Capítulo 1
Astrid Eriksson
- Ahhh! Hmm...
Gemidos baixos atravessaram o silêncio do corredor. Ritmados, abafados. Claros demais para serem ignorados.
Parei em frente a porta do quarto do meu noivo, e meu corpo ficou imóvel por um segundo, só um. Depois disso, minha expressão endureceu.
Não. Não comigo.
Minutos antes:
Abri a porta do quarto de hotel decidida. Precisava contar ao João Miguel o motivo por ter aceitado nosso casamento. Não era justo que ele casasse sem saber toda a verdade.
Ergui o belo vestido branco carregado de pedrarias pra não enroscar no sapato e segui até o quarto ao lado, onde ele se arrumava para a cerimônia.
Sorri, era a primeira vez que me sentia confortável pra falar com alguém sobre isso. Mas assim que iria bater na porta, o que ouvi me fez parar com o punho fechado e encostado nela.
- Hmmm... Ahhhh... - eram gemidos? Isso não poderia estar acontecendo.
Eu escolhi esse safado para ser meu marido só porque não herdaria meu trono de Donna da máfia Suéca se não fosse casada.
Meu coração disparou tão forte que por um segundo achei que fosse desmaiar. Afastei-me um passo. O sangue subiu ao meu rosto. Havia um acordo. Ele me traiu?
Voltei para o meu quarto quase sem sentir os pés no chão. Minhas mãos tremiam. Peguei um copo de vidro na mesa e encostei na parede que separava os quartos, e pressionei a borda.
O som atravessou mais claro agora. Tudo estava bem claro. Fechei os olhos com força. Uma lágrima escapou antes que eu pudesse impedir.
Idiota.
Por que eu estava surpresa? João Miguel era um homem. Um consigliere da máfia italiana. Talvez tivesse uma amante. Talvez várias. Quem saberia?
Apertei o copo com força, e por um segundo pensei em arremessar o vidro contra a parede, mas parei. Eu não era do tipo que deixava as coisas passarem. Eu precisava ver com meus próprios olhos. Ainda dava tempo de cancelar essa merda de acordo.
Fui com raiva. Segurei o vestido de noiva e mesmo de salto, meti um chute na porta do jeito que aprendi desde menina. A porta cedeu.
Mas no instante em que entrei- O alarme de incêndio disparou. Um som estridente tomou o ambiente, seguido de fumaça se espalhando rapidamente.
- Mas que porra...? - vi sombras. Uma silhueta feminina, senti cheiro de perfume, e ouvi a voz:
- O que aconteceu? - A voz... era conhecida, mas não parecia de João Miguel. Eu não tinha certeza.
- Astrid? - Virei o rosto e João Miguel estava na porta. Intacto. Como se tivesse acabado de chegar.
Olhei de volta para o quarto, mas não tinha nada claro, nada certo. Que droga. Avancei e o empurrei contra a parede do corredor.
- Você acha que eu sou idiota? - me olhou com dificuldade por causa da fumaça que se espalhava rapidamente.
- O que aconteceu? Porque saiu do quarto e entrou aqui? - ele perguntou enquanto tentava afastar a fumaça do meu rosto.
- Quem estava com você naquele quarto? - gritei. Eu não me importava se o hotel explodisse, eu só queria a verdade.
- Eu troquei de quarto. Nem estava ali.
- Ah, claro que trocou. Bem conveniente. - Debochei me afastando com um lado do corpo, mas ele segurou meus braços.
- Astrid-
- Eu ouvi. Você estava com alguém ali. Eu preciso saber.
Então alguém gritou no corredor:
- Precisamos evacuar o prédio! - mas ignorei.
- Quem estava com você, João Miguel?
- Eu não estava com ninguém. - Ele segurou meu rosto com força. Estava com a voz alterada e sustentou meu olhar com aquela força masculina que tem ao encarar, e isso me irritou mais do que qualquer desculpa. Mas a situação piorou quando ouvi uma voz feminina saindo de dentro do quarto.
