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Um Lugar Para Recomeçar

Um Lugar Para Recomeçar

Autor:: Wilma G Silva
Gênero: Romance
Grady abraçou Holly, nâo contendo mais a paixão que quase o enlouquecia. Precisava vencer-lhes a resistência, fazê-la de novo provar o doce sabor dos sonhos e restituir-lhe a esperança no futuro. No entanto, mesmo com os olhos nublados de desejo, Holly fugiu de suas carícias... Por quê? perguntou-se ele desesperado. Que tormentos essa mulher fascinante trazia na alma, impedindo-a de amar e ser feliz? Que passado cruel negava-lhe a confiança no futuro, obrigando-a a manter-se distante de quem lhe despertava emoções mais fortes.

Capítulo 1 Um Recomeço

A casa erguia-se solitária no meio de um amplo terreno abandonado onde o mato atingia mais de um metro de altura. A pintura branca, gasta pela contínua exposição ao tempo, descascava em toda a extensão das paredes, e a porta de tela, solta das dobradiças, encontrava-se caída na varanda.

A madeira envelhecida dos batentes das janelas revelava restos de tinta verde e, de frente para a rua, um vidro quebrado brilhava como uma teia de aranha prateada sob o sol de fim de tarde.

Apesar do mato, era possível distinguir uma calçada de cimento em torno da residência, com plantas crescendo pelas rachaduras e revelando os vários meses de total negligência. Apenas as quatro grandes árvores que se alinhavam no fundo do terreno salvavam-se da atmosfera de destruição e descaso que permeava todo o local.

Holly Simpson apertou as mãos úmidas e respirou fundo. Em seguida, desceu do caminhão, tentando disfarçar uma profunda decepção. Por um breve instante, uma onda de pânico quase a dominou, mas ela conseguiu controlar-se apesar de estar vendo sua última esperança evaporar-se diante dos olhos.

- É aqui, mamãe? É esta a casa que a sua avó lhe deixou?

Ela forçou um sorriso e virou-se para o filho de nove anos.

Trevor, apoiado na janela do velho caminhão, examinava com ar de surpresa a casa abandonada.

- É querido.

- Você disse que era bonita e que nós íamos gostar muito. - Havia um tom de acusação na voz dele.

- Ela era bonita, mas fazia muito tempo que eu não vinha aqui - Holly respondeu; sem saber como conseguia manter o sorriso nos lábios. - Nós vamos reformá-la.

Agitada por uma nova sensação de medo, Holly desviou o olhar. Não queria que os filhos percebessem como ela estava abalada. Tinha contado tanto com aquela casa e, no fim, tudo acabara se mostrando como mais uma tentativa inútil. Agora se encontrava realmente num beco sem saída.

Três filhos pequenos, uns poucos milhares de dólares que haviam sobrado do seguro, nenhum emprego e tudo que possuía para recomeçar a vida era uma casa caindo aos pedaços.

Holly respirou fundo mais uma vez e encarou outro aspecto da fria realidade: se as coisas piorassem muito, teria de vender o caminhão. Tornou a fitar as crianças e viu Ryan apertando-se ao lado do irmão para também apoiar-se na janela e observar a casa.

- É bem feia, não é, mamãe? Parece mal-assombrada! Vai ver tem uma bruxa morando lá.

Holly segurou a maçaneta da porta e lançou um olhar de repreensão ao filho de oito anos.

- Chega Ryan. Você vai deixar Megan assustada com essas bobagens.

Ele olhou para a irmãzinha e sorriu.

- Não, mamãe, ela ainda está dormindo.

- Ótimo, então desçam do caminhão. Eu vou pegá-la. - Os meninos saíram do veículo e Holly sacudiu gentilmente a filha. - Meg querida; chegamos. - A menina espreguiçou-se e Holly a levantou nos braços. Depois tirou um chaveiro do bolso da calça e o entregou a Trevor. - Vá à frente e abra a porta, está bem? Ryan, você poderia apanhar minha bolsa? - Tentando mostrar-se forte, ela ajeitou Megan no colo e

encaminhou-se à velha residência de sua avó. Rezava fervorosamente para que o interior não estivesse tão ruim quanto à aparência do lado de fora mostrava.

Seus filhos precisavam de um lugar para morar!

Sentia a ansiedade sufocá-la ao ver o filho abrir a porta! Não tinha outro lugar para ir e ninguém a quem recorrer. Nada.

- Venha, mamãe - Ryan chamou, aproximando-se. - O que está olhando? Vamos entrar.

Holly apertou Megan com mais força e subiu os degraus da varanda. Contornou a porta de tela caída no chão, parou por um instante para que seus olhos se adaptassem à penumbra e entrou.

O lugar era tão pequeno! Dez vezes menor do que se recordava. Havia poeira por toda parte, mas tudo encontrava-se exatamente como a avó deixara. Os móveis velhos, os enfeites de porcelana, as cortinas bege, os quadros de flores nas paredes, a lareira num dos cantos.

A casa cheirava a mofo e umidade, mas Holly mal atentou para o fato enquanto se recostava ao batente da porta com um suspiro de alívio. O interior não se encontrava num estado tão deplorável quanto o lado externo. Poderia transformar a casa numa moradia decente, compensando os meses de abandono e negligência com uma boa arrumação geral. Sabia que iria ter trabalho, mas isso não a incomodava. O importante era que possuíam um lar.

