Aileen tentava ouvir a conversa, mesmo sabendo que não era nada bonito esconder-se atrás das portas, nesse caso a porta em questão separava o escritório que um dia fora ocupado por seu pai, o Conde Dorian Ballard que havia falecido à poucas semanas, de uma saleta onde ele costumava ter reuniões particulares. A jovem, não bastasse sofrer a dor de perder o pai tão precocemente, presenciava o sofrimento da mãe não somente pelo luto, afinal Dorian fora o amor de sua vida, mas ela tinha outro problema urgente para resolver. O título.
Sendo a única filha do casal, o título teria que ir para algum parente próximo, e Lady Emilly Ballard parecia preocupada com o futuro de ambas, já que um primo de Dorian havia manifestado interesse em ser o próximo Conde de Bellmant. Isso é claro, as deixava à mercê das decisões dele, e como nunca tiveram nenhuma ligação próxima, muito provavelmente ele não se preocuparia com o destino de ambas. Ouvia os sussurros das criadas que a mais tempo trabalhavam para sua família, e o que se dizia a respeito do tal primo, é que era um homem desagradável, perto dos quarenta anos, sem modos refinados como se espera de um conde, de péssimo temperamento, e esbanjador. Aileen mal completara seus dezessete anos e esperava-se que ela tivesse sua primeira temporada, e se bailes e casamento não faziam seus olhos brilharem antes, ela tinha certeza que após a morte do pai provavelmente deveria considerar essa possibilidade.
– Temo que restem poucos dias, milady – ouviu a voz do advogado, o Sr. Michel Benson, um senhor que Aileen tinha a impressão de estar sempre olhando-a de maneira estranha, agindo com demasiada atenção – o Sr. Manor, pelo que sabemos está a caminho de Londres, e encerrando-se o prazo deverá receber o título.
– É impossível que em toda Londres não exista um só homem com padrões dignos para se casar com Aileen! – a garota percebeu o cansaço e preocupação da mãe enquanto a ouvia.
– Jovens aristocratas dentro de suas expectativas sabem da morte de Lorde Ballard milady, e sei que Lady Aileen recebeu alguns para conversar discretamente – o advogado fez uma pausa – nenhum deles a agradou? Porque não me ocorre um motivo pelo qual qualquer um não cairia de joelhos e pediria a mão de sua encantadora filha.
– A maioria fez Aileen considerar ir para um convento à se casar, mas Lorde Cavendish e ela parecem ter afinidade.
– Bem, então parece que temos um pretendente – disse o Sr. Benson tranquilamente.
– Eu achei que tínhamos. O rapaz simplesmente não à procurou mais – Lady Ballard disse impaciente, e sem entender o que estava acontecendo.
– Não à procurou? – perguntou ele analisando a situação – Nem uma mensagem? Da última vez que o vi, ele parecia muito feliz enquanto deixava sua residência.
– Nenhum sinal dele – ela suspirou, e em seguida sentou-se em uma poltrona, dedos cruzados sobre o colo – receio que todos os prazos estão se esgotando. Mesmo que Aileen tivesse um pretendente hoje, teríamos apenas alguns dias para o casamento.
– Uma semana para ser preciso, milady – lembrou Benson, servindo-se de um pouco de chá, e pensativo continuou – a senhora sabe, eu estive ao lado do Conde por boa parte de minha vida. Tenho por Lady Aileen um grande afeto.
Atrás da porta, Aileen sentiu as mãos geladas, não queria ouvir aquelas palavras, não daquele homem. Por um momento imaginou-se esposa de um homem que era mais velho do que seu pai, muito pálido, com uma calvície proeminente, e muito magro, do tipo que julgava que soprasse um vento mais forte poderia carregá-lo. Sem falar que tinha quase certeza que ele salivava quando olhava para ela. Definitivamente não se casaria com ele. A ideia do convento mais uma vez parecia interessante, diante de tal possibilidade.
