Era o fim de uma tarde comum de domingo, finais de semanas eram infernais, mas os domingos costumavam ser sufocantes, e como se soubessem disso passavam se arrastando, justamente para me torturar a cada nova semana que iniciava. Depois de comprar e pagar pelos poucos materiais de higiene pessoal e alguma comida voltei para o meu carro, uma picate. Fazia um bom tempo que eu não me preocupava mais em ter espaço.
Minha mente estava agitada e meu corpo em alerta, meus pés não paravam no lugar e eu queria que as horas voassem. Eu tinha esperado muito tempo para a próxima madrugada, eu me lembraria do inferno que vivi quando colocasse minhas mãos naquela garota.
O baque surdo da porta se fechando foi seguido por uma sensação que eu conhecia muito bem, não sentia nenhuma vontade de voltar para casa, mesmo que fosse só para me preparar para essa madrugada. Encarei o parabrisa, ao longe era possível ver os últimos raios de sol iluminando as nuvens e sumindo vagarosamente no horizonte, colorindo o céu com tons alaranjados e com fundo rosado. Eu fiquei ali, assistindo o sol se pôr e pensando no que eu iria fazer algumas horas mais tarde.
Pensei em Lisa, pensar que ela não estaria orgulhosa só doía ainda mais, mas não havia nada que eu pudesse fazer e eu disse isso olhando para o céu. Como se ela pudesse me escutar, eu precisava acabar com isso, tinha a sensação de que a história ainda não tinha terminado, de que só conseguiria ter paz quando viesse Ivan morto,quando o matasse com minhas próprias mãos.
Deitei a cabeça no encosto do banco e permaneci assim até escurecer, canalizando minha raiva. Quando as primeiras estrelas começaram a brilhar forte no céu eu respirei fundo e girei a chave na ignição, não tinha mais como adiar o sofrimento de voltar para o vazio daquela casa. Das poucas coisas que eu ainda gostava de fazer, dirigir era uma das que estavam entre elas, por ser domingo o trânsito estava limpo, me permitindo aumentar um pouco a velocidade, não mais do que o limite estabelecido me permitia.
Como o restante dos motoristas, eu parei no sinal quando a luz mudou para amarelo, não demorou para que o sinal fechasse e um amontoado de pessoas cruzassem a avenida. Faltava pouco para o sinal mudar para verde quando uma mão feminina acenou para os carros pedindo calma. Uma mulher atravessou com a filha e o marido, ambos vestiam roupas casuais de passeio e carregavam cestas de piquenique. A garotinha de aproximadamente 6 anos, de cabelos escuros e bochechas gordas atravessou correndo, se não fosse a mão do pai a segurá-la seria a primeira a chegar do outro lado.
Meu peito ardeu, o bolo que eu já conhecia bem se formou em minha garganta em questão de segundos. Meu coração pareceu bombear fogo nas minhas veias. Eu precisava encontrá-lo, encontrar alguém que ele amasse, qualquer um. A menos que fosse uma criança eu não hesitaria, faria exatamente o que jurei fazer.
Acompanhei o grupo com os olhos mesmo depois de estarem já do outro lado, de repente desejando que eles não sumissem do meu campo de visão. Há poucos anos atrás aquele era eu, era como se me viesse com minha mulher e minha filha atravessando a rua, rindo normalmente, vivendo normalmente, sendo feliz... Essa versão de mim morreu junto com elas. Não tive tempo de lamentar, o som de diversas buzinas soaram atrás de mim, eu acelerei, deixando meus desvaneios para trás e indo embora finalmente.
Morar no bairro Lagoa, Rio de Janeiro, tinha vantagens e desvantagens. Eu tinha uma vista privilegiada da Lagoa Rodrigo de Freitas em vários cômodos e uma parede de vidro temperado na sala de estar. A casa era grande e confortável e o bairro em si era tranquilo, a desvantagem era que eu vivia sozinho.
Quase sozinho.
Holly veio me cumprimentar quando abri a porta, a cadela da raça akita inu era o único ser vivo que me fazia companhia, alisei seu pêlo castanho-avermelhado e segui para a cozinha a fim de deixar as sacolas de compras na bancada. Eu só as guardaria no dia seguinte, um sorriso doloroso ameaçou se formar em meu rosto, pensando no quanto certos incômodos passam a se tornar desejados quando não se tem mais nada.
