POV: Arthur Valente
O topo da Avenida Faria Lima sempre me deu a sensação de que o mundo era pequeno demais. Através do vidro do chão ao teto do meu escritório, os carros lá embaixo pareciam formigas metálicas em um labirinto de asfalto. Eu era o dono do labirinto.
Ajustei o nó da minha gravata Hermès, sentindo a textura da seda contra os dedos. O reflexo no vidro me devolvia o que o mercado financeiro chamava de "O Tubarão": terno sob medida, ombros largos que denunciavam as horas de boxe às cinco da manhã, e um olhar que já havia feito CEOs experientes gaguejarem. Eu não tinha tempo para erros. Eu não tinha tempo para sentimentos. Eu tinha apenas metas.
- O conselho está inquieto, Arthur - a voz de Dr. Marcelo, meu advogado de confiança há duas décadas, quebrou o silêncio da sala.
Virei-me devagar. Marcelo estava sentado em uma das poltronas de couro italiano, com uma pasta de couro aberta sobre os joelhos. Ele parecia exausto. Eu, pelo contrário, sentia o sangue bombando, movido pelo café puro e pela fúria silenciosa.
- O conselho é um bando de velhos gagás que herparam cadeiras que não sabem ocupar - retruquei, minha voz saindo num barítono baixo e cortante. - Eles deveriam estar agradecendo por eu ter triplicado o valor das ações nos últimos cinco anos.
- Eles agradecem pelo lucro, mas temem a cláusula. A "Cláusula de Estabilidade Familiar" que seu avô, o velho Victorio Valente, deixou no estatuto. - Marcelo suspirou, ajeitando os óculos. - Você tem trinta dias, Arthur. Trinta dias para se casar, ou o controle acionário da Holding passa para as mãos da sua madrasta, Helena, e daqueles abutres que a apoiam. Se você não apresentar uma esposa, eles declaram que você não cumpre o "perfil de sucessão moral" da empresa.
Senti um músculo na minha mandíbula saltar. Helena. Aquela mulher era uma praga que meu pai trouxera para dentro de casa e que agora tentava extirpar o que era meu por direito de sangue e suor.
- Eu não vou me casar com uma debutante fútil para satisfazer o fantasma do meu avô - rosnei, caminhando até minha mesa de carvalho negro. - Ache uma brecha.
- Não há brecha, Arthur. O estatuto é blindado. Você precisa de uma mulher. E precisa de uma que seja apresentável, que não tenha escândalos e que aceite assinar um contrato de confidencialidade que a mandaria para a cadeia se ela abrir a boca sobre a farsa.
- Então compre uma - eu disse, friamente. - Ofereça o valor que for. Quero uma mulher que saiba o seu lugar, que sorria para as câmeras e que desapareça quando eu fechar a porta do meu quarto.
Marcelo ia responder, mas meu interfone tocou. Era minha secretária, voz trêmula.
- Sr. Valente? Desculpe interromper, mas a arquiteta que o senhor mandou chamar... ela está aqui. E ela disse que não vai esperar mais nenhum minuto.
Ah, sim. O "problema" do terreno de Pinheiros. Um dos projetos mais ambiciosos da minha gestão estava travado porque uma pequena empresa de arquitetura se recusava a vender a última parcela de terra necessária para o empreendimento. Uma questão de "sentimentalismo", disseram-me. Eu odiava sentimentalismo. Era um custo desnecessário.
- Mande-a entrar - ordenei. - Marcelo, terminamos isso depois. Vou resolver essa pendência de terra agora e você foca em encontrar a "candidata" para o casamento.
A porta se abriu antes mesmo de Marcelo sair.
E foi aí que o ar da sala pareceu mudar de densidade.
Ela não entrou; ela invadiu. Cabelos castanhos ondulados que pareciam ter vida própria, caindo sobre os ombros de um blazer verde-esmeralda que destacava a pele clara. Ela não usava o uniforme das mulheres que frequentavam meu escritório - não havia saia lápis apertada ou saltos agulha desconfortáveis. Ela usava calças de alfaiataria, uma bota de couro e carregava um tubo de projetos debaixo do braço como se fosse uma arma.