– Já conversamos sobre isso, Sr. Benson – Lady Ballard falou com rispidez, ela mesma não gostava da ideia de ver a filha casada com um homem tão mais velho - não creio que seja uma boa ideia, e com todo respeito que tenho pelo senhor, minha filha não aceitará esse arranjo.
Benson tirou os óculos pequeno e fino por um instante, limpando-o com seu lenço enquanto ganhava tempo antes de responder à Condessa. Pensava em que possibilidades elas ainda tinham, afinal havia se encarregado de afastar cada um dos homens que considerou casar-se com a jovem lady. Sabia que não era o tipo de homem que uma senhorita na posição de Lady Aileen consideraria para um casamento, tinha plena consciência de sua falta de atributos como beleza, porte, charme e o encanto que as moças na idade dela procuravam em um cavalheiro. Mas também sabia, que quanto mais os dias se passassem, menores seriam as chances que um homem nos padrões de Lady Ballard propusesse casamento a Aileen. Pouco se importava com o título, o que queria realmente era casar-se com Aileen, a perspectiva de fazê-la sua esposa dava a ele um prazer secreto, de refestelar-se na beleza intocada da jovem lady.
– Estou certo que Lady Aileen sabe dos riscos que ela e milady correm se o primo de Lorde Ballard assumir o Condado – disse ele pensativo – creio que entre ser privada de seus recursos, e um casamento arranjado, ela não faria restrições ao meu pedido.
– Ainda temos alguns dias.... – apesar de aflita, Emilly falou com convicção.
– Claro, milady – ele assentiu, certo que na metade dessa mesma semana teria a benção da Condessa para se casar com Aileen – eu não tenho dúvidas que a pequena reunião em minha casa hoje pode ajudar Lady Aileen a encontrar um pretendente.
Emilly pensou em quanto seria impróprio comparecer àquele evento. Era uma viúva recente, e os boatos sobre a situação da casa Bellmant espalhavam-se a uma velocidade espantosa. Sua presença, levando consigo Aileen evidentemente só confirmaria o quanto estava desesperada para arrumar um casamento para a filha. Não era assim que havia planejado. Aileen deveria ir a sua primeira temporada, e encantar os melhores partidos de Londres, e não casar-se as pressas com sabe-se Deus quem. Estava começando a pensar que diante das circunstancias um casamento arranjado com Michel Benson não seria de todo ruim, mas estava certa de que a filha não o aceitaria.
Lady Aileen ouviu sua mãe confirmando a presença no jantar daquela noite na casa do Sr. Benson, e logo depois ele se despediu, deixando Emilly perdida em seus próprios pensamentos. Ela demorou-se ainda alguns minutos no escritório antes de ouvi-la sair e fechar a porta. Respirou fundo, não tinha ideia se sua mãe estava pensando em alguma outra solução, mas não poderia simplesmente ficar parada e deixar que coubesse a ela resolver sozinha essa situação. Casar-se com o Sr. Benson era uma ideia totalmente descartada por ela, aquele homem ela não aceitaria.
Abriu a porta devagar olhando ao seu redor, tudo estava no mesmo lugar onde seu pai havia deixado. A presença do homem que para elas sempre tinha um sorriso carinhoso e gestos cuidadosos, mas que perante a sociedade causava a impressão de autoridade, seriedade. Ainda não conseguia entender como em um dia ele estava ali dizendo o quanto gostaria de dificultar a vida de seus pretendentes durante a temporada, e sorrir quando ela o abraçava ternamente. Conteve o choro. Não havia tempo para chorar. Não deixaria que um homem qualquer se apoderasse do lugar que um dia pertencera ao seu amado pai. Tinham uma semana, e estava decidida que até o final daqueles sete dias tentaria encontrar uma maneira de contornar aquela situação. Estava disposta a aceitar um casamento arranjado, mas jamais com o Sr. Benson.
