Nunca pensei que a minha vida chegaria a isso. Que eu me casaria com um homem que me odiasse ou que me submeteria a um contrato que me aprisionasse. Mentiras, segredos, impulsos...
Eu me arrependo de quase tudo o que fiz, tudo o que não fiz, de tudo o que deixei acontecer... Sem dúvida, não estaria aqui, deitada nesta cama, sendo acusada, novamente, de algo que não fiz. Descobrindo da pior forma como é o homem com quem me casei.
- É dinheiro que você quer? - Ele me agarra forte pelos braços e me joga na cama, pressionando o seu corpo contra o meu. Ele me olha com um olhar sombrio, enquanto segura os meus pulsos. - Ou não consegue manter sua roupa no lugar por muito tempo? Sexo ou dinheiro são duas coisas que mulheres como você sempre procuram.
- Me solta, Noah! Você está me machucando.
- Você ainda não viu nada, Ava! Eu te avisei para não brincar comigo e o que você faz? Fica cheia de segredos, agindo como uma vagabunda, sem me dar uma satisfação sequer. O que é típico de uma puta! - Ele grita e se aproxima, ficando a poucos centímetros da minha boca.
- Me solta! Você sabe que não pode me tocar, nós temos uma claus...
- Foda-se a cláusula, Ava! Não é isso que você quer? Um homem que te foda? Já que não consegue ficar sem se comportar como uma puta, vou te dar o que você quer, exatamente como deve ser. Vamos consumar esse casamento de uma vez, e quem sabe assim você para de tentar me fazer passar vergonha.
- Noah, por favor... - digo com a voz embargada, enquanto sinto as lágrimas escorrerem pelos meus olhos - Me solta, não faça isso, por favor!
"Algumas semanas antes..."
Termino o meu terceiro drink e entrego o copo para que o barman me sirva outro, enquanto busco me concentrar numa conversa com a minha amiga.
Apesar de me esforçar, as dificuldades que estão me afligem ocupam os meus pensamentos, frustrando a minha intenção de ter chegado até aqui para esquecer de tudo.
O barman me entrega a minha bebida e eu resisto à vontade de virá-la toda de uma vez. Desde a última ressaca, aprendi que o álcool não irá entorpecer o desespero e a preocupação que sinto constantemente.
Se isso ocorresse, com certeza eu teria me tornado uma alcoólatra irresponsável nos últimos três meses.
Sorrio de forma mecanizada para o barman, que retribui o sorriso e se afasta, enquanto tento voltar a minha atenção para Emma.
- Ava! - Emma me chama, ao estalar os dedos na frente do meu rosto. - Viemos para aproveitar a nossa noite, mas estou ficando entediada ao vê-la tão dispersa.
- Me desculpe, amiga, mas está tão difícil me esquecer de tudo. O problema com a minha mãe, a traição do Liam...
- Você sabe como resolver isso. A solução está sob o seu nariz, mas você insiste em querer fugir.
- Não irei me humilhar novamente para o meu pai, Emma. Você sabe que desde que optei por ficar do lado da minha mãe, ele deixou claro que não me daria nenhum centavo além do meu salário.
- E é justo deixar a sua mãe correr risco de vida por isso? - Emma passa uma das mãos nas minhas costas, ao ver os meus olhos marejados. - Como você irá resolver isso?
- Eu não sei, pensarei em alguma solução ao decorrer da semana. Enfim, vamos nos esquecer... - Corto minhas palavras quando vejo um dos meus principais problemas, dançando alegremente na pista de dança com a mulher que ele me traiu. - É sério isso?
- Eu não acredito que ele tenha essa coragem, Ava! Meu Deus, não faz nem uma semana que você descobriu a traição dos dois.
- Enquanto eu estou aqui, sofrendo, ele sequer se lembra que eu existo. - Solto um longo suspiro, enquanto me viro de costas para eles e termino a bebida do meu copo. - Mas isso vai mudar hoje, vou mostrar a ele que não estou afetada com o que ele fez.