Tive uma péssima surpresa ao ir em direção a minha poltrona na sala. Havia uma almofada despedaçada em cima dela, espumas e pedaços de tecido jogados em todo lugar.
Encarei Holly, que me fitou de volta sem culpa ou vergonha, como se dissesse que a culpa por tê-la deixado sozinha era completamente minha. Pensei que conseguiria me sentar quando terminei de limpar aquela bagunça, mas ao voltar para a poltrona já limpa ela estava lá, sentada no meu lugar.
- Qual é o seu problema, Holly? – Sua calda se balançou de um lado para o outro. Holly era um nome horrível, mas havia sido meu anjinho que tinha escolhido então eu mantive assim.
Ela adorava essa cadela, e esse foi o único motivo de eu não ter doado ela para alguma família. Ter Holly aqui era um lembrete de que um dia ela esteve aqui, alisando esses pêlos enquanto sua gargalhada angelical e infantil enchia a casa. Peguei um porta retrato e me arrastei para o quarto, me deitei na cama de barriga para cima, encarando o teto, eu fechei os olhos enquanto abraçava o porta retrato, deixando-o na altura do peito.
Não consegui dormir, apenas focar em tudo que estava planejado. Arthur e eu repassamos o passo a passo milhões d vezes. Mas eu não queria que nada desse errado, com sorte eu teria o corpo de Ivan para dar um fim merecido ou quem sabe o de alguém que ele amasse para fazer com que ele entendesse um pouco do que vivi. Ergui o retrato, encarando o rostinho angelical que exibia um sorriso aberto na minha direção, eu alisei a fotografia como se pudesse sentir a textura de sua pele.
Júlia tinha os meus olhos, expressivos e curiosos olhos azuis da cor do céu. Seu cabelo descia em fios castanho dourado pelos ombros. Ela era esperta e curiosa, cheia de vida e de energia. Queria saber o porquê de tudo.
Antes que eu pudesse perceber minhas lágrimas estavam molhando o colchão nas laterais da minha cabeça. Queria me desculpar, dizer a ela que sinto muito não ter conseguido salvá-la.
Eu me levantei sentindo falta de ar ao lembrar dos pesadelos que eu tinha, neles ela me chamava e pedia socorro. E o pior de tudo era acordar e saber que tinha sido real. Que ela tinha realmente gritado por mim e que não fiz nada para impedir que ela não sofresse, pensar em Lisa tentando protegê-la enquanto também era torturada me causava enjôos. Precisei correr para vomitar, estava acostumado, não durou muito. Eu lavei o rosto e escovei os dentes sentindo nojo de mim mesmo.
Meu celular estava vibrando no criado mudo quando retornei ao quarto, ignorei tanto quanto pude mas minha mãe era insistente e eu sabia que viria aqui se eu não atendesse.
Eu não disse nada quando atendi.
- Precisa de alguma coisa? – Empurrei as palavras ao atender.
- Não. Quero saber como você está. – Há quatro dias eu tinha almoçado com ela e meu pai no intervalo do trabalho, a pedido deles. Eu sabia que era uma forma de me fiscalizar.
- Bem.
- Que bom, filho. – Ouvi minha mãe suspirar, eu tinha me afastado deles depois do que aconteceu. Me afastei de todo mundo, de tudo. No tempo em que não estivesse depressivo estava pensando em formas de me vingar, fazer justiça. - Fez algo de bom no fim de semana? Sua irmã disse que te enviou convite de uma festa que vai terminar na madrugada de hoje.
- Eu não vi. – Abaixei a cabeça.
- Bom, ainda deve dar tempo.
- Tenho trabalho amanhã. – Tentei escapar.
- Você virava as noites quando era mais novo. Mas está certo, seu trabalho é importante, não deve ir de ressaca ou com sono. – Eu suspirei, sentindo que havia muito mais do que a distância nos separando. Senti como se eu estivesse em uma realidade paralela. - Vem jantar aqui amanhã a noite.
- Nos vimos na última quarta feira. – Lembrei.
- Sim, mas amanhã já é segunda, são quase sete dias e foram vocês que me acostumaram a ter meus filhos por perto.
- Talvez. Não posso garantir ainda, mas confirmo amanhã.