- Chegamos? - Megan perguntou, esfregando os olhinhos sonolentos.

- Sim, querida. Estamos em casa.

- Eu quero ver.

A menina agitou-se nos braços da mãe, desejando ir para o chão. Holly a abaixou e, vendo-a afastar-se correndo, esticou o corpo para dissipar a tensão que se acumulara nas costas e pescoço.

Olhou em volta com mais cuidado e reparou que nada havia mudado. O aposento à esquerda da entrada servia como sala de jantar, com seu pequeno espaço sobrecarregado de móveis pesados e antigos. Para a direita ficava a sala de estar e, no fundo desta, uma porta levava a um dos dois quartos. O lugar ficaria agradável quando ela removesse parte da mobília e limpasse tudo.

Afastando o cabelo do rosto com ambas as mãos, caminhou até o quarto da avó. Controlando a emoção, reviu a cama antiquada junto a uma das paredes. Apenas um plástico transparente cobria o colchão de aparência relativamente nova. Havia um pequeno criado-mudo ao lado da cama, uma penteadeira com espelho e um grande armário ainda repleto de roupas. Holly sentiu os olhos molhados de lágrimas ao perceber os velhos vestidos pendurados em cabides de madeira, mas não tardou a fechar a porta do guarda-roupa e sair do cômodo. Precisava concentrar-se na situação presente e avaliar as possibilidades. A única mobília que possuía eram as camas das crianças, mas o quarto era tão pequeno que não havia espaço sequer para o berço de Megan.

A cozinha mostrava sinais de mudanças recentes, que incluíam dois armários novos e uma lavadora de pratos. O chão, contudo, conservava o mesmo piso escurecido que ela observara em sua última visita, havia dez anos. Abriu a torneira da pia por mero acaso e surpreendeu-se ao ouvir um ruído nos canos e, em seguida, deparar-se com um jato de água límpida. Experimentou o interruptor de luz e as lâmpadas fluorescentes piscaram e encheram o ambiente com sua luz clara. Fechou a torneira e franziu a testa, intrigada. Talvez o advogado que cuidara do patrimônio de sua avó houvesse providenciado para que a água e a luz fossem ligadas novamente ao receber o comunicado de que Holly não queria mais vender a casa, mas pretendia ir morar lá. Nem pensara em indagar sobre esses detalhes quando fora buscar as chaves com a secretária dele.

Holly virou-se para a geladeira, esperando pelo pior. Porém, a porta entreaberta mostrava que o interior parecia ter sido limpo. Talvez tivessem cuidado disso também, ela pensou.

O segundo quarto, que se situava além da cozinha, encontrava-se vazio, exceto por uma velha máquina de costura, uma enorme penteadeira, uma cadeira e a estrutura de uma cama de campanha.

O aposento era pequeno, mas, por sorte, os meninos dormiam em beliche e seria possível acomodá-los bem. Afinal, o tamanho da casa era um problema irrelevante; pelo menos agora tinham um lar.

Holly deu uma olhada rápida no banheiro antes de retornar à cozinha e abrir a porta dos fundos, curiosa por saber por onde as crianças andariam. Reparou no pequeno galpão que fora construído havia poucos anos e que agora servia como depósito para móveis velhos. Entre as peças ali armazenadas havia um fogão a lenha que devia ter mais de cem anos.

Ela examinou a relíquia com cuidado. Antes de se casar, trabalhava para um comerciante de móveis usados que se interessava imensamente por antigüidades. Com certeza ele adoraria aquela peça. O fogão estava em excelentes condições e poderia valer uma pequena fortuna se fosse vendido para a pessoa certa. De repente, possuir tal preciosidade em sua própria casa a fez sentir-se mais segura e, pela primeira vez em muitos dias, respirou aliviada.

Holly levantou os olhos na direção da garagem e viu uma mulher baixa e roliça aparecer junto ao portão. Observou o rosto sorridente e sardento, o andar apressado, e deduziu que aquela só poderia ser Liz Crawford. Sua avó descrevera a vizinha em suas cartas e sempre se referia a ela com grande afeição.

A recém-chegada acenou e abriu um sorriso ainda maior ao se aproximar de Holly.

- Oi! Sei que você é Holly; eu a vi nas fotografias de sua avó. Estava esperando desde cedo e pensei que nem vinham mais! - Quando chegou suficientemente perto, ela estendeu a mão. O rosto alegre revelava sua natureza extrovertida. - Sou Liz Crawford. Moro a duas casas daqui, rua abaixo. Bem vinda a Jennings.

- Obrigada - Holly respondeu, sorrindo. - Eu também achei que não chegaria mais. Foi uma longa viagem.

- Ainda mais com crianças junto, não é? - Liz comentou, rindo. - Os meus brigam, discutem e reclamam até estarmos a dez quilômetros do nosso destino. Então, encostam a cabeça no banco e dormem.

- Bem, os meus passaram os últimos mil e duzentos quilômetros brigando pela janelinha.

- E as pessoas não sabem por que as mães logo ficam grisalhas. - Liz afastou o cabelo loiro e curto do rosto e fitou Holly com uma expressão subitamente séria. Havia emoção em sua voz quando voltou a falar: - Sua avó era muito especial para mim. As coisas não são as mesmas por aqui sem Cora.