- Ou fingir, não é? Anda, vamos dançar!
Emma termina a sua bebida e me puxa para o outro lado da pista de dança, onde deixamos o nosso corpo se mexer de forma sexy ao acompanhar o ritmo da música.
A quantidade de álcool que bebi faz com que eu ignore completamente a presença do Liam, e me sinto tão confiante que noto os olhares dos homens ao redor.
- Boa noite, senhorita, me pediram para entregar isso. - Um dos garçons interrompe a minha dança e cochicha ao me entregar um pedaço de papel. - Com licença.
- O que está escrito aqui?
- Bem... - Leio mentalmente o que está escrito antes de falar para a Emma. - Linda senhorita de vermelho, se continuar a dançar dessa forma irá despertar a inveja das outras mulheres. Que tal dar a chance delas brilharem também? Tenho certeza que a senhorita precisa de uma bebida, então venha ao meu encontro, no bar.
- Eu te disse que esse vestido chamaria a atenção de qualquer pessoa! - Emma fala, num tom animado. - O que está esperando?
Olho para o bar e logo encontro um homem alto, de cabelos curtos e escuros, penteados para trás. Ele usa uma camisa social branca e uma calça jeans, que realçam o seu corpo musculoso. Sua barba bem aparada e uma tatuagem no braço direito completam seu visual perfeito.
- Eu não vou lá, não quero terminar...
- Ah, mas você vai, Ava! - Ela me interrompe e me vira na direção onde o Liam está sentado, trocando beijos ardentes. - Esqueça da sua vida certinha por algumas horas e vá se divertir; amanhã é um novo dia e você nem se lembrará do que aconteceu aqui hoje.
Emma sorri e me empurra, incentivando-me a ir até o bar. Dou alguns passos tímidos quando noto o homem me olhando fixamente ao ver que estou me aproximando.
Sinto as minhas mãos suando pelo nervosismo, mas decido seguir o conselho da Emma e me sento, de forma sexy, ao lado do homem.
- Boa escolha! - Ele sorri enquanto chama o barman. - Outro uísque e a senhorita vai beber um...
- Dry Martini, por favor.
- Prefere bebidas amargas, senhorita...?
- Que tal sem nomes? Você me ofereceu uma bebida, mas isso não quer dizer que seremos íntimos.
- Gostei disso, mas como devo chamá-la então? - O homem se aproxima e coloca uma mecha do meu cabelo atrás da orelha. Ele me olha nos olhos com uma intensidade que me faz tremer. - Tive uma ideia, senhorita misteriosa. Que tal a primeira letra do seu nome?
- Que tal o sobrenome?
- Você é bem exigente, mas te darei a sorte de escolher novamente.
- Pode me chamar de senhorita M., Senhor...? - Tento sorrir de forma sedutora quando o barman entrega a minha bebida.
- Pode me chamar de senhor E.
Quando me sinto tonta, provavelmente pelos três drinks que consumi, decido que está na hora de encerrar esse jogo de sedução.
- Obrigada pela bebida, Sr. E., mas preciso ir, a minha amiga está me esperando.
- Acho que a senhorita está errada. - Ele dá um gole em seu uísque e aponta para uma das mesas, onde Emma está aos beijos com um homem. - Por que não tornar a nossa noite interessante? Não nos conhecemos, sequer sabemos os nossos nomes verdadeiros...
Ele se aproxima, me abraça pela cintura e me puxa para mais perto dele.
- Tenho certeza de que não irá se arrepender, senhorita M.
Um sorriso malicioso se desenha nos lábios do Senhor E. enquanto seu olhar percorre o meu corpo. Em questão de segundos, decido liberar-me da timidez habitual e agir de forma contrária ao que faria. Após quitar a conta, ele estende a mão para mim, conduzindo-me em direção à saída da boate até chegarmos diante de uma deslumbrante Lamborghini Aventador
Ao adentrarmos o hotel mais luxuoso da cidade, uma pitada de curiosidade me acomete, despertando o desejo de desvendar a identidade desse homem. Começo a ponderar sobre a ideia de estar na companhia de um estranho.
