Quando acordei, o cheiro de desinfetante no hospital lembrava-me da perda que acabara de sofrer.
O nosso bebé, que esperei com tanto amor, tinha-se ido.
A enfermeira disse que o Leo, o meu marido, estava preso no trânsito devido às cheias, mas viria assim que pudesse.
Mas as notícias na TV mostravam inundações históricas na Baixa, quilómetros de distância.
O Leo não estava preso no trânsito.
Ele estava com a Sofia, a sua ex-namorada.
Quando finalmente o contactei, ouvi a voz dela, suave e chorosa, no fundo, e o pai dele, o Sr. Matias, a tranquilizá-la.
«Ocupado, Leo? Ocupado a consolar a tua ex-namorada enquanto a tua mulher perde o vosso filho?»
Ele disse que ela estava em perigo, que a casa dela tinha inundado.
«E eu não, Leo? Eu estava a sangrar, o nosso filho estava a morrer!»
«Divórcio? Estás a brincar comigo? Por causa disto? Ela não tinha mais ninguém!»
Desliguei, e ele bloqueou-me.
Ninguém da minha família acreditou em mim; o meu pai disse que eu era egoísta.
Para eles, eu era a vilã.
A Sofia enviou-me um email, dizendo que a culpa era dela, manipulando-me para parecer a irracional.
Então, isto era uma guerra.
Se eles queriam uma vilã, eu dar-lhes-ia uma.
Eu ia conseguir o meu divórcio.
E o Leo pagaria por cada lágrima que derramei, por cada pedaço do meu coração que ele partiu.
Quando acordei, o cheiro de desinfetante encheu as minhas narinas, uma lembrança fria do que tinha acabado de acontecer.
A enfermeira, com uma expressão simpática, verificava o meu soro.
"Você é a Eva, certo? O seu marido, o Leo, ligou. Disse que estava preso no trânsito por causa da inundação, mas que viria assim que pudesse."
Trânsito?
Olhei para o ecrã da televisão pendurado na parede do quarto do hospital, que transmitia as notícias urgentes.
"Inundações históricas em Lisboa: o bairro da Baixa está completamente submerso, equipas de resgate lutam para salvar os residentes presos."
O meu coração afundou-se.
Eu sabia que o Leo não estava preso no trânsito.
Ele estava com a Sofia, a sua ex-namorada.
Peguei no meu telemóvel com as mãos a tremer. A minha barriga, antes redonda e cheia de vida, estava agora vazia, uma dor oca que ecoava por todo o meu ser.
O nosso bebé, que esperei com tanto amor, tinha-se ido.
Disquei o número do Leo. Chamou, chamou, e quando estava prestes a desistir, ele atendeu.
A sua voz soava distante e irritada.
"Eva? O que se passa? Estou muito ocupado agora, não posso falar."
Ao fundo, ouvi a voz suave e chorosa da Sofia.
"Leo, o meu pé dói tanto... e o Pompom está tão assustado, não para de tremer."
Pompom era o seu cão.
A voz do meu sogro, o Sr. Matias, soou a seguir, cheia de uma preocupação que ele nunca me mostrou.
"Não te preocupes, Sofia. O Leo está aqui. Ele vai cuidar de tudo. Já chamei um amigo veterinário para o Pompom."
Uma risada amarga escapou-me.
"Ocupado, Leo? Ocupado a consolar a tua ex-namorada enquanto a tua mulher perde o vosso filho?"
Houve um silêncio do outro lado, pesado e culpado.
"Eva, não é o que parece," ele finalmente disse, a sua voz agora mais baixa. "A Sofia estava presa, a casa dela inundou. Eu tinha de a ajudar. Tu estavas no hospital, segura."
Segura? Eu estava a sangrar, o nosso filho estava a morrer, e ele achava que eu estava segura?
"Leo," eu disse, a minha voz fria e sem emoção. "Quero o divórcio."
A raiva explodiu do outro lado da linha.
"Divórcio? Estás a brincar comigo? Por causa disto? A Sofia estava em perigo de vida! Não tens um pingo de compaixão? Depois de tudo o que ela passou?"
Tudo o que ela passou? E eu? E o nosso filho?
"Ela não tinha mais ninguém, Eva! Eu era a única pessoa a quem ela podia recorrer!"
As lágrimas que eu segurava com força ameaçaram cair, mas eu recusei-me a deixá-las sair.
"Então fica com ela. Fica com a tua preciosa Sofia e o seu cão. Mas eu e tu, acabámos."
Desliguei antes que ele pudesse responder.
Tentei ligar novamente, só para descobrir que ele me tinha bloqueado.
Claro que tinha.
O telemóvel escorregou da minha mão e caiu no chão com um baque surdo.
Ele tinha razão sobre uma coisa. Se o nosso bebé ainda estivesse aqui, eu talvez hesitasse. Teria lutado por uma família completa, por ele.
Mas agora, não havia mais nada para lutar. A única coisa que nos unia tinha sido arrancada de mim.
Ficar com o Leo agora seria apenas um lembrete constante da minha perda, da sua traição.
E a desculpa dele era tão fraca. A casa da Sofia ficava no Restelo, a quilómetros de distância da zona da inundação na Baixa. Ele não foi "ajudá-la no caminho". Ele escolheu ir para lá.
Ele escolheu-a a ela em vez de mim. Em vez do nosso filho.
Enquanto eu estava perdida nos meus pensamentos, o meu telemóvel tocou. Era o meu pai.