A criada ajudava Aileen a vestir-se para a recepção na casa do Sr. Benson, enquanto esta reclamava sobre sua busca infrutífera por Lorde Cavendish à tarde. A jovem dama havia ido, devidamente acompanhada ao luxuoso apartamento onde sabia que vivia o rapaz, que era sem dúvidas um dos melhores partidos disponíveis. Ao contrário da maioria dos jovens lordes que ela tivera a oportunidade de conhecer, Bryan Peterson Cavendish não tinha fama de libertino, era até mesmo um pouco tímido, e gostava de arte e literatura.
Era bonito, tinha os cabelos castanhos claros, e olhos esverdeados, mas o que mais chamava a atenção da menina, eram seus modos gentis e o jeito tranquilo. Então, considerava que ele poderia ser um bom marido, já que teria que se casar com alguém em tão pouco tempo. Para sua frustração, Lorde Cavendish estava ausente da cidade, e aparentemente ninguém sabia quando voltaria.
- Sempre desconfiei daquele Sr. Benson - falou a criada, apertando o espatilho enquanto Aileen assentia preocupada - ele deveria se envergonhar em querer se casar com a senhorita.
- Seja como for, receio que não tenho mais opções, Sally - ela suspirou, sentindo-se encurralada, tentando pensar em uma solução pois se arriscaria até a conhecer o tal primo distante do pai para evitar uma possível união com o advogado.
- Milady serve de filha daquele asqueroso! Juro que envenenaremos a bebida dele antes que ele encoste na senhorita! - Aileen esboçou um sorriso, enquanto escolhia o vestido que usaria. Sally havia cuidado dela desde muito criança, e era de total confiança da família Ballard, então entendia o porque estava tão revoltada com a ideia.
- O que há de errado comigo, Sally? - ela perguntou tocando o tecido delicado do vestido azul – escuro, pensando se o preto realmente não lhe cairia melhor nessa ocasião. A mãe compreendia que em uma ocasião onde houvesse possíveis pretendentes, o preto poderia afastá-los, então recomendou a filha que optasse pelo azul.
- Absolutamente nada, senhorita - Sally percebeu que Aileen pela primeira vez parecia desesperada.
Não estava convencida disso, achava que realmente havia algum mal entendido, ou em algum momento da curta convivência com Lorde Cavendish o havia decepcionado. Olhava seu reflexo no espelho pensando que enquanto o pai esteve vivo, ela jamais cogitou aquele tipo de arranjo, afinal Lorde Ballard se ainda estivesse vivo tornaria a vida de seus pretendentes satisfatoriamente difícil.
Agora que sabia das intenções do Sr. Benson, que foi claro e parecia até mesmo esperançoso a respeito de casar-se com ela, Aileen temia que não pudesse apenas contar com a sorte, precisava ser convincente, e usar o que ainda tinha ao seu favor, o nome da família e a importância que sempre representou, e talvez a característica que realmente pudesse envolver um bom pretendente, sua beleza. E não um vestido que mostraria sua tristeza e talvez o quanto estava assustada.
- Traga-me "aquele" vestido, Sally - ela disse e em seguida viu a criada arregalar os olhos.
- Milady quer dizer "aquele"? O que milady pretendia usar em seu primeiro baile da temporada? - Sally parecia surpresa, mas em nenhum momento escandalizada.
- Sim - Aileen respirou fundo, pensando que certamente viraria alvo de comentários, e possivelmente provocaria um escândalo, mas estava decidida - Talvez seja a única oportunidade de usá-lo.
Sally assentiu, e saiu para buscar o vestido no armário, deixando Aileen com seus próprios pensamentos. A jovem pensava que em poucos dias haveria a possibilidade de que outro homem assumisse o lugar de seu pai, e os prováveis candidatos estava disposta a rejeitar. Ao Sr. Benson, ela preferia nem mesmo levar em consideração a ideia absurda de que se casaram. E muito provavelmente o primo distante se livraria delas num piscar de olhos. Tanto num caso como no outro, ela poderia nunca mais ter a oportunidade de usar um vestido como aquele, e de qualquer forma, se realmente não tivesse outra saída que se casar com o Sr. Benson, poderia muito bem aproveitar aquela noite.
