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Um CEO e a Sereia

Um CEO e a Sereia

Autor:: Ronald_P
Gênero: Romance
Dois mundos completamente diferentes vão colidir, gerando uma explosão de sentimentos. Luca é um jovem CEO que aos 25 anos fundou a própria empresa de criação de jogos, após ganhar fama e dinheiro como gamer na adolescência. Racional, rabugento e emocionalmente quebrado. Micaela é pura energia. Alegre, altruísta e mística, em uma noite, mergulhada no tédio, resolve ativar o aplicativo de relacionamentos e se depara com Luca, ou melhor, alguém usando as fotos dele. O que ela jamais imaginava, é que o verdadeiro Luca estaria à bordo do mesmo Cruzeiro luxuoso que ela. Micaela acredita que ele é o cara legal com quem vem conversando. Luca não faz a mínima ideia de quem ela seja. Será que Micaela e o verdadeiro Luca, conseguirão superar as diferenças?

Capítulo 1 Capitulo 1

MICAELA

Marcelo me pegou no colo e subiu os poucos degraus que davam acesso a abertura do tanque de tubarões e arraias. Minha cauda furta cor pesava uns vinte quilos e depois de vestida, era impossível andar. Ele me colocou sentada na beirada, as crianças e pessoas logo abaixo ficaram eufóricas quando viram parte da grande barbatana dentro da água. Verifiquei a firmeza da coroa com as mãos e mergulhei.

Eu era uma sereia e apesar de amar minha profissão, existiam questões que a maioria sequer imaginava. Manter os olhos abertos em águas salgadas era doloroso e eu vivia à base de colírios, o cabelo exigia que eu gastasse uma boa quantia com hidratações e produtos. A temperatura dos tanques era baixa, no outono piorava. Na época do frio, eu não me apresentava, mas além de ganhar bem, o que me permitia guardar um dinheiro todo mês, eu também tinha o meu ateliê, onde confeccionava caudas lindas e resistentes. Conquistei clientes até fora do México.

Além do aquário, eu também me apresentava em algumas festas. Treinava todos os dias, chovesse ou fizesse sol, lá estava eu na piscina do prédio ou na praia. Conseguia segurar a respiração por até três minutos debaixo d'água, mas queria chegar a quatro. Confesso que a parte mais

chata, era aguentar os assédios, apesar de não acontecerem com frequência. Eu tinha sorte, conversava com outras mulheres que conheci no curso de sereias nas Filipinas e parte delas chegaram a desistir por causa do número alto de propostas indecentes.

Após quinze minutos de show, fui retirada do tanque e mais uma vez, Marcelo, um dos meus auxiliares, me ajudou. Assim que entrei no camarim, duas moças vieram desenrolar a minha cauda. Era um alívio. Vesti meu roupão e quando estava entrando no banheiro, alguém bateu na porta.

- Micaela, já está trocada? - Marcelo perguntou.

- Pode entrar - gritei.

Ele não estava sozinho, uma senhora muito elegante o acompanhava e assim que ela me viu, sorriu.

- Essa é dona Vera Bicalho, esposa do senhor Álvaro...

- Dono da AVB Genetics, certo?

- Isso mesmo! - Vera estendeu a mão e eu a apertei com firmeza. - Prazer - ela olhou ao redor, curiosa. - Sua maquiagem é bem resistente!

- Tem que ser - sorri. - Como posso ajuda-la dona Vera? - sentei no pequeno sofá e apontei para a poltrona, a convidando para fazer o mesmo.

- Meu marido e eu vamos dar uma grande festa na ilha de Cozumel e gostaria que você estivesse lá, recebendo os convidados na praia, muitos vão chegar em seus iates, seria muito peculiar serem recebidos por uma sereia tão linda!

Era sobre essas festas que eu estava falando, geralmente de milionários que não sabiam mais onde enfiar tanto dinheiro e achavam bacana ter uma sereia de estimação no deck recepcionando seus convidados tão ricos quanto eles.

- Quando e por quantas horas? - perguntei.

