Meu noivo, Heitor, casou-se com minha melhor amiga, Dominique, em Las Vegas. Esta noite. Apenas algumas horas antes da nossa luxuosa festa de noivado começar.
Eles anunciaram para nossas famílias e amigos, chamando de um "erro de bêbado". Dominique, agarrada ao braço dele, exibia um anel barato e um sorriso triunfante.
Ela então propôs um jogo de pôquer de apostas altas para "comemorar", uma piada cruel projetada para me humilhar ainda mais.
Heitor, meu noivo há anos, ficou ao lado dela. Ele até me forçou a entregar a pulseira da minha avó quando perdi uma mão, jogando a preciosa herança numa poça de champanhe.
Ele me disse que era só um jogo, que a pulseira não significava nada.
Mas eles não conheciam meu segredo. Eu cresci no cenário do pôquer clandestino. Eles achavam que estavam jogando com uma noiva frágil.
Eles estavam prestes a perder tudo para uma tubarão.
Capítulo 1
(Ponto de Vista de Abigaíl)
Meu noivo, Heitor, casou-se com Dominique em Las Vegas. Não na próxima semana, não no próximo mês. Esta noite. Horas antes da nossa luxuosa festa de noivado começar.
As palavras me atingiram como um soco. Não uma metáfora, mas um golpe real no estômago, roubando o ar dos meus pulmões. Eu cambaleei.
"Foi só uma brincadeira, Abigaíl. Um erro de bêbado", disse Heitor, sua voz vazia, seus olhos evitando os meus.
Ele estava ali, lindo e irritante, parecendo tão casual em seu terno sob medida. Dominique, sua "melhor amiga", estava ao seu lado. Ela usava um vestido justo e brilhante. Seu braço estava entrelaçado no dele.
Dominique apenas sorriu, um sorriso doce, doentiamente doce, que não alcançava seus olhos. Ela levantou a mão. Um anel barato e cafona brilhava em seu dedo esquerdo.
"Que brincadeira", consegui engasgar. Minha voz parecia uma lixa. Era quase um sussurro.
Dominique riu. Um som alto e agudo que cortou o silêncio do salão de festas. Os convidados tentavam fingir que não tinham ouvido.
"Ah, Abigaíl, não seja tão dramática", ela ronronou. Ela apertou o braço de Heitor. "É só um pedaço de papel, não é, querido?"
Heitor se encolheu. Ele não olhou para mim. Ele olhou para Dominique.
Minha visão embaçou. Os lustres de cristal acima de nós pareciam girar.
"Um pedaço de papel?" Minha voz estava subindo agora. Eu podia sentir o calor em minhas bochechas. "Tínhamos uma festa de noivado planejada. Nossas famílias estão aqui."
Dominique revirou os olhos. "Não é como se fosse de verdade. Certo, Heitor?"
Ela olhou para ele, seus olhos grandes e inocentes. Uma atuação perfeita.
Heitor finalmente encontrou meu olhar. Seus olhos estavam frios, distantes. "Ela está certa, Abigaíl. Não significa nada."
Ele deu de ombros. Um gesto casual, desdenhoso. Como se meus sentimentos fossem um pequeno inconveniente.
"Não significa nada?" O salão parecia estar encolhendo. O ar estava pesado. "Depois de tudo?"
Dominique riu de novo. Desta vez, estava cheia de pura malícia.
"Deveríamos comemorar!" ela anunciou para o salão. Sua voz estava alta demais. "Um casamento relâmpago em Vegas é motivo para festa, não é?"
Ninguém ousou responder. O silêncio era ensurdecedor, exceto pelo tilintar de copos vindo do bar.
Ela olhou ao redor, seu olhar demorando em mim. "Vamos tornar isso mais interessante. Um jogo de pôquer. Apostas altíssimas. Por minha conta."
Um jogo de pôquer? Aqui? Agora? Meu coração martelava contra minhas costelas.
Eu a encarei. Seus olhos brilhavam. Ela não estava pedindo. Estava exigindo.
Os convidados se mexeram desconfortavelmente. Eles evitaram meu olhar. Não queriam se envolver.
Senti um pavor gelado se infiltrar em meus ossos. Isso não era sobre um jogo. Era sobre outra coisa.
Era sobre ela. Sobre eles. Sobre me humilhar.
Um pensamento silencioso e perigoso se formou em minha mente. Um plano. Um lampejo de algo que eu pensei ter enterrado há muito tempo.