- João Miguel! - Ela o chamou pelo nome?
Virei. A mulher saiu do quarto mancando levemente. Ainda tinha bastante fumaça, mas no corredor a visão ficou mais clara. Era linda, parecia confiante arrumando os cabelos com os dedos e mantendo o rosto erguido. Cabelos negros e longos, olhos pretos como os de João Miguel. Perigosa, e com uma roupa tão curta que se abaixasse daria pra ver a calcinha.
- Me ajuda a ir até o elevador? - disse, manhosa. - Virei o pé, João Miguel... - Meu estômago revirou. Ela o conhecia, agora era real.
Olhei para ele esperando sua resposta pra mulher.
- Não tenho tempo agora - respondeu, frio, puxando meu braço. - Vamos sair daqui Astrid.
Voltei para ela, me desprendendo dele.
- Você conhece ela? - ele balançou seus cabelos pretos que iam no rosto com mais força que o comum, jogando pra trás.
- Astrid, o prédio está pegando fogo, porra! Vai sair ou terei que te arrastar?
Eu sabia que precisava sair. Dei uma última olhada pra aquela mulher e percebi que nenhum outro homem saiu pela porta do quarto. Observei o vestido desalinhado, o sorriso pra mim provocando, e então dei as costas pra ela.
- Antes você era mais carinhoso, querido... nem casou e já está gritando com sua noiva? - Foi o suficiente pra me tirar do sério.
Avancei sobre ela, fechei o punho e meti um soco no seu nariz. Ela caiu.
- Não importa quem você seja - minha voz saiu alta, perigosa. - João Miguel é "meu" noivo. - Dei mais um passo. - E ninguém vai chamar ele de querido. Aprenda a respeitar a Donna Suéca ou não vai viver pra saber o que aconteceu.
Ela quis gritar, mas ele me puxou gritando com ambas.
- Já chega! - me arrastou para as escadas. De canto de olho vi um vulto que ajudou a mulher a sair de lá, mas com a puxada de João Miguel eu não identifiquei nada. Não tinha como saber se era alguém do hotel ou algum conhecido.
Desci com o coração disparado, a raiva queimando, o vestido pesado contra meu corpo.
- Me solta João Miguel! Não vai mais ter casamento. Está cancelado! - Ele continuou me puxando e me obrigando a descer as escadas. Eu não podia com a força dele, é bem maior e foi muito bem treinado na máfia italiana.
- Não quero mais nenhum acordo! Vai embora!
Quando descemos o último degrau, ele me prensou contra a parede. Seus olhos negros pareciam que iriam me consumir.
- Escuta aqui, Astrid! Eu deixei todo o meu legado pra casar com você. Deixei de ser Consigliere de uma máfia a todo vigor pra me tornar seu Don. A Suécia está quebrada, e você fez sua escolha. Então cala a porra da boca e me obedece. Porque hoje você casa comigo nem que seja amarrada!
- Mas você me traiu! - tentei empurrar seus punhos, cheguei a tirar da parede, mas agora me segurou pela cintura.
- Ah é? Então prova amore mio. Se você conseguir, eu mesmo te devolvo seu maledetto cargo. Agora arruma essa cara e vamos até a cerimônia porque tem duas máfias grandes nos esperando. Ou vai querer chegar lá e fazer papel de inexperiente ao cancelar um casamento de negócios?
Sua expressão era de puro deboche.
- Negócios? É "só" um acordo mesmo, pra você?
- Sim, temos um acordo. Só que estou dizendo que não estava com ninguém. Mas se formos olhar pelo acordo, era cada um não se meter na vida do outro. Porque está reclamando?
Apertei os dentes e prendi a respiração. Por mais raiva que eu estivesse... Ele tinha razão. E esse casamento precisava acontecer.
Fui puxada novamente.
- Eu sei andar sozinha. Não me puxa! - desprendi o braço dele. João não forçou, mas ao chegar do lado de fora... Merda!
