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Tá Tudo Errado, Mas Tá Bom. Você virou amante.

Tá Tudo Errado, Mas Tá Bom. Você virou amante.

Autor:: Яoma
Gênero: Moderno
Marília Marques sempre seguiu as regras: construiu uma carreira sólida como advogada, longe de escândalos e com uma reputação impecável da qual se orgulhava. Até conhecer a Fábio Cruz - dono de um sorriso irresistível, um olhar que despiu cada defesa... e uma aliança de casamento que, convenientemente, ele "esqueceu" de usar naquela primeira noite. O que deveria ter sido só um deslize virou um vício difícil de largar. Encontros secretos, mensagens que somem, fotos que só podem ser vistas uma vez e um desejo que não entende de horário, moral ou lógica. Agora, Marília está presa entre o peso da própria consciência... e a vontade de tê-lo na sua cama toda vez que ele escreve: "Tô com saudade." Mas Fábio esconde mais do que um casamento. E quando a verdade ameaça explodir, Marília vai precisar decidir: Ela se salva... ou continua entregando o céu pra um homem que nunca abriria mão da própria vida confortável por ela? Porque tem decisões que não se tomam com a cabeça. E tem amores que doem antes mesmo de começar.

Capítulo 1 O Dia em que Virei a Outra

Prólogo:

Juro por Deus e pela minha coleção de vinhos que eu nunca quis ser amante de ninguém.

Sempre critiquei esse tipo de mulher. Sempre falei mal. Mas... aqui estou eu.

Engolindo as palavras - e algumas lágrimas - dentro de um banheiro de hotel.

Sou Marília Marques, 30 anos, advogada sênior, independente, controladora.

Amo listas, amo rotina. Odeio imprevistos.

E prefiro mais uma noite fria com minha taça de Cabernet do que me envolver com homem casado.

Mas o universo - esse brincalhão sem limites - resolveu me presentear com uma combinação explosiva:

Um sorriso torto. Uma conversa afiada. Um terno sob medida.

E, claro, um estado civil que ele convenientemente "esqueceu" de mencionar.

Resultado? Estou trancada no banheiro de um hotel boutique em Campinas, com o rímel escorrendo, o coração disparado como se eu tivesse tomado cinco expressos duplos, e uma mensagem piscando no celular:

"Saia pela porta dos fundos. A Rebeca acabou de chegar."

Rebeca. Nome de esposa. Nome de problema.

O nosso problema. Ou melhor, o meu problema.

Eu deveria correr. Me esconder. Chorar.

Mas sabe o que eu faço?

Respiro fundo, limpo o batom borrado, encaro meu reflexo no espelho iluminado e digo, sem piscar:

- Parabéns, Marília. Você virou estatística. Virou amante.

Justamente aquilo que sempre jurou que nunca seria.

O Dia em que Virei a Outra:

"Se não fosse pelo jeito que eu me sinto nos braços dele, juro por Deus que já teria bloqueado, ignorado, esquecido. Mas é nele que eu me perco - e é isso que me prende."

Eu juro por Deus, pela minha dignidade (que ainda tento salvar) e pela minha coleção de vinhos importados que eu nunca quis ser amante de ninguém. Nunca.

Sempre olhei torto para esse tipo de mulher - "Ah, coitada, não se valoriza, é trouxa, deve ter autoestima do tamanho de uma azeitona."

Pois bem! Se alguém aí em cima tá ouvindo, parabéns: hoje eu sou exatamente essa mulher. Tô aqui, trancada num banheiro de hotel boutique em Campinas, o rímel escorrendo, o coração disparado como se eu tivesse bebido cinco expressos duplos, e uma notificação piscando no meu celular:

"Saia pela porta dos fundos. A Rebeca acabou de chegar."

Rebeca. Nome de esposa. Nome de problema.

Nos meus trinta anos de vida, nunca tive problema em reconhecer sinais de perigo: cláusulas mal redigidas num contrato, cliente querendo dar calote, ex-namorado que some na véspera do meu aniversário. Eu sempre vi antes. Sempre cortei antes.

Mas hoje... ah, hoje falhei feio.

Deixo o celular escorregar pelo balcão de mármore. Ele vibra de novo. Outra mensagem, outra ordem.