Era um lindo vestido. Branco, com um decote ombro a ombro que a fez sentir-se bonita desde a primeira prova. Feito de seda, com bordados delicados de rosas e pérolas, criado especialmente para que ela estivesse encantadora em seu primeiro baile. Sally arrumou seus cabelos negros em um penteado meio preso e os cachos suaves brincavam sedosos até a metade das costas. " Perdoe-me, papai, por vestir-me de branco", ela disse como quem diz uma prece, e sentiu os olhos lacrimejando. "Tenho que me acalmar ", ela pensava enquanto tentava conter as lágrimas quando viu sua mãe pelo espelho.
- Ah! Querida.... Está tão bonita! - Emilly sorria brevemente enquanto se aproximava da filha - seu pai ficaria absolutamente encantado se a visse com esse vestido.
- Estou desonrando o nome dele, vou trocar de roupa imediatamente - ela virou-se para Sally, mas a mãe segurou-a pelos ombros.
- Aileen, eu sei porque você escolheu esse vestido - ela Aileen em sua direção, para que olhasse em seus olhos - você sabe que um vestido escuro e discreto pode afastar algum pretendente.
- Vamos perder tudo, mãe - ela parecia estar com um peso enorme sobre os ombros - e não estou falando apenas de posição social e dinheiro. Estou me referindo ao que meu pai representou, o homem bom e justo que ele foi, e como o Conde de Bellmant era reverenciado, admirado.
Emilly concordava silenciosa com o que Aileen dizia. E não achava justo que a filha tivesse que se casar com Benson para que continuassem a viver ali, naquela enorme mansão como se tivesse esse direito, ou mesmo um homem que nunca honraria o título que um dia fora do marido. Por outro lado, teriam uma vida modesta se Aileen não se casasse. A jovem não teria as oportunidades que as outras jovens de sua posição tinham. Mudariam de casa, teriam que mudar de vida, e ela bem sabia que não seriam vistas da mesma forma pela grande maioria da sociedade.
Os pretendentes para a filha seriam menos qualificados, e conhecia alguns casos em que jovens como Aileen foram desposadas por homens de péssima reputação, muito mais velhos, privadas de conhecer alguém por quem realmente pudessem se apaixonar. Não era isso o que havia sonhado para a filha. Aileen era tão preciosa, doce e amável, uma verdadeira joia, e lamentava que o destino tivesse pregado a elas aquela peça.
- Você não precisa trocar de roupa, filha, só precisa saber que não quero que se case na condição em que nos encontramos - ela fez uma pausa enquanto passava os dedos pelos cabelos de Aileen - Nós ficaremos bem.
Estavam caladas durante o trajeto, mãe e filha durante o caminho para a casa de Sr. Benson, cada uma com seus próprios pensamentos e quanto mais se aproximavam, mais enjoada Aileen ficava. Pensava que certamente seria uma noite inesquecível, da pior maneira possível, mas desceu da carruagem pronta para aceitar seu destino. O que quer que acontecesse daquele momento em diante, ela estava disposta a aceitar.
Muitos se perguntavam como Michel Benson tornou-se tão influente. O advogado vivia um uma luxuosa residência, e entre as pessoas de seu círculo de amizade estavam grandes empresários e aristocratas. Ele era sempre presença certa em eventos da temporada, e naquele final de tarde Anthony Silverstone incumbia ao filho mais velho, Damien, a "honra" de representar a família no banquete oferecido por Benson.
Damien suspirou, não era exatamente um admirador do advogado, e a recepção tinha como motivo aparente seus vinte e tantos anos de profissão, então para ele, não passava de mais uma oportunidade de ter algum tipo de adulação.
Se muitos questionavam o motivo do Sr. Benson ser tão celebrado, ele bem sabia que nem de longe ele era o homem bom e honrado, como parecia ter necessidade de demonstrar a todo instante. Para ele, Damien, ele só era considerado ilustre porque cuidava de assuntos constrangedores de muitos dos homens ditos importantes da sociedade londrina. Provavelmente, os mesmos que imploravam por mais tempo para pagar as dívidas no banco da sua família.
