"Agora você pode beijar a noiva," murmurou o padre ao casal recém-casado.
O salão estava lotado quando Leila chegou ao casamento. Ela olhou pelas fileiras de convidados aplaudindo, tentando encontrar sua melhor amiga, Freya.
Uma animação tomou conta do local quando o casal se beijou e Leila ficou corada. Fazia tempo que ela não era beijada ou sequer abraçada direito por um homem.
"É assim que seu futuro marido vai te beijar," alguém sussurrou em seu ouvido.
Leila se assustou. Sua melhor amiga riu do seu susto. "Você chegou tarde. Já passou a melhor parte."
Leila tentou esconder um sorriso. Por ela mesma, nem estaria aqui, mas sua amiga estava empenhada em arranjar para ela um 'homem', como se isso fosse resolver todos os problemas do mundo. Sim, ela sentia falta de ter um homem, mas não era tão grave quanto Freya imaginava. Ela ajeitou a frente do vestido e se deixou ser levada por Freya.
A brisa suave jogou seu cabelo no rosto e ela prendeu as mechas negras atrás das orelhas. Elas pararam na entrada de um jardim aberto, montado para a recepção do casamento. Freya a incentivou a avançar.
Uma banda ao vivo tocava em um palco improvisado enquanto se acomodavam atrás de uma das mesas redondas. "Solteirona," chamou Freya. "Seu Tinder ainda tá ativo?"
Leila revirou os olhos antes de responder. "Tá sim."
Estar solteira não era o fim do mundo, mas o que ela sabia? Freya pegou o celular, e ela fez o mesmo, por falta de coisa melhor pra fazer. O primeiro aplicativo que abriu foi o Tinder. Freya criou a conta para ela, e devia ser a usuária mais inativa do app. Seu perfil era sem graça, assim como a foto de exibição.
"Bom. Mantenha ativo." A empolgação de Freya não a contagiava. Desde que Freya encontrou um parceiro, transformou isso em uma missão também para Leila. "Tem homem interessante entre os convidados."
E Leila não estava nada interessada neles. Seus olhos examinavam o jardim enquanto Freya continuava mexendo no celular, provavelmente conversando com o marido. O lugar estava vazio, exceto por elas, a banda e os fornecedores preparando as refeições.
Não, espera. Havia mais uma pessoa. Um homem.
Ele estava com a cabeça abaixada, olhando para o celular, sua roupa cinza ajustada ao corpo. O homem deve ter percebido o olhar dela porque levantou a cabeça. Passou os dedos pelo cabelo, como se estivesse bravo com algo, e Leila corou. Ele era bonito.
Ele arqueou uma sobrancelha quando ela continuou olhando, e ela desviou o olhar. Suas bochechas aquecendo, ela pegou o celular e fingiu digitar algo.
Freya se levantou. "Preciso pegar algo lá fora." Leila sentiu os olhos do estranho em suas costas, mas não se virou. Freya ajustou o cabelo e o vestido. "Como estou?" Leila deu um sinal de positivo para sua melhor amiga. Como sempre, Freya estava deslumbrante. "Obrigada. Não vá a lugar nenhum."
Ela poderia tentar, mas Freya a submeteria a uma longa palestra sobre socialização. Um dos garçons deixou uma garrafa de vinho na mesa e Leila murmurou seu agradecimento.
Vozes baixas chegavam aos seus ouvidos, a banda trocou de música quando os noivos entraram. O homem sorriu para a esposa e ela respondeu com um sorriso. Leila não os conhecia. Eles eram amigos de Freya. Mais uma vez, sentiu aqueles olhos sobre ela e espiou sob os cílios para tentar ver.
Sobrancelhas grossas. Lábios cheios. Maxilar marcado. Nariz delicado. Cabelo curto que caía constantemente sobre a testa dele. Ela queria se aproximar dele e ajeitar o cabelo fora do rosto dele.
O mestre de cerimônias disse algo que Leila não ouviu porque estava concentrada naquele estranho, mas fez os convidados rirem. Os lábios do estranho se curvaram como se ele soubesse o efeito que causava nela. Suas bochechas esquentaram, ela voltou para o aplicativo Tinder, determinada a não dar ao estranho bonito a satisfação de encontrar seu olhar novamente.
