Oito anos antes ...
James Winston
A viagem de volta a Molavid dura cerca de duas luas, é sempre exaustivo, somos tantos homens cansados das longas horas de batalhas, ansiosos em retornar para nossas casas, nos alimentarmos dignamente, repousar em nosso leito e rever nossas famílias.
Entrei para o exército desde que atingi a idade suficiente, mas nunca estive tão ansioso com a volta. Como sub-oficial do exército cumpro todas as ordens do meu capitão Charles Ross, em dispensar a infantaria.
Antes de me retirar, faço continência e observo o homem de cerca de quarenta anos, cabelos e barba longas e expressão endurecida, adentrar a residência oficial, sozinho e solitário. Nosso capitão é um homem de longa experiência militar, começou ainda rapazote, possuidor de grande sabedoria, o maior soldado que já conheci em batalha, dono de habilidades extraordinárias. Ao seu lado aprendi técnicas de domínio militar impecáveis e se existe um soldado mais completo que ele, desconheço.
Já de costas para sair, ainda ansioso para o retorno ao meu lar, ouvimos de repente um som estridente já bem conhecido, se trata de um alarme soando para comunicar a todos que estamos sendo atacados. É inevitável não me preocupar, afinal estamos acabando de retornar de uma árdua batalha, nossos soldados não estão preparados para mais uma. Logo, sons de gritos ecoam por toda parte, o capitão e eu saímos apressadamente e no caminho ele me dá ordens das quais acato imediatamente. Ao lado de fora, ficamos alarmados com o que assistimos, Molavid é incendiada e atacada por milhares de soldados inimigos. Toda nossa guarda-defesa não resiste, há pessoas desesperadas por todos os lados enquanto cavalos saltam carregando homens armados ferindo os nossos. Entro na luta, consigo abater alguns inimigos com bastante dificuldade, mas é nítido que estamos em menor quantidade, uma angústia me invade, temo que o pior aconteça e nossos inimigos alcancem os povoados. Meus olhos e os do capitão se encontram, ele está em uma árdua batalha entre espadas, socos e golpes. Ele reconhece minha aflição.
- Soldado, Winston, vá!
Ainda resisto por um instante, apesar dos meus temores, existe um juramento militar no qual eu fiz um dia, para lutar e proteger meu povo.
- Não posso abandonar a batalha, Capitão!
Ainda ouvimos o tilintar das espadas entre gemidos de corpos sendo atravessados por lanças, flechas e espadas.
- Soldado James, é uma ordem, vá, não pode desobedecer uma ordem de seu superior!
Estou livre por um instante, e ainda consigo lhe auxiliar. Lutamos juntos, entretanto, somos cercados por mais bárbaros, tudo fica ainda mais difícil, o capitão se lança a frente e vejo sobre seus os olhos negros e valentes, antes dele ser tomado por uma lança. Respiro fundo e sinto um golpe em minha retaguarda, me defendo e consigo pular caindo sobre a parte inferior do pátio. Me levanto ainda sentindo dores por toda parte do meu corpo pela queda. Golpeio um dos inimigo a postos de um cavalo bem a frente e tomo seu animal após combatê-lo. Subo e carvalgo na velocidade em que meu coração bate, numa sensação angustiante.
Vejo o centro de Molavid ficar para trás, os corpos dos nossos soldados pela estrada, nosso capitão abatido e muitos moradores inocentes e suas famílias também mortos. Me apresso em galopar até chegar em casa, temendo que o pior possa ter acontecido. Noto que por aqui as coisas não são diferentes, as ruas estão desertas, mas há vestígios de que os inimigos passaram por aqui, tem animais soltos e sem direção por toda parte, restos de alimentos saqueados espalhados pela ruas, fogo e sangue, muito sangue.
