto que, se não estiver enganada, parecia um vestido. Se depender do constrangimento de Williams, diria que é exatamente o que estou pensando: cheirinho de adultério no ar, já que todos os professores e diretores são muito bem casados com pessoas fora da escola.

Williams limpa a garganta, aponta com a mão aberta para que eu e Megan nos sentemos nas duas cadeiras à frente da cadeira atrás da mesa na qual ele se senta, cruza as mãos, apoia os cotovelos sobre a mesa e pergunta de maneira simples:

-O que levou à tamanha violência, Senhorita Rougffield?

-Eu só tava tentando ser legal. Até a convidei pra fazer parte do meu trio que o senhor já deve conhecer. Mas ela foi bem mal educada com todas nós e eu acabei revidando. Foi... Mais forte que eu, confesso. – explica Megan.

-Lia, o que tem a dizer?

Reviro os olhos, tento olhar para outro canto que não seja para os olhos firmes de Williams, afinal, eu e Megan acabamos de firmar um pacto silencioso, pois se eu contar que ela falou dos meus falecidos pais, ela conta que eu puxei seu cabelo com a força de um gigante, e nós duas sabemos que fazer terapia nessa escola é como ir para o inferno: os profissionais são desqualificados, ficam com a mesma conversinha de sempre e, para piorar, teremos que praticar o que eles chamam de "O afeto pelo próximo". Pensando rápido, decido agir de acordo com o que ele viu, pois, querendo ou não, Williams flagrou Megan me intimidando, e então finalmente respondo:

-Eu disse que não preciso de ajuda de porcaria. E é verdade, professor, não preciso da compaixão de ninguém. Não quero a amizade e muito menos a pena de ninguém dessa escola. É muito simples.

Williams parece ter entendido a situação, olha para mim e depois para Megan, se acomoda em sua cadeira giratória e dá seu parecer.

-Tudo bem, já entendi, mas... Megan, o que nisso tudo te daria raiva o suficiente pra empurrar e encurralar uma colega contra o armário? Tô tentando entender isso.

-É só que... – Megan está pronta para dizer exatamente o que a fez agir com brutalidade, mas se interrompe no meio da frase e omite a minha culpa na história quando diz: -...que eu não tolero falta de educação comigo e nem com as minhas amigas. – ela empina o nariz, comprime os lábios e não reduz sua arrogância.

-Não se combate violência com violência, Megan. – Williams respira fundo, pega o celular do bolso e digita alguns números como quem está decidido.

-Espera, o que o senhor tá fazendo? – Megan pergunta, desmanchando de repente sua posição super firme. Pela primeira vez a vejo com uma cara tão assustada.

-Ligando pro seu pai. Já chega! Esse ano minha tolerância pra atitudes como essa são mínimas, ainda mais no primeiro dia de aula. Se querem agir como criancinhas inconsequentes, então terei que tratá-los como tais: ligando pros responsáveis.

-Não! – reivindica Megan na mesma hora, dando um pulo para frente e arrancando o celular das mãos de Williams.

-Megan, me devolve já esse celular!

Williams e Megan, ambos em pé se encarando, enquanto eu permaneço sentada, observando a cena tensa que se formou na minha frente:

-Não, por favor, Williams. Eu faço qualquer coisa: cumpro detenção, limpo os banheiros, sirvo merenda, qualquer coisa. Só não liga pro meu pai. – Megan pede com tanto fervor que seria quase um crime não dar outro castigo que não fosse ligar para o temido pai. Pela primeira vez em anos eu a vejo tão vulnerável.

Williams respira fundo, segura a cintura com as duas mãos e responde:

-Tudo bem. Agora, me devolve isso. – Megan parece aliviada, devolve o celular, encara o chão como um animalzinho de estimação que fez uma grande besteira e escuta quando Williams finaliza: -Eu vou pensar muito bem no seu caso, mas saiba que não vai sair impune. Nessa escola não toleramos violência. Que isso fique bem claro pras duas. Podem sair.

Megan, que já estava de pé, só circula a sua cadeira e sai enfurecida da sala. Eu saio devagar, esperando que Williams me dê algum tipo de detenção, mas ele não fala nada.

A caminho da minha sala, resolvo passar antes no banheiro, até porque já perdi alguns minutos de aula mesmo, mais outros não faz mal. Em frente ao espelho, vejo meu cabelo todo desarrumado, tudo bem que os fios são assim por natureza, mas receberam ajuda de rebeldia quando Megan me deu um empurrão.

Enquanto passo as mãos pelos fios rebeldes em frente ao espelho que cobre uma parede inteira, sinto a parte de trás da minha cabeça latejar de dor que aumenta de intensidade.

Pouco a pouco meus sentidos vão se esvaindo, me desequilibro e reajo apalpando as paredes do banheiro. Meus passos ficam trôpegos e então, de súbito, desmaio sobre o piso gelado e úmido.

Capítulo 3 The visit from uncle Martin

Com os olhos abrindo em piscadelas, olho ao redor e, pela iluminação amarelada, tenho certeza que estou na enfermaria. A primeira visão que tenho é da Dona Mirtes de costas remexendo uma maleta de remédios perto de uma maca vazia ao lado da qual estou deitada. Apesar de ser uma senhorinha grisalha com seus setenta e poucos anos de vida, Dona Mirtes adora andar de lá para cá, e é assim desde que entrei nessa escola, me lembro dela exatamente com a mesma face, sempre do mesmo jeito: com sua sagrada farda de enfermeira, sapatinhos de pano, pouquíssimas palavras e muitos remédios.