Ela franziu a testa para a tela. Ela havia sido correspondida com alguém. Um Kelvin. Isso era estranho. Este era seu primeiro match em seis meses.
O perfil do cara era quase igual ao dela. Curto e sem graça. A foto de exibição não mostrava o rosto dele, mas o corpo, e ela babou. Seus dedos rapidamente apertaram o botão de aceitar e imediatamente uma mensagem dele apareceu.
Kelvin: Oi.
Tentada a responder imediatamente, ela abriu um aplicativo de jogo no celular em vez disso. Não queria dar a impressão de estar desesperada.
Alguém riu na multidão. O jardim já estava cheio e eles estavam brindando aos noivos. Leila pegou uma taça de vinho da bandeja de um garçom e brindou ao ar.
Onde estava sua melhor amiga?
Outra mensagem chegou de Kelvin. Ela não demorou para responder a esta.
Kelvin: Está ocupada?
Leila: Mais ou menos. Estou num casamento que minha melhor amiga me arrastou.
Kelvin: O mesmo aqui. No meu caso, perdi uma aposta, então tive que vir. Estou entediado até a morte. Casamentos não são minha praia, mas um homem solteiro não tem muita escolha nesses assuntos. Minha irmã está tentando me arranjar um encontro.
PS: Eu não perdi a aposta para o meu melhor amigo. Perdi para minha irmã. Estou aqui por ela.
Ela riu. Ele estava divagando, mas ela gostou.
Leila: Também estou entediada. Ai, meu Deus. Entendo você. Eu também não tive escolha. E agora minha melhor amiga sumiu. Viva eu. As vantagens de estar solteira. Queria poder ir embora.
Kelvin: Eu também. Posso ser sua passagem para sair da terra do tédio. O que você acha?
Enquanto mordia o lábio, ela fez que sim com a cabeça, como se ele pudesse vê-la.
Leila: Estou dentro. Estou na rua Corey. A moça triste em um vestido de seda preto e batom vermelho esperando seu príncipe encantado aparecer. Lol. Dá pra ouvir a música tocando na rua, mas se não ouvir, me avise que te dou as direções. Aqui está meu número. Ligue, não mande mensagem.
Empolgada de emoção, Leila deixou seu número. Pelo menos, Freya pararia de importuná-la por um minuto. Falando em melhores amigas, Freya estava demorando demais. Ela mandou uma mensagem e franziu a testa com a resposta.
"Surgiu um imprevisto. Volto já."
Mais um motivo para ela sair com este tal de Kelvin. A cadeira que Freya ocupava rangia, e ela olhou para cima para ver o estranho charmoso.
"Leilani." Sua boca se abriu. Como ele sabia o nome dela? Ele acenou com o celular e ela viu seu perfil do Tinder. Kelvin. O estranho charmoso era seu match no Tinder. "A moça triste esperando pelo príncipe encantado, lembra? Bem, estou aqui agora. Não fique mais triste." Leila riu. Esse papo soava muito melhor por mensagem. "O vermelho fica realmente ótimo em você, Leilani. Este lugar está ocupado?"
Ele se sentou antes que ela respondesse e ela reprimiu a vontade de revirar os olhos. De perto, ela pôde ver que seus olhos eram cinzentos e seus lábios mais carnudos do que pareciam de longe. Kelvin aceitou uma taça de vinho espumante da garçonete que se aproximou da mesa. Ele bebeu tudo de uma vez e pediu outra.
"Você não deveria beber tanto," Leila disse.
"Não deveria." Mas ele chamou um novo garçom e pediu sua terceira taça. "Mas estou."
"Dia difícil?" ela perguntou.
"É." Kelvin segurou a taça, tomando goles lentos. "Cadê sua melhor amiga?"
"Ela se foi."
Eles ficaram em silêncio por um tempo, ela mexendo na alça da bolsa. "Você quer ir embora?"
Não podia simplesmente sair com um estranho, então balançou a cabeça. Tinha parecido uma boa ideia convidá-lo pelo telefone. Ele estava acima das expectativas de Leila, mas Freya aprovaria.
"Acho que vou ficar aqui por um tempo."