"Eu jogo", eu disse. Minha voz estava surpreendentemente firme.
A cabeça de Heitor virou bruscamente em minha direção. Seus olhos se arregalaram.
"Abigaíl, não seja ridícula", ele disse. Seu tom era ríspido. "Você não joga pôquer."
Ele estendeu a mão para o meu braço. Seus dedos roçaram minha manga.
Eu recuei. Seu toque parecia uma marca de ferro. Queimava.
"Ah, eu jogo", eu disse, minha voz baixa e carregada de um sarcasmo que eu não sabia que possuía. "Especialmente quando as apostas são tão altas. Ou você achou que eu ia simplesmente me curvar para você e sua... esposa?"
A palavra 'esposa' pairou no ar, um dardo envenenado.
O rosto de Heitor escureceu. "Ela não é minha esposa, Abigaíl! Foi um erro de bêbado! Exatamente como eu disse!"
Ele praticamente cuspiu as palavras. Sua mandíbula estava cerrada.
Um erro de bêbado. Essa era sua desculpa padrão para cada limite que ele já havia cruzado com Dominique. Cada noite até tarde, cada promessa esquecida, cada vez que ele me fez sentir como um segundo plano.
Eu olhei para ele. Olhei de verdade. Os anos de mágoa silenciosa, os pequenos cortes que lentamente me sangraram. As vezes em que ele desconsiderou meus sentimentos, ignorou minhas preocupações, sempre colocando Dominique em primeiro lugar. Sempre.
Ele sempre segurava a mão dela por tempo demais, ria das piadas dela alto demais, a defendia com ferocidade demais. Sempre.
Dominique, enquanto isso, se pressionou mais perto de Heitor. Ela passou o braço por cima do ombro dele, seus dedos traçando a linha de sua mandíbula. Ela olhou para mim, um brilho triunfante em seus olhos. Era uma mensagem clara. Ele é meu.
"Ah, Biga", Dominique arrastou as palavras, sua fala embolada. Ela se apoiou em Heitor, a cabeça em seu ombro. "Eu sinto muito. De verdade. Nós só... nos deixamos levar pelo momento. Las Vegas, sabe como é?"
Ela levantou sua taça. Estava quase vazia. Ela balançou um pouco.
"Só um pouco de champanhe a mais", ela acrescentou, dando um gole grande e teatral. "Não é, Heitor?"
Heitor olhou para ela, depois de volta para mim. Um lampejo de algo - pena? Culpa? - cruzou seu rosto.
"Ela não quis fazer mal, Abigaíl", ele disse, sua voz mais suave agora. Suplicante. "Ela só se empolga às vezes."
Ele olhou para mim, tentando me fazer entender. Me fazer perdoar.
Eu quase ri. Esse ciclo sem fim. Ela aprontando, ele a protegendo, eu sendo a compreensiva. Não esta noite.
"Claro que não", eu disse, minha voz pingando uma doçura falsa. "Mal nenhum. Apenas... uma certidão de casamento."
Meus olhos encontraram Darlan Glover, amigo de Heitor. Ele parecia desconfortável, seu olhar compassivo. Ele ofereceu um pequeno encolher de ombros, pedindo desculpas. Até ele sabia que isso era uma farsa.
Heitor enrijeceu. Ele puxou Dominique para mais perto. Uma declaração silenciosa.
"Certo, pessoal!" Dominique bateu palmas, forçando um sorriso. "Não vamos nos prender a trivialidades. É uma festa! E esta noite, jogamos com apostas de verdade!"
Algumas risadas nervosas ondularam pela sala.
Darlan, sempre o pacificador, deu um passo à frente. "Tudo bem, Domi, quais são as regras para este jogo de 'apostas altas'?"
Dominique sorriu radiante. Ela amava ser o centro das atenções.
"Simples!" ela chilreou. "Cada jogador coloca algo de valor pessoal significativo. O vencedor leva tudo. E se você perder tudo, está fora. O último de pé ganha o pote!" Ela fez uma pausa, seus olhos se estreitando em mim. "E para a Abigaíl", ela acrescentou, um toque cruel em sua boca, "já que ela é tão nova em nossos joguinhos, vamos tornar isso extra especial. Toda vez que ela perder uma mão, ela tem que tomar uma dose de... o que eu escolher."