- Vovó falava sempre de você nas cartas - Holly respondeu, comovida. - Era como se você fosse parte da família.

- Bem, ela certamente fazia parte da nossa família. Era como uma outra avó para meus filhos.

Holly engoliu em seco e afundou as mãos nos bolsos da calça.

- Eu gostaria de ter podido vir antes de ela morrer. Detesto pensar que ela ficou sozinha.

- Mas ela não ficou sozinha - Liz assegurou, sorrindo para Holly com uma expressão carinhosa. - Cora tinha muitos amigos e compreendeu que você não podia vir, mas pensava nela.

Holly desviou o olhar, tentando disfarçar a dor; a sensação a invadia de forma quase insuportável. Fora horrível saber que a avó estava morrendo e não poder juntar dinheiro suficiente para vir fazer-lhe companhia. Não tivera nem a chance de considerar tal idéia. Mal conseguia alimentar as crianças, quanto mais viajar mais de mil quilômetros para visitar a avó doente. Nunca houvera dinheiro extra em sua casa, a não ser quando chegava a ocasião dos rodeios, pois Derek sempre dava um jeito de arrumar alguns dólares para comprar o ingresso. Enfim, Derek sempre cuidara só de si próprio.

- Ela o compreendia de fato - Liz reforçou, abraçando Holly. - Cora percebia tudo o que se passava à sua volta.

Holly fitou a mulher por um breve instante, sentindo-se subitamente exposta. Então sua avó fora capaz de ler nas entrelinhas, embora escrevesse as cartas com tanto cuidado! Não era de admirar que Liz mencionasse a morte de Cora, que ocorrera há mais de cinco meses, e nem ao menos lembrasse da de seu marido, que fora morto há menos de doze semanas. Holly conteve as lágrimas, sentindo uma imensa saudade da avó.

Apenas Cora enxergara o verdadeiro Derek desde o princípio. Ela não se iludira com o charme e a boa aparência e percebera nele um homem que nunca iria crescer, que passaria o resto da vida sonhando, incapaz de assumir qualquer responsabilidade. A velha senhora tentara chamar Holly à razão mesmo quando descobrira que a neta de dezessete anos ficara grávida. Procurara convencê-la a desistir do casamento com Derek, mas Holly, apaixonada, recusara-se a ouvir qualquer conselho. Sentia-se tão segura quanto a seus sentimentos, quanto a Derek... E, no fim, acabara descobrindo que nunca estivera tão enganada.

- Você já teve oportunidade de examinar a casa?

Holly respirou fundo antes de responder à futura vizinha:

- Só dei uma olhada rápida. Não me lembrava que ela era tão pequena.

- É; eu sei o que você deve estar pensando. Vão ficar apertados aí dentro, não é?

Holly ia responder que pelo menos agora tinham um teto, mas resolveu ficar quieta. O passado estava morto. Aquela mudança era uma chance de um novo começo para ela e as crianças e não queria transmitir aos outros uma impressão de autopiedade. Passara os últimos cinco anos tendo de aceitar doações e caridades para poder alimentar e vestir a família; isso ferira demais o seu orgulho.

Mas agora tinha a oportunidade de mudar tudo. Ali ninguém iria sacudir a cabeça de desgosto toda vez que seu marido aparecia bêbado na cidade, tentando arrumar dinheiro emprestado para assistir a mais outro rodeio em algum município vizinho. Ali poderia recomeçar sem a humilhação de aceitar esmolas de quem quer que fosse. Talvez ela e as crianças tivessem sempre o dinheiro contado, mas trabalharia em qualquer emprego que aparecesse para ser capaz de sustentar a família.

Ela era a única responsável pelo bem-estar dos filhos... E isso a deixava apavorada.

O som estridente de vozes infantis trouxe seus pensamentos de volta ao presente e, forçando um sorriso, olhou para a vizinha.

- Vamos ter trabalho para limpar este pátio.

Liz sentou-se no degrau de cimento que levava à cozinha e deu uma olhada em volta.

- Não devia estar tão ruim assim. Quando Ned Brown nos avisou de que você viria morar aqui, Eric, o meu marido, decidiu que daria um jeito nesta floresta, mas teve tanto trabalho durante a primavera que mal parou em casa. Eu tenho sorte quando o vejo antes de ir para a cama.

- Ned Brown é o advogado que cuidou da herança de minha avó, não é? - Holly indagou, sentando-se ao lado de Liz.

- É. Ele nos telefonou para contar que você viria com as crianças.

- Então deve ter sido você que limpou a geladeira e tratou da ligação da água e da luz.

- Bem, eu achei que poderia pelo menos melhorar a aparência da cozinha. Foi Eric que providenciou a ligação da luz e da água. Quando soubemos que você vinha, ele

conseguiu convencer as companhias de fornecimento de que era apenas um restabelecimento do serviço e não uma nova instalação, senão você teria de pagar uma taxa enorme. O custo é astronômico quando uma pessoa vem de mudança de outro Estado.

Holly tinha até medo da próxima pergunta. Desviou o olhar, preparando-se para o pior.

- Em quanto ficou? - indagou, tentando não demonstrar ansiedade.