Capítulo 2
João Miguel Prass Fernandes
"Ah! Porque mulher só complica as coisas?"
"Numa hora é uma porra de acordo de negócios e na outra vem com crise de ciúmes?" - Respirei profundamente pra não perder o controle.
O cheiro de fumaça ainda ardia na minha garganta quando saímos do hotel, misturado ao som das sirenes e da confusão que se espalhava pela rua. Pessoas corriam sem direção, funcionários gritavam ordens que ninguém parecia ouvir, mas nada daquilo importava.
Meu foco foi direto para a calçada, procurando os carros que deveriam estar nos esperando pra levar até o casamento.
E o que encontrei foi... nada.
- Cadê os carros? - Astrid perguntou ao meu lado.
Observei com mais atenção o ponto onde deveriam estar. Não havia vidro quebrado, nem marcas de colisão, nem qualquer sinal de retirada forçada.
Olhei pra cima e também notei algo estranho. A fumaça começou exatamente no andar onde estávamos.
Soltei o ar devagar. Vi que Astrid também olhava para a mesma direção.
- Isso não foi um incêndio comum João Miguel.
- Ela virou o rosto para mim imediatamente, os olhos frios e atentos. - Foi premeditado.
Assenti.
- E fizeram isso pra nos tirar do caminho. - rosnei.
- Ragnar e os seus familiares da Strondda podem estar em perigo. O que faremos? - disse enquanto erguia o vestido do chão.
Foi então que meu olhar encontrou o Mustang preto parado no final do quarteirão. O motor ainda estava ligado, o carro eu reconheceria em qualquer lugar.
Minha expressão endureceu.
- Aquele é o carro do nosso Consigliere.
Astrid estreitou os olhos, analisando a situação com rapidez.
- Tem certeza? Porque parece que tem muita pressa. Olha a arrancada dele.
- Absoluta. - O silêncio entre nós durou apenas um segundo. - Alguma coisa aconteceu com Ragnar, o Consigliere. Precisamos ir atrás dele.
Ela não perdeu tempo. Atravessou a rua com decisão, segurando o vestido para não atrapalhar seus movimentos. Eu ainda tentei questionar, mas fui interrompido pelo som do vidro que ela quebrou.
Astrid havia estilhaçado a janela de um carro estacionado com o cotovelo, acionando o alarme imediatamente. Nem piscou, apenas virou o rosto para mim.
- Sabe fazer ligação direta? - Vi que tinha um pouquinho de sangue na luva branca, mas ela arrancou as duas e jogou dentro do carro sem se importar.
Caralho! Ela é esperta.
Parte do seu cabelo completamente loiro ficou no rosto e seus olhos azuis piscaram bem devagar, contrastando os cílios marrons e bem aparentes.
Um sorriso rápido surgiu no canto da minha boca. Ela parece uma boneca, mas age como uma mafiosa perfeita.
- Eu fui criado pra isso, ragazza. - respondi sem rodeios.
Entrei no carro sem hesitar, puxei o painel inferior e conectei os fios com precisão. Em poucos segundos, o motor respondeu e o alarme parou .
- Entra. - Ela já estava no banco do passageiro quando liguei o carro. No mesmo movimento, puxou a arma de dentro do vestido com naturalidade, como se aquilo fizesse parte do traje.
- Agora sim estamos falando a mesma língua - murmurei... Astrid colocou a arma pra fora da janela, se antecipando a um possível ataque. - Ficou linda nessa posição. - Me perdi alguns segundos olhando pra ela.
Mas bufou, me ignorando.
Arranquei com força, fazendo os pneus cantarem no asfalto. O Mustang à frente começou a se mover quase no mesmo instante.
- Ele viu a gente - Astrid comentou.
- Ótimo. Então não é coincidência. Esses maledettos estão nos esperando.
Acelerei, costurando entre os carros com precisão. O trânsito virou apenas um detalhe, algo a ser evitado no último segundo. O Mustang não estava tentando desaparecer. Estava mantendo distância e controlando o ritmo.
