No dia do aniversário do meu marido, Heitor, eu lhe enviei um presente: o embrião preservado do filho que eu tinha acabado de abortar.
Era a minha vingança. Ele havia armado para o meu pai, jogando-o na prisão e levando minha mãe ao túmulo, tudo por sua amante, Âmbar.
Quando ele invadiu nosso apartamento, o rosto transfigurado pelo ódio, me jogou contra o balcão.
"Sua monstra! Como você pôde destruir nosso filho?"
"Você perdeu esse direito no momento em que escolheu a Âmbar em vez de nós", cuspi de volta.
Mas meu desafio só trouxe mais horror. Ele me internou em um hospício onde Âmbar, a arquiteta da ruína da minha família, me torturou com eletrochoques, tentando quebrar minha mente.
Eu fingi submissão, depois revidei, jogando nós duas pela janela do terceiro andar. Eu sobrevivi; ela ficou em estado grave.
Deitada na minha cama de hospital, Heitor não veio com remorso, mas com uma exigência cruel.
"Âmbar precisa de um enxerto de tendão. Você é compatível. A cirurgia é amanhã."
Ele achou que tinha me encurralado, que poderia me forçar a sacrificar um pedaço de mim pela mulher que me destruiu.
Mas enquanto ele saía para consolar sua amante, eu fiz uma ligação. Na manhã seguinte, enquanto ele me implorava para não fazer a "cirurgia", eu fui embora, deixando-o nas ruínas da vida que ele havia estilhaçado. Ele não sabia que aquilo não era uma cirurgia. Era a minha fuga e o começo do fim dele.
Capítulo 1
Ponto de Vista de Laura Moraes:
Meu celular vibrou, um número desconhecido piscando na tela. Era o aniversário de Heitor. Olhei para o embrião preservado no frasco de vidro feito sob medida, um pontinho minúsculo e translúcido suspenso em um fluido âmbar. Este era o meu presente para ele.
Apertei 'aceitar'.
"Feliz aniversário, Heitor", eu disse, minha voz fria, sem qualquer emoção.
Houve um momento de silêncio do outro lado, depois um som tenso, quase sem fôlego. Heitor. O homem que um dia foi meu mundo. O homem que havia estilhaçado tudo.
"Laura?" A voz dele estava rouca, carregada de uma confusão que era quase cômica. Ele não esperava ouvir de mim. Não hoje. Provavelmente, nunca mais.
"Você recebeu meu presente?", perguntei, um sorriso cruel brincando em meus lábios. O movimento esticou os músculos do meu rosto, uma sensação que eu não experimentava há anos.
Outra pausa. Mais longa desta vez. Eu quase podia ouvir sua mente acelerada, tentando juntar as peças. O pacote. O formato estranho. O peso.
"O que... o que é isso, Laura?" Sua voz era um rosnado baixo agora, um tom perigoso se insinuando.
"É o nosso filho, Heitor", afirmei, cada palavra uma adaga lenta e deliberada. "Ou o que teria sido nosso filho. Eu abortei. No seu aniversário. Só para você."
Um grito estrangulado rasgou sua garganta. Era um som de pura, inalterada angústia, um som que eu ansiava ouvir por dois longos e agonizantes anos. Meu coração, um bloco de gelo no meu peito, sentiu um lampejo de algo quase parecido com satisfação.
Ouvi um estrondo do outro lado, vidro se quebrando contra o que parecia ser um piso de mármore. Ele deve ter deixado o frasco cair. Ótimo. Que se quebre. Que cada caco da nossa realidade quebrada o corte.
"Sua... sua desgraçada!", ele rugiu, a voz grossa de fúria e uma dor que eu sabia ser real. "Você realmente fez isso!"
"Sim, Heitor, eu fiz", confirmei, minha voz ainda estranhamente calma. "E sabe de uma coisa? Foi a decisão mais fácil que já tomei."
Ele continuou gritando, palavras incoerentes de raiva e incredulidade. Eu podia imaginá-lo, seu rosto bonito contorcido, sua compostura perfeita de promotor finalmente se quebrando. Era uma bela visão, na minha mente.
"Por que, Laura? Por que você faria isso?", ele gritou, a voz falhando.
"Por quê?", repeti, uma risada fria e dura borbulhando de dentro de mim. Não era uma risada de alegria, mas de triunfo amargo. "Você quer saber por que, Heitor? Porque eu te odeio. Eu te odeio mais do que já amei qualquer coisa neste mundo."
A linha ficou muda. Ele havia desligado. Ou talvez tivesse jogado o celular do outro lado da sala. Não importava. A mensagem foi entregue. O presente foi recebido.
Fechei os olhos, o fantasma de uma lágrima traçando um caminho pelo meu rosto. Eu a enxuguei rapidamente. Chega de lágrimas por ele. Nunca mais.
O apartamento parecia quieto demais, vazio demais. Era sempre assim depois de uma de nossas 'interações'. Uma dor oca se instalou no meu peito, uma companheira familiar.
