Hoje é meu quinto aniversário de casamento. É também o dia em que meu marido, Heitor, me pediu o divórcio pela 38ª vez.
Ele faz isso por causa de Aline, sua amiga de infância. A mulher que bateu o carro no dia do nosso casamento e, por causa disso, nunca mais pôde ter filhos. Desde então, ele vive para pagar uma dívida de culpa, e eu sou o preço.
Por cinco anos, eu aguentei esse ciclo de divórcio e novo casamento. Mas desta vez foi diferente. Aline me empurrou da escada.
Heitor me encontrou sangrando e me prometeu justiça. Ele jurou que a faria pagar.
Mas, dias depois, a polícia ligou. As imagens da câmera de segurança do incidente foram misteriosamente apagadas. Não havia provas, não havia caso.
Naquela noite, Aline mandou me sequestrar. Enquanto os homens dela rasgavam minhas roupas na traseira de uma van, eu consegui ligar para o Heitor.
Ele rejeitou minha chamada.
Eu pulei da van em movimento. E enquanto corria pela minha vida, sangrando no asfalto frio, eu fiz uma promessa.
Desta vez, não haveria um 39º casamento.
Desta vez, eu iria desaparecer.
Capítulo 1
Hoje é nosso quinto aniversário de casamento.
Heitor Bastos, meu marido, está parado na minha frente. Ele é tão lindo quanto no dia em que o conheci, com olhos penetrantes e um nariz reto. Mas as palavras que saem de sua boca não são o que se espera em um aniversário.
"Vamos nos divorciar."
Eu não sinto choque. Não sinto tristeza. Apenas olho para ele, meu coração uma linha reta e calma.
"Você sabe que este é o nosso 38º divórcio?", eu pergunto.
Um toque de impotência cruza seus olhos. Ele desvia o olhar.
"Aline Wolf está ameaçando pular do telhado", ele diz, com a voz baixa. "Ela disse que não vai descer a menos que eu me divorcie de você. Você sabe que ela tem crises de ansiedade..."
Eu o interrompo. "Hmm, eu sei."
Eu sei há cinco anos. Eu sei através de trinta e sete divórcios anteriores.
"Então, quanto tempo este vai durar?", pergunto, minha voz neutra.
Ele parece surpreso, como se esperasse lágrimas ou gritos. Ele nunca mais recebe de mim o que espera.
"Assim que o humor dela se estabilizar, nós nos casamos de novo", ele promete. Ele estende a mão para tocar meu ombro, mas para no meio do caminho e a deixa cair ao lado do corpo. "Tudo bem?"
Eu olho para o rosto dele, para o conflito em seus olhos, e de repente acho engraçado. Terrivelmente, horrivelmente engraçado.
"Tudo bem", eu digo. "Afinal, nós devemos isso a ela."
Os funcionários do fórum já nos conhecem pelo nome.
"De volta?", a escrivã, uma mulher chamada Marta, ajeita os óculos no nariz. Ela pega os formulários familiares sem nem olhar. Ela é uma especialista em nossos divórcios.
"Ainda um divórcio amigável desta vez?"
Eu aceno com a cabeça e pego a caneta que ela me oferece.
Heitor assina seu nome ao lado do meu. A caneta arranha o papel, um som agudo e decisivo. Ele já fez isso trinta e sete vezes. Ele é bom nisso.
Quando chega a minha vez, a caneta paira sobre o papel. Sinto uma breve pausa dentro de mim, um lampejo de algo antigo.
Esta é a 38ª vez.
Na primeira vez, eu chorei até não poder mais. Eu não conseguia respirar.
Na segunda vez, eu perguntei a ele: "Por quê, Heitor? Por quê?"
A terceira, a quarta... um borrão de dor e confusão.
Na nona vez, eu já conseguia entrar aqui e rir com a Marta. "Por favor, ande logo", eu dizia, "Temos planos."
Eu respiro fundo. Eu assino meu nome meticulosamente, Aurora Campos. Desta vez, escrevo com um cuidado incomum. Cada letra é perfeita, final.