-Ai, Lia, que bom que acordou. – diz Susan, alertando também Natan, que estava sentado na poltrona bege ao meu lado rodopiando um caderninho de anotações na palma da mão aberta.

-Como que eu vim parar aqui? – pergunto, sentando na maca pouco a pouco, massageando o galo que se formou atrás da minha cabeça.

-Por sorte, fui ao banheiro e te encontrei. Se demorasse um pouco mais pra acordar, te levaríamos pro hospital, mas a Dona Mirtes falou que não era nada sério. O que aconteceu? – pergunta Susan, recebendo um esboço de sorriso singelo de Dona Mirtes, enquanto massageia minha mão como se eu estivesse com uma doença em estado terminal. Susan e seu eterno drama.

Como não quero preocupar ninguém, respondo:

-Não foi nada, talvez seja só estresse acumulado, não sei.

-Bom, ainda bem que você acordou pra saber de uma notícia que vai te deixar bem alegrinha. – diz Natan, todo misterioso, tomando liberdade de se sentar ao meu lado na maca enquanto passa seu braço pelo meu ombro para um abraço de lado.

Dona Mirtes, ao vê-lo fazendo mais peso do que o necessário na maca, enrola uma revista fina e acerta numa intensidade fraca na perna de Natan, que levanta na hora e entende o recado ao ficar de pé perto de mim. Nós três rimos.

-Qual é, Natan? Deixa ela se recuperar primeiro, depois você conta isso. – diz Susan, de olho nos medicamentos que Dona Mirtes está separando para mim.

Eu logo fico desconfiada, pois os dois, mais do que ninguém, sabem que eu detesto qualquer tipo de misteriozinho que tire minha paz. Semicerro os olhos e ordeno:

-Ah, não. Agora que começou vai ter que terminar. Anda, desembucha. – cutuco o braço de Natan com meu cotovelo.

Ele dá de ombros para o que Susan diz, revela um sorrisinho forçadamente maldoso e conta:

-Tá todo mundo comentando que a Megan vai ser auxiliar de cozinha pela semana inteira. Ela aprontou alguma coisa, até agora ninguém sabe, mas a ira do Williams veio com tudo.

Quase comemoro pelos velhos tempos de rivalidade, contudo me lembro da postura medrosa dela na diretoria, como uma criancinha assustada, dessa forma, resolvo me manter neutra, pelo menos por enquanto, ainda mais porque o que eu disse a ela perto do armário foge completamente do meu caráter, e não estou contente por ter deixado a raiva falar mais alto:

-E por que eu ficaria feliz por isso? Ela que se resolva pra lá. – digo, me levantando da maca.

Susan se surpreende na mesma hora em que desfaço da situação de Megan. Ela corre em minha direção, mede a temperatura da minha testa com a costa de sua mão direita e diz para Dona Mirtes:

-O caso dela é sério, a senhora pode separar uma dose do remédio mais forte que tiver por essa maletinha de primeiros socorros.

Retiro a mão de Susan de mim e rio:

-Quem vai ficar feliz mesmo é o time de futebol, não é, Natan? – brinco, já que quase todo o time de futebol americano arria os quatro pneus por ela.

Natan revira os olhos e vem me seguindo. Antes que eu possa sair da enfermaria, Dona Mirtes me traz alguns medicamentos amargos que são engolidos com a ajuda de um copo cheio de água gelada, sem mais esperar, caminho em passos lentos pelos corredores. Para minha sorte, depois do desmaio dormi por tanto tempo que perdi todas as aulas que ainda me restavam.

-E então, o que a gente vai fazer agora? Eu pensei da gente ir no Johnny Hot Dog. Esse treino me deu tanta fome que sou capaz de engolir uns sete hot dogs de uma só vez. E pra não engasgar, peço um milk shake do tamanho de um... – Natan se anima tanto que começa a fazer combinações de sanduíche com milk shake, e Susan apoia todas as suas loucuras gastronômicas.

Quando penso em falar a minha opinião a respeito e até montar o meu próprio combo maluco, paraliso na mesma hora e lembro num susto:

-Minha nossa, esqueci do Petter!

Natan e Susan se entreolham e dizem na mesma hora:

-Tá bom, vamos buscá-lo, ele vai com a gente.

-Não, não, ele já deve estar bufando de raiva só por eu ter esquecido nosso sorvete depois da aula, imagine se pensar que eu esqueci dele porque estava com outros amigos. Eu preciso ir. A gente marca essa nossa saída pra outro dia. – digo, dando um abraço em cada um enquanto me distancio sem mais muito falatório.

-Espera aí, Lia, tem certeza que você já tá bem pra andar rápido assim? – pergunta Susan, parada perto de Natan enquanto eu ando cada vez mais apressada e respondo com as costas viradas, com o dedão erguido em afirmação:

-Sim! Até amanhã.

Sem mais estar sob o olhar vigilante de Natan e Susan, corro o mais rápido que posso e, com a economia de alguns minutos, chego e vejo Petter sentado em um banco de concreto em frente ao estacionamento de sua escolinha, sozinho, com a face emburrada que só piora conforme me aproximo. Ele cruza os braços e, se pudesse, jogava raios lasers em mim pelos olhos serrados.

-Petter, me desculpa, eu...