De repente, a porta da frente se abriu com um estrondo, batendo contra a parede. Heitor. Ele deve ter dirigido como um louco.
Ele ficou parado na porta, o peito subindo e descendo, os olhos selvagens e injetados de sangue. Os restos do frasco estavam espalhados pelo chão, brilhando como joias malignas. Ele apontou um dedo trêmulo para mim.
"Sua... sua monstra!", ele engasgou, a voz mal um sussurro, mas carregada de veneno.
Eu apenas o encarei de volta, meu rosto uma máscara cuidadosamente construída de indiferença. Deixe-o me xingar. As palavras não significavam mais nada para mim.
Ele avançou, agarrando meu braço com uma força que machucava. Seu aperto era firme, seus dedos cravando na minha carne. Eu não vacilei. Estava acostumada.
Ele me arrastou pelo piso de mármore polido, passando pelo vidro quebrado, e me empurrou contra a superfície fria e implacável do balcão da cozinha. Minha cabeça bateu na quina com um baque surdo, faíscas dançando atrás dos meus olhos. Senti o gosto de sangue.
"Como você pôde, Laura?", ele rosnou, o rosto a centímetros do meu, seu hálito quente contra minha pele. "Como você pôde destruir nosso filho?"
"Nosso filho?", cuspi, as palavras pingando desprezo. "Você perdeu o direito de chamá-lo de 'nosso filho' no momento em que destruiu minha família. No momento em que escolheu a Âmbar em vez de nós."
Seus olhos se estreitaram, um lampejo de algo indecifrável passando por eles. Culpa? Arrependimento? Eu não me importava.
"Você acha que isso é justiça?", ele rugiu, a voz ensurdecedora no espaço confinado. "Você acha que isso nos deixa quites?"
"Não", sussurrei, um sorriso arrepiante voltando aos meus lábios. "Isso é só o começo, Heitor. Este é apenas o meu primeiro presente para você."
Ele bateu com o punho no balcão, errando minha cabeça por pouco. A força do golpe sacudiu a cozinha inteira.
"Você está louca, Laura", ele sibilou, a voz tremendo com uma mistura de raiva e outra coisa. Medo, talvez? Eu esperava que sim.
"Talvez", concedi, meu olhar inabalável. "Mas quem me tornou assim, Heitor? Quem me transformou nesta monstra?"
Ele me encarou, seus olhos procurando, desesperados. Mas não havia mais nada para encontrar. A mulher vibrante e amorosa com quem ele se casou havia desaparecido há muito tempo, substituída por uma casca fria e vazia.
Ele agarrou meu queixo, forçando-me a olhá-lo. Seu polegar roçou meu lábio inferior, onde o impacto havia cortado a pele. Foi um gesto de ternura inesperada, um fantasma do homem que ele já foi.
"Você ainda é minha esposa, Laura", ele disse, a voz mais suave agora, quase suplicante. "Nós podemos consertar isso. Podemos recomeçar."
Eu ri, um som áspero e sem humor. "Consertar isso? Recomeçar? Você realmente acha?" Meus olhos correram para o vidro quebrado no chão, depois de volta para o rosto dele. "Não há mais nada para consertar, Heitor. Você queimou tudo até o chão."
Sua mandíbula se contraiu. A ternura desapareceu, substituída pela máscara familiar de fúria controlada.
"Você trouxe isso para si mesma, Laura", ele disse, a voz fria e cortante. "Você escolheu este caminho."
"Não, Heitor", corrigi, minha voz igualmente fria. "Você o escolheu para mim. Você o escolheu no dia em que ficou do lado da Âmbar, no dia em que colocou meu pai atrás das grades, no dia em que viu minha mãe morrer."
Seu rosto empalideceu, a menção da minha mãe claramente atingindo um nervo. Mas era tarde demais para remorso. Muito tarde.
Ele agarrou meus braços, seus dedos cravando fundo. Seus olhos queimavam nos meus, um fogo desesperado ardendo dentro deles.
"Você acha que eu gostei de ver sua família desmoronar?", ele rosnou, a voz crua. "Você acha que eu queria algo disso?"
"Você defendeu isso, Heitor", lembrei, minha voz inabalável. "Você chamou de 'justiça'. Você chamou de 'responsabilidade'. Você convenientemente se esqueceu da 'responsabilidade' dos Moraes em te criar, em te dar tudo o que você tem."
Sua respiração engatou. As palavras atingiram um ponto sensível, uma insegurança profunda que ele sempre tentava esconder.
Ele fechou os olhos por um momento, uma careta dolorosa torcendo suas feições. Quando os abriu novamente, estavam duros e implacáveis.
"Eu tentei te proteger, Laura", ele disse, a voz baixa e perigosa. "Tentei te manter fora disso. Mas você não quis ouvir. Você sempre teve que lutar comigo."
"Lutar com você?", zombei, uma risada amarga escapando dos meus lábios. "Eu lutei pela minha família, Heitor. Lutei pela verdade. Algo que você parece ter esquecido."