- É só em fevereiro, ainda temos um pouco mais de trinta dias e seria por quatro horas, você sabe Micaela, muitos vão querer tirar fotos, as crianças vão amar, caso a gente precise de mais tempo, pago o extra, até porque, sugiro que durma na nossa casa e pegue o voo de volta no dia seguinte, assim você descansa. - Vera tinha a voz suave e gestos delicados, uma verdadeira dama.

- Certo! - suspirei e fui até o frigobar. - Aceita uma água? - Ela recusou gentilmente. - O único problema é que os finais de semana são os dias que mais me apresento aqui no aquário... - voltei para o sofá.

- Não querida, nossa festa será numa quarta-feira!

- Em apresentações particulares assim, eu cobro quatro mil pesos mexicanos a hora e claro, a locomoção é por conta do contratante! Me deixe por favor seu e-mail dona Vera e pedirei para que a minha assessora te encaminhe o contrato, caso aceite minhas condições.

- Dinheiro não é problema e você vai no nosso helicóptero. - Ela pegou um cartão de visitas da própria empresa. - Aqui estão todos os meus contatos, aguardo o contrato. - Vera se levantou, agradeceu e saiu.

Me sentia exausta após várias apresentações, tomei um banho, vesti uma roupa confortável e fui para o meu apartamento, minha nova e tão sonhada aquisição. Aos vinte e cinco anos já tinha conseguido meu próprio imóvel e essa era uma das melhores sensações da minha vida até então.

Pedi um combo de comida japonesa e me joguei no sofá. Meu cantinho não era grande, mas era meu e tinha uma vista espetacular. A brisa fresca e atípica que vinha da varanda, trazia uma sensação de paz, enquanto as cortinas dançavam no ritmo do vento. Peguei meu celular e conferi as mensagens, nada de importante. Abri a minha principal rede social para ver o que Gabi, minha assessora tinha postado e o número de notificações me deu preguiça, fechei na mesma hora.

Comecei a limpar a galeria do aparelho e deletar aplicativos que eu não usava mais, titubeei quando passei pelo de encontros e namoros. Há alguns meses eu tinha criado uma conta, na intenção de tentar conhecer alguém bacana, mas dei azar, muito azar, todos os meus matchs foram radioativos. Depois do último encontro desastroso, onde o cara nos primeiros dez minutos, disse que se namorássemos, eu teria que abandonar a minha profissão, desativei o perfil, mas mantive o aplicativo sei lá por qual motivo.

Fiz o login de novo e comecei a zapear os perfis. Alguns me davam vontade de vomitar, outros me faziam rir e poucos despertavam algum tipo de interesse em mim. Mantive a maioria das minhas fotos usando a cauda de sereia, era um bom termômetro e já deixava bem claro o que eu fazia. Claro que também gerava mensagens impertinentes e nojentas, mas nesse caso, eu bloqueava. Tudo era um pouco mais fácil de se resolver online. Nunca tive preferências por homens padrões, não me importava na verdade, massa muscular era o último item da minha lista imaginária, o primeiro era massa encefálica. Nada mais afrodisíaco e excitante do que inteligência.

Meu jantar, que eu podia chamar de ceia, devido ao horário, chegou. Enquanto eu apreciava o salmão cru, embebido no molho shoyo se

desmanchando na minha boca, cai em um perfil que chamou a minha atenção. Tinha apenas três fotos, uma delas, a principal, era das mãos no volante, belas mãos por sinal, grandes, joviais, bem cuidadas e unhas feitas. As veias levemente salientes e os anéis davam um ar sexy. A outra, tirada de cima, mostrava um filhote de cachorro e parte dos pés da pessoa que usava um chinelo de dedos branco, mais uma vez, bem cuidado, o dono daqueles pés poderia fazer publicidades com eles.

Por fim, a última foto exibia um clássico pôr do sol e parte de uma silhueta, aparentemente tirada em algum país frio, dava para notar a touca e o casaco pesado. "Não basta ter sentimentos, tem que haver todos fluindo ao mesmo tempo. Me responde, qual o plural de nó? "

Nós!