-Não, Lia, você tá atrasada. – responde em birra, virando o rosto para o outro lado, cruzando os braços o mais apertado que pode para demonstrar sua indignação.

Nunca fui muito boa em negociar com crianças, principalmente quando se trata de Petter, sorvete e praça numa mesma frase. Respiro fundo, fico na mesma altura que ele e tento:

-Ah, Petter, não foi porque eu quis, por favor. Você me perdoaria se eu dissesse que amanhã eu cumpro o prometido? E vai ser bem melhor do que seria hoje. O que acha?

Ele demora uns dez segundos até balançar a cabeça em afirmação, ainda chateado, mas não o suficiente para recusar a proposta de um sorvete e uma surpresa de brinde.

Ele se levanta aos poucos e vai chutando uma pedrinha a sua frente até que caia numa vala perto. Eu, ainda não satisfeita de tê-lo feito esperar tanto, o agarro de lado, beijo o centro de sua cabeça e fico contente ao ver um sorrisinho tomando conta dos finos lábios do garotinho que solta até uma pequena gargalhada com as cosquinhas que eu faço.

Venci!

O caminho de casa é todo silencioso. No horizonte o dia começa a desaparecer e as nuvens negras chegam e ameaçam descarregar uma boa chuva grossa em algumas horas, o que significa que se não apertarmos os passos chegaremos em casa encharcados, embora não seja uma má ideia pegar um resfriado e faltar alguns dias de aula. Olho para Petter ao meu lado e repenso: não seria legal vê-lo resfriado por um ato irresponsável meu, dessa forma, continuamos seguindo depressa.

O tempo fecha cada vez mais, e meu medo de chegarmos em casa molhados só aumenta. De repente, uma brisa forte sopra e farfalha os galhos das árvores plantadas pelas calçadas que se balançam irregularmente, resultando num som agradável de natureza agitada. Algumas folhas, pela intensidade do vento, até caem e se espalham pelas ruas.

Com pressa nos passos, seguro a mão de Petter e o puxo para andarmos com mais velocidade, para minha sorte ele não reclama.

Ao virarmos na esquina da rua principal, noto uma aglomeração com cinco rapazes reunidos num montinho perto de um Mustang 98 estacionado rés ao meio-fio, em frente a uma lojinha de conveniência fechada. Eles têm mais ou menos a minha idade, riem e gritam como se estivessem se divertindo com algo que está no meio da roda conturbada que eles formam.

Preocupada com o que pode ser, recuo alguns passos para trás, afinal de contas, Petter está comigo e uma reunião com cinco homens que mais gritam do que falam não pode ser algo bom.

Olho para o céu, só consigo pensar na chuva que ameaça descer em tempestade a qualquer momento.

-Lia, vamos embora. A gente vai se molhar. – diz Petter, puxando minha mão para que nós continuemos nossa caminhada, já que nossa casa está tão perto, e assim eu obedeço. Com cautela, resolvo posicionar Petter ao meu lado direito, seguro forte em sua mão e agradeço em silêncio que, enquanto a turma masculina da algazarra está do lado esquerdo da rua, eu e Petter estamos no direito.

Tento apenas passar escondida pelos carros estacionados sem fazer questão de olhar para o que seja lá que estejam fazendo, repito para mim mesma que não é da minha conta.

- Por favor, cara, não faz isso! Eu já devolvi o bagulho, mano. Por favor, eu juro que não faço de novo!

Qualquer morador de Ohio reconheceria o dono dessa súplica medrosa e temente, até se fosse um sussurro.

Em desobediência a mim mesma, resolvo olhar para a esquerda e averiguar a situação.

No meio do grupinho de homens escandalosos está Kurt, um menino de quinze anos, um tanto conhecido na cidade por cometer alguns pequenos furtos para sustentar as necessidades de sua mãe portadora de câncer. Quase todo mundo sabe disso, e por ter essa fama que grudou em seu nome como cola permanente, se recusam a oferecer um trabalho digno ao garoto. Algumas entidades doam ranchos de comidas, alguns remédios e outros pertences, mas convenhamos que as ajudas são instáveis: alguns meses têm muito, outros meses não têm nada.

Ainda implorando piedade, Kurt soluça:

-Por favor, por favor, por favor... Desculpa, cara...

Eu sei que deveria ir embora, me esgueirar pelos carros estacionados, passar direto escondida sem ser percebida e fingir que nada está acontecendo, mas não deixo de lembrar que uma vez tive a oportunidade de conversar com Kurt, foram somente alguns minutos, e ainda assim pude ver que ele é apenas uma criança que se sente responsável pela vida da mãe, até porque os dois só tem um ao outro.

-Eu vou te desculpar, sim, pode ficar tranquilo. – diz o rapaz loiro e musculoso de regata branca, cuspindo cada palavra tão perto do rosto de Kurt que, se aproximasse mais, sairia um beijo. O agressor o encurrala contra a parede com uma mão no pescoço e a outra pressionando o meio de seu peito. -Ô, Johnny, traz o perdão dele aí. – finaliza com uma risada maliciosa.

Enquanto o cara de regata toma conta para que Kurt não fuja, dois guardam os lados, o quarto rapaz busca algo dentro do carro e o quinto só se escora no capô do Mustang vermelho, fingindo que a cena violenta não está acontecendo, de braços cruzados e tragando um cigarro, uma baforada atrás da outra.

