As luzes da cidade piscavam como se zombassem da minha realidade. A chuva fina escorria pelo vidro do ônibus enquanto eu olhava fixamente para o papel amassado em minhas mãos. Um nome, um endereço e um horário. Só isso. Nenhuma promessa, nenhuma explicação - apenas a chance de quitar metade das minhas dívidas se eu aceitasse a proposta que me fora feita por uma conhecida de forma sussurrada e quase vergonhosa.
"Não é o que você está pensando", ela havia dito. "É apenas massagem. Discrição total. Você tem o perfil."
Meu perfil. Jovem, bonita, desesperada. Perfeito.
Desci do ônibus com os sapatos encharcados e a alma pesando toneladas. Caminhei pelas calçadas do bairro nobre tentando parecer confiante, mas cada passo até aquela tal casa de massagens de luxo era como atravessar uma linha invisível entre a mulher que eu fui... e a que talvez estivesse prestes a me tornar.
A casa se erguia entre prédios modernos, com fachada discreta, mas de imponência quase arrogante. A porta era vermelha, vibrante, chamativa - como se desafiasse qualquer um a entrar sem julgar.
Toquei a campainha. Uma única vez.
A mulher que abriu a porta parecia saída de uma revista de moda. Alta, elegante, com olhos que te mediam em segundos. Ela me observou em silêncio, como quem avalia uma mercadoria antes da compra.
- Alícia? - perguntou.
Assenti com a cabeça, engolindo seco.
- Entre. Seja bem-vinda ao Lux Touch.
A casa era linda, iluminada por luzes suaves e um aroma adocicado de flores e especiarias. Nenhum som vulgar, nenhuma exposição escancarada. Era tudo sutil. Perigosamente sedutor.
- Você começará amanhã. - A mulher, que se apresentou como Helena, me conduziu a uma sala aconchegante. - Temos regras. Nenhum toque além do acordado. Nenhum nome verdadeiro. E acima de tudo: discrição.
Assenti de novo. Eu não tinha perguntas. Só pressa de não ser despejada no final do mês.
Helena sorriu com um ar que eu não soube decifrar. Uma mistura de pena e antecipação.
- Vista isso. - Ela me entregou um robe de seda preta. - Você terá uma pequena demonstração hoje. Um cliente especial. Muito especial.
Meu coração bateu mais forte. Eu não esperava começar naquele mesmo dia. Mas algo no tom dela me dizia que recusar não era uma opção.
Minutos depois, eu estava ali, em pé diante de uma sala onde o luxo transbordava pelos detalhes. O chão de mármore branco, a lareira acesa, o sofá de couro escuro... e ele.
Sentado com uma taça de uísque entre os dedos, Damian Lancaster me observava como se pudesse ver além da minha pele. Frio. Belo. Intimidador.
- Então você é a nova. - Sua voz era rouca e grave, cortando o silêncio como uma lâmina de seda.
- Sim, senhor. - Minha voz saiu baixa, quase um sussurro.
Ele não respondeu. Apenas levantou-se lentamente e caminhou até mim. Cada passo dele parecia ecoar no meu peito.
- Diga-me, Alícia... - Ele falou meu nome como se saboreasse. - Você sabe o que vale um toque?
Eu não soube responder.
Mas ali, sob aquele olhar, eu entendi que estava prestes a descobrir.
E não haveria volta.
Capítulo 2 – A Primeira Regra
O silêncio entre nós era espesso, quase palpável. Damian me encarava como se procurasse alguma rachadura, uma falha, um ponto fraco. Eu sentia a pele arrepiar sob o tecido leve do robe. Meu instinto gritava para fugir, mas minhas pernas não obedeciam.
- Você parece nervosa. - Ele disse, andando lentamente ao meu redor, como um predador farejando a presa. - Isso é bom. Sinal de que ainda tem algo a perder.
Meu orgulho, talvez.
- É a minha primeira noite - confessei, forçando-me a manter a postura.
- E mesmo assim te colocaram comigo. - Ele soltou uma risada curta. - Helena é mais ousada do que eu pensava.
Damian parou na minha frente. Seus olhos cinzentos cravaram nos meus, como se testassem até onde eu aguentaria sem desviar. Não desviei. Não podia.
- Tire o robe - ordenou, sem elevar a voz.
Meu coração disparou. As palavras ecoaram dentro de mim, contradizendo tudo o que Helena havia dito sobre "nenhum toque além do acordado". Aquilo era parte da massagem? Parte do acordo? Eu não sabia. Só sabia que ele me testava.
- Pensei que... - comecei, mas parei ao notar o modo como ele arqueou uma sobrancelha, paciente e perigoso.
- Você pensou errado - respondeu com calma. - Aqui, quem dita as regras sou eu. Mas não se preocupe... - ele se aproximou mais um passo, até eu sentir o calor do seu corpo - ...ainda não estou cobrando nada que você não possa recusar.
O robe escorregou dos meus ombros. Um movimento lento. Um gesto de coragem ou desespero? Eu já não sabia distinguir. Estava vulnerável, mas não derrotada.
Ele não me tocou. Nem uma vez.
- Corajosa - murmurou. - Isso é raro aqui.
Damian voltou para o sofá, cruzou as pernas e me observou com um olhar clínico.
- Sente-se.
Obedeci. Meus joelhos quase cederam, mas me mantive firme. A tensão entre nós era como um fio prestes a arrebentar.
