Uma bala atravessou a cabeça de Caroline Palmer, e sua vida acabou ali, sem mais nem menos.
Quando abriu os olhos novamente, a primeira coisa que ouviu foi a voz de sua mãe, Amanda Palmer.
"Carrie, Vivian, venham aqui, as duas."
Caroline sentiu o corpo todo travar.
Ela já tinha ouvido aquelas palavras antes. Exatamente aquelas.
Caroline ergueu o olhar. Viu diante de si a sala de estar que lhe era tão familiar.
Sua mãe estava sentada confortavelmente no sofá, com duas pastas abertas sobre a mesa de centro à sua frente.
Perto dali estava Vivian Hayes, sua meia-irmã, usando um vestido branco simples. Ela parecia magérrima, nada como a socialite glamorosa que Caroline se lembrava.
Ela havia renascido.
Um ano antes de sua morte.
Era o dia em que sua mãe as fez escolher com quem iriam se casar.
Naquela época, Vivian ainda não era casada com Braydon Lewis, e ela própria ainda não tinha se casado com Jacob Lloyd.
"Carrie?", Amanda olhou para ela com preocupação. "Por que você está aí parada desse jeito? Você ficou olhando para o nada o tempo todo. Venha, senta logo."
Com o rosto impassível, Caroline caminhou até o sofá.
As duas pastas estavam abertas sobre a mesa de centro.
O perfil de Braydon estava do lado esquerdo.
Ele era o chefe da família Lewis, com poder tanto na alta sociedade quanto no submundo. Herdeiro de uma fortuna, era conhecido por suas decisões rápidas e impiedosas.
A foto na pasta mostrava um homem de feições sérias e marcantes. Tinha os lábios finos, comprimidos numa linha dura, e um olhar de uma frieza que gelava a espinha.
Ao lado da pasta dele, estava a de Jacob.
Ele era o segundo filho da família Lloyd e, ao contrário de Braydon, tinha fama de ser gentil, refinado e culto. Contudo, tinha a saúde frágil desde criança e passou a maior parte da vida numa cadeira de rodas.
Na foto, ele tinha um leve sorriso no rosto. Seu olhar era tão doce que poderia derreter o coração de qualquer pessoa.
"Carrie, escolha primeiro", disse Amanda.
Olhando para aquelas duas pastas, Caroline não sentiu nada além de ironia.
Em sua vida anterior, sua mãe também tinha dito a ela para escolher primeiro.
Vivian era a filha que seu pai tivera com a amante.
Por anos, Vivian viveu na casa delas como a Cinderela.
Seu pai a mimava por culpa, enquanto Vivian sempre agia de forma obediente, não importava como fosse tratada. Por causa disso, Vivian recebia tudo de bom primeiro.
Até na hora de escolher um marido, ela teve a primeira opção.
Sua mãe sempre esperou que ela se casasse com Braydon, o homem mais poderoso da cidade.
Mas em sua vida anterior, ela teimosamente escolheu Jacob, mesmo que ele não pudesse andar.
Por três anos, ela ficou ao lado de Jacob durante sua fisioterapia. Procurou por toda parte por médicos renomados que pudessem tratá-lo.
Ela gastou quase todo o dinheiro que seus pais lhe deram. Durante o inverno, chegou a se ajoelhar na neve para implorar por uma receita médica.
Como a filha querida da família Palmer, ela tinha deixado seu orgulho de lado por Jacob.
Então, um dia, as pernas de Jacob se recuperaram milagrosamente.
Depois disso, todos em Praginia os invejavam e os chamavam de um casal perfeito.
Naquela época, ela realmente pensou que ele era sincero em cada promessa que fazia.
Jacob segurou sua mão e olhou para ela com um olhar sincero. "Carrie, não importa o que aconteça, eu não vou te trair."
Naquele momento, ela acreditou em cada palavra.
Não muito tempo depois, a família Lloyd entrou em crise. Seus fundos se esgotaram, as dívidas se acumularam e a falência se aproximava.
Jacob parecia exausto ao dizer: "Carrie, Braydon é a única pessoa que pode salvar a família Lloyd."
Por Jacob, ela se ajoelhou diante de Vivian, a mulher que um dia desprezara, e implorou que pedisse a ajuda de Braydon.
Pouco tempo depois, Vivian e Caroline foram sequestradas pelo inimigo de Braydon.