-É essa aqui, Jack? – pergunta o intitulado Johnny, o encarregado de pegar algo no carro que volta ao grupinho com uma barra de ferro com pelo menos trinta centímetros de comprimento e grossa em espessura.

-É, essa mesma. Vem aqui. – sorri Jack, retirando sua mão do peito de Kurt para receber o que Johnny traz com tanto orgulho.

Estou com tanto medo que não consigo me mexer. Agarro firme a mão de Petter e o escondo cada vez mais atrás de mim, nem sei como ninguém ainda não me viu parada, e, me aproveitando disso, me escondo atrás de um carro que está estacionado do meu lado da rua.

-Lia, eu tô com medo. – sussurra Petter, bem encolhido atrás de mim.

Eu respondo no mesmo tom baixinho:

-Calma, a gente já tá quase perto de casa. Vamos deixar eles irem embora primeiro.

É impossível não escutar as pedidas de Kurt para que o soltem, prometendo que não fará de novo seja lá o que ele tenha feito.

Escondida atrás do carro, espio por cima do capô a cena, e vejo o tal do Jack erguendo a barra de ferro na altura do rosto melado de lágrimas e coriza de Kurt, que grita:

-Não, não, não, não, não... Por favor, por favor, por favoooor... – sua voz oscila entre fina e grossa, quase rouco do tanto chorar.

Meu coração se comprime dentro do peito, rezo para que alguma viatura passe ou qualquer outra pessoa para dar um basta nessa situação horrível, mas hoje a rua tirou um tempo para ficar completamente deserta.

O que mais me surpreende é o quanto são desinibidos, pois por mais que a noite esteja quase caindo e o temporal feche o céu em nuvens negras, eles não se importam em fazer o que estão fazendo em plena rua perto de uma avenida movimentada.

-Lia... – choraminga Petter, repuxando a bainha do meu moletom.

-Xiiiii... – peço a ele, que volta a ficar quietinho.

Jack, já com a barra de ferro em mãos, diz com convicção:

-Eu vou deixar uma marca nessa tua cara de bandido, seu filho da puta. Vai aprender a nunca mais roubar de ninguém, principalmente de mim.

Em questão de milésimos, vendo Jack tomar impulso no braço cuja mão segura a barra de ferro, me sinto agoniada, principalmente quando vejo os olhos castanhos claros de Kurt arregalarem numa expressão mesclada de medo e espanto, enxergando tão de perto o que seria a pior dor de sua vida, e que provavelmente marcaria seu rosto para sempre:

-PARA!!! – grito, revelando minha posição atrás do carro.

A minha intenção era parar a cena sangrenta que sucederia no ato do violento Jack, mas não pensei o que faria depois disso.

Fico parada, enquanto os cinco olham para mim, inclusive Kurt, que deixa nítido em seu peito sua respiração ofegante.

Com uns cinco segundos de distração, Kurt aproveita para se desvencilhar de Jack e, então, pelo seu próprio bem, corre a corrida mais rápida de toda vida, se metendo pelos becos que ele conhece de cor e salteado. Num piscar de olhos, Kurt some da vista de todo mundo.

Todos estão olhando para mim, mas Jack me fuzila com os olhos, dá um soco na parede a qual Kurt estava sendo esmagado e agora não está mais porque fugiu, e a culpa é toda minha.

Em insatisfação, Jack penteia os cabelos com os dedos, jogando-os para trás, seguido de um bufo de raiva e os olhos arregalados cravados em mim.

Mantenho Petter escondido atrás do carro, enquanto eu sou a única que chama a atenção.

-Viu só o que você fez? Ele fugiu! – diz Jack, verificando os dois lados da rua antes de atravessar, fingindo paciência e um sorriso.

Enquanto ele chega cada vez mais perto de mim, tão assustador como um cão prestes a atacar, recuo alguns passos para trás até encostar na parede. Em alguns segundos ele está a menos de um metro distante de mim.

-Eu... eu... – odeio o modo como gaguejo e pareço tão assustada e frágil, mas a presença dele é tão pesada que é quase impossível não se sentir acuada: os olhos verdes arregalados como um usuário contínuo de drogas, os cabelos loiros penteados para trás e molhados com o que pode ser gel ou suor, a julgar pela regata branca suja, não descarto a possibilidade de ser a segunda opção.

O céu está cada vez mais fechado pelas nuvens carregadas, formando um cenário macabro em que me encontro cercada por um cara sem escrúpulos, outros quatro do outro lado da rua apenas observando e Petter escondido atrás do quarto.

-Aquele trombadinha roubou algo que era meu, sabia? E eu ia fazê-lo pagar, íamos ficar quites e cada um ia seguir com sua vida normalmente. E aí... – Jack faz uma parada dramática, aproximando o rosto cada vez mais do meu, enquanto eu viro a atenção para o lado, evitando o contato do olho no olho. Me esforço para não tremular mais do que gostaria, não movo um músculo. -...você apareceu e cagou tudo. Que coisa, não? E agora, já que você meteu a fuça onde não foi chamada, alguém vai ter que pagar a dívida nessa porra. Quem será que vai ser, hein? – finaliza, tão perto de mim que posso sentir seu hálito de menta, provavelmente do chiclete que ele masca a cada pausa que faz para me analisar dos pés à cabeça.

