Logan, Dylan e Tyler, os três irmãos Creed são audaciosos, rebeldes, lindos... e estão em busca do amor!
Desde ganhar prêmios como caubói até negociar patrocínios com agentes de Hollywood, Tyler Creed, ex-estrela dos circuitos de rodeio, pode dar conta de qualquer coisa... Exceto partilhar um pedaço de terra com seus irmãos cabeças-duras. Mesmo assim, ele vai parar em Stillwater Springs, e, apesar de trocar raras palavras com Dylan e Logan, ajuda na restauração do rancho e dos laços de família. Lily Kenyon conhece muito bem brigas entre irmãos e segredos do passado. Ela também resolveu retornar a sua cidade e se estabelecer para criar sozinha sua filha. Porém, ela não esperava reencontrar Tyler Creed, um amor de infância. Agora, o caubói durão que deixou o lar em busca da fama e da fortuna talvez esteja prestes a descobrir que sua sorte sempre esteve sob o céu de Montana...
CAPÍTULO UM
Tyler Creed reprimiu um sorriso, quando o velhote no estacionamento da Wal-Mart fitou embasbacado o chaveiro extravagante na sua mão calejada. Piscou algumas vezes, como alguém tentando enxergar através de uma ilusão, depois, puxou ansiosamente a aba do boné de beisebol desbotado. De acordo com o bordado amarelo claro no chapéu, seu nome era Walt, e ele era o melhor pai do mundo.
Walt olhou para a sua caminhonete Chevrolet de dez anos de idade, com as laterais manchadas de terra seca, os pára-lamas inteiramente recobertos, e, em seguida, desviou o olhar para a reluzente Escalade branca de Tyler.
- Pensei que estivesse de brincadeira, moço - disse. - Quer mesmo trocar aquele Cadillac pela minha caminhonete, elas por elas? A lata velha já está com quase cem mil quilômetros rodados, e, de vez em quando, parte dela despenca. Semana passada foi o abafador do cano de descarga...
Tyler assentiu, cansado da conversa fiada de Walt, mas sem querer demonstrar isso.
- A idéia é essa - retrucou, baixinho.
O caipira velho aproximou-se do Cadillac e encostou no seu capô com algo semelhante a reverência.
- Esta coisa foi roubada? - Walt perguntou, compreensivelmente desconfiado.
Afinal de contas, Tyler pensou, não era comum para um homem se deparar com um negócio desses todos os dias, ainda mais em Crap Creek, Montana, ou o que quer que fosse o nome daquele ponto da estrada.
Tyler riu.
- Não, senhor - disse. - Sou o dono, honesta e legalmente. Os documentos estão no porta-luvas. Caso concorde, eu os assino, passando o veículo para o senhor agora mesmo, e sigo o meu caminho.
- Espere só até Myrtle chegar com as compras e ver isto - o velhote disse, enganchando os polegares nas presilhas do macacão sujo de graxa, sacudindo a cabeça e finalmente deixando a alegria transparecer em um sorriso desdentado.
Walt precisava cuidar dos dentes. Tyler aguardou.
- Ainda não entendo como um homem em seu juízo perfeito possa querer fazer uma troca dessas - Walt insistiu. - Talvez você não esteja batendo bem da bola. - Ele se interrompeu, estreitando os olhos ao fitar Tyler. - Embora, pareça estar bem.
Involuntariamente, Tyler olhou para o relógio, um modelo caro com um caubói de rodeio de vinte e quatro quilates montando um cavalo selvagem incrustado na face de platina. Diamantes reluziam nas posições do doze, três, seis e nove, e a coisa toda era tão incompatível com quem ele realmente era quanto o caríssimo utilitário que estava praticamente dando de graça, mas ele jamais consideraria separar-se do relógio. A falecida esposa, Shawna, vendera o seu reboque para o cavalo e uma sela encrustada de pedras preciosas que ela ganhara em uma competição de corrida para comprá-lo para ele, no dia em que Tyler venceu seu primeiro campeonato.
- Não sei se quero fazer negócios com um homem com tanta pressa - Walt disse, astutamente, estreitando um pouco os olhos desconfiados, - Você está fugindo de alguma coisa, e pode muito bem ser da lei. Posso lhe dizer que não preciso de problemas desse tipo. Eu e Myrtle temos uma boa vida. Nada muito luxuoso. Trabalhei na serraria por cerca de trinta anos. Mas o trailer está pago e nós sempre conseguimos juntar dez dólares para cada um dos netos nos seus aniversários...
Tyler conteve um suspiro.
- Esse é um relógio e tanto - Walt comentou, sem demonstrar muita pressa em concluir o negócio. O olhar astuto examinou o jeans e a camisa de Tyler, recém-comprados a preço de liquidação, demorou-se nas botas caras, feitas a mão em uma loja especializada no Texas. Ergueu-se novamente para o seu chapéu de vaqueiro preto, enterrado até quase cobrir os olhos. - Ganhou-o ao vencer um rodeio, ou coisa parecida?
- Ou coisa parecida - Tyler confirmou.
Seus próprios irmãos, Logan e Dylan, não sabiam a respeito de seu casamento com Shawna, ou sobre o acidente que a matara. Não estava disposto a se abrir com um desconhecido que acabara de conhecer no estacionamento de um Wal-Mart.
- Você parece um domador de cavalos - Walt decidiu, após outro exame demorado. - Também me parece conhecido.
E você parece um condutor de empilhadeira, Tyler respondeu, em silêncio. Ele enfiou os polegares na cintura do jeans novo e ainda duro. - Fechamos ou não o negócio? - perguntou, calmamente.
- Deixe-me ver os documentos - Walt disse, ainda regulando as apostas, - E algum documento de identidade, se não se importa.
Sabendo que não faria diferença caso, de fato, se importasse, Tyler pegou o documento pedido de dentro do utilitário, detendo-se para acariciar o cachorro feio que encontrara quase morto de fome em outro estacionamento, em outra cidade, na longa estrada para casa.
- O cachorro faz parte da troca? - Walt perguntou, ficando ainda mais cauteloso.
- Não - Tyler respondeu. - Ele fica comigo. Walt deu a impressão de ter ficado desapontado.
- É uma pena. Desde que minha cadeia de caça, Minford, morreu de velhice, no inverno passado, venho querendo arrumar outro cachorro. São boa companhia, e com Myrtle trabalhando todos os dias como garçonete para financiar o vicio dela no bingo, passo um bocado de tempo sozinho.
- O que não falta são cães precisando de um lar - Tyler mencionou. - Os abrigos estão cheios deles.
- Acho que tem razão - Walt concordou. Ele examinou o documento de propriedade que Tyler lhe estendeu como se fosse uma intimação, ou coisa parecida. - Parece estar tudo em ordem - disse. - Vamos ver a identidade.
Tyler tirou a carteira do bolso da calça e estendeu a habilitação de motorista.
Os olhos reumosos de Walt se arregalaram um pouco, e ele deixou escapar um assovio baixo e agudo, era sina! de surpresa.
- Tyler Creed - disse. - Eu achei que já havia escutado esse nome antes, ao vê-lo no documento de propriedade do Cadillac. Quatro vez campeão mundial como montador de cavalos selvagens. Já o vi várias vezes na ESPN. Também em alguns comerciais para a TV, É preciso coragem para ficar diante de uma câmera apenas de cuecas e com um sorriso amarelo na cara como você fez, mas tenho de admitir que se saiu bem. Minha filha, Margie, tem um calendário cheio de fotos suas. Está dois anos atrasado, mas ela ainda se recusa a tirá-lo da parede. O marido dela fica possesso.
Por dentro, Tyler suspirou. Por fora, ficou calmo.
- Eu e Myrtle adoraríamos recebê-lo para jantar - Walt prosseguiu.
- Não tenho tempo ― Tyler respondeu, torcendo para que estivesse parecendo pesaroso.
Walt voltou a examiná-lo de alto a baixo, sacudindo novamente a cabeça, e pegou a própria papelada de dentro do calhambeque que era a sua caminhonete. Assinou o seu nome na linha pontilhada.
- Deixe-me apenas pegar a caixa de ferramentas na traseira - disse.
- Vou pegar minhas próprias coisas enquanto faz isso - Tyler retrucou, aliviado.
A troca foi feita. Tyler estava com a mochila, o cão e a caixa do violão na caminhonete, antes mesmo que Walt ajeitasse a sua caixa de ferramenta de metal vermelha na traseira da Escalade.
- Tem certeza de que não quer vir jantar? - Walt perguntou, quando uma mulher emergiu do Wal-Mart e veio na direção deles, empurrando um carrinho de comparas e com uma expressão intrigada no rosto.
- Quem dera eu pudesse - Tyler mentiu, subindo na caminhonete. Se dirigisse para valer, ele e Kit Carson, o cão, estariam em Stillwater Springs até a hora do pôr do sol. Passariam a noite na cabana do lago, na encolha, e, quando a manhã chegasse, encontraria o irmão, Logan e lhe daria um soco na cara. De novo.
Talvez, também nocauteasse Dylan, só para não perder a viagem. Contudo, na verdade, a ida para casa era para acertar algumas coisas, para dar um jeito nelas em sua cabeça.
- Até mais ver - disse para Walt.
E, antes que o velhote pudesse responder, Tyler arrancou, queimando borracha.
Oito quilômetros após terem deixado Crap Creek, o abafador do cano de descarga se soltou, e passou a ser arrastado sobre o asfalto com um barulhão ensurdecedor, espalhando centelhas azuis e alaranjadas para tudo quanto era lado.
- Droga - Tyler disse.
Kit Carson deixou escapar um ganido de solidariedade.
Bem, ele quisera mesmo voltar para descobrir quem teria sido sem o rodeio e Shawna. Para as pessoas normais, esta era a vida do campo.
E não era como se Walt não o houvesse alertado, pensou.
Com um sorriso, Tyler encostou na beira da estrada, desligou a caminhonete e, visando avaliar o estrago, enfiou-se debaixo da caminhonete com a barriga virada para cima. Justamente como nos terríveis velhos dias, pensou, quando ele e o pai, Jake, costumavam brincar de mecânico de fundo de quintal no pátio do rancho, tentando manter funcionando algum calhambeque caindo aos pedaços até chegar o dia do pagamento.
Fossem quais fossem os outros talentos de Walt, consertar abafadores não era um deles. Ele prendera parte dele no lugar com fita adesiva, que agora estava dependurada em tiras fumegantes e o abafador em si parecia ter sido bombardeado por chumbo grosso.
Tyler suspirou, saiu novamente de baixo da caminhonete e ficou de pé, espanando a poeira do jeans e tentando, em vão, enxergar as costas da camisa. Kit estava sentado no assento do motorista, ofegando, seu nariz embaçando o vidro da janela.
Afastando o cão de modo a poder pegar o telefone celular de dentro do porta-copos coberto de poeira no console da caminhonete, Tyler ligou para 411 e pediu para ser conectado à empresa de reboques mais próxima.
Enquanto ela e a enfermeira se esforçavam para colocar o pai doente no seu Taurus alugado diante do Missoula General Hospital, Lily Kenyon não estava se arrependendo de ter ficado em Montana para cuidar dele. Na verdade, há muito que já se arrependera. Começara a se arrepender meia hora após ela e a filha de seis anos de idade, Tess, chegarem correndo na recepção, uma semana antes, recém-chegadas do aeroporto.
Lily lembrava-se do pai como sendo um homem afável, embora um tanto quanto distraído, tranqüilo e engraçado. Até chegar a adolescência, passara os verões em Stillwater Springs, grudada nos calcanhares dele como um pedaço de chiclete mascado, enquanto ele atendia os pacientes de quatro pernas na sua clínica veterinária, seguindo-o de celeiro a celeiro enquanto ele fazia as suas visitas, cuidando de vacas, cavalos, bodes e animais de estimação doentes. Ele fora gentil, referindo-se a ela como sua assistente e chamando-a de "Doc Ryder", o que a deixara toda orgulhosa, pois era como as pessoas na pequena comunidade de Montana o chamavam.
Naqueles dias de menininha, Lily quisera ser exatamente como o pai.
Contudo, agora, estava tendo dificuldade em equilibrar o homem nas suas recordações com o descrito pela mãe amarga e zangada após o divórcio. Aquele que jamais vinha visitá-la, que não enviava cartões de Natal e nem de aniversário e que sequer ligava para saber como ela estava.
Quanto mais enviar uma passagem de avião para que ela pudesse visitá-lo.
Agora, após sete longos dias aturando o seu jeito extravagante, entendia um pouco melhor a atitude da mãe, embora o modo como Lucy Ryder Cook fosse incapaz de falar no ex-marido sem, logo em seguida, franzir os lábios ainda a incomodasse. Hal Ryder, ou Doc, parecia gostar de Tess, mas cada vez que olhava para Lily, esta era capaz de enxergar uma dor, perplexa e zangada, nos seus olhos.
Assim que o pai e a filha estavam devidamente presos pelos cintos de segurança, Hal na frente e Tess na cadeirinha que a lei exigia para qualquer um abaixo de determinada idade e peso, Lily sentou-se atrás do volante e tentou se recompor. O dia estava quente, mesmo para julho. O hospital estivera abençoadamente fresco, mas as aberturas para ventilação no painel do carro alugado ainda estavam soprando ar quente.
O suor umedeceu as costas da blusa sem mangas de Lily. Sem sequer sair com o carro, ela já estava grudando no banco.
Isso não era bom.
- Podemos comer alguns hambúrgueres? - Tess perguntou, do banco de trás.
- Não - respondeu Lily, que dava muito valor à comida saudável.
- Podemos - desafiou o pai ranheta, no mesmo instante.
- Qual dos dois? - Tess indagou, pacientemente. - Podemos ou não?
A pobre menina era extremamente pragmática, estóica, até. Desde o "acidente" de Burke, um ano atrás, tivera muita prática em conformar-se com as coisas. Lily não tivera a coragem de contar para a menininha o que todo mundo sabia, que Burke Kenyon, o marido de quem Lily estivera separada e pai de Tess, chocara seu pequeno avião particular com uma ponte de propósito, em um acesso de melancolia rancorosa.
- Não - Lily disse, com firmeza, após fitar sugestivamente o pai por um instante. - Você está se recuperando de um enfarto - ela o lembrou. - Não pode comer frituras.
- Existe algo chamado qualidade de vida, sabe - Hal Ryder resmungou. Estava magro e havia profundas manchas acinzentadas sob os seus olhos, ressaltadas por bolsas de pele. - E, se acha que vou comer tofu e brotos de verduras até eu morrer, pode ir mudando de ideia.
Lily passou a marcha e os pneus chiaram um pouquinho sobre o asfalto amaciado pelo sol, quando arrancou com o carro, afastando-se da entrada do hospital.
- Escute - respondeu, com secura, chegando ao limite de sua paciência devido ao estresse e à falta de sono. - Se quer entupir suas artérias com gordura, e envenenar o seu corpo com conservantes, e sabe lá Deus o que mais, o problema é seu. Só que Tess e eu planejamos ter vidas longas e saudáveis.
- Vidas longas e entediantes - Hal queixou-se.
Lily parara de pensar nele como "pai" anos antes, quando se dera conta pela primeira vez, de que ele não iria mais trazê-la para Montana para nenhum outro verão de cidade pequena, descalço e regado a picolé. Ele jamais aprovara o seu romance de adolescente com Tyler Creed, e ela sempre desconfiara ser isto parte do motivo do pai tê-la cortado de sua vida.
- Terei o maior prazer em contratar uma enfermeira - Lily informou, empurrando Tyler para o fundo da mente, e mordendo o lábio ao navegar pelo complicado trânsito do final da manhã. - Caso prefira, Tess e eu podemos voltar para Chicago.
- Não seja malvada, mamãe - Tess aconselhou, sabiamente. - Não se esqueça de que o coração do vovô o atacou.
A imagem do órgão em meio a um acesso de raiva preencheu a mente de Lily. Senão pela seriedade do assunto, teria rido.
- É - Hal concordou. - Não seja malvada. Assim, você me lembra Lucy, e eu gosto de pensar nela o mínimo possível.
Visto que Lily não estava se dando muito melhor com a mãe do que estava com Hal, ela poderia ter passado sem o último comentário. Descolando as costas do encosto do assento, começou a mexer no ar-condicionado, mantendo um dos olhos na estrada. O short de algodão havia se enfiado entre as nádegas, de modo que as coxas também haviam grudado uma na outra e doeria para separá-las.
Outra coisa para recear.
- Puxa, obrigada - murmurou.
- Vovó é uma chata - Tess comentou, seu tom de voz alegre e afetuosamente tolerante.
- Silêncio - ordenou Lily, embora, no fundo, concordasse com a filha. - Isso não é bonito de se dizer.
- Mas ela é - Tess insistiu.
- Amém - Hal acrescentou.
- Chega - Lily murmurou. - Os dois. Estou tentando dirigir. Manter-nos com vida.
- Neste caso, vá um pouco mais devagar - Hal resmungou. - Não estamos em Chicago.
- Nem me lembre.
A intenção de Lily não fora ser sarcástica, mas foi o que aconteceu.
- Sua casa é grande, vovô? - Tess perguntou, tentando corajosamente desviar a conversa para um assunto mais agradável. - Posso ficar no quarto antigo de minha mãe?
Lily lembrou-se da enorme casa em estilo vitoriano que outrora fora o seu lar, com todos os seus adoráveis cantos e reentrâncias, sua biblioteca bagunçada repleta de livros, seus assentos nas janelas, as recâmaras e as lareiras de tijolo. Lembrar fez com que a sensação de perda viesse à tona, e ela sentiu um aperto no coração.
- Pode - Hal disse, com uma gentileza que Lily quase invejou. Ela lhe sentiu o olhar buscar o dela, de esguelha e sério.
- Por acaso há algum homem aguardando-a em Chicago, Lily? É por isso que quer retornar?
Lily retesou-se, procurando a rampa de acesso à rodovia, perguntando-se se não haveria algo mais por trás da pergunta. Afinal de contas, a mãe de Lily abandonara o seu pai por outro homem, e ele jamais voltara a se casar. Talvez não confiasse nas mulheres, inclusive na filha. Talvez estivesse esperando que ela fosse largar tudo e voltar correndo para Chicago, para os braços de algum sujeito que conhecera no enterro de Burke.
Ela suspirou e passou a mão pelo cabelo louro, cortado à altura do queixo, apenas para enganchar os dedos na presilha de plástico que usara naquela manhã para prendê-lo às pressas no topo da cabeça, antes de deixar o hotel para seguir para o hospital. Não estava sendo justa. O pai sofrera uma complicação coronária séria, e os médicos e enfermeiros em Missoula General a haviam alertado que depressão era comum em pacientes que subitamente se viam dependentes de outras pessoas para cuidar deles.
Pelo menos desde o divórcio, Hal Ryder vinha fazendo o que bem queria. Agora, precisava dela, quase uma desconhecida, para lhe preparar as refeições, entender as prescrições dos médicos, que eram complicadas, e
cuidar para que ele não tentasse aparar o seu gramado, nem voltar a se atirar no trabalho, antes que estivesse pronto.
- Lily? - ele insistiu.
- Não - ela respondeu, após repassar seus pensamentos em busca da pergunta original. - Não há nenhum homem, Hal.
- Mamãe é uma viúva negra - Tess explicou, solicitamente. Hal riu.
- Eu não iria tão longe, meu docinho - disse para a neta.
Por um motivo que não sabia explicar, os olhos de Lily se encheram de lágrimas súbitas e escaldantes, e ela piscou para enxugá-las. Lágrimas eram perigosas em uma rodovia movimentada, e, além do mais, jamais melhoravam as coisas.