Um sorriso espontâneo se abriu em meu rosto. Não havia exigências grotescas e imbecis, muito menos uma egolatria sem tamanho. Eram apenas fotos misteriosas, que me deixaram atiçada para conhecer o dono daquelas mãos e daquele filhote tão fofo. Nem sequer tinha um nome, apenas um M seguido de um ponto. Quanto mistério, senhor M. Movida pela curiosidade e um fio de esperança, apertei no coração e fechei o aplicativo em seguida, terminando meu jantar.

Já era quase onze horas da noite e apesar de cansada, eu não estava com sono. Prendi meus longos cabelos quimicamente ruivos em um coque fofo e volumoso no topo da cabeça. Eu precisava driblar a preguiça e cuidar da minha pele, o excesso de água salgada a deixava ressecada, mesmo sendo oleosa. Ainda haviam resquícios de maquiagem nos meus olhos. Eu odiava cobrir as minhas sardas, mesmo eu não sendo ruiva, tinha várias salpicadas pela testa, nariz e maçãs do rosto, talvez pelo excesso de sol que eu amava, apesar de não ser recomendado, mas eram exigências, assim

como manter o físico magro, se fosse possível, me fariam usar lentes de contato verdes ou azuis, mas debaixo d'água e precisando manter os olhos abertos, era impossível, porém, em festas onde eu não mergulhava, geralmente acabava aderindo.

Parte das minhas amigas estavam em relacionamentos sérios, quase casando, uma delas já esperava o primeiro filho e as que ainda se mantinham solteiras, gostavam de baladas, nesse momento, com certeza elas estavam em algum esquenta e eu não conseguia mais acompanhar esse ritmo, meu trabalho parecia moleza para quem olhava de fora, mas era exaustivo em vários aspectos, inclusive psicologicamente falando. Fora isso, se tratava de uma carreira com prazo de validade, assim como modelos e jogadores, um dos motivos pelos quais criei o ateliê, onde Rosa, minha mãe, uma talentosa costureira, ficava à frente.

Capítulo 2 Capitulo 2

Estávamos pensando em expandir, acrescentar as caudas e os bustiês de conchas em tamanhos maiores, abrangendo todos os corpos, pois o sereismo também se tratava disso, apesar de ainda existir resistência quando falamos em apresentações. Sereias possuíam uma forte ligação com o feminismo, mas quando o assunto eram os shows, os padrões impostos pela sociedade prevaleciam e eu desejava mudar isso. Qualquer uma podia ser uma sereia, independentemente da cor da pele, do corte de cabelo ou do tamanho do seu manequim.

Queríamos contratar mais mulheres, devido a demanda, muito provavelmente isso aconteceria nos próximos meses, só precisávamos de um espaço maior e bem arejado, nosso lema era trazer todo o conforto possível para as funcionárias. Com a pele devidamente limpa e hidratada, fui para a cama, regulei o ar condicionado e ouvi quando meu celular apitou, avisando que tinha uma nova notificação.

"Dizem que o canto das sereias encanta, mas acredito que o silêncio, além de tão encantador quanto, pode revelar. "

Fiquei encarando a tela, com uma das mãos na boca, tentando segurar o riso fácil. Era a primeira vez que alguém naquele aplicativo puxava conversa comigo sem a mesmice de sempre ou com mensagens vulgares. Entenda, eu amo uma vulgaridade, mas com a pessoa certa, no momento certo e não com alguém que eu não conhecia. Ainda que se tratasse apenas de sexo casual, não era necessário apelar e ser um tarado asqueroso.

"Entender o silêncio de alguém, requer um certo grau de intimidade, portanto, concordo, pode ser muito revelador. "

"Muitas vezes, uma resposta..." " Talvez a mais certeira! "

" E então Micaela? Quais as boas no fundo do mar hoje? Um barzinho, música ao vivo ao lado dos tubarões com muito Bloody Mary ou algo mais eletrizante com as enguias? "

Gargalhei.