- Ele não está fugindo - falei, já entendendo o padrão.
- Está guiando a gente - ela respondeu.
- Exatamente. O plano é nos atrair.
Dobrei uma esquina fechada e entrei em uma rua mais aberta, ganhando velocidade. O Mustang reduziu de repente, como se esperasse por nós.
- É uma armadilha - Astrid disse.
- Sem dúvida. Mas ninguém vai tentar estragar meu casamento e sair sem uma bala na testa.
Pisei no freio quando ele parou bruscamente à nossa frente, girando o volante para evitar a colisão. O carro deslizou e ficou atravessado na rua. Foi nesse momento que tudo aconteceu.
Um segundo carro surgiu de lado em alta velocidade, derrapando até fazer um cavalo de pau no meio da rua, levantando poeira e fumaça enquanto bloqueava completamente o caminho. As portas se abriram e homens armados começaram a sair.
- Agora começou - murmurei, já abrindo a porta.
Astrid foi rápida. O primeiro tiro veio dela, preciso, direto. O homem caiu antes mesmo de reagir. Outro tentou avançar pela lateral, mas eu já estava com a arma em mãos. Dois disparos, secos, e ele também caiu.
Mais dois vieram logo atrás. Astrid girou o corpo com uma fluidez impressionante, segurei sua cintura e nosso olhar se encontrou por um segundo quando ficou na minha frente. Eu jurei que a maledetta iria me beijar, mas ela trocou o ângulo e saiu atirando sem hesitar.
Um deles tentou se aproximar demais, dei cobertura, matando quem tentasse encostar nela, e ela não recuou. Deu um passo à frente, bateu com a arma no rosto dele e finalizou à queima-roupa.
Fria. Controlada. Letal.
- Atrás! - gritei.
Ela se abaixou no mesmo instante, e eu atirei por cima dela, derrubando outro homem que vinha em nossa direção.
O silêncio caiu rápido demais, mas ainda não era o fim. A porta do Mustang abriu. Olhei imediatamente.
Ragnar estava lá dentro, amarrado, com o rosto marcado de sangue. Meu corpo tensionou ao ver aquilo.
- Figlios de puttana... - murmurei, avançando.
Mas Ragnar não esperou, reagiu. Com um movimento brusco, conseguiu se soltar, arrancou a fita que o prendia e puxou uma arma escondida. Dois tiros rápidos e precisos, e os últimos homens de pé caíram.
Ele saiu do carro respirando pesado.
- Chegaram rápido - disse, limpando o sangue do rosto e olhando o carro. - Tomara que nenhum tenha acertado meu carro novo.
- Você tá bem? - perguntei.
- Já estive pior. - Ragnar respondeu com um sorriso debochado - Mas que jeito melhor de assumir a máfia Sueca se não for atirando e limpando a casa, não é? Isso tá bem interessante... Don.
Balancei levemente a cabeça. Era a primeira vez que alguém me chamava de Don.
Astrid se aproximou, ainda com a arma firme nas mãos.
- Você foi a isca Ragnar. - ele assentiu.
- Sim. O alvo era você. - respondeu olhando pra ela.
- Certamente alguém não me quer no comando... - Ela falou enquanto recarregava sua arma com frieza. Hmmm... Pelo visto tem muito mais coisa do que imagino por baixo desse vestido branco. - Olhei seu corpo por inteiro.
- Ou então havia mais algum interessado em casar com você. - Ragnar comentou baixo, e agora teve minha total atenção - Ouvi alguém falando em Suéco que se a noiva morresse todos morreriam junto.
O silêncio que veio depois foi mais pesado. Então eu tinha um concorrente?
Mas de repente, ouvimos outro motor. Mais grave, mais controlado, sem a pressa dos outros.
Viramos ao mesmo tempo.
Um carro preto, uma Ferrari Roma de quatro lugares, claramente blindado, se aproximou devagar e parou alguns metros à frente. Não havia desespero naquele movimento, nem tentativa de ataque eminente.