- Eu preciso de um banho. - Digo assim que entramos na suíte, sem esperar por sua resposta.
Encaro o meu reflexo no espelho por alguns minutos, ouvindo metade de mim clamar para aproveitar a noite nos braços desse homem irresistível, enquanto a outra metade me aconselha a chamar um táxi e partir.
Quase consigo visualizar um anjo e um demônio, um de cada lado dos meus ombros.
Retiro a minha roupa e entro para o banho, deixando a água fluir e levar o pouco de nervosismo que ainda sinto. Sinto o vapor quente envolver o meu corpo e o cheiro de sabonete floral invadir as minhas narinas.
De costas, ouço a porta do banheiro se abrir, e logo a porta de vidro se abre, me mostrando o corpo perfeitamente esculpido do homem. Ele tem um sorriso safado nos lábios e um olhar faminto nos olhos. Ele entra no boxe e se aproxima de mim, me abraçando por trás e beijando o meu pescoço.
- Ainda melhor sem roupa, senhorita M. - Ele diz com a voz rouca e me vira para ele.
- Posso dizer o mesmo, senhor E.
Uma onda de eletricidade percorre por todo o meu corpo e se concentra entre as minhas pernas, assim que sinto os lábios dele tocarem nos meus, seguido da língua dele pedindo passagem.
Quando o desejo toma conta de nós dois, ele rapidamente me pega no colo, sem se importar com nossos corpos molhados, e me deita na cama macia, me proporcionando a melhor noite da minha vida.
"Por Ava."
Ao abrir os olhos, levo um momento para assimilar o local e a presença do homem nu ao meu lado. Rapidamente, flashes da noite anterior vem à minha mente. Com cuidado, levanto-me, evitando despertá-lo, e dirijo-me ao banheiro para um rápido banho, decidida a partir antes que ele acorde e minha vergonha se intensifique.
Enquanto me visto com pressa, sento-me no sofá próximo à cama para calçar minhas sandálias, observando o homem adormecido com uma fisionomia serena. Após finalizar os preparativos, pego minha bolsa e ponho-me de pé. No entanto, meus olhos recaem sobre um relógio elegante e valioso na mesa de cabeceira.
Solto um longo suspiro ao relembrar do problema que vem me atormentando nos últimos dias, e fico ali, encarando o relógio, ciente de que ele poderia amenizar parte do difícil momento que atravesso. "Ava, olhe para o local em que você está, lembre-se do carro que te trouxe até aqui. Certamente, este homem possui uma coleção desses relógios e nem notará a falta deste, ou pensará que o perdeu antes disso."
Num ato impulsivo, mesmo após essa noite inesquecível em que o homem não exigiu nada em troca, pego o relógio e o coloco na minha bolsa, sentindo uma parte de mim fechar os olhos para todos os valores que acredito.
"Peço desculpas, Senhor E.," sussurro ao encará-lo pela última vez, abrindo a porta do quarto com cuidado para sair.
Ao passar a euforia de ter pegado o relógio daquele homem, entro em minha casa e, ao tirar minha roupa, sinto em meu corpo os efeitos de uma noite mal dormida. Mesmo que não me lembre de tudo o que aconteceu, um sorriso se forma ao recordar como o Senhor E. me tocou, proporcionando-me um prazer que nunca experimentei com Liam.
Deito-me na cama na tentativa de descansar antes de decidir o que fazer com o relógio, mas logo minha mente é invadida pela imagem do rosto do homem, e não consigo evitar me perguntar quem ele é.
"Enquanto isso, no hotel... Por Senhor E."
Desperto completamente satisfeito por passar a noite de forma tão prazerosa e percebo que a senhorita conseguiu me fazer esquecer de meus problemas, ao menos por algumas horas. Sento-me na cama e logo percebo que dormi mais do que deveria, ao notar que a misteriosa Senhorita M. já se foi.