Eu deveria estar sentindo vergonha, nojo, medo - tudo isso junto. E sinto. Mas o que me paralisa de verdade é uma vozinha irritante dentro da minha cabeça repetindo: "Parabéns, Marília. Virou estatística. Virou amante. Justamente você."

Olho pro o espelho. A luz é cruel. Meu batom, um vermelho chique da MAC, virou um borrão digno de palhaça deprimida. Tem um fio de rímel atravessando minha bochecha como se fosse lágrima seca. Passo o dedo, borro mais ainda.

Por que eu tô chorando?

Porque a Rebeca chegou? Porque o Fábio é casado? Porque eu sou a outra?

Ou porque, lá no fundo, eu sabia desde o primeiro sorriso dele que isso aqui ia dar merda - e mesmo assim quis mergulhar de cabeça?

Dois meses atrás. Quinta-feira, final de expediente. Eu, de terninho bege, revisando contrato num café bobo num coworking chique no Cambuí.

Ele chegou atrasado pra uma reunião, falando alto, rindo alto, cercado de gente que ria das piadas ruins. Pensei: "Arrogante." E voltei pro meu laptop.

Cinco minutos depois, ele me perguntou - sem ser convidado - se podia sentar na cadeira vaga ao meu lado. Eu disse não. Ele sentou mesmo assim.

Terno sob medida, relógio caro, aquele perfume que fica na gola do paletó. E o sorriso. Ah, o sorriso. Um canto da boca mais torto que o outro, meio preguiçoso. Daqueles que tiram a roupa da gente sem encostar um dedo.

Conversamos banalidades: café, trânsito, política, vinho. Tudo muito civilizado. Ele pediu meu cartão - disse que tinha interesse num parecer jurídico.

Eu entreguei, fingindo que não gostei da forma como os dedos dele roçaram os meus. Voltei pra casa com uma pontada na barriga que não era fome.

Naquela mesma noite, mensagem:

"Preciso tirar uma dúvida jurídica urgente. Jantar amanhã?"

Eu deveria ter dito não.

Eu deveria ter apagado.

Eu deveria ter rido sozinha, aberto uma taça de Cabernet e assistido um reality idiota até dormir.

Em vez disso, escrevi:

"Claro. Qual o restaurante?"

Deixo a lembrança engolir meu estômago enquanto olho de novo pra mensagem piscando no celular. "Saia pela porta dos fundos."

Até nisso eu sou clichê: amante fugindo pela porta dos fundos enquanto a esposa chega.

Quantas piadas eu já fiz disso? Quantas amigas já ouvi chorar por ser a outra? Eu batia no ombro, servia vinho e dizia: "Amiga, larga. Ele nunca vai largar dela."

Olha quem devia ter ouvido o próprio conselho.

Sento na tampa do vaso sanitário, respiro fundo. Tô tonta. Não sei se do vinho ou da culpa.

Deixo o corpo cair pra frente, cotovelos nos joelhos, cabeça nas mãos. O blazer tá jogado em algum canto do quarto, o salto tá fora do pé, minha dignidade deve estar largada embaixo da cama, abraçada com uma calcinha que eu nem sei onde foi parar.

Eu não sou essa mulher.

Eu não sou a coitada.

Eu não sou a trouxa que espera homem casado desligar do viva-voz pra dizer "te amo".

Eu sou Marília Marques. Advogada sênior, carteira da OAB impecável, sócia júnior do escritório mais respeitado da cidade. Eu redijo contratos de milhões. Eu ganho causas impossíveis. Eu compro meus próprios vinhos caros.

E mesmo assim... aqui estou. Sozinha num banheiro, enquanto ele resolve a vida confortável dele com a esposa perfeita, a casa perfeita, a vida de comercial de margarina que ele faz questão de esconder de mim - ou de mostrar quando quer me manter no lugar.

Abro o celular de novo. Leio a mensagem umas cinco vezes. Tenho vontade de responder: "Vai à merda, Fábio. Vou sair pela porta da frente. Vou dar oi pra Rebeca. Vou dizer tudo."

Não faço nada disso. Só digito: "Ok." E não envio. Apago. Digito de novo. Apago de novo. Eu rio. Um riso seco, engasgado, que me faz tossir.

Meu reflexo no espelho me encara como quem diz: "Sério, Marília? Você vai engolir essa também?"

Vou.