Damien Silverstone, o primogênito de uma família sem laços com a nobreza, cujo a riqueza começou a ser conquistada no convés de um navio pirata, tomou um gole generoso do uísque enquanto pensava em alguma maneira de dizer não ao pai.
– Não é nada de mais – disse o pai - tome alguns drinques, deixe Benson achar que tem alguma importância para os Silverstone. Pode levar Lilly, se quiser.
– Não vou expor Lilly a isso - respondeu prontamente.
– Eu aposto como ela gostaria de ir – o pai riu, divertido – sabe o quanto sua irmã se diverte com as conversas nessas ocasiões.
– Sei bem o quanto ela costuma zombar dessas ocasiões, mamãe deveria pensar duas vezes antes de decidir se uma temporada agora seria o melhor para ela – Damien apreciava o humor e a inteligência da irmã mais jovem, que não importava-se com algumas das convenções, estando presente em eventos com os pais e os irmãos sempre que queria.
– Se fosse possível, sua mãe arrumaria uma temporada para você e Elijah.
– Não dê essa ideia a ela, por favor....
– Não pode esperar que esse seu caso com a Srta. Blake dure para o resto da vida, D – Anthony levantou-se, indo à procura de um charuto – se ao menos gostasse dela, mas como todos sabemos dos seus hábitos....
– Meus hábitos não incomodam ninguém – ele deu os ombros.
– Aposto que cada uma das senhoritas desavisadas que você ilude discordam, filho – ele fez uma pausa enquanto acendia o charuto, e depois de uma tragada continuou – já considerou assumir um compromisso com Gabrielle Blake?
– Não vou me casar com ela – a resposta veio como o corte afiado de uma lâmina – aliás, casar não é algo que eu pretenda fazer tão cedo.
Ele viu Lilly entrando no escritório do pai, e ela sorriu ao vê-lo: - Ora, veja só quem resolveu nos honrar com sua presença! - Damien levantou-se para receber um abraço carinhoso da irmã mais nova.
– Ouvi dizer que você precisa de uma acompanhante para ir ao banquete na casa do Sr. Benson – ela riu do discreto revirar de olhos de Damien – posso fazer esse sacrifício – Lilly acomodou-se em uma cadeira ao lado do irmão – a menos que queira levar alguma de suas queridas amigas, quem sabe a Srta. Blake.
– Já tive essa conversa com ele, querida – disse Anthony, parecendo não se importar com o ligeiro mal - humor de Damien – e ele não quer levá-la.
– Oh! – Lilly colocou a mão sobre o colo, e Damien fez que não viu sua expressão ultrajada bem conhecida por todos na família, e que obviamente ninguém levava a sério – bem, você é quem sabe D., mas vou avisando que não quero ouvir reclamações sobre senhoritas desesperadas por um marido cercando-o como se fosse uma caça.
– Que péssima comparação! - Damien resmungou.
– Você sabe muito bem que eu as assusto.... Bem, eu faço isso de propósito....
– Ninguém percebeu.... - ele olhou para a irmã, pensando que sua presença realmente poderia espantar as senhoritas, pelo menos parte delas, já que Lilly era o tipo de língua afiada, e que as fazia pensar. Tinha a desconfiança que muitas daquelas moças não gostavam de questionamentos ou das ideias da irmã, que já havia pedido para trabalhar em alguns dos negócios da família.
– Então você só tem a ganhar com minha presença! - ela regojizou.
– Ok, Lilly, vou levá-la comigo – ele sabia que ela provavelmente só queria ir porque sabia que algumas de suas poucas amigas também estariam lá – assim tenho a desculpa perfeita para não me demorar muito.