- Sou uma viúva - Lily calmamente corrigiu a filha. - Viúva negra é uma aranha.
- Ah - retrucou Tess, digerindo a lição de ciências.
Ela começou a bater com o calcanhar calçado na parte dianteira do próprio assento, algo que costumava fazer quando começava a achar que o passeio de carro estava demorando demais.
- Pare - Lily ordenou.
Alguns instantes de silêncio se passaram. Em seguida, Tess prosseguiu:
- Meu papai morreu quando eu tinha quatro anos - anunciou.
- Eu sei, querida - Hal disse, com a voz carinhosa e um pouco áspera.
Lily sentiu a garganta arder. Dera entrada no divórcio após uma ligação chorosa da mais recente namorada de Burke, que, aparentemente, ele dispensara. Será que ele ainda estaria vivo se ela tivesse aguardado, concordado com mais terapia de casal, em vez de ligado para um advogado assim que desligou o telefone com a amante? Será que sua filha ainda teria o pai?
Tess adorara Burke.
- O avião dele acertou uma ponte - Tess informou.
- Tess - Lily disse, gentilmente -, será que podemos falar sobre isso mais tarde, por favor?
- Você sempre diz isso. - Tess suspirou. Ela nascera precoce, mas desde a morte de Burke, tornara-se madura demais para a idade, uma adulta em um corpo de uma aluna de primeira série. - Só que mais tarde jamais chega.
- Você pode falar com o vovô - Hal disse, lançando outro olhar de esguelha para Lily. - Eu escutarei.
Uma fúria impotente apossou-se de Lily Suas mãos, ainda úmidas de suor, apesar de o ar-condicionado enfim ter começado a funcionar, apertaram-se ao redor do volante, Eu escuto, teve vontade de protestar. Ao contrário de certas pessoas, cujos nomes eu poderia dizer, eu amo minha filha.
Para a sua surpresa, o pai estendeu a mão e lhe acariciou o braço.
- Talvez deva encostar por alguns minutos - disse. - Para se recompor.
- Eu estou composta - Lily disse, seriamente, inspirando bem fundo, expirando, e, deliberadamente relaxando os ombros.
- Estou com fome - Tess disse. Ela jamais choramingava, mas estava chegando muito perto de fazê-lo. Sem dúvida, estava notando a tensão entre os adultos no banco da frente.
Decididamente, isso não era bom.
- Chegaremos a Stillwater Springs em menos de uma hora - Lily disse, mantendo o tom de voz tranqüilo. - Será que pode agüentar até então?
- Acho que sim - Tess respondeu. - Mas teremos de parar em um supermercado ou coisa parecida. Vovô me disse que não há comida na casa.
A cabeça de Lily começou a latejar. Ela olhou no espelho retrovisor para poder fitar a filha nos olhos.
- Tudo bem, vamos parar - disse. - Pegaremos a próxima saída, e encontraremos um daqueles lugares com buffet de salada.
- Comida para coelho - Hal murmurou.
- Um hambúrguer não vai matar ninguém - Tess afirmou. Afinal de contas, a menina estava do lado de quem?
- Nada de hambúrgueres - Lily retrucou, com firmeza. - Lanchonetes de beira de estrada não costumam oferecer carne orgânica.
- Ah, pelo amor de Deus - Hal disse.
- Faça o favor de ficar fora disto - Lily pediu tranqüilamente para o pai. - Minha bolsa está no banco, ao seu lado, Tess. Há um pacote de bolachas dentro dela. Coma algumas, e eu ficarei de olhos abertos, para ver se encontro um mercado decente.
De mau humor, algo incomum para Tess, a menina revirou a bolsa de Lily, encontrou as bolachas, abriu a embalagem e começou a comer.
Depois disso, ninguém mais falou. Estavam a vinte minutos de Stillwater Springs quando avistaram o homem e o cão caminhando ao longo da estrada.
Algo no homem chamou a atenção de Lily, a postura, o modo de caminhar, disparando tudo quanto era tipo de alarmes internos.
- Pare - Hal ordenou, com urgência. - É Tyler Creed. E eu que pensei que o dia não poderia ficar pior.
Lily desviou o carro para o acostamento e pisou no freio, enquanto o pai baixava a janela do lado do carona.
- Tyler? É você? - chamou.
O homem virou-se, exibindo o característico sorriso, mais fascinante do que uma miragem provocada pelo calor. Droga, era Tyler. Crescido e mais lindo do que nunca.
E aqui estava ela, com as costas e as coxas coladas ao assento do carro, e o cabelo preso em um coque horroroso, espetado para tudo quanto era lado.
Ele aproximou-se do carro, o cachorro caminhando pacientemente ao seu lado. Curvou-se para falar com Hal, Quando seu olhar se fixou em Lily e, depois, em Tess, seu sorriso esmoreceu um pouco.
- Ei, Doc - Tyler disse. - Soube que passou por maus bocados. Está se sentindo melhor?
- Eu ficarei bem, graças a Dylan e Jim Huntinghorse - Hal respondeu. - Tive um troço na casa de Logan, durante um churrasco, e eles me fizeram massagem cardiorrespiratória. Eu estaria morto e enterrado, senão por aqueles dois.
Tyler deixou escapar um assovio baixinho.
- Essa foi por pouco - disse. Na época de escola, fora bonitinho, Agora, era lindo de morrer. Contudo, seus olhos ainda eram do mesmo azul límpido, e o cabelo escuro ainda reluzia, liso como as asas de um corvo. - Lily - ele acrescentou, cumprimentando-a solenemente.
- Entre - Hal disse. - Nós lhe daremos uma carona até Stillwater Springs.
- Você não tem carro? - Tess perguntou, fascinada, esticando-se na odiada "cadeirinha de bebê" para conseguir dar uma boa olhada no cachorro.
Tyler voltou a sorrir, e o estômago de Lily despencou, como o carrinho de uma montanha russa mergulhando em uma descida íngreme e perigosa dos trilhos.
- Ele quebrou em uma das estradas secundárias - ele explicou. - Não consegui arrumar um reboque, de modo que eu e Kit Carson decidimos gastar a sola do sapato até em casa.
- Gastar a sola do sapato? - Tess repetiu, confusa.
- Caminhar - Lily traduziu. Tyler riu.
- Ora, entre - Hal disse. - O sol está quente o suficiente para assar o cérebro de um homem.
Tyler abriu a porta direita traseira do Taurus, e ele e Kit Carson se acomodaram ao lado de Tess, o cachorro no meio. Extasiada, Tess dividiu suas últimas bolachas com Kit.
- Obrigado - Tyler disse.
- Meu papai morreu quando eu tinha quatro anos - Tess informou. - Em um acidente de avião.
Lily retesou-se. Por mais estranho que pudesse ser, Tess freqüentemente confidenciava a desconhecidos a maior tragédia de sua curta vida. Com conselheiros e amigos bem-intencionados, ela costumava se fechar.
- Lamento saber disso, pequenina - Tyler disse.
- Gastar a sola dos sapatos é parecido com pedir carona? - Tess perguntou. - Porque pedir carona é muito perigoso. É o que a mamãe diz.
Lily sentiu na nuca o olhar de Tyler, praticamente queimando sua pele suada.
- Sua mãe tem razão - Tyler respondeu. - Mas acontece que Kit e eu não tivemos muita escolha.
- Poderia ter ligado para Logan ou Dylan - Hal disse. Lily não entendeu o tom de cautela na voz do pai, mas estava ocupada demais voltando para o trânsito da rodovia para se preocupar com isso.
- Quando o inferno congelar - Tyler disse. Lily pigarreou.
- Neste caso, quando o deserto congelar - ele apressou-se em corrigir.
- Quem são Logan e Dylan? - Tess quis saber.
- Meus meios-irmãos - Tyler respondeu, afivelando o cinto de segurança.
- Você não gosta deles? - Tess quis saber.
- Tivemos um desentendimento.
- O que é isso? - Tess insistiu.
Arriscando uma olhada no espelho retrovisor, Lily o viu desarrumar o cabelo louro escuro de Tess. Ela tinha os olhos verdes escuros de Burke, além de sua personalidade extrovertida. Dizer para ela não falar com desconhecidos era praticamente perda de tempo, não que Tyler fosse um desconhecido, no sentido estrito da palavra.
- Uma briga - Tyler disse.
- Ah - Tess parecia intrigada. - Gosto do seu cachorro.
- Eu também.
Lily sentava-se empertigada no assento de vinil pegajoso. Concentrada na condução do veículo. Pensara um bocado em Tyler Creed desde que viera às pressas para Montana para cuidar do pai, mas jamais esperara, de fato, esbarrar nele. Afinal de contas, ele era um famoso caubói de rodeios, às vezes dublê e ator, e também fazia comerciais.
Pessoas assim costumavam ser, bem, transitórias. Não é?
Passando pela cozinha com um cesto de roupas sujas, ela o vira na televisão sobre a bancada, vendendo cuecas samba-canção, e teve de se sentar devido às palpitações. Burke, um piloto comercial de carreira, estava em casa entre um voo e outro, e lhe perguntara o que havia de errado.
Ela dissera que estava na época de suas regras e que se sentira zonza.
Sentira-se zonza, sem dúvida, contudo, isso nada tivera a ver com o seu ciclo menstrual.
- Vovô e eu queríamos hambúrgueres para o almoço - Tess informou ao companheiro de viagem -, mas ela disse que entupiria as nossas artérias, de modo que, agora, temos de esperar e comer salada com tofu.
- Ui - Tyler comentou. - Que roubada. Lily apertou com mais força o acelerador.
- Onde podemos deixá-lo? - ela perguntou, sorridentemente, quando enfim, alcançaram os arredores de Stillwater Springs. O lugar parecia mais ou menos o mesmo, um pouco mais acabado, menor.
- No mecânico - Tyler retrucou.
Lily já se esquecera de como ele costumava ser econômico com as palavras, jamais fazendo uso de duas quando uma já dava conta do recado. Também se esquecera de seu perfume de roupa lavada, deixada secando ao ar livre e sob o sol, mesmo após ter passado o dia todo trabalhando com fardos de feno. Ou caminhando ao longo de uma rodovia sob o sol escaldante do verão. De que sua boca se repuxava em um dos cantos quando achava algo divertido, e de que seu cabelo estava sempre um pouco comprido demais. Do modo como as roupas caíam nele, e de como ele parecia sempre tão à vontade na própria pele...
Não pense na pele, Lily ordenou-se, sabendo que o pai a estava observando com intensidade pelo canto do olho, que brilhava maliciosamente.
- Obrigado pela carona - Tyler disse, quando encostaram diante da única oficina mecânica da cidade. Kit Carson saltou no chão atrás dele.
- Tchau! - Tess gritou, como se ela e Tyler Creed fossem velhos amigos.
- Disponha - Lily mentiu.
Ele afastou-se, sem olhar para trás.
Exatamente como fizera naquele último verão, quando Lily embriagada de paixão adolescente e de meia garrafa de cerveja light, pedira-o em casamento. Ele dissera que os dois eram jovens demais, e que era melhor darem um tempo, antes de dar qualquer passo mais sério.
Lily sentira-se arrasada e, em seguida, horrorizada.
Tyler simplesmente fora embora. Mais tarde, ela descobrira que, enquanto saia com ela, terminando todas as noites com um casto beijo na face e um "durma bem", ele passara o restante delas na cama com uma garçonete divorciada e com o dobro da idade dele.
A lembrança de tal descoberta ainda incomodava Lily.
Ele compusera canções para ela, e as cantara baixinho, com a voz carregada de emoção, enquanto as tocava no seu violão.
Ele a levara ao cinema, e era longas caminhadas pelas estradas do condado, sob a luz da lua.
Ganhara três ursinhos de pelúcia e uma girafa de quase um metro e meio na feira do condado, e lhe dera os animais de brinquedo.
E, o tempo todo, estava traçando uma garçonete com um corpo fantástico e uma tatuagem de uma Harley-Davidson no antebraço direito.
Lily era uma mulher adulta, viúva, com uma filhinha, um pai doente e uma carreira bem-sucedida em marketing sob o cinto. E, diabos, ainda doía lembrar que as músicas, os filmes e as caminhadas românticas nada significaram para ele.
Nada para ele, tudo para ela.
- Águas passadas - o pai comentou, baixinho. - Vamos para casa, Lily.
Vamos para casa, Lily.
Hal lhe dissera isso na noite em que ela chegara à clínica, onde ele estava trabalhando até tarde, após o rompimento com Tyler, trazendo o seu coração partido na mão. Ela chorara e dissera jamais querer ver Tyler Creed novamente, enquanto vivesse. O maxilar de Hal se cerrara, e ele pusera o braço ao redor dos ombros dela, puxando-a para perto de si por alguns instantes.
Ele é filho de Jake Creed. minha querida, Hal dissera. Eles são como veneno, aqueles Creed. Todos eles. Está melhor sem ele.
Ela soluçara, arrasada, como apenas uma jovem traída de dezessete anos podia ficar.
Mas eu o amo, papai, protestara.
Vamos para casa, Lily, ele repetira, Você vai superar Tyler. Pode acreditar.
E ela superara mesmo Tyler Creed.
Ou, pelo menos, pensara ter superado, até hoje.
Agora, por Tess e por si mesma, engoliu em seco. Seguiu com o carro na direção da casa onde crescera, uma menina feliz, até o divórcio súbito e amargo dos pais, quando tinha apenas onze anos de idade. Até Tyler lhe fazer em pedaços o coração, e nem todos os homens do rei, com todos os cavalos do rei, além de um certo piloto comercial bonitão e charmoso, foram capazes de juntar novamente os cacos.
A enorme casa em estilo vitoriano também não mudara, a não ser por algumas calhas soltas e a tinta descascando das venezianas de madeira.
Quando estacionaram, uma mulher loura de jeans estava de pé na varando que dava a volta na casa, acenando e sorrindo. - Kristy Madison - Lily disse, mais animada.
- Agora é Creed - Hal corrigiu. - Ela casou-se com Dylan há pouco tempo.
Kristy desceu os degraus da varanda, atravessando o portão aberto na cerca de madeira, que oscilou um pouquinho nas dobradiças. Quando Hal conseguiu sair lentamente do carro, Kristy o cumprimentou com um abraço.
- Sentimos todos a sua falta - disse. - Seja bem vindo. Lily arrancou-se do assento do carro e desceu para a rua, enquanto Tess se soltava no banco de trás.
- Oi, Lily - Kristy disse. - É bom revê-la. - Seus olhos azuis-escuros se voltaram para Tess, que estava dando a volta pela frente do carro. - E você deve ser Tess.
Tess assentiu na mesma hora, provavelmente satisfeita que alguém naquele lugar estranho e novo a conhecesse.
- Meu papai morreu em um acidente de avião - ela disse. - Quando eu tinha quatro anos.
- Eu sinto muito - Kristy disse, gentilmente.
- Tem crianças da minha idade nesta cidade? - Tess perguntou. - Se houver, eu adoraria brincar com elas.
Kristy sorriu, e seu olhar se encontrou com o de Lily por um instante, depois, voltou-se imediatamente para o rosto de Tess.
- Várias me vêm à cabeça - respondeu. - Contudo, por ora, gostaria de levar o seu avô lá para dentro. O almoço está servido.
Uma gratidão cansada se apossou de Lily. Assim como se esquecera de tanto a respeito de Tyler, também se esquecera da natureza das cidades pequenas como Stillwater Springs. Quando alguém ficava doente, ou passava por dificuldades, as pessoas ajudavam. Abriam janelas para arejar os aposentos, arrumavam as camas com lençóis limpos e serviam o almoço na mesa da cozinha.
- Eu estou no bagaço - Hal disse. - Acho que vou tirar um cochilo na minha própria cama.
Ele entrou, enquanto Lily, Kristy e Tess o seguiram a um passo mais lento.
- Espero que não se importe - Kristy disse para Lily. - Briana, minha cunhada, a esposa de Logan, e eu pegamos a chave com a vizinha de seu pai, e demos uma arrumada na casa.
Mais uma vez, Lily sentiu os olhos arderem. Em Chicago, tinha milhões de conhecidos e clientes, mas nenhum amigo chegado. No passado, ela e Kristy passaram um bocado de tempo juntas.
- Você deve estar exausta - Kristy disse, examinando-lhe o rosto. - Depois do almoço, por que não deita para descansar um pouco, enquanto levo Tess até a biblioteca para a hora da história.
Lily mantivera a guarda erguida durante tanto tempo, morando na cidade grande, lidando com todas as suas loucuras, que abaixá-la a estava deixando um pouco tonta.
- Gostaria de fazer isso? - perguntou para Tess. - Quero dizer, ir até a biblioteca?
- Gostaria - Tess respondeu.
Não era muito de se surpreender. A criança aprendeu a ler por conta própria aos três anos de idade.
O almoço era chá gelado fresco, sanduíches de atum e salada de batata. Lily preparou um prato para o pai e o levou até o quarto dele, e, ao voltar para a cozinha, sentou-se com Tess e Kristy naquele aposento familiar e querido e comeu, na realidade, sentindo o gosto da comida pela primeira vez, desde que recebera o telefonema avisando do enfarto do pai.
Lembrou-se que Kristy ligara para ela pouco depois. E Dylan, um velho amigo, viera ao telefone, instantes depois, para tranquilizá-la, e lhe oferecer o uso de um avião particular.
- Você parece estar feliz - disse para Kristy, após Tess ter acabado de comer e ido explorar um pouco a casa, antes de se arrumar para a ida até a biblioteca.
- E estou - Kristy disse, reluzindo. Ela estendeu o braço, segurou a mão de Lily e, por um instante, a apertou de modo tranquilizador. - As coisas vão melhorar - prometeu, - Você está em casa, entre amigos, e seu pai vai ficar bem.
Lily riu, mas foi um som tímido, cansado e um pouco... Não, muito cético.
- Se é o que diz - retrucou. - Obrigada por tudo que fez, Kristy. E agradeça também a Briana. Onde quer que ela esteja.
Kristy sorriu, empurrou a cadeira para trás, e ficou de pé, para começar a tirar a mesa.
- Você logo a conhecerá - garantiu. - Ela e Logan estão reformando a casa, e ela teve de voltar para casa para falar com o empreiteiro.
Logan estava casado, e reformando a casa. Kristy obviamente estava feliz com Dylan.
E Tyler provavelmente ainda estava dormindo com garçonetes, se é que ainda não havia passado para estrelas de cinema e modelos sensuais. Como se ela se importasse.
Se seu cérebro não houvesse empacado em Lily Ryder, e se enrolado como um laço de rodeio, Dylan não teria pegado Tyler de surpresa do modo como fez, ali na garagem do mecânico. Um cutucão violento no seu ombro direito o trouxe de volta à realidade na mesma hora.
Tyler virou-se, pronto para brigar, mas conteve-se ao ver o sorriso de canto da boca de Dylan, e o brilho desafiador nos seus olhos azuis.
- Aquele seu luxuoso carro de cidade grande quebrou em algum lugar? - Dylan perguntou.
Tyler descerrou o punho direito, esvaziando os pulmões. Por mais que quisesse esmurrar o irmão do meio, teve receios de que isto poderia assustar Kit Carson, de modo que não o fez. O cachorro já passara pelo suficiente.
- Eu o troquei por uma caminhonete - escutou-se dizer. - E foi isso que quebrou.
Dylan ergueu uma das sobrancelhas.
- Precisa de carona?