Levanto, abro a torneira, molho as mãos, passo na nuca. Água gelada. Respira. Repasso mentalmente: Celular limpo? Sem prints? Sem mensagens? Bolsa com tudo? Rosto apresentável? Cabelo decente? Tudo sob controle - menos eu mesma.

Abro a porta do banheiro. O quarto ainda tá bagunçado: lençóis amarrotados, taças de vinho pela metade, uma gravata esquecida na poltrona. O cheiro dele ainda tá no ar - mistura de perfume caro e mentira.

Escuto vozes abafadas no corredor. Uma risada feminina. Rebeca? Deve ser. Imagino ela: salto fino, cabelo escovado, aquele blazer que combina com a bolsa. Deve ser linda. Deve ser perfeita.

Deve ser a mulher que eu dizia que seria - até virar amante.

Pego a bolsa, calço os saltos, confiro o batom borrado no espelho do celular. Nem tento arrumar muito. Não tem como polir tragédia.

Abro a porta do quarto devagar, espiando o corredor. O elevador tá longe. O recepcionista, coitado, nem vai me olhar na cara - ou vai, vai olhar com pena.

Atravesso o corredor no modo automático. Um, dois, três passos. Passo pela porta de emergência. A escada de serviço tem cheiro de desinfetante barato misturado com perfume caro - o meu, que ficou impregnado na gola do Fábio.

No meio do lance de escada, paro. Encosto na parede gelada. Fecho os olhos. Tento lembrar quem eu era antes dele. Antes desse caos.

A mulher que não aceitava migalha. A mulher que achava que amor era coisa de adolescente insegura. A mulher que ria de affair proibido em filme ruim.

Cadê ela agora?

Tá aqui, escondida dentro de mim, gritando: "Corre."

Só que é tarde demais. Não dá pra desvirar a chave. Não dá pra devolver beijo roubado. Não dá pra desdormir numa cama que não é sua.

Não dá pra devolver o coração.

O celular vibra de novo. Última notificação da noite:

"Amo você. Me espera. Vai dar certo."

O riso que sai da minha boca preenche a escada vazia. Se alguém ouve, acha que tem louca por aqui. E talvez tenha.

Respondo, num sussurro pra mim mesma:

- Parabéns, Marília. Você virou estatística. Virou amante.

E desço, degrau por degrau, carregando minha culpa, meu salto alto, minha dignidade ferida - e essa esperança burra que insiste em dizer: "Só mais um pouco. Ele vai largar dela. Ele vai escolher você."

Quando piso na calçada lateral do hotel, a madrugada me engole com seu ar gelado e seus postes de luz amarela. Eu deveria sentir alívio por ter escapado.

Mas tudo o que sinto é um aperto no peito que grita: "Esse foi só o começo."

E eu sei que é verdade.

Capítulo 2 Primeiro Jantar, Primeira Mentira

Tudo aconteceu porque eu dei valor àquela ideia absurda: a ilusão de que eu podia entrar e sair quando quisesse, que eu era madura o bastante pra provar um pouco do gosto dele, me divertir e sair de cena intacta. Que estupidez a minha - achar que dava pra brincar com fogo só até onde fosse confortável. Que dava pra sentar numa mesa, aceitar um vinho, engolir uma mentira bem contada e ainda sair ilesa, como se eu fosse imune.

Naquela noite, eu jurei pra mim mesma que estava no controle. Que não tinha risco, que não tinha nada de mais. Um jantar caro, uma conversa boa, um sorriso torto. Era só isso - eu repetia na cabeça. E bastaria levantar da mesa, agradecer, chamar meu carro e ir embora.

Mas não foi o que eu fiz. Porque o problema de achar que se tem controle é esquecer que o outro lado também sabe jogar. E Fábio... Fábio sempre soube exatamente até onde me deixar acreditar que eu mandava em alguma coisa.

Se alguém me perguntasse hoje qual foi o exato segundo em que eu deveria ter levantado da mesa e ido embora, eu saberia responder: quando o garçom trouxe a segunda taça de vinho.

Não que tenha sido o vinho em si - eu sou boa de taça, melhor ainda de limites. O problema foi o jeito como ele segurou a minha mão quando pediu outra rodada. Assim, de leve, dedo por cima do meu, como quem sela um acordo silencioso.

Advogada que sou, eu devia saber que aquele toque era um contrato verbal de encrenca. E que, diferente dos contratos que eu reviso até a vírgula, esse eu ia assinar de olhos fechados.

