Meu padrasto, Fabrício, perguntou se eu já havia me rendido. Ele queria que eu entregasse o carro, um presente do meu falecido pai, para sua filha, Luna.
Como recusei, ele me trancou no porta-malas sob o olhar cúmplice da minha própria mãe, Edite, e da minha meia-irmã.
Morri sufocada pelo calor infernal. Meu corpo apodreceu por dias, até que o cheiro se tornou insuportável.
Para encobrir o crime, eles não hesitaram: mandaram meu carro, meu túmulo, para um ferro-velho distante e fugiram para a Europa para celebrar uma nova gravidez, acreditando que o assassinato estava perfeitamente enterrado.
Eles achavam que o poder e o dinheiro poderiam simplesmente me apagar da existência, como se eu fosse um erro a ser corrigido.
Mas eles estavam terrivelmente enganados. A morte não foi o meu fim.
Eu nunca fui embora.
Eu me tornei o fantasma que assombra cada passo deles, a testemunha invisível que assistiria à sua ruína. A justiça dos homens pode tardar, mas a minha vingança não.
O inferno deles está apenas começando.
Capítulo 1
Marina Germano POV:
"Ela já se rendeu?"
A voz de Fabrício Cordeiro rasgou o silêncio pesado da mansão como uma faca afiada. A pergunta não era dirigida a mim, mas ecoava nos corredores como se procurasse meus ouvidos, mesmo que eu já não tivesse mais ouvidos para ouvir. Era sempre assim com ele. Ele precisava saber que havia vencido, que a pessoa estava quebrada.
Léo Valente, meu ex-subchefe, hesitou. Eu o vi ali, de pé na porta da cozinha, os ombros curvados, a touca branca amassada na mão. Ele era leal até o fim, eu sabia. Seu olhar baixou para o chão de mármore, evitando os olhos frios de Fabrício. Uma pontada de preocupação, real e palpável, se espalhou por sua expressão. Léo sempre foi assim, um coração mole num corpo de gigante. Ele se importava.
Fabrício parou de cortar seu bife. O tinir do garfo contra o prato de porcelana fina cessou de repente, deixando um vácuo no ar. Ele não levantou a cabeça nem um centímetro, mas eu senti seu olhar perfurar Léo, mesmo sem contato visual. Um silêncio denso e opressor se instalou. Foi um silêncio que gritou poder. Fabrício gostava disso. Gostava de fazer as pessoas se retorcerem.
"Não... senhor", Léo gaguejou, finalmente. "Ainda não."
A resposta foi um alarme. A expressão de Fabrício permaneceu inalterada, quase entediada. Ele mastigou lentamente, o som ecoando no jantar formal. A sala de jantar, que antes foi o palco de tantos risos e celebrações, agora era um túmulo de expectativas. Ele limpou os lábios com um guardanapo de linho branco.
"É inaceitável", Fabrício declarou, a voz baixa e controlada, mas carregada com a fúria contida de um predador. "Ainda não? Quatro dias. Quatro dias e ela ainda não entendeu a lição? Ela precisa aprender a não desafiar as regras desta casa. A insolência dela passou dos limites."
Senti a dor de Léo pela preocupação. Eu sabia que ele estava pensando no meu estado, no calor infernal dentro daquele carro. Ele se importava com as pessoas, com o bem-estar dos outros. Era a bondade dele que o tornava tão diferente de todos ali.
"Senhor, a temperatura tem subido muito. É perigoso", Léo tentou, a voz um pouco mais firme agora. "Ela pode... ela pode não aguentar."
Fabrício gargalhou. Uma risada curta, seca, que não alcançou seus olhos. Ele pegou sua taça de vinho tinto, girando o líquido escuro.
"Perigoso? Ela é uma menina forte, Léo. Teimosa, como a mãe dela antes de ser minha. Isso é apenas uma lição de obediência. Ela estará grata quando entender a gravidade de seus atos." Ele tomou um gole, os olhos fixos na taça. "Quanto tempo você disse? Quatro dias? Ah, sim. É o suficiente para ela refletir sobre a insignificância dela."