Tyler olhou para o cão, descansando atentamente aos seus pés, os olhos castanhos indo de um irmão para o outro, A pobre criatura parecia estar esperando ser esmagada entre dois pratos gigantescos a qualquer momento.
- Preciso - Tyler respondeu, relutantemente aceitando a oferta de Dylan. - O reboque está atendendo outra chamada, e sou o quinto na fila, de modo que talvez só possam trazer a caminhonete amanhã, para poder consertá-la.
Depois de avisar para Vance Grant, o único mecânico de serviço, que ele voltaria a entrar em contato na manhã seguinte, Tyler e Kit seguiram Dylan para fora da oficina mecânica, sendo recebidos pelo calor da tarde. Deram uma parada no supermercado, para comprar ração para o cachorro, café, e alguns outros itens, e seguiram, em um acordo silenciosos para o rancho. O tempo todo, mal trocaram duas palavras entre si.
Na verdade, estavam a cerca de cinco quilômetros longe da cidade, Kit ofegando alegremente no banco de trás da caminhonete de cabine dupla de Dylan, antes de Tyler pensar em se perguntar como o irmão simplesmente aparecera na hora certa, ou errada.
Ponderando a questão, Tyler distraidamente esfregou o ombro dolorido, onde Dylan o cutucara.
- Você estava me procurando, quando veio à oficina? - perguntou.
- Estava - Dylan respondeu, tranqüilamente, sem sequer olhar na sua direção. O ligeiro curvar de satisfação no canto da boca do irmão disse a Tyler que ele o vira massageando o ombro. - As novidades se espalham rápido. É grande notícia, quando um Creed visita a velha cidade natal.
Tyler suspirou.
- Se nós somos notícia, realmente acontece muito pouca coisa por aqui.
- Você ficaria surpreso - Dylan retrucou. - Isto é, se parasse por aqui tempo o suficiente para descobrir o que anda acontecendo em Stillwater Springs.
Eles se esbarraram há pouco mais de uma semana, na casa de uma amiga em comum, Cassie Green Creeek, mas não fora exatamente uma reunião familiar. Tyler conhecera a filhinha de Dylan, Bonnie, e gostara um bocado dela, chegando até a ir buscar remédio quando ela ficara doente, mas o vínculo fraternal não foi muito além disso.
- Por que não me põe em dia? - Tyler disse, visto que Dylan, evidentemente, estava determinado a conversar.
E quando Dylan estava determinado a fazer qualquer coisa, era mais fácil simplesmente relaxar e deixar que o fizesse.
- Bem, eu me casei - Dylan anunciou. - Com Kristy Madison.
Tyler absorveu a notícia.
- Muito bem - disse. - Parabéns.
- Puxa, obrigado. Seu entusiasmo é contagiante.
- Ela é boa demais para você - Tyler comentou, não sabendo bem o que dizer. Havia tanta inimizade entre ele e os irmãos, que Tyler não sabia como levar uma conversa civilizada com nenhum dos dois. - Kristy, é claro.
Dylan riu.
- Verdade - respondeu. Depois começou a colocar Tyler em dia com os últimos acontecimentos em Stillwater Springs, Montana. - Eles desenterraram dois corpos na antiga propriedade dos Madison - prosseguiu. E o Xerife Book se aposentou um pouco mais cedo, uma semana antes da eleição especial. Mike Danvers estava concorrendo com Jim Huntinghorse, mas caiu fora da disputa, de modo que Jim, agora, é O Homem.
- Corpos? - Tyler repetiu.
Mal se livrara do choque de rever Lily Ryder, e a filhinha dela, e, agora, Dylan vinha com essa bomba.
- Vítimas de assassinato - Dylan confirmou.
- Caramba - Tyler disse. - Alguém que conhecemos?
- Provavelmente não - Dylan respondeu, ao deixarem a estrada principal e pegarem uma das antigas trilhas de gado que serpenteavam através do rancho como uma extensão de antigas raízes de árvore. Um músculo se retesou na mandíbula de Dylan. - Um andarilho que trabalhou para o pai de Kristy por algum tempo, e uma jovem que desapareceu durante uma viagem de família para acampar, alguns anos atrás.
Tyler lembrou-se do frenesi que a mídia fez envolvendo a garota desaparecida. Grupos de busca haviam olhado debaixo de cada pedra daquela região de Montana, sem sucesso, e, com o passar do tempo, o rebuliço foi esmorecendo, e os pais voltaram para casa, derrotados e com o desespero estampado nos olhares vazios.
- Floyd conseguiu pegar os assassinos?
- Será que você nunca lê um jornal? - Dylan retrucou, com um tom um pouco exasperado.
Um tom que Tyler conhecia muito bem.
- Não - respondeu. - Meus lábios se movem quando leio, e isso me deixa irritado.
- Tudo o deixa irritado, irmãozinho. - Dylan interrompeu-se, suspirou, e prosseguiu. - Freida Turlow matou a garota... Por ciúmes, ou coisa parecida. Quanto ao andarilho... Bem, essa é outra história.
- Aqueles Turlow são loucos de pedra - Tyler afirmou. Dylan riu de novo, mas foi um som áspero, desprovido de humor.
- Vinda de um Creed, é uma afirmação e tanto. Um pouco contra a vontade, Tyler também riu.
- O que o traz de volta ao lar, irmãozinho? - Dylan perguntou. O velho Dylan estava um tanto quanto loquaz.
- Pare de me chamar de irmãozinho - Tyler disse. - Sou uma cabeça mais alto do que você.
- Você sempre será o bebê da família. Aceite. - Dylan reduziu a marcha, e eles sacolejaram pela estrada que levava ao lago, na direção do chalé de Tyler. - Responda a minha pergunta. O que está fazendo aqui?
Tyler deixou escapar um demorado suspiro.
- Quem dera eu soubesse - admitiu. - Acho que me cansei da estrada. Preciso de algum tempo para pensar em algumas coisas.
- Que coisas?
Mais uma vez, o mau gênio de Tyler, nunca muito abaixo da superfície, deu sinal de vida.
- Por que diabos isso importa para você? - perguntou. Kit Carson ganiu no banco de trás.
- Porque eu me importo - Dylan afirmou, calmamente. - E Logan também.
- Cascata!
- Por que é tão difícil para você acreditar nisso? O chalé, construído bem perto do lago, surgiu no final da estrada. Era mais uma cabana do que uma casa, a herança de restos que recebera do velho, mas Tyler adorava a solidão e o modo como a luz do sol e da lua se refletiam sobre as águas tranqüilas.
Logan, sendo o mais velho, ficara com a casa principal do rancho, quando Jake Creed acabou morrendo na mata, derrubando árvores, e Dylan, vindo em segundo lugar, ficou com a velha espelunca do tio, do outro lado do pomar. Isso, como sempre, deixou Tyler em terceiro lugar.
Com os restos.
Tyler descerrou os dentes, e estendeu a mão para tranqüilizar o cão com um afagar das orelhas, Ignorando a pergunta de Dylan, preferiu perguntar sobre Bonnie.
- Ela está bem - Dylan respondeu.
Ele estacionou a caminhonete diante da armação de madeira em forma de A, e Tyler abriu a porta do carona, antes mesmo que Dylan desligasse o motor. Kit Carson aguardou, tremendo um pouquinho, ou de expectativa, ou de receio, até que Tyler o puxou para fora do banco de trás.
- Obrigado pela carona - Tyler disse para o irmão, pegando na caçamba os suprimentos que comprara na cidade. Aqui está o seu chapéu, para que a pressa?
Dylan desceu da caminhonete, e bateu a porta.
- Você não tem nada para fazer? - Tyler indagou, com secura.
Kit Carson estava cheirando ao redor de si, na grama verde e alta, sentindo-se em casa, e ele era toda a companhia que Tyler queria naquele instante. Assim que estivesse lá dentro, acionaria a bomba de água, acenderia o fogo no antiquado fogão a lenha e prepararia um pouco de café. Tentaria colocar as coisas em perspectiva.
- Tenho um bocado de coisas para fazer - Dylan respondeu, seu tom de voz calmo em conflito direto com o seu jeitão vá-para-o-inferno. - Para começo de conversa, estou construindo uma casa. Logan e eu voltamos aos negócios de gado. Mas, hoje, irmãozinho, você está no topo de minha lista de coisas a fazer. Goste ou não.
Tyler consultou uma lista imaginária, imaginando um pequeno caderno de anotações, como o que o pai sempre carregara no bolso da camisa de trabalho, cheio de medidas de troncos e números telefônicos de mulheres casadas.
- Você também está no topo da minha lista - retrucou. - O problema é que é uma lista negra.
Dylan apoiou-se no capô da caminhonete, observando quando Tyler seguiu para o chalé, carregando a saca de ração sob um dos braços e levando as duas sacolas de compras no outro. Kit Carson apressou-se em segui-lo, embora, provavelmente, estivesse mais interessado na comida para cachorro.
- Ty - Dylan disse, com aparente tranqüilidade, embora aquele sutil tom determinado fosse pura teimosia Creed. ― Somos irmão, lembra-se? Sangue do mesmo sangue, Logan e eu queremos fazer as pazes e enterrar de vez o passado.
- Você obviamente me confundiu com alguém que dá a mínima para o que você e Logan querem.
Dylan afastou-se da caminhonete e cruzou os braços.
- Olhe - disse, quando Tyler passou por ele, seguindo para a porta da frente do chalé -, estávamos todos confusos após o enterro de Jake...
Confusos? Logan, Dylan e ele se meteram na maior de todas as brigas, na taverna do Skivvie. Na verdade, acabaram na cadeia, e cada um seguiu o próprio caminho, após ter dito coisas que não podiam ser esquecidas.
Tyler sacudiu a cabeça e colocou a mão na maçaneta da porta. A coisa era tão enferrujada que ele jamais se dera ao trabalho de instalar uma tranca, mas, naquele dia, ela abriu sem problemas, e Kit Carson atravessou rapidamente o vão da porta, rosnando baixinho, com o pelo em pé.
Dylan vinha logo atrás de Tyler, trazendo o estojo de violão e a mochila do irmão.
― O que diabos? - murmurou.
Era óbvio que havia alguém dentro do chalé, e Kit Carson o encurralara no banheiro.
- Calma, garoto - Tyler disse para o cão, colocando no chão as coisas que vinha trazendo.
- Tire ele daqui! - gritou uma voz jovem de dentro daquilo que era usado como banheiro. - Tire ele daqui!
Tyler e Dylan trocaram olhares curiosos, e Tyler afastou o cão para o lado com um dos joelhos, postando-se diante da porta.
Uma criança encolhia-se no chão, entre o vaso e a bancada da pia, fitando Tyler com olhos selvagens, rebeldes, e apavorados. Um menino, até onde Tyler podia dizer, usando um comprido sobretudo preto, como se em desafio ao calor. Três anéis prateados furavam a sobrancelha esquerda do menino, e ambas as orelhas e o lábio inferior também exibiam peças de metal. A aranha tatuada no seu pescoço apenas contribuía para o drama.
Tyler estremeceu, apenas imaginando todas aquelas perfurações. Ele apoiou ambas as mãos no batente da porta, bloqueando a única rota de fuga, além da pequena janela um metro acima do tanque do vaso. O menino olhou para cima, e foi inteligente o suficiente para desconsiderar aquele método de agressão.
- Eu não estava fazendo mal a ninguém - disse. Seus olhos voltaram-se para Kit, que estava tentando se espremer por um espaço entre o joelho direito de Tyler e a parede, para desafiar o invasor. - O cachorro morde?
- Depende - Tyler disse. - Qual é o seu nome?
― Se ele morde ou não depende de qual é o meu nome? - o menino zombou.
Tyler reprimiu um sorriso. Tirando a tatuagem e os piercings, ele supôs ter mais em comum com o garoto do que diferenças.
- Não - disse. - Depende se você vai ou não deixar de bancar o espertinho e me contar quem é você e o que está fazendo na minha casa.
- Isto é uma casa? Parece mais um galinheiro para mim.
De pé atrás de Tyler, Dylan riu baixinho. Ele pousara o estojo do violão e a mochila de Tyler no chão, e, a julgar pela barulheira, começara a trabalhar com a bomba de água na pia principal.
- Muito bem, Brutus - Tyler disse, olhando para o cão -, pode pegá-lo.
Kit Carson o fitou confuso, provavelmente querendo saber quem diabos era Brutus.
- Davie McCullough! - o menino gritou, ficando rapidamente de pé e, ao mesmo tempo, tentando se fundir com a parede do banheiro, que estava coberta com um papel de parede antigo, descascando em vários lugares. - Está bem? Meu nome é Davie McCullough!
- Respire fundo, Davie - Tyler lhe disse. O cão não o machucará, e nem eu.
Contudo, alguém já o havia machucado. Agora que o menino saíra do chão e a luz empoeirada da janela alta lhe iluminara o rosto, Tyler notou as manchas roxas desbotadas, meio amareladas, ao longo do seu queixo.
Mais uma vez, Tyler estremeceu. Ou Davie McCullough recentemente havia se metido em uma briga com algum outro menino, ou algum adulto lhe dera uma senhora surra. Tendo tido ele próprio um pai alcoólatra, Tyler estava tendendo mais a acreditar na segunda versão.
- O que houve com o seu rosto? - Dylan perguntou, enfiando um pouco de lenha no fogão para ferver a água para o café, assim que Davie deixou o banheiro, esforçando-se para manter a distância tanto de Tyler quanto do cão.
Na verdade, Davie manteve uma distância cuidadosa de todo mundo. Um feito e tanto em um chalé do tamanho de um daqueles carros de palhaço no rodeio, que despeja levas de bufões.
- Você realmente vai acender uma fogueira em um dia como este?
- Davie retrucou.
- Eu fiz minha pergunta primeiro - Dylan respondeu, pousando ruidosamente a chaleira de metal amassada sobre o fogão.
Davie franziu a testa. Com um pavio tão curto, ele deveria ter sido um Creed, Tyler pensou, com um certo humor negro.
- O namorado de minha mãe estava de ovo virado - disse, impertinente, apesar da total desvantagem de sua situação. - Está bem?
Tyler sentiu mais uma pontada de solidariedade, e uma vontade quase irresistível de encontrar o namorado e ver se ele não estaria disposto a encarar um homem adulto, em vez de um garoto magricela que provavelmente jamais levantou algo mais pesado do que um computador laptop.
- Tudo bem - Dylan retrucou, afavelmente.
Ele enfiou a mão em uma das sacolas de compras de Tyler, retirou de lá de dentro um pacote de biscoitos de chocolate e o jogou para Davie, que agarrou a embalagem e tratou de abri-la na mesma hora.
- Eu comi aquela carne enlatada que você tinha guardada no armário- ele disse para Tyler, cuspindo algumas migalhas de biscoito no processo. - Você não costuma guardar muita comida por aqui, não é?
- McCullough - Tyler disse, e, desta vez, não se deu ao trabalho de tentar conter o sorriso. - Não me lembro de já ter encontrado alguém com esse nome em Stillwater Springs. É novo na cidade?
Claramente dividido entre a vontade de sair correndo pela porta, que Dylan deixara aberta para deixar sair um pouco do calor do fogão, e ficar, por não ter para onde ir, Davie hesitou, sem saber ao certo como responder, depois, puxou uma das quatro cadeiras frágeis que rodeavam a mesa no centro do chalé, e sentou-se para terminar de devorar os biscoitos.
Se ele já acabara com as dezenas de latas de "presunto" enlatado que Tyler costumava guardar para as suas visitas intermitentes, era óbvio que o garoto vinha se escondendo no lago já há algum tempo.
- Minha mãe morou aqui há muito tempo - Davie informou, após traçar um bocado de biscoitos. - Antes de eu nascer.
- Quem é a sua mãe? - Dylan perguntou, calmamente.
O sr. Sutil. Como se qualquer idiota não pudesse notar que ele estava pretendendo encontrar a mulher e lhe dizer poucas e boas por deixar que o namorado lhe surrasse o filho.
- Você é assistente social ou coisa parecida? - Davie perguntou, desconfiado.
- Não - Dylan respondeu, encontrando canecas no armário, e fazendo uma careta ante o que quer que tenha visto no interior delas. - Apenas tentando ser sociável, mais nada. Contudo, sua mãe deve estar um bocado preocupada.
- Está ocupada demais servindo bebidas no cassino para se preocupar - Davie zombou. - Roy está desempregado há um ano, de modo que ela tem feito jornada dupla, tentando economizar para que tenhamos a nossa própria casa.
Dylan e Tyler voltaram a trocar um olhar. Nenhum dos dois disse nada. Agora que o garoto estava com um pouco de açúcar e conservantes no sangue, ficara um tanto quanto falante.
- Moramos no acampamento para traileres Shady Grove, com a avó de Roy. O lugar é pequeno para todos nós, ainda mais quando ele está dando coices.
Jake Creed fora famoso por dar alguns socos quando estava virando goela abaixo um contracheque, e tanto Dylan quanto Tyler já haviam estado na pele de Davie mais vezes do que gostariam de admitir. Costumavam se refugiar na casa de Cassie, dormindo no chão de sua sala de estar, ou na tenda em seu quintal. Apenas Logan fora imune ao mau-gênio de Jake, talvez por ter sido o mais velho, ou porque sempre fora o favorito do velho, o que poderia "se tornar alguém na vida." O café ficou pronto.
Kit Carson caminhou lentamente até a varanda e ficou ali deitado, tomando sol, como era o direito de qualquer cão velho.
- Eu lhe darei uma carona de volta para a cidade - Dylan disse para Davie, após algum tempo passar. - O novo xerife é amigo meu. Talvez ele possa fazer algo quanto a Roy.
O rosto de Davie foi tomado de medo, rapidamente controlado, mas não rapidamente o suficiente.
- Nada além de um tiro de escopeta na barriga vai resolver o que há de errado com Roy Fifer - disse. - Por que não posso ficar aqui? Posso dormir lá fora, e trabalharei pela comida que eu comer, cortando lenha ou coisa que o valha.
Tyler sabia que não podia ficar com o garoto. Para começo de conversa, era um lobo solitário. A segunda coisa era que Davie era menor de idade. Não devia ter mais de treze ou quatorze anos. Para melhor ou pior, era a mãe quem decidia onde ele morava.
- Não daria certo - disse, com certa relutância.
O que ele e Dylan teriam feito, todas aquelas noites, se Cassie houvesse se recusado a abrir a porta para eles? Se ela não houvesse enfrentado Jake Creed na sua varanda e lhe dito que chamaria o xerife Book e prestaria queixa contra ele se Jake não fosse embora para casa, esperar a bebedeira passar?
- Eu trabalharei - Davie disse, e o desespero em sua voz foi como uma facada na barriga de Tyler. - Posso cuidar do cachorro e cortar lenha e pescar todo o peixe que pudermos comer. Ficarei fora do seu caminho... Não causarei problemas...
- Talvez eu não fique aqui por muito tempo - Tyler argumentou, sua voz rouca, incapaz de olhar na direção de Dylan. ― E você não pode ficar aqui sozinho, Não passa de uma criança.
Davie estava o mais perto das lágrimas que seu orgulho permitiria.
- Tudo bem - ele disse, seus ombros curvando-se um pouco. Dylan empurrou a cadeira para trás e ficou de pé. Ele suspirou. Devia estar se lembrado de todas as coisas de que Tyler se lembrara, e talvez alguma mais, visto que fora o filho do meio, não o caçula, como Tyler, nem o mais inteligente, como Logan. Não, Dylan fora turbulento, o filho que espelhou todas as coisas que Jake Creed poderia ter sido, se não houvesse sido tamanho desperdício de oxigênio.
