- você nunca vai fugir de mim, vadia! - gritou o homem enquanto corria atrás de Laura.
Ela que já estava exausta de tanto correr, suplicava por alguém. Foi quando se sentiu agarrada novamente. Dessa vez não lhe restavam forças para se soltar, mas morreria tentando.
Um carro se aproximava, e Laura agarrou-se no homem, e gritava que ele estava tentando lhe molestar numa tentativade fazer o motorista lhe ajudar. Com medo de ser pego, o homem empurra Laura com toda sua força, ela tenta o segurar, mas ele acaba fazendo ela cair da ponte.
Laura não teve tempo de reagir, tudo aconteceu muito repentino. O cara logo fugiu, e ela estava entregue a própria sorte. De certo, era melhor morrer assim, disse para si mesma quando não tinha forças para nadar. Tentou pedir ajuda, mas quem lhe ajudaria? O homem que estava lhe perseguindo há mais de meses?
- AJUDE-ME! - Suplicou por fim.
Logo tudo ficou em silêncio. Ela teve a sensação de que alguém agarrou as suas mãos. Provavelmente foram alucinações antes de morrer.
- até que não foi uma morte tão dolorosa...
Uma dor imensa traz Laura de volta a consciência. Ela sentia seu corpo arqueando contra a própria vontade. Sua mente estava confusa, ela não havia morrido?
Percebeu que estava em terra, e com uma enorme dificuldade se sentou, colocando pra fora o restante de água engolida.
- Tudo bem? - ouviu uma voz masculina.
Com a voz embargada, e quase sem conseguir abrir os olhos, ela respondeu um sim. Na verdade, sua voz nem saiu, mas o gesto com sua cabeça fizera o cara entender.
-"Saiba que se quiser morrer, você deve procurar formas mais eficazes"- disse o cara friamente.
"Como assim? Ele acha mesmo que eu pulei da ponte tentando me suicidar? Ele não viu nada mesmo?"
Mil e uma perguntas passava na cabeça de Laura, mas ela tinha que se sentir agradecida por ele. Ele havia dado uma nova chance à ela. Naquele momento, ela não sabia dizer se isso era bom ou ruim.
- Bem, você mora onde? Há algum lugar para onde possa ir? Quero me certificar de que não me molhei em vão.
Laura até pensaria no quanto aquele cara era estranho, mas suas perguntas a fizeram se sentir vazia e solitária. Não havia um lugar que ela pudesse chamar de lar, não havia pai e mãe, não tinha ninguém esperando por ela. Talvez, se tivesse morrido mesmo, ninguém nem sentiria a falta dela.
-não. - ela respondeu- eu não tenho para onde ir.
- só me faltava essa! - ela ouviu o cara dizer sem piedade.
Minutos de silêncio. Laura percebe que o cara esfrega o cenho sem parar. Ela ainda não havia entendido o porquê ele não apenas a deixa ali. Já havia salvado ela, e pela forma com que ele fala, isso já é muita coisa.
- Vamos! - O cara de repente fala. - Vou encontrar um lugar para você passar a noite.
Laura o segue. É lógico que está apreensiva. Mas está nítido que ele não tem interesse nenhum nela. Ou teria lhe agarrado no momento mais vulnerável que ela já esteve.
Sua mente está inteiramente confusa, achou mesmo que morreria daquela forma miserável. O homem a quem ela estava seguindo, não imagina o quão grata ela está.
Só quando viu o carro de luxo dele, foi que Laura entendeu que ele não era alguém qualquer, não alguém da realidade dela.
- Vista isso, ou vai acabar morrendo de frio. - Ele lhe lançou uma jaqueta.
- Obrigada! - foi tudo o que ela conseguiu dizer.
Laura entrou no carro. Sua respiração estava mais controlada. Apesar do desconforto que sentia, ela estava atenta para tudo. Em nenhum momento sentiu que o cara lhe olhava. Mas estava claramente incomodada com ela.
- Você pode me deixar em qualquer lugar- ela disse quebrando aquele silêncio sem fim.
Ele nem sequer lhe lançou um olhar. Parecia estar em outro mundo. Laura apenas se ajeitou no banco, e voltou a ficar em silêncio.