Quando saímos, Aline está esperando. Não em um telhado, mas ali mesmo nos degraus do fórum, parecendo frágil e vitoriosa.
Ela passa por mim correndo e se joga nos braços de Heitor.
"Heitor! Eu sabia que você me escolheria! Eu sabia que você me amava mais!"
O corpo de Heitor fica rígido. Ele olha para mim por cima do ombro dela, seus olhos cheios de algo que não consigo nomear. Culpa? Desculpa? Não importa.
Ele tenta afastá-la gentilmente. "Aline, já chega."
Ela apenas se agarra mais forte, ignorando-o completamente. Ela arranca os papéis do divórcio da mão dele e os agita na minha cara como um troféu.
"Está vendo isso, Aurora? Ele é meu agora. Sempre foi meu."
Eu não digo uma palavra. Apenas os observo. Estou tão cansada.
"Aline!", a voz de Heitor é ríspida de irritação. "Pare com isso."
Ela muda de tática imediatamente. Seu rosto se contrai e ela começa a soluçar contra o peito dele. "Me desculpe, Heitor. É que estou tão feliz. Vamos comemorar! Por favor?"
Então, ela olha para mim, um brilho malicioso em seus olhos cheios de lágrimas.
"Por que não convidamos a Aurora? Para celebrar nosso novo começo. E o fim dela."
Heitor olha para mim, sua expressão cheia de desculpas. Ele está me pedindo com os olhos para apenas entrar no jogo. Só mais uma vez.
Por uma razão que eu mesma não entendo, eu aceno. "Claro."
Todos nós entramos no carro dele. Aline senta na frente, encostada em Heitor, a mão dela repousando possessivamente em sua perna. Eu sento atrás, um fantasma na minha própria vida.
Eu observo os dedos dela traçarem padrões em sua coxa. Eu o observo segurar o volante, os nós dos dedos brancos, mas ele não a impede. Ele nunca a impede.
Silêncio. Indulgência. Concessão. Essa tem sido sua resposta a Aline por cinco longos anos.
Começa a chover lá fora, as gotas escorrendo pelo vidro como lágrimas. A cena me leva de volta no tempo.
Cinco anos atrás. O dia do nosso casamento.
Heitor e eu éramos o casal de ouro da faculdade. Ele era o brilhante estudante de administração, e eu, a promissora artista. Nos apaixonamos rápido e intensamente. Ele era tão gentil naquela época. Ele segurava minhas mãos, as que seguravam os pincéis, e dizia que eram as mãos mais lindas do mundo.
Aline estava sempre lá, nos bastidores. Sua amiga de infância. A garota que era obsessivamente apaixonada por ele, que o seguia por toda parte.
"Ela é como uma irmã para mim", ele dizia, minimizando minhas preocupações. "Não se preocupe, Rory. É você que eu amo."
Eu acreditei nele.
No dia do nosso casamento, enquanto eu estava em meu vestido branco, o celular dele vibrava sem parar. Era a Aline.
"Não atenda, Heitor", eu disse, um nó de desconforto se apertando em meu estômago. "Hoje não. Hoje é nosso."
Ele sorriu, beijou minha testa e silenciou o celular. Foi o melhor dia da minha vida, por algumas horas.
Mais tarde, descobrimos o que aconteceu. Enquanto dizíamos nossos votos, Aline, bêbada e histérica, bateu o carro. O acidente foi grave.
Ela foi levada às pressas para o hospital. Seu corpo estava quebrado. Os médicos nos disseram que ela nunca mais poderia ter filhos.
A culpa esmagou Heitor. Ele se sentiu responsável porque havia ignorado as ligações dela.
A partir daquele dia, uma dívida foi formada. Uma dívida que ele sentia que ele, e por extensão, eu, tínhamos que pagar.
As feridas físicas de Aline cicatrizaram, mas sua mente não. Ela foi diagnosticada com ansiedade severa e depressão. Ela começou a usar sua fragilidade como uma arma.
Sempre que Heitor e eu estávamos felizes, ela tinha um colapso. Um ataque de pânico. Uma ameaça de suicídio.
E todas as vezes, Heitor cedia.