Desço rapidamente do cavalo sentindo um aperto no peito como se algo o comprimisse, ainda fraco pelos temores entro em minha residência, a cena com a qual me deparo mexe completamente com minha estrutura. Tudo dentro da casa está fora do lugar, há muito sangue, minhas pernas fraquejam. O primeiro corpo que vejo é o da senhora Miller, ela cuidou de mim como seu filho após a morte de minha mãe. Sinto uma dor forte no peito. O corpo do senhor Miller está ao lado, é nítido que ele tentou proteger a família. Saio apressadamente, entro nos quartos gritando por ela...
- Anne...
Abro a porta de seu quarto e não consigo suportar... ela está alí, seu corpo delicado jogado ao chão frio... uma jovem tão bela e inocente... a pele antes rosada está pálida e gélida, seus traços tão delicados foram feridos de forma covarde e brutal. Havíamos feito um juramento de nos casarmos, nos amávamos, um amor inocente e puro. Sinto que minha vida acabou neste exato momento.
Me abaixo e seguro seu corpo em meus braços enquanto as lágrimas descem como uma enxurrada. Abraço sua pele que ainda está quente.
- Anne , meu amor...
A é dor forte e cruel, uma sensação de impotência, fraqueza que jamais imaginei sentir.
- James! - a voz de de Hector, nosso General me invade. Ele está acompanhado de alguns soldados.
Ele ordena que os soldados façam uma varredura para conferir se tem algum perigo por perto.
- Sinto muito...
Ainda estou num transe doloroso.
- Charles foi abatido.
- Sim, eu estava com ele.
Dois soldados retornaram e cochicharam algo nos ouvidos de Hector.
O vejo engolir seco, seus olhos vem ao encontro do meu em desolação.
- James, eu sinto muito mesmo... mas... seu pai e seus irmãos também estão mortos.
São muitas emoções de uma vez. Desejo gritar, porém minha voz não sai, resta apenas o desespero e uma escuridão em minha alma que talvez me acompanhe para sempre pois foram muitas perdas em um só golpe.
Helena Lewis
Sinto o suor escorrer do meu rosto fazendo trilhas até chegar em meu pescoço em meio ao som da espada de Bernard em atrito com a minha. Estamos no imenso pátio da nossa residência, próximo ao gramado e da fonte, nossa casa ao fundo, se trata de uma enorme e bela construção de pedra, bem parecida com um castelo, localizada nas terras férteis de Village. Bernard, meu irmão é forte e resistente, sempre fora, por isso seguro com as duas mãos de forma firme a minha arma e vou-lhe empurrando com tudo enquanto vejo seu rosto se enrijecer e as veias saltarem de sua têmpora revelando o tamanho de seu esforço. Meu coque negro se desfaz deixando uma longa mexa cair em meus olhos, e ao contrário do que esperam, não permito que me tire a concentração, afasto as pernas mesmo com dificuldades por causa do vestido longo, além dos espartilhos que as vezes me apertam demais, lutar com essas roupas não é muito justo, entretanto a ideia de que uma mulher use calças parece um absurdo aos ver de todos, principalmente a papai e Eduard, meu irmão mais velho, chamam tal possibilidade de inviável e descabida
Esta sou eu, Helena Lewis.
Sei que não é comum ver uma mulher lutando com uma espada. É porque sou um tipo de jovem bem diferente das moças que possuem a minha idade. Eu deveria estar preparando para me casar, construir uma família, como uma verdadeira dama é preparada sua vida inteira. Mas devido algumas circunstâncias ruins, também fui preparada para outras finalidades. Afinal sou a única mulher entre três homens, cresci admirando meus irmãos, Eduard, Bernard e Edgar sendo treinados para se tornarem grandes soldados, carregando a responsabilidade nos ombros em dar continuidade a carreira militar do nosso pai, o tão honrado general Theodoro Lewis. Meu pai é aclamado em toda cidade, afinal lutou em grandes guerras e batalhas em defesa do nosso povo, conquistou honra e respeito durante os seus muitos anos e lutas no exército com grande esplendor. Hoje ele se aposentou, deixou as espadas e escudos, pois a idade já não lhe permite mais, mesmo assim ainda é admirado por toda sua bravura no tempo em que lutou.
