Sob sol que incidia como se o mundo estivesse num forno escaldante, ondas de calor subiam do chão e distorciam o ambiente a cada passo.
Com um empurrão violento, Stephanie Walsh perdeu o equilíbrio e quase caiu quando sua mochila foi arremessada a seus pés.
"Stephie, não me chame de insensível. Nossa empregada trocou você pela minha filha biológica, Aimee, sem que soubéssemos. Por anos, você viveu uma vida confortável aqui enquanto Aimee lutava para sobreviver. Agora que Aimee voltou, está na hora de você voltar para sua verdadeira família. A única coisa que sei é que você nasceu em Greenvale e o sobrenome do seu pai é Walsh. Vá encontrá-los e não entre em contato conosco nunca mais."
Colin Clayton arremessou um grosso rolo de notas no chão. "Aqui estão dois mil. Use esse dinheiro para chegar onde quer que esteja indo. Não volte mais."
"Não preciso disso." Stephanie, sem sequer olhar para o dinheiro, abaixou-se para pegar a mochila, sacudiu a poeira e os encarou com olhar mais frio que aço.
Talvez partir, enfim, significasse liberdade: fim de pisar em ovos diante do humor deles, fim de mendigar afeto que sempre desembocava em desprezo e acusação.
Colin e sua família agiam como se ela lhes devesse tudo, como se sem a caridade deles não tivesse sobrevivido.
Porém, só ela sabia que, logo que souberam que não era filha biológica, fora rebaixada a empregada silenciosa que mantinha a casa em ordem nas sombras.
Já era hora de dar um ponto final nesse capítulo da sua vida.
Ao ver Stephanie recusar o dinheiro, o rosto de Colin se contorceu em fúria. "Sem esse dinheiro, você não vai chegar muito longe. Mas não diga que nunca tentei te ajudar."
Ele a encarou com um olhar severo, a irritação aumentando à medida que seus olhos se encontravam.
Stephanie, outrora o orgulho da casa - menina inteligente e obediente - transformou-se em motivo de vergonha que ainda queimava na mente do homem: depois do ensino fundamental passou a faltar, meter-se em confusões e, no médio, arrancou as piores notas de todas as matérias.
Com os braços cruzados, Aimee Clayton lançou um olhar de escárnio para a mãe. "Mãe, e se ela não conseguir sobreviver lá fora e tentar voltar se arrastando para nós?"
Os olhos de Davina Clayton ficaram frios, sua raiva mal disfarçada. "Tentar voltar? Sem chance! Me dediquei de corpo e alma para criá-la, a tratando como se fosse minha filha de verdade. E o que recebi em troca? Nada além de decepção. Se ela colocar os pés aqui novamente, eu mesma lhe mostrarei a porta."
Aimee abriu um sorriso, satisfeita com as palavras da mãe. "Já é hora de ela aprender o que é dificuldade. Ela roubou minha vida e a viveu no luxo por mais de dez anos. Agora ela pode ver como é a vida real. Com notas como as dela, ela provavelmente acabará pedindo esmolas, enquanto eu irei para a Universidade de Veridia em breve."
Stephanie ouviu cada palavra e soltou uma risada baixa e divertida.
Ela roubou a vida de Aimee e a viveu no luxo por mais de dez anos?
Que piada! Eles nunca se enxergaram com clareza.
Há uma década o patrimônio líquido mal chegava a um milhão, e foi só nos últimos anos que a fortuna acabou disparando.
Colin, que antes era um ninguém no mundo da arte, de repente se tornou uma figura célebre, com cada pintura vendida por milhões.
A família não perdeu tempo em exibir sua fortuna recém-adquirida, abrindo sua própria galeria de arte e fundando o Grupo de Arte Krarville.
Com o dinheiro entrando, eles trocaram sua origem humilde por uma mansão luxuosa no centro da cidade.
Colin assumiu as rédeas como presidente, e seus dias de repente ficaram cheios de admiradores e alpinistas sociais ávidos por sua atenção.
Nada do sucesso deles teria sido possível sem Stephanie trabalhando silenciosamente nos bastidores, pois foi ela quem abriu o caminho para eles na alta sociedade. Sem ela, eles ainda estariam lutando na obscuridade.
Para ela, tudo o que havia feito era suficiente para pagar qualquer suposta dívida que tivesse pelos anos de abrigo. A partir desse momento, ela estava livre deles, sem mais laços para prendê-la.