Para acalmá-la, ele concordava com suas exigências. E sua maior exigência era sempre a mesma: "Divorcie-se da Aurora."
Então nós nos divorciamos. Na primeira vez, ele me abraçou enquanto eu chorava e prometeu que era apenas de fachada.
Depois de algumas semanas, quando Aline estava "estável" novamente, ela vinha até nós, chorando e se desculpando. Heitor a perdoava. E nós nos casávamos de novo.
Então o ciclo se repetia.
E se repetia.
Trinta e oito vezes.
Eu passei da agonia para a dormência, para um cansaço profundo que se instalou em minha alma. Meus pincéis acumularam poeira. As cores vibrantes do meu mundo desbotaram para o cinza.
No carro, observo o perfil de Heitor enquanto ele dirige. Ele ainda é lindo, ainda é o homem por quem me apaixonei. Mas ele também é um estranho que permitiu que outra mulher arruinasse nossas vidas.
Ele simplesmente a deixou tocá-lo. Ele a deixou sentar no meu lugar. Ele está nos levando para comemorar meu divórcio.
Uma decisão, fria e clara, se forma em meu coração.
Esta é a última vez. Não haverá um 39º casamento.
Pego meu celular e envio uma mensagem para meu irmão.
[Mãe e pai estão em casa?]
Ele responde quase instantaneamente. [Sim. O que foi?]
[Chego em uma hora. Precisamos conversar.]
Então eu mando uma mensagem para meus pais. [Vou deixá-lo. Desta vez, para sempre. Quero me mudar. Para bem longe. Vocês vêm comigo?]
A resposta da minha mãe é uma série de emojis preocupados. A do meu pai é simples e direta.
[Estamos aqui por você. Sempre.]
Uma lágrima que eu não sabia que tinha em mim escorre pelo meu rosto. Eu a enxugo rapidamente. Já chorei lágrimas suficientes por este homem. Não vou chorar mais.
Chegamos a um restaurante chique. Aline insiste em sentar ao lado de Heitor, agarrada ao braço dele como uma criança. Ele tenta se afastar, mas ela começa a choramingar.
"Heitor, você me odeia agora, não é? Depois de tudo que eu passei..."
Ele suspira, derrotado, e a deixa ficar. Ele corta o bife para ela, serve seu vinho. As pessoas em outras mesas olham para eles, sorrindo. Parecem um casal profundamente apaixonado.
Eu me sinto invisível. Uma peça sobressalente.
Minha bolsa está no assento ao meu lado. Ela escorrega e um pequeno caderno de esboços cai. Eu não o uso há meses.
Aline o vê. Seu rosto muda.
"O que é isso?", ela estala. "Está tentando se exibir? Tentando lembrá-lo do que você costumava ser?"
Ela se lança sobre a mesa, seus olhos selvagens.
Antes que eu possa reagir, ela pega a tigela de sopa quente na frente dela e a joga diretamente no meu rosto.
O líquido fervente atinge meu peito e rosto.
A dor é instantânea e cegante. Eu grito, caindo para trás da cadeira. Bato com força no chão, minha cabeça estalando contra a madeira polida.
O mundo gira. Através de uma névoa de dor, vejo Heitor pular, seu rosto uma máscara de horror.
"Aurora!"
Ele começa a vir em minha direção, mas Aline é mais rápida. Ela agarra o braço dele, seu próprio rosto coberto de lágrimas, sua voz um grito histérico.
"Ela mereceu, Heitor! Ela estava zombando de mim! Você não vê? É culpa dela que eu bati o carro! É culpa dela que eu não posso ter filhos! Ela arruinou a minha vida!"
Heitor congela. Ele olha do meu corpo caído no chão para o rosto soluçante de Aline. A velha e familiar batalha se desenrola em seus olhos. Dever versus desejo. Culpa versus amor.
Aline envolve os braços em volta da cintura dele, enterrando o rosto em seu peito. "Me tire daqui, Heitor", ela chora. "Por favor, me leve para casa. Estou com medo."
Ele olha para mim uma última vez. Estou deitada em uma poça de sopa, minha pele gritando, minha visão escurecendo. Eu vejo sua hesitação. Eu vejo a escolha que ele está prestes a fazer.