- Vou falar com Jim - disse para Tyler.
Tyler simplesmente assentiu, entorpecido por sofrimentos antigos. Sofrimentos compartilhados.
Quando crianças, ele, Dylan e Logan muito brigaram, mas cada um também sempre cuidou da retaguarda dos outros. Logan, muito maduro para a idade, sempre providenciara para que ele e Dylan tivessem dinheiro para a merenda e presentes no Natal.
Quando foi que tudo deu tão errado para eles?
Não foi no enterro de Jake. Não, os problemas começaram antes disso.
Passando pela cadeira de Tyler, Dylan pousou a mão no seu ombro.
- Você sabe o número do meu celular - disse, baixinho. - Quando sua caminhonete ficar pronta, ligue para mim, e eu lhe darei uma carona até a cidade.
LILY ACORDOU com o raiar do dia, ao som de vozes conhecidas conversando na cozinha, a da filha e a do pai, uma combinação nova. Em algum lugar lá fora, talvez no quintal do vizinho, um irrigador de jardins cantava a sua canção estivai: ka-chucka-chucka-whoosh, ka-chucka-chucka-whoosh.
Sentando-se na cama estreita do que outrora fora o quarto de costura da mãe, Lily sorriu, bocejou e espreguiçou-se. Calçou nos pés as sandálias que chutara para longe antes de se deitar. Pretendera apenas descansar os olhos, em vez disso, apagara por completo, indo tão fundo, que nem mesmo o mais vivido dos sonhos conseguiu alcançá-la.
Por algum tempo, vira-se misericordiosamente livre da realidade mundana.
Da culpa pela morte de Burke.
Do enorme abismo que a separava do homem que outrora chamara de "papai".
A solidão corrosiva.
Ela ficou sentada por alguns instantes, escutando a cadência animada da voz de Tess enquanto ela contava para o avô tudo sobre a hora da história na biblioteca. Já fazia tempo demais desde que Lily escutara aquela cadência doce. Tess normalmente era tão solene, uma pequenina alma perdida, seguindo com a vida.
Hal riu com gosto ante um dos comentários de Tess. Ele sempre fora um bom ouvinte... até simplesmente decidir parar de ouvir, pelo menos, o que Lily tinha a dizer. Quando ligara para ele, após o divórcio, desesperada para escutar alguma garantia de que as coisas voltariam a ficar bem, ele a ignorara, ou, pelo menos, foi o que pareceu para uma criança de coração partido, sofrendo com tantas coisas que mal podia identificar.
Lily entrou na cozinha e encontrou Tess e Hal arrumando a mesa para o jantar. Espaguete ensopado ao forno, a especialidade de Janice Baylor, a recepcionista de longa data de Hal, ao que Lily se recordava. O rostinho de Tess brilhava de prazer com a tarde de aventura na biblioteca com Kristy.
Lily reprimiu um comentário sobre a quantidade de gordura e colesterol no prato de forno de Janice e sorriu.
- Algo está cheirando bem - disse.
- A sra. Baylor trouxe espaguete para o jantar - Tess disse, alegremente. Hal observou Lily, provavelmente esperando um discurso sobre as
maravilhas do tofu.
- Está com uma aparência melhor - ele disse, - Parece mais descansada.
Lily assentiu. Precisava de uma chuveirada e dormir mais (será que algum dia poria o sono em dia?), porém, precisava mais de uma refeição quente e mais ainda da companhia do pai e da filha.
- E quanto a você? - ela perguntou a Hal. - Descansou um pouco durante a tarde?
Hal sorriu. Aqui, na sua própria casa, ele não parecia tão pálido e abatido quanto no hospital. A expressão de pesar delirante nos seus olhos também esmorecera. Lily supôs que ele decidira viver.
- Tanto quanto pude, com metade da cidade vindo me trazer comida - ele respondeu. - A campainha tocou pelo menos uma dúzia de vezes.
Lily ficou horrorizada. Não escutara nada. Sequer se mexera em uma das duas camas duras no quarto de costura. Afinal de contas, era assim que zelava pela saúde do pai?
Seus pensamentos deviam ter se espelhado no seu rosto. Hal deu uma piscadela, e disse, baixinho:
- Sente-se, Lily Você está em casa, agora. Você está em casa, agora. Kristy dissera algo parecido, ainda há pouco. Era uma fantasia agradável, Lily supunha, contudo, assim que o pai estivesse em condições de se virar sozinho, ela e Tess voltariam para suas antigas vidas em Chicago, para o apartamento, e para a escola particular de Tess, e para o emprego de Lily como compradora para um varejista on line de roupas femininas.
A mãe de Burke, Eloise, que adorava Tess, ficaria perdida sem o chá semanal delas, apenas para as duas, sem contar com a empregada de Eloise, Dolores. Elas usavam apenas a melhor porcelana branca, Eloise e Tess, e usavam chapéus floridos, e luvas brancas com botões de pérola. Eloise levava Tess a museus, e lhe comprava lindos vestidos feitos a mão, e a convidava para longos finais de semana no "chalé" de Kenyon, em Nantucket.
O lugar tinha três andares, quatorze aposentos, cada um deles enfeitado com móveis antigos primorosamente gastos. Paisagens marítimas inestimáveis adornavam as paredes, e até mesmo os tapetes eram peças de herança, ou achados elegantes nas melhores casas de leilão do mundo.
Tess, Eloise jamais deixava de salientar, era tudo que lhe restava, depois que o marido a deixara e o filho morrera no auge da vida. A acusação não precisava ser proferida: se ao menos Lily tivesse sido mais tolerante com o "espírito livre" de Burke, um pouco mais paciente...
A própria mãe de Lily não parecia ter tempo para ela, e nem para Tess, estava ocupada demais adornando o braço do poderoso marido em festas sofisticadas por toda a costa leste.
Resolutamente, ela despertou dos pensamentos, seguiu para a pia da cozinha e lavou as mãos. Depois, sentou-se para jantar de "espaguete" com a família.
- Gostei do homem com o cachorro Tess anunciou, no meio da refeição.
Só de ser lembrada de Tyler, Lily ficou toda arrepiada.
- Onde ele mora? - Tess insistiu, quando nem Lily e nem Hal ofereceram uma resposta.
Lily não tinha idéia. Não queria saber. Tudo seria muito mais fácil se pudesse apenas fingir que Tyler Creed não existia, como vinha fazendo desde a noite em que ele lhe partira o coração, mas isso seria muito difícil em uma cidade tão pequena como Stillwater Springs.
- A família dele tem um rancho - Hal explicou, com uma presteza que pegou Lily de surpresa, dada a antiga opinião negativa que ele tinha dos Creed em geral e de Tyler em particular. Ela recordou-se da maneira amigável com que ele cumprimentara Tyler quando o encontraram caminhando ao longo da estrada solitária, - É uma propriedade enorme. O chalé de Tyler fica no lago, a melhor pescaria da região.
- Duvido que ele passe muito tempo lá - Lily disse, timidamente.
- Ele é um homem ocupado, não há dúvidas - Hal concordou, com silenciosa admiração, - Mudou um bocado desde que era garoto. Logan e Dylan também. Todos cursaram a faculdade, com Jake atrapalhando mais do que ajudando, e também deixaram sua marca no circuito de rodeio profissional. Na verdade, Logan é formado em direito.
Os olhos de Lily se arregalaram ao fitar o pai.
- E desde quando você se tornou fã dos Creed? - ela perguntou, tomando o cuidado de manter o tom de voz tranqüilo. Tess era tão inteligente que poderia pegar no ar a mais suave das nuances.
- Desde que um deles salvou a minha vida - Hal disse, baixinho, - Além do mais, admiro iniciativa. E isso é o que não falta neles, nos três.
- Ele é casado? - Tess perguntou, um pouco cautelosamente demais para o gosto de Lily. - Ele tem uma filhinha?
Lily quase se engasgou com uma garfada do ensopado de espaguete.
- Até onde eu sei - Hal respondeu, olhando para Lily, em vez de para Tess -, ele é solteiro. Não tem filhos.
― Acha que ele gostaria de uma filhinha? - Tess insistiu, com tamanha esperança na voz que os olhos de Lily se encheram de lágrimas súbitas e escaldantes. - Uma filhinha como eu?
- Querida... - Lily começou a dizer, mas as palavras lhe falharam. Hal estendeu o braço para acariciar a mão da netinha, seu sorriso sincero e cheio de carinhosa compreensão.
- Acho que qualquer homem ficaria orgulhoso de ter você por filha, meu docinho.
- Não - Lily sussurrou.
E, naquele exato instante, o telefone tocou.
Lily correu para atender, em parte, porque precisava da distração e, em parte, porque não queria que Hal saísse às pressas para cuidar da vaca doente de alguém, colocando em risco a sua saúde frágil.
- Alô? - atendeu.
- Lily? É Tyler.
O chão pareceu desaparecer sob os pés de Lily exatamente como fazia quando ela era adolescente e o som da voz de Tyler tinha o poder de deixá-la de pernas bambas.
- Hã.. oi... - Lily balbuciou.
- Eu quero vê-la - Tyler disse. Eu quero vê-la. Simples assim.
Como se ele não a houvesse dispensado para dormir com uma garçonete tatuada. Como se não houvesse destruído os seus sonhos mais preciosos e promovido um distanciamento frio no centro de seu casamento que ela e Burke jamais foram capazes de superar.
Maldito seja, era muita ousadia. Porque ele queria vê-la, Tyler esperava que isso fosse acontecer. Na sua arrogância, ele provavelmente sequer cogitara a possibilidade de que ela poderia recusar.
- Lily? - Tyler insistiu, quando ela ficou em silêncio por tempo demais.
O rosto dela ardia, seu estômago se contorcia, e ela deu as costas para Hal e Tess, em uma tentativa inútil de esconder o que estava sentindo.
- Lily - Tyler repetiu. - Será que quer jantar comigo amanhã à noite?
- Tudo bem - Lily respondeu, embora tivesse a intenção de dizer não. Em se tratando de Tyler Creed, sua determinação e nada eram o mesmo.
Se Tyler tivesse que explicar o que o fizera ligar para Lily e convidá-la para sair, teria dificuldade em encontrar as palavras certas. Ela não saíra de sua cabeça desde que se esbarraram na estrada, depois que a caminhonete dele quebrou, contudo, não era só isso. Havia muito mais.
Talvez fosse o fato de estar sozinho no chalé, com apenas Kit Carson como companhia, embora, no fundo, a solidão sempre houvesse sido uma das suas coisas favoritas na vida. Sem dúvida, era um lobo solitário, mais do que qualquer um dos irmãos, que por si só já eram um bocado autossuficientes.
Talvez fosse o fato de saber muito bem como era ser um garoto como Davie McCullough, um jogador em uma partida de queimado psicológico, sempre o alvo. Jamais sabendo para que lado saltar, mas sempre pronto para se esquivar de uma bolada.
E, talvez, houvesse sido o pouco tempo que passara com Dylan, naquele dia, lembrando-o de que ter irmãos podia ser uma coisa boa.
Para algumas pessoas.
Isto é, pessoas que não eram Creed.
De qualquer modo, ligara para Lily, sem sequer parar para pensar que ela podia estar envolvida com algum sortudo. Contudo, ela concordara em sair para jantar com ele, e isso era um começo.
A questão era, começo do quê?
Ele estava sentado no degrau da varanda, olhando para o lago, Kit Carson ao seu lado, encostando ligeiramente no seu ombro direito, como se para, de algum modo, ancorá-lo, e bebendo café forte, quando o seu celular tocou.
Seu primeiro pensamento, ao colocar a caneca no chão e tirar o celular do bolso da camisa, foi que Lily mudara de idéia. Recuperara o bom senso. Estava ligando para ele para dizer que pensara bem, e agradecia, mas não, obrigada...
Mas, no final das contas, quem estava ligando era Dylan.
- A situação do garoto é bem ruim - Dylan disse. Era típico dele. Nunca se dava ao trabalho de dizer "alô", contudo, por outro lado, na maioria das vezes, Tyler também não o fazia. Nem Logan. Quando Tyler ligava para alguém, era porque tinha negócios a tratar. Ele não ficava jogando conversa fora. Uma característica da família, pensou, com certo humor. - A do Davie, é claro.
Tyler deixou escapar um suspiro que estivera travado em seu íntimo, pesado e sombrio, desde que encontrara Davie McCullough agachado no chão de seu banheiro, naquela tarde.
- Foi o que eu supus - respondeu. - Conversou com Jim?
- Conversei. No momento, nosso novo xerife está até o pescoço de jacarés. Ele queria ligar para a assistência social e colocar o garoto em algum lar adotivo. Davie disse que fugiria antes que isso acontecesse, e eu acredito nele, de modo que convenci Jim a aguardar alguns dias.
Tyler fechou os olhos.
- Onde está Davie agora?
- Eu o levei até o cassino. Ele está esperando em um dos restaurantes, até que a mãe encerre a jornada de trabalho. - Dylan interrompeu-se, e pigarreou, e Tyler, que soubera que algo mais sério estava por vir desde o início da ligação, se preparou para o pior. - Ty? - Dylan prosseguiu. - A mãe do menino... Bem... Ela é alguém que você conhece, - Ele interrompeu-se novamente. Na cabeça de Tyler apareceu a imagem das saídas de bombas se abrindo em um jato de combate, dos abomináveis cilindros caídos com graciosidade lenta e mortal. - Você a conheceu como Doreen
Baron.
- Diabos - Tyler praguejou, ao absorver o impacto. Isso é que era uma bomba emocional.
Quando a conhecera, Doreen era garçonete, na época em que o Skivvie's servia almoço e tinha algumas mesas. Quinze anos mais velha do que ele, Doreen, com sua variedade de tatuagens e uma atitude de quem nem estava aí para nada, ensinara-lhe tudo que ele precisava saber sobre dar prazer a uma mulher, além de outras coisas.
Ainda tentando se recompor, Tyler desesperadamente começou a fazer as contas, contando para trás, a partir da idade que supunha que Davie tivesse.
- Diabos - repetiu.
Davie podia ser seu filho. E, ao que tudo indicava, algum desgraçado o vinha surrando regularmente.
- Você ainda está aí? - Dylan indagou, um tanto quanto cautelosamente, quando o silêncio se estendera além do suportável.
- É, ainda estou aqui - Tyler respondeu, zonzo devido à combinação de medo e incontrolável esperança.
Por um lado, torcia para que Davie fosse seu. Por outro, tal revelação tornaria impossível a chegada a um entendimento entre ele e Lily Será que ele sequer queria chegar a um entendimento com Lily?
- Está pensando no que eu estou pensando? - Dylan insistiu, baixinho.
- Estou - Tyler respondeu. - Diria que Davie tem a idade certa. - Ele inclinou a cabeça, massageou a ponte do nariz com o polegar e o indicador. O cão deixou escapar um ganido e encostou-se ainda mais nele. - Contudo, Doreen jamais sequer fingiu que eu era o único homem em sua vida, e acho que, se Davie fosse meu, ela há muito já teria vindo me pedir dinheiro.
Dylan ficou em silêncio por um longo tempo.
- Olhe, você vai precisar de um carro. Já falei com Kristy, e ela concordou em lhe emprestar a Blazer dela até a sua caminhonete ficar pronta. Se quiser, podemos levá-la até aí, depois que ela largar o serviço na biblioteca.
O orgulho se manifestou no íntimo de Tyler pronto a dominá-lo, contudo precisava do transporte. A oficina mecânica não era o tipo de lugar que oferecia veículos emprestados, e carros de aluguel também estavam fora de cogitação, a não ser que quisesse ir até Missoula buscar um, o que ele não queria.
- Tudo bem - disse, por fim. ― Obrigado. Dylan riu.
- Está vendo? - Não foi tão difícil assim, foi?
Fora muito difícil. Como um Creed, Dylan tinha de saber o quanto.
- Não comece a achar que vamos ser chapas ou coisa do gênero - Tyler alertou.
Mais uma vez, Dylan riu, desta vez, uma risada mais breve, e o som dela irritou certas partes mais sensíveis de Tyler. Depois da briga no Skivvie's, após o enterro de Jake, jurara que jamais deveria nada aos irmãos, e sempre vivera de acordo com tal juramento. Agora, ali estava ele, pegando emprestada a Blazer, como um perdedor, incapaz sequer de providenciar transporte para si mesmo.
- Deus me livre, ser seu chapa - Dylan retrucou, com secura.
- Que seja - Tyler respondeu, apertando o botão de desligar. Duas horas mais tarde, horas que Tyler passou alternando entre andar de um lado para o outro e tocar nervosamente o violão, dois veículos estacionaram diante do chalé, Dylan dirigindo um deles e Kristy atrás do volante do outro.
Tyler saiu do vão da porta, guardou o caríssimo violão feito sob encomenda no seu estojo, e torceu para que ninguém comentasse nada, mas o olhar de Dylan foi direto para o instrumento musical, assim que ele e Kristy puseram os pés dentro da casa.
Kristy, trazendo Bonnie, de dois anos de idade, apoiada no quadril, seguiu direto para admirar o violão, deixando escapar um assovio baixinho de admiração.
- Um Martin - disse, com sutil reverência.
- Gosto de uma garota que conhece seus violões - Tyler disse, dando um beijo rápido na face da cunhada e, em seguida, acariciando a cabecinha loura de Bonnie.
Kristy estava linda, sempre fora. Pernas que se estendiam ao infinito, e um cérebro de verdade por trás daquele rosto angelical. E estava com um brilho especial, que indicava um recente orgasmo da variedade cósmica.
Dylan, seu olhar tranqüilo, seu corpo se movendo como se as articulações houvessem sido engraxadas, é claro, fora o sujeito sortudo.
Tyler sentiu uma pontada da mais pura inveja. Sorriu para disfarçar, embora suspeitasse que Dylan soubesse exatamente o que lhe passava pela cabeça.
Kristy retirou as chaves da Blazer de dentro do bolso do jeans justo, e as sacudiu diante do nariz de Tyler.
- Aqui está, caubói - disse.
- Caubói - Bonnie repetiu, alegremente, esforçando-se para pular para os braços dele.
Tyler sempre tivera um fraco por crianças e tomou a sobrinha nos braços. Agachou-se para apresentá-la a Kit Carson. A menininha riu, extasiada. Kit lhe lambeu a face. Tyler voltou a ficar de pé.
Kristy pousou as chaves sobre a mesa da cozinha, seus olhos azuis escuros cheios de boa vontade.
- É bom tê-lo de volta em Stillwater Springs, Ty - disse. - Estamos indo jantar na casa de Logan e Briana. Quer vir conosco?
- Ainda não estou pronto para isso - Tyler disse, mal-humorado, depois de trocar um olhar com Dylan.
Estava curioso quanto à Briana e à família pré-fabricada de Logan, dois garotos, de acordo com Cassie, além de todo o trabalho que estava sendo feito na antiga casa, mas Logan estaria lá, e isso por si só já seria motivo para manter a distância.
Mais uma vez, o olhar de Dylan pousou-se sobre o violão. Provavelmente estava se recordando do incidente no Skivvie's, depois de enterrarem Jake Creed, exatamente como Tyler estava fazendo.
- O que passou deveria ficar no passado - Dylan disse. Era fácil para ele dizer, Tyler pensou, sentindo a raiva antiga voltar a se manifestar, Ele escrevera uma canção sobre Jake, ou sobre o homem que precisara que o pai fosse, e Logan arrancara o violão de suas mãos e o destroçara de encontro ao bar.
