Gênero Ranking
Baixar App HOT
Início > Romance > Um Amor Para Curar o Viúvo
Um Amor Para Curar o Viúvo

Um Amor Para Curar o Viúvo

Autor:: Diene Médicci
Gênero: Romance
Dom, vive preso ao luto desde que perdeu a esposa. Nada pulsa nele além do vazio, até a noite em que quase atropela Marvila, grávida, exausta e sozinha. Ao segurá-la nos braços, ele não apenas a resgata do frio: é resgatado também. Marvila, abandonada e sem rumo, aceita o abrigo que Dom oferece em sua casa silenciosa. Ali, entre memórias congeladas e dores que ambos tentam esconder, nasce uma aproximação inesperada. Ele reconhece a coragem dela; ela sente a gentileza escondida por trás da tristeza dele. O que começa como necessidade se transforma em algo mais profundo: um encontro de dois corações feridos que, sem perceber, passam a devolver vida um ao outro. Porque às vezes o amor renasce exatamente onde o luto acreditava ser o fim.

Capítulo 1

Marvila foi abandonada pelo namorado quando ele foi preso. Sem família que a amparasse e com a gravidez já avançada, mudou-se para uma cidade nova em busca de emprego. Passou algumas semanas em uma pensão barata até ficar sem dinheiro. Desempregada e tentando esconder a barriga debaixo de casacos largos, decidiu voltar para casa de ônibus e se humilhar diante da família do ex. Mas, naquela madrugada chuvosa, perdida pelas ruas, quase foi atropelada.

Dom, viúvo e solitário, dirigia sem destino certo, prestes a desistir da própria vida. Foi por um triz que não a atingiu. Ao vê-la trêmula e encharcada, ofereceu ajuda, quando soube que ela não tinha onde dormir, levou-a para sua casa e a resgatou do frio.

Era uma noite triste, daquelas em que o vento parece trazer lembranças antigas pelo ar. Havia dias que a chuva não dava trégua, e Dom, imóvel diante da janela embaçada de sua casa silenciosa no interior, passava horas observando as gotas escorrerem pelo vidro, como se cada uma carregasse um fragmento da dor que o consumia há algum tempo.

Aquela data não era qualquer dia. Era o aniversário da morte de sua esposa, Ana Carolina. Negra, riso fácil, presença luminosa, ela fora sua razão e seu equilíbrio. Anos antes, ao descobrir que Dom a havia traído, ela tirou a própria vida. Desde então, ele nunca mais fora o mesmo. A perda o dilacerou de dentro para fora e, em vez de curar, o tempo apenas aprofundava o vazio e a culpa.

Dom tinha 35 anos. Era um homem negro, de beleza discreta marcada agora pelo desalinho. A barba crescia sem cuidado, espessa e desalinhada. O cabelo, antes sempre bem aparado. Suas roupas, antes impecáveis e sociais, haviam sido substituídas por peças simples de academia, camisetas largas, calças de moletom, tênis gastos. Não por conforto, mas por indiferença. Já não se importava com aparências, nem com o mundo lá fora.

Rico, sim. Solitário, mais ainda. A casa grande, onde se isolava parecia um mausoléu de memórias, cada cômodo impregnado de lembranças de Ana Carolina. A alegria que o tornava vaidoso e cheio de vida partira com ela, deixando um eco de arrependimento insuportável.

Naquela noite chuvosa, diante da janela, Dom tomou uma decisão silenciosa sobre o próprio destino. Algo dentro dele dizia que não havia mais por que continuar. Sem filhos, afastado dos familiares, sem qualquer coisa que lhe desse alegria ou conforto, organizou documentos sobre a cama, numa pasta de plástico amarela, gesto de quem encerra um ciclo.

Buscava, inutilmente, o conforto das boas lembranças, risos no café da manhã, jantares à luz de velas no quintal, planos de um futuro que nunca chegou. Enquanto dirigia pelas ruas desertas, com a chuva martelando o para-brisa, Dom pensava em desistir de vez.