Um silêncio caiu sobre o salão novamente. Aquilo não era apenas uma brincadeira. Era um ataque direto.
Alguém sussurrou: "Isso não é justo."
Heitor franziu a testa. "Dominique, talvez isso seja um pouco demais."
"Ah, Heitor, não seja um estraga-prazeres", Dominique fez beicinho. Ela beliscou sua bochecha. "É tudo brincadeira! Além disso, a Abigaíl concordou em jogar, não foi?"
Ela olhou para mim, seu olhar desafiador.
"Concordei", eu confirmei. Minha voz estava calma. Inabalável.
Mais alguns jogadores se aproximaram hesitantemente da mesa, intrigados pelo drama crescente.
Uma mulher, conhecida por suas joias extravagantes, colocou um colar de diamantes na mesa. Ele brilhava sob as luzes.
"Meu amuleto da sorte", ela anunciou com uma risada nervosa.
Outro homem, um magnata da tecnologia, colocou as chaves de seu carro esportivo antigo. As apostas estavam de fato subindo.
Então, Heitor, com um floreio, tirou uma pequena caixa de veludo do bolso. Ele a abriu. Dentro, aninhado em cetim, estava o relógio de bolso antigo que eu lhe dera em nosso primeiro aniversário. Era uma herança de família, passada por gerações. Eu passei meses rastreando-o.
"Meu relógio da sorte", ele disse, evitando meus olhos. Ele o colocou ao lado do colar de diamantes. Meu estômago revirou.
Dominique deu uma risadinha. Ela se inclinou para o ouvido de Heitor. "Ah, querido, você sabe o que eu realmente quero, não sabe?"
Ela olhou para o meu pulso. A pulseira da minha avó. Uma delicada corrente de prata, com pequenos e intrincados pingentes, cada um representando um marco na vida da minha avó. Era a única peça tangível que eu tinha dela.
Minha respiração falhou. Senti uma onda fria de náusea.
Eu toquei a pulseira, meus dedos traçando o metal frio e familiar. Parecia pesado, reconfortante.
Respirei fundo. Minha determinação se fortaleceu.
"Eu aumento a aposta", eu disse, minha voz clara e firme. Abri o fecho da pulseira. Os pequenos pingentes tilintaram suavemente.
Eu a coloquei gentilmente na mesa, bem ao lado do relógio de bolso de Heitor. Ela ficou ali, brilhando sob as luzes do salão, um símbolo silencioso e poderoso. Todos olharam.
(Ponto de Vista de Abigaíl)
Um silêncio chocado caiu sobre a mesa. O único som era o leve tilintar de copos vindo do bar. Heitor olhou para a pulseira da minha avó, seus olhos arregalados. Ele sabia exatamente o que significava para mim.
Dominique, no entanto, bateu palmas, um brilho triunfante em seus olhos. "Oh, Abigaíl ousada! Eu sabia que você tinha essa coragem!" Ela piscou para mim. "Não se preocupe, querida, serei gentil."
Darlan pigarreou, quebrando a tensão. "Certo, pessoal. As regras são simples. Pôquer de cinco cartas. A mão mais alta ganha. O perdedor toma uma dose, e seu último item apostado vai para o pote. Se você desistir, está fora. Se perder todos os seus itens, está fora. O último de pé leva tudo." Ele olhou ao redor da mesa. "Entendido?"
Eu apenas assenti, meu rosto impassível. Meu coração batia um ritmo frenético contra minhas costelas, mas minhas mãos estavam firmes.
O dealer, um profissional contratado para o evento, começou a embaralhar as cartas com facilidade praticada. O som nítido das cartas era o único ruído. Ele distribuiu cinco cartas viradas para baixo para cada jogador.
Dominique abriu suas cartas em leque, um leve sorriso brincando em seus lábios. Ela já tinha jogado pôquer antes, eu sabia. Ela era boa. Ou pelo menos, ela achava que era.
Heitor continuava me olhando. Seu olhar era pesado, uma mistura de confusão e algo mais que eu não conseguia decifrar. Culpa, talvez? Ou apenas irritação.
Encontrei seu olhar por um segundo, depois desviei. Seus olhos ainda pareciam uma pressão indesejada.
Minhas próprias mãos pareceram surpreendentemente desajeitadas quando peguei minhas cartas. Eu as atrapalhei um pouco, traindo um nervosismo que eu não sentia de verdade.