Ele se afastou de mim, passando a mão pelo cabelo desgrenhado. Parecia cansado, derrotado. Mas eu sabia que era uma performance. Uma fachada cuidadosamente elaborada.
"Você é um caso perdido, Laura", ele murmurou, balançando a cabeça. "Você é igual ao seu pai."
As palavras doeram, uma flecha venenosa apontada diretamente para minha ferida mais profunda. Mas eu me recusei a deixá-lo ver.
"E você, Heitor", retruquei, minha voz afiada e clara, "você é igual à Âmbar. Um oportunista manipulador e calculista, disposto a pisar em qualquer um para conseguir o que quer."
Seus olhos brilharam de raiva. Ele odiava ser comparado a ela, mesmo que fossem dois lados da mesma moeda.
Ele deu um passo para trás, seu olhar varrendo os destroços da cozinha, depois pousando em mim. Uma calma arrepiante desceu sobre seu rosto.
"Tudo bem", ele disse, a voz desprovida de emoção. "Se é esse o jogo que você quer jogar, Laura, então vamos jogar."
Ele se virou e foi embora, seus passos ecoando no silêncio. Eu o observei ir, meu corpo tremendo, não de medo, mas de uma raiva fria e latente.
Ele parou na porta, virando-se para me encarar. "Só se lembre, Laura", ele avisou, os olhos como lascas de gelo, "foi você quem começou."
Ele saiu, a porta se fechando atrás dele. Eu me encostei no balcão, a adrenalina lentamente drenando do meu corpo. As lágrimas, mais uma vez, ameaçaram cair.
Mas eu não as deixaria. Não agora. Nunca mais. Eu tinha uma guerra para lutar. E Heitor Almeida acabara de me dar toda a motivação que eu precisava.
Meu celular vibrou. Era uma mensagem de um número desconhecido. "Negócio fechado. Esteja pronta."
Era Caio. Meu rival de infância. Meu aliado improvável. O único que poderia me ajudar a queimar o mundo de Heitor até o chão.
Ponto de Vista de Laura Moraes:
A mensagem de Caio Mendes era breve, apenas três palavras: "Sete da manhã. Meu motorista."
Curto, direto, ao ponto. Típico do Caio. Ele não desperdiçava palavras, nunca desperdiçou. Era um contraste gritante com as frases cuidadosamente construídas de Heitor, cheias de ameaças veladas e remorso calculado.
Soltei uma risada amarga. De todas as pessoas no mundo, tinha que ser o Caio. Meu nêmesis de infância. O pirralho que costumava puxar minhas marias-chiquinhas e sabotar meus projetos de feira de ciências. Agora, ele era minha única esperança. Meu parceiro de vingança. A ironia não me passou despercebida.
Desliguei o celular, a tela escurecendo, espelhando o vazio em minha alma. Meu corpo doía, uma dor surda na cabeça por ter batido no balcão, uma dor fantasma mais profunda no meu útero pelo procedimento. A exaustão pesava sobre mim, uma companheira constante nos últimos dois anos.
O sono não oferecia escapatória. Era um sono inquieto, agitado, assombrado por pesadelos fragmentados. Figuras envoltas em sombras, sussurros de traição, o gosto metálico do medo. Eu me debatia, tentando me libertar, mas a escuridão se agarrava a mim, sufocante.
Acordei com um sobressalto, meu coração batendo contra minhas costelas. O quarto ainda estava escuro, a luz cinzenta do amanhecer mal perfurando as cortinas pesadas. Outro dia. Outra batalha.
Levei a mão ao rosto, meus dedos roçando a umidade em minhas bochechas. Lágrimas. Eu as odiava. Eram uma fraqueza que eu não podia me permitir. Enxuguei-as bruscamente, cerrando a mandíbula. Meu reflexo no espelho da cabeceira mostrava uma mulher pálida, de olhos fundos, mas meus olhos, embora sombreados, continham uma nova e fria resolução. A suavidade se fora. Substituída por algo duro, inflexível.
Saí da cama, cada movimento um testemunho da dor que eu estava determinada a ignorar. Meu corpo era um mapa da crueldade de Heitor, uma tela de hematomas roxos e amarelos, um testamento de sua 'justiça'. Vesti-me com cuidado, escolhendo mangas compridas e golas altas, uma nova camada de base para mascarar a palidez da minha pele. Ninguém precisava ver as cicatrizes, por dentro ou por fora. Ainda não.
Peguei as chaves do meu carro, meus movimentos rígidos. O frio do ar da manhã mordeu minha pele quando saí. O mundo ainda estava adormecido, envolto em um silêncio melancólico. Perfeito. Sem testemunhas.
Meu destino era a quilômetros de distância, um cemitério tranquilo aninhado entre colinas. O lugar de descanso final da minha mãe. E o que restava da minha família.
Caminhei pelas fileiras de lápides, cada uma um lembrete gritante da perda, de como tudo poderia se desfazer rapidamente. Encontrei a dela, uma simples laje de granito. Maria Moraes. Amada Mãe. Meus dedos traçaram as letras, um nó se formando na minha garganta.