Mesmo ciente do nosso acordo de não falar sobre nossas vidas, muito menos compartilhar nossos nomes, não posso evitar sentir uma pontada de decepção por não encontrá-la deitada ao meu lado, já que normalmente sou o primeiro a sair.
Após um banho, me preparo para retornar à rotina de minha vida, mas sou surpreendido ao procurar meu relógio e não encontrá-lo. "Mas que filha da..." Respiro fundo, perplexo pela facilidade com que a mulher me iludiu apenas para me roubar. Fico completamente confuso quando percebo que o meu celular, assim como todo o dinheiro em minha carteira, está onde deixei durante a noite. Meneio a cabeça em descrença e sento-me no sofá para ligar para Taylor, meu assistente pessoal e advogado. Ele precisa me ajudar a encontrar essa mulher.
"Onde você está?" - Indago quando ele atende a ligação.
"Como assim, onde estou? Dormindo, obviamente, Noah, são 7 da manhã e estou de folga. Então, seja lá por que você caiu da cama tão cedo, não..."
"Não quero saber se você está de folga. Estou no Four Seasons, preciso saber absolutamente tudo sobre a mulher que me acompanhou essa noite."
"Claro, em algumas horas consigo isso para você."
"Não quero em algumas horas, Taylor." - Afirmo, rispidamente, e o ouço suspirar do outro lado - "Estou te mandando fazer o mínimo, o qual é o seu trabalho. Estou indo para a minha casa, vou tomar o meu café da manhã e espero que você seja capaz de estar com tudo pronto quando eu terminar."
"Ok, chefe, o senhor é quem manda!" - O advogado solta uma risada discreta em deboche. - "Para facilitar um pouco o meu trabalho, você pode me dar o nome da senhorita que te deixou de mau-humor?"
"Quer que eu te dê um banho e te coloque para dormir também? Mas vamos lá, enquanto estou de ótimo humor, te aconselho a começar pela Luxury. Agora faça a porra do seu trabalho, você tem exatamente uma hora para fazer isso, cada minuto além será descontado do seu pagamento, Taylor."
Desligo a ligação e bufo, sentindo a raiva de ter sido enganado correr em minhas veias, então me levanto para ir embora. Dirijo enquanto penso em tudo o que ocorreu durante o tempo dentro do hotel, e mesmo que me lembre apenas de alguns flashes do que aconteceu essa noite, consigo me lembrar perfeitamente o rosto daquela mulher. "Tão linda e, ao mesmo tempo tão falsa. Como não pude perceber isso?"
- Bom dia, senhor estressado! - Taylor fala ao entrar no meu escritório, exatamente uma hora após a nossa ligação, exibindo um sorriso debochado que logo se desfaz quando percebe minha expressão - Vejo que pessoalmente está ainda pior.
- Trouxe o que te pedi?
- Teria facilitado muito se tivesse ao menos me passado o nome da senhorita, Noah. - Taylor bufa e praticamente se joga na cadeira à minha frente. - Você me deu um enorme trabalho, mas, após algumas ligações e o acesso às gravações do hotel e da boate, para descobrir o nome por trás do belo rosto que te acompanhou, aqui está: - Ele coloca alguns papéis em cima da minha mesa e aponta para o nome escrito em letras maiúsculas - Ava Miller Hampton.
- Hampton? Claro, por isso aquele joguinho de não me contar o seu nome!
- Desde quando você se tornou tão irresponsável? Dormir com uma mulher sem perguntar o...
- Cala a porra da boca, Taylor! - Bato as mãos na mesa e ele abre os braços em sinal de rendição - Ava Hampton? A família dela não é uma das mais influentes de Boston? Isso só pode ser coincidência ou tudo ficaria ainda mais estranho.