Comidas e petiscos circulavam pelas mesas. Ela ficou com água na boca ao ver a delícia colocada na sua mesa. A banda tocava uma música lenta para combinar com o ambiente. Ela mergulhou nos seus petiscos, mas as refeições de Kelvin permaneciam intocadas.
"Já se perguntou por que as pessoas se casam?"
Muitas vezes. "Sim. É algo bonito."
Mas não tinha certeza se um dia iria vivenciar isso. Casamento e amor eram contos de fadas que não existiam para Leila. Ela deu um gole na taça de vinho do brinde e olhou bem para Kelvin. Ele massageava o queixo e inclinou a cabeça levemente para lhe dar uma piscadela.
Sentiu o calor subir pelo pescoço e soltou o cabelo para esconder o sinal do seu constrangimento.
"O que você acha do casamento?" ela perguntou.
"É legal." Seus dedos tamborilavam na mesa. Ele pegou um pedaço de maçã da bandeja de frutas e o devolveu. "Não me vejo casando."
Nem ela. "Por quê?"
Kelvin finalmente comeu a maçã e pegou outra fatia. Ela terminou o resto dos petiscos e ele empurrou os dele para ela. Seus lábios se abriram em um sorriso de gratidão e ele sorriu de volta.
"Não sei. Encontrar a pessoa certa é mais difícil do que parece. Meio que sinto falta dos velhos tempos quando os pais escolhiam os parceiros para os filhos."
"Você poderia trazer isso de volta," ela disse para animá-lo. Ele parecia melhor quando sorria ou dava um sorriso maroto. "Poderia encontrar um parceiro que você não conhece," ela provocou. "Era assim que funcionava."
Os métodos antigos eram terríveis. Crianças eram prometidas a pessoas que não conheciam. Para ela, isso era inaceitável. Os olhos de Kelvin se estreitaram com um sorriso.
"Quer que eu traga isso de volta?" O tom dele era tão leve quanto o dela, cheio de provocação e travessura.
"Claro. Por que não?" Leila terminou a bebida e estremeceu. Sentindo-se encorajada, disse: "Quem não quer casar com um estranho?"
Ele se endireitou na cadeira. "Então, se um estranho te pedir em casamento, você diria sim?" O sorriso dela sumiu. Ele estava levando a brincadeira a sério. Os olhos de Kelvin percorreram o jardim e ele coçou a nuca. Pela primeira vez desde que chegou, parecia nervoso. "Estou prestes a te pedir uma coisa louca, Srta. Leilani."
"Quão louca?"
"Muito louca." Ela inclinou a cabeça e o avaliou de cima a baixo, depois deu sinal para ele falar. "Case-se comigo, Leilani."
"O que?"
De todas as coisas loucas que ela ouvira o ano todo, essa era a mais louca. E o fato de ela estar pensando nisso a fazia parecer mais louca do que o homem que estava propondo casamento a uma total desconhecida.
"Case-se com este estranho."
* * *
NOTA AOS LEITORES: Obrigado por prestar atenção a este livro.
Uma pessoa normal teria dito não, mas Leila parou de se considerar normal no momento em que assinou o contrato com Kelvin McKenna. Elas só tinham saído em dois encontros, pelo amor de Deus. Sua melhor amiga nem sabia porque ele a convenceu a fazer isso antes de contar para Freya. E ela concordou. Ela disse sim. Será que ela cometeu um erro?
Leila ainda estava pensando sobre isso quando entrou no prédio do trabalho, abriu a porta do escritório e fez uma pausa. Todos estavam lá. Ela deu uma espiada no relógio de pulso, não estava atrasada. Eram apenas cinco minutos depois das oito. Ela caminhou rapidamente até a mesa e colocou a bolsa e os arquivos.
Ela levantou a cabeça quando alguém se sentou em sua mesa. Lily. Elas não eram melhores amigas, mas Leila preferia ela àquela bruxa que a encarava. A missão de Sam naquele escritório era tornar sua vida miserável, mas Leila estava decidida a evitá-la o máximo possível. E já estava funcionando. Ela tinha recebido o prêmio de melhor funcionária do mês no mês passado pela terceira vez consecutiva.