Ajoelhei-me, colocando um buquê de lírios brancos na base da pedra. Seus favoritos. Eles representavam pureza, paz. Coisas que não tínhamos mais.
"Mãe", sussurrei, minha voz falhando. Era a primeira vez que eu me permitia falar seu nome em voz alta em meses sem a presença de Heitor. "Sinto muito. Não consegui te proteger. Não consegui proteger o papai."
Uma onda de luto me invadiu, ameaçando me consumir. Mas eu a empurrei para trás. Eu não podia quebrar agora. Ainda não.
"Mas eu te prometo, mãe", continuei, minha voz ganhando força, se enrijecendo. "Eu vou conseguir justiça. Vou limpar o nome do papai. E vou fazê-los pagar. Todos eles."
Meus olhos endureceram, um fogo frio queimando dentro deles. Heitor. Âmbar. Eles se arrependeriam do dia em que cruzaram o caminho dos Moraes.
Nesse momento, um sedã preto elegante parou atrás de mim, seu motor um zumbido baixo que perturbou a tranquilidade do cemitério. Eu não precisei me virar para saber quem era. O ar de repente ficou mais pesado, carregado de uma familiar desagradabilidade.
"Laura?", uma voz adocicada arrulhou atrás de mim. Âmbar Costa. Claro. Ela sempre encontrava uma maneira de se inserir na minha dor.
Endireitei-me, minhas costas retas como uma vara, meus ombros quadrados. Respirei fundo, preparando-me para o confronto inevitável.
"O que você está fazendo aqui, Âmbar?", perguntei, minha voz fria, desprovida de emoção. Não me virei. Não suportaria olhar para seu rosto presunçoso e autossatisfeito.
"Oh, só prestando minhas homenagens", ela disse com um sorriso falso, sua voz pingando falsa simpatia. "Edmundo era como um pai para mim, sabe."
Minha mão se fechou em um punho. Ela era a víbora que o envenenou.
"Saia daqui", rosnei, as palavras escapando dos meus lábios antes que eu pudesse detê-las. "Você não tem o direito de estar aqui."
Ela ofegou dramaticamente. "Laura, querida, não seja tão rude. Heitor está aqui também. Ele insistiu que viéssemos."
Aquele nome. Heitor. Foi como um balde de água fria, cortando a névoa de luto e raiva. Ele estava aqui também? A audácia. A pura e inalterada cara de pau.
Finalmente me virei, meus olhos varrendo-a, depois pousando em Heitor, que estava alguns metros atrás dela, o rosto uma máscara de preocupação cuidadosamente controlada. Ele estava bancando o genro enlutado. O protetor devotado. Isso me revirou o estômago.
"Heitor Almeida", eu disse, minha voz mal um sussurro, mas carregada de um nojo palpável. "Você ousa mostrar seu rosto aqui? Depois de tudo?"
Ele deu um passo à frente, sua mão se estendendo como se para me tocar. "Laura, por favor. Âmbar só queria mostrar seu apoio."
Âmbar, sempre oportunista, deu um passo à frente, um buquê de rosas vermelhas berrantes na mão. Ela tentou colocá-las no túmulo da minha mãe, bem ao lado dos meus lírios brancos.
Uma onda de pura, inalterada fúria percorreu meu corpo. Essas mãos, essas mãos manipuladoras, haviam destruído minha família, e agora ousavam profanar a memória da minha mãe?
"Não se atreva", sibilei, minha voz baixa e perigosa.
Âmbar, fingindo inocência, hesitou. "Laura, eu só..."
Com um grito gutural, balancei o braço, arrancando as rosas vermelhas de sua mão. Elas se espalharam pela terra úmida, suas pétalas carmesim um contraste gritante e grotesco com os lírios brancos imaculados.
Âmbar gritou, pulando para trás como se tivesse sido picada. Heitor se moveu rapidamente, puxando-a para trás dele, seu braço protetoramente em volta de sua cintura. A visão acendeu uma nova onda de fúria dentro de mim.
"Qual é o seu problema, Laura?", Heitor exigiu, a voz afiada de raiva. "Por que você é sempre tão desrespeitosa?"
"Desrespeitosa?", zombei, uma risada amarga escapando dos meus lábios. "Você quer falar sobre desrespeito, Heitor? Quer falar sobre hipocrisia?"
Meus olhos queimaram nos dele. "Lembro-me de um tempo em que você passava horas conversando com ela, contando tudo. Ela te amava, Heitor. Ela acreditava em você. E você a recompensou deixando-a morrer de coração partido."
Sua mandíbula se contraiu, um músculo se contraindo em sua bochecha. Ele não conseguia encontrar meu olhar. Ótimo. Deixe a culpa apodrecer.
"Laura, você está sendo irracional", Âmbar interveio, sua voz de repente firme, perdendo o tom adocicado. "Você está claramente doente. Heitor, deveríamos ir. Ela precisa de ajuda."