Foi então que, ao dobrar uma curva, algo chamou sua atenção, uma jovem loira, caminhando lentamente. Estava curvada, lutando contra a força da tempestade. Grávida, visivelmente exausta, braços encolhidos dentro de um casaco encharcado, uma mochila nas costas. Parava de tanto em tanto, como se cada passo fosse uma batalha.

Por mais frio e rude que pudesse parecer, havia em Dom uma educação boa que não lhe permitia ignorar alguém em apuros. Sem pensar duas vezes, deu a volta com a caminhonete e se aproximou, estacionou. O coração acelerou, não pelo trânsito, mas pela urgência estranha que aquela imagem lhe despertava.

A moça parou com a mão na barriga, com os olhos semicerrados pela dor.

Ele abriu a porta e correu até ela.

- Olá, moça... você está bem? - perguntou, com a voz firme, carregada de preocupação.

Ela o olhou e tentou responder entre uma contração e outra:

- São só... contrações de treinamento... eu acho...

- Tudo bem. Obrigada.

Dom olhou em volta. A rua molhada, árvores vergadas pela ventania, ninguém por perto.

- Quer uma carona? Entra no carro. Você não pode ficar aqui desse jeito.

Ela hesitou, desconfiada, mas exausta demais para discutir.

- Eu... não quero incomodar... Ia me abrigar ali e esperar a chuva passar.

Ele alcançou a mochila com cuidado.

- Não está incomodando. Vamos. Você precisa se aquecer. Não pode ficar doente, grávida.

Marvila entregou a mochila e entrou com dificuldade, sentando-se com delicadeza. Dom a ajudou, fechou a porta e correu para o lado do motorista.

Ela não perguntou nada, por um instante, sentiu-se segura.

- Obrigada por parar... Eu ia na rodoviária.

- O final da gestação é difícil.- respondeu ele, num tom baixo.

Pela primeira vez em muito tempo, Dom sentiu algo diferente, um impulso de proteger, de cuidar, como se um fio de humanidade ainda resistisse debaixo das ruínas.

- Vamos para minha casa. Você toma um banho, troca de roupa. Depois vemos o que fazer. Eu te levo aonde quiser.

Marvila permaneceu em silêncio, tremendo de frio, abraçada à barriga.

Ao chegarem, o portão automático se abriu e ele estacionou.

- Você deu sorte. - disse.

- Ninguém passa por lá, a essa hora.

Marvila olhou ao redor, atenta e tímida.

- Eu estava perdida. Não conheço nada aqui.

Capítulo 2

A casa era enorme e linda, com um jardim imenso, e silenciosa, parecia ainda mais fria diante da vulnerabilidade de Marvila. Ele desceu do carro, pegou a mochila dela e a conduziu até a entrada, sem tocar em seu corpo, mas com um cuidado que não se via há muito tempo em seus gestos.

Enquanto Dom andava um pouco desnorteado, sem jeito, procurando uma manta, Marvila observava o ambiente com olhos cautelosos. Era a primeira vez em meses que se sentia minimamente segura, mesmo sem saber se podia confiar naquele homem.

Ela vinha de longe. Estava fugindo do ex-namorado, um homem alcoólatra e violento, que transformava cada noite em um campo de batalha e que, depois de preso, ainda era um fantasma na memória. As marcas em seu corpo já haviam desaparecido, mas as da alma ainda sangravam em silêncio.

Ela não tinha família a quem recorrer: órfã, fora criada pela avó, a única que lhe deu colo de verdade. A mãe falecera quando ela era pequena, do pai, nunca teve notícia. Quando descobriu a gravidez, não teve apoio, nem abrigo. Apenas medo. E foi esse medo que a fez fugir, por meses, de cidade em cidade, escondendo o bebê do pai, buscando um lugar onde pudesse dar à luz em paz, com dignidade.

Agora, ali, diante de um estranho que parecia tão sozinho quanto ela, Marvila se permitiu respirar. Ainda tremia, mas não era só pelo frio. Estava nervosa, apreensiva.