- Não tenho a menor idéia. Eric entregou os recibos a Ned e imagino que deve ter sido reembolsado, mas é melhor você verificar com ele.

Holly soltou a respiração devagar. Não esperava por despesas tão imediatas. Era preciso arrumar um meio de ganhar dinheiro antes de começar a gastar ou iria à falência. Franzindo a testa, ela inclinou-se e mexeu com o sapato nos pedregulhos do chão.

- Sabe de algum emprego na cidade?

- Não há muita coisa - Liz respondeu, lançando um olhar rápido e intrigado para Holly. - O hotel sempre precisa de funcionários e há também o lar para idosos. A cidade é pequena e tem um campo de trabalho restrito. O que você gostaria de fazer?

- Qualquer coisa, por enquanto - Holly murmurou, sem levantar os olhos.

Liz ficou em silêncio por um instante, examinando o perfil de Holly. A moça precisava de ajuda.

- Sei que a Sra. Propowski está procurando alguém para trabalhar na casa dela algumas horas por semana. Ela é uma viúva de setenta e poucos anos e não consegue mais fazer os serviços domésticos sozinha. Deve haver outros casos assim na cidade. Talvez Ned saiba de alguma coisa.

- Onde mora a Sra. Propowski?

- É minha vizinha. Mais tarde eu a levo até lá e apresento você a ela. - Liz levantou-se e limpou o short batendo-o com as mãos. - Melhor ainda, venha tomar um café comigo e eu convidarei a Sra. Propowski também. Fiz uns bolinhos que devem estar para sair do forno. Deixe a casa para depois.

- Se eu pudesse, acho que adiaria esta tarefa para sempre. - Holly suspirou, levantando-se devagar. - Não sei nem por onde começar. Há tanta coisa para fazer aqui!

- Siga o conselho de sua avó: ela dizia que nenhuma tarefa era difícil demais quando iniciada com uma boa xícara de café quente e uma grande dose de determinação.

Holly sorriu, hesitante. Iria precisar de mais do que uma xícara de café e determinação para enfrentar o que tinha pela frente. Necessitava mesmo era de um milagre.

Durante os dois dias seguintes, Holly trabalhou desde as primeiras horas da manhã até o entardecer para limpar o pó e o mofo acumulados há meses sobre o excesso de mobília envelhecida e encontrou até uma família de ratos instalada no galpão. Cada vez que mexia nas coisas descobria uma nova preciosidade: uma caixa com velhas fotografias de família; um porta-jóias forrado de veludo e cheio de peças antigas; alguns móveis belíssimos e valiosos para colecionadores; um relógio de pêndulo feito à mão.

Porém, o tesouro mais inacreditável foi o armário na pequena sala de jantar. Lá, encontrou um aparelho de jantar completo de porcelana antiga, algumas lindas peças de cristal, um aparelho de chá de prata e, na última gaveta, escondidas sob uma toalha de linho, todas as cartas que ela escrevera para a avó. Holly sentou-se no chão com a pilha de envelopes sobre o colo, enquanto as lágrimas deslizavam-lhe pela face. Daria qualquer coisa para ter tido a oportunidade de, ao menos uma vez antes que a avó morresse, dizer frente a frente o quanto a amava. Agora, só lhe restava acreditar que Cora sabia disso, mesmo sem o auxílio das palavras.

Apesar do cansaço e dor nas costas causadas pela arrumação da casa, o que mais preocupava Holly era o rápido consumo de sua reserva de dinheiro. A Sra. Propowski a contratara para trabalhar duas vezes por semana e ela conseguira inscrever-se para

serviços ocasionais no hotel, mas o que ganharia não seria suficiente nem para as compras na mercearia. Precisava de outro emprego. Todas as vezes que pensava nisso, o que ocorria com uma freqüência desesperadora, experimentava uma sensação de pânico.

Capítulo 2 O Testamento

Holly sentia-se mais pressionada do que nunca no dia em que foi conversar com o advogado.

Precisava arranjar uma babá para as crianças, tendo ou não condições financeiras para isso, pois não achava justo continuar dependendo da boa vontade de Liz por muito tempo. Mas como faria para pagar? Outra grande soma de dinheiro fora gasta há pouco para instalar um telefone e suas economias iam acabando depressa. Após comprar mantimentos e outros produtos de que necessitava para a casa, ficara com exatamente quinhentos e quarenta dólares no bolso. Se controlasse com cuidado cada centavo gasto, poderia manter a família por mais umas seis semanas.

- Sra. Simpson, o Sr. Brown vai recebê-la agora - avisou a secretária.

Tensa, Holly pegou a bolsa e dirigiu-se ao escritório que a secretária lhe indicava. O homem magro que se encontrava parado junto à escrivaninha abarrotada de papéis levantou-se ao vê-la entrar e estendeu-lhe a mão com um sorriso amistoso.

- Sou Ned Brown. Seja bem-vinda à nossa cidade. Fico feliz por ver que o desejo de sua avó acabou se tornando realidade. Cora sempre quis que você viesse morar aqui; vivia dizendo que este era o melhor lugar para você criar sua família.

- Acho que vovó tinha razão. Acredito que iremos ser muito felizes aqui. - "Se não morrermos de fome antes", ela acrescentou para si própria.