Mas foram os olhos que me prenderam. Verdes, cor de tempestade na floresta, e faiscando de uma raiva que eu raramente via alguém ter coragem de direcionar a mim.
- O senhor deve ser o homem que acha que pode comprar a história da minha família com um cheque de muitos zeros - ela disse, sem nem esperar que eu me apresentasse. A voz dela era firme, aveludada, mas com uma nota de sarcasmo que me irritou e me instigou ao mesmo tempo.
- Beatriz Lovatelli, presumo - falei, contornando a mesa com passos lentos, como um predador avaliando uma presa que acabou de entrar na sua toca. - Você está atrasada. E está sendo inconveniente.
- Inconveniente? - Ela soltou uma risada curta e seca, aproximando-se. Ela era mais baixa que eu, mas me encarava de queixo erguido. - Inconveniente é receber três corretores seus por dia tentando me coagir a assinar a venda do escritório do meu pai. O terreno não está à venda, Sr. Valente. Nem por um milhão, nem por dez.
Parei a poucos centímetros dela. O perfume dela me atingiu: nada de essências doces e infantis. Tinha cheiro de sândalo, chuva e algo puramente feminino que fez meu corpo reagir de uma forma que eu não esperava. Meus olhos desceram involuntariamente para a boca dela - lábios cheios, naturais, que agora estavam comprimidos em uma linha de determinação.
- Tudo tem um preço, Beatriz - eu disse, baixando a voz, deixando-a carregada de autoridade. - Você está segurando um desenvolvimento de quinhentos milhões por causa de quatro paredes velhas e mofadas. O que você quer? Status? Uma diretoria na minha empresa? Aponte o valor e eu assino.
Ela deu um passo à frente, invadindo meu espaço pessoal. Eu conseguia sentir o calor que emanava do corpo dela.
- O senhor é tão pobre que só tem dinheiro, não é? - Ela falou, o tom agora baixo e perigoso. - Meu pai morreu desenhando naquele escritório. Aquelas paredes são o que restou dele. Não são "mofadas", são memórias. Coisa que um robô feito de terno e números como você jamais entenderia.
Eu senti uma chama de irritação se transformar em algo mais sombrio e quente. Ninguém falava comigo daquela forma. A audácia dela era fascinante. Meus olhos percorreram o contorno do seu rosto, descendo pelo pescoço pulsante até o decote discreto do blazer. Onde outros viam uma arquiteta teimosa, eu comecei a ver algo muito mais interessante.
Lembrei-me das palavras de Marcelo: preciso de uma esposa apresentável, sem escândalos, que precise de algo.
Olhei para a pasta que meus assistentes tinham preparado sobre ela. O escritório dela estava afundado em dívidas de impostos que o pai deixara. Ela estava a um passo de perder tudo para o governo, não para mim. Ela estava lutando com unhas e dentes para salvar o que já estava condenado.
Uma ideia, tão perversa quanto brilhante, começou a se formar na minha mente.
- Você está em apuros, Beatriz - eu disse, minha voz agora suave, quase um carinho perigoso. - Sei que o banco deu um prazo de 15 dias para o leilão do imóvel por causa das dívidas fiscais. Você não está protegendo o escritório; você está apenas adiando o inevitável.
O brilho nos olhos dela vacilou por um milésimo de segundo. A vulnerabilidade apareceu, e eu a capturei como um troféu.
- Como você... - ela começou, mas eu a cortei.
- Eu sou o Arthur Valente. Eu sei de tudo. - Dei mais um passo, encurralando-a contra a borda da minha mesa de carvalho. - Você quer salvar o escritório? Quer que ele permaneça intacto, como um monumento ao seu pai, e ainda ter capital para transformá-lo no maior escritório de arquitetura do país?
Ela estava ofegante agora. O ódio ainda estava lá, mas a curiosidade e o desespero também.
- Qual é a armadilha? - ela perguntou, a voz falhando levemente.
Eu sorri. Não era um sorriso gentil. Era o sorriso do tubarão que finalmente sentiu o gosto do sangue na água.