Dom, calado e pensativo, subiu as escadas, entrou em seu quarto, viu a pasta com os documentos, ainda estava sobre a cama, agora esquecida. Ele pegou uma manta e voltou para a sala, observou Marvila sentada no sofá, ainda tremendo, com os olhos baixos e os braços em volta da barriga.

Ele se aproximou devagar, sentando-se na poltrona à frente.

- Toma, se aqueça.

- Qual é o seu nome? - perguntou, com a voz baixa, mas firme.

Ela hesitou por um instante, depois respondeu:

- Marvila.

Ele se levantou, curioso.

- Você não mora por aqui? Nunca te vi.

Marvila engoliu seco. Seus olhos se moveram rápido, como se procurassem uma resposta segura.

- Não... Vim pra cá procurando trabalho. Fui roubada... levaram meu dinheiro, meu celular...

Dom não reagiu de imediato. Apenas a observava, como se tentasse decifrar o que havia por trás daquela história, que podia parecer mentira. Antes que pudesse dizer algo, Marvila se curvou repentinamente, apertando os olhos e soltando um gemido contido.

- Está tudo bem? - ele se aproximou, preocupado.

Ela estendeu a mão instintivamente, e Dom segurou com firmeza. A contração passou, mas ela continuou nervosa, respirando rápido.

- São só... contrações de treinamento... eu acho... - disse, tentando se recompor.

- Eu... eu não sei ao certo. Eu abandonei o pré-natal há meses. Não sei quando o bebê vai nascer... Não fiz exames, mal sei se ele, ou ela, é saudável.

A voz dela falhou. As lágrimas vieram sem aviso, escorrendo silenciosas pelas bochechas.

- Eu não tenho ninguém... - confessou, aos prantos.

- Minha avó morreu. Minha mãe já era falecida quando eu era criança, pai, eu nunca tive. E o pai do bebê... eu estou fugindo dele. Ele é violento. Eu só queria um lugar seguro...

- Essa é a verdade, moço, eu juro.

Dom sentiu um nó na garganta. A dor dela, tão crua e exposta, o atingiu como um soco. Ele se aproximou, parou diante dela, segurando sua mão.

- Ei... calma. Você está segura agora - disse, com uma firmeza gentil.

- Eu vou te ajudar, Marvila. Mas primeiro, você precisa se acalmar. E se cuidar.

- Está segura aqui. Eu moro sozinho, mas pode ficar a vontade.

Ela o olhou com olhos marejados, surpresa com a gentileza inesperada.

- Obrigada... - murmurou, constrangida.

- Eu não sou uma pessoa encostada, sempre trabalhei.

Ele apontou para as escadas:

- Vou te levar para o quarto de hóspedes. Lá tem um banheiro. Tome um banho quente, vai te fazer bem. Enquanto isso, eu preparo algo pra você comer.

- Eu sei que estar grávida não é fácil.

Marvila assentiu, ainda tímida, e se levantou com cuidado. Dom a conduziu até o quarto, andando próximo, sendo protetor; abriu a porta e acendeu a luz. O quarto era simples, mas acolhedor. Ela entrou devagar, olhando em volta como quem não acreditava estar ali. Tinha uma cama de casal, televisão, aparelho de som, janelas grandes que levavam à varanda. Ela colocou a mochila na cama.

- Se precisar de algo, me chame. Dom é meu nome. - disse ele, antes de fechar a porta.

Marvila ficou parada por um momento, olhando para o espelho do guarda-roupa. Tocou a barriga com carinho e medo.

- Você ainda não pode nascer, ok. Espere mais um pouco. Por favor.

O bebê estava quieto, ela foi para o banheiro, trancou a porta e tirou as roupas. Ficou encantada com a banheira e se arriscou a tentar usar, entrou antes mesmo de encher, ficou se deliciando na água pelando, sentindo os ombros finalmente cederem.

O banho quente parecia um alívio distante, mas ela sabia que precisava aceitar a ajuda. Por ela. E pelo bebê.

Enquanto isso, Dom foi para a cozinha, pensativo. Algo dentro dele havia mudado. E ele sabia que aquele encontro não era por acaso. Ainda mais, ela estando grávida. Ele pensou em redenção.