Antes que Lily pudesse dizer uma palavra, Leila murmurou: "Pergunta aleatória, você se casaria com um estranho? Alguém com quem você só saiu duas vezes?"
Lily pensou um pouco. "Depende."
"Depende do quê?"
"Se ele for rico. Ele é rico?"
Leila não tinha uma resposta para isso. Seria estranho discutir isso com ele, mas até agora, ele parecia estar bem de vida. Ele deu a ela um cartão preto e o apartamento dele era confortável.
"Você queria dizer algo," Leila murmurou.
Lily assentiu. "Sim. Você ficou sabendo?"
Leila mordeu os lábios. Se fosse mais uma fofoca de escritório, ela não estava interessada. "Saber o quê?"
"Sobre a fusão." Leila suspirou. "Temos um novo chefe."
Seus olhos se arregalaram ao olhar para o rosto de Lily, e a mulher enrolou os dedos em seu longo cabelo loiro-avermelhado. Além do cabelo comprido, ela invejava o rosto impecável de Lily e sua compostura. Ao contrário dela, Lily não tinha aquela marca de nascença irritante no maxilar que chamava a atenção para ela. As pessoas queriam olhar para Lily porque ela era bonita, não porque tinha uma marca esquisita.
"A Sarah foi demitida?" Leila perguntou.
Cada departamento no Tech Valley tinha seu próprio líder. Às vezes, Sarah ficava insuportável sob pressão, mas ela era uma das poucas chefes de departamento de quem Leila gostava. Lily balançou a cabeça com um pequeno sorriso.
"Não." Ela se inclinou sobre o laptop de Leila, virando a tela para que Leila pudesse digitar sua senha. "O chefe da chefe. Sarah tem um novo chefe."
"Ah."
"É, você deveria ter recebido um e-mail." Seus olhos percorreram a sala antes de finalmente descansar em Leila. "Eu recebi o meu hoje."
Leila ficou quieta enquanto Lily digitava em seu laptop. Ela arrancou o elegante dispositivo de Lily quando esta abriu seu e-mail, e uma desculpa escorregou de seus lábios ao ver a carranca de Lily. Lá estava sua certidão de casamento. Kelvin lhe enviou uma cópia digital junto com uma cópia do contrato que definia o futuro do casamento deles.
Dois anos. Se ela não estivesse satisfeita com o estado das coisas entre ela e Kelvin, ela poderia partir com a casa deles, um carro de sua escolha e um milhão de dólares na conta. Parte dela esperava nunca precisar do contrato. Hoje era o segundo dia do casamento, mas ela estava disposta a fazer funcionar, ou pelo menos tentar.
"Você sabe quem ele é?"
Lily balançou a cabeça. "Ela não disse muito, mas temos que recepcioná-lo hoje. Por isso aquela lá..." Sua voz tinha um tom de irritação enquanto lançava um olhar para a mesa de Sam. Ambas não gostavam dela. Sam estava no departamento de notícias, então raramente se encontravam, por isso foi uma surpresa vê-la no departamento de produção. "...está aqui. Ela vai entrevistá-lo hoje."
Seus olhos encontraram os de Sam, e Sam fez um som de desdém. Se Leila fosse tão insensível quanto aquela mulher de franja, já teria trocado o roteiro de Sam há muito tempo para que ela fosse demitida. Mas Leila era boa demais para isso. Sam poderia ser uma pessoa terrível, mas era uma ótima repórter, uma das melhores do Tech Valley.
A porta do escritório se abriu e Sarah surgiu na entrada, seus olhos afiados varrendo a sala. "Lily Bloom, você não é paga para ficar na mesa dos outros." Leila ouviu o som de risadinhas abafadas e olhou para cima a tempo de ver Sam rindo. "Levante-se ou saia daqui."
"Desculpa," Lily ofereceu enquanto se apressava para sua cadeira.
"Guarde suas desculpas inúteis para os mortos," ela trovejou.
Os lábios de Lily se moveram, mas ela não disse uma palavra enquanto se acomodava. Leila ofereceu um sorriso para sua amiga, e ela piscou. Essa era a Sarah para elas.