As vezes me sinto perdida, como se estivesse vivendo uma vida que não é a minha. Mas então qual é o meu designo? O casamento não me atrai, minha vida as vezes é monótona e entediante, a não ser quando estou treinando, é o único momento em que sinto prazer de verdade. Mas eu sei que isso acaba aqui, pois quando me casar, certamente meu futuro marido não me permitirá continuar treinando, afinal manusear armas e dominar golpes não são modos de uma dama.
O som cômico da risada de meu irmão invade meus pensamentos. Sinto meu corpo sendo lançado para trás quando ele ainda me empurra com sua espada.
- Acorde, Lena! Pare de pensar em seus vestidos de seda para a grande noite, e se concentre na batalha!
Lena é uma forma carinhosa que meus irmãos me chamam, foi assim desde sempre... e adoro, nos torna ainda mais próximos..
Respiro fundo ignorando suas palavras irônicas, ele deseja me desconcentrar, é típico de homens quando estão diante de mim numa batalha. O encaro enquanto preparo meu novo ataque. Parto para cima novamente e logo nossas espadas entram em contato uma com a outra de forma voraz. Gosto de lutar com ele, entre meus irmãos, Bernard é o que acredita em meu potencial. Não é relutante quanto papai e Eduard, Edgar nem tanto, mas não é como Bernard, eles acreditam que uma mulher não foi designada para manejar espadas, arcos e flechas e sim para bordar e se submeter ao marido e aos afazeres da casa e é claro... Ter filhos muitos deles... Eu deveria ter me dedicado mais a isso se não fosse a tragédia que acometeu nossa família há dez anos atrás:
"Nossa pequena cidade de Village foi atacada brutalmente por um exército inimigo, tudo foi destruído, as casas do vilarejo foram queimadas e muitas pessoas mortas. Os inimigos sabiam que papai era general e o alvo deles era nos matar, acabar com todos os Lewis.
Ainda era noite quando invadiram nossa residência, meus irmãos lutaram bravamente, papai havia ordenado alguns soldados que faziam a nossa guarda que levassem a mim e mamãe e nos mantivessem seguros. Mas os dois soldados foram atacados no meio do caminho e não restou outra alternativa que não fosse lutar e tentar nos salvar. Mamãe tentou me proteger de todas as formas, como qualquer mãe desesperada faria, mesmo sem nenhum treinamento militar, mas ela era tão indefesa quanto eu e se colocou a minha frente sendo atingida por um dos homens com uma espada, mesmo apavorada eu precisava reagir, havia assistido a muitos treinos dos meus irmãos e quando estava sozinha ficava os imitando, usando pedaços de madeira como se fossem espadas, não sei ao certo se era um dom natural ou coisa parecida mas quando aquele homem me segurou com brutalidade na tentativa de me levar, eu mordi seu pescoço com toda minha força fazendo com que ele me soltasse, senti meu corpo cair abruptamente, e vi uma espada ao chão de um dos soldados que nos faziam escolta, ele estava morto. Peguei a espada e lancei com toda força que eu tinha, pois, era muito jovem e pequena, entretanto, não foi impedimento para rasgar a garganta do homem.
Naquele dia perdemos a mamãe, ela não sobreviveu ao ataque. Logo o reforço do exercito de Village em peso surgiu salvando o que havia restado da nossa cidade. Todos nós ficamos arrasados com a perda da mamãe. Mas naquele dia meu pai decidiu que eu seria treinada, havia ficado orgulhoso em saber que reagi e ataquei o inimigo, e pude me salvar. Assim recebi um excelente treinamento de guerra, segundo papai, somente para minha própria autodefesa".
Treinar despertava algo bom dentro de mim.
Volto-me atenção para Bernard e nossa luta, certa de que não estou distraída, prova disso é que dou um giro passando por seus ombros e costas conseguindo pegá-lo pela retaguarda. Antes que Bernard diga qualquer coisa, minha espada está em seu pescoço.
- Renda-se, soldado!- falo satisfeita.
Sorrio pela vitória.