- Tudo bem. Até mais, meu filho. Fica bem.
- Até mais, mãe. – Desliguei a chamada, não era como se eu fosse dormir então sentei na cama e esperei a hora, era quase duas da manhã quando vesti o casaco e a calça, todos os acessórios na cor preta, luvas, máscaras e tudo que eu iria usar foram colocados no banco do carona do carro que tinha sido alugado por uma pessoa fora de suspeita.
Eu estava esperando por aquele momento há três anos, hoje começaria a infringir um pouco do inferno que vivi ao responsável pelo meu sofrimento.
Sozinho, eu dirigi rumo ao endereço marcado, na Barra da Tijuca. Precisei passar por ruas estreitas em um certo ponto, já que o local não era em uma rua principal. Havia vegetação em ambos os lados da pista então aumentei o farol.
Um vulto na frente do parabrisa foi a última coisa que vi com clareza, afundei o pé no freio mas não havia sido rápido o bastante. Um baque surdo soou no para-choque do carro e alguma coisa caiu no chão, eu paralisei, havia atropelado um animal. Abri a porta para verificar o estrago.
Minhas pernas travaram ao ver um corpo no chão, um corpo de uma mulher desacordada. Minha reação foi abaixar imediatamente para verificar sua respiração. Lenta, mas ainda estava ali, ela usava um vestido fino, haviam rasgos na sua roupa e marcas de arranhões por baixo deles, em sua pele.
Eu voltei ao interior do carro para chamar socorro, sabia que não era ideal tocar na vítima. Com o celular em mãos voltei a me abaixar ao lado da mulher, procurando com os olhos algum vestígio de sangue ou ferida aberta.
Ela estava de lado, com os cabelos longos e escuros cobrindo o rosto.
Antes que alguém atendesse a chamada que fiz para a SAMU a mulher acordou em um rompante, se assustando ao me ver. Ela ergueu o tronco, se sentando no asfalto e ameaçando se levantar para fugir.
- Onde pensa que vai? – A segurei pelo braço com firmeza. - Está maluca? Sofreu um acidente, não devia nem ter se levantado, vai ter que esperar socorro.
Ela negou, seus olhos grandes tinham um tom de verde que eu só tinha visto em águas paradisíacas dos lugares mais lindos do mundo. Eles me fitaram arregalados, a mulher forçou para puxar o braço, coisa que não permiti.
- Eu tenho que ir. – Pediu, desesperada. Agarrando minha camisa, a mulher apertou o tecido entre os dedos com uma força descomunal. Talvez sua reação exagerada tivesse a ver com o baque. Franzi o cenho.
- Para onde tem que ir? – Ela abriu a boca, mas antes que algum som saísse a mulher perdeu os sentidos, desmaiando e caindo nos meus braços.
(Daniel Velasques)
Maldito acidente bizarro.
Não conseguia manter minhas pernas paradas no lugar, empurrei um copo de café sem açúcar garganta abaixo. Eu estava no banco de espera do pronto socorro mais próximo.
Aquela mulher pareceu mandada para frustrar meu plano de vingança.
Quase pude ouvir a voz doce de Elizabeth me repreendendo pelo que eu estava prestes a fazer horas atrás, antes de acertar a mulher com o carro. As vezes ela aparecia em meus sonhos tentando me fazer desistir de buscar a única coisa que pode aplacar ao menos um pouco o meu sofrimento... Vingança.
- O senhor está com a jovem acidentada? – O olhar desdenhoso da enfermeira velha e cansada me encontrou enquanto ela mascava um chiclete.
- Sim. – Respondi. - Como ela está?
- Estável, mas ainda apresenta alguns lapsos de memória por conta do choque. Normalmente o quadro melhora em questão de dias. O senhor já pode vê-la.
Vê-la? Meu plano era sair daqui o mais rápido possível. Minha missão de hoje estava perdida mas eu ainda poderia encontrar os caras para planejar os próximos passos. Maldito acidente sem sentido que atrapalhou tudo.
- Me acompanhe, por favor. – Sem muito mais opções segui a mulher de pijama azul pelo pronto socorro. A mulher que eu tinha atropelado estava deitada na cama mas seus olhos estavam bem abertos. Haviam pequenos curativos em seu rosto, um de seus ombros e uma das pernas.