- Diga-me, Alícia... o que trouxe você até aqui? - Sua voz era baixa, quase gentil. Mas eu sabia que não havia bondade naquela pergunta. Era um interrogatório com verniz de curiosidade.
- Dívidas. Sobrevivência. Não tive escolha.
Ele riu de leve, como se tivesse ouvido a mesma resposta mil vezes.
- Sempre há escolha. A diferença é o preço que se está disposto a pagar.
Ele se levantou novamente. Pôs a taça de lado e estendeu a mão até meu rosto, mas não me tocou. Seus dedos pairaram próximos à minha pele.
- A primeira regra, Alícia, é simples: nunca confunda prazer com poder. Um você pode vender. O outro... sempre pertence a quem sabe dominar.
Engoli em seco. Era isso. Ele não queria meu corpo. Não naquele momento. Queria algo mais perigoso: controle.
- Você quer trabalhar aqui? Quer vencer nesse lugar? - Sua voz ganhou firmeza. - Então aprenda a fingir. Aprenda a seduzir sem se entregar. Ou será engolida.
A campainha da casa tocou, quebrando a tensão.
Damian se afastou, indo até a porta lateral.
Antes de sair, virou-se e disse, quase como um aviso:
- Vista-se. Sua noite termina aqui. Mas a próxima... começa quando eu quiser.
E então ele se foi.
E eu fiquei ali, sentada, com o corpo exposto e a mente em chamas. Porque, pela primeira vez, entendi que aquele mundo não era apenas feito de toques e acordos - era um jogo.
E eu acabara de ser colocada em campo.
Capítulo 3 – As Máscaras do Luxo
O espelho não mentia, mas eu quase não me reconhecia. A maquiagem delicada, o cabelo perfeitamente preso, o vestido preto justo com decote discreto... Tudo parecia refinado demais para uma garota que, duas semanas antes, mal tinha o que comer.
Helena ajeitou meu colar e sorriu com os olhos no reflexo.
- Agora sim, você está pronta. - disse, como se estivesse preparando uma boneca de porcelana para exibição.
Respirei fundo. Aquela era minha primeira noite oficial no Lux Touch. Sem testes, sem improvisos. Um nome foi sussurrado no meu ouvido antes de eu entrar naquela sala de espera silenciosa e luxuosa: Sr. Lancaster.
De novo ele.
- Pensei que eu ainda era nova demais para "clientes especiais" - comentei, tentando parecer casual, mas minhas mãos traíam meu nervosismo.
- Ele pediu por você. Especificamente. - Helena respondeu, sem disfarçar o espanto curioso. - Isso nunca aconteceu. Com nenhuma outra garota.
Isso deveria me assustar. E assustava. Mas havia algo mais ali. Algo mais forte que o medo: o vício estranho de ser olhada por ele. De sentir que, por algum motivo, eu estava no centro de um jogo que ainda não compreendia.
Quando entrei na suíte, Damian já estava lá, como se o tempo obedecesse à sua presença. Vestia terno escuro, camisa parcialmente aberta e aquele olhar que me despia sem mover um músculo.
- Está mais bonita hoje. - disse, cruzando as pernas com elegância. - Ou talvez seja só a confiança. Fica bem em você.
- Estou me adaptando - respondi, mantendo o olhar firme.
Ele sorriu. Um sorriso discreto, perigoso.
- Sente-se.
Fiz o que pediu. A cadeira em frente a ele parecia um trono desconfortável. Meu corpo estava ali, mas minha mente se dividia entre as dívidas, o aluguel atrasado e a sensação absurda de que ele sabia mais sobre mim do que deveria.
- Você sabe o que acontece com pessoas que se adaptam rápido demais, Alícia? - perguntou.
- O quê?
- Elas esquecem quem são.
Ele se levantou, caminhou até mim e se abaixou. Seus olhos estavam no mesmo nível dos meus agora. Perto demais.
- Está gostando de trabalhar aqui?
Pensei em mentir, em fingir um entusiasmo que agradaria o ego dele. Mas minha voz saiu antes da máscara:
- Não sei ainda.
Ele sorriu, satisfeito com a honestidade.
- Bom. Isso mantém você interessante.
O silêncio entre nós voltou, mas dessa vez, parecia confortável. Ele estava prestes a dizer algo, quando o celular tocou. Atendeu no viva-voz, sem pedir licença.
- Fale - disse, frio.
Uma voz masculina respondeu do outro lado, nervosa:
- Senhor Lancaster, houve um problema. O advogado do grupo Ortega quer renegociar os termos. Disseram que se a cláusula de sigilo não for revista, vão sair do acordo.
Damian se levantou e caminhou até a janela, os ombros tensos. Quando falou, sua voz estava cheia de gelo:
- Diga a eles que, se saírem agora, não vão sobreviver no mercado até o fim do semestre. E que eu não repito ameaças.
A ligação foi encerrada. E, por um momento, ele parecia outra pessoa.
- Negócios. - disse, virando-se para mim com um meio sorriso. - Fascinante como as pessoas se acham poderosas até ouvirem um não.
- E você não costuma ouvir muitos - arrisquei dizer.
Ele riu, pela primeira vez de verdade.
- Está começando a me entender.
Damian se aproximou de novo, mas dessa vez, não tocou, não testou. Apenas me olhou.
- A noite ainda não acabou. Mas você vai escolher: ficar... ou ir embora agora.
E ali estava. O jogo. A escolha.
Mas será que eu ainda sabia como dizer "não" ?