Léo respirou fundo, parecendo pronto para argumentar novamente. Ele sempre foi assim, protetor. Mas Fabrício ergueu uma mão, um gesto que o silenciou de imediato. Aquele gesto carregava anos de autoridade e poder.
"Basta, Léo. Eu não a trago de volta até ela implorar. E se ela acha que vai conseguir ajuda de fora, está enganada. Não há ninguém para ela."
Um riso silencioso escapou de mim. Fabrício, você está tão enganado. Não há ninguém para mim? A ironia era cruel. Ele não precisava me trazer de volta. Eu nunca tinha ido embora.
Eu estava ali. Eu era a invisível, a observadora, o fantasma que assombrava a casa que deveria ter sido meu refúgio. E como ele estava enganado.
Eu estou morta, Fabrício. Já faz quatro dias.
Uma melodia suave interrompeu o silêncio tenso. Era uma voz, doce e melódica, que ecoava no corredor.
"Pai, já não está na hora de soltá-la? Ela deve ter aprendido a lição, pobrezinha."
Luna. Minha meia-irmã. Ela surgiu na porta da sala de jantar, um sorriso angelical nos lábios, os cabelos loiros caindo em cascatas perfeitas sobre os ombros. Vestida num robe de seda que parecia abraçar sua pele sem esforço, ela era a imagem da pureza, da inocência. Uma pintura cuidadosamente composta para encantar. Ela se aproximou da mesa, seus passos leves e etéreos.
Ao vê-la, a expressão de Fabrício se transformou. O gelo em seus olhos derreteu, substituído por uma ternura quase palpável. Uma ternura que ele nunca me dedicara. Ele sorriu, um sorriso genuíno que me revirou as entranhas.
"Minha flor", ele disse, a voz suavizando de um jeito que eu só ouvia quando ele falava com ela. Ele se inclinou, beijando a testa de Luna. Era uma cena que já havia se repetido incontáveis vezes. Ele sempre a protegeu, a bajulou, a transformou na filha perfeita que ele desejava ter. E eu, Marina, sempre fui a sombra, a falha.
Luna se aninhou ao lado dele, a cabeça em seu ombro. "Mas, pai, ela é sua filha. Ela deve estar tão arrependida. Por favor, solte-a."
Fabrício acariciou o cabelo dela. "Não, minha querida. Ela precisa de uma lição rígida. Essa garota tem o sangue da mãe nas veias, e a mãe dela era uma manipuladora. Marina acha que pode fazer o que quiser, que pode me desafiar. Mas ela precisa aprender que o mundo não gira em torno dela. Ela precisa ser quebrada. Precisa aprender a obedecer."
Ele falava de mim com um olhar tão frio, tão distante, que eu me perguntava se ele alguma vez me vira como algo além de um fardo.
"Que tipo de pai faz isso com a própria filha?", eu murmurei, uma parte de mim ainda incrédula, mesmo depois de morta. A dor da traição ainda era mais forte do que a realidade da minha ausência.
Lá na cozinha, os outros empregados cochichavam, apavorados. Eu podia ouvir os murmúrios de Léo, tentando acalmar os ânimos, mas a verdade estava nos olhos de todos: ninguém ousava desafiar Fabrício.
Luna se virou para Fabrício, os olhos grandes e cheios de uma falsa preocupação. "Mas papai, se ela for embora, quem vai amar você como uma filha? Eu te amo, sabe."
A performance era impecável, a entonação perfeita. Edite Canellas, minha própria mãe, surgiu na sala, elegantemente vestida em um vestido de seda preto. Ela se aproximou, um sorriso forçado nos lábios.
"Fabrício, querido, Luna tem razão. Ela ainda é sua filha. E ela é tão... tão teimosa. É algo de família."
Minha mãe. Edite Canellas. O amor da vida de Fabrício, ou assim eu pensava um dia. Eu me lembrava de como eu a idolatrava, de como pensava que ela e Fabrício eram almas gêmeas. Como eu desejava que ela fosse minha mãe novamente.
Mas Edite, minha mãe, tinha mudado. Ela não era mais a mulher que me ensinava a cozinhar, que me abraçava quando eu caía. Ela se tornou a mulher que trocou o amor de uma filha pelo brilho do dinheiro, pelo status social. Uma mulher que me condenava para proteger sua própria imagem, seu próprio conforto. Sua ganância era um veneno que a transformou em algo irreconhecível.