- Eu não quero apenas o seu terreno. Eu quero você. Pelo menos, o seu nome no papel. Eu lhe ofereço a quitação total das suas dívidas, a preservação do escritório do seu pai e cinquenta milhões de reais em uma conta protegida.
Ela franziu a testa, confusa.
- Para eu vender o terreno?
- Não - eu disse, inclinando-me para frente até que minha boca estivesse perigosamente perto do seu ouvido, sentindo o arrepio que percorreu a pele dela. - Para ser minha esposa. Por doze meses.
Beatriz congelou. Eu conseguia ouvir o ritmo acelerado do coração dela. O silêncio na sala era tão espesso que podia ser cortado com uma faca. Eu estava jogando meu jogo mais arriscado, e a peça mais valiosa estava bem na minha frente, cheirando a desafio e desejo reprimido.
- Você ficou louco - ela sussurrou, tentando se afastar, mas eu coloquei as mãos na mesa, uma de cada lado do seu corpo, prendendo-a no meu círculo de poder.
- Loucura é perder tudo o que você ama por orgulho, Beatriz. O que eu proponho é um negócio. O melhor que você receberá na vida.
- Um casamento de fachada? - Ela me encarou, os olhos procurando uma mentira. - Por que eu?
- Porque você tem fogo. E porque, de todas as mulheres que já entraram nesta sala, você foi a única que não baixou a cabeça para mim. Eu preciso de alguém que convença o mundo de que eu finalmente encontrei meu par.
Eu a observei processar a informação. Ela olhou para as minhas mãos, depois para o meu rosto. A tensão sexual entre nós era um fio de alta voltagem, pronto para explodir a qualquer toque mais brusco.
- E as... condições? - ela perguntou, a voz subindo uma oitava. - Um casamento de verdade envolve... coisas.
Eu deixei meu olhar descer lentamente pelo corpo dela, marcando posse antes mesmo de ter o contrato assinado.
- O contrato exige convivência. O público precisa acreditar que não conseguimos tirar as mãos um do outro. - Aproximei meu rosto do dela, o calor da minha pele quase tocando a dela. - E, olhando para você agora, Beatriz... acho que fingir desejo por você vai ser a parte mais fácil do meu trabalho.
Ela levantou a mão, talvez para me empurrar, talvez para me dar um tapa. Mas quando a palma dela tocou o meu peito, sobre o meu coração, ela não empurrou. Os dedos dela se fecharam no tecido do meu terno caro.
- Você é um monstro - ela murmurou, mas seus olhos estavam fixos nos meus lábios.
- Talvez. Mas sou o monstro que vai salvar o seu mundo. O que me diz, Beatriz? Você assina com o diabo para salvar o seu paraíso?
POV: Beatriz Lovatelli
O ar condicionado daquela cobertura na Faria Lima parecia gelo seco contra a minha pele, mas por dentro, eu estava em chamas.
A mão de Arthur Valente - uma mão grande, de dedos longos e unhas impecavelmente aparadas - estava apoiada na mesa de madeira escura, cercando o meu corpo. Eu conseguia sentir o calor que emanava dele, um calor que contrastava com a frieza cortante das suas palavras. Ele cheirava a algo caro e proibido: uma mistura de couro, uísque de malte único e aquele perfume cítrico amadeirado que parecia impregnar meus pulmões a cada respiração que eu roubava.
- Você está me propondo... uma transação - minha voz saiu mais rouca do que eu pretendia. Eu tentei manter o queixo erguido, mas estar tão perto dele era como tentar ignorar a gravidade. - Você quer que eu venda não apenas o meu escritório, mas o meu nome? O meu corpo?
Arthur inclinou a cabeça, um sorriso de lado que não chegava aos olhos cinzentos e gélidos. Ele era absurdamente bonito, do tipo que fazia as mulheres pararem o que estavam fazendo apenas para vê-lo passar, mas havia algo de predatório nele. Ele não era um príncipe; ele era o dono da floresta.
- O seu nome, Beatriz. Apenas o seu nome - ele corrigiu, a voz descendo para um tom de barítono que vibrou no meu peito. - O seu corpo é uma variável que você decidirá se quer incluir na equação. O contrato é claro: convivência marital pública. O que acontece entre quatro paredes é uma questão de... negociação contínua.