Ouço a respiração ofegante de meu irmão enquanto ainda o tenho em meus braços firme.
- Eu me rendo! - ele fala lançando sua espada ao chão. Mesmo se tratando de uma derrota, sinto que ele está orgulhoso - Pobre daquele que se tornará seu marido, minha irmãzinha, você tem muita força nos braços para uma dama.
Eu o solto e ele levanta os braços em rendição.
Ouço as palmas de Edgar e Eduard, mesmo com certa resistência, parecem orgulhosos em me ver com Bernard rendido. Nem lembrava de que eles estavam ali assistindo tudo.
- Não posso negar que foi uma boa luta, embora acredito que nossa irmã deveria se ocupar com a preparação para o jantar de noivado logo a noite - Eduard fala relutante.
Apesar de não apoiar meus treinos e acreditar que papai mima muito a mim, Eduard é meu irmão mais velho, e temos um bom relacionamento assim como com os outros. Respiro fundo quando novamente me lembro que vou me comprometer com alguém que nem ao menos conheço.
Quando completei 17 anos recebi meu primeiro pretendente, Eliot Grem, mas o rapaz ficou bem assustado ao descobrir que eu sabia manejar bem uma espada, depois de uma boa demonstração ele nunca mais voltou, apenas mandou um mensageiro com uma carta dedicada a papai dizendo que desejava uma esposa mais "caseira". Claro que Eduard aproveitou para repetir milhares de vezes que isso era uma tragédia esperada, e que nenhum homem aceitaria se casar com uma jovem que passava horas com rapazes em treinos e com lanças ou espadas nas mãos. E ele tinha razão, de alguma forma todos os meus pretendentes fugiam do compromisso.
Mas desta vez, papai insiste em ter encontrado o noivo perfeito, um Cavaleiro do exército do norte, ele acredita que casando-me com um bravo guerreiro, me aproximo do grande amor que carrego pelas espadas, e assim meu casamento será um sucesso. Talvez papai esteja equivocado, tal fato não me anima nem um pouco, mas não posso decepcionar minha família, preciso cumprir o meu papel.
Alexandre Trover, esse é o nome do meu pretende, nesta noite teremos o nosso primeiro encontro oficial num jantar de noivado.
Bernard se recompõe da surra que acabara de levar e ignora Eduard.
- Parabéns, Lena. Embora tenha perdido a luta, estou orgulhoso. Você se tornou uma grande guerreira, tem um coração muito valente - ele diz a frase que se tornou comum, Bernard insiste em dizer isso todas as vezes que treinamos.
Eduard com suas sobrancelha grossas e seu cabelo negro impecavelmente penteado, que o tornam um tanto engomadinho, continua a provocar:
- Pare com esses elogios, você sabe muito bem que nossa irmã desperdiçou o tempo todos esses anos com esses treinos, Helena deveria estar preparada para se tornar uma boa esposa. Mas todos nós sabemos que ela na verdade será uma negação como senhora da casa.
Apesar de amar tanto meu irmão, confesso que muito das vezes Eduard me irrita.
- Chega, Eduard! - Edgar defende se aproximando. Ele repousa seus braços sobre meus ombros orgulhoso. - Você foi muito bem maninha! Embora vencer Bernard não é lá um grande desafio. - fala em tom brincalhão.
Bernard lhe empurra com os ombros de leve enquanto ri.
- Ah é, é todas as vezes em que te venci? - resmunga Bernard enquanto limpa a testa com um lenço que retirou do bolso.
Edgar retribui com uma risada.
- Você sabe que eu te deixo vencer!
Ele é o mais calado entre nós quatro. Apesar de ser o mais jovem dos homens, Edgar, carrega muitas características de papai, tem olhos grandes e escuros como duas uvas negras, rosto fino e pele clara, assim como todos nós, mas é o único de cabelos cor de mel como os da mamãe.
Eduard se aproxima e me envolve com o braço do outro lado, livre.
- Irmã, sabe o quanto eu também tenho orgulho de você, nem sempre demonstro tal afeição, mas saiba que eu desejo o seu bem - ele diz e se afasta. - A propósito, sei que ir se adaptar ao casamento.