O homem pressionou uma arma contra a têmpora de Caroline e exigiu saber qual delas era a esposa de Braydon.
Para sobreviver, Vivian mentiu, dizendo que Caroline era a esposa de Braydon.
Então Jacob chegou. No segundo em que Caroline o viu, um alívio imenso tomou conta de seu peito.
Ela acreditava que Jacob lhes contaria a verdade e deixaria claro quem ela realmente era.
Uma onda de esperança a invadiu, tão forte que a fez perder o controle. Ela gritou o nome dele.
"Ela não é a senhora Lewis", disse Jacob, olhando para o sequestrador. "A mulher ao lado dela é."
A pessoa que Jacob estava protegendo era Vivian.
Caroline o observou se mover em direção a Vivian sem hesitar. A culpa era visível em seu rosto enquanto ele baixava a voz e dizia: "Sinto muito, Carrie. Você sempre teve tudo. Vivian só tem a mim."
Foi só isso. Apenas um pedido de desculpas. Tudo o que Caroline havia feito por ele foi reduzido a nada por causa daquelas poucas palavras.
Foi só no momento de sua morte que ela entendeu a verdade que se recusara a ver.
A mulher que Jacob amava desde o início era Vivian.
Ele uma vez prometeu que nunca a decepcionaria. Que piada. A tola tinha sido ela o tempo todo.
"Carrie?" A voz de Amanda a tirou de seus pensamentos. "Já se decidiu?"
Caroline levantou a cabeça lentamente.
Vivian estava por perto e olhou para ela com um ar tímido. "Pode escolher primeiro. Não tenho pressa."
Foram exatamente as mesmas palavras que Vivian usou em sua vida passada.
Naquela época, Caroline escolheu Jacob. Isso deixou Braydon para Vivian.
Mais tarde, Caroline descobriu a verdade: Vivian queria Braydon desde o início.
Antes mesmo do dia da escolha, Vivian não parava de contar a ela todo tipo de absurdo sobre ele.
Ela se afastou de propósito e deixou Caroline ficar com Jacob para que ela mesma pudesse ficar com o homem que desejava.
Caroline encarou o rosto bonito de Vivian e deu uma risada fria.
Se não tivesse passado por aquela vida extra, ela provavelmente teria caído no teatro de inocência de Vivian.
Ela pressionou a mão contra a pasta do lado esquerdo. "Eu escolho ele."
O silêncio se espalhou pela sala de estar.
O sorriso no rosto de Vivian quase se desfez.
Até sua mãe parecia pega de surpresa. "Carrie, você está falando sério?"
Ainda na noite anterior, Caroline estava chorando por Jacob, insistindo que queria se casar com ele de qualquer jeito. E agora, estava escolhendo Braydon.
"Eu já decidi." O tom de Caroline permaneceu impassível. "Vou me casar com Braydon."
O choque brilhou no rosto de Vivian antes que ela se forçasse a sorrir. "Por que você o escolheu de repente? Você não estava dizendo antes que Jacob era gentil e atencioso?"
"Isso foi antes", disse Caroline, seca. "A saúde de Jacob é um desastre, e eu não quero passar minha vida cuidando de um doente o dia todo."
"Casamento não é um jogo. Não seja impulsiva", disse Vivian com falsa preocupação.
"Não estou sendo impulsiva", Caroline se levantou e encarou Vivian diretamente. "Você sempre foi tão atenciosa, não é? Jacob precisa de alguém paciente o suficiente para cuidar dele. Sinceramente, vocês dois parecem perfeitos juntos."
O sangue sumiu do rosto de Vivian. "Como você pôde dizer isso?"
"O quê?" Um sorriso frio tocou os lábios de Caroline. "Não me diga que de repente você não o quer mais. Ou você estava esperando que eu ficasse com Jacob para que você pudesse ter Braydon para si?"
As palavras a atingiram em cheio. A expressão de Vivian ficou lívida.
"Eu não estava pensando nisso de forma alguma..." Os olhos de Vivian avermelharam-se instantaneamente. Sua voz saiu trêmula e magoada. "Eu só estava preocupada que você se arrependesse disso mais tarde..."
"Já chega", interveio Amanda, massageando a têmpora. "Carrie já fez sua escolha. Vivian, você se casará com Jacob."
"Mas eu..."
Caroline ergueu uma sobrancelha. "Mas o quê? Você não acabou de dizer que Jacob era um homem tão maravilhoso? Você deveria estar feliz."