Tyler ainda podia escutar o vibrar surdo das cordas. O instrumento havia sido uma encomenda especial; provavelmente não custara mais do que vinte ou trinta dólares, mesmo quando novinho em folha. Também fora a última coisa que a mãe de Tyler lhe dera, antes de seguir para um hotel sujo, evidentemente cansada de ser a mulher de um Creed, mesmo que por apenas mais um dia, e engolira o conteúdo de um frasco de comprimidos.
- Eu avisarei quando o que passou tiver ficado no passado -Tyler enfim respondeu, com o tora de voz duro. - Enquanto isso, é melhor esperar sentado.
Bonnie, dando-se conta da mudança no ambiente, voltou para Kristy, seu rostinho sério de preocupação, enfiando o polegar na boca, enquanto se acomodava no ombro da madrasta.
A expressão do rosto de Kristy também demonstrava preocupação.
- Vibrações ruins - comentou, baixinho, alternando o olhar entre Tyler e Dylan.
Por Kristy, e mais ainda por Bonnie, Tyler esboçou o que ele torcia para que fosse um sorriso tranquilizador, e não uma careta de morte.
- Obrigado pelo empréstimo do carro, Kristy - ele disse. - Eu fico muito grato.
Dylan estava perto da porta aberta, pronto para ir embora, agora que entregara o veículo e fizera a sua boa ação do dia.
- Se mudar de idéia quanto ao jantar, sabe onde nos encontrar - disse para Tyler, depois deixou a casa.
Kristy lançou outro olhar intrigado para Tyler e, com Bonnie, seguiu o marido.
Tyler aguardou até que todos tivessem partido na caminhonete de Dylan antes de pegar as chaves de Kristy.
- Vamos, garoto - disse para Kit Carson. - Vamos descobrir se sou o querido papai de alguém.
Tess atirou-se na cama do antigo quarto de Lily, os bichinhos de pelúcia que Tyler ganhara na feira há tanto tempo rodeando-a.
- Podemos ficar aqui, mãe? - ela perguntou, quando Lily sentou-se na beirada do colchão, que ainda estava coberto pela colcha rosa com bolinhas brancas que ela ganhara no seu oitavo aniversário. - Quero dizer, em Stillwater Springs, com o vovô?
Lily ajeitou para trás um cacho dos cabelos da filha, ainda úmido devido ao banho da tarde, afastando-o da testa. Ela beijou o local que acabara de deixar exposto.
- Temos um apartamento em Chicago - disse. - E sua avó Kenyon morreria de saudades de você se nós nos mudássemos para longe.
- Ela poderia me visitar aqui - Tess disse, com uma expressão de esperança resignada brilhando no olhar.
A idéia de Eloise Kenyon visitando uma cidade de gado como Stillwater Springs trouxe um sorriso melancólico aos lábios de Lily. A mulher provavelmente não tinha nem um par de jeans, quanto mais botas e tênis como a maioria das pessoas usava por ali. No que dizia respeito à sogra, o lugar poderia ficar em uma dimensão paralela.
- Por que quer ficar em Montana, minha querida? - Lily perguntou. - Você tem tantos amigos em Chicago...
- Não me sinto sozinha aqui - Tess lhe disse. Ela costumava fazer comentários como aquele, de figurativamente, sem aviso nenhum, puxar o tapete de baixo de Lily. - Gosto desta casa. Parece que ela está me abraçando. E vovô disse que, quando ele voltar a trabalhar, eu posso ajudá-lo a cuidar dos animais.
Em silêncio, Lily contou até dez, É claro que Hal estava por trás de toda a idéia de ela e Tess se mudarem de volta para a antiga cidade natal, agora que ele se vira frente a frente com a morte, subitamente, virará um homem de família. Certa vez, levara ela, Lily, nas suas rondas, exatamente como prometera levar Tess. Depois, um dia, aparentemente, cansara-se de ter uma filha e, de uma hora para a outra, a descartara.
Por Deus, não faria o mesmo com Tess. Não ia conquistar o amor e a confiança da criança, apenas para expulsá-la de sua vida.
- Você se sentia sozinha em Chicago? - Lily perguntou, impotentemente, pois precisava de tempo para pensar, antes que tocasse no outro assunto.
Como diabos alertaria Tess, uma criança de seis anos de idade, para não se apegar ao próprio avó? Ainda mais quando ela tão obviamente necessitava de uma figura paterna qualquer?
- Sempre me senti como se fosse para o papai estar lá - Tess explicou sabiamente, dando de ombros. - E eu poderia fazer amigos novos aqui mesmo. Kristy disse que havia crianças por aqui com quem eu poderia brincar, e eu também gostei muito da hora da história.
Lily esforçou-se, mas, mesmo assim, lágrimas lhe vieram aos olhos, e Tess as viu.
Ela sentou-se, atirou os braços ao redor do pescoço de Lily e a abraçou com força. Outra criança poderia ter se agarrado; Tess estava oferecendo conforto, não tomando.
Agora, era Lily que estava se agarrando a ela.
- Não chore, mamãe - Tess suplicou, sua respiração quente de encontro à face de Lily - Por favor, não chore.
Lily fungou bravamente.
- Eu sinto muito -- disse. - Eu é que deveria ser forte.
Tess voltou a se recostar nas almofadas, as mesmas almofadas onde Lily tivera tantos sonhos com Tyler, e fitou a mãe com aquela peculiar expressão séria e tão adulta que preocupava tanto Lily
- Ninguém é forte o tempo todo, mamãe - Tess disse. Ali estava novamente a mulher sábia se fazendo passar por uma criança. - Se você deixar, pode ser feliz. Foi o que vovô disse, enquanto você estava tirando o seu cochilo e estávamos preparando a janta.
Por dentro, Lily entrou em ebulição. Obrigada, pai do ano, disse em silêncio para o pai imprestável.
- Eu sou feliz, querida. Afinal de contas, tenho você. O que mais poderia querer?
Ela mexeu um pouco nas cobertas, olhou ao redor, admirando todas aquelas lembranças de sua infância, pensando, com o intuito de se distrair, que o quarto poderia usar uma renovação. Cortinas novas, papel de parede novo, algumas aquarelas emolduradas, em vez de todos aqueles cartazes de bordas amareladas dos astros do rock de sua adolescência...
- Poderia querer um marido - Tess sugeriu, em resposta à pergunta de Lily que não era para ser respondida. Não que poderia esperar que uma criança de seis anos de idade, mesmo uma precoce como Tess, pudesse ter esse tipo de sensibilidade. - E mais filhos. ― Eu tenho um emprego em Chicago, lembra? - Lily salientou. - Um emprego que eu adoro, E, caso não se importe, não acho que eu queira um marido.
O ceticismo estava estampado no rosto sardento de Tess, franzindo-lhe o nariz e desenhando vincos na sua testa.
- Você não ama aquele trabalho, mamãe - argumentou. - Está sempre dizendo que preferia ter a sua própria empresa, para que pudesse administrar as coisas do seu próprio jeito e fazer o seu próprio horário. E, de qualquer modo, não precisamos de dinheiro, precisamos? Vovó Kenyon diz que você tem mais do que o suficiente, graças ao fundo fideicomisso do papai e ao prêmio do seguro.
Por trás do sorriso maternal, Lily acrescentou Eloise Kenyon à lista negra mental encabeçada por Hal Ryder, Por que a mãe de Burke mencionaria questões como fundos e prêmios de seguro para uma criança, a não ser que quisesse que o comentário chegasse aos ouvidos de Lily? Usar Tess como intermediária entre as duas era indesculpável, uma atitude decididamente passiva-agressiva.
Quanto a Burke, independente de todos os seus outros defeitos, ele mantivem o testamento atualizado. Cuidara do futuro da filha e, até certo ponto, do da esposa.
O fundo fideicomisso estava seguramente reservado para Tess, e Lily usara o prêmio do seguro para pagar as muitas dívidas de cartão de crédito de Burke e a hipoteca do apartamento. Seu trabalho, contudo, apesar de, às vezes, fazê-la querer arrancar os cabelos de pura frustração, pagava bem, e, de qualquer modo, ela e Tess viviam sem muito luxo.
Lily era uma pessoa extremamente sensata.
A não ser quando se tratava de Tyler Creed, c claro.
Por que fora concordar em jantar com ele, quando sabia que nenhum outro homem na face da terra, nem mesmo o próprio pai, era capaz de magoá-la tanto quanto Tyler?
Será que o sofrimento era um modo de vida para ela? Será que começara a gostar de sofrer?
- Estamos as duas cansadas - disse, por fim. - Vamos falar sobre isso uma outra hora.
Ela viu o protesto estampando-se nos olhos de Tess, Você sempre diz isso... e o mais tarde jamais chega.
Lily pousou o indicador sobre os lábios de Tess, para conter o desafio inevitável.
- Conversaremos sobre isso amanhã - disse. - Eu prometo. Apaziguada, embora por muito pouco, Tess deixou escapar um suspiro de menininha e relaxou visivelmente.
Lily voltou a beijá-la.
- Quer que eu deixe a luz acessa por algum tempo? - ela perguntou. Tess jamais sentira medo do escuro, mas, afinal de contas, tratava-se de uma casa estranha, independente do quanto ela alegasse adorá-la, e ela tivera um dia e tanto.
- Não estou com medo, mamãe - Tess respondeu. - Já lhe disse que esta é uma casa abraçadora.
Uma casa abraçadora.
Por um instante, Lily sentiu saudades da inocência da juventude, e teve vontade de sentir-se da mesma forma que Tess sentia a respeito da casa antiga. Quando criança, ela... ela adorara morar ali. Até os pais rasgarem ao meio o conceito de lar, cada um levando consigo uma metade e largando-a perdida no meio do ar.
Lily simplesmente assentiu, não confiando em si mesma para falar de novo sem chorar, e ficou de pé. Ela desligou o abajur, com sua cúpula amarelada pelo tempo e cheia de babados, e seguiu para o corredor.
- Mas você pode deixar a porta aberta - Tess solicitou, corajosamente, em meio à escuridão.
Lily sorriu, sabendo que a filha podia enxergá-la devido à luz que vinha do corredor.
- Boa noite, docinho.
- Noite - Tess murmurou, com uma voz sonolenta. Alguns instantes mais tarde, Lily se juntou ao pai na sala de estar na parte da frente da casa. Ele estava sentado atrás da sua antiga escrivaninha de tampo corrediço, examinando o que parecia ser uma pilha de contas.
Lily, que viera pôr em pratos limpos algumas coisas, engoliu em seco. Será que o pai estava bem de dinheiro? Afinal de contas, era o veterinário de uma pequena cidade, e, se ela se recordava direito, recolher pagamento jamais fora uma prioridade com ele. Ainda mais quando os clientes estavam passando por dificuldades.
E, nos dias de hoje, as pessoas estavam fazendo o possível apenas para sobreviver.
- Eu posso ajudar - escutou-se dizer, - Se estiver um pouco atrasado com os pagamentos ou coisa parecida...
Hal sorriu, e, mais uma vez, algo mudou no seu olhar. Algo que pareceu magoá-lo.
- Agradeço a oferta - disse, com a voz um pouco rouca. - Mas eu estou com os pagamentos em dia, Lily. Nada com que tenha de se preocupar.
Sentindo-se um pouco constrangida, Lily assentiu. Manteve o rosto virado para o outro lado, enquanto sentava-se em uma poltrona acolchoada que, provavelmente, era mais velha do que ela.
- Tess está falando sobre ficar de vez em Stillwater Springs - sondou. - Por acaso é idéia sua?
Hal riu, saudosamente.
- Ainda é um lugar excelente para se criar filhos - ele retrucou. - Seguro para ir colher doces durante o Halloween. Você pode desejar Feliz Natal para as pessoas sem escutar desaforos de que não está sendo politicamente correto, e todo quatro de julho há um enorme piquenique e queima de fogos no parque.
Lily sentiu as faces arderem.
- Chicago também é - ela retrucou, mesmo então, incapaz de enfrentar o olhar do pai. ― Um bom lugar para se criar os filhos, é claro. Hal espirou sonoramente.
- Você já foi feliz aqui - lembrou-a.
- Fui - ela retrucou, friamente. - Até eu me tornar persona non grata.
No instante em que as palavras lhe deixaram os lábios, Lily arrependeu-se delas. Verdade ou não, Hal estava se recuperando de um enfarto seriíssimo. Não era a hora de desenterrar mágoas antigas.
Hal nada disse, por um longo tempo. Quando o fez, suas palavras fizeram Lily sentir um aperto doloroso na garganta.
- Você jamais foi persona non grata, Lily - ele insistiu, o tom de voz áspero e cansado. - Sua mãe e eu sempre a amamos muito. Apenas não amávamos mais um ao outro, e você acabou levando um bocado das sobras disso. Eu realmente lamento muito.
Ela quis perguntar ali mesmo por que ele a ignorara de repente, logo após o seu rompimento com Tyler, mas não sabia se seria forte o suficiente para escutar a resposta.
- Suponho que o divórcio jamais seja fácil para ninguém - disse, admitindo o óbvio. - Seja adulto ou criança.
Com um suspiro que provocou um aperto no coração de Lily, seu pai alçou-se da cadeira atrás da escrivaninha, cruzou o recinto, e sentou-se na outra poltrona, ficando cara a cara com ela.
- Fale-me mais do seu divórcio, Lily - ele pediu. - Quanto tempo passou infeliz ao lado de Burke, antes que, por fim, decidisse dar-se por vencida e desse o fora?
Lily abaixou a cabeça.
- Tempo demais - sussurrou.
- Ele a traía, não é? Envolvia-se com outras mulheres?
Ela engoliu em seco e assentiu. Depois, fitou o pai nos olhos.
- Mamãe alega que você estava "se envolvendo com outras mulheres" quando ela o deixou. Isso é verdade, pa... Hal?
O sorriso de Hal foi triste.
- A terra não sairia dos eixos se você voltasse a me chamar de pai, Lily - disse, gentilmente. Ele mexeu-se na poltrona, pegou um cachimbo do suporte sobre a mesa, e ante a expressão furiosa de Lily, devolveu-o ao seu lugar, - Para responder à sua pergunta, fui fiel à sua mãe, pelo menos, no sentido literal da palavra.
- O que ISSO quer dizer?
- Que éramos diferentes demais um do outro, eu e Lucy - Hal disse, lentamente. - Ela gostava de luzes brilhantes e cidades grandes, e eu gostava de ser um veterinário do interior. Ela queria dirigir um carro caro, e eu recusei, mesmo podendo comprar um, porque não gostava da mensagem que isso teria passado para as pessoas que lutavam apenas para colocar comida na mesa. No final das contas, Lily, a única coisa que sua mãe e eu realmente tínhamos em comum, era você.
Pois sim, Lily teve vontade de dizer, mas engoliu as palavras.
Hal riu, mas ele parecia tão cansado. Estava na hora de ele tomar o seu remédio e ir para a cama. Lily fez menção de se levantar, para ir buscar a sacola cheia de frascos de comprimidos que o médico enviara para casa com eles.
- Sente-se, Lily - o pai disse, com firmeza. Ela voltou a afundar na poltrona.
- Ainda quero saber sobre Burke, Não a versão pública. O filho da grande família da Nova Inglaterra, e toda essa baboseira. Como ele era na verdade?
- Fútil - Lily, respondeu, após pensar um pouco. - Engraçado. Inteligente. Autoconfiante.
- E muito popular com as outras mulheres?
A pergunta foi feita de forma gentil, porém, ao mesmo tempo, não havia dúvida de que ele esperava uma resposta e que não a deixaria ir embora antes que ela respondesse com honestidade, Era óbvio que ele não ia permitir que ela o tirasse do rastro.
- Muito - Lily concordou. - Pensando bem, o que não faltou foram índices. Os costumeiros telefonemas em que desligavam quando eu os atendia, despesas incomuns no extrato do cartão de crédito, camisinhas na mala dele quando Burke jamais as usava, coisas do gênero, Eu fingia não notar. Suponho que não era capaz de encarar a verdade a nosso respeito. Mas era quase como se Burke quisesse que eu soubesse que ele tinha outras mulheres. Eu ligava para o quarto dele quando ele estava fora da cidade, em um voo, e uma mulher atendia. Ele dizia que a tripulação toda estava no seu quarto, que estavam comemorando o aniversário de alguém, a promoção de um membro da equipe, ou a aposentadoria de outro colega... - Ela se interrompeu, corou, e sacudiu a cabeça ante a própria ingenuidade. - Até o avião dele cair, pensei que ele estivesse me manipulando para eu dar o primeiro passo, para que ele não fosse o primeiro Kenyon na história da família a pedir o divórcio. Contudo, quando enfim procurei um advogado, ele...
- Ele se matou - Hal completou, gentilmente. ― É.
- Tem certeza disso? Quem sabe não foi um acidente?
- Quem dera eu pudesse acreditar nisso - Lily disse, baixinho. -, Não houve um bilhete, nem nada do gênero, mas ele me ligou algumas horas antes de decolar aquela última vez. Estava abalado, implorando outra chance, fazendo tudo quanto era tipo de promessas malucas. - Ela se interrompeu, e engoliu em seco. - Ele disse... Disse que não seria certo destruir o lar de Tess... Que deveríamos tentar ter outro filho...
― E?
- Eu disse que não o amava mais. Que não adiantava tentar, visto que havíamos tentado terapia de casal após a última traição dele. - Lily mordeu o lábio inferior com tanta força, que sentiu uma pontada de dor, e meio que esperou sentir o gosto do sangue. Quisera tanto mais filhos, porém Burke sempre se recusara. Uma era o suficiente, dissera. Como se Tess fosse uma hipoteca com parcelas pesadas, um objeto de algum tipo. - Como é que dizem mesmo? Quem age precipitadamente tem o resto da vida para se arrepender?
- Mesmo que Burke tenha caído com o avião porque você estava se divorciando dele, Lily, não significa que a culpa tenha sido sua.
- Eu vivo me dizendo isso - Lily admitiu. - Mas parte de mim sabe que é mentira, - A verdade veio à tona, por conta própria, grande demais para ser contida. - Eu não amava Burke... Jamais o amei. Eu amava a idéia de amar, de ser a esposa de alguém, a mãe de alguém. De ter um lar e uma família. Mas, no fundo, jamais gostei de Burke como deveria, e acho que ele sabia disso.
Ela jamais amara Burke porque jamais deixara de amar Tyler, e era o tipo de mulher que se apaixonava por toda a vida.
- Você deve ter sentido algo por Burke - o pai argumentou, gentilmente. - Afinal de contas, casou-se com ele. Teve Tess com ele.
- Acho que, no começo, pensei que, com o tempo, eu me apaixonaria por ele. Mas isso não aconteceu. - Uma lágrima escorreu pela face de Lily, e ela não se deu ao trabalho de enxugá-la. - Eu não devia ter aceitado levar adiante o casamento. Se eu tivesse me recusado, ele poderia estar vivo hoje.
- Não há como saber disso - Hal lhe disse. - Pare de se martirizar, Lily, mesmo que apenas pelo fato de não poder mudar o passado e de Tess precisar de uma mãe feliz, uma mãe que olha para o futuro, e não para o passado.
- Eu sou feliz - ela insistiu, pela segunda vez na mesma noite.
O suspiro de Hal foi carregado de um divertimento acre-doce e de certo grau de resignação.
- Não, não é não - contra-argumentou. - Sua mãe aprovou cem por cento o casamento, mas eu me recordo de olhar no seu rosto, pouco antes de acompanhá-la até o altar para entregá-la, e enxergar algo que me deixou com vontade de dar um basta na coisa toda ali mesmo. Quis dizer para todos aqueles Kenyons e seus amigos e parentes chiques que comessem, bebessem e se divertissem, mas que não haveria cerimônia.