- Eu odeio você - eu disse, e dessa vez não foi um grito, foi uma confissão.
- O ódio é uma emoção honesta - ele retrucou, diminuindo ainda mais a distância. Nossos narizes quase se tocaram. - É muito mais útil do que o amor para o que eu preciso. O ódio mantém as pessoas alertas. O amor as deixa estúpidas.
Eu olhei para o peito dele, onde minha mão ainda estava pressionada. Eu podia sentir o batimento rítmico e calmo do seu coração. Como ele podia estar tão calmo enquanto estava destruindo a minha vida e me oferecendo uma tábua de salvação feita de arame farpado?
Pensei no meu pai. Pensei nas noites em que ele ficava até às três da manhã desenhando plantas naquela mesa de madeira de carvalho que agora o banco queria tomar. Pensei nos meus funcionários, pessoas que dependiam de mim para colocar comida na mesa. Se eu dissesse não, em quinze dias eu estaria na rua. Se eu dissesse sim... eu seria a Sra. Valente. A esposa do homem mais poderoso e detestado do país.
- Cinquenta milhões - eu sussurrei, testando o peso daquele número.
- Limpos. Em uma conta no seu nome no dia seguinte à assinatura do contrato - ele reafirmou. - Mais o aporte de capital para a sua empresa. Eu transformo a Lovatelli Arquitetura na maior parceira da Valente Holding. Você nunca mais terá que se preocupar com um boleto de imposto na vida.
Eu fechei os olhos por um segundo. A derrota tinha um gosto amargo, mas o desejo que começava a formigar na boca do meu estômago era algo que eu não queria admitir. Arthur Valente era o inimigo, mas o jeito que ele me olhava - como se quisesse me devorar e me proteger ao mesmo tempo - estava despertando algo sombrio em mim.
- Eu quero cláusulas - eu disse, abrindo os olhos e encontrando o olhar de aço dele. - Quero liberdade total para os meus projetos. Quero que você não interfira na minha gestão. E quero... quero que você nunca entre no meu quarto sem ser convidado.
Arthur soltou uma risada curta, um som sombrio que fez os pelos dos meus braços se arrepiarem.
- Você acha mesmo que eu precisaria forçar a entrada no seu quarto, Beatriz?
Antes que eu pudesse responder, ele agiu. Foi rápido demais para eu processar. Uma de suas mãos saiu da mesa e envolveu a minha nuca, os dedos se enterrando no meu cabelo com uma firmeza que me fez soltar um arquejo de surpresa. A outra mão desceu para a minha cintura, puxando meu corpo contra o dele até que não houvesse mais um milímetro de ar entre nós.
Eu senti a rigidez do seu corpo, o músculo sólido das suas coxas contra as minhas. Minha respiração travou.
- O que você está fazendo? - eu tentei protestar, mas minha voz falhou miseravelmente.
- Testando a mercadoria - ele murmurou, o hálito quente contra os meus lábios. - E dando a você uma prévia do que o mundo precisa ver.
E então, ele me beijou.
Não foi um beijo de cinema, suave e romântico. Foi uma invasão. Foi Arthur Valente reivindicando território. Seus lábios eram firmes e exigentes, e quando sua língua pediu passagem, eu cedi por puro instinto, por um choque elétrico que percorreu minha espinha e se concentrou entre as minhas pernas.
Eu deveria ter batido nele. Deveria ter saído daquela sala e aceitado a pobreza. Mas, em vez disso, minhas mãos, por vontade própria, subiram pelos seus ombros, agarrando o tecido caro do seu paletó. Eu devolvi o beijo com toda a raiva e a frustração que estava sentindo, transformando aquele momento em uma batalha de línguas e dentes.
O gemido que escapou da minha garganta foi abafado pela boca dele. Arthur apertou minha cintura com tanta força que eu sabia que ficariam marcas, e a ideia de ter as marcas dele na minha pele me fez molhar instantaneamente. Era loucura. Era autodestruição.
Ele se afastou tão subitamente quanto começou, deixando-me trêmula e com os lábios inchados. Ele parecia minimamente afetado, exceto pelo brilho selvagem nos olhos e pela respiração um pouco mais pesada.