De repente eles param em frente a um prédio que ela pensara em ser um hotel. E o homem que nem lhe olhava lhe diz de maneira firme:
- Irei descer rapidamente, então não saia do carro. E... - sua voz ficou ainda mais séria- Não me faça me arrepender de ter lhe salvado.
Laura assentiu com a cabeça. Esse homem tinha uma presença de causar medo. Até pensou em fugir, mas pra onde iria? E fora que, se ele fosse como o outro maníaco, teria tentando alguma coisa já. Ou teria lhe oferecido algo em troca, já que tinha certeza de sua condição.
Sentiu seus olhos pesarem. Será que o homem esqueceu ela? Mas ela estava em seu carro, não seria possível. Não se sabe em que momento, mas ela adormeceu.
Sentado no mesmo lugar de sempre, naquele tronco de árvore da margem do rio, onde sempre ia desde a adolescência, Fred permanecia Imerso em seus pensamentos.
"Estou voltando. Espero resolver tudo com você. Sinto sua falta!" - A mensagem que Fred não tirava da cabeça. Já havia planejado várias formas de dar o troco por tamanha humilhação, mas se via incapaz de esquecê-la. Seu corpo e seu coração pertenciam somente a ela. E ela estava voltando.
De repente, é arrancado de seus pensamentos por um pedido de socorro. Ele olhou em volta e pode perceber que alguém se afogava. Estava bem escuro, o que dificultava ainda mais.
A voz embargada, claramente era de uma mulher. Se ela estava tentando se matar, porque não procurou outras formas? Pensou ele.
Ainda conseguiu ver onde ela estava, e mesmo relutante, foi ajudá-la.
- droga! - reclamou ele quando a água fria cobriu sua cintura.
Antes de conseguir agarrar as mãos que já estavam entregues à morte, ele ouviu um último pedido. E com bastante dificuldades, trouxe a mulher para a margem.
Fred respirou aliviado. Estava agradecido por não levar seu sonho de ser salva-vidas a sério quando criança. Quase se afogou junto a mulher.
Ele se recusava fazer respiração boca a boca. Imagine se ela lhe acusasse depois de assédio? Ele a mataria sem pensar duas vezes. Vai saber se não era isso mesmo que ela queria...morrer.
Ele percebeu que ela estava tornando. E esperou até poder lhe perguntar se ela estava bem. Mesmo sabendo que a mulher quase morreu, achou que deveria perguntar mesmo assim.
Ela tinha dificuldades, era notório, mas se conseguia falar, não ia morrer logo.
[...]
- Isso só pode ser mentira! - Pensou Fred, ao ouvir que a mulher não tinha nenhum lugar pra ficar.
Ela poderia claramente estar fingindo. Ou estar fugindo da polícia. E se ela fosse uma criminosa? Ele olhou para a mulher a sua frente. Ela não tinha nem forças para falar, quem dirá lhe roubar ou tentar fazer alguma coisa com ele.
Ele esfregou o cenho com forças. Poderia estar arranjando mais problemas. A mulher poderia ser suicida, como ele lhe ajudaria? Talvez devesse mandar ela para um psiquiatra.
Mas, ele precisava primeiro resolver a questão daquela noite. Na manhã seguinte pensaria no que fazer.
- Vamos. Vou arranjar um lugar pra você passar a noite.
Ele andou até o seu carro. Percebeu que a mulher morria de frio, e lhe entregou sua jaqueta.
Fred dirigiu até o seu prédio, talvez pela força do hábito. Jamais levaria aquela mulher pra dentro da sua casa, mas já que estava ali, aproveitaria para trocar de roupas.
Advertiu a mulher antes de adentrar.
Ele não teve ideia de quanto demorou. Mas achou a mulher dormindo pesadamente. Aproveitou para pensar em algum lugar que ele pudesse a levar. Lembrou de Marcos, seu amigo. Ele provavelmente teria algum quarto disponível.
- "será um prazer ajudar"- disse Marcos do outro lado da linha.
- "Estou indo então ".