"Tô mais para aquele peixe que cava um buraco pra descansar, senhor M. Aliás, posso saber seu nome? "

"Maurício! "

3 SEMANAS DEPOIS

LETÍCIA

Após provar para o meu primo Luca que a vadia da Priscila não prestava, eu deletei o perfil do Heitor e criei o M. usando partes de fotos do próprio Luca com o intuito de continuar tirando prints de contas radioativas e alimentar o meu perfil, que só crescia, voltado para isso. Não sei onde estava com a cabeça quando dei match com a Micaela, eu nunca tinha feito isso antes, acho que a curiosidade berrou dentro de mim quando vi que ela praticava o sereismo. Infelizmente eu gostava de homens e ela também. Agora, a culpa me consumia, pois Micaela era uma mulher única e contar a verdade, a deixaria muito chateada, mas continuar alimentando essa farsa, também seria sacanagem. Que grande merda eu fui fazer.

E se eu sumir? Deletar e fingir que isso nunca aconteceu?

- Fala, prima! - Luca entrou no meu quarto e me abraçou apertado, dissipando os meus pensamentos.

- E aí, moleque, nervoso pra festa?

- Que nada... - Ele me soltou. - Mentira, tô nervoso, ansioso

e...

- Respira! - apoiei as mãos em seus ombros, inspirando e expirando devagar. - Não tem como dar errado, vem, vamos lá verificar como está o andamento, que tal? Red Expansion já é um sucesso, os grandes gamers piraram na versão que você mandou pra eles, a galera tá babando por esse jogo, o que pode dar errado, moleque?

- Certo, certo, vamos! Bom que já vamos ver como fica à noite.

Entrei no carro de Luca e logo o celular dele tocou, enquanto ele tagarelava no idioma de programador, me perdi em meus pensamentos. Era curioso o fato de que Micaela até agora não tinha me pedido uma foto, ou áudio, ou vídeo chamada e todos os dias eu morria um pouco por dentro ao pensar que isso estava próximo de acontecer. O áudio era o menor dos meus problemas, fotos de certa forma também, mas vídeo chamada? Onde eu fui me meter?

- Acredita? - Luca perguntou.

- No que?

- Eita, onde você estava? Cara novo no pedaço?

- Claro que não...eu estava pensando na minha roupa pra amanhã! Luca, tenho uma amiga que é muito sua fã, não perde uma live, será que você pode fazer um vídeo curto pra ela?

Ele me encarou com seus olhos esverdeados e jogou os cabelos para trás. Meu primo era sexy, dono de uma beleza única. Esquece aquele estereótipo de nerd que a mídia e os filmes mostram. Luca arrancava suspiros por onde passava e tinha uma legião de fãs femininas, que inclusive, só começaram a jogar vídeo game por causa dele.

- Claro, o que você quer que eu diga? Qual o nome dela?

- Ariel! - Ah merda, o que eu estava fazendo? Ele estendeu a mão com a palma para cima e eu entreguei meu celular. - Só deseje uma boa apresentação e pede pra ela ter cuidado com os tubarões!

- Tubarões? O que ela faz? - Luca franziu as sobrancelhas.

- Cantora, tubarões são os machos chatos que ficam atormentando ela, sacou?

E foi assim que eu comecei a cavar cada vez mais fundo o meu próprio lamaçal de merda e mentiras. Meu primo fez o que eu pedi e no final ainda deu aquela piscadinha que fazia qualquer coração sair galopando feito um cavalo desembestado.

- Mas, e então, o que estava dizendo? - retomei a conversa, tentando não cair na tentação de enviar o vídeo para Micaela aleatoriamente.

- Priscila, ela já está namorando, dessa vez é um desses gurus fitness da internet! - Luca riu, e isso me deixava aliviada, pois ele era péssimo em esconder suas emoções. Sua risada genuína indicava que meu primo estava bem.

- Ó, que surpresa! - debochei.

Chegamos no salão onde seria a festa de lançamento e assim que entramos, dei um grito. O lugar era o cenário perfeito do jogo, Velho Oeste. Red Expansion não era um simples game de tiros, ele contava toda a história da marcha para o Oeste, a tomada de boa parte do território Mexicano pelos americanos, o Destino Manifesto e o sangue derramado entre cowboys, indígenas, xerifes e agentes do governo.

- Está incrível! - rodopiei pelo salão.