- Como eu imaginei - ele disse, a voz agora carregada de uma satisfação cruel. - Você é puro fogo, Beatriz. Vai ser um prazer imenso domar você.
- Você nunca vai me domar - eu respondi, tentando recuperar a dignidade enquanto ajeitava meu blazer, embora minhas pernas parecessem feitas de gelatina.
- Veremos. - Ele caminhou de volta para a sua cadeira monumental, sentando-se com a elegância de um imperador. Ele pegou uma caneta de ouro e a girou entre os dedos. - O contrato estará pronto às oito da noite. Mandarei um carro te buscar. Esteja pronta, Beatriz. E use algo... impactante. Teremos um jantar com a imprensa para anunciar nosso "noivado relâmpago".
- Hoje? Você quer fazer isso hoje?
- Eu não construí um império esperando pelas coisas, querida. Eu faço as coisas acontecerem. - Ele voltou a olhar para a tela do computador, me dispensando friamente, como se o beijo que quase me fez desmaiar nunca tivesse acontecido. - Até a noite, futura Sra. Valente.
Saí daquela sala sentindo que o chão estava fugindo sob meus pés. O trajeto até o elevador foi um borrão. Quando as portas de metal se fecharam, eu me encostei no espelho e toquei meus lábios. Eles ainda queimavam.
Eu tinha acabado de vender minha alma para o diabo de olhos cinzentos. E a pior parte? Eu mal podia esperar para vê-lo de novo.
Cheguei ao meu pequeno escritório em Pinheiros com o coração ainda martelando nas costelas. O contraste era doloroso. O carpete desgastado, o cheiro de café requentado e os arquivos empilhados que contavam a história da decadência financeira da minha família.
- Bia? - Mariana, minha assistente e melhor amiga, apareceu na porta com uma expressão de preocupação. - Você está pálida. O que aconteceu? O Valente te humilhou muito? Eu juro que se aquele homem tiver feito você chorar, eu vou lá e...
- Ele me pediu em casamento, Mari - interrompi, jogando minha bolsa sobre a mesa.
O silêncio de Mariana foi absoluto por três segundos. Então, ela começou a rir.
- Ok, ótima piada. Agora fala sério. Ele aceitou a contraproposta do terreno?
- Não é piada. - Olhei para ela, e a seriedade no meu rosto fez o riso dela morrer instantaneamente. - Ele me ofereceu um contrato. Um ano como esposa de fachada em troca de cinquenta milhões e o salvamento da Lovatelli.
Mariana se sentou na cadeira de visitantes, boquiaberta.
- Cinquenta... milhões? Bia, isso é dinheiro de loteria. Isso é dinheiro para você nunca mais desenhar uma planta se não quiser. Mas... é o Arthur Valente. Ele é um tubarão. Ele destrói pessoas no café da manhã. Qual é a pegadinha?
- A pegadinha é que eu tenho que viver com ele. Tenho que fingir que o amo. Tenho que ser a mulher perfeita para o conselho da empresa dele não tirar o cargo dele. - Caminhei até a janela, olhando para a rua movimentada. - E ele me beijou, Mari.
- E como foi? - Mariana perguntou, a curiosidade feminina vencendo o choque.
- Foi como ser atingida por um raio e atropelada por um caminhão ao mesmo tempo. Eu o odeio, mas o meu corpo... o meu corpo não recebeu o memorando.
- Amiga, escuta - Mariana se levantou e veio até mim, colocando a mão no meu ombro. - Esse homem é perigoso. Mas a situação do escritório é terminal. O oficial de justiça ligou hoje de manhã de novo. Se você não fizer isso, em duas semanas estamos todas desempregadas e esse lugar vira um estacionamento. Se você fizer... você salva tudo. Mas você vai ter que ser muito forte para não se perder nele.
- Eu sou uma Lovatelli - afirmei, mais para mim mesma do que para ela. - Eu aguento um ano. Vou pegar o dinheiro, salvar o nome do meu pai e cair fora antes que ele perceba que eu tenho coração.