Hesitei, mas atendi. Talvez ele me oferecesse algum conforto.
Enganei-me.
"Eva! O que é esta história de divórcio? A mãe do Leo acabou de me ligar, em pânico! Como podes ser tão egoísta? O Leo estava a ajudar uma alma em apuros! Foi isso que te ensinei? A ser tão insensível?"
A sua voz era dura, cheia de desapontamento.
"Pai, eu perdi o bebé."
A minha voz era um sussurro.
Houve uma pausa. Por um momento, pensei ter ouvido um pingo de tristeza.
"Eu sei, e lamento por isso. Mas isso não é desculpa para agires de forma irracional. O casamento é um compromisso. Tu e o Leo vão superar isto. Agora, liga à mãe dele e pede desculpa por a teres preocupado."
E com isso, ele também desligou.
Fiquei a olhar para o telemóvel, sentindo-me completamente sozinha no mundo.
Ninguém estava do meu lado.
Para eles, eu era a vilã. A mulher irracional e insensível.
E a Sofia? Ela era a vítima. A pobre e indefesa Sofia.
Uma raiva fria começou a crescer dentro de mim, substituindo a dor.
Se eles queriam uma vilã, então eu seria uma.
Eu ia conseguir o meu divórcio. E ia certificar-me de que o Leo pagava por cada lágrima que eu derramei, por cada pedaço do meu coração que ele partiu.
Esta era a minha promessa.
Dois dias depois, recebi alta do hospital.
Ninguém da família do Leo veio buscar-me. Nem o meu próprio pai.
Tive de chamar um táxi para casa.
A casa estava silenciosa e vazia, exatamente como eu a tinha deixado.
Mas agora, o silêncio parecia esmagador.
Fui diretamente para o nosso quarto e comecei a fazer as minhas malas.
Dobrei as minhas roupas com movimentos mecânicos, os meus pensamentos focados num único objetivo: sair.
Enquanto esvaziava a minha gaveta da mesinha de cabeceira, os meus dedos tocaram num pequeno álbum de fotos.
Abri-o. Eram as ecografias do nosso bebé.
A primeira, apenas um pequeno ponto. A última, há apenas duas semanas, mostrava um perfil perfeito.
Uma onda de dor atingiu-me com tanta força que tive de me sentar na cama.
Foi nesse momento que o Leo entrou.
Ele parecia cansado, com olheiras debaixo dos olhos. Mas quando viu as malas abertas na cama, a sua expressão endureceu.
"O que estás a fazer?"
"O que te parece?" respondi, a minha voz desprovida de emoção. "Estou a ir-me embora."
Ele suspirou, um som longo e exasperado, como se eu fosse uma criança a fazer uma birra.
"Eva, já não falámos sobre isto? Estás a ser dramática. Eu cometi um erro. Estava em pânico. A Sofia precisava de mim."
"E eu não?" perguntei, finalmente olhando para ele. "O nosso filho não precisava de ti?"
Ele desviou o olhar, incapaz de me encarar.
"Claro que precisavas. Mas tu estavas no hospital, com médicos. A Sofia estava sozinha."
"Ela não estava sozinha," eu disse, a minha voz a subir. "Ela tinha o teu pai. Ela tinha o cão dela. E o mais importante, ela tinha-te a ti."
Ele passou as mãos pelo cabelo, um gesto de frustração.
"Eva, por favor. Vamos ser razoáveis. Perder o bebé foi terrível. Para nós os dois. Mas o divórcio não o vai trazer de volta. Só vai piorar as coisas."
"Piorar as coisas para quem, Leo? Para ti?"
"Para nós! Para a nossa família! A minha mãe está doente de preocupação. O teu pai está desapontado contigo."
Ele aproximou-se, tentando pegar na minha mão, mas eu afastei-me.
"Não me toques."
A sua expressão mudou de frustração para raiva.
"Para de agir como uma mártir! Achas que és a única que está a sofrer? Eu também perdi um filho! Mas não estou a usar isso como desculpa para destruir a nossa vida!"
A crueldade das suas palavras deixou-me sem fôlego.
"Usar como desculpa?" repeti, incrédula. "Tu abandonaste-me! Deixaste-me passar pela pior experiência da minha vida sozinha para ires salvar a tua ex-namorada!"
"Eu não te abandonei! Eu fiz uma escolha difícil numa situação impossível!"
"Não," eu disse, levantando-me, a minha voz agora firme e clara. "Tu fizeste uma escolha fácil. Escolheste-a a ela. Sempre a escolheste a ela."
Peguei na minha mala e dirigi-me para a porta.
Ele bloqueou-me o caminho.
"Tu não vais a lado nenhum. Esta é a tua casa."
"Não é mais," eu disse, olhando-o nos olhos. "Amanhã, o meu advogado vai entrar em contacto contigo."
Tentei contorná-lo, mas ele agarrou-me o braço.
"Tu não me vais fazer isto, Eva. Eu não vou permitir."
"Larga-me, Leo."
"Nós vamos resolver isto. Como um casal."
A sua insistência, a sua recusa em aceitar a minha decisão, só alimentou a minha determinação.
"Não há nada para resolver," eu disse, puxando o meu braço com força. "Acabou."
Saí do quarto e bati a porta atrás de mim.
Ouvi-o gritar o meu nome, mas não parei.
Desci as escadas, saí pela porta da frente e não olhei para trás.