A iluminação do hospital me permitiu ver o que não consegui na hora do acidente. Aquela mulher era bonita. Muito bonita. Seus olhos grandes e esverdeados pareciam maiores do que deveriam ser e estampavam medo, perguntei-me se já haviam chamado a polícia e se ela já tinha dito algo a alguém sobre o atropelamento.
- Irá passar a noite em observação e pela manhã será liberada. – A velha resmungou antes de sair.
Respirei fundo, eu podia esquecer a possibilidade de ir encontrar os caras essa noite.
Essa garota tinha atrapalhado completamente os meus planos e eu me negava a acreditar que Lisa continuava influenciando minha vida mesmo não estando mais aqui, mas por vezes era exatamente isso que eu sentia.
Me joguei na cadeira de espera enquanto a mulher observava minha movimentação.
- O que fazia no meio da vegetação no meio da madrugada? – Usei o mesmo tom que eu usava em interrogatórios.
A mulher virou-se para mim, seus cabelos se desprenderam da presilha frágil e caíram como um véu negro em ondas sobre os ombros até a sua cintura. Se ela achava que ao fazer cara de pobre coitada iria conseguir me ludibriar estava muito enganada. Inclinei o corpo para frente, querendo intimidá-la.
- Do que estava fugindo?
- Eu não estava fugindo. – Pronunciou em um fio de voz.
- Então você fala. – Mostrei-lhe um sorriso irônico. - Não tente mentir para mim, sei exatamente quando estão ou não me falando a verdade.
- Eu não me lembro... – A mulher negou. - Não lembro bem o que aconteceu.
Estreitei os olhos, ciente de que essa era uma estratégia dela para se esquivar. Ela precisaria de mais do que uma beleza incomum e uma voz doce para me fazer de bobo.
- Qual é o seu nome? – Ela hesitou ao ouvir a minha pergunta.
- Iara. – Um sorriso irônico me escapou.
- Se considera uma sereia? É assim que atrai os homens? – Mesmo receosa pude ver uma pequena chama se acescender entre o verde de seus olhos.
- Eu não tive culpa! Não queria entrar na frente do seu carro e estragar a sua noite. Mas você não tem que me ofender ou ser um babaca só para mostrar que está bravo. – Ela foi firme ao se impor, o que me fez começar a gostar da conversa, talvez devesse tentar outra tática, mais leve e despretensiosa.
- Tudo bem. Está desculpada. – Seu olhar para mim não mudou. - Por que então não começa me dizendo seu nome verdadeiro e para de tentar mentir para mim.
Seus olhos e a maneira que me encaravam eram quase hipnotizantes. Talvez Iara fizesse sentido.
- Raquel. Me chamo Raquel. – Ela usou um tom suave.
- Raquel de que? – Eu quis saber.
- Viana. Raquel Viana. – Vasculhei sua expressão facial e corporal a procura de indícios de mentira. Aparentemente ela falava a verdade dessa vez.
- Muito bem, Raquel.
Um enfermeiro adentrou o quarto, me interrompendo.
- Está na hora do analgésico, rainha do asfalto. – Anunciou ele. Inclinei uma sobrancelha para o apelido inusitado.
Esperei pacientemente até o medicamento ser aplicado no acesso em sua veia. Uma mulher fazendo anotações adentrou o quarto fazendo perguntas e anotando as respostas, quando ela perguntou a Raquel o que tinha acontecido ela se enrolou para responder então o fiz por ela.
- Foi um acidente, eu estava indo em direção a Barra da Tijuca e em uma área com vegetação de ambos os lados essa mulher saiu do acostamento e se jogou em direção ao meu carro. – Raquel me encarou, me recriminando por dizer a verdade.
- Se lembra do seu nome, querida? – Quando a mulher se sentou na cama eu soube que era uma psicóloga. - Sabe que dia é hoje?
Raquel engoliu seco, o cara que tinha aplicado o analgésico se foi e eu fiquei observando seu desespero. Aquela mulher tinha algo a esconder, algo que eu estava curioso para saber.
- Segunda. Segunda feira, cinco de setembro de 2016.
- Ótimo. – A doutora escreveu algo.
- Me chamo Raquel. – Ela completou.
- Se lembra o que aconteceu antes do acidente?