Hal Ryder abrira mão da filha muito antes do casamento dela, mas isso não importava agora. Era mais um velho esqueleto empoeirado que não deveria ser exumado.
- Por que não disse nada? - Lily perguntou baixinho. - Pelo menos para mim?
Hal voltou a suspirar.
- Por que eu não tinha o direito, Você era uma mulher adulta, formada na faculdade e com um bom emprego. E por que eu já interferira com a sua vida uma vez antes. - Justamente quando Lily ia perguntar o que ele queria dizer com aquela última parte, Hal ficou de pé, espreguiçou-se e bocejou. - Estou exausto, Lily - confessou. - Preciso descansar um pouco.
- Vou buscar seus comprimidos - Lily disse, também se levantando.
- Ah, sim - Hal retrucou, com um humor macabro. - Meus comprimidos, não podemos nos esquecer deles.
Na cozinha, ela abriu a bolsa de remédios, estudou os rótulos dos frasquinhos marrons e cuidadosamente contou as dosagens apropriadas enquanto o pai aprontava a cafeteira para a manhã seguinte e trancava a porta dos fundos.
Lily ergueu a sobrancelha diante disso.
- Hoje em dia as pessoas estão trancando as portas em Stillwater Springs? - perguntou.
- Normalmente, não costumo trancar - Hal admitiu. - Mas, agora, tenho que pensar em você e Tess. E algumas coisas têm acontecido por aqui recentemente...
Na sala de estar, ele acabara de fazer um discurso sobre como Stillwater Springs era um bom lugar para se criar os filhos... especialmente Tess. Sabendo que ele estava cansado, Lily nada falou sobre a contradição entre as palavras do pai e seus atos.
Agora, tenho que pensar em você e Tess.
Será que ele se convencera de que elas ficariam permanentemente em Stillwater Springs, depois que ele houvesse se recuperado o suficiente para se virar sozinho?
Ela colocou um punhado de comprimidos em um pedaço de papel toalha e o entregou para Hal, junto com um copo de água. e observou enquanto o pai tomava a contragosto a medicação.
- Boa noite, querida - ele disse, ao terminar, e colocar o copo vazio na pia.
Quando foi a última vez em que ele a chamara de querida?
A noite em que Tyler lhe fizera o coração em pedaços fora a última vez. Será que realmente já fazia tanto tempo?
Lily fechou os olhos e aguardou até que Hal houvesse deixado o aposento. Até escutar a porta do quarto de dormir dele se fechar, no final do corredor que levava à cozinha.
E, então, ela chorou, por todas as menininhas sem pai.
Assim como pelas meninas grandes na mesma situação.
A DIFERENÇA DE quinze anos entre as idades dos dois estava evidente no rosto cansado de Doreen de um jeito que não estivera antes. Ela parecia magra no seu uniforme de garçonete de cassino, e os vincos em sua testa eram profundos. Estava desenvolvendo uma papada e a boca era dura, o batom vermelho demais e ligeiramente mal aplicado.
Ainda assim, os olhos cansados da mulher se suavizaram ao reconhecer Tyler, de pé em um dos vários restaurantes do cassino. Davie estava sentado em uma mesa próxima, tomando um pouco de refrigerante e fingindo que estava lendo uma daquelas revistas em quadrinho metidas à besta que se faziam passar por livros de arte.
Ele não parece muito comigo, Tyler pensou, com distraída tristeza. Por outro lado, ele mesmo jamais parecera muito com Jake Creed. No fundo, tivera suas fantasias de que a mãe pulara a cerca, e o concebera com um amante, contudo, sempre duvidara da própria fantasia, A pobre Angie não parecia ter a força necessária para desafiar Jake desse jeito. Ou talvez simplesmente amasse demais o marido para traí-lo.
No final das contas, tal amor a destruíra.
- Tyler - Doreen disse, quase lhe suspirando o nome.
- Doreen - Tyler retrucou, assentindo.
Agora que estava cara a cara com a mulher que podia ter dado à luz o seu filho, sem se dar ao trabalho de avisá-lo, todas as coisas que planejara dizer, todas as coisas que ensaiara a caminho da cidade com Kit Carson no banco do carona o desertaram.
― Eu poderia dar uma parada para descansar em meia hora - ela informou.
Tyler simplesmente voltou a assentir. Deixara Kit Carson na casa de Cassie para poupá-lo de uma longa espera na Blazer, de modo que tinha tempo. Poderia fazer um pouco de hora.
Doreen hesitou por alguns instantes, alternando o olhar entre Tyler e Davie. Depois, suspirou, e virou-se, afastando-se para anotar mais outro pedido de um prato de nachos, outra caneca de cerveja.
Tudo no tocante a ela, o modo como se movia, o modo como falava, dizia que a garçonete estava infeliz. Odiava a própria vida, mas não sabia como escapar dela.
Ao contrário de Angela Creed. Ela encontrara uma saída, e para o inferno com o sofrimento que deixaria para trás com a sua partida.
Tyler aproximou-se da mesa de Davie.
- Importa-se que eu me sente?
Davie não ergueu o olhar. Apenas deu de ombros.
A capa do livro ilustrado mostrava uma mulher sendo devorada por uma fera horrenda, e Davie parecia completamente entretido.
Tyler sentou-se do outro lado da mesa de Davie, fez sinal para outra garçonete e pediu café, Ele gostava da cerveja ocasional, mas tendo Jake Creed por pai, e com uma juventude turbulenta no passado não tão distante assim, um homem costumava moderar o seu consumo de álcool. Por um instante, perguntou-se se Logan e Dylan não teriam o mesmo cuidado para não exagerar na bebida.
― Um bom livro? - perguntou.
- Para que quer saber? - Davie retrucou.
- Todos esses ganchos e argolas doem? - Tyler insistiu, franzindo a testa ao olhar para o piercing da sobrancelha.
A argola atravessando o lábio inferior de Davie o deixou ligeiramente pouco à vontade, e, considerando algumas das brigas de bar nas quis se metera, isso não era pouca coisa.
- Doeu quando eu fiz - Davie admitiu, parecendo ao mesmo tempo desafiador e interessado. - O que está fazendo aqui?
- Vim conversar com a sua mãe - Tyler disse.
- Sobre o quê?
Tyler não estava disposto a abordar a questão da paternidade, pelo menos não sem antes dar uma palavrinha com Doreen.
― Nada de mais. Dylan me contou que o xerife Huntinghorse queria enviá-lo para um lar adotivo, e que você disse que fugiria se ele o fizesse.
Não havia humor no sorriso que Davie deu e nem nos seus olhos.
- Cidades pequenas. As notícias realmente se espalham como fogo em capim seco.
- Fugir seria uma péssima idéia.
- Você não conhece o namorado da mamãe. O xerife disse que ia encontrar Roy e avisar para que ele não batesse mais em mim. - Davie bufou uma risada amarga. - Isso vai tornar as coisas realmente agradáveis quando mamãe e eu voltarmos para o velho trailer, após o turno dela.
Tyler sentiu seu âmago se contorcer, só de imaginar o que o menino poderia ter de enfrentar mais tarde, naquela mesma noite. E, subitamente, deu-se conta de que não poderia suportá-lo, independente de Davie ser ou não seu.
- Eu estive pensando melhor -- Tyler disse, cuidadosamente. - Talvez eu precise mesmo de alguém para me ajudar com o chalé.
Embora houvesse tentado, Davie foi incapaz de disfarçar o seu interesse. Ele fechou a revista, pousou-a na mesa e franziu a testa ao fitar Tyler.
- Que tipo de ajuda? - perguntou, com certa desconfiança. Isso vindo do garoto que praticamente implorara para ficar.
- Você mesmo disse, esta tarde. Para cuidar de Kit Carson, aparar o capim, coisas do gênero.
- A casa é pequena. Onde é que eu dormiria?
- Poderíamos lhe arrumar uma cama de armar e um saco de dormir.
- Você sequer tem uma televisão. Tyler sorriu.
- De repente, você está um bocado exigente, para alguém que, antes, não queria perder tempo em se mudar.
- Você seria um pai adotivo? - Davie perguntou, como se fosse um advogado. - Quem sabe não vai receber um pequeno cheque do condado ou do estado?
Tyler riu, tomando um gole do café ruim do cassino, antes de responder.
- Diabos - disse -, não há quantia de dinheiro que pudessem me dar que pagaria por agüentar a sua atitude. É uma oferta hospitaleira, mais nada. E sua mãe precisa aprovar, é claro.
Peia aparência de Doreen, ela há muito que devia estar se colocando entre o bom e velho Roy, o namorado, e o filho. Considerando todos os seus problemas, deixar Davie ficar com Tyler por algum tempo provavelmente seria um alivio para a garçonete.
- O que o fez mudar de idéia? - Davie perguntou, de má vontade, mas com um pouco menos de atitude do que antes.
Tyler podia perceber que ele tinha medo de ter esperança, e isso o deixou furioso. Também trouxe de volta lembranças demais.
A vida não deveria ser tão difícil assim para Davie, tão difícil assim para tantas crianças.
Como fora para ele.
- Só precisava de um tempo para pensar, mais nada - Tyler disse. Davie provavelmente deve ter achado as palavras tão pouco convincentes saindo de sua boca quanto ele se sentiu proferindo-as. - É claro que, se fizer besteira, está fora.
Os olhos de Davie se arregalaram. Eram os olhos de Doreen, não os de Tyler, ou de qualquer outro membro da família de que ele pudesse se lembrar. Contudo, ainda assim.
Ainda assim.
- Está falando sério? Eu poderia ficar na sua casa?
- Estou falando sério. Contanto que não cause problemas.
- Você vai arrumar uma TV? Tyler riu.
- Eu não disse isso - salientou. - Contudo, assim que eu vir que tipo de recruta você é, talvez eu o deixe usar o meu laptop de vez em quando.
- E tudo que terei de fazer é cuidar do cachorro e aparar um pouco o capim?
- Você já viu o capim. Está na altura da cintura. Estou certo de que há um gramado em algum lugar ali embaixo, mas não tenho certeza. - Tyler interrompeu-se, ponderando. ― A verdade é que tenho pensado em expandir o lugar. - Será que havia mesmo pensado nisso? Não conscientemente, mas agora que a idéia se apresentava, provavelmente estimulada pela menção de Dylan de derrubar sua casa antiga para erguer uma nova, e pelo pouco que sabia das reformas acontecendo na casa principal, sob a direção de Logan, ele meio que gostou da perspectiva. - Isso significaria um pouco de carpintaria. Talvez também um pouco de trabalho no encanamento e na parte elétrica.
Davie parecia preocupado. Talvez todo o trabalho duro impedisse o fechamento do negócio.
- Não sei nada a respeito de construção - por fim disse.
- Neste caso, somos dois - Tyler disse.
Um alívio cauteloso substituiu a preocupação no rosto de Davie.
― Contudo, eu não me importaria de aprender. Sempre achei que seria legal saber fazer estantes para livros e coisas do gênero.
Tyler olhou sugestivamente para o livro ilustrado esquecido sobre a mesa.
- Tem uma coleção dessas coisas? - perguntou. Davie fungou, o som uma mistura de humor e amargura.
- Não - disse. - Peguei esta aqui na biblioteca. Geralmente vou até lá usar os computadores, mas Kristy disse que eu deveria experimentar ler um pouco, e ela jamais me expulsa quando estou querendo apenas um lugar para passar o tempo, de modo que peguei este livro aqui.
Intrigado, Tyler ergueu uma das sobrancelhas.
- Suponho que ela... Kristy, é claro,., tenha sugerido algo como Caninos Brancos ou Ivanhoé - disse.
Davie riu, e, desta vez, pareceu sincero. Quase normal.
- Não. Ela mesma escolheu este para mim. Disse que seria bom para eu molhar os pés e descobrir como ler pode ser divertido.
Tyler lembrou-se da predecessora de Kristy, a srta. Rooley Uma solteirona, de poucas palavras, que parecia desaprovar tudo. Ela também permitira que ele se escondesse na biblioteca quando criança, quando Jake estava tendo um dia especialmente difícil, e Logan ou Dylan não estavam por perto para se meter entre ele e os punhos do pai, mas ela sempre exigira algo em troca. Ele fora forçado a ler o que a srta. Rooley reverencialmente chamava de "Os Clássicos", sempre enfatizando o termo com o seu tom de voz.
A princípio, fora pura agonia, arrastando-se ao ler os tomos que mal compreendia. Depois, começara a gostar, embora isso fosse algo que jamais quisera que ninguém soubesse, principalmente os irmãos mais velhos. Comparava-se à sua queda secreta pela música de Andréa Bocelli. Também gostava das grandes bandas de Jazz... Glenn Miller, Tommy Dorsey, esse pessoal.
Em se tratando de segredos, esses não eram lá grandes coisas, mas mesmo assim eram segredos. E, com um garoto morando sob o seu teto, seriam ainda mais difíceis de guardar.
- Você gosta de Kristy? - Tyler perguntou, mais para não deixar a conversa morrer.
- Ela é legal - Davie admitiu. - Mas, na biblioteca, devo chamá-la de sra. Creed.
- É - concordou Tyler.
Sra. Creed. Contando a esposa de Logan, havia duas delas agora.
Só para mostrar como aqueles que não aprendiam com a história de fato estavam condenados a repeti-la.
Kristy morara toda a sua vida nos arredores de Stillwater Springs. Sabia o que significava casar-se com um arruaceiro, o que a deixava sem desculpas para correr tal risco. Briana, por outro lado, era uma desconhecida, uma vítima inocente.
Será que ninguém a alertara que os Creed eram notoriamente ruins em se tratando de casamento? Não lhe mostraram as três covas no velho cemitério depois do pomar, o descanso final da última geração de esposas Creed, todas mortas muito antes da hora?
Observando Davie, Tyler achou que o rapaz estudava-lhe o rosto com demasiada intensidade, enxergando coisas demais. Ele parecia que queria fazer uma pergunta, mas a engoliu quando receberam uma companhia inesperada.
Um homem enorme apareceu ao lado da mesa, a barriga de cerveja quase pulando para fora da camiseta sem mangas. Seus braços eram tatuados da ponta dos dedos até os ombros. Ele precisava fazer a barba, e o boné cobrindo-lhe os olhos parecia ter sido atropelado por uma jamanta com um sério vazamento de óleo.
Davie pareceu encolher para dentro de si mesmo, como se estivesse tentando desaparecer.
A presença de Roy teve justamente o efeito oposto em Tyler. Ele deslisou até a extremidade do banco e ficou de pé. Doreen sempre gostara de tatuagens. Talvez isso explicasse por que ela se envolvera com cento e cinqüenta quilos de pura feiúra, embora houvesse coisas que fugissem a explicações racionais, e este cretino era uma delas.
Os sinistros olhinhos de porco de Roy se arregalaram ligeiramente. Era óbvio que ele estivera tão concentrado em Davie que sequer notara que o garoto não estava sozinho.
Agora, fitava Tyler com uma cautela hostil.
- Quem é você?
- O nome dele é Tyler Creed, Roy ― Davie, informou, obviamente apavorado. - Estávamos apenas conversando. Ele não estava fazendo nada de mal...
Tyler estendeu a mão para silenciar o garoto. Roy, sendo uma cabeça mais baixo, porém, mais encorpado, levantou os olhos para fitar o rosto de Tyler.
- Um Creed, não é? - disse. - Conheço bem essa raça, Tyler cruzou os braços e aguardou.
Roy recolheu um pouco as presas.
- Olhe - disse. - Eu só vim levar o menino para casa. Não há por que causar problemas.
- Ele não vai a lugar algum - Tyler respondeu. - Pelo menos, não no momento.
Roy claramente não apreciava ser contrariado, Como todos os valentões, estava acostumado a conseguir tudo que queria só com a banca de durão. O problema de bancar o durão, Jake costumava salientar, é que inevitavelmente havia a possibilidade de aparecer alguém ainda mais durão.
E isso podia fazer toda a diferença.
- Eu disse que não queria problemas - Roy reiterou, calmamente.- Só quero o garoto em casa, que é o lugar dele.
- Ainda estamos discutindo sobre onde é o lugar dele - Tyler disse, com semelhante calma, mas com a costumeira determinação dos Creed.
- Neste instante, tudo que sei é que ele vai ficar aqui mesmo, e que você não vai encostar nem um dedo nele.
Um rubor intenso pulsou pelo que passava pelo pescoço de Roy, embora sua cabeça parecesse estar enfiada diretamente nos ombros. Ele cerrou um dos punhos gordos, querendo bater em alguém.
- Está atrás de briga, caubói? - perguntou para Tyler.
- Não. Mas, quando a oportunidade de brigar aparece, também não corro dela.
O rubor se espalhou para o rosto de cão de caça de Roy Evidentemente, Tyler ponderou, Doreen havia desistido de ensinar aos homens como tratar uma mulher. Este sujeito não fazia idéia de como tratar ninguém.
Roy esfregou o seu queixo com a barba por fazer, estreitando pensativamente os olhos, Pensar, Tyler supôs, provavelmente devia ser doloroso para ele, sendo assim, devia ser evitado a não ser nas circunstâncias mais extremas.
- Você falou com Jim Huntinghorse - Roy especulou, de modo rabugento. Ele olhou para Davie, sua expressão tão venenosa que o próprio ambiente parecia ser poluído por ela. - O garoto mente. Eu jamais fiz nada que ele não merecesse.
Pelo canto do olho, Tyler avistou Doreen, espiando de trás de uma das máquinas caça-níqueis que rodeavam o restaurante. Por um lado, sentia pena dela. Por outro, estava furioso que ela não se posicionasse em defesa do filho. Provavelmente não devia ter dois tostões furados no bolso, mas, outrora, tivera personalidade, vivera pelas próprias regras, e não só sobrevivera. Ela prosperara. Tivera tatuagens, pelo amor de Deus, em uma época em que mulheres não faziam esse tipo de coisa. Viajara com gangues de motoqueiros e com bandas de rock. Ela o ensinara a usar os dedos e a língua, de tais maneiras que chegavam a ser quase conhecimento sagrado, e que lhe haviam servido muito bem desde então.
O que diabos acontecera com ela?
A mesma coisa que acontecera com a mãe dele, Tyler supôs, no instante seguinte. A vida simplesmente acabara com ela. Ela enfrentara reviravoltas demais, decepções demais.
Roy deve ter parecido para ela o último trem deixando a cidade.
Que perspectiva mais deprimente.
- Venha - Roy rugiu, gesticulando na direção de Davie.
Davie fez menção de se levantar. Depois, diante do olhar de Tyler, ficou onde estava.
- Ele não vai a lugar nenhum - Tyler afirmou.
- Eu deveria fazê-lo engolir os dentes - Roy retrucou. Não ficou claro se estava se dirigindo a Tyler ou a Davie.
- Pois é mais do que bem-vindo a tentar - Tyler retrucou, cordialmente. - Alguma vez brigou com um homem, Roy? Ou apenas com mulheres e crianças?
Roy parecia a ponto de explodir.
- Esta não é a última vez que nos encontraremos - disse.
- Não só é durão, mas também é original - Tyler observou. - O que virá em seguida? "Esta cidade não é grande o bastante para nós dois?"
Ante o comentário, Davie encolheu-se, como se estivesse esperando um safanão.
E isso fez Tyler ter vontade de arrancar fora a cabeça de Roy, ali mesmo no restaurante. Se o fizesse, acabaria passando a noite como hóspede do xerife, uma perspectiva que não lhe agradava, dada a sua última experiência, cinco anos antes, mas mesmo assim, a tentação foi grande.