Reviro os olhos com seu tom prepotente no final da frase
Neste momento Catherine minha cunhada surge no pátio, ela é loira de lindos olhos azuis é a perfeição em pessoa, parece mais uma pintura em tela, uma mulher bem criada e treinada para se tornar uma boa esposa, assim como eu sei que jamais serei. Ela é casada com Eduard, juntos ele tem Molli, minha sobrinha de cinco anos, um amorzinho. Catherine está parada com as mãos na cintura, assistindo a discussão sobre minha vida, usa um belo vestido cheio de rendas bem costurado ao seu corpo, deixando sua barriga de seis meses de gestação bem nítida.
- Deixa sua irmã em paz, Eduard - Ela fala com sua voz doce e meiga.
Neste momento quem interrompe a nossa discussão é papai que acaba de chegar em sua carruagem. Nosso cocheiro estaciona do outro lado da fonte e mesmo distante consigo ouvir o som de sua irritação por notar o meu estado e que não estou me preparando para o jantar.
Todos observamos ele se aproximar batendo as botas firmes no chão, fico um tanto tensa.
- Helena... - a voz de papai soa cheia de recriminação. Eu já esperava.
- Viu, falei para o seu próprio bem - Eduard sussurra de longe como se estivesse ao meu favor, mas na verdade é pura implicância, ele se gaba por achar estar certo o tempo todo. Vejo Catherine lhe dar um leve empurrão de ombros bem discreto.
Edgar tenta amenizar a situação:
- Papai, a Lena acaba de vencer Bernard na espada, uma esplêndida batalha!
Bernard dá um passo e estufa o peito enquanto limpa suas vestes sujas de lama.
- Devo confessar que Lena foi incrível, papai.
Vejo o Sr. Theodoro me analisar com uma expressão indecifrável. Um "v" se forma em sua testa. Logo ele suspira como se não conseguisse permanecer firme por muito tempo.
- Helena, minha filha... Logo hoje que você tem um compromisso importante?
Eduard como sempre não perde uma oportunidade:
- A deixe, papai. A Lena estava apenas se despedindo das espadas. E Bernard levou uma boa surra!
As últimas palavras de Eduard fizeram o papai soltar um longo sorriso. Sei que no fundo ele se orgulha também.
Bernard tenta se defender:
- Ah, quem de nós, nunca tomou uma surra de nossa irmã caçula?
Logo todos caem na gargalhada, porque realmente já venci muitas vezes meus irmãos, e sei que em muitas delas, nunca houve uma vantagem, já lutei pra valer com todos.
Felizmente o clima tenso se ameniza.
Entre gargalhadas papai confessa:
- Até mesmo o Sargento Theodoro Lewis já perdeu uma luta para sua filhinha - papai fala se referindo a ele mesmo, se lembrando de nossos treinos.
Ele se aproxima me encarando nos olhos de forma carinhosa.
Helena Lewis
A noite logo chega, e preciso me preparar. As servas me ajudam com o banho e a me vestir como de costume. Por mais que eu me esforce, não compreendo o motivo pelo qual não posso me arrumar sozinha, a quantidade de servos que temos para isso chega ser absurda, quando na verdade eu poderia muito bem escolher o meu próprio vestido e me pentear da forma que eu bem decidir. Penso, enquanto uma serva termina de ajeitar o meu cabelo e outra aperta os espartilhos, já falei que eu odeio espartilhos? Respiro fundo quando sinto que elas estão o apertando mais um pouco. Outra criada tenta ajeitar o meu rosto com alguma pintura, embora prefira de forma natural. Mamãe sempre dizia que meus lábios grossos e meus cílios grandes valorizavam minha aparência. Suspiro ao me lembrar dela, uma dor angustiante me invade, como se meu coração estivesse sendo comprimido lentamente, é assim todas as vezes que me recordo dela, principalmente em noites como esta, na qual preciso me esforçar ao máximo para cumprir o papel que papai e meus irmãos esperam de mim, desejaria muito que mamãe estivesse aqui, ela certamente saberia as palavras certas a me dizer que me deixassem mais confiante.
