Durante cinco anos, Ricardo Alves dedicou sua vida e talento para construir a "Costa Alimentos", o império de sua esposa, Paula. Ele sonhava em fazê-la a mulher mais feliz e bem-sucedida do mundo, mas na noite de seu aniversário de casamento, a realidade desabou.
Enquanto preparava um jantar especial, sua assistente revelou que Paula havia saído da reunião com Lucas Pereira, o ex-namorado de infância. Um frio perfurou seu estômago e a certeza em sua voz foi falsa.
Horas se arrastaram, a comida esfriou e o silêncio da casa luxuosa tornou-se ensurdecedor. À meia-noite, ele jogou o banquete intocado no lixo, sentindo apenas um vazio gelado.
Paula chegou às sete da manhã, sem culpa, apenas cansada. "Eu reencontrei o Lucas", ela disse. "Acho que devemos nos divorciar." Sua indiferença o atingiu mais do que qualquer grito.
Ricardo não gritou, não questionou. Apenas assentiu, com uma calma assustadora. Um divórcio não era o suficiente. Ele queria desaparecer, apagar cada vestígio de sua existência da vida que ele construiu para ela. E ele sabia exatamente como faria isso.
Ele orquestrou sua própria morte, garantindo que Paula estivesse lá para testemunhar sua tragédia. Enterrado em seu próprio "túmulo", ele observou seu império desmoronar. Agora, ele está de volta. Não para ela, mas por sua própria justiça.
Ricardo Alves falou ao telefone com o investidor, confirmando os detalhes finais do novo projeto.
"Sim, o plano de expansão está pronto, posso garantir que o retorno será excelente."
Ele sorria, um sorriso profissional e confiante. Por cinco anos, ele tinha sido o cérebro e a força por trás da "Costa Alimentos" , a empresa que carregava o sobrenome de sua esposa, Paula Costa. Ele construiu o sonho dela enquanto ela se tornava o rosto da marca.
Desligou o telefone e olhou o relógio na parede da cozinha. Sete da noite. O aniversário de casamento deles.
Ele se moveu pela cozinha com a precisão de um maestro. Os ingredientes para o jantar estavam perfeitamente alinhados: lagosta fresca, aspargos, o vinho favorito dela. Ele era um chef de talento, mas nos últimos anos, sua paixão havia sido canalizada unicamente para construir o império de Paula.
"Marcelo, a Paula já saiu da reunião?" Ricardo ligou para o assistente dela.
Houve uma pausa do outro lado da linha.
"Senhor Ricardo... a senhora Costa saiu há mais de duas horas."
"Ah, ótimo. Ela deve estar a caminho, então. Obrigado, Marcelo."
"Senhor Ricardo..." a voz de Marcelo hesitou, carregada de uma pena que Ricardo não compreendeu na hora. "O senhor Lucas Pereira esteve na empresa hoje. Eles saíram juntos."
Lucas Pereira. O nome ecoou na mente de Ricardo, um fantasma do passado de Paula, seu namorado de infância.
Ricardo sentiu um frio no estômago, mas forçou uma risada.
"Claro, um velho amigo. Ela deve estar colocando o papo em dia. Sem problemas."
Ele desligou, mas a certeza em sua voz era falsa.
As horas se arrastaram. Oito, nove, dez da noite. A comida esfriou sobre a mesa impecavelmente posta. Ricardo sentou-se no sofá, o silêncio da casa luxuosa tornando-se ensurdecedor. Cada farol que passava na rua trazia uma ponta de esperança, seguida por uma nova onda de decepção.
À meia-noite, ele se levantou. A comida, o vinho, as velas. Tudo parecia uma piada de mau gosto. Ele não sentia raiva, apenas um vazio gelado. Com movimentos metódicos, ele pegou o banquete intocado e despejou tudo na lata de lixo. A lagosta, os aspargos, o molho delicado que levara horas para preparar.
Depois, pegou a garrafa de vinho caro e derramou o líquido vermelho pelo ralo da pia. O som do vinho escorrendo era o único ruído no apartamento.
Ele não ligou para ela. Não mandou mensagem. Apenas sentou-se novamente no escuro, a compreensão da verdade se solidificando em seu peito. A espera tinha acabado.
Paula chegou às sete da manhã, com a mesma roupa do dia anterior. Ela não parecia culpada, apenas cansada e um pouco irritada, como se a presença dele fosse um incômodo.