Roy gruniu, sacudiu a cabeça uma vez, como um homem sendo incomodado por um enxame de moscas, depois, virou e se afastou marchando pesadamente.
- Ele vai pegá-lo, Tyler - Davie disse, pragmaticamente. - Também vai me pegar. Ele é assim.
- Eu sei muito bem como ele é - Tyler afirmou, observando Roy desaparecer.
Quando ele se foi, Doreen saiu de seu esconderijo. Ela parecia encabulada e tremendamente apavorada. Davie não tinha de ir para casa (Tyler entregaria pessoalmente o menino ao juizado de menores antes que isso acontecesse), mas ela tinha.
- Vá esperar no saguão dos empregados - disse para Davie, demonstrando uma ligeira semelhança com a antiga Doreen, a que vivia livre e fazia o que queria. - Roy não conseguirá pegá-lo lá.
Davie hesitou, assentiu, deixou a mesa e, em seguida, o restaurante.
Tyler fez um gesto para que Doreen se sentasse. Os dois poderiam ter querido um lugar mais discreto para ter a conversa seguinte, mas não ia ser assim, e, por Tyler, tudo bem.
Dorren deslisou pelo banco da mesa, encolhendo-se da mesma maneira que Davie o fizera.
Tyler sentou-se do outro lado da mesa, e inspirou profundamente.
- Suponho que as coisas não estão nada boas - disse, quando Doreen nada falou.
Ela assentiu.
- Muito pior do que isso.
- Ele é meu?
As palavras foram proferidas antes mesmo que Tyler tivesse a chance de pensar nelas. Não que pensar tivesse mudado alguma coisa, mas ele poderia ter sido mais diplomático.
Por alguns instantes, Doreen fingiu não entender. Tyler simplesmente ficou olhando fixo para ela.
- Não - enfim, ela disse. - Davie não é seu. Gostaria que fosse. Deus, como eu gostaria que ele fosse.
Tyler sentiu um misto de alívio e decepção, e ainda não estava convencido de que Doreen estava dizendo a verdade.
- Quantos anos tem Davie? - perguntou, baixinho.
- Treze - Doreen admitiu, após morder um pouco o lábio inferior e retorcer as mãos.
- As contas batem - Tyler disse.
Doreen deixou escapar uma risada triste, erguendo e abaixando os ombros curvados.
- É - concordou. - Para muitos caras, Ty. Não só para você. Davie é filho de um caminhoneiro que parou no Skivvie's uma noite de verão, chorando as mágoas, porque a esposa não o entendia. Eu o alegrei um pouco. E Davie é a cara dele.
- Tudo bem. Então, por que deixa que seu namorado quique Davie nas paredes?
Lágrimas encheram os olhos de Doreen.
- Passei a vida inteira lutando contra muitas coisas. Um dia, simplesmente me vi sem forças.
- Que pena para Davie - Tyler comentou, calmamente.
- Acha que eu não me odeio por isso? Por tudo isso? - Doreen empertigou-se um pouco, embora, infelizmente, não o suficiente. - jamais esperava terminar desse jeito. Eu poderia ter feito um aborto, o pai de Davie se ofereceu para pagar um, mas eu tinha essa idéia maluca de que, um dia, encontraria um bom homem. Eu, Davie e o príncipe, - Ela voltou a rir, - Que conto de fadas.
- Deixe-me levar Davie para casa comigo. Apenas por algum tempo. Até que consiga colocar as coisas em ordem.
Doreen o fitou com intensidade, claramente surpresa.
- Por quê? Por que faria isso?
- Porque já fui um menino, com um pai maluco - Tyler respondeu, tão surpreso com o que disse, quanto Doreen deve ter ficado de tê-lo escutado admiti-lo. Passara a vida inteira em estado de negação no tocante a Jake Creed, chegara a lhe compor canções, pelo amor de Deus. - O que está fazendo agora não está funcionando, Doreen. Está na hora de tentar algo diferente.
- Você não entende ― Doreen sussurrou, em um suspiro triste, - Davie não é moleza. Ele tem problemas, Tyler. E Roy.. Bem, você pôde ver como Roy é. Ele tentará emboscá-lo. Jamais se esquecerá da altercação que tiveram esta noite. Mesmo que tenha de esperar o resto da vida, ele vai achar um modo de ir à forra, e quando o fizer, não será nada bonito.
- Eu sei como lidar com Roy - Tyler afirmou. - A meu ver, a preocupação mais imediata é o que ele pode fazer com você ou com Davie.
Permita-me deixá-la em algum lugar, Doreen. Agora mesmo, esta noite. Existem abrigos, ou poderia ficar na casa de Cassie... O rosto de Doreen pareceu se transformar em pedra.
- Eu sei como são esses "abrigos," Minha mãe e eu vivíamos entrando e saindo deles quando eu era pequena. Mulheres de igreja nos fitando com ar de superioridade. Roupas de segunda mão. Era como estar na prisão, e só servia para deixar o meu pai mais furioso, quando ele nos achava. E ele sempre nos achava.
- Isso foi no passado, Doreen. Agora é diferente.
- Leve Davie para casa com você - Doreen disse, agora formal e ruborizada de tanta vergonha, fúria, frustração e sabe lá Deus o que mais. - Não demorará a querer devolvê-lo.
- Pode ser - Tyler concordou.
Contudo, estava se recordando de todas aquelas vezes em que Cassie enfrentara cara a cara Jake Creed e se recusara a permitir que ele arrastasse o filho caçula para casa pelos cabelos, O que teria acontecido com ele senão por Cassie e, de um certo modo, por Logan e Dylan?
Era chegada a hora de retribuir.
Havia um garoto em dificuldades, e ele não podia ignorar isso. Doreen olhou para o relógio. Um pedaço de sua tatuagem favorita apareceu no antebraço, uma fênix ressurgindo majestosamente das cinzas.
- Faça o que quiser - disse. - Banque o herói, Vai se arrepender, Tyler. Vai se arrepender. E este é o último aviso que receberá de mim.
Tyler pegou um guardanapo e gesticulou para que Doreen lhe passasse a caneta que usava para anotar os pedidos. Ele anotou o número do seu celular no guardanapo.
- Ligue se precisar de ajuda - disse.
Doreen fitou o número com desdém, mas, no final das contas, aceitou-o, enrolando o guardanapo e enfiando-o no bolso do avental
Tyler a observou afastar-se. Pagou o café. Atravessou o cassino na direção do saguão dos empregados. Ele fora colega de escola do guarda de segurança postado no corredor e andara sempre com Jim Huntinghorse quando este ainda estava administrando o local, de modo que ninguém se colocou em seu caminho.
Davie estava encolhido em uma poltrona do canto, sozinho no recinto, segurando o livro da biblioteca com ambas as mãos.
- Está na hora de irmos - Tyler disse.
- E se ele estiver lá fora - Davie perguntou. - E se Roy estiver lá fora?
- Eu jamais teria tanta sorte - Tyler respondeu, com um sorriso. Contudo, Roy não estava esperando no estacionamento. Davie ficou surpreso; Tyler não. Roy iria à forra, mas não quando houvesse a chance de acabar levando uma surra em um estacionamento público. Ele era do tipo que atacava pelas costas. Usaria uma chave de roda ou, talvez, até um revólver.
Coisa séria. Mas Tyler estava acostumado a vigiar a própria retaguarda. Na verdade, passara a vida inteira fazendo isso.
E, como um Creed, não tinha bom senso o suficiente para ter medo.
De modo que ele e Davie fizeram uma parada breve em uma Wal-Mart para comprar um saco de dormir e uma cama de armar, artigos de banho e uma muda de roupa para Davie.
- Não espera realmente que eu use isso, espera? - Davie protestou, assim que estavam de volta na Blazer de Kristy e seguindo para a casa de Cassie para pegar o cachorro. Estava segurando os jeans que Tyler escolhera para ele. - Definitivamente, não são transados.
- Andar transado é o menor dos seus problemas - Tyler salientou. - Você vai usá-los.
Kit Carson os recebeu na porta quando chegaram à casa de Cassie, provavelmente, aliviado por não ter sido largado ali por mais tempo. Não que Cassie não o teria tratado bem. Apesar de ter um jeito meio brusco, Cassie era uma alma bondosa, com lugar no seu coração para cães perdidos. E meninos perdidos.
- Agora anda acolhendo qualquer coisinha desgarrada que encontra pelo caminho? - ela perguntou, sob o cone de luz rodeado de insetos de sua varanda, observando Davie erguendo Kit até a traseira da Blazer emprestada.
Tyler sorriu.
- Apenas dando continuidade à tradição - disse.
Stillwater Springs era uma cidade pequena. Cassie, tendo morado a!i desde antes da Batalha de Littie Big Horn, tinha de conhecer Davie e sua mãe também. Talvez até se recordasse do verão que Tyler passara na cama de Doreen, no quartinho acima da Skivvies Tavern, aprendendo a ser um homem.
- Ele é seu? - ela indagou, comprovando a teoria de Tyler.
- Pode ser - Tyler respondeu. - A mãe nega, mas pode ter inúmeras razões para fazer isso.
- Como o quê?
- Como não querer que eu exigisse meus direitos sobre ele, quando Davie ainda era pequeno, e ela ainda podia controlá-lo - Tyler cogitou.
- Doreen sempre foi independente ao extremo. Talvez ainda reste um pouco disso nela, mesmo agora.
- Isto vai lhe complicar a vida - Cassie previu, com um ar resignado.
- Talvez minha vida tenha ficado simples demais.
- Falou como um verdadeiro Creed - Cassie retrucou, mas ela estava sorrindo, com os lábios, pelo menos. Seus olhos escuros estavam sérios. - As pessoas têm boa memória, Tyler, Todo mundo, inclusive Lily Ryder, vai se lembrar do que houve entre você e Doreen e vai somar dois mais dois.
Tyler suspirou, Não deixara transparecer para ninguém que Lily estava em seus pensamentos, mas Cassie o conhecia bem demais para se deixar enganar por mentiras de omissão.
- Ela está envolvida com alguém? Talvez tenha se casado novamente?- ele perguntou, com a voz rouca.
Não teria feito as mesmas perguntas a mais ninguém na face da terra, nem mesmo a Lily O orgulho não teria permitido. Mas Cassie, uma ameríndia de meia-idade com uma tenda no quintal, era como uma avó para ele.
- Não - Cassie disse. E pousou a mão no braço dele, um sinal de que estava prestes a dizer algo que Tyler não ia gostar de escutar. - O marido dela era piloto. Matou-se há cerca de dois anos.
Suicídio.
Tyler fechou os olhos, projetado de volta para aqueles terríveis dias, como se houvesse se deparado com um túnel do tempo. Poderia muito bem ser um garoto novamente, não um homem postado na varanda de Cassie, mas um menininho escondendo-se do outro lado da porta da cozinha de sua casa, escutando o xerife Floyd Book, o lendário predecessor de Jim Huntinghorse, dar a notícia para Jake.
Angie está morta. Eu sinto muito. Nós a encontramos no hotel Skylight, na antiga rodovia estadual Foi uma overdose, Jake...
Tyler escutara um grito, primitivo e lancinante, e pensara ter sido Jake.
Só se dera conta de que o grito vinha de sua própria garganta quando Logan e Dylan seguraram os seus braços, cada um de um lado, e o ajudaram a ficar de pé, apoiando-o entre os dois.
Cassie apertou-lhe o braço, trazendo-o de volta do abismo, o lugar onde as perguntas jamais cessavam.
E todas elas começavam com a mesma palavra.
Por quê?
- O que poderia ser tão ruim assim? - ele indagou. - Uma esposa como Lily? Uma filhinha como Tess. O que poderia levar um homem abrir mão de tudo isso?
- Mais uma vez, você está tentando buscar uma explicação - Cassie salientou, gentilmente. - E não há explicação, Tyler. As pessoas são frágeis. Elas podem quebrar. É tão simples e tão complicado, assim.
Não tente entender.
Quantas vezes escutara o mesmo conselho de tantas pessoas diferentes? De Dylan, certamente. De Logan, também. Até mesmo da falecida esposa, Shwana, quando ela tentara tirá-lo de alguma depressão. E não era a primeira vez que Cassie também o oferecera.
O problema era que não conseguia deixar de voltar a percorrer o mesmo terreno, procurando pistas. Analisando. O suicídio da mãe era a razão de tantas coisas que haviam acontecido e deixado de acontecer em sua vida. Às vezes, a necessidade de saber por que ela o fizera meio que o enlouquecia. Por que não fora capaz de agüentar, deixar Jake e começar a vida em algum outro lugar.
- Suponho que vá estar com Lily? - Cassie arriscou o palpite.
- Vamos jantar juntos, amanhã à noite - Tyler informou, preparando-se para mais conselhos.
Deixe para lá, Cassie dissera, após o rompimento naquele verão, quando quisera voltar para Lily, implorar para que ela o perdoasse por dormir com Doreen, que lhe desse outra chance.
Esqueça a menina, Jake aconselhara. Ela é mesmo boa demais para você.
Perdeu o juízo? Logan perguntou, após quicá-lo algumas vezes na parede do celeiro. Andando por aí com uma garçonete que tem o dobro da sua idade quando Lily é louca por você?
Às vezes, as vozes do passado costumavam mesmo aparecer assim do nada, fazendo com que Tyler tivesse a vontade de cobrir os ouvidos com as mãos. Não que teria adiantado de alguma coisa.
O que acontecera, acontecera.
Então, por que não conseguia deixar a mãe descansar em paz?
Por que não podia perdoá-la por ter desmoronado aquela última vez?
Por fim, ficou atordoado ao se dar conta.
Fora por isso que voltara para casa em Stillwater Springs, abandonando o circuito de rodeios, o trabalho de duble e as sessões de foto que pagavam muito bem, vendendo a enorme casa vazia em Los Angeles e trocando a Escalade por um calhambeque que sequer funcionava.
Ele voltara para encarar os antigos fantasmas, um por um, ou todos ao mesmo tempo, independente de como viessem. Ganhando ou perdendo, a batalha havia começado.
Será que ainda estaria de pé quando tudo terminasse?
Só havia um jeito de descobrir
E estava cansado de fugir.
Depois de servir um saudável café da manhã para o pai e a filha (toranja, torradas de pão integral e claras de ovos mexidas), Lily entrou sorrateiramente no escritório do pai para usar o telefone.
Ligaria para Tyler. Decidira fazer isto na noite anterior, enquanto rolava de um lado para o outro na cama. Avisaria que, no final das contas, não poderia sair para jantar com ele. Voltaria atrás, contaria uma mentira descarada se não houvesse outro jeito, diria qualquer coisa para escapar do encontro combinado precipitadamente.
Só que não tinha o número do telefone dele.
É claro que poderia consegui-lo com Kristy. Poderia ligar para ela ou simplesmente caminhar até a biblioteca e pedi-lo pessoalmente. Considerando que Tyler era, agora, o cunhado de Kristy, ela, com certeza, devia saber como entrar em contato com ele.
Seus olhos pousaram sobre o caderninho de endereços surrado do pai. Hal jamais aprovara Tyler Creed, contudo, agora, após pegar Ty na beira da estrada, no dia anterior, parecia que o homem era o novo melhor amigo do pai. Talvez o número dele estivesse ali, bem ao seu alcance.
Seria tão mais fácil se não tivesse que procurar Kristy em pessoa ou por telefone.
Lily pulara para a letra C. O caderninho estava repleto de anotações em pedaços de papel grudentos e números rabiscados uns sobre os outros, todos colados em ângulos estranhos e confusos, e Lily estava procurando o número de Ty quando o pai entrou.
- Quer alguma coisa? - ele perguntou, com um ligeiro sorriso. Lily engoliu em seco.
- O número de Tyler - ela respondeu.
Pronto, aí estava. O pai que pensasse o que quisesse a respeito disso.
- Não tenho - Hal informou, ainda observando, agora, mais atentamente. - A propósito, Tess e eu votamos. O café da manhã estava uma droga.
Lily fechou o caderninho gordo, colocou-o de lado e endireitou as costas.
- Suponho que teria preferido ovos com bacon? - perguntou, com um pouco de rispidez por ter sido flagrada examinando o caderninho de telefones dele e por ter tido de admitir que pretendia ligar para Tyler.
- Preferido não é bem a palavra - Hal disse, sorrindo. - Está mais para adorado. Por que quer ligar para Tyler... como se eu não soubesse?
Lily sentiu o rosto arder, Ele não sabia, Hal provavelmente achava que ela quisesse escutar a voz de Tyler, ou coisa parecida, como uma colegial apaixonada, Ou que estivesse a fim de algo.
- Ele me convidou para jantar - explicou. - E eu decidi não ir. Hal franziu a testa.
- Por quê?
Lily respondeu a pergunta com uma outra. Uma tática para ganhar tempo, é claro, e uma tática que não daria certo durante muito tempo, se é que daria.
- Não era você que vivia reclamando que os Creed não eram boa gente e que me envolver com eles apenas levaria a ruína certa?
- Lily, trata-se de um jantar, não de uma orgia.
Lily engoliu uma resposta instintiva. Estar frente a frente com Tyler Creed, mesmo em um local público, era o equivalente sexual de combustão espontânea. O homem provavelmente poderia fazê-la chegar ao orgasmo sem sequer tocá-la... E ela seria uma tola em se deixar levar por isso.
Ou uma tola em não deixar.
- Ora - disse, ainda enrolando -, mas como as coisas mudaram.
- Eu estava enganado sobre Tyler - Hal disse, pegando-a completamente de surpresa. Ele jamais fora de admitir seus erros, mas, por outro lado, para ser justa, ela também não, - Estava enganado sobre muitas coisas. Saia com ele, Lily. Use um vestido bonito e um pouco de perfume e aproveite a noite.
Aproveite a noite. Pessoas da geração de seu pai eram tão inocentes, tão ingênuas.
Mas, será que eram mesmo?
- E quanto a Tess? - ela perguntou.
- Ela ficará bem aqui comigo. É uma menina inteligente. Se eu sofrer falência cardíaca, ela ligará para a emergência.
- O que é falência cardíaca? - Tess perguntou, aparecendo no vão da porta do escritório. Estava usando caríssimos shorts rosa, uma blusa florida e sandálias de dedo, tudo presentes adquiridos na sua última visita a Eloise, em Nantucket, Um pequeno vinco se desenhou no espaço entre as sobrancelhas da menina, - Alguém vai deixar o vovô sem dinheiro?
Meio contra a própria vontade, Lily sorriu.
- Ninguém vai deixar o vovô sem dinheiro - disse, para tranqüilizar a menina, era difícil lembrar como as crianças podiam ser literais. - E, a propósito, você está muito bonita hoje. Tem planos?
- Tem uma criança brincando no quintal do vizinho - Tess respondeu, colocando de lado a questão de apuros financeiros e de intervenção médica de emergência, pelo menos, por hora. - Acho que é um menino, mas vou me apresentar de qualquer forma.
- Tem um casal simpático morando ali, agora - Hal informou, diante do olhar preocupado de Lily. Em Chicago, ela não conhecia nenhum dos vizinhos, Tess também não. - Eles compraram a casa depois que os Henderson se aposentaram e se mudaram para a Flórida. - Ele sorriu para a neta. - A criança em questão é uma menina, e seu nome é Eleanor - acrescentou. - Tem sete anos de idade e está visitando os tios durante o verão.
- Ela é legal? - Tess perguntou, com uma expressão séria.