Eu lembro da cena inteira como se estivesse passando num telão. Eu, sentada num restaurante italiano metido a chique, no Cambuí. Fábio do outro lado, blazer jogado nas costas da cadeira, camisa branca com o primeiro botão aberto - detalhe simples que, somado ao sorriso, derrubava qualquer defesa.

Ele começou falando de trabalho. "Conta mais do teu escritório, Marília. Você sempre quis ser advogada?"

Eu, toda orgulhosa, contando minha história de garota esforçada: filha de professora, pai bancário, bolsista de colégio particular, OAB aprovada de primeira, sócia júnior antes dos trinta. Orgulho da família Marques, a que sempre soube o que queria.

Ele escutava tudo com aquele olhar de quem parece interessado em cada palavra. Mexia o vinho na taça, encostava o queixo na mão, sorria nos momentos certos. Um público perfeito.

Dez minutos de papo e eu já tinha esquecido o aviso mental que dizia: "Homem charmoso demais = dor de cabeça."

Aí veio a primeira mentira.

Ele disse assim, do nada:

- Sabe o que eu mais admiro em você? - perguntou, inclinando o corpo pra frente, como se fosse me contar um segredo.

- O quê?

- Você não parece do tipo que perde tempo com joguinho.

Olhei pra ele, rindo:

- Joguinho?

- É. Gente que faz charme. Que enrola. Você é direta, Marília. Eu adoro isso.

A-ha. Claro. O rei do charme me elogiando por não fazer charme.

Devia ter percebido. Devia ter desconfiado de quem elogia muito cedo, de quem parece te entender rápido demais. É sempre isca.

Mas eu tava ocupada demais sorrindo de volta. E aceitando a segunda taça de vinho.

Veio a comida. Um ravioli artesanal que eu nem senti o gosto direito. Entre uma garfada e outra, ele começou a soltar as frases que, hoje, soariam como alarmes de incêndio.

- "Eu me separei faz um tempo."

- "Tô focado no trabalho agora."

- "Relacionamentos são complicados, né? Mas com você... não sei, tudo parece mais leve."

Repare bem nessa última. "Tudo parece mais leve." Tradução: "Vou te fazer achar que isso aqui é especial, mas sem prometer nada."

Na hora eu só ri, balançando a taça. Não porque acreditei, mas porque quis acreditar. É diferente, entende? Às vezes a gente não cai na mentira - a gente pula nela de cabeça.

Quando o prato acabou, o garçom trouxe a conta. Fábio fez questão de pagar tudo. Eu ainda tentei dividir, como uma mulher moderna, independente, controladora faz questão de fazer - pra não dever nada a homem nenhum.

Ele negou com um gesto, abriu a carteira, passou o cartão de metal que brilhava mais que o sorriso dele.

- Hoje é por minha conta -piscou.

- E amanhã? -eu disse, meio brincando.

Ele sorriu, com aquele canto de boca torto:

- Amanhã você que paga. E depois de amanhã também.

Pronto. Contrato assinado em letra miúda: eu voltaria. Várias vezes.

Do restaurante até o carro, Campinas parecia conspirar a favor. Uma noite quente, vento morno, aquelas luzes de poste que deixam tudo com cara de filme romântico ruim. A rua quase vazia.

Fábio andava do meu lado, mão no bolso, outra mão encostando de leve no meu cotovelo quando eu tropeçava nos paralelepípedos.

Parou do lado do carro dele, um SUV preto que devia valer mais que meu apartamento alugado. Abriu a porta do passageiro como quem abre a porta de carruagem.

Eu devia ter dito: "Obrigada pelo jantar, foi ótimo, boa noite."

Devia ter entrado no meu Uber, voltado pro meu edredom, pro meu Cabernet, pro meu mundo seguro de mulher que não se mete em confusão.

Mas fiquei parada ali, encostada na lateral fria do carro, sentindo a pontinha dos dedos dele roçar meu braço.

E ele, claro, percebeu. O homem tem faro pra hesitação.

- Tá tudo bem? -perguntou, voz baixa.

- Tá -menti.

- Quer que eu te leve em casa? -outra isca.

- Não precisa, eu pego um carro -ainda tentei, fraca que só.

Ele riu. Um riso curto, suave, que eu já sabia de cor.