Mas, enquanto eu dizia aquelas palavras, a imagem de Arthur me prensando contra a mesa voltou com força total. O jeito que ele me olhou, como se soubesse exatamente quais eram os meus desejos mais obscuros, me deu um calafrio.
Eu tinha sete horas para me transformar na esposa de um bilionário.
20:00 – Apartamento de Beatriz
O interfone tocou exatamente na hora. Arthur era pontual, uma característica de quem não desperdiça um segundo de poder.
Eu me olhei no espelho uma última vez. Eu não ia entrar nessa guerra desarmada. Eu tinha escolhido um vestido de seda preto, com um decote profundo nas costas e uma fenda na coxa que era um convite ao pecado. Meus cabelos estavam presos em um coque elegante, mas com algumas mechas soltas para suavizar o rosto. A maquiagem era pesada nos olhos, esfumados em tons de bronze e preto, e os lábios estavam pintados com um vermelho sangue fosco.
Eu parecia uma mulher que não aceitava ordens. Eu parecia a mulher que Arthur Valente merecia ter ao lado dele: um problema.
Desci e encontrei um sedã blindado preto parado na frente do meu prédio. Um motorista de quepe e luvas abriu a porta para mim.
- Boa noite, Srta. Lovatelli. O Sr. Valente a aguarda no restaurante.
O trajeto até o Terraço Itália foi feito em silêncio. Eu olhava para as luzes de São Paulo passando pela janela, sentindo o estômago dar voltas. Eu estava prestes a assinar um contrato que mudaria minha vida para sempre. Não havia volta.
Quando cheguei ao restaurante, fui escoltada até uma área reservada, cercada por vidros que davam uma visão de 360 graus da cidade. Lá estava ele.
Arthur estava de pé, de costas para a entrada, observando o horizonte. Ele tinha trocado o terno de trabalho por um smoking que parecia ter sido esculpido no seu corpo. Ele segurava uma taça de cristal com um líquido âmbar.
- Você está atrasada três minutos - ele disse, sem se virar.
- Uma mulher como eu nunca se atrasa, Arthur. Os outros é que chegam cedo demais - retruquei, caminhando em sua direção. O som dos meus saltos no chão de mármore parecia o tique-taque de uma bomba.
Ele se virou devagar. Seus olhos percorreram meu corpo, do pescoço aos pés, e pela primeira vez, vi uma fresta na sua armadura de gelo. Suas pupilas dilataram. Ele deu um gole longo no uísque antes de deixar a taça sobre uma mesa lateral.
- O vestido é um ataque direto ao meu autocontrole, presumo - ele disse, a voz mais baixa, quase um rosnado de aprovação.
- Considere como parte do "impacto" que você pediu.
Ele se aproximou e, para minha surpresa, não tentou me beijar de novo. Em vez disso, ele pegou a minha mão e levou-a aos lábios, beijando os meus nós dos dedos enquanto mantinha o contato visual. O gesto era cavalheiresco, mas o olhar era puro desejo possessivo.
- O contrato está na mesa. O advogado já saiu. - Ele indicou uma pasta de couro preta. - Assine, e a primeira parcela cai na sua conta agora. Depois disso, sairemos por aquela porta como o casal mais apaixonado de São Paulo.
Caminhei até a mesa. O documento estava lá. Centenas de cláusulas em letras miúdas. Li as principais:
Cláusula 4.2: A contratada deve residir na propriedade principal do contratante.
Cláusula 7.1: A contratada deve acompanhar o contratante em todos os eventos sociais e viagens de negócios.
Cláusula 12.4: Qualquer quebra de fidelidade pública ou privada resultará em multa integral do valor do contrato.
Parei na última. "Privada".
- Fidelidade privada? - olhei para ele. - Você está dizendo que eu não posso ter ninguém, mas você também não?
- Eu não divido o que é meu, Beatriz. Nem mesmo de mentira - ele respondeu, parando atrás de mim. Ele colocou as mãos nos meus ombros, e o calor dos seus dedos atravessou a seda do vestido. - Enquanto você carregar o meu sobrenome, você é minha. De corpo, alma e papel. E eu serei seu. Não haverá outras mulheres. Eu não teria tempo para elas com você me dando tanto trabalho.