- Surreal... - Luca observava todos os detalhes, segurando o próprio queixo. - Imagina só, amanhã os personagens principais do jogo é que vão recepcionar os convidados! Teremos referências ao Chefe da tribo Sioux, ao pajé e claro, Joe the Killer, nosso cowboy sanguinário!

- Boss! - Leo apareceu e eu odiava o frio na barriga que sua presença causava em mim.

- Não me chame assim, palhaço! - Os dois se abraçaram. - Isso está demais!

- Ainda nem manchamos o local de sangue, você vai ver amanhã!

- Ele se virou em minha direção. - Oi Letícia!

- Oi Leo! - tentei controlar o sorriso. - E quem vocês vão sacrificar para espalhar sangue nesse salão enorme? - gargalhei como uma hiena no leito de morte e Luca forçou uma risada ridícula.

- É sangue falso. - Leo respondeu confuso, eu achava lindo esse

delay.

- Ufa!

Ele continuou sem entender. Ao contrário do meu primo, Leo

carregava em seu peito uma placa neon sinalizando o quão nerd ele era, além de ser uma versão mais jovem de Tobey Maguire, o que fazia a minha calcinha umedecer e a saliva secar. Quantas noites solitárias passei fantasiando eu no seu colo, dando feito uma cachorra no cio enquanto ele me comia usando apenas seu estiloso óculos.

Nunca tive coragem de expor meus sentimentos, não me achava inteligente o suficiente para ter qualquer tipo de relacionamento com ele que não fosse esse coleguismo e paixão platônica através do meu primo. Eu era apenas uma secretária de um grande executivo, Álvaro Bicalho e

trabalhava na AVB Genethics. Quando meu primo abriu a Bellatrix, me convidou para trabalhar com ele, mas meu chefe me ajudou muito e sempre me tratou com respeito e amor, além do mais, misturar negócios e família não me agradava. Meu celular vibrou e me afastei dos dois, era uma mensagem de Micaela.

"Quais os planos pra essa noite de sexta-feira tão quente? " "Ensaios finais para o casamento do meu primo. "

É, eu sei. Mentiras e mais mentiras, mas se eu falasse que era uma festa de lançamento de jogo, ela poderia pedir um convite, não sei. Ou aparecer e pedir para chamar o tal Maurício, dar um escândalo na porta, mesmo acreditando que esse não era seu perfil, mas como eu podia ter certeza? A internet pode ser uma grande farsa e eu era a prova viva disso.

" Ah sim, você havia comentado mesmo, acho que me perdi no tempo. Bom ensaio então, senhor misterioso! "

" Não devo demorar, pequena sereia, mais tarde te chamo! "

Sua resposta veio em forma de um emoji mandando beijo. Micaela era uma romântica incurável, que ainda acreditava em verdadeiros amores e finais felizes, eu achava isso lindo nela. Havia uma pequena carência e uma dose de solidão, mas ela não era pegajosa. Micaela não precisava de uma companhia para se sentir completa, aquela mulher bem-resolvida, só estava em um momento da vida, onde desejava podê-la dividir com alguém.

Capítulo 3 Capitulo 3

Eu não queria tirar isso dela, mas também, por motivos óbvios, não podia ser essa pessoa. O máximo que eu tinha para oferecer era a minha amizade, que certamente Micaela descartaria assim que soubesse de toda a verdade e só de pensar nisso, meu coração encolhia, algo me dizia que ela seria uma ótima amiga. Mas que inferno! Olhei para Leo e Luca, e

gargalhei ao pensar que o nome dos dois, parecia nome de dupla sertaneja. Me aproximei deles.

- Leo, aquelas telas ali, acho que deveriam ficar um pouco mais

pro canto, os técnicos estão por aí? - Luca perguntou.

- Tão sim, estavam passando os fios ali atrás... - Leo apontou para o fundo do salão e Luca saiu, nos deixando a sós.

Meus dentes buscaram as peles ressecadas do meu lábio inferior, eu as mastigava como se fossem chicletes, enquanto ele olhava ao redor, com as mãos nos bolsos de seu jeans justo, um tanto quanto inquieto. Acho que Leo odiava ficar sozinho comigo. Abri a boca algumas vezes, tentando quebrar o silêncio constrangedor, mas por algum motivo, eu não conseguia pensar em nada de útil para falar.