Na cozinha, Dom abriu os armários e a geladeira, encontrando tudo meio vazio.

Fez arroz, fritou dois ovos. Era o que tinha. Cozinhou em silêncio, concentrado, como se aquele gesto simples fosse uma forma de organizar os próprios pensamentos.

Ele arrumou a bandeja com cuidado: colocou a comida, um copo de água, talheres limpos. Subiu as escadas e parou diante da porta do quarto de hóspedes. Bateu levemente.

- Marvila... preparei algo pra você comer - disse, com a voz baixa, mas firme.

- Pode abrir? Por favor?

Marvila estava deitada e usando um vestido amarelo de alças, simples. Os cabelos estavam úmidos, loiros e soltos, e seus olhos, embora cansados, pareciam menos assustados. Ela abriu a porta devagar.

Dom a observou por um instante, curioso. Havia algo nela que o desconcertava, uma mistura de fragilidade e força que ele não sabia como decifrar. Estar grávida era o principal.

- Você gostaria de ir ao médico? Tem um hospital aqui. - perguntou, entrando no quarto e colocando a bandeja sobre a pequena mesa com duas cadeiras.

Marvila se aproximou devagar, apreensiva. Sentou-se com cuidado, olhando para a comida como se não soubesse se podia aceitar.

- Não é necessário... - respondeu, evitando o olhar dele.

- Eu estou bem. Só preciso descansar. Vou dormir aqui hoje e... amanhã cedo eu vou embora. Não precisa se preocupar.

Dom franziu a testa, mas não insistiu. Havia algo na forma como ela dizia aquilo, como se estivesse com medo de tudo.

- Coma. Você precisa se alimentar, por dois. - disse, puxando a outra cadeira e sentando-se à frente dela.

Marvila pegou o garfo com mãos trêmulas, agradecendo com um aceno tímido.

- Obrigada... por tudo isso. Eu não esperava... ninguém parar por mim.

- Isso é coisa de interior.

Dom não respondeu de imediato. Apenas sorriu e concordou, e a observou como se tentasse entender o que a vida havia feito com ela e por que, naquele dia, ela havia cruzado seu caminho. Justamente quando ele ia desistir.

Marvila começou a comer devagar, como se cada garfada exigisse esforço. A refeição estava simples, mas, para ela, era mais do que comida: era conforto. Dom ficou olhando para as próprias mãos, os dedos entrelaçados, como se buscasse respostas nas linhas da pele.

O silêncio entre eles era desconfortável. Era como se ambos soubessem que havia coisas demais que não deviam ser ditas.

- O pai do bebê... - Dom disse, sem levantar os olhos.

- O que houve?

Capítulo 3

Marvila parou de mastigar. Engoliu com dificuldade e pousou o garfo sobre a comida. Respirou fundo, como quem se prepara para abrir uma ferida.

- Ficamos juntos, por anos. - começou, com a voz baixa.

- Achei que ele mudaria. Que o amor podia consertar alguém. Mas ele só piorava. Bebia todos os dias. Me humilhava. Me machucava.

Dom ergueu os olhos, atento.

- Quando descobri que estava grávida... - ela continuou, com os olhos marejados.

- Ele surtou. Disse que eu o estava prendendo, que não queria ser pai. Tentou me bater... Disse que, se eu perdesse o bebê, seria melhor pra todo mundo.

Ela apertou os lábios, tentando conter o choro, mas não conseguiu. As lágrimas escorreram silenciosas, e ela as enxugou.

- Foi aí que eu fugi. Peguei o pouco que tinha e fui embora. Sem olhar pra trás. Eu só quero que meu filho nasça em paz. Longe dele. Longe de tudo.

- Vou trabalhar e dar um jeito.

Dom sentiu um aperto no peito. A dor dela era crua, real, e o fez lembrar da própria perda, da mulher que amava e que nunca mais voltaria, com o filho que um dia imaginaram, um sonho que se partira de forma irreparável. Mas havia algo diferente ali. Marvila não estava apenas na pior. Ela estava lutando, pelo filho.

