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Três Marcas de Sangue

Três Marcas de Sangue

Autor:: Leonor Magalhães
Gênero: Romance
Lyra é uma aberração para o mundo sobrenatural. Metade bruxa, metade lobisomem, ela possui uma natureza dupla que é vista com desconfiança e ódio pelos puristas de ambos os clãs. Para piorar, ela cometeu o erro fatal de se apaixonar por Kael, um vampiro de um clã ancestral e inimigo declarado. ​O resultado desse romance proibido é um segredo que pode desencadear uma guerra entre espécies: Lyra está grávida. O bebê, o primeiro de sua espécie, carrega o sangue de lobisomem, bruxa e vampiro-uma criatura conhecida nos sussurros como o Tribrido. ​Para protegê-lo da caçada implacável que começou antes mesmo do seu nascimento, Lyra é forçada a se exilar entre os humanos. Usando o Pingente da Máscara de Prata, um artefato que suprime suas naturezas à custa de sua própria vida, ela tenta desesperadamente levar uma vida comum na esperança de que a metrópole possa esconder o impossível. ​Mas o Pingente está falhando. A energia do bebê está quebrando sua camuflagem. Agora, Lyra precisa correr contra o tempo e o seu próprio enfraquecimento para encontrar um santuário, enquanto os clãs de Lycans e Vampiros convergem para a cidade. ​A cada batida do seu coração, o perigo se aproxima. Para salvar a criança, Lyra terá que abraçar o monstro que ela passou a vida tentando esconder.

Capítulo 1 O Peso da Prata

​Lyra não precisava de um calendário para saber que a lua estava cheia. O útero, inchado com a vida que a matava, tornava-se um tambor ritmado sob a pele. E a cada pulsação, a prata.

​O Pingente da Máscara de Prata pesava como um grilhão no seu pescoço, frio e inóspito, forçando o lobo a hibernar. Era um veneno lento, mas necessário. Sem ele, a sua essência Lycan seria um farol de cheiros e fúria, impossível de esconder no meio da cidade humana. Com ele, ela era apenas Lyra a vizinha pálida e reservada do terceiro andar que parecia ter sempre uma gripe.

​Seus olhos, que deveriam ser de um dourado feroz sob o domínio da lua, estavam de um castanho opaco. Os feitiços que se agitavam nas pontas dos seus dedos, a magia herdada de sua mãe bruxa, eram sufocados pela Obsidiana Negra. Mas ela podia sentir o metal quente. Não pelo seu calor, mas pela energia que a pedra absorvia. Hoje, a obsidiana parecia mais escura do que o normal, e as pequenas veias de luz avermelhada que a atravessavam - as rachaduras que Avó Alana tanto temia - brilhavam com uma intensidade preocupante.

​E não era a sua magia que o pingente lutava para conter. Era a terceira marca. A criança que estava prestes a nascer.

​Lyra levou a mão à barriga, sentindo um chute violento que não era de um feto humano. Não era nem um lobisomem. O bebê era uma força fria, poderosa, que roubava a sua vitalidade. Ela estava grávida de um mistério que nem a sua família, nem o clã vampiro do pai, poderiam aceitar. O fruto de um romance proibido com Kael, o vampiro, era um monstro de três sangues. Um Tribrido

​Lyra fechou os olhos, tentando se concentrar no único som que importava: o silêncio. Seus ouvidos de lobisomem, ainda ligeiramente ativos, eram a sua única proteção real em Havenwood. Mas o que ela captou não foi o ruído da chuva fina na janela ou o murmúrio da TV do vizinho.

​Foi um cheiro. Sutil, mas inconfundível.

​Canela, Mofo e Morte. O cheiro de um clã vampiro antigo.

​Eles me encontram.

pânico, sempre latente, ameaçou dominar a sua mente. Controle. O mantra que AVó Alana lhe ensinara era a única coisa que a impedia de rasgar a porta e fugir para a floresta mais próxima, um instinto de Lobisomem que a teria revelado em segundos. O pingo de suor que escorreu pela têmpora de Lyra não era do calor do verão, mas do esforço para suprimir a transformação.

​Ela tocou o Pingente da Máscara de Prata. O metal estava incandescente, queimando a sua pele.

​- Aguenta firme, seu pedaço de lixo. - Lyra sussurrou para o objeto, mas era mais um apelo.

​O cheiro vinha do telhado. Um vampiro não usaria a porta ou as escadas, não quando a caça era tão... delicada. Estava procurando, usando a escuridão da noite a seu favor.

​Lyra arrastou-se até a pequena cômoda onde guardava a sua única arma, uma faca de caça de aço negro (encantada para reter calor, um truque de bruxa). O movimento lento e pesado lembrava-lhe que, embora fosse uma híbrida, a gravidez a tornava frágil. Ela precisava de magia. E magia, com a Obsidiana lhe sufocando, era perigoso.

​Se ele está no telhado, ele vai entrar pela claraboia da sala.

​Lyra levantou a mão livre, sentindo o pulso do Pingente aumentar. Ela não podia lançar um feitiço de ataque, mas podia lançar uma distração. Uma chama simples.

​Ela canalizou a sua fúria Lobisomem para o feitiço, usando a raiva para ignorar a dor. A Obsidiana na Máscara vibrou, e a pedra soltou um chiado agudo. Lyra sentiu uma pontada de náusea, o cheiro forte de enxofre preenchendo o ar.

​Não, não, por favor...