- E então, como tá o serviço? - Leo ao menos tentou e foi mais rápido que eu.

- Bem...vendendo esperma de boi igual água! - Não sei porque, mas dei uma risada alta e desengonçada, enquanto ele me olhava um pouco ressabiado e ao invés de eu calar a boca, continuei. - Você sabia que um boi pode ejacular até vinte e cinco mililitros? Claro, isso com a eletroejaculação...

- Eu...eu realmente não sabia disso... - Leo forçou um sorriso.

- A palavra eletro e ejaculação na mesma frase é um pouco assustador!

- Ah não, mas é uma cápsula metálica que fica entrando e saindo do cu do boi!

Cala a merda da boca, Letícia!

- Nossa... - Claro que ele não soube o que responder e então, de novo estávamos mergulhados no silêncio incômodo.

- Desculpe! - Dei alguns passos para trás. - É que lá na empresa é muito comum falarmos sobre isso, mas sei que pode ser estranho... - senti algo duro na minha bunda, infelizmente não era o pau do Leo, mas sim o encosto de uma cadeira. - Eu vou lá fora tomar um ar!

- Esbarrei na ponta da mesa e sai apressada.

Corri pelo grande salão e assim que saí pela porta, inspirei com força e devagar. Aquele desgraçado roubava os meus sentidos e boa parte dos meus neurônios, eu nunca tive problemas em flertar com homens, pelo contrário. Se eu estivesse em algum lugar e cismasse com um cara, eu terminava a noite enroscada em seus lençóis ou na cama de um motel qualquer.

- Lê, você tá bem? - Luca colocou a mão no meu ombro e eu dei um salto.

- Tô, tô bem!

- Não quis te assustar, Leo disse que você saiu correndo, como se ele tivesse com alguma doença contagiosa! O que tá pegando, garota?

- Nada, ué, apenas precisava de um ar fresco. Podemos ir

embora?

Luca me olhou desconfiado, torceu a boca formando um sorriso ao

contrário e concordou com a cabeça.

- Você gostaria de conhecer alguém legal? - perguntei assim que ele estacionou em frente de casa.

- Sei lá, é tudo muito recente. Tô meio traumatizado e com medo de aproximações por interesse - Luca encarava o horizonte.

- Entendo...boa noite, garoto!

- Boa noite, garota!

MICAELA

- Você tá me dizendo que conversa com um cara super gente boa e nunca pediu ao menos um foto, Mica? Isso e ridículo, me dê esse celular agora!

- Não, Lupe! Deixa que eu estou fazendo as coisas do meu jeitinho! - Encarei meu reflexo e comecei a contornar os olhos. Eu gostava de fazer a minha própria maquiagem. Guadalupe me olhava incrédula pelo espelho do camarim.

- E se for um assassino? Um velho babão? Uma mulher? - Ela caminhava de um lado para o outro.

- Não é - esfumei os olhos com a sombra azul.

- Como sabe? Ao menos já recebeu um áudio? Uma ligação? - Lupe encostou o quadril na minha penteadeira, derrubando alguns batons.

- Você está me irritando, sabia? Te contratei pra ser minha assessora e não minha mãe! Que saco!

- Tá certo.

Droga!

- Lupe, desculpa! Mas poxa, eu tô feliz conversando com ele desse jeito, esse mistério e essa oportunidade de me conectar com a essência dele é algo que me deixa excitada...Maurício é diferente e eu venho de um histórico desastroso de encontros, você sabe!

- Micaela, eu só me preocupo, não quero te ver magoada, agora anda, vamos, vamos colocar a cauda? É a última da noite!

- Está tudo certo com o contrato da festa em Cozumel? - perguntei, enquanto Lupe me ajudava a subir a cauda com cuidado.

- Está! - Ela se ajoelhou para ajustar alguma coisa. - Deixei perto da sua bolsa, só falta você assinar e eu vou enviar de volta. Eu exigi que tivesse ao menos um segurança próximo de você o tempo todo e dona Vera concordou, disse que iria colocar o melhor deles.