- Então entra. Eu te deixo na porta. Prometo me comportar.

Eu ri de volta, como quem acredita.

- Você? Se comportar?

- Eu sempre me comporto -e me deu aquele olhar, que desmonta qualquer argumento.

Entrei.

Dentro do carro, o cheiro dele tomava conta de tudo: couro, perfume, a música baixa no som - uma playlist genérica de jazz moderno, que eu aposto que ele nem ouve quando tá sozinho. Mas funcionava. Funciona até hoje.

Ele dirigia devagar, uma mão no volante, outra descansando perto da marcha. Perto demais da minha perna. Eu sentia o calor dos dedos dele sem ele nem encostar. E queria que encostasse.

No meio do caminho, perguntou meu endereço - como se não fosse lembrar de cor depois.

- Cambuí mesmo? -confirmou.

- Cambuí mesmo. Perto de tudo, longe de confusão -eu disse, como se fosse uma ironia privada. Longe de confusão, imagina.

Ele deu uma risada curta, virou uma esquina, parou num semáforo. E ali, no sinal fechado, virou o rosto pra mim. Um segundo que durou uma eternidade.

- Posso te falar uma coisa? - perguntou.

- Pode.

- Faz tempo que eu não tenho vontade de ficar perto de alguém assim.

Se eu fosse esperta, teria respondido com piada.

Se eu fosse forte, teria dito "não se acostuma".

Mas eu só respirei fundo. E ele se inclinou. Beijou meu queixo, depois minha boca. Devagar, quase pedindo licença.

E eu deixei.

Aquele beijo durou mais que o semáforo fechado. O carro parado, o motor ligado, minha consciência desligada. Quando me dei conta, a buzina de outro carro me acordou. Ele riu contra minha boca. Eu ri também.

Dois adultos, maduros, rindo de uma palhaçada que sabíamos muito bem onde ia dar.

Chegamos no meu prédio. Ele encostou na frente, sem pressa de desligar o carro. Eu, com a mão na maçaneta, toda racional, toda "mulher que sabe a hora de parar".

Ele segurou meu pulso.

- Posso subir? -perguntou, descarado.

Eu devia ter dito não.

Eu devia ter dito "Hoje não."

Mas minhas defesas estavam na calçada, fumando cigarro, rindo da minha cara.

- Pode -saiu da minha boca antes que eu conseguisse engolir.

Subimos. Elevador silencioso. A respiração dele atrás de mim, quente na minha nuca. Eu nem olhava pra câmera do elevador - paranoia de advogada. Se alguém revisasse aquelas imagens... bom, já era.

Dentro do meu apartamento, ele elogiou minha estante de vinhos, minha playlist de jazz - a mesma que eu ouvia sozinha enquanto trabalhava madrugada adentro.

Abriu uma garrafa sem pedir. Serviu duas taças. Brindou comigo como se a noite fosse casual, leve, sem segredos.

Dali pra cama foram três passos e nenhuma resistência.

Ele era tudo o que prometia: gentil, preciso, atento. Cada toque, cada beijo, cada frase sussurrada como se fosse promessa de eternidade.

E eu... eu me convenci de que não tinha nada de errado. "Separado." Foi o que ele disse. "Faz tempo." Foi o que eu acreditei.

Quando acordei, já era quase de manhã. Ele ainda estava ali, dormindo do meu lado, o braço pesado sobre minha cintura.

Fiquei olhando o rosto dele. Pensei: "Será que é real? Será que é isso mesmo? Será que não tô me enganando?"

Ele abriu os olhos, sorriu daquele jeito torto, beijou minha testa e sussurrou:

- Vou resolver minha vida, tá? Prometo.

Prometeu.

Eu acreditei.

E foi assim que começou: um jantar caro, uma mentira bem contada, um contrato invisível assinado com beijo - e a Marília Marques, toda certinha, virou a outra.

Primeira mentira engolida. Primeira queda de muitas.

No fundo, eu sabia.

Mas entre saber e fazer alguma coisa a respeito... tem uma cama quente, um sorriso torto, um homem que diz "te quero" sem abrir mão de nada.

E eu, besta, dizendo sim.

Capítulo 3 Mensagem Fantasma

É culpa daquela mulher.