Observo meus longos cabelos negros serem alinhados e soltos entre a tiara de brilhantes que papai me presenteou pra esse tão sonhado momento, para ele, é claro.
Seguro as pontas dos fios que chegam até minha cintura e os enrosco entre os dedos várias vezes numa atitude nada sofisticada, mas que me ajuda a conter a ansiedade, se minha cunhada me visse certamente me recriminaria por isso. Uma das criadas me ajuda com o vestido longo levemente aveludado num tom de claro de rosa, ergo meus braços e ela transpassa uma das mangas bufantes e na sequência a manga longas com rendas francesa na manga formando uma leve saia, depois repete com o outro braço, logo ajeita o decote casto do vestido, sinto elas abotoarem a infinidade de pregas por detrás numa paciência constante, muito mais que a minha. Quando finalmente terminam com as vestes, complementam com as joias já postas em cima da penteadeira de marfim, Catherine as escolheu, felizmente minha cunhada tem um gosto requintado. A gargantilha de pedras da cor do vestido são colocadas delicadamente sobre mim, bem como os brincos. Assim que todas se afastam entendo que finalmente devo estar pronta, depois de longas e incansáveis horas.
- A Srta. está digna de uma princesa, Mademoiselle ! - uma serva fala com seu sotaque francês aos suspiros enquanto me analisa.
Neste momento sou o centro das atenções e admirações por todas as criadas que não param de me analisar. Agradeço ao gentil comentário com apenas um aceno de cabeça, desejaria profundamente estar tão animada com tudo isso quanto as jovens ao meu redor que suspiram ao me olhar tão bem vestida como se minha vida fosse um conto de fadas igual ao dos livros. E é normal que estejam assim, todas as moças da minha idade ficariam em êxtase com o tão sonhado momento na qual conhecerá seu futuro marido, o homem com quem irá compartilhar sua vida até seus últimos suspiros. Eu no entanto, apenas sinto como se tudo isso não tivesse sentido algum para mim.
Sra. Benect entra fazendo uma delicada mesura anunciando:
- Srta., Helena, estão todos lhe aguardando.
A observo como se ainda me restasse alguma saída, Sra. Benect é uma mulher elegante de meia idade que me acompanha desde a infância.
Minhas criadas se organizam de forma impecavelmente enfileiradas, então, respiro fundo aceitando meu destino, e sigo passando por todas até a saída do meu quarto.
Nossa casa é grande e bem confortável, uma bela construção de pedra, bem parecida com a dos castelos reais, digno de uma família com posses como a dos Lewis. Segundo papai, o nosso bisavô almejava um título da nobreza, e não poupara ao construir uma moradia digna disto. Respiro aliviada por seus desejo mão terem se concretizado, afinal ter um título de tal grandeza sobrecarregaria ainda mais minhas responsabilidades.
Chego até o salão principal em passos lentos ainda sentindo um leve enjoo, certamente resultado de todo nervosismo. Paro no alto da escada enquanto faço esforço para reconhecer as figuras presentes lá embaixo. Minha família está em peso, todos vestidos impecavelmente para a ocasião, papai em sua túnica bem alinhada, minha cunhada esplêndida em seu vestido azul turquesa e os cabelos dourados presos em um penteado impecável que deixa alguns cachos soltos, está ao lado de Eduard que conversa com mais dois rapazes desconhecidos, aliás noto muitas pessoas desconhecidas e sei que entre elas está o meu... Futuro marido. Edgar está fazendo uma bela demonstração de flauta doce e todos lhe admiram, o som é delicado e encantador, meu irmão tem uma fascinação por música, além de muito talento. Às vezes tenho a impressão de que ele desejava ter investido em tal carreira, mas papai jamais aceitaria, Edgar tem suas responsabilidades e assim como eu está enfadado a seguir um destino traçado para ele, por papai.