- Você pode me contar o que essa mulher fez para te deixar tão obcecado assim? Sério, Noah, estou acostumado a pesquisar sobre muitas coisas para você, mas investigar a vida de uma mulher...
- Ela me seduziu e me roubou, apenas isso, Taylor.
- Devo ter ouvido mal, não é possível - Taylor pula da cadeira e me encara com as mãos na cintura - Ava Hampton, filha de um dos homens mais influentes da cidade, roubou você? O que é isso? Cleptomania?
- Eu não sei, estou tão surpreso quanto você, mas de uma coisa eu tenho certeza, Taylor, ela irá se arrepender amargamente por ter me escolhido.
- O que ela roubou? Porque você me ligou do seu número pessoal, o que significa que o seu cel...
- O meu relógio, Taylor. A mulher me seduziu, foi para a cama comigo, fez um trabalho excelente e, por fim, me roubou e foi embora antes que eu acordasse.
- Você me acordou cedo, me fez rodar meia cidade para encontrar uma mulher sem nem me passar o nome dela, apenas por um relógio?
- Você fez o seu trabalho, Taylor, entre essas e outras coisas que eu te pago. Além disso, não foi um relógio qualquer.
- Não me diga que foi aquele o relógio do seu... - Assinto e ele meneia a cabeça em negativa - É, com certeza Ava Hampton se arrependerá.
"Por Ava"
Depois de algumas horas de sono, entreguei-me a um banho prolongado e reanimador, seguido de um café forte para recompor-me das emoções das últimas horas. Em seguida, chamei a Emma e nos encontramos diante de uma das lojas de penhores da cidade.
- Boa tarde, amiga! - Emma me cumprimenta com um abraço e me olha sem jeito. - Me desculpa por te deixar sozinha ontem, mas...
- Tudo bem, Emma, não precisa se explicar.
- E então, como foi a noite com o senhor gostosão?
- Ótima até certo ponto. - Sorrio sem graça e mostro o relógio para ela antes de entrarmos na loja - Situações desesperadas pedem medidas desesperadas, não é?
- Não me diga que você...
- Não! Digamos que apenas peguei emprestado, mas eu vou dar um jeito de devolver! Pelo menos amanhã terei o dinheiro para resolver o problema da minha mãe. Depois, posso tentar vender o Porsche novamente e pegar o relógio de volta. Talvez eles melhorem o valor.
- O Porsche? Amiga, você é apaixonada por ele! Além disso, vender um Porsche por $70 mil é loucura!
- Sim, mas também sou apaixonada pela minha liberdade e não sou uma ladra, Emma. Eu não faço ideia de quem é aquele homem, e se ele...
- Calma! - Emma me dá um sorriso reconfortante enquanto acaricia o meu braço - Já está feito, agora vamos resolver essa parte antes de pensar em como você irá recuperar esse relógio depois.
Emma me puxa pelo braço, e entramos na loja de penhores, onde um homem com uma expressão entediada nos encara.
- Boa tarde, senhor, gostaria de saber quanto o senhor me oferece por esse relógio?
Cumprimento-o enquanto retiro o relógio da bolsa e o coloco sobre o balcão. Inicialmente, o homem olha com desdém para o objeto, mas após alguns segundos, sua fisionomia entediada desaparece instantaneamente.
- Hum... - ele pega uma lupa de relojoeiro e observa o relógio cuidadosamente. - Embora seja um Rolex, esse modelo está um pouco ultrapassado, senhorita. Mas estou de bom humor hoje, então ofereço $50 mil.
- O quê?! - Emma exclama ao tentar tirar o relógio da mão dele. - Não aceitamos menos de $150 mil!
- Isso é impossível, senhorita, darei sorte se conseguir vendê-lo. Provavelmente será mais um objeto ocupando espaço, mas gostei de vocês.
- Ava, - Emma cochicha para mim enquanto o homem observa novamente o relógio -, ele está mentindo; esse relógio deve valer uns $100 mil. Senhor, que tal melhorar a sua oferta? $120 mil?