Raquel me encarou antes de negar.
- Não me lembro.
- Tudo bem, querida. Vamos nos ver de novo ao amanhecer, tudo bem?
Ao receber o aceno positivo de Raquel a psicóloga se levantou, virando-se para mim.
- Você não pode passar a noite aqui com ela.
Estalei a língua, a verdade era que eu não queria ir embora sem arrancar a verdade dessa mulher.
- Estou aqui pelo mesmo motivo que você, doutora. Fazer perguntas. – Tirei o distintivo e o mostrei para ela. Eu não gostava de bater carteira mas o fazia sem hesitar quando era necessário.
- Agente civil? – Perguntou a doutora.
- Delegado. – Os olhos de Raquel quase saltaram das órbitas ao ouvir a palavra, eu estava cada vez mais curioso para saber o que ela andou fazendo antes de se meter na frente do meu carro.
- Então, senhor delegado. Aconselho que faça perguntas em outro momento, a paciente claramente não se lembra de todos os fatos e não se encontra em condições de responder suas perguntas agora.
Parece que a doutora não gostou muito de ver o meu distintivo, uma grande desfeita porque ele era muito bonito. Me levantei ao sentir seu tom de voz irritado, se eu soubesse que mostrar o distintivo iria me fazer ser expulso daqui teria mostrado no momento em que cheguei.
- Como quiser, doutora. – Me virei para Raquel antes de sair, eu daria um jeito de vê-la novamente. - Espero que recupere sua memória logo. Vou deixar meu número anotado, quando receber alta ao amanhecer me avise, vou comprar os remédios, curativos e o que mais você precisar para ficar melhor. Estamos entendidos?
Raquel assentiu depois de piscar duas vezes, os ombros encolhidos como se tivesse acabado de descobrir algo terrível ao meu respeito. Depois de voltar ao meu carro e me certificar de que não havia nenhum estrago na lataria do veículo me acomodei no lugar do motorista. Por que Raquel se sentiria acuada ao saber que sou um delegado se não houvesse nada ilegal a envolvendo? Ela havia atrasado minha vingança e agora que eu sentia que tinha algo maior envolvido me sentia instigado a investigar, ir a fundo até saber exatamente o que aconteceu antes do acidente naquela madrugada
Daniel Velasques)
Depois de sair do hospital fui direto para a delegacia, mesmo depois do acidente eu trabalharia sem problemas durante o resto daquele dia, mas como previa fui impedido depois de saberem que estive envolvido em um acidente, mesmo que eu tenha explicado que tudo acabou bem fui mandado para casa.
Dirigi até em casa sentindo uma nuvem de mau humor pairar sobre minha cabeça, não havia nada pior do que estar em casa em pleno dia de semana. Não para mim. Aquele espaço tinha se tornado meu inferno pessoal ao mesmo tempo que também era o meu santuário. Pensei em parar em qualquer lugar na rua para passar o tempo ou até em ir na casa dos meus pais, mas não queria socializar então me conformei em ir para casa.
Não fiquei surpreso ao abrir a porta da frente e encontrar mais uma almofada destruída no centro da sala, Holly havia passado de todos os limites e eu não estava com energia para impor algum castigo a ela.
Depois de tomar um longo banho o peso dos últimos acontecimentos apareceram se materializar no meu corpo, talvez agora eu conseguisse dormir direito por pelo menos algumas horas. Sem tomar um único remédio segui para o quarto e joguei o corpo na minha cama. Não demorou muito tempo para que o sono me dominasse e aos poucos roubasse de vez a minha consciência.
°°°
Aquela voz me era familiar, a reconheceria em qualquer lugar do mundo. A voz infantil e angelical logo ganhou forma, Júlia estava de novo em minha frente, seus cabelos dourados estavam bagunçados, a pele de seu rosto levemente avermelhada como ficava quando ela tinha raiva ou quando chorava muito.
- Papai! – Suas mãos pequenas e rechonchudas estavam novamente estendidas em minha direção. Em seu pequeno rosto eu via a expressão de dor e agonia enquanto ela gritava e me implorava por socorro.