Peguei a caneta. Minha mão tremeu levemente, mas eu não hesitei. Assinei meu nome: Beatriz Lovatelli.
- Agora - Arthur disse, pegando a caneta da minha mão e assinando o seu nome logo abaixo do meu com uma caligrafia agressiva e firme. - Vamos dar aos fotógrafos o que eles querem.
Ele guardou a pasta, envolveu minha cintura com o braço e me puxou para perto.
- Sorria, Beatriz. Você acaba de se tornar a mulher mais rica e mais invejada do Brasil.
- E a mais perigosa também, Arthur - sussurrei para ele enquanto caminhávamos para a saída, onde os flashes já começavam a brilhar através das janelas. - Porque agora que eu tenho o seu dinheiro, eu não tenho mais nada a perder.
O que eu não disse, e o que eu temia mais do que tudo, era que o brilho nos olhos dele me dizia que ele sabia exatamente como me fazer perder tudo: começando pelo meu coração.
POV: Arthur Valente
Os flashes dos paparazzi eram como disparos de metralhadora contra o vidro do restaurante. Eu sentia Beatriz ficar rígida ao meu lado, os dedos dela cravando-se sutilmente no tecido do meu smoking. Ela estava tentando manter a máscara de indiferença, mas eu conseguia ouvir sua respiração acelerada.
- Mantenha o sorriso, Beatriz - sussurrei perto de seu ouvido, minha mão descendo possessivamente pela curva do seu quadril, sentindo a seda do vestido preto deslizar sob a minha palma. - Eles precisam sentir o cheiro da nossa luxúria, não do seu medo.
- Eu não tenho medo de você, Arthur - ela retrucou entre dentes, mantendo um sorriso deslumbrante para a lente de um fotógrafo da Vogue. - Eu só tenho nojo da hipocrisia desse circo.
Eu ri, um som baixo que foi abafado pelos gritos dos jornalistas. A audácia dela era o combustível que eu não sabia que precisava.
O trajeto até a saída foi um borrão de perguntas gritadas e seguranças abrindo caminho. Quando finalmente entramos no banco traseiro do Mercedes blindado, o silêncio caiu sobre nós como um manto pesado. O isolamento acústico do carro nos deixou a sós com a fragrância de sândalo dela, que agora parecia preencher cada centímetro cúbico do veículo.
Eu a observei pelo canto do olho. Beatriz olhava pela janela, o perfil iluminado pelas luzes de neon da cidade. Ela parecia uma rainha destronada que acabara de retomar seu reino através de um pacto com o inimigo. A fenda do vestido revelava uma perna torneada que me dava ideias perigosas.
- Onde estão as minhas malas? - ela perguntou, sem se virar.
- Já estão na cobertura. Meus funcionários buscaram tudo o que era essencial no seu apartamento enquanto estávamos no jantar. O resto eu mandarei você comprar amanhã. Quero que seu guarda-roupa reflita a sua nova posição.
Ela finalmente se virou, os olhos verdes faiscando de fúria.
- Você invadiu a minha casa?
- Eu limpei o seu passado, Beatriz. Considere uma cortesia. A partir de hoje, você não vive em um apartamento de classe média com infiltrações. Você vive comigo.
- Eu assinei um contrato de casamento, Arthur, não uma escritura de escravidão.
Inclinei-me em sua direção, invadindo seu espaço até que ela fosse forçada a recuar contra a porta do carro. O perfume dela era inebriante, uma mistura de desafio e feminilidade pura.
- No meu mundo, as duas coisas são muito parecidas - eu disse, minha voz saindo num tom que era quase um rosnado. - Você queria salvar o legado do seu pai. Eu salvei. Em troca, eu quero a sua presença absoluta. Quero que, quando eu chegar em casa, o mundo lá fora deixe de existir e você seja a única coisa à minha frente.
Eu levei minha mão ao seu pescoço, sentindo o pulso dela martelando sob a minha pele. Ela não recuou. Pelo contrário, ela inclinou o rosto levemente, um desafio mudo.
- Você está sendo pago para fingir que me ama, Arthur. Não para ser meu dono.