Ele se levantou devagar, pegou uma manta dobrada sobre a cama e a colocou sobre os ombros dela com cuidado.

- Você não precisa passar por isso sozinha. - disse, com a voz firme, mas gentil.

- Aqui, você está segura. E eu vou te ajudar. Não nos encontramos por acaso.

Marvila olhou para ele, surpresa, como se não soubesse como reagir à bondade.

- Obrigada... - falou, com os olhos baixos.

Ele sorriu, indo em direção à porta:

- Agora termina de comer. Depois, descanse. Amanhã a gente vê o que fazer. Posso te levar ao médico, obstetra.

- A farmácia, talvez. Grávidas precisam de vitaminas, acompanhamento.

Ela assentiu, ainda emocionada, e voltou a comer em silêncio. Dom saiu do quarto devagar, deixando a porta entreaberta. No corredor, parou por um instante, respirando fundo. Algo dentro dele estava mudando. E ele sabia: aquela mulher não era apenas uma visita passageira. Ela era o motivo que o fazia não poder desistir. Pelo menos naquele dia.

Marvila terminou de comer em silêncio, limpando os olhos discretamente com a ponta dos dedos. O prato estava vazio, e o bebê começou a mexer, agitado, como se quisesse agradecer à refeição.

Ela esperou um pouco e saiu do quarto, levando a bandeja, quando passou pela sala, falou desconcertada:

- Obrigada, de verdade. Estava delicioso, o bebê gostou, ele se agitou muito. - disse ela, com a voz baixa.

Dom assentiu, levantando-se para pegar a bandeja.

- Fico contente. Amanhã irei ao mercado, a geladeira está vazia.

- Se precisar de qualquer coisa, é só chamar. Eu tenho sono leve.

- Meu quarto é perto do seu. Mas eu durmo na sala, quase todas as noites.

Ele foi para a cozinha, levando a bandeja até a pia. Ela ficou um pouco parada, em pé, observando-o, e retornou para o quarto, sem saber como se comportar na casa de um estranho.

Depois, Dom subiu para o quarto onde costumava ficar, mas não dormir. A casa era grande, cheia de cômodos que agora pareciam vazios demais. Cada porta fechada guardava uma memória, cada corredor ecoava o silêncio de uma vida que já não existia.

Ele observou a porta do quarto de Marvila, entreaberta, passou reto e foi deitar, pensando na sorte que ela teve. Deitou-se na cama, mas não conseguiu dormir. Ficou olhando para o teto, com os braços cruzados atrás da cabeça, enquanto a chuva continuava a cair lá fora. Nem trocou as roupas, achando que ela podia chamá-lo às pressas.

A ironia do destino o consumia. Sua esposa, Ana Carolina, tirou a própria vida ao descobrir que ele a havia traído, depois de anos de perdas e tentativas de formarem uma família. As lembranças o perseguiam, a ausência que levou tudo, a culpa que ficou. Enterrou sonhos no mesmo gesto e, desde então, carregava um luto que não sabia como abandonar.

E agora, ali estava ele. Ajudando uma mulher grávida, abandonada, fugindo de um passado violento. Uma mulher que carregava uma vida dentro de si, mas sem ninguém ao lado. E, ainda assim, ela queria aquele bebê.

Dom sentia que não podia simplesmente seguir com o plano que havia traçado para si. Não agora. Não com Marvila ali. Porque o pior poderia acontecer, ele começou a pensar, reflexivo:

"Talvez eu possa deixá-la com um bom dinheiro. Uma das minhas casas, para ter segurança. Tudo o que ela precisa para começar de novo. E depois... depois eu sigo com o que tinha decidido."

Mas, mesmo enquanto pensava nisso, algo dentro dele resistia, receio de ela ser ingênua e perder o que ganhasse. Como se a presença de Marvila tivesse acendido uma luz tênue em meio à escuridão que ele habitava há anos. Ele não tinha herdeiros diretos. Sua família tinha boas condições, seus sobrinhos eram estudados, todos bem criados. Seus irmãos tinham as próprias coisas, comércios, casas de aluguel.