Colocando a mochila nas costas, Stephanie se afastou, um peso finalmente saindo de seus ombros.
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Enquanto isso, dentro de uma grande mansão na cidade de Akasey, a família Walsh estava reunida para uma videochamada internacional.
Três jovens atraentes apareceram na tela, cada um com a mesma expressão de vergonha e arrependimento.
Aaron Walsh, o patriarca da família, bateu com força a bengala na mesa, o olhar duro como aço.
"Dezoito anos se passaram e nenhum de vocês encontrou sua irmã? Vocês dizem ser brilhantes, mas onde estão os resultados?"
A família Walsh era a mais rica do país, e os três jovens Walsh dominavam suas respectivas indústrias como líderes por onde passavam, de modo que, uma palavra de qualquer um deles poderia causar ondas de choque no mundo dos negócios.
No entanto, agora eles estavam afogados em culpa e arrependimento, sentimentos que os assombravam há quase duas décadas.
Muitos anos antes, sua irmãzinha - linda, doce e com apenas oito semanas de vida - era a luz da família até desaparecer num momento de descuido.
Por dezoito longos anos, a família revirou cada canto, apenas para descobrir que ela havia sido sequestrada por traficantes e vendida várias vezes, com o rastro ficando cada vez mais frio a cada ano que passava.
Owen Walsh, o mais velho entre os três, endireitou os ombros e disse com firmeza: "Vovô, não vamos desistir. Vamos encontrá-la. Não importa o que aconteça, vamos trazer nossa irmã para casa."
Antes que Aaron pudesse expressar sua frustração crescente, o mordomo irrompeu pela porta, agitando uns documentos, com a empolgação estampada no rosto. "Senhor, recebemos notícias sobre a senhorita Walsh!"
Num salto, Aaron se levantou da cadeira, seus olhos brilhando de esperança. "Tem certeza? Me mostre agora!"
Ele examinou os papéis com as mãos trêmulas e soltou um suspiro trêmulo. "Finalmente temos uma pista. Temos notícias da minha neta!"
O alívio do mordomo também era evidente. Ao longo dos anos, ele viu o anseio de Aaron por sua neta quase o consumir, causando mais de uma crise de saúde.
"Ela está em Krarville."
"Prepare o carro. Vamos para Krarville agora mesmo!"
Stephanie nem se preocupou em ir para Greenvale, onde seus pais biológicos viviam. Em vez disso, ela ligou sua scooter e voltou rapidamente para seu verdadeiro refúgio.
As Casas Pineview aparentavam ser um condomínio comum por fora, mas oculto atrás de sua fachada discreta havia um mundo de segredos do passado.
Quando Stephanie entrou, o sistema identificou seu rosto e a deixou entrar sem qualquer problema.
Nesse instante, Hugh Curtis, carregando uma vara de pescar e cheirando a rio, a avistou. "Stephie! Pensei que você tivesse desaparecido para sempre."
Ela acenou com um sorriso. "Oi, Hugh."
O senhor segurou o guidão da moto dela, ansioso para conversar. "Você sumiu por quase três semanas. Os remédios que você receitou para minha esposa estão quase acabando. Ah, e você sabe - os comprimidos que os especialistas me deram não fazem efeito algum para meu enfisema. Talvez sua receita seria melhor."
Stephanie assentiu, tranquilizando-o. "Já atualizei seu plano de tratamento, então não se preocupe com isso."
Todos que moravam lá sabiam que, apesar de ser jovem, o conhecimento médico de Stephanie era incomparável - ela era capaz de curar doenças que nem os médicos do melhor hospital da cidade conseguiam resolver.
No entanto, esse não era um bairro qualquer, onde a maioria dos moradores carregava passados interessantes.
Hugh, por exemplo, já havia sido um oficial de alto escalão do exército.
Após estacionar sua moto, Stephanie disse por cima do ombro: "Vou atender os pacientes esta noite."
Assim que ela chegou à porta de seu apartamento, uma voz feminina suave a cumprimentou: "Bem-vinda ao lar."
Seu lugar era uma maravilha de design contemporâneo - elegante, tecnológico - fruto dos 20 milhões que ela despejara para deixá-lo exatamente como queria, obra-prima da qual se orgulhava de verdade.
Depois de um banho rápido, Stephanie estava prestes a pegar o celular para jogar um joguinho quando ele começou a tocar.
Sem nem verificar o identificador de chamadas, ela atendeu.