As janelas escuras impediam qualquer visão do interior. Ninguém saiu. Ninguém atirou. Aquilo não era um confronto. Era um aviso?
Senti Astrid ficar mais tensa ao meu lado.
- Esse não veio lutar - ela disse.
- Não... - respondi, mantendo os olhos fixos no carro.
- Talvez seja o cara que queira Astrid. - Ragnar disse e apertei minha Taurus 9 milímetros.
Puxei Astrid pra perto de mim pela cintura, a colocando atrás de mim.
- Eu sei me virar sozinha... - rosnou tentando me irritar.
- Quieta, porra. Ninguém vai te levar daqui hoje. - falei virando pra ela e Astrid quase conseguiu me desconcertar olhando para meus lábios. Mas voltei a si e apontei a arma para o carro.
Ele permaneceu ali por alguns segundos.
- No dois a gente ataca, Ragnar...
Olhei para Astrid, depois para os corpos espalhados pelo chão, e por fim para a direção em que o carro estava. Minha mandíbula travou.
- Parece que alguém não quer que você case comigo ragazza... Vamos ver quantos terei que matar.
Mas quando a porta abriu e Ragnar levantou a mão com a arma, eu gritei:
- Espera!
Capítulo 3
Astrid Eriksson
Meu dedo ainda estava firme no gatilho, o corpo preparado para reagir ao menor movimento, mas tudo o que veio foi um rosto conhecido.
Era Alexei, e ao lado dele, Maria Luíza. Soltei o ar devagar, mas não abaixei a arma de imediato pela tensão.
- Que merda foi essa, hein? Em pleno dia do casamento? - Alexei perguntou, analisando os corpos no chão com aquele olhar frio e calculista de sempre.
João Miguel respondeu antes que eu dissesse qualquer coisa.
- Alguém queria impedir o casamento. Só esqueceram com quem estavam lidando. Deveriam ter se preparado melhor.
Cruzei os braços, ainda sentindo a adrenalina pulsando nas veias.
- Amadores.
Maria Luíza passou os olhos rapidamente por mim, avaliando se eu estava ferida.
- Tá tudo bem? - perguntou mesmo não vendo algum estrago.
- Estou sim, Malu. E vocês? Afinal também deveriam estar no hotel. O que aconteceu?
Alexei começou a dizer:
- Eu e a Malu estávamos esperando a Astrid, mas quando vimos fumaça no hotel subimos rapidamente - Alexei continuou. - Da janela de uma das escadas vi os nossos dois carros sendo roubados e, como trouxemos poucos homens, descemos pra resolver. Nils apareceu com o carro dele e conseguimos recuperar tudo.
Meu olhar encontrou Nils, e, pela primeira vez desde que tudo começou, senti um alívio real. Ele estava bem. Intacto. Nos conhecemos a anos aqui da Suécia.
Assenti de leve.
- Parece que a nossa equipe da Suécia é ótima... - comentei, arrumando minha arma antes de finalmente guardá-la.
Foi então que o celular de João tocou. Ele se afastou, falando baixo. Observei sua postura, a tensão ainda estava ali, mas não era só pelo ataque. Era pelo que aquilo significava.
Quando voltou, já vinha decidido.
- Precisamos nos apressar. Estamos atrasados. Meu pai já está preocupado. Estão todos nos esperando.
Maria Luíza olhou para mim.
- Astrid precisa trocar de roupa?
Passei a mão pelo vestido branco. A barra estava suja, havia poeira e um pequeno rasgo quase imperceptível. Nada que importasse.
- Não. Só me desfiz da luva, o resto está ok.
E estava mesmo, porque aquilo também fazia parte de quem eu era.
- Certo, então vamos - João disse, já assumindo o comando. - Ragnar, você cuida da limpeza aqui?
- Claro, Don.
A palavra "Don" ainda soava nova, mas ninguém contestava.
Nils deu um passo à frente.
- Eu ajudo Ragnar. - Mas eu não concordei com aquilo.