Ele pega Aline nos braços e a carrega para fora do restaurante. Ele não olha para trás.
A última coisa que sinto antes que a escuridão me tome completamente é o chão frio e duro sob minha bochecha.
Acordo com o cheiro de antisséptico e o bipe de uma máquina.
Um hospital. De novo.
Meu peito e pescoço estão enfaixados. Uma dor surda e latejante irradia da minha pele.
Uma enfermeira de rosto gentil está verificando meu soro.
"Ah, você acordou", ela diz com um sorriso suave. "Você nos deu um belo susto. Você tem algumas queimaduras de segundo grau bem feias, mas vai ficar bem. Você teve sorte."
Eu não me sinto com sorte.
"Seu marido estava tão preocupado", ela continua, afofando meu travesseiro. "Ele ficou aqui a noite toda, andando pelos corredores. Ele acabou de sair para tomar um café. Você tem um bom homem."
A imagem de Heitor carregando Aline para longe pisca em minha mente. Meu coração se aperta, uma dor mais aguda que qualquer queimadura.
Ele me deixou no chão.
"Nós nos divorciamos", eu digo, minha voz um sussurro seco.
A enfermeira parece surpresa, mas antes que ela possa dizer qualquer coisa, a porta do meu quarto se abre.
É Heitor. Ele parece cansado, seu cabelo está uma bagunça e seus olhos estão vermelhos.
"Rory", ele diz, o alívio inundando seu rosto. Ele corre para a minha cabeceira. "Não diga coisas assim. Não estamos divorciados, não de verdade."
Ele tenta pegar minha mão, mas eu a puxo para longe.
"Aline... ela não fez por mal", ele começa, uma desculpa familiar em seus lábios. "Ela só não está bem. Ela se sente tão culpada, chorou a noite toda."
Ele se desculpa. "Eu sinto muito, Rory. Eu sinto muito, muito mesmo."
Eu olho para ele, para este homem que amei por tanto tempo, e não sinto nada além de uma exaustão profunda e esmagadora.
"Ela é mais importante, não é?", eu digo, minha voz plana. "Aquela por quem você me deixou no chão."
"Não é isso-"
"Essa coisa toda", eu interrompo, "esse jogo doentio de divórcio e novo casamento, da minha dor para acalmar a 'ansiedade' dela... Eu cansei, Heitor."
Minha voz é baixa, mas é mais forte do que tem sido em anos.
"Vá ficar com ela. Vá cuidar dela. Ela obviamente precisa mais de você."
Ele parece confuso, como se não conseguisse compreender minhas palavras. "Rory, você ainda está com raiva? Eu sei que errei. Eu sei que deveria ter ficado com você."
Ele agarra minha mão, seu aperto firme. "Ela estava ameaçando se matar, Rory! Estava com uma faca! O que eu deveria fazer?"
Ele parece desesperado, sua voz suplicante. "Isso é só de fachada. Você sabe disso. Você sempre será minha esposa. A única."
Ele se inclina para mais perto, suas palavras um veneno suave. "Apenas espere um pouco mais. O médico dela diz que ela está melhorando. Assim que ela estiver totalmente recuperada, poderemos ter a vida que sempre quisemos. Eu prometo."
"Quanto tempo, Heitor?", eu pergunto, a pergunta pairando no ar estéril entre nós. "Mais cinco anos? Dez? Você vai estar acalmando-a em seu leito de morte enquanto eu espero?"
Ele fica em silêncio.
"A culpa é minha", ele finalmente sussurra, as mesmas palavras que disse mil vezes. "Eu devo a ela."
Eu ouvi essa frase tantas vezes. Costumava me fazer sentir compaixão. Agora só me faz sentir cansada.
Eu fecho meus olhos. Meu peito parece pesado, como se estivesse cheio de cimento molhado.
"Sim", eu sussurro de volta. "Você deve a ela."
Eu respiro, me preparando para dizer as palavras que deveria ter dito anos atrás. As palavras que decidi no carro.