Ele virou-se na cama, inquieto. O som da chuva parecia mais suave agora. E, pela primeira vez em muito tempo, Dom não se sentia completamente sozinho. Esperou ansioso pelo amanhecer, queria saber se Marvila tivera mais contrações.

O sol ainda mal havia tocado as janelas da casa quando Marvila se levantou, curiosa e apreensiva. A casa estava silenciosa, envolta por aquele tipo de paz que só existe na madrugada. Ela caminhou descalça até a cozinha, com os cabelos bagunçados, a roupa amassada. Estava faminta, com a barriga roncando.

Tomou água e começou a limpar a cozinha, lavando a louça, um gesto de gratidão. Mesmo com medo, abriu a geladeira, encontrou uma panela com o resto do arroz do jantar e, sem pensar muito, pegou uma colher e começou a comer ali mesmo, em pé, com o olhar atento à porta, como se estivesse cometendo um delito.

Dom havia acordado pouco depois, tomou banho. Vestiu-se com a mesma simplicidade de sempre, calça de moletom, camiseta escura lisa, e foi direto ao quarto de hóspedes. Queria ver como Marvila estava, se havia dormido bem, se precisava de algo. Mas, ao abrir a porta, encontrou o quarto vazio.

Franziu a testa e saiu à procura dela pela casa. Ao chegar à cozinha, parou na porta, a observando em silêncio.

Marvila estava ali, com a panela na mão, comendo deliciosamente o arroz gelado puro, ficou com os olhos arregalados ao perceber que havia sido flagrada.

- Me desculpa... - disse ela com a boca cheia, largando a panela de imediato.

- Eu estava com fome... não queria incomodar...

Dom se aproximou, sem qualquer sinal de reprovação. Começou a rir, surpreso.

- Você pode ficar à vontade. Essa casa é grande demais pra continuar vazia. - disse, com um tom divertido.

- E, pra ser sincero, não tem quase nada aqui. Eu vou ao mercado daqui a pouco. Vamos encher essa geladeira.

- Afinal, você ficará hospedada aqui. Coma, pode comer.

Marvila sorriu, tímida, ainda constrangida, pegando a panela novamente.

- Eu agradeço... mas não quero abusar da sua hospitalidade. Hoje, eu vou embora. Já fiquei demais.

Dom a olhou por um momento, pensativo, enquanto colocava a água para ferver. Havia algo nela que o tocava profundamente, talvez a força disfarçada de fragilidade, talvez o fato de que, pela primeira vez em muito tempo, ele se sentia útil.

- Olha, ninguém da emprego a uma grávida.

- Você não quer... um emprego? - perguntou, com naturalidade.

- Minha casa precisa de alguém. Alguém que cuide, que mantenha tudo em ordem.

- Você poderia ficar. Trabalhar aqui. Ter um lugar seguro.

- Claro, quando se recuperar do nascimento. Posso pagar um salário mínimo, te dar moradia e alimentação, sem descontar nada.

Marvila ficou em silêncio, surpresa. Seus olhos se encheram de uma mistura de alívio e medo. Era uma oferta generosa, mas também inesperada. Ela abaixou o olhar, pensativa.

- Eu... não sei o que dizer, Dom. É muita responsabilidade.

Dom deu um leve sorriso, colocando o pó no coador de café.

- Diz que vai pensar. Eu gosto, de crianças.

- E come direito. Não precisa se esconder pra isso. Tudo o que tiver aqui, você pode comer.

- Menos café, né? Sabe que não pode?

Ela riu, ainda tímida, e foi sentar-se à mesa.

- Não sei nada disso. Que vergonha.

Pela primeira vez em muito tempo, sentiu que talvez o mundo estivesse lhe dando uma chance. E pôde ser notada como uma gestante normal. Ela achou graça do quanto ele dava atenção a isso e, mesmo sem admitir, se sentiu menos sozinha.

Baixar livro

COPYRIGHT(©) 2022