- Ótimo. Faço votos para que tudo dê certo. - Ele soltou a mão de Holly, indicou-lhe uma cadeira e sentou-se também. Depois afrouxou a gravata e abriu uma pasta que se encontrava à sua frente. - Vou colocá-la a par dos fatos. Você é a única herdeira dos bens de Cora Kensington, de acordo com o testamento que ela deixou. A escritura da casa foi passada para seu nome e isto é tudo. - Ele franziu a testa ao examinar um documento manuscrito de duas páginas que retirara de uma das pilhas de papéis. - Você era filha única?

- Era a única neta de minha avó. Ela teve duas filhas gêmeas, mas uma morreu logo após o nascimento. Mamãe faleceu quando eu era muito pequena e papai casou-se novamente dezesseis anos atrás. Tenho dois meio irmãos.

- Ah, sim. Agora eu me recordo. Parece-me que Cora não se entendia bem com sua madrasta, não é?

- Essa é uma maneira muito branda de se colocar a situação. Velda sabia ser bastante... Agressiva - Holly respondeu, concluindo que ela também amenizara a realidade. Velda era uma verdadeira bruxa.

- Você tem algum contato com ela?

- Não a vejo há cinco anos, desde o enterro de meu pai. Nós nunca nos demos muito bem. - Holly baixou os olhos, sabendo que continuava abrandando a situação. Provavelmente Velda havia sido o fator mais importante em sua decisão de casar-se tão cedo, mais até do que a gravidez inesperada. Fora uma maneira de fugir do ambiente pesado de sua casa, das intermináveis brigas entre seu pai e a madrasta. O casamento deles fora um pesadelo, do início ao fim.

Ned Brown recostou-se na cadeira e cruzou os braços, fitando Holly com ar especulativo.

- E seus meio irmãos? Você tem notícia deles?

- Não. Nem sei por onde andam.

- Ótimo. - Ele sorriu; visivelmente satisfeito com as respostas que obtivera. - Sua avó tinha algumas preocupações em relação a eles e a sua madrasta. Segundo palavras de Cora, eles não passavam de sanguessugas e ela queria ter certeza de que não se aproveitariam de você ou de sua situação aqui. - Ele tornou a juntar os papéis e fechou

a pasta. - Bem, isto era tudo que eu tinha a lhe dizer. Tem alguma dúvida quanto ao testamento?

- Não, suas cartas foram muito claras. - Holly baixou os olhos, com um súbito aperto na garganta. - Quero lhe agradecer pelo que fez por minha avó. O fato de saber que o senhor estava por perto para cuidar de tudo deu a ela muita paz de espírito no fim da vida.

- Foi um prazer. Cora Kensington era uma mulher extraordinária. - Ele ficou pensativo por alguns instantes, como que perdido nas lembranças, então bateu as mãos sobre a escrivaninha e levantou-se. - Se tiver mais alguma pergunta ou se eu puder ser útil de alguma forma, telefone. Annie tem alguns documentos para você assinar e... Ah, sim, há a questão do dinheiro que sua avó tinha no banco. Annie cuidará disso também; ela está com a lista de todas as despesas do inventário. Pelo que me recordo, não sobrou muita coisa. Creio que cerca de trezentos dólares.

Trezentos dólares! Para Holly, aquele dinheiro era muito importante e ela esforçou-se para não deixar transparecer a sensação de alívio. Juntando com os quinhentos dólares que lhe restavam, teria reservas para aproximadamente dois meses. Nesse meio tempo poderia encontrar algum emprego. Com isso, adiava um pouco mais o momento de enfrentar um futuro que lhe parecia assustador.

- Ah, mais uma coisa! - disse o advogado no momento em que ela abria a porta para sair. - Todas as contas pendentes foram pagas, mas os impostos sobre a casa vencem no próximo mês. Você poderá verificar a situação com a Sra. Townsend, no escritório imobiliário.

Holly sentiu o estômago revirar. Nem mesmo pensara em taxas.

- O senhor sabe qual a quantia aproximada?

- Não sei ao certo. Por volta de quinhentos ou seiscentos dólares. Não deve ser mais do que isso.

Quinhentos ou seiscentos dólares! Como arrumaria esse dinheiro? Chocada, ela forçou uma expressão impassível e procurou sorrir.

- Obrigada novamente, Sr. Brown.

- Às suas ordens. Fale com Annie antes de sair e assine os papéis.

Holly saiu da sala com dificuldade para respirar. Onde conseguiria tanto dinheiro?

Descobriu mais tarde que a quantia exata era seiscentos e vinte e três dólares, a serem pagos até o dia primeiro do mês seguinte, isto é, dali a dezessete dias. O rosto de Holly estava sem cor ao deixar o escritório imobiliário. A Sra. Townsend deixara bem claro que deveria pagar a quantia total; não aceitariam parcelamento algum. Queriam tudo, dentro de dezessete dias. O choque foi cedendo aos poucos e, ao chegar ao caminhão, Holly sentia-se à beira das lágrimas. Abriu a porta, esforçando-se para controlar o desespero. Como iria arrumar todo aquele dinheiro?

- Ei, moça, sabe que está com um pneu furado?

Holly virou-se na direção da voz. Três homens vestidos em roupas de trabalho haviam acabado de sair do café e estavam parados na calçada. Um deles indicava o pneu traseiro da direita.