"Soube que você finalmente cortou os laços com os Claytons. Recebemos dois pedidos enormes. Devemos aceitá-los?", perguntou Milly Wheeler do outro lado da linha, seu braço direito e assistente de confiança.
Stephanie pegou uma lata de refrigerante gelada na geladeira, abriu e murmurou: "Certo, pode falar."
"Primeiro, a família Walsh, a mais rica do país, acabou de oferecer uma recompensa de 20 milhões para encontrar sua neta, que está desaparecida há anos. Eles alegam que ela está em algum lugar de Krarville. Sinceramente, é dinheiro fácil. Não é algo que mudará nossas vidas, mas manteria nossa base funcionando por um mês."
Um sorriso entediado surgiu nos lábios de Stephanie. "Passe. Não estou interessada. O que mais tem aí?"
Milly pareceu mais entusiasmada. "Você vai querer este - já ouviu falar do lendário Waylon Elliott, não é? Ele está oferecendo 30 milhões se você, como a lendária doutora Clayton, assumir um caso. Ele quer a melhor mente médica, e essa é você."
Os olhos de Stephanie se iluminaram. "Agora me interessei. Me conte os detalhes."
"Ele é um dos principais nomes de Krarville e foi visto recentemente com o traficante de armas Rory Sawyer."
Essa informação deixou Stephanie pensativa. "Então é por isso que o Rory tem me rondado esse tempo todo. Não vou deixar que o mercado de armas do nosso país caia nas mãos de outra pessoa. Preciso encontrar Waylon pessoalmente."
"Sem dúvida! Essa é uma grande oportunidade. Mas fique atenta - ele está reunindo todos os tipos de médicos de alto nível no Hotel Pearl para uma consulta conjunta."
A curiosidade brilhou nos olhos de Stephanie. "Por que tantos médicos? Qual é o problema do paciente?"
"Os detalhes são mantidos a sete chaves, mas há rumores de que alguém próximo a Waylon está gravemente doente. Deve ser algo sério para ele ter ido tão longe."
Stephanie tomou um longo gole, saboreando o refrigerante gelado. "Tô dentro. Coloque na minha agenda."
Quanto mais difícil o caso, mais despertava a curiosidade de Stephanie, que adorava um bom desafio e, acima de tudo, precisava encontrar Waylon para reaver seu negócio de armas. ...
No dia seguinte, Stephanie saiu de casa bem cedo em sua scooter.
Quase uma hora depois, chegou ao Hotel Pearl, o lugar mais caro de Krarville.
Carros de luxo enfileiravam-se na entrada, desfilando riqueza e prestígio, enquanto a scooter de Stephanie parecia deslocada entre sedans polidos e SUVs reluzentes.
Dentro do hotel, a equipe agitava-se sob o comando da segurança dos Elliott para receber médicos renomados, socialites e políticos ansiosos pelo favor de Waylon.
Assim que ela encontrou uma vaga, o gerente do saguão se aproximou, com a irritação estampada no rosto. "Ei! Quem você pensa que é para aparecer num lugar como este? Suma daqui!"
Stephanie mantinha a calma, se equilibrando com um pé na calçada. "Sou médica e vim para uma consulta."
"Você? Não me faça rir!" O gerente caiu na gargalhada, apontando para ela com descrença. "Você mal parece ter idade para votar. É impossível que seja médica."
Virando-se em direção à entrada, ele gritou para a equipe de segurança: "Vocês dois, escoltem essa caipira e sua scooter para fora daqui agora mesmo!"
Os dois seguranças se aproximaram, cada um pegando a scooter de Stephanie, prontos para retirá-la dali.
Stephanie, por sua vez, nem se deu ao trabalho de comprar a briga, pois já havia perdido a conta de quantas vezes as pessoas a subestimaram apenas pela sua idade.
Tranquilamente, ela estendeu o celular, posicionando o polegar sobre a tela. "Esperem um momento. Mostrem isso aos Elliott. Eu sou a doutora Clayton e fui convidada para uma consulta médica."
Doutora Clayton era o nome profissional que ela usava no Instituto Nacional de Pesquisa em Biotecnologia.
Os seguranças apenas deram de ombros, sem se deixarem impressionar. "Doutora Clayton? Nunca ouvimos falar. Circulando, e pare de bloquear a entrada."
Com um suspiro suave, Stephanie balançou a cabeça, pois não importava o quanto ela tivesse avançado, sempre havia pessoas dispostas a julgá-la à primeira vista.