Dito isto, Fred dirigiu até o hotel do seu amigo. Laura estava cansada demais, e permanecia dormindo.
-Chegamos. - Fred falou alto o suficiente para acordá-la.
Ela tomou um susto. Fred não ligou muito, ele já estava fazendo muita coisa por ela. Não era obrigado a nada.
- Este hotel é de um conhecido, já falei com ele, e ele irá lhe ajudar... - Fred foi interrompido por um agradecimento - Bem, pedirei ao meu assistente para vim amanhã, ele trará alguns itens básicos pra você.
- novamente, muito obrigada! E me desculpa pelo incômodo!
Ela era realmente um incômodo. Mas Fred nunca deixava nada incompleto. Se fosse pra fazer algo, que fizesse bem feito ou até o fim. Ainda que fosse "salvar" uma desconhecida.
- Boa noite, Fred! ‐ Disse Marcos muito feliz em ver o amigo de infância.
- Boa noite, Marcos. - Respondeu ele no mesmo tom de sempre.
- Boa noite, senhorita...- Marcos esperou ela lhe falar o nome.
- Laura. - Respondeu ela com um meio sorriso.
- Oh, Laura! - Marcos olhou curioso para Fred.
Conhecendo o jeito dele, Laura não fazia seu tipo, e fora que ela estava num estado... um tanto ruim. - Seja muito bem-vinda no meu hotel.
Neste momento, Fred percebeu que esqueceu de perguntar o nome da mulher. Na verdade, ele achava que logo se livraria dela, mas parecia um pouco difícil naquele momento.
- Amanhã peço para Tárcio passar aqui. E ele resolve tudo. - Fred diz interrompendo qualquer início de conversa.
- Tudo bem. Ela estará segura aqui! - Marcos deu uma piscadela para o amigo.
Isso causou repulsa em Fred. Tinha certeza que Marcos havia entendido tudo errado. Mas não estava afim de explicar nada, só queria ir embora.
- Boa noite! - Disse ele antes de partir.
Laura agradeceu mais uma vez. E Marcos lhe levou para o quarto. Mandou que trouxessem roupas e comida. De fato, ele não tinha entendido muito bem a situação ali.
Naquela noite, Fred se esqueceu do seu maior problema. Como se não bastasse, ele havia arranjado outro "o que fazer com a mulher que ele acabara de salvar?".
- Quero todas as informações sobre ela.
Fred diz à Tárcio por uma ligação.
- "E se o que ela disse não for verdade?" - Questionou Tárcio já tendo uma certeza de que aquilo era tudo mentira.
- Então a farei se arrepender por ter me feito perder tempo.
- "Estou indo agora mesmo".
- Estarei na empresa, então, informe a Carla sobre as minhas reuniões. E, trate esse assunto de forma particular.
- "Como quiser".
Fred pensou em Laura. Seria ela capaz de fazer tudo aquilo com segundas intenções? Ela realmente iria morrer ou só estava fingindo. Bem, agora isso não importava tanto. Tárcio logo descobriria, e ele tomaria as decisões depois.
...
Laura ouve batidas na porta e abre para ver quem era. Se depara com um homem de aparência jovem e de cabelos claros devidamente cortados.
- Bom dia! - Diz ela ainda com um pouco de dificuldade.
- Bom dia! Fred me pediu que trouxessem algumas coisas para você- Ele exibe as sacolas que carregava.
Laura se deu conta de que aquele era o assistente do qual o homem que lhe salvou falava.
- Bem, entre. Fique a vontade. - Laura abre mais a porta e espera ele entrar.
- Onde devo deixar? - Pergunta ele olhando em algumas direções.
- Pode deixar aqui. - Ela aponta para um criado-mudo.
Assim Tárcio o fez.
- Bem, eu já ia esquecendo, eu preciso resolver a questão da sua estadia aqui, então, preciso de seus dados. Seria possível?
- Eu sei os números de cor, mas não tenho nenhum documento em mãos. Acho que à essa altura todos já foram pro lixo.
- Acredito que isso é o suficiente. - Seu tom ainda era amigável.
Tárcio anotou assim que ela o disse. E antes que ela pudesse dizer qualquer coisa, ele se adiantou.