Ouvi um murmúrio baixo dos outros convidados. "Ela parece completamente perdida." "Pobre Abigaíl, ela nunca joga." "Heitor parece furioso."
Meu rosto parecia tenso. Eu podia sentir o sangue drenando dele, deixando-o pálido e austero. Eu interpretei o papel. A noiva frágil, chocada e sobrecarregada.
Dominique me pegou no olhar. Ela se inclinou para frente, sua voz um sussurro teatral. "Precisa de ajuda, docinho? Posso te ensinar o básico." Seu sorriso era condescendente.
Eu a ignorei. Foquei nas cartas em minha mão. Eram apenas cartas. Mas elas continham um poder imenso esta noite.
A primeira rodada começou. Minha mão era terrível. Um par de dois. Desisti rapidamente, certificando-me de parecer resignada.
"Ah, que pena!" Dominique arrulhou. "Hora da sua primeira dose, Abigaíl!"
Um garçom imediatamente trouxe uma bandeja com um copo de shot cheio de um líquido escuro. Cheirava forte.
Darlan parecia desconfortável. "Domi, talvez uma água em vez disso?"
A voz de Heitor foi ríspida. "Apenas beba, Abigaíl. Não faça uma cena."
Dominique parecia exultante. Ela praticamente pulava em sua cadeira. "E o que vai ser, Abigaíl? Seu lindo colar? Ou aquele relógio maravilhoso que Heitor te deu?"
Meu estômago revirou. O colar era sentimental, um presente da minha avó pela minha formatura. O relógio era um presente significativo de Heitor, mas não era a pulseira de herança.
Minha mente foi para minha avó. Como ela usava aquela pulseira todos os dias. Como ela me contava histórias sobre cada pequeno pingente. O livrinho para seu primeiro romance, a câmera por sua paixão pela fotografia, o aviãozinho por suas viagens. Era a vida dela, em miniatura. E agora estava nesta mesa para eles pegarem.
Forcei um sorriso irônico. Um gosto amargo encheu minha boca.
"O colar", eu disse, minha voz baixa. Empurrei a delicada corrente de ouro com seu pequeno e intrincado medalhão pela mesa. Ela deslizou sobre a madeira polida.
"Excelente escolha", disse Dominique, pegando-o. Ela o balançou, admirando como o ouro capturava a luz. "Que coisinha linda."
Ela nem estava olhando para mim. Estava olhando para o colar. Como se já fosse dela.
O rosto de Heitor estava sombrio. Ele não disse uma palavra.
"Próxima rodada, então!" alguém gritou, ansioso para mudar o foco.
O dealer distribuiu novamente. O jogo continuou.
Desta vez, Dominique conseguiu uma mão moderadamente boa. Uma sequência. Ela ganhou a rodada.
Heitor, surpreendentemente, conseguiu a melhor mão. Um full house. Ele recolheu o pote, que agora incluía o colar de diamantes e as chaves do carro esportivo.
Dominique gritou de alegria, jogando os braços ao redor de Heitor. "Você é o melhor, querido! Meu amuleto da sorte!"
Os outros convidados ofereceram aplausos educados. Eles estavam gostando do show, mesmo que fosse um desastre.
"Heitor está com tudo!" "Quem diria que ele era um jogador tão bom?"
"Esta noite pede algo especial", anunciou o dealer, olhando para Heitor que havia ganhado a mão mais alta. "O jogador com a mão mais alta pode escolher um item de qualquer um dos outros jogadores, diretamente de sua pessoa."
Um suspiro coletivo percorreu a sala. Esta era uma nova regra. Uma cruel.
Heitor olhou para Dominique. Ela olhou para ele, seus olhos arregalados com uma fome predatória.
"Oh, Heitor", ela ronronou. "Você sabe o que eu quero. Não sabe?"
Seus olhos pousaram no meu pulso. Na pulseira de prata simples e despretensiosa. Aquela com a vida da minha avó gravada em seus pingentes. Aquela que eu tinha colocado no pote geral, mas ela ainda queria reivindicá-la diretamente.
Meu sangue gelou. Ela sabe. Ela tinha que saber. A maneira como ela olhou para ela mais cedo, a maneira como estava olhando agora. Foi deliberado.
Heitor olhou de Dominique para mim. Seu rosto era indecifrável.
O silêncio retornou, mais pesado desta vez.
"Heitor?" Dominique insistiu, sua voz com um toque de impaciência.
