Grávida de nove meses e presa num túnel inundado, com a água a subir rapidamente, liguei ao meu marido, Tiago, a implorar ajuda. Ele era a minha única esperança.
Mas a sua voz ríspida e as suas palavras cortaram-me mais do que o frio da água: estava a caminho da casa da sua "melhor amiga", Clara, para salvar o cão dela. Desligou-me na cara.
Resgatada pelos bombeiros, acordei no hospital para ouvir as palavras que me gelaram o sangue: "o bebé não sobreviveu". O meu mundo desabou. E Tiago? Ao chegar, a sua única preocupação era o "caos" que enfrentara com Clara, culpando-me e acusando-me de ser "dramática". A sua mãe, Amélia, apoiou-o, defendendo a "pobre da Clara".
Mas o golpe final veio quando fui a casa buscar as minhas coisas: encontrei os sapatos vermelhos de Clara, o seu batom, o seu champô na nossa casa de banho. E depois, a revelação pelo meu advogado: ele tinha esvaziado a nossa conta conjunta, transferindo o dinheiro para Clara há meses. Não era um erro; era uma traição planeada, financiada com o dinheiro que poupávamos para o nosso filho.
A dor da perda do meu filho era sufocante, mas o nojo e a raiva pela traição contínua dele, pela indiferença total da sua família, e a forma como me culparam consumiram-me. Como foi possível ele escolher o cão de outra mulher em vez do próprio filho? Como puderam culpar-me por algo que ele provocou? A minha barriga vazia ecoava o vazio na minha alma, mas ali, uma fúria gélida começou a crescer.
Eu não ia aceitar a vitimização e o controlo deles. Decidi que era o fim. E quando a minha mãe revelou um segredo obscuro do pai de Tiago – que ele tinha arruinado o meu próprio pai para construir o seu império – percebi que esta não era apenas a minha liberdade, era justiça. Eu não queria mais nada deles. Mas agora, já não ia ser rápido e limpo. Agora, ia ser justo.
A água gelada subia rapidamente, já me chegava à cintura. Eu estava presa no carro, no meio de um túnel inundado. A chuva lá fora era uma parede de água, e o som era ensurdecedor.
O pânico apertava-me o peito. A minha mão tremia sobre a minha barriga de nove meses. O meu filho. Tínhamos de sair dali.
Agarrei no telemóvel com os dedos a tremer e liguei ao meu marido, Tiago.
A chamada demorou uma eternidade a ser atendida. Quando ele finalmente atendeu, o barulho de fundo era de vento e chuva, mas não tão abafado como o meu. Ele estava lá fora.
"Sofia? O que se passa? Estou ocupado."
A sua voz era ríspida, impaciente.
"Tiago, ajuda-me! O carro parou no túnel da Baixa, a água está a subir muito depressa! Estou com medo."
A minha voz quebrou. Eu só queria que ele me dissesse que estava a caminho.
Houve uma pausa. Ouvi outra voz ao fundo, uma voz de mulher, abafada pelo vento. Era a Clara. A sua "melhor amiga".
"Onde é que estás exatamente?", perguntou ele, mas o seu tom era distante.
"No túnel da Avenida Central! Por favor, vem depressa!"
"Droga, Sofia. Isso é do outro lado da cidade", ele resmungou. "A Clara ligou-me, a casa dela está a inundar e o cão dela, o Max, está em pânico. Já estou quase a chegar a casa dela. Não posso dar a volta agora."
Fiquei em silêncio. O meu cérebro não conseguia processar as suas palavras. A casa da Clara. O cão dela.
"Tiago", a minha voz era um sussurro. "Eu estou grávida. O nosso filho está aqui dentro comigo. A água não para de subir."
"Eu sei, mas não entres em pânico", disse ele, como se estivesse a falar com uma criança. "Liga para os bombeiros. Eles são pagos para isso. Tenho mesmo de ir, a Clara está sozinha e desesperada. Depois ligo-te."
Antes que eu pudesse dizer mais alguma coisa, ele desligou.
O som do "tu-tu-tu" misturou-se com o som da água a bater contra os vidros do carro.
Ele desligou.
Ele escolheu-a a ela. Ele escolheu o cão dela em vez do seu próprio filho.
Olhei para a água escura e suja que já me molhava o peito. O meu telemóvel escorregou da minha mão e desapareceu na água turva.
Fiquei sozinha no escuro, com a água a subir.
Não sei quanto tempo passou. Perdi a noção de tudo, exceto do frio e do medo. A água chegou-me ao pescoço quando finalmente ouvi um barulho forte vindo de fora.
A janela do carro partiu-se e uns braços fortes agarraram-me. Eram os bombeiros.
"Calma, senhora. Vamos tirá-la daqui."
A última coisa de que me lembro é da luz forte das lanternas deles a encandear-me os olhos.
Acordei num quarto de hospital. O cheiro a desinfetante era intenso. Uma enfermeira estava a ajustar o soro ao meu lado.
A minha primeira reação foi levar a mão à barriga.
Estava lisa. Vazia.
O pânico voltou, mil vezes pior do que no túnel.
"O meu bebé...", sussurrei, a voz rouca. "Onde está o meu bebé?"
A enfermeira olhou para mim com uma expressão de pena. Uma pena que eu não queria ver.
"Lamento muito", disse ela suavemente. "Devido à hipotermia e ao choque, entrou em trabalho de parto prematuro. Fizemos tudo o que podíamos, mas... o bebé não sobreviveu."
As suas palavras pairaram no ar. Não sobreviveu.
O meu filho. O meu menino. Tinha desaparecido antes mesmo de eu poder ver o seu rosto.
Fiquei a olhar para o teto branco do quarto. Não chorei. Não gritei. Senti um vazio tão grande, tão profundo, que parecia ter engolido todos os outros sentimentos.
O meu filho estava morto porque o pai dele estava ocupado a salvar o cão de outra mulher.
Naquele momento, deitada naquela cama de hospital, fria e vazia, tomei uma decisão.
O meu casamento tinha acabado. Tinha morrido juntamente com o meu filho.
A minha mãe, Helena, entrou no quarto nesse momento. O seu rosto estava marcado pela preocupação. Ela tinha passado pela sua própria cirurgia cardíaca há apenas algumas semanas.
"Sofia, minha querida!"
Ela correu para o meu lado, agarrando a minha mão. As suas mãos estavam quentes.
"O Tiago... Onde está o Tiago?", perguntou ela, olhando à volta.
Uma risada amarga escapou dos meus lábios.
"Não sei, mãe. Talvez ainda esteja a consolar a Clara."
A confusão no rosto da minha mãe era evidente. Antes que ela pudesse perguntar mais alguma coisa, a porta abriu-se novamente.
Era o Tiago.