"Ajuda?", virei meu olhar ardente para ela, meus lábios se curvando em um desprezo. "Você acha que eu estou doente? Você, a arquiteta de toda essa farsa, ousa me chamar de doente?"
Dei um passo em sua direção, meus olhos nunca deixando os dela. "Nunca mais, nunca mais ouse falar o nome da minha mãe, Âmbar. Você é veneno. Você é uma doença."
Âmbar, surpreendentemente, não recuou desta vez. Seus olhos, geralmente tão calculistas, agora continham uma centelha de malícia genuína. "E você, Laura, é uma mulher patética e delirante. Você perdeu tudo, e a culpa é sua."
Minha mão tremeu. Eu queria esbofeteá-la. Limpar aquele olhar presunçoso de seu rosto. Mas uma ideia diferente, mais insidiosa, se formou em minha mente.
"Ajoelhe-se, Âmbar", ordenei, minha voz baixa, perigosa.
Ela piscou, confusa. "O quê?"
"Eu disse, ajoelhe-se", repeti, minha voz subindo ligeiramente, a autoridade nela surpreendendo até a mim mesma. "Aqui mesmo. Na frente do túmulo da minha mãe. E implore por perdão."
Os olhos de Âmbar se arregalaram, um lampejo de medo finalmente aparecendo neles. "Você está louca, Laura! Eu nunca faria isso!"
"Oh, você vai", contrapus, minha voz fria e inabalável. Agarrei um punhado de seu cabelo perfeitamente penteado, puxando sua cabeça para trás. "Ou eu te obrigo."
Seus olhos correram para Heitor, um apelo desesperado neles. Mas Heitor, pela primeira vez, estava congelado, preso entre seus instintos protetores e um crescente desconforto.
"Laura, pare com isso!", Heitor finalmente gritou, avançando.
Mas era tarde demais. Torci o braço de Âmbar para trás, forçando-a a se ajoelhar. Ela gritou, um ganido agudo e dolorido. A sujeira manchou suas roupas de grife caras.
"Implore", sussurrei em seu ouvido, minha voz uma promessa arrepiante. "Implore pelo perdão dela. Implore pelo do meu pai."
Âmbar se debateu, lágrimas escorrendo pelo rosto, mas ela não era páreo para minha força crua e visceral. Meu aperto se intensificou, seus ossos rangendo.
"Por favor, Laura, pare!", ela choramingou, a voz mal audível. "Eu não... não consigo respirar!"
Heitor finalmente nos alcançou, o rosto contorcido de fúria. Ele arrancou minha mão do cabelo de Âmbar, enviando uma onda de dor pelo meu pulso.
"Laura, que diabos há de errado com você?", ele rugiu, os olhos em chamas. "Você está agindo como um animal selvagem!"
Recuei, esfregando o pulso, meu olhar ainda fixo em Âmbar, que agora soluçava histericamente, agarrada a Heitor.
"Ela merece coisa pior", afirmei, minha voz fria, desprovida de remorso. "Muito, muito pior."
Heitor se colocou na frente de Âmbar, protegendo-a do meu olhar. "Você precisa de ajuda, Laura. Ajuda séria. Você está perdendo a cabeça."
"Eu estou perdendo a cabeça?", ri, um som sem alegria, quebrado. "Você me manipulou, Heitor. Você me traiu. Você destruiu minha família. E tem a audácia de dizer que estou perdendo a cabeça?"
Seu rosto endureceu. "Você é um perigo para si mesma e para os outros, Laura. Não posso deixar você continuar assim."
Ele se virou para Âmbar, sua voz suavizando. "Âmbar, sinto muito. Você está bem?"
Ela assentiu, soluçando em seu peito, lançando um olhar triunfante para mim por cima do ombro dele. A pura malícia em seus olhos era inconfundível.
"Você realmente ainda a está protegendo, não é?", perguntei a Heitor, minha voz um eco oco no cemitério silencioso. "Depois de tudo o que ela fez."
Ele não respondeu. Apenas segurou Âmbar com mais força, seu olhar fixo em mim, uma mistura de pena e desprezo em seus olhos.
"Tudo bem", eu disse, uma nova resolução endurecendo minhas feições. "Então terei que garantir que vocês dois recebam o que merecem."
Virei as costas para eles, afastando-me do túmulo da minha mãe, longe das duas pessoas que haviam roubado tudo de mim. Não olhei para trás.
"Laura!", Heitor chamou atrás de mim, a voz um apelo desesperado. "Não faça nada de que vá se arrepender!"
Parei por um momento, depois continuei andando, meu passo firme, meu propósito claro. Arrependimento? Eu não tinha mais nada do que me arrepender. Apenas vingança.
O sedã preto elegante, o motorista de Caio, estava me esperando nos portões do cemitério. Enquanto me aproximava, o motorista, um homem grande e imponente, saiu e abriu a porta de trás. Minha fuga. Meu futuro.