​Antes que pudesse dominar a energia, o Pingente cedeu. Não houve explosão, mas a obsidiana rachou mais uma vez, e uma onda de força irrompeu, batendo na parede. Não foi o fogo que ela procurava. Foi uma rajada de vento violenta e descontrolada, uma força elemental que arrebentou o pequeno lustre da sala e apagou a lâmpada de cabeceira.

​O vampiro no telhado soube naquele instante: ela estava ali e estava lutando.

​Na escuridão repentina e cortada apenas pelo brilho rachado da Prata, Lyra ouviu o som claro e assustador: a claraboia quebrando.

Capítulo 2 O Confronto no Escuro

​Na escuridão repentina e cortada apenas pelo brilho rachado da Prata, Lyra ouviu o som claro e assustador: a claraboia quebrando. Cacos de vidro caíram no tapete da sala de estar.

​A figura que desceu era rápida e silenciosa, um borrão em um terno escuro. Seus passos não faziam barulho no piso de madeira, um sinal de sua leveza sobrenatural. O ar frio da noite o seguia. Ele era alto, de ombros largos, e a penumbra apenas acentuava a geometria angular de seu rosto.

​- Lyra da Matilha Mista. Uma tragédia, de fato - A voz dele era um sussurro grave, com a frieza de quem recita um epitáfio. - Seu aroma é... inconfundível, mesmo através daquela joia barata.

​Lyra não respondeu. Ela recuou, sua mão agarrada ao cabo da faca de aço negro. O medo que sentia era agora convertido em uma raiva fria, a parte Lobisomem gritando por ataque, a parte Bruxa calculando.

​- Você não me interessa, híbrida. Só o que você carrega. O Tribrido. Entregue-o agora e eu farei a sua morte rápida e sem dor.

​Lyra usou a escuridão. Ela sabia que os vampiros viam no escuro, mas a rajada de vento que havia derrubado as lâmpadas também levantara a poeira e cortinas, criando uma distração visual mínima. Ela atirou a faca de aço negro em direção ao lugar de onde vinha a voz.

​A faca não acertou. Houve apenas um clang surdo, rápido demais. O vampiro a segurou no ar.

​- O aço é inútil. E por que está tremendo? A Bruxa em você está fraca. O Lobo está sedado pela prata. Você é a mais patética das caçadas.

​Ele jogou a faca de volta, não em Lyra, mas mirando o Pingente da Máscara de Prata.

​Lyra cambaleou para trás, evitando o impacto, mas a faca rasgou o ar perto o suficiente para que ela sentisse o frio da lâmina. A ameaça era clara: o caçador sabia o ponto fraco dela.

​Ele deu um passo à frente, e o cheiro de Canela e Mofo inundou o pequeno apartamento. Lyra estava encurralada contra a parede e o seu corpo, pesado pela gestação, recusava-se a obedecer à velocidade de que precisava.

​- Você me deve o favor de não prolongar esta noite, criança.

​Quando o vampiro estendeu a mão para o pescoço dela, Lyra fez a única coisa que lhe restava. Ela fechou os olhos e puxou o Pingente da Máscara de Prata.

Capítulo 3 A Liberação

​Não foi um movimento cuidadoso; foi um ato de desespero. O Pingente rasgou o tecido de sua blusa e caiu no chão. O som do metal atingindo a madeira ecoou no silêncio, mas foi rapidamente abafado pelo rugido que Lyra não pôde mais conter.

​A Obsidiana rachada liberou toda a energia mágica que havia absorvido. Uma onda invisível de poder Bruxo explodiu, empurrando o vampiro para trás e chocando-o contra a parede com a força de um pequeno carro. Ele soltou um ruído áspero de surpresa e dor.

​Lyra não esperou. No instante em que a prata deixou sua pele, o Lobisomem foi libertado. A dor da transformação sob o estresse da gravidez foi excruciante, mas Lyra a abraçou. Seus ossos se estalaram, não completamente, mas o suficiente para injetar nela uma força brutal e uma velocidade que ela não sentia há meses. Seus olhos passaram de castanho opaco para um dourado líquido e furioso. Presas se alongaram ligeiramente.

​- Você disse patética? - O som que saiu da garganta de Lyra não era humano; era um rosnado guttural, amplificado pela fúria.

​O vampiro se levantou, mas agora ele via a diferença. Ele via o perigo. O cheiro de Canela e Mofo foi ligeiramente sobrepujado pelo cheiro de Terra, Pinho e Tempestade que emanava de Lyra.

​Mas havia algo mais. Um terceiro cheiro. Frio, metálico e imensamente potente, emanava da sua barriga. O poder do Tridrido, sem a supressão do pingente, era um farol.

​O vampiro rangeu os dentes. - Você é uma tola! Você o revelou!

​Lyra usou a velocidade que lhe restava. Não atacou diretamente; usou a magia ambiente. Em um piscar de olhos, ela estendeu a mão para a claraboia quebrada. As partículas de vidro flutuaram no ar, envoltas em um brilho roxo-claro, e em seguida se transformaram em estilhaços afiados.

​Ela não os atirou. Ela os rodeou de fogo.

​No meio da sala escura, um anel de estilhaços flamejantes voou em torno do vampiro, criando um calor insuportável e cortando a sua velocidade. Não era um ataque para matá-lo, mas para ganhar tempo. O fogo era uma arma antiga contra a qual os Vampiros se protegiam.

​Lyra sabia que a sua vantagem seria breve. O Tribrido o drenava rápido.

​Ela se virou e, sem olhar para trás, correu em direção à porta do apartamento. Sua única chance era escapar para a noite.

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