Minha mãe.... Era ela quem Fabrício dizia amar mais do que tudo.
Eu costumava pensar que eu era o verdadeiro amor da vida dela, a filha que ela tanto queria. Mas no minuto em que ela morreu, tudo mudou. Edite se tornou uma cópia barata, sem alma.
Minha verdadeira mãe teve sorte. Ela morreu antes de ver o monstro que Fabrício se tornou. Antes de ver o monstro que Edite se tornou.
Eu sabia que em breve estaria com ela novamente. Eu estava pronta para ir. Queimada, sufocada, mas livre.
E que eu nunca mais, em nenhuma vida, seja filha de vocês.
Edite se aproximou, o rosto contorcido em uma falsa súplica. "Fabrício, por favor. Solte-a. Ela ainda é sua filha."
Eu ri, um riso sem som, amargo. "Sua filha", ela disse. Não "minha filha". Aquelas duas, Edite e Luna, eram mestras em atuar como as "boazinhas", as compassivas. Mas o que elas realmente eram, era cruel. Elas não fizeram nada para me tirar dali. Nada para me salvar.
O presente de aniversário de dez anos que Fabrício me deu. Um carro de brinquedo, com um porta-malas que abria de verdade. Ele me disse que era para eu guardar meus segredos mais preciosos lá dentro. Agora, era meu túmulo.
Este carro é a minha cova, Fabrício. E você é o coveiro. Mas o que você não sabe é que um túmulo pode se tornar um altar de vingança.
Marina Germano POV:
Vinte anos atrás, antes de toda essa farsa, antes de Edite se tornar a mulher que preferiu o brilho do dinheiro ao amor da filha, Fabrício Cordeiro era um homem quebrado. Ele havia perdido tudo. Sua esposa o deixou, levando consigo a fortuna da família e a única filha que eles tiveram, Luna. Fabrício se viu sozinho, sem um tostão, afogado em dívidas e amarguras. Enquanto isso, meu pai, um homem humilde e trabalhador, estava construindo seu império do zero. Começou a vida como um simples cozinheiro, mas com paixão e talento, ele transformou seu pequeno negócio em um restaurante renomado.
Minha mãe, Edite, era uma mulher de classe média, com sonhos grandes demais para a realidade dela. Ela tinha sido noiva de Fabrício na juventude, mas a família dela a forçou a romper o noivado e se casar com um homem rico. Mas a vida é uma ironia cruel. O homem rico dela acabou perdendo tudo, e ela se divorciou, sem nada.
Foi então que meu pai, cega por um amor antigo e uma compaixão mal-colocada, a acolheu. Ele a amava com uma intensidade que eu nunca entendi. Ele a via como uma rainha, mesmo que ela fosse uma traidora. Quando minha mãe morreu, o mundo do meu pai desabou. Ele se tornou um homem solitário, desamparado. E foi nesse momento de vulnerabilidade que Edite, agora divorciada e sem dinheiro, reapareceu na vida dele. Ela o seduziu novamente, usando sua beleza e seu passado compartilhado para se infiltrar em seu coração partido.
Eu fui testemunha de tudo. De como ela o manipulava, de como ela o transformava em um fantoche. Lenta e dolorosamente, Edite e Luna me roubaram tudo. Meu pai, minha casa, meu futuro. Elas me tiraram a única coisa que eu tinha: o amor incondicional do meu pai.
Um brilho atravessou os olhos de Luna. Ela acabara de conseguir sua carteira de motorista. Eu a vi se aproximar do meu pai, os passos leves e calculados. Ela era uma atriz nata.
"Pai, eu consegui! Mal posso esperar para ter um carro só meu", ela disse, a voz cheia de uma doçura forçada.
Fabrício a puxou para um abraço. "Parabéns, minha flor! É claro que você terá um carro. O que você quiser, meu amor."
Luna fingiu um rubor, mas eu vi a centelha de ganância em seus olhos. "Ah, pai, mas os carros novos são tão caros. E o carro da Marina... ele é tão bonito. E ela quase não usa."