Entrei, e o carro partiu, deixando Heitor e Âmbar para trás, em meio à desolação de sonhos desfeitos e vidas estilhaçadas. Meu último olhar no retrovisor os mostrou como figuras pequenas e insignificantes.
O motorista me olhou pelo espelho. "Destino, senhora?", ele perguntou, a voz neutra.
"O aeroporto", eu disse, minha voz firme, meus olhos fixos no horizonte. "E depois, uma nova vida."
Ponto de Vista de Laura Moraes:
Deixei o túmulo da minha mãe com o coração pesado, mas com um passo mais leve. O confronto com Heitor e Âmbar me esgotou, mas também solidificou minha resolução. Não havia mais volta agora. Apenas para frente.
O sedã preto elegante me levou embora, as luzes da cidade se transformando em um borrão indistinguível. Meu destino: o centro de vistos. Um novo passaporte. Um novo nome. Um novo começo.
O processo foi surpreendentemente tranquilo, quase estranhamente. Caio Mendes era eficiente, para dizer o mínimo. Em poucas horas, eu tinha uma nova identidade, um novo começo. O peso do passado, embora ainda agarrado à minha alma, parecia uma fração mais leve. Um fantasma de sorriso tocou meus lábios.
De volta ao apartamento, o silêncio era ensurdecedor. Heitor não havia retornado. Ótimo. Significava menos drama, menos de sua presença sufocante. Caminhei pelos cômodos familiares, cada um uma relíquia de uma vida que não era mais minha. O piano de cauda na sala de estar, um presente do meu pai. As inúmeras obras de arte, colecionadas durante nossas viagens. As memórias estavam por toda parte, agarradas a cada superfície como poeira.
Embalei apenas o essencial. Roupas, alguns itens sentimentais. Parei em uma pequena fotografia emoldurada na minha mesa de cabeceira. Era uma foto da minha família, tirada anos atrás, antes de tudo desmoronar. Meu pai, radiante, com o braço em volta da minha mãe. Eu, uma garota despreocupada e vibrante, rindo com Heitor, seu braço frouxamente em volta da minha cintura, seus olhos cheios de adoração. Um eco doloroso de um amor que um dia fora tão puro.
Cuidadosamente, coloquei-a na minha bolsa. Era a única peça tangível do meu passado que eu levaria comigo. Um lembrete do que eu havia perdido. E pelo que eu estava lutando.
Os dias seguintes passaram em um borrão. Heitor não havia retornado. As ligações, antes uma barragem constante, haviam parado. O silêncio, inicialmente uma fonte de desconforto, lentamente se transformou em uma paz frágil. Pela primeira vez em dois anos, dormi profundamente, sem ser perturbada por sua presença, suas exigências, seu tormento psicológico.
Minha paz recém-descoberta, no entanto, foi de curta duração.
Meu telefone tocou, uma intrusão estridente na manhã tranquila. Era Heitor. Meu coração saltou para a garganta, um nó familiar de pavor se apertando no meu estômago. Hesitei, depois atendi.
"Laura", sua voz estava tensa, carregada de uma fúria mal disfarçada. "O que você fez com a Âmbar?"
"Do que você está falando, Heitor?", perguntei, fingindo ignorância. Minha mente, no entanto, já estava acelerada, juntando as possibilidades. O cemitério. Meu ataque.
"Não se faça de desentendida, Laura", ele retrucou, a voz subindo. "Âmbar está no hospital. Ela tem um pulso fraturado e uma concussão. Os médicos dizem que foi de uma queda."
Um pulso fraturado? Uma concussão? Minhas ações tiveram consequências. Ótimo. Deixe Âmbar sofrer uma fração do que ela infligiu à minha família.
"É mesmo?", respondi, minha voz fria e distante. "Talvez ela devesse ter mais cuidado onde pisa."
"Laura!", ele rugiu, a voz cheia de indignação. "Isso não é um jogo! Você a feriu gravemente!"
"E quanto ao meu pai, Heitor?", contrapus, minha voz endurecendo. "E quanto à minha mãe? Os ferimentos deles não foram graves o suficiente para você?"
Um som engasgado escapou de seus lábios. "Isso é diferente, Laura. Aquilo foi justiça."
"Justiça?", zombei, uma risada amarga escapando dos meus lábios. "Você chama armar para um homem inocente, destruir sua família e levar sua esposa a uma morte prematura de 'justiça'? Você é um hipócrita, Heitor. Um monstro."
"Você precisa pagar por isso, Laura", ele disse, a voz perigosamente baixa. "Âmbar está prestando queixa. Você será presa."
"Presa?", ri, um som áspero e sem humor. "E serei acusada de quê, Heitor? Agressão? Lesão corporal? Depois de tudo que você me fez passar, você acha que um arranhãozinho vai me quebrar?"
Minha voz baixou, uma resolução arrepiante entrando nela. "Vá em frente, Heitor. Me prenda. Me processe. Me julgue. Mas certifique-se de que seja você quem lidera a acusação. Quero ver o rosto do homem que destruiu minha vida, o homem que se diz um campeão da justiça, tentar me condenar novamente."