Vivian não conseguiu dizer mais nenhuma palavra.
Um homem maravilhoso?
Todos em Praginia sabiam que Jacob tinha mobilidade reduzida.
Ninguém na família Lloyd o levava a sério. Ele era doentio e frágil.
Se se casasse com ele, acabaria viúva mais cedo ou mais tarde.
Em comparação, Braydon era o homem mais poderoso da cidade.
Caroline costumava só ter olhos para Jacob. Por que ela escolheu Braydon de repente?
Ainda assim, a decisão já havia sido tomada.
Vivian pressionou os lábios com força.
Não importava.
Mesmo que não pudesse se casar com Braydon, ela sabia que Jacob tinha sentimentos por ela.
Assim que se casasse com Jacob, se tornaria parte da família Lloyd. De qualquer forma, seu futuro seria definitivamente melhor que o de Caroline.
Afinal, o nome de Braydon podia ter poder em toda Praginia, mas todos sabiam o quanto ele era aterrorizante.
As pessoas em seu círculo social frequentemente falavam dele em segredo. Diziam que Braydon era implacável. O tipo de homem que poderia destruir alguém sem nem piscar.
Se ele decidisse lidar com alguém, essa pessoa provavelmente nem saberia o que a matou.
Caroline deu uma olhada no rosto de Vivian e adivinhou imediatamente o que ela estava pensando.
Um sorriso zombeteiro repuxou seus lábios.
Vivian realmente achava que se casar com Jacob lhe daria uma vida melhor?
Que piada.
Ficar com Jacob só arrastaria Vivian para algo muito pior.
Na sala reservada do Clube Allure, a fumaça densa pairava no ar.
Jared Willis, amigo de Braydon, estava largado no sofá, balançando o vinho na taça.
"Braydon, você vai se casar com Caroline de verdade?"
Enquanto isso, recostado no sofá de couro, Braydon segurava um cigarro entre os dedos.
Jared continuou: "Já procurei saber sobre ela. Ela é uma garota mimada, esquentada e sempre arranja problemas. Outro dia, ela brigou com alguém por causa de Jacob, e a cidade inteira está comentando sobre isso. Sinceramente, Vivian parece ser a melhor opção. Sim, ela pode até ser uma filha ilegítima, mas é obediente, discreta e não é feia. Sem dramas, sem aborrecimentos. Se casar com alguém assim, a vida ficaria mais fácil."
"Vida fácil? Isso só quer dizer que ela é entediante", respondeu Braydon friamente.
"Pelo visto, você quer alguém que dê uma agitada nas coisas."
Após apagar o cigarro no cinzeiro, Braydon disse: "Já decidi. Será Caroline."
"Todo mundo sabe que ela é apaixonada por Jacob. E mesmo assim você vai se casar com ela? Isso é uma vergonha."
"Eu disse que vou me casar com ela, e como farei isso é problema meu."
Jared ficou desconfortável com essa resposta, o fazendo perguntar: "O que está pensando em fazer? Não faça nenhuma besteira. Os Palmers são pessoas respeitadas, e Caroline foi criada como uma princesa. Se você tratá-la como uma das suas namoradinhas, estará passando dos limites."
Sem responder, Braydon se levantou e saiu.
Ainda sentado, Jared gritou atrás dele: "Pelo menos me avise. Braydon! Está me ouvindo?"
Logo, a notícia de que as irmãs Palmer iriam se casar se espalhou por Praginia.
Três dias depois, Caroline recebeu uma certidão de casamento junto com uma foto.
Na foto, ela estava sentada ao lado de Braydon. Enquanto o sorriso dela parecia forçado, ele mantinha uma expressão vazia.
No entanto, o casamento nem sequer havia acontecido.
A família Lewis a fez tirar a foto sozinha, depois colocou Braydon na foto e a usou como prova de um suposto casamento para solicitar a certidão.
Todo o processo foi concluído em menos de duas horas.
Segurando firmemente a certidão, Caroline mantinha os olhos fixos na foto de casamento mal-feita.
De repente, sua mente voltou à sua vida anterior, quando Vivian se tornou esposa de Braydon e a família Lewis organizou uma grande festa que durou três dias, atraindo toda a elite da cidade.
Naquele dia, Vivian usava um vestido feito sob medida, caminhando ao lado de Braydon por um corredor luxuoso enquanto todos observavam com admiração.