- Bem - Hal respondeu, com uma expressão igualmente séria -, ela nunca atirou nada na minha janela, nem ateou fogo nos arbustos, nem esvaziou os meus pneus. Tirando isso, não há muito que eu possa lhe dizer. Acho que você vai ter que ir até lá descobrir por conta própria.
- Acho que vou mesmo - Tess disse, com um daqueles súbitos sorrisos estonteantes dela. Com um pouco de tristeza, Lily se deu conta de que, desde antes da morte de Burke, ela não via a filha sorrir daquela maneira. - Será que posso ter um pouco de dinheiro para o caminhão de sorvete? Escutei a sineta há alguns minutos... Acho que deve estar a umas três quadras daqui, vindo nesta direção.
- Não - Lily disse.
- Pode - Hal respondeu, exatamente no mesmo instante, colocando a mão no bolso para retirar a fortuna requisitada. Seus olhos, menos cansados do que no dia anterior, se demoraram no rosto de Lily, enquanto entregava algumas notas para Tess. - É verão - disse, baixinho, para a filha. - Tess tem seis anos de idade, está linda de rosa e pretende fazer uma nova amiguinha. Dê uma chance à menina, Lily.
Um discurso sobre comida processada e conservantes e higiene duvidosa nos caminhões de sorvete e nas fábricas de embalagem veio à garganta de Lily, mas ela se conteve. O pai tinha razão. Decerto, um cone mergulhado em chocolate não iria comprometer a saúde e o bem-estar da menina.
- Tudo bem - Lily concordou com um sorriso.
Tess e Hal pareceram tão surpresos com a aceitação dela que Lily se perguntou o que eles deviam achar que ela era. Obviamente, alguma fanática por comida natural.
- Divirta-se - disse para Tess. - E não vá além do quintal do vizinho ou da calçada em frente à casa.
Tess sorriu, agradeceu ao avô pelo dinheiro e saiu correndo.
- Vou precisar de um vestido - Lily disse, pensando em voz alta. Visto que voltara para Montana para cuidar do pai doente, ela não trouxera consigo nenhuma roupa especial, apenas jeans, camisetas, shorts e algumas camisolas.
Ela enrubesceu, dando-se conta de como deve ter dado a impressão de estar ansiosa. De estar excitada. Cinderela indo ao baile.
- Você sempre ficou bem de vermelho - Hal disse, satisfeito. - Tem uma pequena butique no centro da cidade, que costuma atender mais turistas, mas acho que poderá encontrar algo bonito lá.
O bom senso natural de Lily retomou. Pelo menos, parte dele.
- Não vou deixá-lo sozinha. Acabou de sair do hospital.
- Não corro o risco de ter um treco, Lily - Hal afirmou. - Se quer saber, na verdade, um pouco de solidão até viria a calhar. Estou acostumado a morar sozinho, - Ele interrompeu-se, com uma expressão comicamente inspirada. - E pense nas possibilidades, Você poderá comprar algo horrível para o almoço. Quem sabe, vagem ou algo feito de soja congelada.
Lily riu, E foi uma sensação nova e boa, uma habilidade esquecida, recém-redescoberta.
- Não me demoro - avisou. - De modo que é melhor você não ver nenhum paciente de quatro patas e nem procurar salsichas de cachorro-quente ou waffles de torradeira, no congelador, enquanto eu estiver fora. Até onde você sabe, um daqueles ímãs na geladeira pode ser, na verdade, uma câmera oculta.
- Não me surpreenderia se você fizesse algo do gênero - Hal brincou. Obedecendo a um impulso, Lily avançou até o pai e lhe beijou a face sulcada.
Cinco minutos mais tarde, após aplicar uma camada de brilho labial e escovar o cabelo, Lily estava em seu carro alugado, seguindo para a rua principal.
A butique indicada por Hal era pequena e deplorável, pelos padrões de Chicago, mas ela conseguiu encontrar um vestido de verão vermelho com bolinhas brancas do seu tamanho, experimentou-o e gostou do que viu no espelho do provador. Ela comprou o vestido, uma suéter de renda fina branca e um par de sandálias de tira para completar o figurino.
A próxima parada foi no setor alimentício do Wal-Mart, visto que o mercadinho local havia ido à falência anos antes, e não conseguiu encontrar tofu. Pretendera provar para Hal que tofu podia ser delicioso, mas, evidentemente, o mercado para o alimento era muito restrito em Stillwater Springs, Montana.
De modo que, em vez disso, selecionou ingredientes para uma salada de frutos do mar, todos frescos e vendidos como sendo orgânicos, acrescentou um pacote de peitos de frango para o jantar de Tess e Hal e estava virando uma curva, determinada a chegar na fila dos caixas antes das três mulheres com fartas compras, quando quase chocou o seu carrinho com O de Tyler.
Desde quando ele fazia compras no Wal-Mart no meio da manhã?
Droga, mesmo a esta hora, ele estava lindo. Estava usando uma camiseta branca e jeans surradas, e um cacho de seu cabelo negro pendia sobre a testa, no mais puro estilo bad-boy.
Seu olhar percorreu lentamente Lily, cujos dedos se curvaram no interior dos tênis. Ela até se flagrou desejando ter tido a presença de espírito de ter usado algo mais sexy do que jeans e uma blusa.
A realidade a atingiu como um banho de água fria.
Em questão de poucas horas, estaria sozinha com aquele homem.
Correndo o sério risco de entrar em combustão espontânea, se é que isso não ocorreria ali mesmo no Wal-Mart, diante de Deus e todo mundo.
Um ardor começou a subi pelo pescoço de Lily, pulsando nas suas faces.
Ela tentara tanto fazer as coisas darem certo com Burke, especialmente na cama. Contudo, quantas vezes chegara ao clímax imaginando ser Tyler Credd, e não o marido, que a estivesse acariciando, sugando-lhe os seios, arremetendo para dentro dela? Será que, no auge do prazer, ela gritara o nome dele, em vez do de Burke?
Provavelmente.
O pensamento a encheu de vergonha... e de um tipo excitante, concentrado, de ardor
Jamais fizera amor com Tyler, embora, com certeza, o que não tinham faltado fossem carícias ardentes enquanto estavam namorando. Até onde ela sabia, ele podia ser um fracasso na cama. E, de qualquer modo, por que sequer estava debatendo tal questão?
- Como está o seu pai? - Tyler perguntou.
Lily mordeu o lábio inferior. Não era algo tão difícil assim de responder Deveria ser fácil, assim que conseguisse resistir ao clímax que já se armava no seu íntimo.
- Ele está... bem. Teimoso. Mas acho que ficará bem.
- ótimo - Tyler disse.
Lily olhou para o que estava no carrinho dele. Ferramentas elétricas. Lençóis e cobertores. Cereais açucarados e uma enorme embalagem de leite integral. Uma TV de tela pequena.
Uma combinação e tanto.
Ele sorriu, um ardente sorriso lento, observando-a. Será que a estava imaginando nua?
Não, era a imaginação dela que estava desgovernada. Controle-se, ordenou-se.
Ele tocou na mão dela, onde ela estava segurando com força a barra do carrinho. Foi apenas um simples, inocente, roçar das pontas dos dedos, nada mais.
E Lily chegou ao apogeu.
Sorriu determinadamente, enquanto suava. Aquele pequeno músculo especial no seu íntimo se contraiu com violência, depois se contraiu mais uma vez, Ela quase não conseguiu conter o gemido alto ante o prazer inesperado e totalmente inapropriado.
Ela acabam de chegar ao clímax no interior de um Wal-Mart, pelo amor de Deus. Totalmente vestida. Â plena luz do dia.
Tyler não sabia, sabia? Ele não tinha como adivinhar.
- O ar-condicionado não deve estar funcionando direito - Tyler disse, mas havia uma expressão no seu olhar que dizia que ele sabia muito bem o que acabara de acontecer, ou, pelo menos, que suspeitava. Que provocara a coisa toda de propósito.
Mas, isso era impossível, é claro. Até mesmo para um Creed. Não era?
- Sobre hoje à noite - ela disse, com dificuldade, sentindo os tremores começando a aliviar. Ainda estava ofegante demais. - Eu realmente não devia...
- Não tem como voltar atrás agora - Tyler interrompeu-a. ― Seu pai vai ficar bem, e Tess também. É apenas um jantar, Lily.
É apenas um jantar. Onde foi que escutou isso antes?
E se Tyler era capaz de levá-la ao clímax com um simples olhar e um toque da mão, o que aconteceria quando ficasse sozinho com ela? O que aconteceria no restaurante?
Lily não queria descobrir. Muito.
De modo desesperado, começou a inventar desculpas para si mesma. Simplesmente não costumava ter orgasmos aleatórios em lugares públicos. Não, era apenas por que passara tanto tempo sem sexo, só isso, é permitira que os pensamentos seguissem pelo caminho errado.
Não, provavelmente jamais voltaria a acontecer.
Maldição.
Justamente quando Lily estava prestes a avançar para a fila do caixa mais próximo, dando um fim à conversa sobre o encontro daquela noite, um menino que mal entrara na adolescência com a tatuagem de uma aranha no pescoço e vários piercings apareceu dois corredores a frente.
- Encontrei o martelo ― disse para Tyler, erguendo a ferramenta como prova.
Lily sentiu um estranho tremor de medo na boca do estômago, algo que nada tinha a ver com os doces tremores de puro êxtase feminino a que acabara de sobreviver.
- Lily - Tyler disse, com tranqüilidade, mas com os olhos atentos -, este é Davie McCullough. Davie, Lily Ryder.
- Lily Kenyon - Lily tratou de corrigir.
Qualquer coisa para estabelecer alguma distância entre ela e a miragem de ardor que era Tyler, Adiantava muito fechar a porta do celeiro após o cavalo ter fugido.
- Oi - Davie cumprimentou.
Seu jeans e a camiseta listrada, obviamente novos, faziam um estranho contraste com os piercings e a tatuagem. Lily sorriu.
- Olá - respondeu.
- Eu a vejo às seis - Tyler disse.
- Ela é o encontro empolgante? - Davie perguntou.
Tyler revirou os olhos, mas se ficou constrangido pelo comentário de Davie, não deu sinais disso. Afinal de contas, ele era o lendário Tyler Creed. Provavelmente fazia mulheres chegarem ao orgasmo em lojas de departamentos o tempo todo, Não era nada demais.
- Ela é o encontro empolgante - Tyler confirmou. Lily voltou a corar e, em seguida, simplesmente foi embora, sabendo que qualquer coisa que dissesse seria a coisa errada e provavelmente a colocaria em uma situação pior do que já estava.
E a risada baixinha e maliciosa de Tyler a acompanhou durante todo o caminho.
- Aquilo não foi nada legal - Tyler disse para Davie, um instante após Lily fugir correndo.
Davie sorriu, sem dar a impressão de estar arrependido.
- Ah, bem - disse. - Ela é bonita. E você me avisou que eu talvez tivesse de dormir na casa do seu irmão caso as coisas corressem como você esperava.
Tyler viu Lily escolher a fila mais comprida e sabia que ela o havia feito por ser a fila mais longe de onde ele estava. Ela estava linda naqueles seus jeans de cidade grande, e, na opinião de Tyler, foi uma boa coisa ter consigo um carrinho cheio de compras atrás do qual pudesse ficar.
Vira Lily chegar ao orgasmo, soubera pelo rubor de suas faces e pela expressão atordoada de seu olhar que o truque mental ensinado por Doreen havia funcionado, e ficara duro como pedra no instante em que ela atingiu o apogeu.
Isso, junto com o atual estado de sua anatomia, encaixava-se na seção de Coisas que Davie Não Precisava Saber, de modo que teve o cuidado de ficar atrás do carrinho.
- Não banque o espertinho - disse para o menino.
- Eu tenho problemas - Davie retrucou, presunçosamente. - Sou um Adolescente Problemático. Nunca se sabe o que eu posso dizer. O menino admirou Lily de longe, enquanto ela colocava as verduras para a salada e uma embalagem do que parecia ser frango sobre a bancada móvel do caixa. Ele sacudiu a cabeça. - Faz um homem desejar que fosse vinte anos mais velho.
Tyler teve de rir, embora parte dele tivesse vontade de agarrar Davie pela gola e arrastá-lo para algum lugar onde não pudesse olhar para Lily.
O que era uma loucura típica dos Creed. Apesar de querer falar grosso, Davie não passava de um menino.
- Pode colocar os olhos de volta na cabeça, menino desenho animado. Ela já tem dono.
Por sorte, Davie deixou o assunto para lá. Talvez porque acabara de vencer um round, na segunda visita deles ao Wal-Mart em menos de vinte e quatro horas, ao convencer Tyler a lhe comprar uma TV.
Tyler, por outro lado, não parecia ser capaz de esquecer o encontro com Lily. Sem dúvida nenhuma, Lily estava no ponto. Se ao menos conseguisse deixá-la nua, poderia desatar todos aqueles nós em seu íntimo. E, quando ela se soltasse de verdade, deixasse-se ir além do clímax improvisado que acabara de ter e experimentasse o artigo genuíno, o universo tremeria nas bases.
Não apenas para ela, mas para ele também.
Alto lá, caubói, disse para si mesmo, silenciosamente. Pensamentos como esses não contribuiriam para fazer o mastro ameaçando arrebentar a parte da frente do seu jeans amolecer, e ele não podia esconder a ereção atrás do carrinho de compara a vida inteira.
Precisava colocar as coisas em perspectiva.
Perspectiva, diabos. Já estava planejando a ligação que tencionava fazer para Dylan, assim que Davie não estivesse por perto. Será que se importa de ser babá para um garoto de treze anos de idade?
Já estava imaginando Lily gemendo em sua cama, arqueando as costas sob sua mão e sua boca, já imaginando-a mais tarde, após os dois terem se recuperado, deliciosamente nua, boiando nas águas escuras e refrescantes de Hidden Lake, pouco além da extremidade de seu antigo deque de natação.
Nadar ao natural com Lily Kenyon, como ela fizera questão de lhe lembrar.
Ah, sim.
Bem-vindo ao lar, Tyler Creed. Bem-vindo ao lar.
- Como estou? - Lily perguntou, nervosamente, às cinco e trinta daquela noite, experimentando o vestido de verão vermelho na cozinha da casa do pai.
Tess e a nova amiguinha, Eleanor, estavam sentadas à mesa, beliscando os peitos de frango que ela cozinhara mais cedo, para a janta das duas e de Hal.
Ambas as meninas pareciam ter esquecido como falar, como se jamais houvessem visto uma mulher usando um vestido antes, mas Hal encontrou as palavras.
- É um belo vestido - disse. Será que ela notou mesmo um brilho em seu olhar? - fico feliz que tenha aceitado o meu conselho e escolhido o vermelho.
- É apenas um jantar - Lily retrucou.
Não era isso que as pessoas vinham lhe dizendo o dia todo? Ela não estava fugindo para se casar com Tyler. Provavelmente, nem mesmo se beijariam, visto que eram praticamente desconhecidos um para o outro. Hal riu, sacudindo a cabeça.
Será que dissera algo engraçado? Se dissera, o que teria sido?
- Minha mãe tem um nome para sapatos como esse Eleanor disse, com ar de sabedoria.
Eleanor, assim como Tess, era uma adulta em miniatura, disfarçada de criança. Na verdade, o nome antiquado era perfeito para ela.
- Parecem saídos de Sex and the City - Tess comentou.
- Tess Kenyon - Lily censurou. - E o que você sabe sobre Sex and the City?
Não sendo burra, Tess tratou de apaziguar a mãe.
- Só o que as meninas mais velhas às vezes comentam na escola - ela disse, com doçura. - E que todas as mulheres no programa conseguem correr usando saltos realmente altos.
- Essa foi a gota d'agua - Lily afirmou. - Vou bloquear a TV a cabo. - Eu não tenho TV a cabo - Hal se intrometeu. - Sendo assim, não há com o que se preocupar.
- Você está linda, mamãe - Tess disse, com tamanha sinceridade e admiração que fez Lily esquecer-se de todas as coisas que a filha podia estar assistindo na TV quando ela não estava por perto. - Parece uma princesa.
- Uma princesa com sapatos sexy - Eleonor acrescentou.
No decorrer da longa e preguiçosa tarde na varanda da frente, Lily descobrira que os pais de Eleanor estavam passando por um divórcio complicado. Era importante mostrar tolerância e compreensão, mas havia limites.
- Eleanor pode dormir aqui? ― Tess pediu. - A tia dela concordou.
- Se o seu avô não se incomodar, pode. - Tendo dito isso, Lily virou-se para o pai. - Nada de TV - acrescentou, em tom sério. - A não ser que seja Disney ou, de algum modo, educativo.
Hal suspirou e ergueu ambas as mãos com as palmas viradas para fora, em um gesto de rendição.
- Eu estava planejando uma partida de monopólio para três. Isso é chato o suficiente para você?
Lily lançou-lhe um olhar fulminante.
- Vai dirigindo ou Tyler virá buscá-la? - Tess perguntou a Lily Pelo seu tom de voz, poderia se supor que ela tinha quarenta anos de
idade, e não seis.
As faces de Lily voltara a arder. Ela era uma tola por sequer ir a este jantar, quanto mais por não levar o seu carro alugado, mas como estava meio perturbada desde seu primeiro encontro com Tyler, anteontem, não lhe ocorrera sugerir que se encontrassem no restaurante.
Será que estava tentando ser seduzida?
Será que queria que Tyler se aproveitasse dela, e para o inferno com as conseqüências?
Era uma possibilidade que ela não ousava examinar muito de perto.
- Tyler vem me pegar - por fim, respondeu.
Eleanor e Tess cumprimentaram uma a outra batendo as palmas das mãos no ar.
E, antes que Lily pudesse responder a isso, a campainha tocou, O coração de Lily veio à garganta.
Ainda havia tempo de voltar atrás. Podia fingir estar passando mal, talvez até convencer Hal a mentir, por ela, embora não houvesse muita chance de isso acontecer.
Contudo que tipo de exemplo estaria dando a Tess?
Lily ajeitou o cabelo, preso em um coque folgado no topo da cabeça. Hal sorriu, interpretando corretamente o gesto, e Tess e Eleanor correram até a porta da frente, rindo quando quase entalaram no primeiro vão de porta pelo qual passaram.
Lily achou que ia vomitar.
Talvez, não estivesse mentindo se dissesse que estava passando mal, O problema era que ninguém acreditaria nela. Nem o pai, nem as menininhas que tanto sabiam a respeito de sapatos sexy e, com certeza, nem Tyler.
Teria simplesmente de levar a coisa toda adiante, apenas isso.
Torcer para que pudesse passar uma tarde agradável com um velho amigo, sem deixar que a sua faceta levada viesse à tona e escalasse o corpo de Tyler como um macaco subindo o tronco de uma palmeira.
Lily ainda estava lidando com os aspectos freudianos dessa imagem, quando avistou Tyler de pé no hall de entrada da casa do pai, usando jeans e uma camisa branca recém-passada, segurando um chapéu de caubói preto em uma das mãos e com um ar tímido.
Sexo ilícito tinha lá as suas vantagens, decidiu.
O mesmo poderia ser dito quanto a acabar logo com isso, quanto a tirar do caminho o problema, de modo que pudesse voltar a pensar direito. Recuperar o equilíbrio, colocar as coisas em perspectiva.
Após assentir para Hal e para as meninas, Tyler pegou de suas mãos a suéter fina e a colocou sobre os ombros de Lily Ao estender uma das mãos na direção da maçaneta, ele inclinou-se para lhe sussurrar ao ouvido.
- É inevitável - disse. - Que tal pularmos o jantar e irmos direto ao que interessa?