Um silêncio atordoado encheu a linha. Ele não esperava isso. Ele esperava medo, lágrimas, súplicas por misericórdia. Mas não havia mais nada a temer. Nada mais a perder.
"Laura", ele finalmente disse, a voz tremendo com uma emoção que eu não conseguia decifrar. "Você mudou. Você não é a mulher com quem me casei."
"Não, Heitor, não sou", concordei, minha voz fria e dura. "Você a matou. Você a enterrou sob o peso de suas mentiras e sua traição."
Desliguei, o clique do telefone ecoando no apartamento vazio. Uma estranha mistura de euforia e vazio me invadiu. Eu finalmente me impus. Eu finalmente revidei. Mas a vitória parecia oca, tingida de uma tristeza profunda e persistente pela mulher que eu costumava ser.
Fechei os olhos, uma única lágrima escapando, traçando um caminho pelo meu rosto.
Deitei-me novamente, a exaustão me puxando para baixo. Adormeci, uma paz frágil se instalando sobre mim mais uma vez.
A próxima coisa que soube foi um olhar frio e penetrante sobre mim. Meus olhos se abriram de repente.
Heitor. Ele estava sentado na beira da minha cama, o rosto envolto em sombras, os olhos brilhando na luz fraca. Ele havia entrado. Claro. Ele sempre fazia isso.
"Heitor", eu disse, minha voz fria, desprovida de surpresa. "O que você quer?"
Ele não respondeu imediatamente. Apenas me encarou, seu olhar intenso, indecifrável. O silêncio se estendeu, denso com acusações não ditas e ressentimento latente.
Finalmente, ele falou, a voz baixa e perigosa. "Âmbar se recusa a retirar as acusações."
Zombei. "Claro que sim. Ela adora bancar a vítima."
Ele ignorou meu sarcasmo. "A mídia está fazendo a festa, Laura. Seu pequeno chilique no cemitério está em todas as notícias. Estão te chamando de desequilibrada, instável. Um perigo para a sociedade."
"E você acredita neles, não é?", perguntei, minha voz carregada de ironia amarga. "O grande promotor, Heitor Almeida, sempre acredita na narrativa que mais lhe convém."
Ele enfiou a mão no bolso e tirou o celular, enfiando-o na minha mão. A tela brilhava com uma enxurrada de manchetes, posts de redes sociais e artigos de notícias, todos me pintando como uma mulher louca e instável. A seção de comentários era um poço de veneno e condenação.
"Eles estão pedindo sua prisão, Laura", ele disse, a voz fria. "Sua internação."
Rolei pelos posts, meu rosto não traindo nenhuma emoção. Era exatamente o que Âmbar queria. O que Heitor permitiria.
"Eles querem que você se desculpe publicamente", ele continuou, a voz tingida com uma estranha mistura de autoridade e algo quase como pena. "Por agredir a Âmbar. Por profanar o túmulo da sua mãe."
Levantei o olhar do telefone, meu olhar encontrando o dele. "E você quer que eu faça isso, não é, Heitor?"
Ele não vacilou. "É a única maneira de fazer isso desaparecer, Laura. Para se proteger."
"Me proteger?", ri, um som oco e sem alegria. "Você fez um trabalho maravilhoso me protegendo até agora, não é, Heitor?"
Minha mente voltou a uma memória, um contraste gritante com o homem sentado diante de mim. Anos atrás, um grupo de garotos me encurralou depois da escola, zombando das recentes lutas do meu pai com o álcool. Heitor, então apenas um adolescente, apareceu do nada, seus punhos voando, defendendo minha honra com uma ferocidade que me tirou o fôlego. Ele me abraçou forte naquele dia, seus sussurros tranquilizadores um bálsamo para meu espírito ferido. Ele tinha sido meu protetor então. Meu cavaleiro.
Agora, ele era meu algoz.
"Você realmente espera que eu peça desculpas, Heitor?", perguntei, minha voz perigosamente calma. "Para a Âmbar? Para o mundo que você construiu com tanto cuidado?"
Ele suspirou, passando a mão pelo cabelo. "É para o seu próprio bem, Laura. Apenas peça desculpas. Diga que sente muito. E tudo isso pode passar."
"E depois, Heitor?", desafiei, meus olhos se estreitando. "Você vai me aceitar de volta? Vai fingir que nada disso aconteceu?"
Ele hesitou, seu olhar se desviando do meu. O silêncio se estendeu novamente, pesado com sua resposta não dita. Ele não podia. Ele não faria. Não enquanto Âmbar ainda estivesse na jogada. Não quando sua carreira, sua imagem cuidadosamente cultivada, estivesse em jogo.
"Eu vou me desculpar", finalmente disse, minha voz clara e firme.
Sua cabeça se ergueu, um lampejo de surpresa em seus olhos. Ele não esperava que eu concordasse tão facilmente.
"Mas com uma condição", continuei, minha voz inabalável.