- Ofereço $80 mil, é a minha última oferta.
- Muito obrigada pelo seu tempo, senhor. - Agradeço e pego o relógio da mão dele, guardando-o na bolsa novamente. - Desculpe por ocupar o seu tempo, mas tenho certeza de que outra pessoa reconhecerá o valor desse relógio.
- Senhoritas, - o homem nos chama quando estamos prestes a sair -, tudo bem, eu pago $100 mil e não um centavo a mais.
- Foi um prazer negociar com o senhor. - Agradeço após alguns minutos, verificando o valor depositado na minha conta.
Antes de irmos embora, decidimos fazer uma parada em uma cafeteria próxima à minha casa. Solto um longo suspiro de alívio por resolver parte do problema da minha mãe ao concluir a transferência bancária.
No final da tarde, nos despedimos e vamos para casa. No entanto, sou surpreendida ao parar em frente à minha residência e me deparar com um Bentley Mulliner Batur estacionado a poucos metros. "Respire, não entre em pânico, Ava! Com certeza é apenas uma visita de um dos vizinhos", murmuro a mim mesma ao estacionar o meu carro e abrir a porta para sair.
Contudo, ao ver a figura masculina emergindo do carro, percebo que, na verdade, a visita é para mim. Forço um sorriso quando nossos olhares se encontram e ele começa a se aproximar. Mas ao notar a expressão desagradável em seu rosto, minha única reação é voltar para o carro e dirigir até a casa de Emma.
- Ava?! - Emma se surpreende ao abrir a porta e me ver entrar em pânico. - O que está acontecendo?
- Ele, Emma! - Respiro freneticamente, tentando explicar.
- Calma, Ava, respire!
- O homem, aquele homem de ontem!
- O que tem ele?
- Ele estava lá... - Sou interrompida pelo toque insistente da campainha, e nós duas nos entreolhamos. - Não abra, por favor! Ai, meu Deus, ele me encontrou!
- Srta. Hampton, eu sei que você está aí. Que tal abrir a porra da porta de uma vez? - Sua voz soa impaciente e ríspida, seguida de batidas fortes na porta.
- Acho que vou ter que abrir, Ava... Senão, ele vai acabar derrubando a minha porta.
- Não, ele vai se cansar e ir embora!
- Eu não vou sair daqui, Ava! - Ele responde como se pudesse ouvir meus sussurros. - Temos a noite toda.
- Desculpa, amiga!
Emma me solta e se dirige à porta, deixando-me completamente nervosa com a reação que o homem terá ao me ver. Quando a porta se abre, dois homens entram e mais uma vez nossos olhares se cruzam.
- Taylor, melhor você ficar aí na porta, vai que essa... - o homem aponta o dedo para mim e me olha com desprezo - Aproveitadora, sai correndo novamente.
- Ei! Não fale assim da minha amiga!
- Ah, não? Como prefere que eu a chame? Ladra? Golpista? Cleptomaníaca? O vocabulário é extenso... - ele encara Emma, que desvia o olhar e se mantém em silêncio. - Senhorita M., ou melhor, senhorita Ava Miller Hampton...
- Senhor E. - respondo sem graça e noto uma risada abafada do amigo dele. - Como me encontrou?
- Você realmente acreditou que me roubaria e sairia ilesa disso? Eu não sei como você age, mas mexeu com a pessoa errada, Ava... Apenas uma ligação e consegui te encontrar.
- Claro, porque o trabalho pesado ficou para mim - Ouço o amigo reclamar baixinho, mas apenas um olhar do tal senhor E. faz com que ele abra os braços em rendição - Desculpe, Noah.
- Enfim, você me fez perder tempo demais desnecessariamente. Por mais que minha vontade seja te segurar pelo braço e te arrastar até a delegacia, a influência da sua família não iria permitir que você pagasse da forma correta. Mas não deixo de me perguntar se o seu pai sabe sobre a filha golpista que ele tem.