Agora que era a sua vez de ser a noiva, tudo o que havia recebido foi uma imagem falsa.
No entanto, ela sabia bem o motivo por trás disso.
Em Praginia, todo mundo achava que ela era perdidamente apaixonada por Jacob, e esse boato já havia manchado o nome da família Lewis.
Por isso, Braydon decidiu humilhá-la em retribuição.
Já na sua vida anterior, como Vivian não era uma filha legítima, Braydon havia organizado um casamento extravagante para elevar seu status.
Essa atitude garantiu que ninguém ousasse zombar de Vivian por suas origens novamente.
No fim das contas, tudo se resumia a preservar a imagem da família Lewis.
Obviamente, o amor não tinha nada a ver com isso, já que o casamento existia apenas como um acordo calculado.
Na verdade, Caroline não se importava com a forma como Braydon a tratava.
O que importava para ela era bem simples: ela queria o poder e o alcance que o nome Lewis proporcionava.
Enquanto isso, a situação de Vivian não era muito melhor.
Como Jacob estava muito debilitado, ele nem sequer apareceu no cartório, e o registro do casamento deles foi igualmente sem graça.
Logo, a noite caiu.
Caroline chegou à entrada da mansão dos Lewis carregando sua mala.
De repente, uma chuva leve começou a cair, mas o portão diante dela permanecia firmemente fechado.
Não havia nenhum clima festivo no local, e nem sequer houve um casamento.
Para evitar chamar a atenção, a família Lewis pediu que ela viesse sozinha e se acomodasse discretamente.
Parado no portão, o mordomo a olhou com indiferença. "Você é a esposa recém-casada do senhor Lewis?"
"Sim. Vim vê-lo."
"O senhor Lewis não quer te ver."
Ao ouvir isso, Caroline arqueou ligeiramente uma sobrancelha, perguntando: "Ele não quer me ver? Então onde ele quer que eu fique?"
Enquanto estendia um guarda-chuva, o mordomo explicou: "O senhor Lewis quer que você volte para a casa dos Palmer por enquanto. Se ele decidir te ver, alguém irá te buscar."
Caroline pegou o guarda-chuva, mas permaneceu parada.
Ao olhá-lo, uma risada abafada escapou dela. "Então a família Lewis me chamou aqui e agora está me mandando embora? Você acha mesmo que isso é engraçado?"
Sem se deixar abalar, o mordomo respondeu: "O senhor Lewis não quis dizer isso."
Devolvendo o guarda-chuva para ele, Caroline disse: "Volte e diga a ele que vou entrar esta noite, não importa o que aconteça."
"O senhor Lewis deixou claro. Se você se recusar a ir embora, poderá esperar lá fora, mas ele não vai te ver."
Ao ouvir isso, Caroline assentiu com a cabeça.
Ela já sabia o quanto Braydon podia ser teimoso.
Ele achava que poderia mantê-la do lado de fora? Mas ela não pretendia colaborar com isso.
Sem dizer mais nenhuma palavra, Caroline foi até o portão, tirou os saltos e se agarrou às barras de ferro antes de subir.
O mordomo ficou chocado, perdendo sua compostura instantaneamente.
Imediatamente, o sistema de alarme começou a tocar sem parar, mas Caroline continuou subindo sem nem sequer olhar para trás.
Vários guardas correram até lá, mas pararam no momento em que a reconheceram.
Incertos, nenhum deles se atreveu a agir.
Ela não deveria ser a filha refinada da família Palmer? Como ela foi parar escalando um portão assim?
"Senhora, o que está fazendo?"
"Sou a esposa de Braydon agora. Estou entrando na minha própria casa. Quem ousa me impedir?"
Ao dizer isso, os olhos de Caroline percorreram todos à sua frente.
Apesar do aviso, nenhum guarda se aproximou para interferir.
Assim, ela pegou seus saltos e entrou na casa.
A casa era imensa. Embora as luzes iluminassem a sala de estar, o local estava completamente vazio.
Após parar no meio da sala, ela olhou em volta e depois foi em direção à escada.
De repente, quando ela chegou ao primeiro degrau, uma voz rompeu o silêncio:
"Pare aí mesmo."
O tom carregava uma frieza intensa.
Erguendo o olhar, Caroline o viu.
Braydon estava apoiado no corrimão do segundo andar.
Ele usava um roupão preto folgado, com a gola aberta, e seus cabelos úmidos estavam grudados na testa.