Eu não conseguia me mover um centímetro sequer, paralisado e totalmente impotente a assisti tentar se desprender das ferragens. Aos poucos o conjunto de blusa e calça rosa ganhava um tom avermelhado, seu choro não enfraquecia, ele ficava mais alto e forte a cada tentativa dela de se ver livre dos destroços. Tentei gritar por ajuda, coloquei toda força que existia em meu ser para fazer um único movimento, qualquer coisa que pudesse salvá-la mas nada aconteceu.
Era um completo desespero, seus gritos traziam dores físicas em meu corpo e feridas irreversíveis na minha alma. Eu já tinha vivido aquilo antes, sabia que era apenas um sonho mas estava prestes a perdê-la mais uma vez.
°°°
Som agudo do toque do meu aparelho celular foi o portal que me arrancou do inferno e me trouxe de volta para o mundo real. Me levantei ainda ofegante, eu tinha dormido. Não me importei em não atender a chamada, tentei respirar e dizer a mim mesmo que tinha sido apenas um sonho, mais um deles na verdade. Me levantei e fui em busca de uma garrafa de água em cima do criado-mudo, uma tentativa inconsciente e falha de acalmar os meus sentidos.
O som insuportável daquele toque estava me deixando irritado. Peguei o aparelho, pronto para rejeitar a chamada, mas ao ver o número desconhecido a curiosidade despertou em mim. No canto da tela o relógio marcava dez e quarenta e quatro da manhã.
- Alô. – Atendi e não recebi resposta. Estava prestes a encerrar a chamada quando ouvi uma voz familiar do outro lado da linha.
- Eu... eu preciso falar com Daniel Velasques.
- Sou eu. Pois não?
- Você deixou o seu número, disse que eu deveria ligar quando recebesse alta.
- Ah. – Respirei aliviado, não que ir até o hospital fosse animador, mas me senti grato por ter sido arrancado do meu pesadelo recorrente. - Não vá embora antes de eu chegue aí.
- Ok.
Vinte minutos depois eu estava novamente com o pé na estrada, Raquel já estava esperando do lado de fora da unidade de atendimento quando cheguei. Ao contrário do que ela usava no momento do acidente essas roupas eram completamente desproporcionais ao seu tamanho, largas demais e antiquadas. Apesar de nenhuma roupa conseguir fazê-la parecer mal graças a sua beleza extravagante, ela ainda parecia desconfortável com as peças.
Pelo jeito era o que tinham conseguido arrumar no pronto socorro.
- Entra no carro. – Eu disse ao sair e dar uma boa olhada no estado dela.
- Onde vai me levar? – Perguntou receosa.
Eu nunca tinha visto olhos tão expressivos, era como todas as suas emoções estivessem expostas em uma vitrine, eu podia ver todas elas através do verde água que coloria suas íris enormes. Desconfiança, medo e insegurança eram o que ela sentia no momento.
- Na farmácia mais próxima. Tem uma receita, não tem?
Raquel estendeu o papel em sua mão esquerda, eu voltei a entrar no carro, já tinha virado a chave na ignição quando ela finalmente entrou no lado do carona. Ao parar em uma loja de uma grande rede de farmácias peguei uma cesta, Raquel me seguia em silêncio, ainda parecia retraída quando parei em um corredor para ler a receita.
Ela ia precisar de curativos, além de relaxantes musculares e alguns analgésicos para o caso de dor. Além do que foi passado pelo médico peguei alguns medicamentos em spray para possíveis contusões, algodão, pomada cicatrizante e frascos de loções para limpar possíveis feridas.
Enquanto passávamos no caixa notei o quanto Raquel olhava para as portas de saída do local, havia preocupação em seus olhos e uma certa tensão sobre seus ombros. Depois de pagar nos dirigimos para a saída, Raquel olhou para os lados se certificando de alguma coisa que ainda não tinha me deixado saber e abaixou levemente a cabeça, fazendo com que os cabelos ondulados cobrissem a parte lateral do seu rosto.
- Aqui. – Estendi a sacola em sua direção, Raquel hesitou como vinha fazendo em tudo que tivesse relação comigo, mas havia gratidão em seus olhos quando as mãos delicadas pegaram a sacola.
- Obrigada, isso vai me ajudar muito. – Comentou constrangida, as bochechas ganhando um leve tom rosado.
Ela sentia vergonha de aceitar alguns medicamentos?