- Cinquenta milhões compram muita coisa, Beatriz. Inclusive o direito de testar onde termina a sua resistência e onde começa o seu desejo.
O carro parou na garagem privativa do meu prédio nos Jardins. O elevador biométrico nos levou diretamente para a cobertura duplex. Quando as portas se abriram, o luxo minimalista da minha casa se estendeu diante de nós: mármore negro, obras de arte abstratas e uma vista de 180 graus de São Paulo.
Beatriz entrou cautelosamente, os saltos ecoando no chão frio. Ela parecia pequena naquele espaço vasto, mas sua presença preenchia a sala de uma forma que nenhuma das minhas conquistas anteriores jamais conseguiu.
- Onde é o meu quarto? - ela perguntou, a voz ecoando.
- No andar de cima. À direita. - Apontei para a escada de vidro. - O meu é o da esquerda. As portas permanecem destrancadas, Beatriz. É uma regra da casa. Não quero segredos sob o meu teto.
Ela me encarou por um longo momento, uma batalha silenciosa ocorrendo entre nós.
- Você acha que, deixando a porta aberta, eu vou acabar entrando no seu quarto por vontade própria? - Ela soltou uma risada sarcástica. - Você é mais iludido do que eu pensava.
- Eu não acho, Beatriz. Eu sei. - Dei um passo à frente, diminuindo a distância entre nós. - Você pode lutar contra isso o quanto quiser. Pode me odiar, pode me insultar, mas o jeito que você reagiu ao meu beijo no escritório me diz que o seu corpo já assinou o contrato muito antes da sua mão.
Ela abriu a boca para protestar, mas eu não dei chance. Dei as costas a ela e caminhei até o bar de cristal, servindo-me de um uísque.
- Vá dormir. Amanhã cedo temos uma reunião com o conselho da Holding. Eles querem conhecer a mulher que "amoleceu" o coração do Tubarão. Tente parecer apaixonada. Ou, no mínimo, satisfeita.
Ouvi o som dos passos dela subindo as escadas, cada batida no vidro soando como um desafio. Quando ouvi a porta do quarto dela se fechar - mas não o som da fechadura, pois eu sabia que ela não ousaria quebrá-la na primeira noite - eu finalmente soltei o ar que nem percebi que estava prendendo.
Eu bebi o uísque de um gole só, sentindo o líquido queimar minha garganta. Eu tinha o que queria. O controle da empresa estava garantido. Mas, enquanto olhava para a escada por onde ela tinha acabado de subir, percebi que o contrato era a parte fácil.
O difícil seria manter minhas mãos longe dela.
Subi as escadas meia hora depois. O corredor estava silencioso, iluminado apenas por luzes de LED embutidas no chão. Passei pela porta dela. Estava entreaberta, exatamente como eu ordenei. A luz do luar entrava pela janela enorme, desenhando o contorno de Beatriz na cama. Ela já tinha se trocado; eu conseguia ver o brilho de uma camisola de seda clara.
Parei por um segundo, observando o movimento rítmico de seus ombros enquanto ela dormia - ou fingia dormir. A vontade de entrar, de sentir o calor daquela pele novamente, de reivindicar o que o papel dizia ser meu, era quase insuportável.
Eu era um homem de lógica, de cálculos. E Beatriz Lovatelli era a única variável que eu não conseguia prever.
Entrei no meu próprio quarto, mas não consegui dormir. Cada som daquela cobertura parecia amplificado. Eu conseguia imaginá-la ali, a poucos metros de distância, odiando-me e desejando-me na mesma proporção.
Peguei meu celular e vi a primeira página dos portais de fofoca. "Arthur Valente e a Arquiteta de Ouro: O Casamento do Século ou o Negócio da Década?". As fotos do jantar estavam em todo lugar. Em uma delas, eu estava olhando para ela com uma intensidade que nem eu mesmo reconheci.
- Você não faz ideia do que começou, Beatriz - murmurei para o teto escuro.
Naquela noite, o Tubarão de São Paulo não sonhou com ações ou fusões. Sonhou com olhos verdes de tempestade e com o gosto de um beijo que prometia ser a minha ruína.