De lá do alto, ele a olhava com uma leve carranca. "Quem te deu permissão para entrar?"
"Eu mesma." Após deixar sua mala de lado, Caroline o encarou calmamente, perguntando: "Braydon, estamos casados agora. Onde espera que eu durma?"
Ao ouvi-la, os olhos de Braydon se estreitaram.
Nesse momento, o mordomo e vários guardas entraram correndo.
Nervosamente, o mordomo disse: "Me desculpe, senhor Lewis! Sua esposa pulou o portão para entrar. Tentamos impedi-la, mas não conseguimos."
"Ela pulou o portão?", Braydon pensou.
Então, o olhar de Braydon se desviou para as pernas de Caroline.
Um vestido branco curto estava colado nela, e seus saltos estavam sujos de terra, e a lama se espalhava pelas suas pernas. Nada na sua aparência correspondia à de uma jovem refinada.
Então, Braydon desceu as escadas e parou na frente dela. Quando ele ergueu a mão, o mordomo e os guardas se retiraram rapidamente, os deixando a sós.
Estando tão perto dele, Caroline pôde sentir o leve cheiro de álcool misturado com tabaco.
Olhando para ela, Braydon soltou uma risada baixa, que a fez se arrepiar de desconforto.
"Caroline", ele disse em voz baixa, "você realmente acha que é minha esposa agora?"
Sem se deixar intimidar, Caroline se recusou a recuar. Olhando nos olhos dele, ela respondeu lentamente, com convicção: "Estamos casados legalmente, então sou sua esposa."
Ao ouvi-la, Braydon arqueou ligeiramente uma sobrancelha.
"Tudo bem", disse ele, colocando sua taça sobre a mesa. "Então me diga uma coisa. Como minha esposa, onde você deveria passar a noite?"
De repente, um sorriso surgiu no rosto de Caroline.
Se virando, ela foi até o sofá e se sentou, respondendo:
"Aqui mesmo."
Essa resposta pegou Braydon desprevenido, o fazendo parar por um momento para processar.
Se recostando no sofá, Caroline jogou seus saltos sujos no lixo próximo, declarando: "Já que você não vai me deixar ir para o seu quarto, vou dormir aqui. Não importa onde eu fique, ainda serei sua esposa. Seja aqui ou em qualquer outro lugar, isso não mudará."
Por um momento, um silêncio absoluto tomou conta da sala de estar.
Braydon manteve o olhar em Caroline, com uma expressão indecifrável nos olhos.
Ele achava que ela seria uma garota mimada, alguém que teve tudo a vida inteira e nunca passou pela menor dificuldade. Ele havia negado a ela uma cerimônia de casamento, cancelado as fotos e a trancado do lado de fora no primeiro dia de seu matrimônio.
Ao invés de desmoronar, surtar ou fazer uma cena, Caroline não procurou a família Palmer para pedir apoio.
Pelo contrário, ela simplesmente se jogou no sofá e se acomodou como se pretendesse ficar ali para sempre.
Essa atitude dela foi o suficiente para despertar o interesse dele.
Erguendo a cabeça, Caroline o encarou: "Braydon, eu sei que você não gosta de mim. Mesmo assim, estamos legalmente casados agora, então nossas vidas estão conectadas. Se não quer aceitar isso, tudo bem. Eu vou ficar bem aqui e esperar. Se você me rejeitar por um dia, esperarei por um dia. Se for por um ano, esperarei por um ano."
"Aceitar o quê?"
"Que eu sou sua esposa."
Ao ouvi-la, Braydon soltou uma risada enquanto a olhava.
"Está bem", ele disse num tom casual. "Então vá em frente e espere."
Sem dizer mais nada, ele se virou e subiu as escadas.
Sozinha na sala de estar, Caroline abriu um leve sorriso.
Na verdade, ela não estava apenas esperando, mas sim fazendo uma aposta.
Pelo que se lembrava de sua vida anterior, ela conhecia Braydon bem demais.
Ele não cedia à pressão e as súplicas não significavam nada para ele. A única coisa que o intrigava era a curiosidade.
Desde que ela conseguisse despertar o interesse dele, mesmo que minimamente, ele começaria a prestar atenção nela.
Quando isso acontecesse, ela teria a chance de mudar tudo.
No andar de cima, Braydon abriu a porta do quarto.