Eu senti um arrepio na espinha. Era meu carro. O carro que meu pai me deu de presente pelos meus dezoito anos, um modelo antigo, mas restaurado com carinho. Era o último vestígio do pai que eu conhecia, do pai que me amava.
"É mesmo?", Fabrício disse, e se virou para mim, a voz sem emoção. "Marina, você cede seu carro para Luna? Ela precisa de um."
Eu apenas o encarei, o coração apertado. "Não, pai. Eu preciso do meu carro."
"Precisa para quê? Você só usa para ir e vir do trabalho no restaurante. E agora, nem isso. Luna precisa dele para ir para a faculdade, para seus compromissos sociais." Ele revirou os olhos. "Ou você quer que ela ande de ônibus?"
Eu ri, um som sem alegria. "E ela não tem o próprio pai para dar um carro a ela?"
A expressão de Fabrício endureceu. "Não seja insolente, Marina. Luna é minha filha agora."
Eu me lembrei daquele carro, de cada detalhe. O cheiro de couro novo, a música que tocávamos juntos em nossas viagens. Ele me deu as chaves com um sorriso tão largo e genuíno, dizendo que era para eu ir aonde meus sonhos me levassem. Agora, ele me pedia para entregar meu sonho a Luna.
"Não", eu disse, a voz firme. "Este carro é meu. Você me deu."
A raiva encheu os olhos de Fabrício. Ele não estava acostumado a ser desobedecido. Ele havia comprado Edite e Luna, e agora achava que podia me comprar também.
"Vou arrancar suas chaves da sua mão, se for preciso", ele ameaçou.
Eu não pisquei. "Não vai, pai. Porque eu não vou deixar."
Com um movimento rápido, eu tirei as chaves do meu bolso e as lancei no chão, fazendo-as deslizar pelo piso de mármore. O som metálico ecoou na sala, um desafio claro.
Fabrício soltou um rugido. "Você vai se arrepender disso, Marina!"
Ele chamou os seguranças, ordenou que trocassem as fechaduras do carro. E então, ele entregou as chaves para Luna. Eu o observei, impotente, enquanto Luna subia no meu carro, aquele que ele tinha me dado, a face iluminada por um sorriso de pura satisfação.
Eu juro que farei você se arrepender, Fabrício. Você e elas.
Naquele mesmo dia, um raio de sol escaldante atingiu a cidade. A temperatura disparou para níveis insuportáveis. Luna, em sua empolgação, ligou o carro e o deixou no sol, aberto, enquanto corria para buscar suas amigas. Ela esqueceu completamente de mim, do meu carro, do meu sofrimento.
O calor dentro do veículo subiu rapidamente, transformando o interior em um forno. Eu estava ali, ainda na casa, observando o carro no pátio. Eu ouvi quando Luna, depois de algumas horas, voltou para o carro. Ela entrou, mas a porta se trancou sozinha. Um defeito que eu havia reclamado para Fabrício há semanas, mas ele nunca se importou em consertar.
Luna gritou por ajuda, mas quem a ouviria? Fabrício e Edite estavam fora, em uma reunião. Eu a vi bater nos vidros, o desespero crescendo em seu rosto. O calor era insuportável. Ela começou a hiperventilar.
Minutos se arrastaram como horas. Eu a vi cair no banco do motorista, a inconsciência a dominando. Seu celular escorregou da mão dela, e caiu no chão, onde ela não conseguia mais alcançar. Eu podia ouvir seus últimos murmúrios. "Pai... pai..."
O telefone de Fabrício tocou. Era um dos seguranças, alertando-o sobre o incidente. Ele voltou para casa em pânico, o rosto pálido. Viu Luna desmaiada no carro. Ele quebrou a janela e a tirou de lá, o desespero estampado em cada movimento.
Quando Luna acordou, no quarto de repouso, Fabrício estava ao lado dela, os olhos cheios de lágrimas.
"Oh, pai", Luna sussurrou, a voz fraca mas melodiosa. "Eu não sei o que aconteceu. Acho que a culpa foi minha. Eu me esqueci das chaves e do calor. Eu não queria que Marina fosse castigada."