Ele ergueu uma sobrancelha, uma pitada de suspeita em seu olhar. "Que condição?"
Alcancei debaixo do meu travesseiro, puxando um pedaço de papel dobrado. Era um acordo pré-nupcial, redigido anos atrás, antes do nosso casamento. Eu havia feito algumas modificações. Significativas.
"Assine isso", eu disse, estendendo-o para ele. "E eu me desculparei."
Ele pegou o papel da minha mão, seus olhos percorrendo o documento. Sua testa franziu, depois seus olhos se arregalaram ao ler as novas cláusulas. Cortava todos os laços, todas as reivindicações, todas as obrigações financeiras. Era uma dissolução completa e total do nosso casamento, com efeito imediato. E estipulava que ele inocentaria publicamente meu pai.
Ele olhou para mim, o rosto uma mistura de choque e incredulidade. "Laura, o que é isso?"
"É o único jeito, Heitor", afirmei, minha voz fria e firme. "Assine. Ou não há desculpas. E eu deixarei a mídia, e todo mundo, acreditar no que quiser sobre mim."
Ele encarou o documento, depois de volta para mim, uma batalha travando em seus olhos. Sua reputação. Sua carreira. Sua vida cuidadosamente construída. Tudo em jogo.
Ele pegou uma caneta da mesa de cabeceira, a mão tremendo ligeiramente. Sem outra palavra, ele rabiscou sua assinatura na parte inferior da página. Ele nem leu a última linha, aquela onde ele reconhecia sua cumplicidade na condenação injusta do meu pai.
Uma onda de triunfo percorreu meu corpo, fria e eletrizante. Ele havia assinado. Ele finalmente havia cedido.
"Bom", eu disse, um leve sorriso tocando meus lábios. "Estarei lá. Na coletiva de imprensa. Não se preocupe."
Eu o observei ir, o documento apertado na minha mão. Ele saiu, os ombros caídos, os passos pesados. Parecia um homem que acabara de perder algo precioso.
Mas o que ele havia perdido? Seu controle sobre mim? Sua fachada de retidão?
Eu sabia de uma coisa com certeza. Ele não me havia perdido. Porque eu já tinha ido embora há muito, muito tempo.
Ele parou na porta, virando-se para mim, um lampejo de preocupação em seus olhos. "Laura, você... você está realmente bem?"
Eu simplesmente assenti, meu rosto uma máscara em branco. Ele hesitou por mais um momento, depois saiu, a porta se fechando suavemente atrás dele.
Esperei até ouvir o som fraco de seu carro se afastando. Então, levantei-me, meus movimentos lentos e deliberados. O acordo, agora assinado, era minha arma. Meu escudo. Minha chave para a liberdade.
Não me preocupei em me vestir. Apenas me enrolei em um roupão de seda e caminhei para a grande sala de estar, o documento apertado na minha mão.
A coletiva de imprensa já estava a todo vapor quando cheguei. A sala estava lotada de repórteres, flashes de câmeras, microfones estendidos. Heitor estava no pódio, o rosto sério, Âmbar ao seu lado, o braço em uma tipoia, uma imagem de vítima frágil.
Ele me viu entrar, seus olhos se arregalando quase imperceptivelmente. Um lampejo de surpresa, depois outra coisa. Resignação.
Caminhei para a frente, diretamente em frente ao pódio, a cabeça erguida, o olhar inabalável. Os repórteres voltaram sua atenção para mim, uma nova onda de flashes de câmeras explodindo.
Heitor pigarreou, seus olhos encontrando os meus. Parecia incerto, quase suplicante. Ele esperava que eu seguisse o roteiro. Que me desculpasse. Que bancasse a vítima.
Subi ao pódio, pegando o microfone de sua mão trêmula. Ele pareceu momentaneamente atordoado, depois recuou, um lampejo de medo em seus olhos.
Varri a sala com o olhar, passando pelos rostos ansiosos dos repórteres, depois pousando em Âmbar, que parecia presunçosa e triunfante. Finalmente, meus olhos encontraram os de Heitor. Seu rosto era uma mistura de confusão e apreensão.
"Eu tenho algo a dizer", anunciei, minha voz clara e firme, cortando os murmúrios na sala.
A testa de Heitor, que estava franzida de preocupação, relaxou ligeiramente. Ele achou que eu ia me desculpar. Achou que eu ia jogar o jogo dele.
"Eu admito", continuei, minha voz inabalável, "eu fiz algo ruim."
Um suspiro coletivo percorreu a sala. Os olhos de Heitor se arregalaram, um lampejo de alívio neles. Âmbar sorriu, um sorriso triunfante brincando em seus lábios.
"Mas", acrescentei, minha voz baixando, um tom perigoso se insinuando, "não foi nada comparado ao que você fez, Heitor Almeida, e você, Âmbar Costa. E por isso... vocês merecem cada uma das consequências que estão por vir."
A cor sumiu do rosto de Heitor. O sorriso triunfante de Âmbar se dissolveu em uma expressão de puro, inalterado horror. A sala explodiu.