Eu quero reagir, chutar as partes baixas, puxar Petter e juntos corrermos para bem longe, mas é mais difícil do que eu pensei que seria, principalmente quando posso colocar a vida de quem eu amo em perigo. Enquanto houver apenas ameaças, não faço nada, apenas respiro fundo e me mantenho parada.

-Jack, vambora. O Kurt fugiu, não tem mais nada pra gente aqui. – intervém o rapaz que estava escorado no Mustang e fumava como uma chaminé.

Enquanto impede Jack de fazer qualquer coisa, joga seu cigarro no asfalto e pisa na bituca sem mais utilidade.

De longe ele me olha sério, são dois olhos castanhos escuros que alternam a visão de Jack para mim, e pelo que parece, Jack escuta o que o possível líder tem para dizer, porém, não recua nem um milímetro, e retruca:

-É, ele fugiu porque essa puta apareceu e deu uma de heroína. Alguém tem que pagar, e nós sabemos quem é.

Vejo em câmera lenta as mãos de Jack se aproximarem da bainha do meu moletom, e numa fração mínima de tempo, planejo empurrá-lo e chutá-lo com tanta força entre suas pernas que comprometeria sua proliferação pelo mundo em até trinta e seis encarnações suas, mas Petter é mais rápido quando corre em direção a Jack, revelando sua posição e chutando a canela do agressor.

Jack urra pela dor causada pelo chute de Petter, volta sua atenção para baixo e vê aquele mini ser humano completamente furioso se colocando na minha frente como uma muralha protetora, enquanto diz:

-Deixa ela em paz, seu babaca!

Com medo de qualquer reação, na mesma hora posiciono Petter atrás de mim.

Jack, por sua vez, massageia a parte atingida e grita furioso:

-Então, tinha um cachorro escondido esse tempo todo? Eu vou mostrar o que eu faço com bichinho fedelho que nem você. – Jack parte em minha direção, já que estou posicionada na frente de Petter como uma tela inquebrável, agarra a gola do meu moletom e, prestes a fazer sabe Deus o quê, o mesmo rapaz do cigarro chama sua atenção, dessa vez com a voz mais grave e exclamativa:

-Jack, não tem mais nada aqui. Já deu!

-Taylor, ela precisa entender que...

-JÁ. DEU. – finaliza o rapaz, depois de atravessar a rua, puxar Jack para trás pela regata e ordenar olhando nos olhos do loiro agressivo.

Jack parece engolir sua vontade no seco, olha para mim e para Petter e quase nos mata apenas com o olhar esverdeado, arregalado e psicótico. Por fim, acata o que o rapaz – provavelmente de nome Taylor – pediu com autoridade.

Eles seguem em silêncio para o Mustang, sem dizer uma única palavra.

Pela primeira vez em tempos eu agradeço com veemência mentalmente por nada ter acontecido a mim e, principalmente, com Petter.

Taylor, o possível líder deles, abre a porta do motorista, enquanto Jack senta no banco do carona e os outros três vão atrás. Enquanto dirige o Mustang, dá meia volta, olha de relance para mim e por alguns instantes consigo analisar seus detalhes marcantes: a barba raspada, os lábios desenhados, olhos castanhos escuros sérios demais, ao mesmo tempo que têm um quê de mistério, uma mescla de vilão e mocinho, um paradoxo em forma de pessoa.

Tão rápido todos eles somem da nossa vista. Tudo o que consigo pensar é: Taylor, o nome dele é Taylor. Certamente não deveria agradecê-lo por fazer o mínimo, mas algo nele prendeu minha atenção, como se eu já o conhecesse tão bem. Não sei, talvez seja só o alívio por sair viva de uma situação de perigo extremo.

Petter me abraça por trás e, sem esperar mais, me desperta e me puxa pela mão para corrermos, e assim fazemos.

Na fuga, corremos como nunca corremos em toda nossa vida, a partir de hoje, pelo menos Petter será deixado na escola sempre pela tia Ana, nenhum cansaço vale mais do que o bem estar dele. Se não for muito incômodo, pego uma carona.

Já em frente de casa, respiro fundo antes de entrar, pego firme na mão de Petter e, ao abrir a porta, determinada a contar tudo para tia Ana, detalhe por detalhe, dou de cara com ela mesma, só que com uma versão um milhão de vezes mais arrumada, a começar pelo batom bege nos lábios, com um toque de brilho labial; o cabelo escovado, as curvas do rosto em contornos básico de maquiagem, entre eles, blush, pó de contorno e as pálpebras, com um esfumaçado de marrom bem suave.

-Eita! – me surpreendo.

-Uau! – diz Petter, na mesma hora em que eu digo.

Tia Ana, por sua vez, pode estar muito bem vestida e maquiada, mas a chateação no rosto é nítida. Ao olhar-nos tão perto de si, nos abraça, mas não amacia a voz de alívio:

-Pelo amor do Santo Cristo, onde é que vocês se meteram?

Petter, prestes a contar da forma mais horrível possível – porque uma criança não omite fato algum –, é agarrado por mim, que lembro do motivo dela estar tão bem arrumada: tio Martin já deve estar em Ohio.

Com isso, sei o quanto a chegada dele mexe com ela, ainda que os dois estejam separados há anos, mas não quer dizer que o sentimento dela tenha diminuído, pelo menos o dela não.

Sabendo de seu nervosismo e o motivo para isso, agarro Petter de lado e o impeço de falar qualquer coisa, sou mais rápida e minto:

-É que a gente perdeu noção de horário, sei que a senhora não gosta, mas demos uma passada no Lakewood Park, e aí... Já viu, né?