- Ragnar resolve, Nils - cortei, firme. - Quero você na cerimônia.
Senti o olhar de João sobre mim. Sua mão foi pra cintura me olhando.
- O que foi? - O questionei - Nils é como um irmão.
Ele não gostou. Vi no maxilar travado, mas não discutiu. Nils hesitou.
- Não quero causar problemas, Don. Posso ficar aqui- ele é tão atencioso e bom.
- Não - João interrompeu movendo a cabeça. - Se Astrid quer você na cerimônia, não tem discussão. Você vem.
Isso me fez olhar para ele por um segundo. Não era só autoridade. Era outra coisa que eu ainda não queria nomear. Ele pensou em mim.
Nils assentiu e foi até o carro. Eu entrei no carro de Alexei com João logo atrás. Não era o protocolo porque deveríamos estar cada um num carro, não era o certo ele me ver de noiva antes da hora, mas depois de tudo aquilo, ninguém ali estava interessado em seguir etiqueta.
O caminho foi silencioso, mas não confortável. Eu sentia o olhar de João em alguns momentos e, por mais que não olhasse diretamente, sabia que ele também estava sentindo como as coisas estavam mudando. Afinal, agora tudo mudaria.
Quando chegamos ao reduto sueco, tudo já estava preparado. O jardim estava impecável, como se não tivesse existido caos nenhum minutos antes.
Desci do carro sem dizer nada. João seguiu com os outros até a cerimônia e fiquei sozinha por alguns minutos. Esperando ouvir a música que diria o momento em que eu deveria entrar.
Então de repente ouvi:
- Vim levar a noiva até o altar. - Virei o rosto. Era Hugo.
Um sorriso escapou antes mesmo que eu pudesse conter.
- Achei que não viria. Aliás, que ninguém viria.
- Não perderia isso por nada. - Ele estendeu o braço. Segurei.
E, pela primeira vez naquele dia, respirei de verdade.
Caminhamos até a entrada do jardim. O ambiente era mais íntimo do que muitos esperariam, nada exagerado, nada público. Apenas os Strondda, os suecos e aqueles que realmente importavam do conselho da máfia.
Soldados fazendo a segurança e pessoas que sabiam exatamente o que aquele casamento significava.
Não era romance. Era poder, aliança. Era guerra disfarçada de união para algum sueco por aí.
A música começou, baixa e elegante. Dei o primeiro passo, e então outro. Meu olhar foi direto até ele.
João Miguel já estava no altar, com a postura firme e os olhos travados em mim, como se todo o resto tivesse desaparecido. Meu coração não acelerou como deveria. Mas também não estava frio, e isso me irritou.
Continuei andando, controlada, precisa, com cada passo calculado.
Até que algo quebrou o ritmo. Uma sensação estranha como se alguém ali não quisesse esse casamento. Como se quem tivesse tramado contra nós estivesse assistindo a cerimônia com algum sorriso falso. E isso infelizmente é muito provável no nosso meio.
Meu olhar desviou por instinto olhando para os convidados. E então eu vi.
Ela. A mulher do hotel, sentada ali, entre os convidados, como se pertencesse àquele lugar.
Quem convidou essa mulher?
Meu passo falhou, quase imperceptível, mas Hugo sentiu.
- Astrid... - murmurou baixo. Ignorei.
Mas meus olhos não saíram dela.
O mesmo rosto, a mesma presença. E aquele olhar calmo demais, como se soubesse exatamente o que estava acontecendo, como se estivesse esperando por alguma coisa.
Meu maxilar travou.
Por quê? O que ela estava fazendo ali? Aquilo não fazia sentido. Não naquele momento. Não naquele lugar. Não no meu casamento.
A raiva veio rápida, fria, cortante, mas eu não parei. Endireitei a postura, levantei o queixo e continuei andando.
Minha arma estava bem posicionada por baixo do vestido. Era um movimento duvidoso e eu não hesitaria em puxar. Mas de repente...