"Ricardo, precisamos conversar." ela disse, jogando a bolsa no sofá.
Ele a olhou, seu rosto sem expressão.
"Eu reencontrei o Lucas." ela continuou, sem rodeios. "Percebi que ainda sinto algo por ele. Acho que devemos nos divorciar."
Ricardo não se moveu. Ele não gritou. Não a questionou. Ele apenas assentiu lentamente, uma calma assustadora em seus olhos.
"Tudo bem, Paula."
Ela pareceu surpresa com a falta de reação. Talvez esperasse uma cena, lágrimas, súplicas.
"É só isso? 'Tudo bem' ?"
"Sim." ele respondeu. "Se é isso que você quer."
Dentro dele, porém, um plano começava a se formar. Um divórcio não era o suficiente. Ele não queria apenas se separar dela. Ele queria desaparecer. Apagar cada vestígio de sua existência da vida que ele construiu para ela. E ele sabia exatamente como faria isso.
Na segunda-feira, Ricardo chegou à Costa Alimentos mais cedo do que o habitual. Ele não foi para a sua sala, a sala do diretor de operações que ele mesmo havia projetado, mas foi direto ao departamento de recursos humanos.
Ele passou a manhã inteira documentando cada processo, cada contato, cada estratégia que ele havia desenvolvido. Era um manual completo de como operar a empresa que ele ergueu do zero. Ele estava se demitindo não apenas de seu cargo, mas de sua própria criação.
Ao meio-dia, quando estava na copa pegando um café, Lucas Pereira entrou, sorrindo de forma presunçosa.
"Ricardo, meu caro! Que bom te ver."
Lucas estendeu a mão. Ricardo apenas o olhou, ignorando o gesto.
"Ouvi dizer que você e a Paula estão se acertando." Lucas continuou, sem se abalar. "Fico feliz. Ela merece alguém que a entenda de verdade."
A provocação era clara. Lucas estava se posicionando como o novo dono do pedaço.
"Eu e a Paula estamos nos divorciando." Ricardo disse, sua voz monótona e direta.
O sorriso de Lucas vacilou por um segundo e depois se alargou.
"Sério? Puxa, que pena." A pena em sua voz era tão falsa quanto uma nota de três reais. "Mas talvez seja para o melhor. Ela precisa de novos ares."
Ele se aproximou de Ricardo, colocando uma mão em seu ombro como se fossem velhos amigos.
"Ela me contou sobre o jantar de aniversário que você preparou. Um gesto bonito, mas talvez um pouco... desesperado, não acha?"
Ricardo permaneceu em silêncio, seu corpo tenso sob o toque de Lucas.
De repente, Lucas tropeçou "sem querer" , derramando o café quente que segurava sobre uma pilha de documentos importantes que Ricardo havia acabado de organizar para a transição.
"Oh, meu Deus! Que desastre!" Lucas exclamou, olhando para a mancha marrom se espalhando pelos papéis. "Ricardo, você deveria ter mais cuidado onde deixa suas coisas!"
Naquele exato momento, Paula entrou na copa.
"O que está acontecendo aqui?" ela perguntou, sua voz afiada.
Ela viu os papéis manchados, a xícara de café no chão e a expressão de "vítima" de Lucas.
"Não acredito, Ricardo!" ela explodiu, caminhando até ele. "Você não consegue nem aceitar as coisas como um homem? Precisa agir como uma criança e destruir o trabalho da empresa?"
Ela não perguntou o que aconteceu. Ela não lhe deu o benefício da dúvida. Ela o condenou instantaneamente.
"Ele está com ciúmes, Paulinha." disse Lucas, com um tom magoado. "Ele não aceita que estamos juntos."
Ricardo olhou para Paula. Ele viu a raiva nos olhos dela, a forma como ela protegia Lucas, o homem com quem o traíra. E naquele momento, qualquer resquício de sentimento que ele pudesse ter por ela se desfez em pó.
Ele não se defendeu. Não disse uma palavra. Apenas deu a ela um último olhar, um olhar vazio, frio, como se olhasse para uma completa estranha.
Depois, virou-se e saiu da sala, deixando-a com seu amante e os papéis manchados. A decisão dele não era mais apenas uma decisão. Era uma sentença.