Mas assim que abro a boca, o celular dele toca.
É uma chamada de vídeo. O rosto de Aline, manchado de lágrimas, preenche a tela. Sua voz é estridente e acusadora.
"Heitor Bastos! Você prometeu que voltaria logo! Por que está com ela? Eu te disse para ficar longe dela!"
Ela começa a soluçar. "Eu não estou comendo. Não vou comer nada até você voltar. Se eu morrer de fome, a culpa é sua!"
O rosto de Heitor se fecha em uma máscara familiar de frustração e resignação. Ele esfrega as têmporas.
"Ok, Aline. Acalme-se. Estou indo."
Ele se levanta para sair. Ele se inclina para beijar minha testa, mas eu viro a cabeça.
"Rory, descanse um pouco", ele diz suavemente. "Eu volto mais tarde à noite para ver como você está."
Uma risada amarga escapa dos meus lábios. Mais tarde à noite. Depois que ele colocar Aline na cama e prometer o mundo a ela.
Eu o observo sair apressado pela porta, o celular ainda pressionado contra a orelha, sua voz um murmúrio baixo e calmante destinado a outra mulher.
A porta se fecha, me deixando em silêncio.
Eu viro a cabeça e encaro a porta vazia.
"Eu ia dizer", sussurro para o quarto vazio, "que você deve tudo a ela. Então pode ficar com ela."
"Mas eu não devo porra nenhuma a nenhum de vocês."
"A partir de agora, Heitor Bastos, você e eu acabamos. Para sempre."
Passei uma semana no hospital. As queimaduras no meu peito e pescoço começaram a cicatrizar lentamente, deixando para trás cicatrizes vermelhas e raivosas.
Heitor veio me visitar, às vezes.
Ele prometia estar lá para minhas consultas, para ajudar a enfermeira a trocar meus curativos.
Mas então seu celular tocava. Aline estaria chorando, ou gritando, ou ameaçando pular. E Heitor ia embora. Todas as vezes.
Depois que ele saía, meu próprio celular se iluminava.
Uma mensagem de Aline.
[Heitor acabou de fazer a canja de galinha especial dele para mim. Ele disse que é só para mim.]
Depois, uma foto de uma tigela de sopa fumegante.
Outra mensagem.
[Ele ficou comigo a noite toda. Segurou minha mão até eu dormir.]
Seguida por um vídeo de Heitor dormindo em uma cadeira ao lado da cama dela, a mão dele segurando a dela.
[Ele vai me levar para um encontro hoje à noite para compensar o que você fez.]
[Ele me carregou para casa porque meus pés doíam.]
E então, a que finalmente rompeu minha dormência. Uma foto. Aline, com o rosto inclinado para cima, pressionando seus lábios contra os de Heitor. Os olhos dele estavam fechados.
Um vídeo se seguiu. A mão dela deslizando por baixo da camisa dele.
Meu coração, que eu pensei ter se transformado em pedra, sentiu uma pressão aguda e esmagadora. Eu não conseguia respirar.
Eu não respondi. Apenas apaguei as mensagens, uma por uma.
No dia em que recebi alta, cuidei da papelada sozinha. Peguei um táxi de volta para a casa que um dia chamamos de lar.
Quando cheguei lá, Aline estava na porta. Heitor estava ao lado dela, parecendo estressado. Ela tinha uma mala.
"Ela não tem para onde ir", disse Heitor antes que eu pudesse falar. "O proprietário a despejou."
Aline estava tentando forçar a entrada. "Esta é a casa do Heitor, o que significa que é minha casa! Você não pode me impedir!"
Heitor a segurava, sua voz firme pela primeira vez. "Aline, não. Esta é a minha casa e da Aurora. Você não pode ficar aqui."
Ela começou a gritar, um som selvagem e encurralado. "Se você não me deixar entrar, eu vou correr para o meio do trânsito agora mesmo! Eu vou fazer isso!"
Ele parecia impotente, preso.
Então ele me viu parada no portão. Seus olhos se arregalaram de surpresa.
"Rory! Você está em casa."