- Obrigada, Lupe!

Eu nunca tive problemas em festas. Claro, algumas cantadas baratas e geralmente de homens bêbados, mas não passava disso. Não que fosse certo, por isso mesmo Lupe achou melhor assim, já que eu ficaria praticamente na praia, com pouca iluminação e a música alta abafaria qualquer grito meu, caso o pior acontecesse. Ser mulher era cansativo.

- Vamos lá, três pulinhos! Marcelo! - Lupe gritou. - Fiquei apoiada em seus ombros, de frente com ela até Marcelo aparecer.

- Desculpe me meter na sua vida, Mica. - Seus grandes olhos escuros fitaram os meus. - Acho que tenho visto documentários criminais demais - Ela sorriu.

- Não tem nada que se desculpar, entendo sua preocupação, mas nem trocamos número de celular, apenas batemos papo pelo aplicativo, talvez isso te deixe mais tranquila - pisquei.

- Cadê o Marcelo? - Lupe esticou o braço e arrastou uma cadeira para que eu me apoiasse, saindo em seguida em busca dele.

Fiquei repassando a nossa conversa mentalmente e engoli em seco. E se ela estivesse certa? Eu estaria mentindo se dissesse que nunca pensei na hipótese de Maurício não ser quem ele diz, mas não era algo que me atormentava até então. Olhei para a penteadeira, onde estava meu celular e me estiquei como uma mulher borracha, as pontas dos dedos quase tocaram o aparelho, mas eu iria cair. Dei um pulo para a direita e alcancei o telefone.

"Senhor misterioso, sabe o que me faria feliz? Um vídeo seu ou um áudio, pode ser curtinho! "

Mando ou não mando?

Ele estava off-line. Fui surpreendida pelas batidas fora de ritmo do meu coração, como se eu estivesse prestes a cometer um crime. Talvez fosse medo, ainda que inconscientemente. Medo de descobrir que Maurício não existia. Medo de ele sumir. Medo de que as últimas três semanas, se dissolvessem como algodão doce embaixo da água. Medo de perder a companhia tão agradável daquela pessoa atrás da tela.

- Estou atrasado, eu sei, vamos, vamos! - Marcelo veio em minha direção e naquela correria apertei o enviar, me arrependendo logo em seguida. Lupe pegou o aparelho da minha mão e colocou onde estava.

Merda. Merda. Merda. Em todo aquele tempo, Maurício nunca tinha me pedido um nudes sequer, sempre respeitoso e o que eu fui fazer?

- Tá tudo bem, Micaela? - Marcelo perguntou enquanto caminhava apressado pelo corredor.

- Não sei... - envolvi seu pescoço com os braços.

- Está bem pra se apresentar?

- Tô sim! - suspirei.

- Hoje eu vou te jogar, ok? É aquela maldita música barulhenta que a criançada ama, pronta pra virar de bruços? - Fiz que sim com a cabeça. - No três! Um...dois...três...

O mundo silenciou, mas meus pensamentos não. A água fria em contato com a minha pele, me acalmou, mas eu não estava dando cem por cento de mim naquela última apresentação, parte era culpa do cansaço e parte era nervosismo. Nadei em um ritmo mais acelerado até a grande parede de pedras, contornando os tubarões e arrais que ali também exibiam suas performances selvagens. Impulsionei meu corpo, dando uma cambalhota e mergulhei até o fundo do aquário, quase encostando as conchas que cobriam meus seios na areia e então, apareci no grande vidro, lotado de pequenas mãos e olhos brilhantes.

Sorri e acenei, no estilo Miss Universo. Rodopiei e dancei como uma verdadeira sereia, ao menos, era assim que eu as imaginava vivendo no fundo dos oceanos. Talvez eu fosse uma boba por acreditar nesses seres, mas eu gostava de pensar que havia uma colônia só para elas, livre de qualquer maldade e anseios, repleta de lindos tritões fortes e sensíveis. Era para lá que pessoas boas iriam quando morressem. Com as mãos espalmadas no vidro, abri um largo sorriso e dei impulso para cima, eu precisava respirar.

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