O escritório ficou em silêncio quando Sarah começou a dar ordens. "Samantha." Sam se levantou. "Você tem seu roteiro?"
"Sim, senhora."
"Ótimo. Sente-se. Você só vai apresentá-lo ao mundo e nada mais. Faça as perguntas que as pessoas querem ouvir. Faça seu trabalho." Sam assentiu de novo. "Quinze minutos. No máximo vinte minutos. Qualquer coisa além disso, e você passará o resto da vida procurando um novo emprego. Entendido?"
Lily e Leila trocaram um olhar, um sorriso surgiu em seus lábios enquanto o rosto de Sam ficava vermelho. Já acostumadas com a atitude de Sarah, elas não levaram a ameaça a sério, mas essa era a primeira vez de Sam no departamento. Que sorte a dela.
O telefone na mão de Sarah tocou, e ela empurrou o bloco de notas sob o braço e respirou fundo. "Ele chegou." Seus olhos pararam em todos. "Sam e o resto da equipe de notícias vão conduzir a entrevista, mas ele estará aqui para inspecionar a equipe por trás dos roteiros maravilhosos." Enfiando as mãos nos bolsos do paletó, ela disse: "Se você não está preparado para este trabalho, agora é o melhor momento para desistir."
Alguns riram e Sarah suavizou. "Boa sorte a todos. Nosso futuro depende disso."
O departamento ficou tão quieto quanto um templo depois que Sarah e Sam saíram. Lily arqueou as sobrancelhas, mas não se atreveu a deixar seu lugar. Leila espreguiçou os braços e bocejou. Não dormiu bem. Demoraria um tempo para se acostumar a dormir em uma nova cama ou ser uma mulher casada.
Ela voltou a digitar em seu laptop ao mesmo tempo que um suspiro ecoou no escritório. Susie, a funcionária mais barulhenta entre elas, levantou o telefone e gritou: "Ele é um gato. Um gato com G maiúsculo." Para reforçar sua afirmação, Susie lambeu a tela. Leila fez uma careta. Ninguém se incomodou com seu comportamento, era típico de Susie. "Quero casar com ele."
Leila hesitou. Se perguntasse quem era, se veria envolvida na fofoca que Susie sempre estava disposta a espalhar. Mas estava curiosa para saber, poderia ser seu chefe. Ela poderia estar fora do mercado, mas ainda tinha o direito de admirar homens bonitos. No entanto, não achava que faria isso com frequência, seu marido era suficientemente atraente para ela. Leila olhou para o roteiro na tela. Tinha que revisá-lo.
Tech Valley era uma mídia que combinava tecnologia e entretenimento. Na maioria das vezes, eles precisavam encontrar maneiras de incorporar a tecnologia de forma divertida para manter a atenção da maioria dos espectadores mais jovens. Todos os roteiros dos roteiristas tinham que passar por elas antes de serem enviados ao departamento de notícias. No seu trabalho, não havia espaço para erros, então ela não podia se dar ao luxo de cometer um.
Lily foi mais rápida na pergunta. "Quem?"
"O chefe. Olha no teu WhatsApp. Mark mandou uma foto."
Mark era um dos videógrafos. Todos podiam contar com ele para fornecer a informação correta. Ela pegou o telefone e abriu o grupo do pessoal do Tech Valley. Eles tinham dois grupos, um para mensagens sérias e outro para fofocas e conversas e encontros.
A foto demorou alguns minutos para carregar e quando carregou, seu mundo desabou. Seu telefone escorregou de suas mãos e caiu no chão. Seu coração batia forte enquanto ela o pegava, colocou sobre a mesa e forçou um sorriso quando Lily lhe lançou um olhar preocupado.
Isso não podia estar acontecendo.
Leila momentaneamente esqueceu as rachaduras em seu novo Samsung e deslizou a tela. A foto era a mesma. Ela colocou o telefone com a tela para baixo e segurou a cabeça com as mãos.
Por que ele tinha que ser seu novo chefe?
O departamento estava mais barulhento do que antes, enquanto os funcionários discutiam sobre o marido dela. Ela estava mortificada quando Susie começou a comentar sobre a aparência dele. Um nó subiu por sua garganta e ela se forçou a tomar um gole de água de sua garrafa. Uma das regras da empresa era clara: nenhum relacionamento entre funcionários. Era proibido e mal visto, então a maioria das coisas que estavam dizendo só aconteceria em seus sonhos.