Jared estava deitado na cama, absorto em seu celular. No momento em que notou Braydon, ele se levantou de um pulo. "E aí? Aquela mulher fez algum escândalo?"
Sem responder, Braydon se aproximou e se sentou no sofá ao lado da cama, depois se serviu de um copo de uísque.
Inclinando-se com curiosidade, Jared perguntou: "Ela chorou? Ligou para a família para reclamar?"
"Não."
"O que ela está fazendo?"
Braydon ergueu o copo e tomou um gole lento. "Está lá embaixo, sentada no sofá."
"Só isso?"
"Sim."
"Então ela está só sentada lá sem fazer nada?"
Ao ser questionado, um sorriso sutil se formou nos lábios de Braydon. "Ela está esperando que eu a aceite como minha esposa."
Logo, a manhã chegou.
Caroline passou a noite inteira naquele sofá.
Apesar da sala de estar ser espaçosa e do sofá parecer confortável, ainda não se comparava a uma cama de verdade.
Ao acordar, ela sentiu uma leve rigidez no pescoço.
Após se sentar e massagear o local dolorido, ela notou um copo de leite morno e um sanduíche arrumado na mesa.
Por um breve momento, ela hesitou.
De pé por perto, o mordomo se aproximou assim que a viu acordada, falando num tom mais respeitoso do que antes: "Senhora, o senhor Lewis providenciou o café da manhã para você."
Ao ouvi-lo, a sobrancelha de Caroline se arqueou ligeiramente. "Ele mesmo providenciou?"
"Sim."
Estendendo a mão, Caroline pegou o leite e tomou um gole, notando que a temperatura estava perfeita.
Um leve sorriso tocou seus lábios, mas ela não disse nada.
No andar de cima, Braydon estava parado junto à janela do escritório, observando os funcionários se moverem enquanto limpavam o jardim lá embaixo.
A porta se abriu e Jared entrou, depois foi para o lado dele e olhou para baixo. "Então ela realmente ficou? Achei que ela só estava fazendo cena ontem à noite."
Braydon não respondeu.
Jared continuou a tagarelar: "Ela tem muita paciência. A maioria das mulheres já teria desmoronado e voltado correndo para casa depois de ser obrigada a dormir no sofá na primeira noite de casamento."
Afastando-se da janela, Braydon caminhou e sentou-se em sua mesa. "Isso não é paciência."
"Então como você chama isso?"
"Ela é esperta."
"Esperta? Como isso pode ser considerado esperteza?"
Ao invés de responder, Braydon permaneceu em silêncio, folheando os papéis que estavam na sua mão.
O arquivo que ele estava lendo continha os dados pessoais de Caroline.
Caroline era uma mulher inteligente. Ela sabia que as lágrimas não mudariam nada e que as reclamações seriam em vão, então escolheu uma abordagem completamente diferente.
Após tomar o café da manhã, Caroline pegou sua mala e subiu as escadas sem hesitar.
O mordomo fez menção de bloquear seu caminho, mas se conteve e a seguiu, dizendo: "Senhora, o escritório do senhor Lewis fica no lado leste do segundo andar. Por favor, tome cuidado para não ir na direção errada..."
"Onde é o meu quarto?"
O mordomo hesitou por um momento antes de apontar para uma porta no final do corredor, respondendo: "Aquele é o quarto do senhor Lewis. O quarto ao lado é para hóspedes."
Sem dizer nada, Caroline foi até lá e abriu a porta do quarto de hóspedes.
O espaço parecia completo, com mobília, embora tivesse um ar intocado de um quarto que ninguém jamais usara.
Após colocar a mala no chão e abri-la, ela começou a tirar suas roupas, as arrumando no guarda-roupa como se pertencesse àquele lugar.
Parado na porta, o mordomo parecia hesitante, como se as palavras estivessem presas na sua garganta.
Sem sequer olhar para trás, Caroline disse: "Se tem algo a dizer, diga."
"Senhora, o senhor Lewis tem um temperamento bem difícil. Se precisar de algo, talvez seja melhor falar comigo primeiro."
Se virando, Caroline o encarou. "Então me deixe te perguntar uma coisa. Ele vai me aceitar como sua esposa?"
A pergunta o deixou sem palavras.
"Se ele não vai, então qual é o sentido de falar com você?"
Sem saber o que responder, o mordomo ficou ali, parado.