Me arrependi de ter insinuado que ela usava sua beleza para atrair os homens, eu devia ter me desculpado por ofendê-la quando lhe fiz as perguntas mais cedo. Mas tudo que disse foi:
- Está com fome?
Raquel negou.
- Eu comi no hospital.
- Certo. – Assenti. - Entra no carro, posso te dar uma carona. Para onde vai?
Recebi o silêncio como resposta, Raquel desviou o olhar, abaixando a cabeça e negando.
- Eu não tenho para onde ir. Eu... eu preciso resolver algumas coisas.
Franzi o espaço entre as sobrancelhas. Não tem? Como assim não tem para onde ir? Raquel parecia desnorteada, questionei-me se tinha sido certo dar alta para ela naquele estado.
- Não está em condições de resolver nada. Você não tem família? Nenhum parente com quem possa ficar?
Raquel balançou a cabeça, negando. Sua pele branca parecia mais pálida que o normal. Talvez ela tivesse parentes e não se lembrasse deles.
- Não, mas eu vou dar um jeito.
Dar um jeito significava se envolver em situações perigosas e arriscadas que talvez a levassem para mais situações bizarras como atravessar uma avenida correndo sem olhar para os lados no meio da madrugada.
- Desculpa pelo transtorno, eu... – Raquel tinha medo, eu podia ver em seus olhos e na forma como ela portava o próprio corpo. Mantendo uma distância segura de mim e os ombros encolhidos enquanto falava. - Não quis atrapalhar sua noite quando tudo aconteceu.
- Foi um acidente. – Concluí, começando a me sentir responsável pelo caso de deixar essa garota sozinha por aí largada a própria sorte e ao estado mental duvidoso.
A irritação cresceu dentro mim, correndo pelas minhas veias, a última coisa que eu precisava era me sentir responsável por alguém agora. Aquela maldita casa em que eu vivia era grande demais para permitir que eu fosse embora com a consciência tranquila.
Essa garota não iria conseguir ficar vagando por aí com uma contusão no tornozelo que a fazia mancar. Respirei profundamente antes de fazer uma loucura.
- Pode ficar em minha casa, se quiser. – Seus grandes olhos verdes piscaram surpresos. - O imóvel é grande, tem quarto de hóspedes, você poderia descansar e ter privacidade até melhorar e decidir o que fazer.
Raquel pareceu entrar em um conflito interno, e eu me amaldiçoei em pensamento, quanto mais tentava não parecer um lunático mais eu parecia exatamente isso.
- Eu não posso. – Respondeu ela. Minha curiosidade gritou alto, eu queria saber por que ela me olhava daquele jeito, por que parecia ter medo de mim.
Raquel estava dividida, eu só precisava de mais alguma insistência.
- Se você não tem para onde ir é sua melhor opção no momento. Entendo que não se deve aceitar estadia de um estranho, mas eu sou uma autoridade policial. Vai estar segura, a não ser que tenha cometido um crime.
Lancei a última frase de propósito apenas para observar sua reação.
Raquel soltou o ar pela boca, negando prontamente.
- Eu não fiz nada! – Seus ombros se encolheram ainda mais. Quanto tempo uma garota frágil como ela poderia ficar jogada a própria sorte sem que nada lhe acontecesse?
Raquel era de baixa estatura, sua pele clara com certeza não devia estar tão pálida mas ainda assim sua beleza era chamativa. Os olhos verdes grandes e arredondados eram emoldurados por uma espessa cortina de cílios, e contrastavam com o nariz pequeno e os lábios cheios.
Não duraria duas noites ao relento até que algum maníaco tentasse violentá-la.
- Quem não deve não teme. Preciso que decida se vai aceitar ou se vai preferir ficar na rua contando com a sorte.
As íris verdes fitaram o vazio, seus lábios rosados formaram uma linha reta enquanto ela considerava todas as possibilidades. Eu havia deixado de ser um homem paciente há muito tempo, estava prestes a virar as costas e partir quando ela se pronunciou.
- É só até eu ficar boa do tornozelo, eu vou procurar um trabalho e sair da sua casa o mais rápido possível. – Disse em tom baixo
- Que eu me lembre não estipulei nenhuma data de saída. – Virei as costas indo até o lado do motorista, o carro já estava ligado quando Raquel se acomodou no banco do carona.