Ele correu até mim, sua voz um murmúrio baixo e apologético. "Ela só vai ficar por alguns dias. Só até eu encontrar um lugar novo para ela. Eu prometo."
Eu olhei por cima dele para Aline, que agora me encarava com triunfo.
Eu baixei os olhos. Minha voz estava calma, desprovida de qualquer emoção.
"Ok."
Heitor pareceu chocado. "Você... você não se importa?"
Eu balancei a cabeça, um sorriso amargo tocando meus lábios. "O que há para se importar?"
Eu não era mais a dona desta casa. Eu era apenas uma hóspede temporária, prestes a ser despejada.
Aline passou por Heitor e entrou na casa como se fosse a dona.
"Nossa, este lugar é tão brega", ela declarou, torcendo o nariz. "Tudo precisa ser mudado."
Ela começou a dar ordens às empregadas. "Este sofá é horrível, livre-se dele. E essas cortinas! Joguem fora!"
Então seus olhos pousaram no grande retrato de casamento pendurado na sala de estar. Era uma foto de Heitor e eu em nosso dia mais feliz.
"E aquilo", ela disse, apontando um dedo afiado, "é o mais feio de tudo. Tirem e queimem."
As empregadas olharam incertas para Heitor.
Ele hesitou por um momento, depois deu um leve aceno de cabeça derrotado. "Façam o que ela diz."
Eu esperava por isso. Eu esperava sua rendição.
Senti um fantasma de riso em meu peito. Virei-me sem uma palavra e fui para o meu quarto fazer as malas.
Se eles me queriam fora, eu facilitaria para eles. Eu me apagaria desta casa.
Peguei uma mala e comecei a enchê-la com minhas coisas. Roupas, livros, meu antigo material de arte. Coisas que eu amava.
Quando saí do meu quarto, arrastando a mala, a sala de estar era uma zona de desastre.
Nossa foto de casamento estava espatifada no chão, o vidro quebrado, meu rosto sorridente rasgado. Meus livros foram arrancados das prateleiras e jogados em uma pilha. O lindo vaso que eu comprei em nossa lua de mel estava em pedaços.
O lar que eu construí com tanto cuidado, mantido com tanto amor, estava destruído.
Fiquei ali por um momento, apenas olhando para os destroços.
Aline estava no meio de tudo, um sorriso presunçoso e vitorioso no rosto.
"Tudo isso", ela disse, gesticulando pela sala, "e você... vocês todos estão no passado agora."
Eu a ignorei. Cansei dos jogos dela.
Mas ela parou na minha frente, bloqueando meu caminho. "Onde você pensa que vai?"
Seus olhos caíram na mala semiaberta. Ela viu o conjunto empoeirado de tintas a óleo que eu havia embalado. Sua expressão se contorceu.
"Ainda fingindo ser uma artista? Está tentando mostrar o quão talentosa você é? O quanto ele costumava te amar?"
Eu apenas olhei para ela, meu silêncio uma parede que ela não conseguia quebrar. "Deixe-me passar, Aline."
Tentei contorná-la.
Seu rosto se contorceu de raiva. "Sua vadia!"
Ela pegou um pesado vaso de porcelana de uma mesa lateral e o balançou na minha cabeça. Eu tropecei para trás, desviando do golpe. O vaso se estilhaçou contra a parede atrás de mim.
Enquanto eu cambaleava, desequilibrada, ela avançou.
Ela colocou as duas mãos no meu peito e empurrou. Com força.
Eu estava no topo da grande escadaria.
"Vá para o inferno, Aurora!", ela gritou, sua voz pingando veneno.
Senti um momento de ausência de peso. Depois, um impacto agudo e violento enquanto meu corpo rolava escada abaixo.
A dor explodiu através de mim. Aterrissei em um monte no final, minha cabeça batendo no chão de mármore com um estalo doentio.
Sangue. Eu podia sentir o sangue quente emaranhando meu cabelo, formando uma poça sob mim.
Meu corpo convulsionou, uma série de tremores violentos.
Minha visão ficou turva.
A última coisa que vi antes de desmaiar foi Heitor, correndo pela porta da frente, seu rosto um retrato perfeito de horror.