Tia Ana suspira, nos larga do abraço e diz:

-E eu aqui quase ligando pra polícia. Da próxima vez que fizerem isso, pego uma foto bem feia de vocês pra colocar no jornal local de "desaparecidos". Todos os seus colegas vão ver o micão. E eu falo sério. – brinca ela, em tom de chateação. -E a partir de hoje fica decidido que vou deixá-los e pegá-los na escola. Pronto, resolvido!

Bingo! Tia Ana leu meus pensamentos, já que, de certa forma, não está nos meus planos contar o que aconteceu agora pouco, pois ela é do tipo que, se souber, só vai descansar quando olhar o tal de Jack e os outros atrás das grades e, pelo meu pressentimento, acho que não é uma boa mexer com esse pessoal, Kurt que o diga.

-Eu não a perdoaria, tia Ana. Nunquinha! – diz Petter, indignado ao ser ameaçado de ter uma foto sua exposta ao público, no entanto, sua marra carrancuda é desfeita quando tia Ana o abraça forte e diz em seguida:

-Aham, já escutei conversinha demais. Os dois, vão tomar banho, falta pouquíssimo tempo pro Martin chegar. Quero que estejam prontos. Andem, vão.

Eu e Petter subimos as escadas correndo, vejo-o entrando em seu quarto em disparada, tão ansioso e animado quanto tia Ana.

Por uma parte, agradeço a memória de criança do Petter, pois, com a chegada de Martin, é provável que ele esqueça o ocorrido macabro de minutos atrás e se ocupe com as aventuras e histórias parisienses que tanto gosta de ouvir, por outro lado, eu não tenho memória infantil, e tenho certeza que não vou esquecer.

Entro no meu quarto, jogo a mochila de qualquer jeito no chão perto da cama, corro para o banheiro e me olho no espelho. De frente para o meu reflexo, tento conter o pânico que se mostra em resfôlegos no meu peito, me apoio segurando as bordas da minha pia branca e quadrada de porcelana, fecho os olhos e a primeira cena que vem à tona é Taylor. Na verdade, são como várias cenas fotográficas tiradas pela minha própria mente, ora de Taylor intervindo Jack para que não fizesse nada comigo, ora Taylor dando a volta com o carro e, antes de partir, olhando para mim de relance. Como uma quebra na sensação dormente que ele me trouxe, de súbito consigo lembrar o hálito mentolado misturado com cigarro de Jack tão perto de mim, isso me dá ânsia.

Abro a torneira num jato forte de água e lavo diversas vezes o rosto. Faço melhor, arranco as roupas do corpo, ligo o chuveiro em seu nível mais forte e deixo que a água corrente alivie meu estresse.

Depois de quase dez minutos, estou pronta para bancar a melhor anfitriã do mundo. Nem tanto, mas o suficiente.

Ao descer as escadas, o cheiro que exala e inunda a casa toda é simplesmente sensacional.

Chegando na sala de jantar, avisto a mesa mais bem posta que já vi em toda a minha vida, nem eu sabia que tínhamos louças de cerâmica simples em estilo nórdico, copos de vidro transparentes com bordas douradas e talheres também douradas.

Petter vem chegando em seguida como um furacão e devora com os olhos o banquete selecionado exclusivamente para esta noite: risoto de cogumelos, batatas salteadas com ervas frescas, torradas amanteigadas e, de sobremesa, petit gâteau. Um cardápio saído diretamente de Paris para uma singela casa de Ohio.

Para quem está acostumada a pedir comida quase todo dia, olho impressionada para a mesa e brinco:

-Uau! Quem foi que fez tudo isso? – me apoio na borda da cadeira de madeira.

-É, tia, quanto deu todo esse pedido no iFood? – pergunta Petter, que sem querer acabou soando como continuação da minha piada.

Tia Ana vem andando depressa da cozinha, sorrindo:

-Ah, engraçadinhos, tudo isso foi eu mesma que... – tia Ana, ao olhar-nos, pausa seu andar na mesma hora e expressa seu susto: -O tio de vocês vem direto de Paris pra cá e vocês vestidos de... pijama... – aponta para Petter. -...e um blusão de dormir com uma calça de moletom? – aponta para mim.

Primeiramente, gostaria de responder que Martin não é mais nosso tio, já que eles se divorciaram há algum tempo, mas tudo o que falo é:

-Ué, tia, quem está querendo impressioná-lo é a senhora, não a gente. – abraço Petter de lado, este que dá uma risadinha cobrindo a boca com as mãos.

-Lia! – responde ela em protesto, prestes a nos mandar trocarmos as roupas, quando finalmente a campainha é acionada. -Chegou! – diz, respirando fundo, arregalando os olhos e, depois de alguns segundos, voltando a seu estado normal e fingindo naturalidade.

-Deixa que eu abro. – grita Petter, partindo para a porta como um jato.

Ao abrir, dá de cara com tio Martin, todo trajado em suas costumeiras roupas sociais, cuja camisa polo clássica azul com zíper na gola combina muito bem com seus olhos, a calça social bege e os sapatos sociais marrons fecham o pacote completo de um quarentão que sabe muito bem como se vestir, não é à toa que tia Ana ainda é caída de amores por ele.