Se não fosse por ela, por esse laço invisível que o prende a outra vida, outra casa, outra promessa quebrada, ele já estaria comigo. Já teria escolhido, teria cruzado a linha e deixado tudo para trás. Mas não faz. E não faz porque está obrigado, porque aquele nome que eu não pronuncio está gravado na pele dele como uma corrente que ele não consegue romper, mesmo querendo.

Aquela mulher é o muro que me separa dele, o obstáculo que transforma cada encontro em um suspiro roubado, cada palavra em uma mentira disfarçada de verdade, cada ausência em um vazio que me consome. E eu aqui, esperando, presa nessa espera absurda, culpada por querer o que não posso ter e por me perder num jogo que não vamos ganhar.

Porque enquanto ela existir, enquanto ele tiver essa obrigação, eu sempre serei a outra. E essa culpa, que recai sobre ela, também pesa em mim.

Eu deveria estar dormindo.

Aliás, eu deveria estar fazendo qualquer outra coisa que não fosse me agarrar ao celular como se fosse um desfibrilador de autoestima. Mas estou aqui. Duas e vinte e três da manhã. Sentada no sofá, de moletom velho da faculdade, cabelo preso num coque torto, batom borrado de um vinho que já acabou faz uns trinta minutos - mas continuo lambendo a borda da taça, como se fosse encontrar ali algum sinal de dignidade.

No fundo, eu sei. Eu sei que essa notificação não vai chegar agora. E ainda assim, atualizo o WhatsApp como se fosse uma advogada em plantão de emergência. De certa forma, sou. A única diferença é que o réu é o meu coração - e a sentença, bom, essa já tá dada faz tempo.

Fábio disse que ia me ligar "assim que saísse da reunião".

Que reunião é essa, às onze da noite de uma sexta-feira? Sei lá. Deve ser a "reunião" com a cama king size dele. A Rebeca - esposa - deve estar deitada do lado, assistindo à série, preocupada com a logística do brunch de domingo. E eu? Eu aqui, decorando cada minuto do vácuo.

Levanto, caminho até a cozinha. Piso gelado no chão, luz fria demais. Abro a geladeira. Fecha a geladeira. Abro de novo. É automático, tipo TOC. A única coisa que mudou desde a última vez que abri é o gelo derretendo na forminha. E a minha paciência, que tá no negativo.

No meio das prateleiras, vejo um pote de geleia caro que comprei semana passada - promoção gourmet da delicatessen do Cambuí. Achei chique na hora. Agora olho pra ele e penso: que diferença faz se eu passar geleia no pão se nem pão eu tenho?

Meu celular vibra. Eu quase bato a cabeça na porta da geladeira de tanto que viro rápido. É instinto: ele! É ele! Claro que é ele!

Não é.

É Renata. Minha Renata. Minha melhor amiga, minha confidente, meu senso de realidade quando perco o meu - o que anda acontecendo toda quinta, sexta e sábado. Às vezes, domingo também.

"Tá viva?"

Respiro fundo. Digito devagar, como se fosse esconder meu fiasco:

"Infelizmente."

A bolinha dela fica verde, ela já tá digitando. Amo essa mulher. Amo mais do que amo esse homem. Pena que isso não me impede de fazer merda.

"Ele sumiu, né?"

"Não é sumiço. É estilo. É charme. É suspense."

"Ghosting de luxo."

Rio sozinha. Ela me conhece demais.

"Amiga, já te falei: homem casado é a mesma coisa que roupa em liquidação. Parece que vale a pena, mas vem com defeito. E não tem troca."

"Tá bem poética hoje."

"Vai dormir, Marília."

"Tô indo."

Mentira. Eu não vou.

Fecho a geladeira de novo, como se fosse um ritual de exorcismo. Volto pra sala. O sofá me engole. Ele tem cheiro de amaciante e solidão. Meu celular pousa no meu colo, pesado, quente - quase uma extensão do meu corpo. Eu penso: será que ele tá digitando? Será que tá escrevendo e apagando? Será que tá me esquecendo de propósito?

A TV tá ligada em algum noticiário de madrugada, mas eu nem escuto. Minha cabeça passa um filme: a primeira noite com ele. O primeiro sorriso torto. A primeira mentira que eu escolhi engolir como quem engole comprimido sem água.