Como se eu não pudesse me sentir mais tensa, de repente a atenção de todos se voltam para mim. Edgar deixa uma pausa em seu instrumento, e um grande silêncio invade o recinto. Busco fôlego, mas o espartilho... Parece um pouco apertado demais. Inclino meu corpo levemente de forma elegante depositando parte de meu peso nas pontas dos pés na tentativa de aliviar a peça que comprime meu abdômen mais do que deveria. Papai vem ao meu encontro em passos lentos me analisando com um belo sorriso orgulhoso. Ele ergue a mão para mim e faz uma mesura elegante, inclino a cabeça de leve correspondendo. Logo passo meu braço por entre o seu lhe recebendo de forma carinhosa, apesar de estar sendo praticamente obrigada a aceitar esse noivado, sei que papai me ama e apenas faz o que acha ser o melhor para mim, juntos continuo seguindo meu destino, descemos as escadas, sorrio da melhor forma que consigo.
- Você está maravilhosa, filha. Se parece tanto com sua mãe! - ouço ele sussurrar orgulhoso e admirado.
Ainda observo a multidão que nos aguarda enquanto sorrio e solto um arfado quase imperceptível com a saudades que sinto dela.
- Ela faz tanta falta.
- Tenho certeza de que ela está orgulhosa de você, querida - sinto ele depositar sua mãos sobre minhas mãos carinhosamente.- Como eu também estou.
Preciso me esforçar para não me emocionar com suas palavras, papai espera muito de mim, e é por isso que não devo decepcioná-lo. Me esforço para recuperar o fôlego em meio a dificuldade por tê-lo praticamente preso em meu diafragma comprimido.
Vejo que finalmente chegamos ao hall do salão.
- Esta é Helena, minha filha - papai me apresenta como se eu fosse um troféu e todos os olhares permanecem em mim.
Faço uma mesura de forma bem elegante. Vejo entre os desconhecidos um belo rapaz de porte alto, pele negra, cabelo bem cortado, confesso que ele é bonito, e observando as medalhas de honra presas ao seu peito, acredito se tratar do meu "noivo". Vejo um casal se aproximando logo atrás, o homem tem praticamente a idade de papai e a mulher me olha de canto, não parece estar ali de bom grado. O homem faz uma mesura e fala em tom gentil:
- Srta. Helena Lewis. Sou Antony Trovi, pai de Alexandre e esta é Rosene Trovi , é um prazer para nós conhecê-la.
Sorrio para ambos.
- O prazer é todo meu, Sr. Antony e Sra. Rosene.
- A Srta. é muito bela minha jovem, confesso que estou surpresa com sua elegância - a mulher fala com sinceridade.
Fico imaginando o que ela esperava. Uma moça de armadura e botas? Confesso que sorrio mentalmente da minha imaginação.
O homem parece constrangido com o comentário da mulher.
- Minha esposa quis dizer, que estávamos um tanto curiosos em conhecê-la, devido às peculiaridades dos gostos da Srta..
Os olhos revirados da mulher não o desmentem.
Papai pigarreia a fim de quebrar o embaraço.
O rapaz que está ao lado do senhor Antony dá um passo à frente, ele me olha com uma admiração incomum, fico sem saber como reagir. De repente sinto que o ar me falta um pouco mais, talvez realmente seja o espartilho! O mesmo rapaz faz uma mesura e estende o braço para que eu lhe dê a mão. Estendo- a delicadamente fazendo muito esforço para me manter firme, porém a cada instante tenho mais dificuldades.
- Srta. Helena Lewis, é um enorme prazer finalmente conhecê-la. És tão bela quanto eu esperava. - ele se inclina ainda mais e deposita um beijo casto no dorso de minha mão.
Se trata de um cavalheiro muito fino e educado, e não posso negar que também é belo, o suficiente para me roubar o fôlego, porém, neste instante minha falta de ar, tem outro motivo. Alexandre parece um pouco perdido entre suas feições e se afasta, ouço a voz de papai soar preocupada em meus ouvidos.