Fabrício se virou para mim, os olhos faiscando de uma fúria cega. "Ela tentou te matar, não foi? É isso mesmo que você está me dizendo?"
Eu senti meu corpo ser arrastado, as mãos firmes de Fabrício em meus braços. Ele não me deu chance de me explicar. Ele me arrastou pelo chão, seus olhos cheios de ódio.
"Você tentou matar sua própria irmã! Você é um monstro!"
Ele me jogou no chão, a força do impacto me deixando sem ar. Eu estava em choque, confusa, sem entender o que estava acontecendo. Ele me acusou de algo que eu nunca faria.
"Prendam-na! Amarrem-na! Ela não vai sair daqui até que aprenda a respeitar a família!"
Os seguranças me amarraram, meus gritos ecoando no estacionamento vazio. Eu não sabia por que, o que eu tinha feito.
Fabrício se ajoelhou na minha frente, seus olhos negros como carvão. "Você vai para o porta-malas. E só vai sair de lá quando pedir perdão por ter tentado matar Luna. E por me desobedecer."
Eu me debati, implorando, mas ele não me ouvia. Ele me jogou no porta-malas do meu próprio carro, o cheiro de couro e metal me sufocando.
"Por favor, pai! O calor! Eu não consigo respirar!"
Ele sorriu, um sorriso cruel que me congelou a alma. "Se não consegue respirar, é melhor pedir perdão logo. E não adianta gritar. Ninguém vai te ouvir."
Ele fechou o porta-malas. A escuridão me engoliu. O calor era insuportável. Eu senti meu corpo arder, meus pulmões se recusando a trabalhar. Eu gritei, gritei até minha voz falhar, até a escuridão me consumir.
E agora, aqui estou eu. Morta. Por quatro dias.
Meu corpo, preso naquele porta-malas, já devia estar em decomposição. Eu podia sentir o cheiro, mesmo como um fantasma. Eu podia ver o líquido escuro escorrendo pelas frestas do carro, atraindo insetos. O motorista do Fabrício, que passou por ali mais tarde, sentiu o cheiro, mas não disse nada. Ele apenas desviou o olhar, como se nada tivesse acontecido.
Eles me deixaram morrer por uma mentira, por um capricho, por um carro. Mas o inferno está apenas começando. E eu serei a guia de vocês.
Marina Germano POV:
A noite caiu, densa e sufocante, sobre a mansão. Léo, meu leal subchefe, movia-se como uma sombra furtiva pela cozinha, seus passos ecoando no silêncio espectral. Ele esperou até que Fabrício e Edite estivessem adormecidos, imersos em seu sono de falsa tranquilidade. Eu o observava, meu coração fantasma apertado por sua bondade.
Ele sabia que algo estava errado. Eu o sentia. Seu instinto de proteção, aquele que sempre o impulsionou a cuidar de mim no restaurante, agora o guiava para a escuridão da garagem. O ar na garagem era pesado, carregado com um cheiro estranho, um aroma adocicado e fúnebre que se infiltrava em cada fresta.
Léo parou, o nariz franzido. Ele sabia que aquele cheiro era familiar, mas seu cérebro ainda se recusava a aceitar o que seus sentidos lhe diziam. À medida que ele se aproximava do meu carro, o cheiro se intensificava, tornando-se nauseabundo, doce e metálico. Era o cheiro da morte.
Então ele viu. No chão, sob o porta-malas, uma mancha escura e viscosa se espalhava. E nas frestas do metal, pequenos pontos brancos se retorciam lentamente. Vermes.
Um arrepio percorreu a espinha de Léo. Ele sabia. Ele não precisava ver para saber. Uma sensação de pavor se apoderou dele, e seus olhos se arregalaram.
Não, Léo. Não olhe. Eu gritei, meu grito inaudível. Não quero que você veja isso.
Léo estava prestes a abrir o porta-malas, a mão estendida, hesitando. Ele sempre foi um homem bom, leal. Ele tentou me ajudar, eu sei. Ele tentou falar com Fabrício, tentou me defender, mas Fabrício era um tirano, e Léo era apenas um empregado. Seu poder era limitado.
Não, Léo. Por favor, não abra. Você vai se arrepender.