Ainda assim, os pensamentos deles a nauseavam. Ela não estava quebrando as regras ao ser casada com o chefe, mas se sentia como uma criminosa ao ouvi-los cobiçar ele e tentar imaginar como ele seria sem camisa. Ele era seu marido e ela nem sequer o tinha visto sem camisa ainda.
Susie era a mais estridente dos fofoqueiros, seu comentário sobre os lábios de Kelvin a incomodou e ela fez uma careta para eles quando riram da observação. Seu rosto esquentou ao lembrar do quase beijo dessa manhã. Kelvin era perfeito do jeito que era.
Lily puxou uma cadeira para perto dela, as instruções de Sarah pareciam ter voado janela afora com esse novo desenvolvimento. "Você viu a foto?"
"Sim," ela respondeu.
"Só sim?" Ela assentiu. Se falasse muito, poderia perder a paciência. "Esse homem é um pedaço de mau caminho. Eu quero ele," Lily disse com uma risada que se apagou quando Leila não a acompanhou. "O que foi que houve com você?"
"Desculpa. Não estou me sentindo muito bem."
O rosto de Lily se contorceu em preocupação, ela colocou a mão nas costas de Leila e encostou a palma na testa dela. "Você tomou algo para isso?"
"Ainda não." Ela contou até cinco antes de falar novamente. Como poderia tomar algo se o mal-estar não era real? "Acabou de começar. Vou ficar bem. Obrigada."
"Se você diz." Ela apontou para o celular de Leila, a tela iluminada com a foto do marido dela. "O que acha? Um gato, não é?" Ela suspirou sonhadoramente e Leila mordeu a língua para evitar gritar com Lily enquanto ela listava as boas qualidades dele. "Viu os olhos dele?" Lily suspirou de novo e Leila contou até vinte para estabilizar a respiração. "Não tenho chance com ele, sendo o chefe e tudo mais, mas você acha que ele está solteiro?"
Não!
"Você tem certeza de que está bem?" Lily perguntou quando ela se curvou. Ela estava mais do que bem. Só precisava de um tempo antes de gritar para todos calarem a boca.
"O que está acontecendo?"
As duas deram um salto com o som da nova voz. Lily xingou, Leila congelou. O marido dela estava ali. Ele olhou através dela como se fosse uma funcionária comum e ela queimou de vergonha quando ele bufou antes de se voltar para Lily. Seus dedos tamborilavam na mesa dela.
"Sem palavrões no escritório," ele avisou Lily. Olhando ao redor, ele disse: "Isso vale para todo mundo aqui." Leila não se lembrava de ter sentado, mas suas pernas já não aguentavam mais. "Quem não está bem?"
Um nó se formou na garganta dela, e Lily lançou-lhe um olhar de desculpas. Elas não sabiam se o silêncio seria a melhor opção nessa situação. "Eu," Leila finalmente se prontificou a responder, salvando Lily de possíveis problemas. "Sou eu."
"O que há de errado com você?"
Kelvin colocou uma mão no bolso e se inclinou para frente, de modo que ela não teve escolha a não ser olhar para ele. Ele a intimidava. A voz. A aparência. Tudo nele.
"Nada," ela respondeu. Ele levantou uma sobrancelha. "Estou tonta, mas é algo que consigo aguentar, senhor."
"Precisa tirar o dia de folga?"
Leila não sabia se ele estava perguntando por preocupação genuína ou porque era o que se esperava dele. Ela balançou a cabeça devagar. "Não, senhor. Vou ficar bem. Obrigada, senhor."
"De quem é o celular?" Ele apontou para o celular dela.
Felizmente, a tela havia se apagado. Ela tentou retirá-lo da mesa, mas o olhar dele a impediu.
"Meu," ela sussurrou. Todos estavam olhando para eles. Alguns com pena, outros com indiferença. O jeito como ele focou nas rachaduras da tela a fez dizer: "Isso aconteceu hoje. Caiu quando eu estava com pressa."