Revivo aquela cena como se fosse agora. Eu de salto, vinho na mão, ele falando qualquer bobagem sobre Dubai. Eu nem sei onde é Dubai direito. Mas achei sexy. Ele me olhou como se fosse a primeira mulher do planeta. E eu deixei. Eu quis. Meu corpo inteiro gritou: vai. Minha cabeça disse: nem pensar. E adivinha quem perdeu?

Volto pro presente. Celular ainda mudo. Checo o Instagram - como se fosse achar pista de crime. Abro o perfil da Rebeca, claro. Sigo ela com uma conta fake, que eu criei só pra isso. Ali tá: uma foto dela hoje, num evento de gala. Vestido preto, cabelo impecável, legenda motivacional de mulher empoderada. A legenda diz: "Mulher de verdade não compete, brilha."

Eu queria rir. Mas rio de nervoso. Compete, sim. Nem que seja comigo. Nem que ela nem saiba.

Desço mais o feed. Ela tá linda em todas. Em uma delas, Fábio aparece atrás, segurando uma taça de espumante, sorriso que eu reconheço. Aquele sorriso que desmonta qualquer defesa. O sorriso que eu jurava ser meu, só meu, pelo menos por umas horas por semana.

Eu deveria largar isso.

Eu deveria bloquear ele.

Eu deveria bloquear ela.

Eu deveria, eu deveria, eu deveria...

Mas não bloqueio nada. Nem minha própria vergonha.

A Renata me manda áudio agora. Eu dou play, baixo o volume da TV:

- "Amiga, escuta uma coisa. Você não é burra, tá? Só tá apaixonada. Burro é ele. Ou talvez esperto demais. O ponto é: se ele quisesse largar tudo, já teria largado. Você sabe disso, eu sei disso, até o porteiro do seu prédio sabe disso. Então, decide logo: ou você larga ele, ou larga de ser trouxa. Escolhe qual dor você quer sentir. Beijo. Vai dormir."

Ela tem razão. Odeio quando ela tem razão.

Eu penso em responder, mas não respondo. Fico só ali, encolhida no sofá, celular pendurado na mão, como se fosse uma bomba-relógio. Fecho os olhos. Tento lembrar como era minha vida antes dele.

Era cinza. Era monótona. Mas era minha.

Agora é esse caos colorido que brilha quando ele aparece - e apaga quando ele some. E eu fico aqui, mexendo nos cacos.

A notificação vibra. Eu prendo a respiração. É ele?

Não é.

É o Uber Eats, oferecendo desconto em pizza. Eu queria tanto uma pizza agora. Mais ainda: queria ele aqui, no lugar da pizza. A pior parte? Eu sei que se ele aparecesse, eu abriria a porta. E abriria tudo de novo.

Penso em como vou encará-lo na segunda-feira, quando ele surgir do nada, cheio de explicações. Vai me dizer que o celular acabou a bateria. Que ficou preso numa reunião interminável. Que pensou em mim a noite toda.

Eu, boba, vou fingir que acredito. E, pior, vou querer acreditar. Vou me convencer de que sou especial. Que sou diferente. Que ele não faz isso com mais ninguém.

Deito no sofá. Puxo a manta cinza que fica jogada no braço. Meu corpo ainda cheira o perfume dele. Ainda sinto o toque da barba no meu pescoço. É ridículo como uma lembrança pode ter mais força que uma realidade.

Fecho os olhos. Imagino meu pai me olhando agora. Minha mãe. Se soubessem. Eu, a filha certinha, independente, advogada sênior com foto sorridente no site do escritório. "Marília Marques, especialista em contratos, compliance e gestão de crise." Mal sabem que a crise sou eu.

Destravo o celular pela última vez. Nenhuma mensagem. Nenhum áudio. Nenhuma desculpa esfarrapada. Nem um mísero "boa noite". Nada.

Eu rio. Baixinho, quase sem querer. Rir é a única coisa que ainda me lembra quem eu sou - ou quem eu era antes de virar A Outra.

Quando finalmente pego no sono, penso numa frase que li num livro velho, nem lembro de quem: "Às vezes, a gente se machuca devagar, só pra ter certeza de que ainda sente alguma coisa."

Talvez seja isso. Talvez eu só queira sentir.

Mesmo que doa.

Mesmo que suma.

Mesmo que volte.

E, quando voltar, eu vou abrir a porta. Claro que vou. Porque eu sou a Marília Marques - advogada sênior, controladora, independente. E completamente fora de controle.

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