Um quarto homem saiu do prédio e juntou-se aos demais. Mesmo sem fitá-lo, Holly podia sentir seus olhos sobre ela. Sentindo-se constrangida, desceu do caminhão e deu a volta no veículo para verificar o estrago.

- Se tiver um macaco, posso trocar o pneu para você. Não vai demorar nem cinco minutos - ofereceu o homem mais velho, que a alertara para o problema.

Holly virou-se para responder, mas sem querer seu olhar se prendeu ao do homem que se juntara ao grupo por último e ela sentiu-se ainda mais tímida e embaraçada. Ele aparentava trinta e poucos anos; era alto, vigoroso, com um rosto forte e masculino. Mas Holly mal reparou no físico dele. O que a impressionou de fato foi à intensidade magnética daquele olhar. Nunca experimentara algo parecido com a sensação atordoante de fitar

aqueles olhos azuis. Holly estremeceu com o estranho arrepio que lhe percorreu a espinha.

Sua momentânea paralisia foi abalada quando o rapaz mais jovem do grupo, que devia ter uns vinte anos, disse algo em voz baixa que levou dois de seus companheiros a rirem. Ele estava olhando para Holly e ela logo soube, pela maneira como o rapaz a observava, que havia feito algum comentário malicioso. Ruborizada, Holly sentiu-se numa espécie de flashback: reviu os colegas de rodeio de Derek aparecendo em sua casa uma madrugada, dirigindo-lhe comentários grosseiros e sugestões obscenas, enquanto Derek permanecia deitado no sofá, o chapéu sobre os olhos, excitando-se com as investidas dos vaqueiros bêbados sobre sua esposa. Isso acontecera duas semanas antes de ele morrer e Holly nunca se esqueceria de como se sentira envergonhada.

De repente, experimentava de novo a mesma terrível sensação. Com tantos problemas na cabeça, aquilo era mais do que podia suportar. Procurando conter as lágrimas de humilhação, apertou os lábios e abriu o capô do caminhão.

- Posso cuidar disto sozinha, obrigada - ela disse, friamente.

- Isso não é trabalho para uma mocinha bonita como você.

Ela virou-se para o homem mais velho, trêmula de indignação.

- O problema é meu e posso muito bem trocar este pneu, sozinha.

O homem dos magnéticos olhos azuis a encarou com uma expressão tão dura que fez Holly estremecer. Era evidente que ficara muito zangado com a atitude dela.

- No caso de você não ter notado, a oferta de Mike foi um ato de cortesia. Ele não teve qualquer intenção de ofendê-la. Mas se você está preocupada em defender ideias feministas, então se vire! - Ele ajeitou o boné na cabeça e voltou-se para os companheiros: - Vamos embora.

Enquanto os homens se afastavam, Holly mirava fixamente um ponto de ferrugem na lataria do caminhão, os olhos nublados de lágrimas. Sabia que havia agido como uma tola. Interpretara a situação de forma totalmente errada e acabara recebendo o troco. Tinha vontade de apoiar a cabeça nas mãos e chorar. Não agüentava mais tanta pressão. Queria desistir de tudo, parar de angustiar-se a cada dia com a incerteza de não saber como sustentar os filhos. Sentia-se arrasada e tinha ímpetos de abandonar aquela luta desesperada pela sobrevivência, mas sabia que não podia fazer isso.

Apertando os lábios com força, enxugou lentamente as lágrimas. Depois, arregaçou as mangas da blusa e pegou o macaco.

Holly parou junto à porta, com uma xícara de café na mão, recebendo no rosto os primeiros raios de sol da manhã que mal começara. A cidade ainda estava silenciosa e ela perma-

neceu vários minutos observando o céu escuro clarearem num azul-pálido, enquanto as nuvens no horizonte tingiam-se de vários tons, do laranja à púrpura. Era tão lindo o alvorecer!

Ela suspirou e levou a xícara até os lábios. Passara metade da noite fazendo contas, tentando achar uma solução para o problema do imposto, mas a situação não lhe oferecia muita esperança.

Qualquer possibilidade que examinasse, desde vender algumas das coisas da avó até cortar despesas, á levava a um fato que era evidente: não podia mais manter o caminhão. O seguro venceria em dois meses, os gastos com combustível não cabiam em seu orçamento e os freios necessitavam de regulagem. Vender o veículo seria uma atitude sensata e necessária. Não gostava da idéia, mas não tinha outra escolha.

Capítulo 3 Sentimentos

Ela afastou o cabelo do rosto e apoiou a cabeça na madeira fria da porta, com uma expressão desolada no olhar. Precisava estar sempre lembrando a si mesma os aspectos positivos de sua situação: a casa estava paga, as crianças tinham saúde e ela era capaz de trabalhar duro. Poderia ser pior.

Admirou o nascer do sol por mais alguns momentos e, então, seu olhar desviou-se para a rua tranqüila. A casa de sua avó era muito bem localizada. A rua em frente à

propriedade já fizera parte de uma auto-estrada, e, desde que a nova rodovia fora construída havia alguns anos, tornara-se a principal via de acesso à cidade. Não havia muitos sinais de desenvolvimento na região, dali à estrada de ferro: uma oficina reformada que exibia uma grande placa com os dizeres "O'Neil Veículos", um posto de gasolina, a velha estação ferroviária e um grande prédio que pertencia a um comerciante de implementos agrícolas. Mais para adiante, do outro lado dos trilhos, erguiam-se quatro enormes elevadores para grãos, que abasteciam os trens a caminho dos mercados consumidores.