Petter não dá espaço algum, ao vê-lo, parte para um abraço repentino. Martin, por sua vez, deixa suas compras no chão da entrada, arregala os olhos azuis e aperta Petter na mesma intensidade, enquanto o carrega, rodopia no ar e diz:

-Meu Deus, como você cresceu! Daqui a um tempo não vou mais conseguir te carregar.

-Tio Martin, olha só o que eu fiz: é um Stegosaurus muito realista. – Petter corre até a mesinha com abajur que tinha deixado seu desenho, agarra o papel e mostra orgulhoso para Martin, que, obviamente, finge se impressionar com os rabiscos coloridos em verde, preto e laranja:

-Caramba, toma cuidado com isso, vai acabar assustando alguém. – sorri, ajeitando os cabelos desalinhados com a recepção brusca de Petter, pegando as sacolas que trouxe, erguendo-os e explicando: -Trouxe presentes!

Então, finalmente ele olha para mim, não faço muita cerimônia, até porque já estou grande demais para isso, apenas sorrio e dou um rápido aceno de longe.

-Lia, que bom te ver. Tá cada vez mais parecida com a... – ele pausa antes mesmo de terminar, talvez por perceber que causará um climão se tocar no assunto delicado que vem nos unindo ultimamente. Para se corrigir, balança a cabeça, chega perto e me entrega um embrulho. -Enfim, trouxe isso aqui pra você, espero que goste.

Recebo e agradeço, deixo para abrir mais tarde, mas com certeza vou gostar de qualquer coisa que venha de Paris.

-E pra você, rapazinho, uma coleção inteira de mini dinossauros colecionáveis. – Martin faz questão de descrever o que trouxera para Petter, justamente por saber que sua reação de animação seria impagável, e foi exatamente isso o que aconteceu. Petter pega o presente, desembrulha na mesma hora e surta quando vê um pacote cheio de animais pré-históricos.

-Obrigado, obrigado, obrigado, obrigadooooo... – responde Petter, quase esmagando Martin do tanto que o abraça.

-Tudo bem, tudo bem... – ri Martin, tornando a compostura, arrumando o cabelo para trás, que se desalinha muito, e finalmente chega a hora de tia Ana, que não sabe como recepcioná-lo.

Me uno a Petter e assisto a tudo de longe, enquanto Martin se aproxima de Ana para um abraço desengonçado e constrangido, a entrega seu presente e trocam algumas saudações, como dois adolescentes que acabaram de se conhecer. É sempre assim, no início eles se saúdam como se desconhecidos, no entanto, horas depois estão rindo e trocando farpas como velhos amigos inseparáveis.

A ligação que eles têm é tão forte que, mesmo depois de separados, continuam participando ativamente um da vida do outro, o que é bom porque Petter ama Martin, e seria difícil ter que afastar mais uma pessoa importante da vida dele com tão pouca idade, entretanto, na maior parte das vezes não faz bem à tia Ana, que sabe que pode seguir sua vida amorosa com outra pessoa, assim como Martin faz e não esconde de ninguém, mas diferente dele, ela acha que um dia voltarão e, por isso, nunca mais se relacionou com outra pessoa desde que se divorciaram. Sinto pena, mas já coloquei na minha cabeça que cada um sabe o que está fazendo da sua própria vida. Ou não.

Não demora muito até, finalmente, sermos convidados para o jantar, ninguém merece risoto frio, ainda mais de cogumelos.

Já postos à mesa, tia Ana escancara o orgulho no rosto quando Martin diz:

-Tudo isso é pra mim? Parece até que a rainha vem comer com a gente.

-Gostou do menu parisiense? – pergunta tia Ana, imitando o sotaque dos habitantes de Paris ao dizer "menu".

-Me sinto em casa. – responde tio Martin, abocanhando o risoto.

A noite, além da comida boa e caseira, foi embalada com bastante risada, uma vez que tio Martin não perdeu a chance de contar sobre seus perrengues europeus, eu, tia Ana e Petter não conseguimos conter as risadas, pois Martin, além de muito simpático e bonito, também tem um ótimo senso de humor.

Não consigo me lembrar exatamente dos jantares em família em que tia Ana e Martin estivessem conosco. Até lembro, mas eu era bem pequena, Petter ainda nem era nascido, e todas as vezes em que estavam mamãe, papai, tia Ana e Martin, o silêncio dominava o ambiente, a conversa era muito forçada e, até eu que era uma criança, percebia que tinham assuntos não resolvidos entre os quatro.

Desde que meus pais se foram, tia Ana e Martin organizam esses jantares, devo confessar que adoro, porque me sinto parte de uma família de novo, apesar de saber que não estou.

Terminado o jantar, enquanto tia Ana lava a louça, eu enxugo. Tio Martin e Petter retiram e limpam as migalhas que ficam pela mesa.

Com o relógio apitando em quase meia-noite, tia Ana se sente na obrigação de nos mandar para a cama, sempre me tratando da mesma forma como trata Petter, mas resolvo não causar intriga por motivo desnecessário, afinal, amadurecer é isso, não é?

Com tio Martin arrumando Petter à cama, não é necessário dizer que o garoto dormiu com uma facilidade gigante.

Eu, mesmo deitada, não consigo pregar os olhos e imaginar outra coisa senão a tenebrosa volta para casa. O jantar foi um tanto agradável, por algum tempo me fez esquecer, mas agora, deitada com a cabeça no travesseiro, miro o teto e sinto as pupilas dos olhos arregalados por causa da falta de luz.