Meu peito apertou. Eu podia sentir as lágrimas brotando, mas me recusei a deixá-las cair. Não aqui. Não agora.
"Abigaíl, você vai mesmo fazer um escândalo por causa de uma pulseirinha boba?" Dominique perguntou, sua voz escorrendo falsa preocupação. "É só um jogo, querida. Não seja uma má perdedora."
Heitor finalmente falou. Sua voz era vazia. "Abigaíl. Apenas tire."
As palavras me cortaram, mais afiadas que qualquer faca. Meu mundo inclinou.
Senti uma súbita e feroz onda de raiva. Um fogo ardente e purificador.
(Ponto de Vista de Abigaíl)
Uma lágrima escapou, me traindo. Traçou um caminho quente pela minha bochecha. Eu rapidamente a enxuguei. A humilhação era uma ferida aberta. Meu coração era um tambor contra minhas costelas, cada batida um baque doloroso.
Heitor parecia agitado. Ele batia os dedos na mesa. "Abigaíl, agora. Não torne isso mais difícil do que precisa ser." Sua voz era baixa, carregada de impaciência.
Darlan, abençoado seja seu bom coração, interveio. "Heitor, talvez possamos apenas... trocar por algo? Ou encontrar outro item? É claramente importante para a Abigaíl."
Os olhos de Dominique brilharam de irritação. "Não! Uma regra é uma regra, Darlan. Heitor ganhou. Abigaíl colocou no pote. Agora ela precisa entregar." Ela cruzou os braços, sua mandíbula cerrada.
Heitor lançou um olhar desdenhoso para Darlan. "Ela sabia das apostas, Darlan. A escolha é dela." Ele se virou para mim, sua voz endurecendo. "Abigaíl. Dê para a Dominique."
Minhas mãos tremiam. Cada pingente na pulseira parecia um pedaço da minha alma. Mas eu não lhes daria a satisfação de me ver quebrar. Não completamente.
Lentamente, deliberadamente, abri o fecho da pulseira. A prata estava fria contra as pontas dos meus dedos. A vida da minha avó, escorregando do meu pulso.
Heitor a arrancou da minha mão. Ele nem sequer olhou para ela. Ele a jogou descuidadamente para Dominique.
Dominique a pegou com um sorriso triunfante. Ela a segurou por um momento, girando-a, depois franziu a testa. Não era brilhante o suficiente. Não era chamativa como o colar de diamantes.
"Hmm", ela murmurou, um som de leve decepção. Ela a jogou sobre a mesa. Não gentilmente. Apenas um movimento desdenhoso do pulso.
Ela aterrissou com um baque suave. Bem em uma pequena poça de champanhe derramado. O líquido instantaneamente cobriu a delicada prata e os intrincados pingentes.
Minha respiração falhou. Meus olhos ardiam. Não era mais apenas a pulseira. Era seu total descaso. Seu desrespeito por algo sagrado.
Um nó frio e duro se formou em meu estômago. A raiva não era mais um lampejo. Era uma labareda.
"Certo, chega de sentimentalismo", declarou Dominique, pegando suas cartas para a próxima rodada. "Vamos continuar jogando!"
A próxima rodada começou. Joguei mecanicamente. Minha mão era medíocre. Desisti, novamente.
Dominique conseguiu uma mão um pouco melhor. Ela ganhou outro pote pequeno.
Então foi a vez de Heitor. Ele balançou os dados, um sorriso confiante no rosto. Ele os rolou.
Um número baixo. Um par de uns. Ele perdeu. Feio.
Dominique caiu na gargalhada. "Oh, Heitor! Meu pobre marido! Você é péssimo!" Ela se inclinou e beijou sua bochecha. "Não se preocupe, querido, eu te protejo."
Ela arrancou o copo de shot do garçom. Antes que Heitor pudesse objetar, ela o virou.
"Viu?" ela declarou, limpando a boca com as costas da mão. "Somos uma equipe! As perdas dele são as minhas perdas." Ela piscou para mim, um desafio direto.
Os outros convidados riram, alguns sem graça, outros genuinamente divertidos com o teatro de Dominique.
Senti uma estranha sensação de distanciamento. Uma dormência. Todas aquelas pequenas mágoas, todas aquelas traições, todas as vezes que tentei entender seu comportamento. Tudo era um prelúdio para isso.