Kelvin virou-se de costas para ela sem dizer mais uma palavra, e ela soltou o ar quando ele foi até a mesa da Susie para interrogá-la. Sua ansiedade se transformou em irritação com a facilidade com que Susie respondia às perguntas dele. Ele não estava flertando com ela, estava?
Sarah entrou em seguida para fazer uma apresentação geral. Leila forçou seu nome a sair de seus lábios quando chegou sua vez e desviou o olhar quando Kelvin franziu a testa ao ouvir o uso de seu antigo sobrenome. Collins. Se ele estava tão confortável fingindo que não a conhecia, por que fingia estar irritado?
"Leila é a funcionária do mês," Sarah comentou após as apresentações. Ela parecia desconfortável e seus olhos procuraram o chão ao sentir o olhar de Kelvin. Isso foi gentil da parte de Sarah, mas Leila não acreditava que seu marido se importasse com sua conquista. "Já faz um tempo."
Pode ter sido imaginação dela, mas ela percebeu um breve aceno de cabeça de Kelvin antes que ele saísse do escritório. Quando a porta se fechou novamente, ela voltou a respirar normalmente.
"Acho que o chefe não gosta de você," Susie disse enquanto passava pela mesa de Leila. Leila jogou um guardanapo de papel na cabeça dela, e Susie riu enquanto se esquivava do objeto voador.
"Desculpa," murmurou Lily. "A culpa é minha."
Leila esboçou um sorriso leve. "De jeito nenhum. Está tudo bem."
Os olhos de Leila se voltaram para o relógio nas paredes creme; ela não via a hora de ir embora. Queria estar fora dali.
O resto do dia passou sem percalços. Mas as fofocas não cessaram. Sempre que Lily tentava puxá-la para a conversa, ela respondia educadamente e não se prolongava. Leila foi a última a sair do escritório. Era uma sala grande dividida por mesas e divisórias. Se um dia fosse promovida, teria uma sala só para si.
Fora do prédio, virou à esquerda em direção ao metrô. Não havia ônibus, então sentou-se esperando no ponto. Seu celular tocou dentro da bolsa; ela o pegou e começou a rir ao ver o nome de Kelvin na tela. Agora estava casada e não morava mais naquele condomínio a vinte minutos de ônibus.
O celular tocou novamente e ela o guardou na bolsa sem atender. Retornou para Tech Valley, seu escritório, e começou a longa jornada até sua nova casa. Kelvin tinha designado um motorista para ela antes de sair, mas Leila não queria incomodá-lo. Precisava de um tempo sozinha antes de ter que encarar Kelvin.
No caminho para casa, parou em uma feira à beira da estrada para comprar carne e legumes. Kelvin não deixou que ela levasse nenhum alimento de sua casa. Ontem, ele pediu que fizesse um pedido, mas ela escolheu fazer macarrão instantâneo porque não queria gastar o dinheiro dele.
Leila não tinha certeza de que tipo de comida Kelvin gostava e não queria perguntar por telefone. Não queria falar com ele. Passava um pouco das seis quando terminou as compras, mais de uma hora desde que saiu do trabalho. Seu coração disparou ao ver o número de chamadas perdidas de Kelvin. Correu para a rua e acenou para um táxi para levá-la para casa.
Seus passos vacilaram quando se aproximou do elevador de seu apartamento e engoliu seco. Havia uma figura andando de um lado para o outro na frente do elevador, com a cabeça inclinada sobre o celular. Ele passou a mão pelos cabelos e suspirou profundamente. Como se sentisse sua presença, ele levantou a cabeça.
"Você voltou," disse Kelvin como cumprimento.
Ela assentiu. "Sim."
"Por que não usou o motorista?"
Porque estava chateada com ele por agir como se não a conhecesse. Ela não importava para ele, mas ele poderia pelo menos ter tentado ser gentil com ela. Por que ela se importava, afinal?
"Desculpa."
Kelvin suspirou novamente. "Desculpa não é a resposta." Leila não tinha palavras para ele. "Da próxima vez, por favor, use o motorista."