A noite estava agradável, e Damien pedia a Lilly que se comportasse, mas que se notasse alguma aproximação exagerada do Sr. Benson não hesitasse em desacatá-lo. Ela riu dizendo que Elijah havia lhe ensinado alguns golpes de boxe. Achou que o irmão estava brincando quando havia lhe contado que estava ensinando defesa pessoal à Lilly, mas com o tempo, percebeu que poderia ser muito útil que ela soubesse se defender caso não estivessem por perto. Lilly era muito graciosa, e bonita, havia herdado os cabelos castanhos claros da mãe, e também o sorriso encantador. Ainda assim havia muito dos Silverstone nela. Principalmente o temperamento.
A residência de Michel Benson, estava iluminada e enquanto ajudava Lilly a descer da carruagem, pensava que talvez fosse um dos últimos a chegar, aquele compromisso não estava em seus planos. Só queria ir para algum clube, jogar pôquer, e depois de limpar alguns bolsos alheios, arrumar alguma boa companhia feminina, quem sabe mais de uma. A verdade é que eventos como aqueles, na casa de Benson, o entediavam. Ele sabia no fundo, que apesar de ter muito mais recursos que a maioria dos aristocratas que estariam lá, não era um deles. Isso não o afetava, mas, atrás da sua mesa, fosse na companhia ou no banco, ele conseguia ver o quanto muitas daquelas pessoas que gostavam de parecer superiores, apenas viviam de aparências.
Quando entraram na casa, ele teve certeza que a palavra recepção havia sido mal empregada diante da quantidade de pessoas que ali estavam. Conhecia a maioria, que apenas tolerava, entre eles o próprio anfitrião. Trocou um olhar com a irmã, que deveria pensar a mesmo que ele, que era apenas uma convenção social, e que eram Silverstone, e nada abala um Silverstone.
Benson logo os avistou, e abriu um sorriso acenando com a cabeça, o que fez Damien pensar que era melhor trocar alguma cordialidade logo, e depois, como o desprezo era recíproco, não precisariam mais ficar um na presença do outro.
– Sr. Silverstone – Benson se aproximou, com aquele sorriso ensaiado de sempre nos lábios, e olhou para Lilly logo em seguida, demorando-se mais do que necessário ao admirar a jovem – como tem passado? Soube que o senhor esteve navegando pela costa.
– Estou muito bem, Sr. Benson, obrigada – disse Damien, apertando mãos de alguns conhecidos que foram se aproximando – estava apenas fazendo alguns testes com o navio.
– Não pretende nos saquear, assim espero – Benson comentou provocando Damien, que riu discretamente.
– Seria ambicioso de minha parte, o "Divine Lauren" é apenas para transporte – ele disse aceitando a bebida que lhe foi oferecida – mas recuperei o "Cicloner", então, não posso prometer nada.
– O navio pirata que pertenceu ao seu bisavô.... – disse Benson pensativo – por certo não deveria pertencer agora ao tesouro? Ou permanecer como parte histórica em alguma doca?
– Nada que um pouco de conversa, advogados, favores e uma soma considerável de dinheiro não resolvesse – Damien respondeu despreocupado, ele bem sabia que Benson em pessoa estava cuidando para que o navio não voltasse para a família Silverstone – o senhor sabe como funciona.
– Ah, claro – ele dissimulou e o sorriso ensaiado voltou a aparecer nos lábios finos e pálidos, enquanto Lilly pedia licença dizendo que havia visto uma das amigas.
Damien olhou para onde sua irmã estava indo, um grupo de garotas em seus lindos vestidos, juntas lhe pareciam encantadoras, seus sorrisos inocentes e a vivacidade ainda juvenil de quem estaria na temporada que começaria em breve. E ele não foi o único a olhar, mas muito provavelmente o que aconteceu a seguir fez seu coração errar uma batida, não estava preparado, nem sequer havia pensado que a veria novamente. E pensava que não achava possível que ela estivesse ainda mais bonita do que da última vez que a vira. Os cabelos cacheados negros como a noite mais fria de inverno e seus olhos felinos acinzentados. Lady Aileen Ballard, em seu vestido branco era para ele a visão mais perfeita do que uma garota poderia ser. Levou a taça já quase vazia aos lábios, tentando desviar seu olhar dela, mas era quase impossível.