Ele hesitou por um momento, a mão tremendo. Seus olhos se moveram, como se tentassem me encontrar. E então, ele se virou. Não olhou para trás. A visão do que estava lá dentro seria demais para ele. Ele foi embora, a consciência pesada, a bondade ferida.
Na manhã seguinte, Fabrício Cordeiro estava radiante. Não havia nuvens em seu horizonte, apenas o sol de um dia perfeito. Ele tinha nas mãos uma caixa de presente cuidadosamente embrulhada, com um laço de fita dourada. Era o aniversário de Luna.
Ele a presenteou diante de todos, com um sorriso largo e vitorioso. Luna, seus olhos brilhando de antecipação, rasgou o papel com delicadeza calculada. Dentro, as chaves de um carro. Não qualquer carro. Um carro de luxo, mais caro, mais novo, mais reluzente que o meu.
"Pai, é lindo! Muito obrigada!" Luna exclamou, jogando-se nos braços de Fabrício.
Fabrício a apertou em seus braços. "Você merece, minha flor. Um carro novo, digno de você. Não um carro velho e problemático como o da Marina. Aquele carro já deu o que tinha que dar."
Luna pegou as chaves, um sorriso satisfeito em seus lábios. Ela sabia que tinha vencido. Eu a observei, o desgosto me corroendo. Ela era a personificação da vaidade e da crueldade.
Léo se aproximou, sua expressão neutra, mas seus olhos, eu podia sentir, carregavam um peso diferente.
"Senhor, eu sugiro que a Marina seja liberada", Léo disse, a voz controlada, mas com uma firmeza que surpreendeu Fabrício.
A expressão de Fabrício escureceu. "Léo, não se intrometa onde não é chamado. Eu sei o que estou fazendo."
"Senhor, eu acho que ela já pode estar... morta."
As palavras caíram na sala como pedras. Fabrício me olhou com raiva. Léo não o temeu. Ele havia sentido o cheiro. Ele havia visto os vermes. Ele sabia. O cheiro de podridão ainda estava em suas narinas. Léo teve que se controlar para não vomitar ali mesmo.
Luna, a atriz principal, rapidamente se recuperou. "Pai, Léo tem razão. É um absurdo! Como podemos deixá-la lá? E se ela morrer de verdade? Nós podemos ser responsabilizados." Ela forçou as palavras, mas eu podia sentir o medo em sua voz. Não por mim, mas pelas consequências.
Fabrício, mais uma vez, cedeu aos caprichos de sua filha. "Tudo bem, tudo bem! Liberem-na. Mas cortem todos os cartões dela. Ela vai ter que se virar sozinha. Aprender a valorizar o que tem."
Eu ri, um riso oco. "Valorizar o que eu tenho? Fabrício, tudo o que você tem veio da minha mãe. Você é um parasita, um assassino!"
Léo agiu rapidamente. Ele convocou os outros empregados. "Vamos! Abram o porta-malas!"
A garagem foi invadida pelo cheiro fétido. Os empregados, cobrindo o nariz, recuaram, alguns vomitando. O horror em seus rostos era evidente.
Fabrício e Edite chegaram, os rostos contorcidos de nojo. "O que é esse cheiro imundo? Léo, controle essa gente! E você, Marina, não podia ser mais imunda?"
"Não podia ser mais imunda?", eu repeti, a voz cheia de ódio. "Você me chama de imunda, Fabrício, enquanto meu corpo se decompõe no seu carro? Você é o monstro aqui!"
Fabrício, com nojo, deu a ordem. "Afastem esse carro! Mandem para um ferro-velho! Que nojo!"
Os empregados se entreolharam, apavorados. Eles sabiam que algo terrível havia acontecido.
"Não me obedeçam?", Fabrício gritou, sua voz cheia de ameaça. "Quem não abrir esse porta-malas agora está demitido!"
Com as mãos tremendo, os empregados abriram o porta-malas. A luz do dia revelou a cena. Um corpo. Meu corpo. Deformado pelo calor, consumido pela morte.
Aqui estou eu, Fabrício. Seu assassino. Seu carrasco. E a sua vida, a partir de agora, será o meu purgatório.