Continuei a jogar. Perdi mais do que ganhei. Perdi meu relógio caro, um presente dos meus pais. Perdi a bolsa de grife que eu cobiçava há meses. Cada vez, eu fingia uma mão desajeitada, uma leitura ruim. Cada vez, Dominique se vangloriava. Cada vez, Heitor desviava o olhar.
As doses se acumularam. Minha cabeça começou a girar. Meus movimentos se tornaram um pouco menos precisos. Minhas mãos, notei, tremiam levemente enquanto eu pegava minhas cartas.
"Parece que a Abigaíl finalmente está sentindo a pressão", ouvi alguém sussurrar. "Ela está perdendo o controle."
O jogo estava se tornando mais imprudente. As apostas estavam ficando mais altas.
"Certo, pessoal!" Darlan anunciou, tentando manter alguma ordem. "Esta é a mesa final. O vencedor leva tudo. Cada jogador, uma aposta final e massiva. O que vai ser?"
Dominique não hesitou. Ela olhou para Heitor, depois de volta para mim. "Todo o meu portfólio de negócios. Metade da casa de veraneio da minha família em Angra. E meu iate." Ela sorriu. "Tudo dentro."
Um suspiro coletivo percorreu a sala. Isso era dinheiro sério. Mais do que qualquer um esperava.
Os olhos de Heitor piscaram para mim. Um olhar estranho. Um aviso? Preocupação?
Ele respirou fundo. "A herança da minha família", ele disse, sua voz firme. "Todo o fundo imobiliário. E o novo jato particular." Ele olhou para mim, um desafio em seus olhos. "Tudo dentro."
Um pavor gelado me invadiu. Ele estava apostando tudo. Seu futuro. Nosso suposto futuro.
"Abigaíl", ele disse, sua voz baixa, urgente. "Não. Isso não vale a pena. Apenas desista."
Dominique zombou. "Oh, ela vai amarelar agora? Pensei que a Abigaíl fosse tão corajosa."
A provocação atingiu seu alvo.
Olhei para a mesa. Para minha pulseira molhada e esquecida. Para o relógio de bolso dele. Para os destroços do nosso relacionamento arruinado.
Minha startup. O trabalho de toda a minha vida. A empresa que construí do zero, com sangue, suor e noites sem dormir. Era o meu futuro. Minha independência.
"Minha startup de tecnologia", eu disse, minha voz firme, embora meu corpo tremesse. "Cada ação. Cada patente. Minha empresa inteira. E minha cobertura."
A sala explodiu. Todos falavam ao mesmo tempo.
"Ela está louca?" "Ela vai perder tudo!"
Os olhos de Dominique se arregalaram. Um brilho ganancioso e aterrorizante.
O rosto de Heitor estava pálido. Ele parecia ter visto um fantasma.
O jogo continuou. Dominique foi a primeira. Ela balançou os dados. Eles rolaram.
Um número alto. Um par de seis. Quase perfeito. Ela sorriu, presunçosa.
A vez de Heitor. Ele rolou os dados. Eles giraram, depois pararam.
Um par de cincos. Bom, mas não o suficiente para vencer Dominique. Ele praguejou baixinho.
"Oh, Heitor, querido", Dominique ronronou, acariciando seu braço. "Parece que vou te deixar sem nada esta noite."
Todos olharam para mim. Minha vez.
Peguei os dados. Minhas mãos tremiam, visivelmente agora. O álcool estava definitivamente me afetando.
Eu os balancei. O som foi surpreendentemente alto na sala silenciosa. Eu os rolei.
Eles tilintaram, quicaram e finalmente pararam.
Um par de quatros.
Não o suficiente. Eu estava perto. Mas não o suficiente.
Um suspiro coletivo percorreu a sala. Dominique soltou uma pequena risada triunfante.
Senti uma leveza súbita, um esgotamento completo. Afundei na cadeira, pressionando as mãos nas têmporas. Estava acabado. Eu tinha perdido tudo.
Dominique se inclinou para perto, seu hálito quente contra minha orelha. "Parece que você perdeu, Abigaíl. Tudo. E eu vou levar tudo. Cada pedacinho." Sua voz era um sussurro venenoso.
Eu lentamente levantei minha cabeça. Meus olhos, eu sabia, estavam opacos com uma derrota fingida. Mas então eu olhei para os dados. E vi algo mais. Algo que todos eles tinham perdido.
"Não", eu disse, minha voz quase inaudível. "Ainda não terminamos."