"Tá bom." Ela não queria falar com ele, mas ele não era apenas seu marido, era seu chefe. Ele segurava o futuro dela. Seus olhos se estreitaram ao ver a sacola em uma das mãos, e ela a levantou para explicar. "Passei no mercado pra pegar ingredientes pra sopa." Ele continuou olhando fixamente, e isso a deixou desconfortável. Sua mão caiu ao lado do corpo e ela esboçou um sorriso leve. "Desculpe por não atender suas ligações."
"Sem problemas." Ele pegou a sacola dela antes que ela pudesse recusar, e ela prendeu a respiração quando os dedos dele tocaram os dela. "Vou te ajudar com isso."
Kelvin não disse mais nada enquanto eles esperavam o elevador. Quando as portas abriram, entraram e ficaram em lados opostos como se fossem desconhecidos. Ela estava quieta. O clima ficou tenso, e ela o observava discretamente, mordendo os lábios.
Esse homem era o chefe do chefe dela. Seu marido.
"Esses óculos são recomendados?" Ela perguntou quando não aguentou mais o silêncio. Apontou para os óculos no bolso do paletó dele. Quando crianças, ela e seus amigos costumavam usar óculos sem grau para parecerem alunos estudiosos. Kelvin assentiu com um meio sorriso. "Legal."
Ele não disse nada e ela observou os números do painel diminuírem até chegarem ao andar deles. Um calor espalhou-se pelo peito dela quando ele foi direto à cozinha e colocou a sacola sobre a mesa.
Ele coçou a nuca enquanto ela puxava um banquinho para sentar à sua frente. "Não sei cozinhar," ele soltou de repente.
Leila riu. "Não se preocupe," ela respondeu, "eu sei."
"Obrigado, Leilani."
Ela se encolheu ao ouvir o nome completo. Precisava haver algum tipo de entendimento entre eles. Ele não tinha motivo para ser tão formal o tempo todo.
"Kelvin, eu sei que você é meu chefe," ela disse, e os olhos dele se estreitaram. "Mas você não precisa ser tão formal."
Eles se encararam, ela esperava que ele dissesse ou fizesse algo, mas ele apenas sorriu educadamente e saiu da cozinha. Ela afundou na cadeira e suspirou. Amor estava fora de questão, mas pelo menos poderiam tentar ser amigos ou civilizados.
Tentando afastar os pensamentos sobre seu marido estranho, ela começou a cozinhar. Lavou e cortou os legumes, cantarolando até que Kelvin voltou à cozinha. Ele tinha trocado o terno, mas ainda estava bem arrumado.
Pelo canto do olho, ela viu que ele se aproximava. Parou de cortar. Falar ou não falar.
No final, sussurrou, "Precisa de alguma coisa?"
"Não. Você precisa de ajuda?" Ela balançou a cabeça negativamente, mas ele deu outro passo à frente e levou a tigela até o balcão. Hipnotizada, seus olhos o seguiram enquanto ele colocava o arroz em uma panela para ferver depois de lavá-lo. Ele percebeu o olhar dela e esboçou um meio sorriso. "Estou fazendo errado?" Na verdade, ele fez tudo perfeitamente. Ele apontou para os legumes; ela estava quase terminando de picá-los. "Tem certeza de que não precisa de ajuda com isso?"
"Não."
"Leila." Os olhos dela se viraram rapidamente para ele, que estava apoiado na parede, observando-a. "Seu chefe te chamou de Leila."
"Todo mundo me chama de Leila," ela respondeu.
Ela se virou para longe dele e voltou a cortar os legumes. "A Sarah acha que você merece uma promoção." A faca parou por um breve momento. "Leila." Ele disse como se não tivesse certeza. "Eu gosto mais de como isso soa. Vou te chamar de Leila de agora em diante." Sem olhar diretamente para ele, ela assentiu. "Pode me chamar de Kev quando estivermos a sós."
"Certo, Kev." Incomodava-a o fato de ele querer que ela usasse esse nome apenas quando estivessem sozinhos, mas decidiu focar no lado positivo. Kelvin deu um bocejo, e ela percebeu que ele estava lutando para se manter acordado. "Vá descansar, eu te aviso quando o jantar estiver pronto."
Kelvin não se opôs. Ele cambaleou à frente e ela sorriu quando ele parou na porta. Ele não era tão ruim assim.