Holly começava a se identificar com Jennings, uma típica cidade do sudoeste canadense, com a maior parte de sua economia baseada nas prósperas comunidades agrícolas que a cercavam. Era um lugar pequeno, com uma população gentil e hospitaleira, e contava ainda com a vantagem de ser próxima a uma cidade grande: Calgary ficava a apenas uma hora de viagem de carro, na direção sul.

As montanhas localizavam-se a pouca distância, e a paisagem da região era inacreditavelmente bela.

Uma vantagem extra era o fato de a casa ficar nos limites da cidade, com apenas duas outras residências ao norte dela. Nos fundos da propriedade havia uma depressão no terreno que formava uma divisão natural entre a cidade e os vários hectares de terra desabitada. Diversas árvores cresciam ao longo da borda da ravina e, no fundo dela, entre moitas de inúmeros matizes de verde, corria um fio de água, serpenteando sobre um leito rochoso.

Uma trilha estreita levava à propriedade do outro lado, e fora durante uma caminhada no primeiro dia em Jennings que Holly descobrira uma pequena casa de madeira meio escondida entre as árvores. Quando percebera que o local era habitado, decidira não avançar mais, embora se sentisse tentada. Era um lugar retirado e pitoresco, onde as plantas cresciam sem serem molestadas e flores silvestres espalhavam-se exuberantes. Havia também um laguinho, com suas águas cintilando ao sol quando a brisa suave lhe agitava a superfície. Holly ia com freqüência à ravina com os filhos e, enquanto as três criança brincavam, ela ficava sentada durante longos e silenciosos minutos sob uma enorme árvore, desfrutando a paz e a tranqüilidade que encontrara ali. Gostava de ir para lá principalmente ao alvorecer, quando o sol começava a surgir no céu e o lago ensombreado refletia as plantas molhadas de orvalho. Para ela, aquele ambiente era pura mágica.

O relógio de pêndulo bateu sete horas e Holly ouviu distraída o som melodioso, imaginando se as crianças demorariam a acordar. Há tanto tempo levantavam-se com ela ao romper da manhã que não costumavam mais dormir até muito mais tarde.

De fato, haviam enfrentado uma dura e ingrata rotina. Fora logo após Megan nascer que Derek, finalmente, arrumara um emprego fixo numa fazenda em Manitoba. Haviam se mudado para a casa apertada que era cedida aos trabalhadores locais assim que Holly saíra da maternidade. Por pior que fosse, era o primeiro lar de verdade que conseguiam ter.

Ela sentira-se tão esperançosa com o emprego, convencida de que Derek se daria bem ali.

Mas em seis meses ele já se desinteressara pelo trabalho e retornara aos eternos rodeios. As únicas ocasiões em que permanecia na fazenda eram durante o plantio e a colheita; no restante do tempo, a responsabilidade pelas tarefas recaía sobre Holly. Felizmente para ela e as crianças, Stan Rogers, seu patrão, não se importava muito com quem se encarregava do trabalho, desde que este fosse feito. Foi um tempo difícil, em que precisava levantar de madrugada para alimentar o gado, limpar os celeiros, recolher grãos, porém era a única maneira de garantir casa e comida para sua família. O salário mal dava para vestir e alimentar a todos, mas pelo menos conseguiam sobreviver, e era isso que importava para Holly.

Então, descobrira que Derek vinha dormindo com a esposa do patrão desde que haviam se mudado para lá e pensou que iria enlouquecer. Nunca se sentira tão amargurada em sua vida.

Quatro meses depois, Derek aparecera bêbado num rodeio e insistira em fazer sua prova de qualificação para a disputa num dos touros mais ferozes e rápidos que se en-contravam disponíveis.

Seu marido, que continuava perseguindo sonhos e apostando na sorte grande, fora atirado para longe do animal logo no início da prova e morrera em questão de segundos.

Stan permitira que ela ficasse na fazenda pelo menos até receber o pequeno seguro de vida a que tinha direito. Mas então ele descobrira sobre Derek e sua esposa e dissera a Holly, numa entrevista humilhante para ela, que dirigia uma fazenda e não uma casa de caridade e que ela tinha o prazo de um mês para sair de lá. Felizmente o seguro fora liberado dentro desse prazo, ou ela teria de partir sem um centavo no bolso.

- O que foi mamãe?

Holly virou-se e encontrou Trevor fitando-a com ar intrigado.

- Nada, querido - ela respondeu, sorrindo. - Só estava pensando.

- No papai?

- Sim, no seu pai - ela confirmou; um pouco hesitante. Observou o filho em silêncio, atenta. Ficara preocupada pelo fato de os meninos terem demonstrado tão pouco sofrimento pela morte do pai. Na verdade, Derek nunca havia sido duro com os garotos. Deixava que fizessem tudo o que tivessem vontade. Felizmente para Holly, Derek ficava tão pouco em casa que ela tivera oportunidade de contornar a excessiva permissividade dele, conseguindo que as crianças desenvolvessem um sólido senso de responsabilidade.