- Não sou golpista, ladra ou algo do tipo, senhor, apenas...
- Quer saber? - Noah me interrompe em um tom alto e nós duas o encaramos assustadas. - Eu não me importo com os seus motivos, Ava. Não quero sequer continuar a olhar para você. Portanto, aproveite que estou de bom humor, me devolva o relógio e eu juro que saio daqui sem te causar maiores danos.
- Então... - coço a nuca e procuro as melhores palavras para contar sobre o relógio. - Ele não está aqui. Afinal, não haveria motivo para sair com um relógio masculino na minha bolsa, não acha?
- Prefiro não dizer o que acho. Onde está? Na sua casa? Anda, vamos lá!
- Ava, se quiser, eu vou com vocês.
- Não, Emma, você não tem nada a ver com essa história. Sou eu quem deve resolver. - Mesmo sob o olhar intimidador de Noah, o encaro e respiro fundo antes de falar - O seu relógio não está aqui ou na minha casa, senhor E.
- Sem esses joguinhos ridículos, já me cansei disso. Me chame de senhor Ewing.
- Ewing? - Emma pergunta, com a mão na boca, e me encara tão assustada quanto eu - Tipo, Ewing do Grupo First Place?
- Não se façam de desentendidas. Tudo deve ter sido muito bem-planejado quando me viram. Onde está o relógio, Ava?
- Eu vendi, eu vendi! - Exclamo, passando a mão no rosto, tentando esconder minha vergonha. - Eu estava precisando do dinheiro e quando vi o relógio... Bem, olhe para você, Sr. Ewing! Estávamos numa das boates mais luxuosas de Boston, e você sabe que ninguém entra sem um nome na lista VIP, você dirige um carro caro, você fez questão de me levar num dos hotéis mais caros daqui! Então, quando vi, pensei: "certamente ele deve ter uma coleção de relógios iguais a esse, ele nem sentirá falta."
- É sério que você ficou impressionada com o Lamborghini? Com o hotel Four Seasons? Você dirige um Porsche 911 Turbo S, o seu padrão de vida não é tão diferente do meu, Ava. Meu Deus, como consegue ser tão falsa ao usar isso como desculpa? - Ele solta uma risada debochada e passa uma das mãos nos cabelos. - Vou perguntar outra vez e espero que seja a última! Onde está a porra do relógio? Ou melhor, para quem você vendeu tão rápido assim?
- Na loja de penhores, obviamente... - Emma cochicha e nos olha assustada ao perceber que ouvimos. - Desculpa, Ava!
- Loja de penhores? Ouviu isso, Taylor? - Noah solta um sorriso debochado e balança negativamente a cabeça. - Ao menos me diga que recebeu uma proposta satisfatória...
- Claro, negociei por ela! - Emma diz num tom orgulhoso - Vocês acreditam que o homem nos ofereceu $50 mil?
- Sério? - Taylor levanta as sobrancelhas e solta uma risada debochada ao olhar para o Noah. - Não foi tão ruim.
- Espera até ouvir o valor que conseguimos vender, conte a ele, Ava.
- Diga, Ava, por quanto você vendeu o meu relógio?
- $100 mil - Digo num tom tímido e Taylor encara Noah, que me olha de uma forma que me faz arrepiar de medo.
- $100 mil? Você vendeu um Rolex Bao Dai por $100 mil?
- O que há de errado? Aquele relógio não parecia valer mais do que... - Emma interrompe sua fala quando Noah a olha da mesma forma que me olhou, e ela desvia o olhar. - É melhor que eu fique quieta...
- É Emma, não é? - Taylor pergunta e ela meneia a cabeça positivamente - Talvez valha um pouco mais que isso, moça.
- Um pouco, Taylor? Ava, ou você estava bem desesperada, ou é ainda mais burra do que imaginei! Não me faça perder tempo, faça o que tiver que fazer, roube quem tiver que roubar... Amanhã voltarei a te procurar e espero que esteja com o meu relógio!