Antes que ela pudesse tentar novamente, uma voz familiar interrompeu a confusão: "Stephanie? O que está fazendo aqui? Não deveria estar voltando para o interior?"
Ao se virar, Stephanie se deparou com Aimee, que a olhava com um sorriso de desdém nos lábios. "Lugares como este não são para gente como você."
Ela havia acabado de iniciar seus estudos em pintura a óleo na Universidade de Veridia e tinha ido ao hotel na esperança de conhecer o famoso pintor Carl Russell. Encontrar Stephanie lá era a última coisa que ela esperava.
Como hoje o saguão estava repleto de pessoas conhecidas, Aimee sentiu o rosto queimar só de pensar que alguém poderia associá-la a Stephanie, cujas roupas simples e jeito desajeitado destoavam da multidão glamourosa.
Desesperada para salvar as aparências, ela tentou afastar Stephanie, que mal olhou para ela, já se virando para ir embora.
Na verdade, ela não estava muito interessada na consulta de Waylon desde o início, por isso, não tinha nenhum problema em ir embora.
De repente, gritos surgiram perto da entrada do hotel. "Socorro! Tem algum médico aqui? Alguém acabou de desmaiar!"
Rapidamente, uma multidão se formou em volta da confusão.
"Olhem para os lábios dela. Estão ficando azuis e seu rosto está tão pálido. Ela não para de tremer. Será que ela vai morrer?"
"Ela está encharcada de suor - a camisa dela está toda molhada..."
Sem hesitar, Stephanie subiu na sua scooter e acelerou em direção à confusão.
"Stephanie, para onde está indo?", Aimee gritou, correndo para alcançá-la.
Quando Stephanie chegou ao local, o que viu a fez parar: uma garota estava deitada no chão, com um lado do corpo visivelmente maior que o outro, suas feições estranhamente irregulares. Tremores violentos abalavam seu corpo, e seus membros se contorciam em ângulos estranhos, enquanto sua boca e olhos se puxavam bruscamente para um lado, com toda a sua expressão distorcida.
A condição era inconfundível: um caso extremamente raro de hemi-hipoplasia.
"Ela nasceu assim?"
"Ela parece tão estranha..."
"Pessoal, por favor, se afastem. Sou médica."
Stephanie sacou seu estetoscópio e começou um exame rápido, mas minucioso, verificando as pupilas da garota e auscultando-lhe o coração e os pulmões.
Aimee estava na beirada do círculo, atônita com a habilidade de Stephanie.
Por fim, sem conseguir se conter, ela exclamou: "Stephanie, o que pensa que está fazendo? Como ousa se passar por médica?"
Stephanie lançou um olhar firme para Aimee. "Cale a boca."
Sem se abalar com as feições distorcidas da garota, ela a moveu do sol para a sombra com cuidado.
Recusando-se a deixar Stephanie provar sua competência, Aimee elevou a voz para que todos ouvissem: "Pessoal, me escutem! Eu a conheço. Ela não é médica! Ela só está fingindo, e se deixarmos que continue, ela acabará matando essa pobre garota. Temos que impedi-la agora mesmo!"
"Sinceramente, ela parece saber o que está fazendo", discordou uma mulher na multidão.
Um homem acenou com a cabeça em apoio. "Ela tem um estetoscópio e até um monitor de pressão arterial. Pelo que sabemos, ela pode ser médica de verdade. Você não deveria julgar tão precipitadamente."
"Vocês estão errados. Ela não entende nada de medicina. Ela vai matar essa garota!", Aimee gritou ainda mais alto, se recusando a recuar.
Em seguida, ela se lançou para frente, tentando arrastar Stephanie para longe. "Pare com isso! Você já estudou medicina? Só saia do caminho!"
Sem pestanejar, Stephanie a encarou. "Se não pode ajudar, pelo menos não atrapalhe. Não dificulte as coisas."
Ignorando a comoção, ela abriu o zíper da mochila e desdobrou um estojo médico compacto de metal, cujo interior era forrado com frascos, seringas e instrumentos esterilizados, todos bem organizados.
Pegou um frasco branco, retirou um único comprimido azul e ajudou a garota a engoli-lo cuidadosamente.
Alguns segundos se passaram, as convulsões diminuíram e, em seguida, cessaram.
Por fim, a garota ficou imóvel, com a respiração regular e calma.
O silêncio era total, até que Aimee gritou: "Stephanie, o que você fez? Você a matou!"