Enrolo de um lado para o outro na cama e chego à conclusão de que só vou conseguir dormir quando fizer um leito morno. Não sei se é mito, mas minha mãe costumava fazer sempre quando tinha dificuldade para dormir, e funcionava.

Como uma boa pessoa frienta, calço as pantufas para que meus pés não encostem no piso frio, abro a porta com cuidado e desço os degraus da escada.

Para minha surpresa, Ana e Martin ainda estão acordados, a luz da sala está diminuída para um tom bem baixo e sensual, eu diria. Os dois riem tão alto da cozinha que consigo escutar.

Na mesma hora penso o que pode estar acontecendo, para minha sorte, não sou vista. Volto para meu quarto com delicadeza nos pés para não ser notada.

-E como tá sendo cuidar da Lia e do Petter? – pergunta Martin.

Antes de deixá-los a sós, paraliso meus passos na mesma hora. Como as escadas são envolvidas pelas paredes, não tem como olharem que estou escutando conversa alheia, mas depois dessa pergunta, adoraria escutar o que tia Ana tem para dizer.

Numa rápida espiada, fico de cócoras e deixo aparecer somente meus olhos. Avisto os dois sentados no sofá tão pertos que poderia jurar que são um casal novamente, ele segurando uma taça de um líquido roxo que parece ser vinho, e ela bebendo algo transparente, o que só pode ser água, já que não bebe.

Antes que ela responda, Martin se aproxima dela sorrateiro e consegue arrancar um beijo calmo, quase parando.

Na mesma hora me encolho de volta para a parede, não consigo esconder a careta de ânsia que me deu, certamente poderia dormir sem ver isso.

Após o estalido do beijo, tia Ana finalmente responde, e eu agradeço em silêncio:

-Tá sendo... diferente.

-Diferente como? – pergunta Martin, com o tom da voz paciente.

Daria tudo para ver a feição de tia Ana ao falar de nós, mas o medo de ser pega é maior do que tudo. No mais, resolvo apenas escutar a conversa:

-Ah... O Petter é um menino doce, gentil e muito brincalhão, não tenho do que reclamar, mas a Lia... – ela se interrompe antes de continuar.

-O que tem a Lia?

-Não é que ela seja um problema, mas... Às vezes sinto que ela não gosta de mim, o modo como ela fala comigo, como me olha... – tia Ana faz uma pausa dramática, dá para escutar sua respiração cansada. -Às vezes parece que ela... sabe...

O medo de ser pega ouvindo a conversa é grande, mas isso só fica cada vez mais interessante: sei o quê?

Um silêncio se faz por uns dois minutos, nem Martin ou Ana falam nada, como se o assunto pesasse tanto que é quase impossível prosseguir com algum conselho.

-A gente faz muita besteira quando se é jovem, não é? – finalmente Martin diz algo.

-Ai, eu nem sei por que tô falando isso com você. – tia Ana parece levantar, a julgar pelos seus passos pela sala.

Me encolho, com toda certeza a coisa vai ficar feia se alguém me olhar.

-O quê? Eu tô falando de nós dois, no plural, se não entendeu.

-Não seja sonso, o seu tom sempre empurra a culpa pra mim.

-Como se tudo isso fosse difícil só pra você. É sempre só sobre você, Ana. – retruca Martin.

-Sobre mim? Meu Deus, eu... Se um dia fiz besteira, foi por sua causa, Martin.

Os tons começam a se exaltar, Martin pede silêncio da tia Ana, dá uma risada sarcástica e diz:

-Ah, então eu sou culpado quando você escolhe foder com o nosso casamento? Foder com tudo o que a gente construiu? Eu sou mesmo o único culpado, Ana?

-Olha como você fala comigo.

-Olha como você fala comigo! Se agora você tá colhendo os frutos de um erro passado, não tenta empurrar a culpa só pra mim, porque nós dois sabemos que é um fardo difícil de ser carregado, e eu não admito que seja somente eu o desgraçado que vai ter dor nas costas.

Fico nervosa pelas consequências desse desentendimento, mas mais nervosa ainda por não entender absolutamente nada do que está sendo dito.

Os dois ficam em silêncio novamente, só Deus sabe como eu queria ser uma mosquinha para ver a cara que estão fazendo, principalmente porque o desafeto começou quando meu nome entrou para jogo.

Depois de um tempo, é Martin quem quebra a calmaria:

-Ana, eu não quis... Você sabe que... Já é um assunto que a gente resolveu, e que eu vou te ajudar a criar essas crianças. Que a gente vai continuar com as nossas jantas pra manter esses dois num esteio familiar balanceado, mas o que eu quis dizer foi que...

-Vai embora, Martin, eu quero ficar sozinha. Me desculpa por sempre estragar tudo.

Sem mais falar nada, Martin faz barulho com seus passos, abre a porta e, pelo que tudo indica, foi embora.

Tia Ana parece estar sozinha agora, e eu não quero permanecer mais nem um minuto nessa escada.

Com maciez nos pés, subo degrau por degrau, chego no quarto, fecho a porta com todo cuidado do mundo e me jogo na cama.

O plano inicial era fazer um leite morno para tentar dormir, mas acabei escutando mais do que devia, e em consequência disso, não consigo sequer pensar em dormir, como se não bastasse a dúvida cruel dentro de mim que insiste em não ter tanta simpatia por tia Ana, e agora, mais isso.

É, sem sono por essa noite.

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