Ao seu redor falavam de negócios, perguntavam sobre a economia do país, bancos, terras, e ele sentiu-se como se estivesse preso no sorriso doce de Aileen, amaldiçoando-se por portar-se como um incauto colegial, e esperando não emudecer quando tivesse que falar com ela, afinal, não eram íntimos, mas Lilly e Aileen pareciam estar cada vez fortalecendo mais seu vínculo de amizade.
– Silverstone - ele ouviu alguém, e logo viu Eugene Barton, um velho amigo da família, parado ao seu lado – interessado no título?
Tentou atinar à que título Barton se referia, achando a visão cobiçada pelas mulheres um tanto desagradável em comparação à de Lady Aileen, mas Eugene sorriu de canto e continuou:
– Lady Aileen tem feito admiradores aparecer à porta da casa Bellmant, dispostos à casarem-se com ela, afinal o título do falecido conde deve passar adiante – ele piscou – já sou comprometido, no entanto se não fosse, já teria tentado.
– Sou plebeu, meu amigo - disse Damien, evitando olhar na direção da jovem novamente – não teria a menor chance diante de tantas opções de sangue azul.
– Não seja pessimista, D - Eugene aceitou uma taça de champagne, assim como Damien – ela rejeitou todos, até mesmo Lorde Cavendish, que parece ter uma reputação impecável.
– A temporada dela será agitada.... - tentou ignorar o fato de que aquilo o incomodava.
– Eu não acho que ela terá uma... - Barton fez uma pausa – a um comentário, bem, não acho que isso seja verdade...
– Comentário? - ele surpreendeu-se, afinal além de ser filha de um homem cuja a reputação era imaculada, o Conde Dorian Ballard falecera recentemente, e ele pensou se isso poderia tê-la afetado a ponto de gerar comentários. E não só isso, mas sobre o que seriam esses comentários.
– Ela tem poucos dias para se casar, para evitar que o título vá para um parente distante do falecido conde, pelo que se sabe, um homem desagradável e de péssima índole - Eugene olhou para o Sr. Benson, fazendo com que Damien também olhasse – há boatos que ela recusaria esses jovens lordes, porque vai se casar com nosso anfitrião.
Damien pensou não ter ouvido direito, não podia acreditar que aquilo fosse verdade e olhou novamente para Aileen, que agora olhava na sua direção, enquanto Eugene ainda falava sobre a recepção, que seria um pretexto para que as pessoas vissem Aileen e Benson mais próximos. Damien viu os lábios dela entreabrirem ligeiramente, e depois curvarem-se em um tímido esboço de um sorriso, capturando sua atenção novamente.
Nunca teve ilusões sobre ela, tinha certeza que assim que Aileen debutasse, teria muitos pretendentes, e conformado pensava que seria até mesmo divertido ver os pobres idiotas tentando impressioná-la. Como raramente frequentava esses bailes, possivelmente estaria se embriagando, de clube em clube até que chegasse aos seus ouvidos, que a garota dos lábios mais doces que ele nunca provaria, se casaria.
Provavelmente a veria entrar na igreja, e a encontraria em outras ocasiões, e certamente um dia ele mesmo acabaria se casando, e sua vida também seguiria em frente. Só não imaginava que fosse acontecer tão rápido, e em que mundo Aileen se casaria com um homem detestável como Michel Benson era o que se perguntava.
Aceitou mais uma taça de champagne e voltou a olhar para Aileen, ela ainda estava no grupo animado de moças, ela ainda mantinha uma expressão suave em seu rosto, então ela sorriu, e depois de lhe enviar um olhar que era quase um convite à sua doce presença, saiu do seu campo de visão, indo para o outro cômodo. Damien prendeu a respiração, evitando o suspiro quase doloroso diante da beleza arrebatadora daquela que permeava seus pensamentos mantidos em segredo até de si mesmo.