- Srta. Helena, está tudo bem? - ele sussurra discretamente.
Penso em respondê-lo, mas estou me sentindo confusa, minha visão fica turva e tudo em volta começa a girar e quando tento pedir socorro, não consigo mais respirar, o ar me falta completamente nos pulmões, sinto minhas pernas fraquejarem e de repente meu corpo vai ao chão, mas papai me segura em seus braços fortes.
Ouço um coro de "oh" todos em volta se assustam.
Na sequência não vejo mais nada, tudo fica escuro.
*
- Ela está acordando. - Ouço a voz de Catherine esperançosa.
Abro meus olhos e minha cunhada está sentada na beirada da cama, Sra. Benect está em pé ao meu lado, como sempre, cuidando de mim.
- O que ouve? - pergunto ainda zonza.
Me sinto aliviada ao perceber que não estou vestida com aquele espartilho e uso apenas minhas roupas para dormir.
Sra. Benect me entrega um copo de água e ajuda a me sentar.
- Menina, você desmaiou. Apertaram muito seu espartilho.
Bebo um gole da água devagar e o entrego a Sra. Benect.
- Como papai está, e os convidados...? - pergunto angustiada.
Catherine faz um carinho em minhas costas com as mãos, a fim de me acalmar.
- Está tudo sob controle. Apesar de que o Senhor Theodoro está irritado com as servas por terem apertado em excesso seu espartilho. Os convidados foram dispensados, a Sra. Rosene não ficou muito satisfeita - fala a última frase arqueando as sobrancelhas.
A Sra. Benect se levanta e faz uma mesura para se retirar do quarto. Deseja avisar papai que despertei e estou bem.
Quando estou a sós com minha cunhada falo sem rodeios:
- Papai deve estar realmente bravo, foi difícil conseguir um pretendente. Acho que não devo me casar, isso que aconteceu foi um recado do destino.
Catherine ri.
- Helena, você sabe que seu pai não vai desistir. Aliás, Eduard me contou que Alexandre também não. Ele ficou encantado com sua graça, também estava tão linda. O noivado ainda está de pé!
O tom animado de minha cunhada no final da frase me inquieta. Confesso que por um instante pensei que estivesse livre.
- Então...ele não desistiu? Mas talvez sua mãe o faça mudar de ideia, Sra. Rosene não pareceu rendida aos meus encantos.
Minha cunhada faz outro carinho em minhas costas.
- Helena, você não precisa de ter medo de se casar.
- Catherine, nem todas as mulheres tem a sorte de se casar e se apaixonar, assim como você e Eduard, ou como meus pais. Mamãe venerava papai, eles se amavam.
- Quando me casei com seu irmão, eu não o conhecida, assim como você não conhece seu noivo. Mas Eduard é um homem incrível e hoje eu o amo. Minha mãe sempre disse que o amor pode ser extremamente perigoso, principalmente quando não se está casada.
Tento entender o que minha cunhada quer dizer, mas não me sinto em paz. Porém, também não sei como expressar o que se passa dentro de mim.
- Acho que nunca serei capaz de me apaixonar - falo mais alto do que eu esperava.
Catherine me olha surpresa com minhas palavras.
- Helena... Irá chegar o dia em que um homem roubará seu coração, e você sentirá suas pernas fraquejarem em sua presença, o ar lhe faltar com sua ausência...- ela diz aos suspiros.
- Isso parece mais um estado de enfermidade - falo não achando nada interessante aquele assunto.
Minha cunhada ri.
- Mas o amor, é como uma doença, causa reações em todo nosso corpo, mas seria uma doença boa, digamos assim...
As palavras de minha cunhada não são o suficiente para me aquietar.
- Algum dia você irá entender o que eu digo. Agora descanse, Helena.
Catherine diz ajeitando meus travesseiros para que eu descanse. Entretanto sei que não será fácil, minha mente me atormenta em vários pensamentos. Eu não desejaria desapontar minha família de forma alguma, mas confesso que poderia estar um pouco mais animada com meu futuro.