- Ah, e não se preocupe. Você pode ficar o tempo que achar necessário. Apenas esperamos que melhore!
Laura sorriu agradecida. Nunca pensou em ser ajudada de tal forma.
- muito obrigada, muito obrigada mesmo!
Tárcio apenas assentiu.
- Tenha um bom dia! -Diz ele assim que saiu do quarto.
Laura estava demasiadamente agradecida por tudo. Mas ela não ficaria parada apenas recebendo ajudas. Ela tinha em mente pedir um emprego de faxineira para Marcos. Se ele não pudesse, tudo bem, ela tentaria em outro lugar. Mas, jamais voltaria para o lugar de onde saiu.
Tárcio tinha os dados completo de Laura, e isso era tudo que ele precisava para descobrir sobre sua vida. Ele achou ela simples demais para articular todo aquele plano. Mas tinha a certeza de que pessoas podem fingir muito bem.
Ele leu e releu a ficha em suas mãos. Como uma pessoa de 28 anos sobrevivia daquela forma? Ela só estudou até o ensino médio, e desde então, lutava para sobreviver trabalhando de todas as formas possíveis.
Tudo o que ela havia dito era verdade. Ela não tinha nada mesmo. Havia sido despejada, e estava morando onde trabalhava de garçonete, um pequeno bar que lhe dava alguns trocados.
Tárcio imaginou o quão difícil era para aquela mulher sobreviver. Talvez por isso ela se jogou da ponte. Agora tudo fazia sentido. Quer dizer, parecia fazer sentido, apesar de Tárcio não acreditar nessa parte.
Uma pessoa como ela não parecia tão frágil à esse ponto.
...
- Conseguiu? - Perguntou Fred diretamente.
- Sempre consigo. - Tárcio exibe seu Tablet de forma vitoriosa.
Fred pega sem mostrar nenhuma reação. Ele sabia que Tárcio gostava de se exibir.
- Qual é, eu dei o meu melhor! - Murmura Tárcio se sentando de maneira desajeitada na em uma cadeira.
Fred lhe lança um olhar preocupado. Ele já não sabia o que fazer com aquele homem. Apenas gesticula sua desaprovação com a cabeça.
- Ela tem 28 anos?- Fred diz para si mesmo mas alto o suficiente para Tárcio ouvir. Logo ele lança um olhar para o assistente, e o mesmo se cala.
Fred analisa minuciosamente os dados de Laura, seu cenho estava levemente franzido. Ela realmente estava num estado deplorável, mas ele já tinha problemas demais, não queria mais um.
Ele colocou o Tablet de lado. Pegou um lápis e começou a rabiscar num papel.
- você precisa ajudá-la. - Diz Tárcio num tom baixo.
Fred nem sequer se deu o trabalho de olhá-lo.
- As coisas não são assim tão fáceis. Não estamos falando de um cachorro.
Ele abandonou o lápis, e se levantou. Olhava para o horizonte na sua frente.
- Ela não tem nenhuma experiência de trabalho em empresas. - E eu não sou dono de... bar.
Tárcio sabia que ele estava certo. Eles não podiam contratar por pena, e infelizmente Laura não tinha experiência na área.
- O que faremos então? - Pergunta ele de maneira preocupada.
- O que podemos fazer além do que já fizemos? Demos roupas, comida e disponibilizamos um teto até ela dar o jeito dela.
- Se ao menos Marcos pudesse dar um trabalho...- Falou Tárcio de maneira sugestiva, na esperança de que Fred pedisse por ela.
Fred lhe lançou um olhar gélido. Ele entendeu o que Tárcio estava sugerindo, e isso estava longe de acontecer. Laura deveria de virar sozinha, isso não era problema para ele, sua parte ele havia feito.
- Temos muito trabalho para fazer. Deixe que cada um cuide da sua vida. - Ele voltou para a poltrona e começou mexer em seu laptop.
Tárcio assentiu e saiu. Ele tinha certeza de que Fred não faria aquilo, mas ao menos tentou. Se bem que, conhecendo seu amigo de infância, ele já havia feito muito por Laura.