Voltando à sua tarefa, Caroline continuou a pendurar suas roupas, dizendo num tom leve e despreocupado: "Não se preocupe. Não estou aqui para causar problemas. Vou viver minha vida normalmente. Quando estiver com fome, vou comer. Quando estiver cansada, vou dormir. Ele pode agir como se eu não existisse, e eu farei o mesmo."
Ao meio-dia, Caroline desceu para almoçar.
A sala de jantar era ampla e, embora estivesse sentada sozinha, a mesa estava posta com uma refeição elaborada.
Assim que terminou de comer, ela voltou para o quarto e tirou uma soneca.
Mais tarde, ela passeou pelo jardim e passou um tempo conversando com o jardineiro, aprendendo sobre as diferentes variedades de rosas.
Quando a hora do jantar chegou, Braydon não estava em lugar nenhum.
Sem questionar, Caroline comeu em silêncio e voltou para o quarto depois.
O segundo dia passou da mesma forma, e nada mudou no terceiro.
No quarto dia, Jared finalmente explodiu:
"Sério, isso está me enlouquecendo!", ele exclamou. "Estou aqui há quatro dias e não tem nenhuma emoção! Tudo o que vejo é aquela mulher passeando pelo jardim como se fosse sua rotina diária!"
Braydon levou a mão à têmpora, a massageando levemente.
Nem ele esperava que Caroline fosse manter isso por tanto tempo.
Nesses dias, ela não tentou procurá-lo nenhuma vez.
"Peça ao mordomo para trazê-la ao escritório", ele ordenou.
Se as coisas se arrastassem mais, ele imaginou que Jared poderia acabar se instalando ali por um bom tempo.
Naquele momento, Caroline estava do lado de fora conversando com o velho jardineiro quando o mordomo se aproximou apressado. "Senhora, o senhor Lewis gostaria de vê-la no escritório dele."
Caroline ergueu o olhar. "Agora?"
"Sim."
"Está bem."
Ajeitando seu vestido, Caroline o seguiu para dentro.
Quando chegaram ao escritório no andar de cima, o mordomo bateu levemente na porta.
"Entre", a voz de Braydon soou de dentro.
Abrindo a porta, o mordomo se afastou para deixar Caroline passar.
O escritório era espaçoso, com uma grande escrivaninha posicionada em frente a altas janelas que iam do chão ao teto.
Sentado atrás dela, Braydon segurava uma caneta enquanto revisava alguns documentos.
Caroline parou na entrada ao invés de avançar.
Sem levantar a cabeça, Braydon disse: "Venha aqui."
Caroline se aproximou e parou do outro lado da mesa.
Deixando a caneta de lado, Braydon finalmente ergueu a cabeça e olhou para ela.
Um vestido azul-claro realçava sua silhueta, e seus longos cabelos caíam naturalmente sobre os ombros. Sem maquiagem, ela parecia simples, mas impressionante.
Comparada à última vez que a vira, ela parecia um pouco mais magra.
Braydon perguntou: "Está se adaptando bem?"
Caroline assentiu. "Está tudo bem."
"Sem lágrimas?"
"Nenhuma."
"Nem reclamações?"
"Nenhuma."
Com os olhos fixos nela, Braydon a observou em silêncio antes de perguntar: "Você tem alguma ideia do que as pessoas estão dizendo sobre você agora?"
Caroline balançou a cabeça levemente. "Não."
"Estão dizendo que você foi rejeitada por mim na primeira noite de casamento, passou a noite no sofá e ainda assim escolheu ficar, fazendo um papel de boba completo."
Depois de ouvir tudo aquilo, Caroline apenas deu um leve sorriso. "Entendo."
"Só isso? É tudo o que tem a dizer?"
"O que mais eu deveria dizer?", Caroline respondeu, o encarando. "Se eu me importasse com esses boatos, não teria me casado com você."
Por um momento, Braydon apenas a encarou antes de soltar uma risada baixa.
Ele se levantou, contornou a mesa e parou bem na frente dela.
Ao se erguer sobre ela, sua altura tornava sua presença avassaladora.
Naquele momento, ela não pôde deixar de pensar que a reputação dele não era nenhum exagero. Ele governava Praginia com uma influência incomparável e transitava sem esforço entre os dois lados da lei, sendo um homem que todos temiam.
Ele perguntou em voz baixa: "Caroline, o que você realmente quer?"
Caroline o encarou. "Eu quero que você me aceite como sua esposa."