Megan, por outro lado, queria desesperadamente agradar o pai, embora ele sempre houvesse deixado bem claro que não a suportava. Vivia chamando a filha de bebê mimado e essa rejeição tornara a menina tímida e insegura. Era estranho como os sentimentos se desenvolviam, Holly pensou. Apesar de tudo, Megan era quem mais sentia falta do pai. Os meninos, principalmente Trevor, haviam reagido à morte de Derek com uma emoção semelhante a ódio, como se aquilo houvesse sido mais uma decisão do pai para aborrecê-los.

Holly entrou na sala, colocou a xícara sobre a mesa e agachou-se em frente ao filho.

- Você sente falta dele, Trevor?

- Não - o menino respondeu, sacudindo a cabeça e baixando os olhos.

- Não há nada de mal em conversar sobre isso - e pousou o queixo sobre as mãos.

- Não sinto falta dele, mamãe - Trevor repetiu, encarando-a. - Ele só fazia você sofrer e eu não suportava isso. - O garoto enxugou rapidamente uma lágrima antes de prosseguir: - Estou contente por termos mudado para cá. Ninguém vai rir de nós dizendo que temos um pai que só serve para se exibir em rodeios. Será muito melhor, mamãe.

- Não vai ser fácil, Trev - Holly murmurou, abraçando-o. - Haverá ocasiões em que não teremos muito dinheiro.

- Eu sei.

- Eu amo você, querido. - Ela o segurou mais algum momento depois se afastou e o encarou com uma expressão séria. - O que Ryan pensa de tudo isso?

- Ele pensa como eu. Dá um pouco de medo mudar para um lugar novo, mas é emocionante também. É como começar a ler um livro de aventuras: a gente nunca sabe o que vai acontecer. Quando a gente morava na fazenda, era sempre a mesma coisa.

- Bem, acho que este livro vai ser mesmo interessante - Holly comentou, sorrindo.

A tarde já chegava ao fim quando Holly resolveu fazer uma pausa no trabalho de limpeza e arrumação da casa. Deixou as crianças brincando no pátio e desceu a rua na direção da residência de Liz Crawford. Acabara de entrar no jardim e fechar o portão quando Eric surgiu pela porta lateral, seguido por outra pessoa.

Holly quase ficou sem ar ao reconhecer o estranho: era o mesmo homem que se zangara com ela na véspera, por causa do episódio com o pneu furado. Ela parou no mesmo instante constrangida. Por que não tivera o bom senso de manter a boca fechada? Prendendo a respiração, permaneceu imóvel, parcialmente escondida atrás das plantas, até os dois sumirem de vista. Só se arriscou a sair do lugar após ouvir o carro de Eric afastar-se. Encontrou Liz na cozinha, fazendo pão.

- Como vai, Holly? Há café fresco na garrafa térmica. Sirva-se e fique à vontade enquanto me conta o que Ned lhe disse ontem.

- Nada especial. Ele me chamou ao escritório porque eu precisava assinar alguns papéis - Holly contou, omitindo o problema dos impostos.

- Ned é um bom homem. Pode confiar na honestidade dele.

- Ele me pareceu simpático. - Ela tomou um gole de café e pousou a xícara sobre a mesa. Tentando disfarçar a ansiedade, respirou fundo antes de prosseguir: - Quero vender meu caminhão. Será que Eric sabe de alguém que possa estar interessado?

- Vender seu caminhão? Por quê?

- Eu não tenho condições de mantê-lo - Holly respondeu, procurando não demonstrar a real seriedade do problema. - Posso muito bem ficar sem ele.

Liz a fitou por um instante, depois suspirou e retomou o trabalho de amassar o pão.

- Tenho certeza de que Eric pode encontrar alguém que esteja interessado. Falarei com ele sobre isso.

- Obrigada. - Holly tomou mais um gole de café antes de fazer a pergunta que a incomodava desde que entrara na casa de Liz! - Eric estava saindo quando eu cheguei. Quem era o homem que estava com ele?

- Ah, sim! - Liz riu, com um brilho travesso nos olhos. - É Grady O'Neil, o proprietário da O'Neil Veículos, aquela oficina quase na frente da sua casa. O chalé de madeira naquela clareira do outro lado da ravina também é dele. É o homem mais sexy que eu já encontrei. Toda vez que o vejo sorrir fico com as pernas moles.

- É mesmo? - Holly perguntou, rindo. - E o que Eric acha dessa sua paixão?

- Ah, isso eu não sei. Mas ele vive dizendo a Grady que vai arrumar-lhe alguma garota só para mantê-lo longe da nossa cozinha! - Liz sorriu, espalhando mais farinha sobre a massa. - Eles se conhecem desde o tempo de escola e a O'Neil Veículos trabalha para a Construções Crawford em vários locais. Eric e Grady são grandes amigos.

Holly ouvia com uma aparência relaxada, mas por dentro sentia-se cada vez mais tensa. Ele trabalhava em frente á casa dela, vivia atrás de sua propriedade. Estava cercada por esse homem que fazia as pernas de Liz amolecer e pensava que ela era uma feminista idiota. Mais dias menos dia acabariam se encontrando e essa idéia não a agradava nem um pouco.

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